14 março 2013

se te podes matar, porque não te matas?...

Há dias, o Eduardo Pitta citava Eugénio Lisboa no Da Literatura:

Há por aí menino que já se permite ousar tudo ou quase tudo: com passinhos de lã, a pouco e pouco, para não doer tudo de uma só vez, uma palavra aqui, outra acolá, vão-se estes, que nos legislam e governam, aproximando de dizer o inefável — que os idosos estão a mais, que custam demasiado, que empatam e impedem, só por existirem, a felicidade urgente dos mais novos... Primeiro, com alguma “delicadeza”, depois, com muito mais afoiteza, chega-se a isto: os idosos são afinal uma intolerável “peste grisalha”.

Fiquei a pensar nesta frase. A análise vem de encontro a uma intuição minha: num mundo em crise económica, que vive no endeusamento da eterna juventude, e com fundos cada vez mais limitados para os sistemas públicos de saúde, não há lugar para os velhos improdutivos e doentes. Se a eutanásia for permitida, como impedir os mais idosos de se sentirem quase convidados a desaparecer sem alarde por essa via?

Infelizmente, já temos outros exemplos das consequências perversas de medidas que vimos como melhorias. Por exemplo: sendo possível investigar o cromossoma 21 antes do nascimento, e sendo possível abortar por esse motivo, as mães que decidem levar a gravidez até ao fim podem ser vítimas de acusações cruéis, porque "isso (ver aqui o dedo esticado na direcção de uma criança com síndrome de Down) já se pode evitar".

Hoje, quando tanto se critica o novo Papa por ser contra a eutanásia, volto ao texto do Eugénio Lisboa. Talvez seja uma benção para as nossas sociedades haver alguém que nos obrigue a pensar mais sobre este assunto. Não é uma questão de permitir ou proibir a eutanásia - é o caminho e o contexto: que motivos levam uma pessoa idosa a querer morrer? está a decidir em plena liberdade, ou a ser mais ou menos pressionada por uma sociedade que de múltiplas formas a faz sentir-se um "peso morto"? a sociedade que lhe faculta ajuda para morrer assume sem qualquer margem para dúvidas a responsabilidade de lhe mostrar que a sua existência não é facultativa, e de lhe dar os meios para querer continuar viva?

16 comentários:

Rita Maria disse...

É uma reflexão bonita e bem lançada, digo eu de que.

(e vou pensar nisso)(mas não sem antes frisar que a retórica oficial também não anda exactamente com os jovens nas palminhas...acho que é uma espécie de procura constante do elo mais fraco)

Helena disse...

Ena, viram todos?!
A Rita elogiou um post meu!
Aaaaah!

É verdade, sim. Aos velhos dá-se a eutanásia, e aos jovens ajuda à emigração. Quem ficará aí para fechar a porta?

Rita Maria disse...

Quem fica é o aparelho produtivo, pois claro!

PS: Credo, elogio imeeeennnnsos posts teus. As únicas excepções são:
1. A Merkel/ a crise.
2. O post diário sobre o que foste ver à Filarmonia e como foi excepcional - mas diz que é tudo inveja :)

Helena disse...

O aparelho produtivo, enquanto produzir por um salário de miséria.

PS. :)
(anotado. Nunca mais escrevo filarmonia num post meu. No máximo, "aquela palavra que a Rita não me deixa dizer e começa por F")

m. disse...

Mas, mesmo sem a eutanásia ser permitida, como impedir que os mais idosos (ou os mais jovens mas igualmente classificados como improdutivos e com a mesma probabilidade de se sentirem um peso morto) de se sentirem quase convidados a desaparecer pela via do suicídio não assistido?

snowgaze disse...

Eu faco o teste: "e se fosse eu?". E se fosse eu, com uma doença incurável, degenerativa, a sofrer horrores, acamada, sem me poder mexer, ou sem poder sair de um quarto, sem poder ir 'a casa de banho ou tomar um duche.
Ninguem me pode impedir de me eutanasiar (:))enquanto tiver todas as minhas faculdades físicas e mentais (ou seja, enquanto não tenho interesse nenhuma numa coisa dessas), mas e se um dia eu achar que e' o melhor para mim, e não me deixarem - porque não serei capaz de o fazer sem ajuda. E então?

