12 junho 2012

raízes



Era Verão, andaria eu talvez pelo terceiro ano da Faculdade, e um grupo de amigos juntou-se na casa da minha avó, numa aldeia minhota. Lembro-me de muitos risos. De nos deitarmos no terreiro, a seguir ao jantar, de só haver estrelas à nossa volta. De nos estendermos preguiçosamente numa clareira de dunas na praia a ler poemas em voz alta. Os poemas que na época nos falavam: "adeus" e "poema à mãe" do Eugénio de Andrade, toda a Sophia.

Depois acabámos os cursos, foi cada um ao seu trabalho, à sua vida, a poemas e autores novos, outros.

Há alguns meses, uma dessas amigas esteve uns dias em Berlim. Ao passear com ela no Outono do parque dos palácios de Potsdam, ao vê-la fotografar os dragões do pagode chinês para mostrar a uma miúda que conheço desde que nasceu e é fervorosa adepta do FCP, ao ouvir a sua rendição incondicional "tenho de reconhecer que há momentos de sublime que são verdade!", voltei quase trinta anos atrás, àquelas dunas na Foz do Neiva. Senti um borbulhar de felicidade pela vida que desde sempre tocou de sublime as nossas histórias entrelaçadas, e uma enorme gratidão por estas raízes fundas na minha terra que me sustentam nos confins do mundo.

Os poemas mudaram. Hoje fui apresentada a este:

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

Hélia Correia, A Terceira Miséria, 2012


Novos temas. Já não temos vinte anos. O que permanece: a exigência - a capacidade de se maravilhar - a confiança no poder transformador das nossas mãos - o riso - - -
(A.P.: queres continuar a lista?)


2 comentários:

Carla R. disse...

Tão lindo este post. Essas raizes. Tão "dedo na ferida" este novo poema.
...
Momento para um suspiro.
(porque é que, de vez em quando, venho aqui e apetece-me dizer obrigada pelo que li?)

E agora mais uma pergunta que me intriga : Mas vens do Minho ou vens do Alentejo ?
Há aqui uma parte das tuas raizes que me escapa, confesso.

Helena disse...

Carla,
isto vai parecer falsa modéstia, mas fico sempre surpreendida quando me dizem coisas como esse teu "obrigada".
Portanto: ora essa, não exageres! Eu é que agradeço, etc.

Venho do Minho. Ou seja: as famílias dos meus pais são do Minho. Muitos dos dias mais felizes da minha infância aconteceram num aldeia do concelho de Esposende, ou no parque de campismo semi-selvagem na praia do Cabedelo.
Mas na altura eu não sabia que esses dias eram felizes. Sentia apenas que tudo estava certo.

Descobri o Alentejo bem mais tarde, depois dos vinte anos. É um lugar onde sou feliz, e onde enterro cada vez mais raízes.