21 maio 2012

autofagia


É muito triste ver o modo como a própria esquerda critica o Manifesto para uma Esquerda Livre.
Porque será que perdem tempo a criticar detalhes (as palavras usadas, ou a hora a que foi feita a apresentação, ah, esta esquerda caviar) e se comprazem com textos irónicos sobre a salvação da esquerda?

Porquê a manobra de meter tal iniciativa numa gaveta definitivamente etiquetada?
Porquê o trabalho de cobrir a iniciativa de ridículo?
Porquê a recusa liminar do debate alargado à esquerda?  

Porque é que a esquerda tem esta tendência de se devorar a si própria?


Podem dizer que sou a maior ingénua do país. Mas continuo a acreditar que Portugal só tem a ganhar com um grupo de pessoas inteligentes, informadas e sérias, que se juntem a pensar e a debater novos rumos, com base em princípios claros e à margem de interesses partidários.
Penso até que o maior desafio deste grupo será existir e agir sem se tornar refém dos partidos de esquerda.
Desejo-lhes boa sorte. Desejo-nos boa sorte. E bom trabalho.

(foto)

6 comentários:

sem-se-ver disse...

eu também, etc.

mas, helena, temos de convir, pelo menos, duas coisas:

1. o título não foi claramente o mais feliz. que tivesse sido 'manifesto de esquerda', e aí encantados da vida. 'para uma esquerda livre', por mais que o rui tavares inicie todas as suas entrevistas a querer esclarecer o significado do 'para', ofende. insinua ou, mesmo, proclama, que a esquerda atual, nos ou fora dos partidos, não é livre. foi um título que dividiu à nascença. mau começo.

2. para ser de união, e por mais que o tavares diga que podem participar todos os que quiserem, incluindo os que tenham partido, o documento deveria ter sido subscrito também por dirigentes dos partidos em causa. o que teria tido sentido e força era se este manifesto fosse o resultado de reuniões, com os partidos e pessoas fora desse espectro, que acordassem num texto comum. desta forma, vai ser um momento fugaz e vagamente folclórico na vida nacional. não vai dar em nada, e a culpa foi da forma como foi concebido.

não o subscrevi, poderei contudo subscrevê-lo, tendo em conta o que disse acima. é indiferente fazê-lo ou não. o seu poder será nulo.

beijo

Helena disse...

Penso exactamente o contrário: não poderia ter este nome, senão este.
E se põe o dedo na ferida, compete aos outros terem vergonha da ferida que alimentam há tantos anos.
A esquerda já está dividida há muito. Nem me parece que seja possível uni-la. Mas é bom que haja um esforço de sair das trincheira e de debater - e isso só pode acontecer num espaço de liberdade. Para quem tem força e coragem para sair das trincheiras, entenda-se.

Gosto especialmente da ideia de se fazer isto à margem dos partidos. Discutir ideias e valores, e não estratégias de poder.

Pode ser um momento fugaz? Pode. Mas também pode estar a criar-se aqui um movimento de debate à esquerda que mobilize os cidadãos. Espero que seja assim, e venha para ficar.

sem-se-ver disse...

não vai servir de nada, helena...

mas pode ser bonito, sim.

Carla R. disse...

Detalhes.
O que vai interessar é a força e a adesão. Eu vou participar num dos encontros do Verão, quando estiver em Portugal.
Em França anda a acontecer algo muito excitante, que começou ainda durante o mandato do Sarko, e que agora parece-me que vai continuar, apesar do Hollande ter algumas boas ideias. Se tiveres tempo, podes dar aqui uma vista de olhos : http://atterres.org
Conto estar presente no encontro de 20 de Junho, aqui em Paris, depois conto-te como foi se quiseres. Confesso estar curiosa com a comparação (principalmente das reacções de quem vai assistir...).

Interessada disse...

O poder faz falta, Helena.
Mas concordo consigo. Se houver debate, já valeu a pena.
Há que tentar mobilizar as pessoas e construir algum tipo de organização.
Se já não acreditamos nos partidos, porque haveriam eles de se imiscuir?
É necessário usarmos a imaginação e fazermos “o nosso trabalho” acreditando que podemos mudar muita coisa. Mas com a consciência de que uma revolução precisa de muito trabalho, persistência, tomada de consciência, prática e tempo.
Não é um partido a papel químico, o que se pretente.
Depois de nos reunirmos se verá se surge um manifesto mais palpável. Julgo que seria conveniente que o conseguíssemos como promessa de caminho conjunto.
Se eu não acreditasse que é possível unir de alguma forma a esquerda, não acreditaria neste movimento.

Interessada disse...

O poder faz falta, Helena.
A questão está no tipo de poder e nos valores que o sustêm.
Mas concordo consigo. Se houver debate, já valeu a pena.
Há que tentar mobilizar as pessoas e construir algum tipo de organização.
Se já não acreditamos nos partidos, porque haveriam eles de se imiscuir?
É necessário usarmos a imaginação e fazermos “o nosso trabalho” acreditando que podemos mudar muita coisa. Mas com a consciência de que uma revolução precisa de muito trabalho, persistência, tomada de consciência, prática e tempo.
Não é um partido a papel químico, o que se pretente.
Depois de nos reunirmos se verá se surge um manifesto mais palpável. Julgo que seria conveniente que o conseguíssemos como promessa de caminho conjunto.
Se eu não acreditasse que é possível unir de alguma forma a esquerda, não acreditaria neste movimento.