22 maio 2012

o expresso do paraíso (2)


Ao pequeno-almoço, falei como uma gralha. Contei as histórias da rainha Santa Isabel e da sua tia-avó da Turíngia, outras da cidade. Eles ouviam, muito calados. Nada que eu não conheça: em casa, acordam todos como se ainda estivessem a dormir, só eu me levanto com a bateria já no máximo. Eles pareciam preocupados, e pediram desculpa por me deixarem a comer sozinha. Percebi uma hora mais tarde, quando finalmente chegaram ao salão de entrada da pousada: o Wladimir Kaminer tinha estado a telefonar para Berlim, a pedir à sogra os CDs de que precisava para a russendisko, para os levar ao vizinho, para este mandar as músicas pela internet.

Antes de sair da pousada, levei-os à torre. Subimos os degraus de mármore, parámos na sala grande que fica a meio da escalada. Cantei-lhes a canção que andava a preparar há semanas no duche (mas com outra cadência - só eu sei como é que isto se canta...):



Queria que se tornasse um momento inesquecível - a beleza da melodia, a voz enchendo aquela sala de formidável acústica - e tornou-se inesquecível, mas pelos motivos errados: eu estava tão ofegante de todos os degraus que acabara de subir, que a voz me saía nem firme nem cheia.
O Wladimir Kaminer disse: agora tu, Olga. E ela cantou, lindamente. Depois cantaram os dois.
Fiz fotografias, quase com vergonha de lhes devassar aquele momento de beleza.



Pensei que o Wladimir iria desafinar à grande, como conta no Viagem a Tralalá. Em vez disso, cantou um lindo dueto, muito certinho. Talvez seja mesmo como diz no livro: um desafinador profissional - nos momentos de lazer deixa-se disso, e canta naturalmente afinado.

Pedi autorização para publicar estas fotos. Provavelmente nem era preciso pedir. Durante a entrevista da tv, ele deu uma resposta surpreendente: deve haver milhões de fotos dele espalhadas por aí, mas não se importa, porque elas se diluem na internet. Nós a pensar que elas ficam para sempre gravadas como em pedra, e ele - fotografado centenas de vezes todos os dias - sente que se soltam dele e se perdem.



Demos um passeio pela cidade. No mercado do Rossio comprámos nêsperas e nozes. Na pastelaria em frente comprámos doces de ovos variados, que parti aos bocadinhos para provarmos todos. Adoro ter parceiros de viagem que ainda não conhecem o meu país, para lhes poder impingir estas minhas sessões de gastronomia da saudade. Como ainda estávamos no princípio da viagem e eu era muito nova, comprei também gadanhas e empadas de galinha, "para o caso de termos fome a meio da tarde".
Passeámos pelo Rossio, eles partiam as nozes umas contra as outras para as comer a cada passo. Apreciámos as janelas todas diferentes do café Águias d'Ouro, e a orgulhosa fonte do Gadanha. "Não é o mármore a maior surpresa desta cidade", revelei, "é esta água".
Também fomos à pedreira de mármore, mas estava fechada. Certa de conseguir um milagre, levei-os pelo meio do cemitério até ao muro. O meu anjo, desta vez, estava preguiçoso: em vez de uma abertura no muro, deixou apenas umas palettes empilhadas, às quais subimos (e das quais, milagre!, não caímos). Infelizmente, nem assim deu para ver o fundo daquele monumental vazio.
No caminho de regresso, não queriam acreditar que nos jazigos os caixões estavam expostos em prateleiras. Bem lhes expliquei que por dentro são de metal e estão soldados, mas puseram outra vez cara de surrealismo.



A filha deles telefonou, queria saber onde estavam. "Não faço ideia", disse a Olga, "estamos numa cidade toda feita de mármore!" A miúda largou um "Ooooh!" como se nos imaginasse na Bagdad da Sherazade. "Também quero ver isso!"

