22 fevereiro 2012

ceteris paribus

Retomando a discussão sobre as culpas da Alemanha nos problemas brutais com os quais a Grécia está a ser confrontada, proponho um exercício de análise ceteris paribus: imaginemos que hoje a dívida era integralmente perdoada à Grécia, e que este país começava amanhã mesmo com um dracma novinho em folha, sem dívidas mas também sem a UE como fiador para as dívidas novas que eventualmente queira fazer. Numa análise ceteris paribus (*) - ou seja, não havendo qualquer alteração no funcionamento das restantes economias -, como estaria a Grécia daqui a dez anos?

E se acontecesse o mesmo a Portugal: com o nosso escudo, e sem fiadores externos para os nossos créditos, onde estaríamos daqui a dez anos? 


(*) Ceteris paribus: partindo do princípio que este perdão da dívida não provocava falências em cadeia dos bancos e das seguradoras (reduzindo a zero o dinheiro existente nas contas das instituições, das empresas e dos particulares), que os seguros privados de saúde e os seguros de reforma não eram afectados, que os bancos continuavam a financiar sem problemas a actividade das empresas, que o Euro não estourava, em suma, partindo do princípio que o não pagamento destas dívidas não mergulhava as economias ocidentais numa segunda Grande Depressão.

11 comentários:

Anónimo disse...

Eu continuo sem perceber pq que é que estamos todos juntos para emitir moeda, estamos todos juntos para definir a politica monetária e para emitir divida já é cada por si... os monetaristas que me expliquem afinal em que é que consiste uma união monetária, pq eu não estou de facto a perceber...

Helena disse...

Anónimo,
para emitir dívida havia regras definidas pelo tratado de Maastricht - não podem ser mais que 60% do PIB, nem ter um crescimento anual de mais de 3% do PIB. A Grécia comprometeu-se a baixar a dívida para 145% do PIB em 2011, mas ficou acima dos 157%, e parece que em 2012 ainda vai ser pior. O que não admira: a economia está em recessão, o Estado não recebe impostos, faz cada vez menos despesas, há cada vez mais recessão. É isto que está errado na proposta para sair da crise.

Agora, pergunta-se: como foi possível deixar a situação chegar a este ponto explosivo?
E: como é que a Grécia vai conseguir sair deste buraco?
E ainda, como eu perguntava no post: o problema maior da Grécia são as dívidas actuais, ou o conjunto de factos estruturais que a conduziu a esta situação?

Anónimo disse...

Portugal e a Grécia estarão numa situação pior do que agora, pois sem transformação da sua capacidade produtiva nada mudará. A última anedota da ideologia da desresponsabilização é a ideia de que a culpa é da admissão ao euro. Esse é um factor, mas apenas isso. Convém evitar a monomania. Houve políticas erradas e há mesmo "obstáculos estruturais" e necessidade de "reformas".
Cada país tem uma política orçamental, pois se não for assim a democracia nacional é esvaziada e ninguém o deseja. O parlamento seria esvaziado,(o resgate é temporário)o governo deixaria de definir políticas centrais, etc. No tax without representation. Seria a supressão da democracia (que acontece temporariamente nos países sob resgate finaceiro).
Um orçamento europeu e um ministro das finanças equivale a um governo europeu. Cada país, que é uma comunidade política, quer manter a sua liberdade e soberania e ter as vantagens do que seria uma federação. O euro foi criado sem um grande orçamento por não haver um estado europeu. Não é defeito é mesomo feitio.um governo europeu não teria poder nem autoridade. Antes de tudo os gregos não aceitavam a sua autoridade.
Não há debate político e ideológico na Europa mas uma divisão de acordo com as identidades nacionais. Com se vê. Nos EUA Romney é um tipo de direita, mas Schulz é alemão, mesmo quando faz afirmações de índole socialista e federalista.


Pedro

snowgaze disse...

Se bem percebi, estás então a defender que é do interesse da Alemanha que a Grécia continue a pertencer ao euro...
Eu sou da opinião, em relação ao euro, que a moeda é forte porque há muita gente a usá-la, e que a saída de um país, mesmo que seja só a Grécia, fará com que o euro perca. Perde em força e em valor, e em credibilidade, porque a partir daí os mercados irão forçar a desagregação total - apostando na saída de Portugal e outros que estão no rol... E isso é contra os interesses do todo, e o todo inclui a Alemanha. Por isso, sim, é do interesse da Alemanha que muita coisa seja feita para que os gregos regressem à normalidade, em termos económicos, e que continuem a fazer parte da moeda única.

Helena disse...

Pedro,
apesar de tudo, parece-me que a situação de Portugal não é tão grave como a da Grécia. Nós sempre fizemos as estradinhas...

Eu não estava a falar em controle e governo europeu, mas justamente em perdoar a actual dívida aos gregos, e deixar-lhes a sua soberania, mas também as consequências das suas escolhas.

