13 abril 2012

Roma!

(La finta prospettiva del Borromini, daqui)


Em Maio vamos passar uns dias a Roma. Será o nosso voo de despedida do aeroporto Tegel, que fechará pouco depois, quando o de Schönefeld abrir. As saudades que nos vai deixar!

Vamo-nos encontrar com amigos americanos, um casal extraordinariamente culto e divertido. Temos bilhetes para os museus do Vaticano, e eu já estou a babar mesmo antes de ouvir tocar a campainha que nos abre aquelas portas.
Tínhamos combinado ficar em casa de amigos romanos, num daqueles bairros chiques de prédios luxuosos com parque e piscina. Mas ontem os amigos americanos disseram que alugaram um apartamento com espaço para nós na Via Banchi Vecchi. Ai!

Vejo-a no mapa: ai a Via Giulia. Ai o Palazzo Farnese, ai a Galleria Spada! Ai.

Há dez anos passámos uma semana em Roma. O Joachim estava a trabalhar lá, e passámos com ele as férias escolares de Outono. Os miúdos tinham cinco e oito anos, e uma paciência de Job para aturar a mãe que lhes saiu em rifa.
Calcorreámos todas as ruas daquela cidade, e mais do que uma vez, porque eu queria ver certas igrejas, e elas arranjavam sempre maneira de estar fechadas quando chegávamos. Lembro-me do ar desconsolado da Christina, sentada nos degraus da igreja na Piazza di Sant’Ignazio di Loyola, olhando para as belíssimas casas da praça, que fazem pensar numa cómoda barroca, e do seu lamento: "esta cidade tem demasiadas igrejas..." Mas eu acertei finalmente com os horários, e entrámos, e divertimo-nos imenso a ver pelo lado errado a cúpula falsa da igreja de Santo Inácio de Loiola, pintada em técnica Trompe-l'œil. A visita à Basílica de São Clemente também foi muito divertida... Os miúdos pediram para ficar no claustro a descansar, enquanto nós visitávamos os três edifícios sobrepostos e nos deixávamos encantar por aquela sucessão de modos de entender o divino. No regresso a casa, ouvimos a Christina a combinar com o Matthias "damos as americanas ao pai e as outras são para nós" - tinham estado a pescar moedas no fontanário do claustro! Para eles, o melhor dia foi o da excursão a Ostia Antiga. Fartaram-se de correr e brincar às escondidas no meio das ruínas da cidade. Adoraram os vestígios da Antiguidade Clássica.
E um belo dia passámos pela Galleria Spada, essa que fica ao fundo da Via Banchi Vecchi. Queria mostrar-lhes o fantástico efeito de perspectiva do Borromini mas, para variar, essa parte estava fechada e só abria passados quinze minutos. Na caixa, o empregado foi muito simpático: que se era só para ver esse corredor nem tínhamos de pagar bilhete, e enquanto esperávamos podíamos na mesma entrar na galeria e ver os quadros expostos. Ora bem: eu queria era poder ver um bocadinho de parede, para descansar os olhos! Aquela galeria é à moda antiga: centenas de quadros por sala, moldura encostada a moldura, num excesso que cega. Parecia o Onde Está o Wally, com a diferença de eu não saber quem era o Wally. Ofuscada, arrisquei uma das minhas ousadias típicas: "como só temos dez minutos, será que me pode dizer onde estão os quadros mais famosos da colecção?" Entretanto, reparei que a Christina olhava atentamente, com aqueles seus olhos de águia, para todos os quadros da sala. "Caramba", pensei eu, toda predisposta a rebentar de orgulho, "esta minha filha gosta mesmo de cultura!" e ela, daí a bocadinho, muito feliz: "Descobri, mãe! Descobri onde estão escondidas as câmaras de filmar!"
Foi uma bela semana. Andámos imenso, contei imensas histórias aos meus filhos para lhes tornar agradável aquela maratona cultural, rimos imenso com o que víamos (que é a única maneira de conseguir que miúdos daquela idade aguentem uma semana inteira a passear por museus e igrejas e ruínas). Mas a minha recordação mais grata está ligada à Galleria Borghese. Depois de admirar a delicadeza de Bernini em Apolo e Dafne, de discutir se o Cupido do tecto combinava bem ou mal com a cena que observava, e de rir da barriguinha da Paulina Bonaparte, passámos à pinacoteca. Os miúdos deram o tilt: não estavam capazes de ver nem mais uma obra de arte. Eu é que não queria desistir do Caravaggio & Friends, ali tão perto. Combinei deixá-los sossegados num sítio, eles não saíam dali, e eu ia-me às pinturas. Fui, e vi pinturas fantásticas. O melhor quadro, porém, era o de dois miúdos pequeninos a jogar às cartas na penumbra do vão fundo de uma janela palaciana, sob o olhar enternecido de um guarda do museu.

3 comentários:

Mar* disse...

Ai... Roma é a cidade, de todas em que já vivi, a que mais me ficou no coração. Que saudades das horas infindáveis a calcorrear as suas ruas, a visitar as suas igrejas, museus e galerias. Que saudades de Ostia no Inverno, quando as praias estão desertas. Ah Roma, mi manchi tantissimo!

Helena disse...

É, Roma é mesmo muito especial.

Paulo disse...

Estou mesmo a vê-los.