Mostrei-lhes o pátio da quinta do Carmo, a capela por onde o rei se esgueirava em busca de um amor menos místico. Seguimos para uma herdade nas imediações. Contei-lhes alguns episódios da reforma agrária, a ocupação das herdades. A ordenha mecânica oferecida pela RDA aos trabalhadores daquela herdade, que nunca foi usada, excepto quando as terras foram devolvidas aos anteriores proprietários, e a cena anedótica que se seguiu:
- Então porque é que não usaram a máquina?
- Porque dá mau sabor ao leite.
- Isso é o que se vai ver. Vamos lá passar as vacas todas pela ordenha.
Meu dito, meu feito.
- Então, prove lá - desafiaram os trabalhadores.
- Hiii, que porcaria!
- A gente bem avisou!
Pois avisou, avisou. Só ninguém se lembrou de informar que algumas das vacas tinham acabado de parir, e se tinha misturado leite com colostro. A máquina da RDA foi usada essa única vez, e nunca mais. Mais uma das tantas e tão boas intenções socialistas que se perderam por problemas de comunicação.

A herdade produz agora nozes, amêndoas e avelãs. Deram-nos uns saquinhos. As nozes, de casca fácil de partir e deliciosas, nem chegaram a ver Lisboa, excepto uma que se perdeu entre os bancos do carro.



Queríamos ir ao Marvão, mas o tempo não chegava para tanto, e as nuvens escuríssimas que nos perseguiam não convidavam a grandes passeios. Ficámo-nos pelo restaurante Tomba Lobos, na companhia de um alemão que vive há muitos anos em Portalegre.
Algumas semanas antes tinha combinado com o chefe José Júlio Vintém um menu degustação surpresa. Foi um almoço memorável, numa mesa redonda junto à janela enorme sobre o parque. Os pratos eram postos na mesa, sem nome. Perguntámos ao empregado o que era um deles, particularmente bom. Ele sorriu com ar de mistério: "daqui a bocadinho o chefe vem cá explicar tudo". O chefe apareceu, e revelou que aquilo que nos tinha sabido tão bem eram túbaros. Por uns momentos lembrei-me do Armin Meiwes (o maluco que convidou outro maluco para de comum acordo lhe comer os, ahem, túbaros - um caso tão louco, que a justiça alemã não previa - o que tornou o julgamento muito difícil) mas foi só por uns momentos. Os pratos continuavam a suceder-se, todos deliciosos ex aequo e muito bem apresentados. Hei-de lá voltar no próximo Verão, quero que a minha família experimente aqueles sabores. E, a avaliar pela maneira como três dias depois a Olga e o Wladimir ainda falavam desse restaurante, parece-me que eles levarão lá os filhos quando lhes forem mostrar a vizinha Bagdad.
No fim, fizemos fotos com o chefe (o casal Kaminer comentava que o ar do José Júlio Vintém inspira confiança: vê-se que está satisfeito com o que faz)


e com o empregado, que parece inventado de propósito para trabalhar naquele lugar: simplesmente perfeito de delicadeza, simpatia e bom humor


Já na rua, o nosso conviva perguntou se no caminho para sair da cidade podíamos parar por uns momentos na casa dele, para a sua mulher, que ajudara a preparar a ida a Portalegre mas ficara retida em casa com a filha doente, conhecer o casal. Pareceu-nos bem, e fomos. Agora, à distância, parece-me que andei a fazer entrega de escritores ao domicílio. O problema (será problema?) é que vejo nas pessoas as pessoas que são, e me esqueço muitas vezes do status que trazem consigo. As pessoas que são gostaram de parar para conhecer aquela portuguesa simpática e a miúda amorosa que os observava com olhos enormes de curiosidade.