Mudando de assunto: será que países com economias tão diferentes podem ter a mesma moeda? Penso que não, e não entendo porque é que ninguém reagiu e tocou o alarme muito antes de se ter chegado a esta situação extrema.

Helena disse...

Snowgaze,
não sei o que é o melhor para a Grécia e para os outros países do Euro.
A moeda só se mantém forte se, para além de haver muita gente a usá-la, as regras de uso forem semelhantes em todos os países.
A Grécia não devia ter entrado para o Euro, porque não tinha nem tem condições para cumprir o pacto de estabilidade. Mantendo-se na zona Euro, está a provocar a falta de confiança nesta moeda, e pode acabar por arrastar os outros na queda.
Mas se sair, vai precisar igualmente da ajuda europeia, porque os custos sociais de uma bancarrota serão terríveis.
E se ficar, vai ter de cumprir as regras do funcionamento da moeda comum. O que não está a conseguir, nem conseguirá com estas políticas de austeridade que atiram o país para a miséria. Não sei mesmo como se pode sair desta situação.

Anónimo disse...

A manutenção da Grécia é perversa por motivos políticos e económicos. A manutenção estando depndente dos parceiros vai alimentar o rssentimento e o nacionalisno como está acontecer, fortalecendo a "síndrome do adolescente rebelde". Como a culpa é dos outros não mudará o fundamental e será cada vez mais pobre. Será um Alentelo da europa. A estrutura económica da Grécia não aguenta a permanência no euro a não ser como pedinte permanente.Alguém acredita que a o país pode ser governado pela Troka durante 10 anos, mesmo com medidas mais leves? Isso é uma argumentação economicista e paternalista. Supõe que a Alemanha tem uma solução para a Grécia, o que não é verdade.
A Grécia deve sair para recuperar a sua democraciu a e para restituir a dos outros que está sob sequetro.
A crise temporária de uma saída e a desvalorização temporária serão seguidas de uma recuperação de cridibilidade no longo prazo. Uma moeda disfuncional não pode ser estável nem forte. A credibilidade da moeda não reside no número de países que a usa. se fosse assim o franco suiço era uma moeda "fraca". Logo teremos de enfrentar acrise nos próximos tempos. De resto, os gregos é que vão pedir para sair e será em breve.


Pedro

Helena disse...

Pedro,
tendo a concordar com essa posição, mas temo que a crise não seja tão temporária como isso.
Hoje li uma opinião num jornal alemão que mais valia guardar o dinheiro que se está a pagar para a dívida da Grécia para a ajudar a sair da terrível crise em que vai mergulhar quando sair do euro e entrar em bancarrota.

Anónimo disse...

Helena, tem toda a razão. Nesta situação só há dificuldades. Uma saída do euro é um processo violento e traumático, pelo que se deve evitar uma ruptura abrupta. Pode ser um desatre para economia mundial. Qualquer transição supõe muito dinheiro e organização para apoiar quem sai e quem fica. O maior problema é se houver incapacidade de o reconhecer. Schäuble já disse várias vezes em público que não seria dramático, o que me parece uma posição lúcida. Vai acontecer, pois de facto não é possível ter países tão diferentes na mesma moeda sem uma união política. O problema é que a Grécia não é o Minesota.
Li a dfesignação moeda única num comentário Não há moeda única na Europa. existem 11 moedas. O euro e mais dez. Felizmente.

Pedro

Anónimo disse...

Boa noite Helena, no meu primeiro comentário eu referi o governo económico a propósito da intervenção inicial anónima. Julguei ter lido uma referência a este assunto e à emissão conjunta de dívída. Na verdade, apenas o último foi referido.
O seu experimento mental é brilhante e leva as pessoas a perceberem como a maioria das exigências é inconsistente.
O outro seria perceber o que aconteceria uma união monetária se a Alemanha saísse. É certo e sabido que acabava porque não seria capaz de manter a disciplina orçamental mínima para funcionar. Não poderia existir melhor caricatura de um certo tipo de posição.

Pedro

Helena disse...

Pedro,
também já ouvi falar nessa proposta. A Alemanha volta ao marco, os outros ficam no euro.
A proposta, vindo - como veio - de pessoas do grupo "PIIGS", era capaz de fazer muitos alemães felizes...
Imaginando um pouco mais: acredito que outros países - os de economia mais estável - quereriam entrar para a zona marco. E lá teríamos a Europa a duas velocidades. Talvez seja inevitável.
Mais: duvido que algum país quisesse ficar sem a Alemanha numa zona monetária onde estão os do grupo PIIGS.
O que nos remete à questão que me incomoda muito por estes dias: a Merkel é nazi, autoritária, egoísta, anti-democrática, etc., mas se resolvesse abandonar este barco e regressar ao marco, deixando os países entregues à sua sorte e às consequências das suas decisões soberanas, como é que os outros países dessa zona monetária iam reagir? Que revelariam eles em termos de solidariedade e confiança nos parceiros?