Helena disse...

m.,
pois - esse é o caminho mais difícil. Mas que temos de fazer. Por exemplo, protestando contra o discurso da produtividade (como fez Eugénio Lisboa). Ou contra o discurso da juventude e do consumo.
A vida humana vale mais do que apenas isso.

snowgaze,
bem sei, bem conheço esses casos. Mas também há os outros: os que têm depressão, por exemplo, e em vez de serem ajudados são postos perante uma porta aberta: "se quiser, pode ir por ali".
Só que ajudar pessoas idosas a atravessar dignamente essa fase tão difícil da vida exige muito tempo, muita atenção. E quem está em condições de a dar? Como é que a sociedade se organiza para não deixar estas pessoas entregues a si próprias?
Custa tempo, dinheiro, paciência e dedicação. É muito mais fácil autorizar a eutanásia e dar-lhes a liberdade de decidir...

Depois, há uma entrevista que não esqueço - e foi já há uns anos, na Stern. A filha ia levar a mãe à Suíça, porque a mãe tinha uma doença degenerativa e não queria ficar dependente da filha (para mudar fraldas, por exemplo). Marcou o dia para morrer, marcou a viagem. A filha chorava, dizia que queria retribuir o que a mãe lhe dera quando era ela a dependente, e perguntava: "de que é que vamos falar durante toda essa viagem?"
Para os que ficam também é terrível, porque de algum modo sentem que falharam no acompanhamento dessa pessoa - não lhe deram a segurança suficiente para ela pensar que vale a pena continuar viva.

sem-se-ver disse...

eu quero que me matem, claro que quero.

e se não tiver quem me ame ao ponto de me sufocar com uma almofada, que seja pelo menos alguém compassivo por uma situação que não desejo - ser velha, sendo um fardo para mim mesma, por o ser.

Helena disse...

sem-se-ver,
uma amiga minha, a caminho dos 80, dizia-me há tempos que é preciso muita coragem para envelhecer. Mais do que o próprio corpo que nos atraiçoa - é sentir a "ceifeira" cada vez mais perto, cada vez mais perto. Os amigos vão morrendo, tantos. E nós cada vez mais sozinhos.

Não quero que me matem.
Muito menos quero pedir a alguém que me mate - muito menos a alguém que me ama. Não posso pedir isso àqueles que amo. Não lhes posso fazer isso.
Penso muito naquela mulher que levou a mãe a morrer na data combinada. A mãe que não queria ficar dependente da filha para mudar as fraldas.
Se eu tivesse de levar alguém para a morte porque essa pessoa não me queria dar trabalho, olha, nem queiras saber o chorrilho de palavrões que lhe diria durante toda a viagem...

Rita Maria disse...

Eu acho que quero muito, se possível, ser velha. Descansar das batalhas da vida de cabeça erguida, viver o declínio do corpo como um dia vivi o seu florescer, de preferência com mais consciência, conhecer o descanso, a dor, a degenerescência, a sabedoria se houver alguma. Ser digna nesta fase por mim, por existir, que a minha dignidade não é o meu intelecto, nem a minha capacidade produtiva, a minha dignidade é um valor absoluto. Conhecer, se tudo correr muito bem, a dependência de pessoas que não me façam sentir um fardo, como não fizeram quando fui dependente da última vez, era criança, como não fizeram ontem quando estava doente.

Acho que um mundo em que alguém que não queira viver esta experiência possa escolher não tê-la é um mundo melhor - a liberdade de escolher o suicídio é um outro lado da moeda sem o qual a escolha da vida não faz sentido, e uma pessoa doente, que não possa suicidar-se, não pode ser ainda menos livre, menos livre nessa escolha também, já chega a doença.

Mas um mundo em que alguém se sinta culpado por querer um dia ser velho, um sociedade em que eu sentisse que esse peso era demasiado grande para impor a outros, um dia em que no discurso público fizessem do meu direito a estar viva apenas um peso na vida dos outros, onde outras pessoas discutissem também se devia ou não mandar-me matar, é um mundo cruel, ingrato, desumano e onde não valerá realmente a pena estar vivo.

Se for uma opção, verdadeiramente livre, que possa ser escolhida com dignidade, eu aceito em determinadas circunstâncias e mediante algumas condições que faça sentido. Mas é preciso impedir, a todo o custo, que seja uma opção para onde são empurrados os mais fracos.

Rita Maria disse...

(não estou a idealizar, não imagino que a velhice seja fácil. Mas parece-me que é uma fase essencial, como a adolescência, da experiência humana)

Helena disse...

Rita,
gostei muito do que escreveste. Concordo com quase tudo. Gostei especialmente do final.

Só tenho alguma dificuldade com essa história da liberdade de escolher o suicídio, e sobretudo com a sociedade considerar isso algo natural. Preferia que a sociedade e a envolvente mais próxima dessa pessoa dessem sinais de solidariedade, atenção e cuidado, em vez desta indiferença mascarada de respeito pela liberdade individual.