Parámos uns momentos em Estremoz para comprar garrafões de azeite. Convenci-os a levar também um, Vila Nova. Que comprei para mim, juntamente com outro de Estremoz, o Lavrador. O Wladmir protestava: "levar três garrafões de azeite para a Alemanha? Isso é contrabando!" - parece-me que tivemos aqui um pequeno choque cultural.
Antes, ao entrar no supermercado, tínhamos tido um grande choque cultural. Eu pedira a umas miúdas ciganitas se nos trocavam uma moeda de dois euros por duas de um. "Eu tenho, mas não troco", disse uma delas, e largou um chorrilho de provocações. Mais uma cena surreal: eu tratava-as com delicadeza, elas respondiam com agressões. "Os sapatos dessa mulher são de velha", dizia uma, "e o cabelo dela, parece um homem!", acrescentava outra. "Eh, pá, vocês hoje estão mesmo simpáticas...", respondia eu. O encontro acabou com elas de olhar desafiador a espetar o pai-de-todos na nossa direcção, e nós a virar costas.
"O que é que elas têm contra mim?", perguntava a Olga.
"Aquilo é mesmo o dedo médio espetado, o que estamos a ver?", surpreendia-se o Wladimir.
E eu a tentar explicar-lhes que isto são muitos séculos de segregação e humilhações, eu a pensar se devia ter gritado, insultado e ameaçado, para elas sentirem que o mundo continuava com todas as gavetas no seu lugar certo.

Seguimos para Montemor-o-Novo, para apresentar o livro na Fonte de Letras. A sala estava cheia de gente interessante, realmente cheia, com pessoas em pé e tudo, e vou omitir agora comentários sobre o deserto a sul de Lisboa e outros temas afins. As fotografias que se seguem são do António P., a segunda está tremida por causa, provavelmente, de um terramoto que se sentiu há anos em Arraiolos. No Alentejo, como é sabido, o tempo de reacção é um pouco mais lento.




A apresentação correu bem (no blogue da Fonte de Letras há um bom resumo: a festa de babel), e o debate foi muito divertido, porque o Wladimir Kaminer, em vez de entrar em discussões do género "análise comparativa do realismo de Tralalá com o surrealismo do Daniil Harms " (isto sou eu a inventar) dá uma gargalhada, diz "outro dia estive ao telefone com a mulher do Daniil Harms" e depois conta a história milaborante da vida daquela mulher, uma permanente fuga em frente casando com quem a ajudava em cada etapa da jornada - uma espécie de síndroma de Estocolmo com sintomas Tralalá.

A Olga apareceu muito sorridente, com um copo de Hefeweizen quase cheio de vinho branco alentejano. Não compreendia aquele mundo, mas estava-lhe completamente rendida: tinha ido ao café ao lado pedir um copo de vinho branco, porque na Fonte de Letras só havia tinto, e ofereceram-lhe aquele copázio.

A seguir, juntou-se no restaurante um grupo amável, e brindámos variadíssimas vezes a tudo o que a conversa sugeria. Comer com o Wladimir Kaminer tem esse detalhe divertido: cada novo assunto da conversa merece-lhe um brinde, "aos queijos portugueses", "ao entendimento entre os povos", "às mães", ao que calhar - como se quisesse sublinhar o tema do momento. Ah, cronista.  

Nessa noite, ficámos no monte Chora Cascas. Inicialmente estava previsto irmos dormir ao Pestana Palace, em Lisboa. Mas houve uma mudança de planos, a apresentação do livro em Montemor foi mudada de quinta para sexta, e era um disparate ir dormir a Lisboa para regressar a Évora na manhã seguinte. A dona do Chora Cascas, mesmo ao lado de Montemor-o-Novo, ofereceu-nos guarida. "Ofereceu guarida", é como quem diz: alojou-nos sumptuosamente. Aquele monte é indescritível.



O meu quarto era tão perfeito que quase me tentei a dormir no chão, para não quebrar o encanto do espaço. Antes de me deitar, fiquei a olhar o linho italiano dos lençóis - parecia-me um desperdício dormir nele. Devia antes ficar acordada a noite inteira, a saborear o luxo. Mas meti-me na cama, adormeci imediatamente, e foi de rajada até à manhã seguinte. Mal aproveitado linho...

Foi o segundo dia.

2 comentários:

diasdetelha disse...

(a cadência daquele "Porque não me vês Joana" ali de cima é terrível. gosto tanto dela e fica tão feia assim)

Adoro estes relatos de viagem. E lidos em simultâneo com o livro ficam ainda melhores!

**
mariana

Helena disse...

Mariana,
havemos de combinar um cafézinho para discutir esta cadência e outros temas. :)