18 dezembro 2012

o sublime e o boçal


(foto roubada no facebook da Sol Gabetta - um autêntico caso de "olha eu ali, mesmo atrás da Hélène Grimaud")

Não esperem de mim que diga que o concerto de ontem da Hélène Grimaud e da Sol Gabetta foi sublime - não esperem de mim que chova no molhado.
Mas pronto, eu chovo: foi sublime, especialmente a sonata op. 38 de Brahms, em particular o segundo andamento.



O que foi também extraordinário:

- o primeiro encore, Ernest Bloch (e a Hélène Grimaud a esculpir-se sobre o piano nos acordes finais)



- o segundo encore, Rachmaninov



- por sorte a Hélène Grimaud leu este blogue e desta vez trouxe uma bandolete a segurar o cabelo. E depois do intervalo até vinha de rabo-de-cavalo. Querido Pai Natal, este ano não precisas de me trazer mais presentes.

E a tanto sublime, como responde o público? Com um extraordinário ataque de boçalidade. Parecia que estavam combinados. De deitar as mãos à cabeça: não apenas as tosses aqui e ali a cortar a música, sobretudo nos momentos mais leves - muito mais que isso, o trovejar de tosse e catarro por toda a sala nas pausas entre andamentos; um "juuuuh!" seguido de ovação a meio de uma peça (como se a Grimaud e a Gabetta tivessem acabado de marcar um golo). E o mais inacreditável foi um senhor do público a escarrar os pulmões a preceito, com exclamações de alívio e tudo, e a Hélène Grimaud a virar a cabeça por cima do ombro, procurando o autor de tal sinfonia com uma expressão chocada, "mais qu'est-ce que c'est ça?!!!"
Foi uma sorte não terem parado ali mesmo.
No fim das peças saíam do palco de mão dada, em sorrisos e cochichos. Imagino o que diriam de nós do lado de lá da porta...


ADENDA - o concerto completo, aqui:

4 comentários:

calita disse...

E eu a pensar que esse tipo de boçalidade era tipicamente portuguesa...

Paulo disse...

Como dizes que estás lá, eu acredito. Mas é uma espécie de "onde está o Wally?".

(Quanto às tosses e demais desconchavos, a Filarmonia devia estar cheia de turistas portugueses, não?)

Helena disse...

Paulo, procura o Jorge no meio da 6ª fila - tem as mãos levantadas, com os binóculos. A seguir, para a direita, vês a Inês, de camisola vermelha, a aplaudir como deve ser. À direita dela estou eu, a aplaudir e a dizer alguma coisa ao Joachim. Ao meu lado, obviamente, o Joachim.

Paulo disse...

Ah bom, assim foi facílimo.