Há tempos li uma conversa sobre isso, entre um jornalista que acompanhara o irmão na eutanásia e um filósofo. O jornalista dizia "respeitei a vontade do meu irmão" e o filósofo respondia "mas era preciso ter deixado bem claro que não concorda, que sente a sua partida como uma terrível perda e um fracasso pessoal seu". Ou algo do género.

Rita Maria disse...

Eu estou de acordo com metade (imaginando a eutanásia e não o suicídio, que costuma ser privado e não conversado com terceiros anteriormente): era preciso deixar claro que não concorda, que sentirá a falta e a perda, que o amava, que apreciava a sua companhia, que não o sentia como um fardo - sim. Era preciso explicar que sentia isso como um fracasso pessoal - acho que não. O sofrimento é da outra pessoa, não é meu, e eu não tenho o direito de a tentar fazer culpada por o meu amor não lhe chegar em comparação com esse sofrimento.

É um balanço delicadíssimo, claro, até porque é difícil não transformar tudo em 'coisas sobre nós' quando a nossa perspectiva é isso mesmo - a nossa. A revolução heliocêntrica é cheia de desafios...

(para clarificar a minha posição, eu não tenho certeza nenhuma da eutanásia, nem de como poderia ser implementada...)

sem-se-ver disse...

olá.

pois eu tenho todas as certezas sobre a eutanásia, e de com devia ser implementada.

totalmente de acordo - respeitar o sofrimento do outro, ok? falhanço em quê? se outro quer morrer e tem todo o direito a assim o querer, porque o tenho de sentir como falhanço? ficarei triste? imenso. darei com a cabeça nas paredes a pensar o que poderia ter feito para tentar inverter tal decisão? sem dúvida. mas, se amo, se gosto, respeito. não fui eu que falhei. o outro é que tem direito a falhar a sua vida , ou a sentir-se falhado por ela. é tudo demasiado intimo e importante para cedermos a instintos proteccionistas ou evangelizadores.

CLARO QUE isto nada tem a ver com o teu post, que é sobre ser 'uma opção para onde são empurrados os mais fracos'. um horror, um escândalo, inominável.

mas não foi esse o sentido do meu primeiro comentário, como sabes.

por outro lado, eu não disse que pediria :) mas, se me conhecessem, soubessem que essa era a minha vontade, e me amassem deveras, fá-lo-iam, por mim.

porque o filme 'amor' se chama assim? porque foi amor, e por amor, que ele a matou. repito: quem me dera a mesma sorte.

e ainda: sim, gostaria de encontrar alguém, na vida, com quem pudesse fazer esse pacto, ou essa combinação, ou esse pedido, pelo menos - em casos extremos de decadência, doença ou sofrimento, estando eu impossibilitada de me matar pelos meus próprios meios, me ajudasse a fazê-lo, ou directa, ou indirectamanete (levando-me a clínicas de morte assistida).

remato: tudo isto é uma certa tergiversão do tema, ou melhor, da abordagem do tema do teu post. sei-o, e peço desculpa se fui mal entendida :)

Helena disse...

sem-se-ver, uma coisa te digo: se for eu a levar-te à tal clínica, hei-de dizer-te tantas e tão poucas pelo caminho que tu vais chegar lá mortinha por morrer. Vais ver. ;-)

Talvez eu esteja a projectar o meu optimismo e os meus valores morais no debate que acontece aqui na caixa de comentários. Mas não consigo fazer de outra maneira.

Não quero que os meus filhos fiquem a bater com a cabeça nas paredes a pensar o que podiam ter feito para inverter a minha decisão.
Mas a verdade é que não me imagino numa situação de tal modo intolerável que sinta a morte como libertação. E depois, se lá chegar, a essa situação insuportável, logo se vê. (Sim, eu sei: não é com gente como eu que a Humanidade avança com passos claros e assumidos...)

Por outro lado (ó pra mim a dar o dito por não dito) sei de um homem já bem velhinho, viúvo, que decidiu que não valia mais a pena, e simplesmente deixou de comer. É verdade que já estava bastante debilitado - não foi uma greve de fome de um mês, foram dois dias. Despediu-se da família e preparou-se para morrer. Os filhos respeitaram: não o mandaram para um hospital.
Isto lembra-me uma passagem de um livro sobre a História da Morte: na Idade Média, a pessoa pressentia a sua morte, virava-se para a parede, e deixava-se morrer. Também é preciso aceitar que esse momento chega.

sem-se-ver disse...

(malditas gralhas)