12 abril 2012

de poema em poema, ao encontro de um rumo para este dia

Aos saltos na net pela manhã, cruzo-me com Robert Frost a ler o seu poema "The Road not Taken". 

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other,


Ai! Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo - Deus estava um bocadinho falho de imaginação naquela semana em que criou o mundo. Custava-lhe alguma coisa ter imaginado um mundo onde é possível seguir simultaneamente por duas estradas?

Robert Frost escolhe um dos caminhos, mas continua a pensar no outro. Onde é que já li isto?
Ah, Sebastião da Gama:

Trago no sangue o mistério
daquele resto de estrada
que não andei...

E era talvez ali
que eu ia ser feliz:

ali
que viriam as Fadas pra contar-me
os contos lindos das Princesas
e de Palácios
e de Florestas
que ficaram por contar;
ali que havia de abrir-se
o tal jardim
com flores que nunca morrem
ou, se morrem, há-de ser
na pujança da frescura
por medo de envelhecer...
Mas não passei além da curva...
O meu alento
já dobrou o joelho desistiu.
E eu sei tão bem que há Glória que me chama
e que tudo que digo aqui, ou faço,
é só arremedar, adivinhar,
o que, pra lá da curva que não passo,
havia de fazer ou de dizer!
E eu sei tão bem
que sem tomar nas mãos a Glória apetecida
me não contento!...

- Por que é que tu és só pressentimento,
minha vida?


Ora aqui está, mais um para o Clube dos Quase: Mário de Sá Carneiro no centro, Sebastião da Gama à sua direita, e eu à esquerda dos dois.

Quase


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...


Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!


De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...


Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...


Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...


Como te compreendo, Mário de Sá Carneiro! Pois também eu sonho e adio, e me consumo na saudade do que podia ter sido.

Mas hoje deixo-me de lirismos portugueses, e vai ser assim:

Two roads diverged in a wood, and I---
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


(Graças ao Robert Frost, que me envia pelo caminho menos percorrido, é hoje! É hoje que vou finalmente pagar aquelas facturas, escrever as outras, arrumar a minha mesa.)

17 comentários:

Pedro disse...

Ou o Isto ou aquilo, da Cecília Meireles.
No entanto, e por muito que custe, acredito que não há nada melhor que a liberdade de escolha - mesmo que se façam as escolhas "erradas".

Helena disse...

Liberdade de escolha, Pedro?
Eu estou agora mesmo a obrigar-me a escolher ir para as facturas, em vez de ficar aqui na boa vida.
;-)

(gosto muito desse poema da Cecília Meireles, foi um dos primeiros que li e pensei que o autor me tinha lido os pensamentos)

Paulo disse...

Desprocrastinemos, então.

Helena disse...

Estás a conseguir desprocrastinar, Paulo?
Já li o poema do Robert Frost dez vezes, e nem assim...
;-)

(e além disso estou a ouvir o concerto do Sibelius para violino, e está a arrumar comigo) (as facturas vão-me sair um bocado molhaditas...)

Pedro disse...

Na realidade, e pelo menos em abstracto, não há nada que nos obrigue a pagar facturas nem a arrumar a casa ;)

Paulo disse...

Não, não estou. E agora com essa história do Sibelius ainda menos. Fui buscar à memória a minha versão preferida: a gravação de Ginette Neveu, que teve um fim trágico nos Açores.

Helena disse...

Pedro,
já ouviste falar (em abstracto) em "empresas de pagamento de créditos mal parados"?
A pobre da minha filha já ouviu, sim, e muito em concreto. Por causa de uma palermice de 20 euros na sua conta bancária, estão-lhe a extorquir agora 50...

Paulo,
agarrem-me, que eu vou ouvir também essa! (minhas ricas facturas...)

sem-se-ver disse...

Pedro,

obg pelo link. mais do que o tube, terei de ir à procura do disco. bastaram-me poucos segundos do dito tube para perceber que é interpretação superlativa.

sem-se-ver disse...

(e obg tb pela refª ao acidente. todos o conhecemos pelo falecimento do cerdan, e nao do dela... eu, pelo menos, não sabia.)

Helena disse...

Não é o Pedro, é o Paulo.
Não confundas os meus apóstolos!
;-)

Também vou procurar o disco - ela é mesmo impressionante! E aquele primeiro andamento agora está aqui feito ear worm.

Helena disse...

sem-se-ver, que me aconselhas?

este

http://www.amazon.de/Violinkonzert-Op-47-Sinfonie-Nr-2-Op-43/dp/B00064N7RI/ref=tag_dpp_lp_edpp_ttl_in

ou este

http://www.amazon.de/Brahms-Sibelius-Concertos-Johannes-Jean/dp/B000OONT78/ref=sr_1_4?s=music&ie=UTF8&qid=1334256524&sr=1-4

sem-se-ver disse...

o 2º. de olhos fechados!!!!

(o de Brahms tem a pausa mais dramática e intensa de todaaaaaaaa a música 'clássica'; no meio do 'solo' do violino no 1º andamento)

Helena disse...

Obrigada! Já está a caminho!

Paulo disse...

Sim, o segundo. É a gravação que eu tenho (junto com o Brahms), embora de uma edição mais antiga da EMI Références.

Helena disse...

Temos, portanto, um consenso.
Obrigada aos dois!

Gi disse...

E depois há o Borges e o Jardim dos caminhos que se dividem...

Helena disse...

Gi,
no jardim do Borges, aí é que não havia maneira de eu encontrar as malditas facturas!