07 setembro 2012

espírito académico x saber de experiência feito

Bruxelas quer mais licenciaturas como a de Relvas, diz o Sol.
Que mais irá me acontecer?, pergunto eu. (E mais uma vez lamento a falta de seriedade dos jornalistas que inventam títulos destes. Que diabo: a vida não é uma revista à portuguesa, e o tema é demasiado sério para ser arrelvasado!)

Porquê dar um título académico a pessoas que não frequentaram a universidade? Porque não inventar outro nome para lhes reconhecer a experiência profissional? Podíamos ter licenciados e, por exemplo, emeritados (talvez precise de pensar mais uns cinco minutinhos para arranjar um nome melhor). 


Se tivesse meios para isso, abria agora uma universidade privada que só daria a licenciatura a quem frequentou aulas de exigente currículo, estudou com profundidade a sua área de saber e lhe discutiu os métodos, fez vários trabalhos de investigação e participou em debates intensos com os professores e os colegas.
Que nome lhe daria: Universidade Antiga? Utopiversidade? Pequenaldeiagaulesa?


No fundo, a questão que se coloca é: o que é a universidade? Qual é o lugar da universidade no futuro? O que significa ter um título académico? A universidade é um lugar onde se vai aprender uma ferramenta e uma profissão, ou onde se pratica o pensamento com profundidade e a investigação colegial?

(Arrelvasando a questão: porque não distinguir nos títulos concedidos pela Universidade - que são, no fundo, uma validação concreta - um título académico para os que verdadeiramente estudaram, e outro, o da via profissional, digamos assim, para as pessoas que só se lembram de concluir o curso aos 37 anos ou os que, em vez de estudar, preferem cair logo na vida real e acumular experiência prática?) (desculpem, foi um momento de fraqueza, já passa)

***

O semanário Die Zeit trazia em fins de Julho passado um artigo de Heinz-Elmar Tenorth com o título "ainda precisamos da universidade?" Trata-se da versão resumida de um trabalho apresentado na Junge Akademie der Berlin-Brandenburgischen Akademie der Wissenschaften e na Leopoldina.  Questiona a especificidade do papel da universidade hoje em dia (transmissão de saber, investigação, validação - e lembra que a validação é o último bastião da universidade, e mesmo esse está prestes a ser perdido devido à pressão das instituições concorrentes). Traduzo (muito, muito apressadamente, já se sabe) a última parte do artigo:

O que podemos prometer e esperar para lá do quotidiano da formação académica e de uma investigação correcta e normal? 
Antes de mais, uma forma de vida específica, autónoma, sustentada pela comunidade de professores e alunos (societas magistrorum et scholarium), orientada pelo imperativo da investigação, organizada por temas e métodos, e financiada de tal modo que a única preocupação de cada um dos seus membros é tornar-se, na sua área de saber, o melhor de todos. Na sua praxis é naturalmente uma torre de marfim, um parque de jogos intelectual, um laboratório de ideias - também na área de Humanidades-, em concorrência e cooperação permanente com os outros institutos similares.

A universidade é indispensável para o recrutamento de elites de todo o tipo, porque não nos faltam experts, o que nos falta são experts com uma sólida formação, esses que são capazes de enfrentar um futuro desconhecido, e por isso se têm de sujeitar ao crivo dos mais elevados standards.

É um espaço de aprendizagem sem limitações de tempo, organizado simultaneamente de forma individual e colectiva, ou seja: impossível, no fundo. Ou, como nos textos de Humboldt que agora poderia citar, um mundo entre ideia e realidade, em "solidão e liberdade".

Por isso, devemos também ser realistas: a universidade nunca vai existir assim como instituição - porque havia o Estado de financiar tal coisa? A não ser que o Estado saiba que há luxos que são necessários quando as expectativas são extraordinárias - sobretudo no que diz respeito à construção de experts capazes de reflexão, à formação através da Ciência, e também à descoberta do que é novo ou ao uso sistemático das diferenças geracionais para a crítica do conhecido e contra o poder paralisante do que é velho. 

Mas esta universidade só se tornará uma ideia reguladora no quotidiano do sistema de ensino superior se pessoas e problemas, soluções e contextos forem capazes de se unir de forma produtiva, podíamos até dizer: como guerrilheiros ("Partisanen") - à semelhança do que aconteceu em 1810 em Berlim (pelo que sabemos que o encantamento não é eterno). Mas podemos tentar - agora mesmo, no seminário, na aula, no laboratório: o primeiro passo é que conta.

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"Bruxelas quer", diz o artigo. Mas será que Bruxelas quer, pode e manda?
Não tenho conhecimento disso, mas espero sinceramente que as universidades da Europa já estejam unidas num debate sobre o sentido e o conteúdo de um título académico, que é afinal a questão do sentido e do conteúdo da própria universidade.

5 comentários:

António P. disse...

Bom dia Helena,
Eu cá estou como o outro:
"Um "canudo" é apenas cum certificado de habilitações e não um certificado de inteligência".
Mas que o homem já entrou no anedotáio nacional, mesmo europeu, lá isso entrou.
Bom fim de semana

Helena disse...

António,
o problema é que a universidade se está a confundir cada vez mais com o seu "canudo". E o pior é que parece que Bruxelas também não conhece muito bem a diferença.

Penso que a licenciatura não devia ser um certificado de habilitações nem de inteligência, mas um bocado como o dia do casamento: marcando o compromisso para uma certa maneira de estar na vida.

António P. disse...

Até gosto da sua proposta de definição de Universidade, Helena...se bem que o compromisso no dia do casamento nem sempre termine bem:)

Helena disse...

Pois não, António.
Pelo que se pode inventar um novo slogan: "licenciado: um compromisso indissolúvel para toda a vida!"
;-)

jj.amarante disse...

É para defenderem este tipo de teses de conveniência que os vários grupos económicos estão dispostos a suportar as perdas de manter em funcionamento uma boa parte dos órgãos de comunicação social.