29 setembro 2011

1200 km para quatro horas e dez minutos

É oficial: preciso de uma máquina fotográfica minúscula, e muito boa, para levar sempre comigo.
Descobri isso esta manhã bem cedo, quando ia num comboio regional a caminho de Munique, imaginando com que palavras poderia descrever neste post a beleza da neblina pousada nos vales, a placidez com que abraçava os grossos troncos das árvores. Pensei de novo nisso hoje à tarde, ao atravessar uma Alemanha tocada pelo Outono: que pena não vos poder mostrar. Especialmente a Turíngia - ah, a Turíngia tem uma beleza especial. Ou as ruínas de antigos edifícios industriais um pouco por toda a antiga RDA: testemunhos dolorosos de aspectos mais sombrios da reunificação alemã.
E as vacas, as milhentas vacas que vi a sorrir nos prados? O que eu me lembrei do Cavaco Silva nesta viagem! Quem me dera ter podido fotografar para ele algumas dessas vacas alemãs, para que confirme que a Alemanha e Portugal são como países irmãos - que digo eu? países gémeos! - no que diz respeito às coisas realmente importantes!

Foi a primeira vez que estive em Munique na altura da Oktoberfest. Ao chegar à cidade, ao fim do dia, encontrei-a transformada pelas mulheres trajando Dirndl - em todas as cores, de saia até aos pés ou de minissaia, uns de (digamos assim) gola alta e outros quase sem gola (digamos assim). Uma beleza, com uma particularidade fantástica: transformam em pura sensualidade um ou outro quilito que uma mulher possa ter a mais. Duvido que os Weight Watchers tenham grande saída numa região onde as mulheres sabem fazer render tão grandiosamente o seu valor acrescentado...
E foi assim que eu - que sempre preconceituei que essa festa é uma palermice - me deixei conquistar pelos Dirndl e pelas Latzhosen (há maneiras tão giras de criar um estilo pessoal com os calções de pele e a camisa aos quadrados vermelhos!) e quase fui à Wiesn dar uma espreitadela.

Os amigos em casa de quem ficámos contaram histórias mirabolantes: a maior festa popular do mundo, 4,5 milhões de visitantes em dez dias, altíssimos preços, altíssimas gorjetas (uma empregada na Wiesn faz à vontade 15.000 euros em duas semanas - mas também lhe sai do corpinho). Deram-me a provar a cerveja feita especialmente para esta festa - era mesmo muito boa, com um teor de álcool mais alto. Quer dizer: lembro-me vagamente de me ter sabido muito bem...

Esta manhã fomos para o consulado americano. Quase quatro horas à espera, e para quê? Para nos mandarem para casa, porque a escola americana preencheu mal o I-20, disse que o Matthias vinha do Ghana. Percebe-se como é que aconteceu: no formulário online escolheram Germany, mas deixaram o cursor escorregar para a linha de baixo. Eu tinha esperança que eles iam corrigir à mão, e pôr um carimbo do consulado, porque está perfeitamente na cara que isto é um erro estúpido, mas eles não: volte para casa, escreva à escola, eles que lhe mandem novo formulário, você depois manda-nos a nós, e nós depois damos-lhe o passaporte com o visto. Porque se deixarmos isto passar assim, pode bem ser que depois não deixem o seu filho entrar no país, e o devolvam à Europa no mesmo avião em que foi. E sim, capazes disso são eles, isso sei eu muito bem.
Mas pelo menos não me obrigaram a provar que o miúdo vai mesmo regressar ao fim de três meses, como me tinham prevenido ao telefone - sabia eu lá provar uma coisa dessas? Prognósticos, só no fim do jogo.

Saímos do consulado à hora do almoço, e eu com aquela fisgada de ir espreitar a Oktoberfest, e comer um franguito grelhado, e verificar se a cervejinha era mesmo tão boa como me parecera no dia anterior. Telefonei a uma amiga para nos encontrarmos lá, mas entretanto o Matthias começou a fazer contas de cabeça ao primeiro comboio que saía em direcção a Berlim, e que tinha de chegar cedo a casa porque amanhã tem dois testes, e que ainda tinha de ver "les Choristes" para se preparar para o de francês, e eu - o que uma mãe não faz por um filho? - acabei a desistir da Wiesn e a reduzir o encontro com essa amiga para dez minutos a pé num fast food (não digo qual porque alguns leitores deste blogue eram bem capazes de criar uma petição contra mim...), enquanto trocávamos informações vitais à velocidade da luz.  
Depois despedimo-nos dela precipitadamente e enfiámo-nos a correr no comboio. Embalada no muita-terra-muita-terra (era um ICE), vim a pensar nesse mistério que são as amizades: costumo partir para as pessoas com confiança no melhor de si próprias, e coração aberto para as acolher tal como são. Já tenho sofrido grandes decepções, algumas muito dolorosas. Outras vezes, muitas mais, sinto-me recebida da mesma maneira - e desta abertura mútua nascem verdadeiros momentos de encontro. Como os dez minutos de hoje, que me iluminaram o dia.

10 comentários:

Mery disse...

Que bonita a maneira como relatas os teus "casos", as festas, as viagens e tanta coisa boa de ler e imaginar, tirando o que é ruim, é óbvio...
És uma pessoa de muito valor e mereces tudo de bom que Deus te proporciona e as pessoas que te querem bem.
Que Ele continue te abençoando sempre, viu.
Abraço forte da Mery*

Carlos Azevedo disse...

«Já tenho sofrido grandes decepções, algumas muito dolorosas. Outras vezes, muitas mais, sinto-me recebida da mesma maneira - e desta abertura mútua nascem verdadeiros momentos de encontro.»

Nem mais, Helena! E o importante é não deixarmos que as decepções, por muito dolorosas que possam ser -- e por vezes são-no --, nos tornem amargos e nos impeçam de estar abertos para os possíveis verdadeiros momentos de encontro. É essa a minha filosofia -- nem sempre tem sido fácil, mas tenho conseguido mantê-la.

[E espero que o processo entre nos trilhos e que corra tudo bem com a estadia do seu filhote lá pelos gringos! :-)]

Helena disse...

Mery, obrigada!

Carlos, será que "contraímos telepatia"?...
Havemos de criar um clube "os empedernidos da confiança". ;-)
É isso mesmo: evitar que a amargura e a desconfiança se apoderem de nós e inquinem a nossa maneira de estar com os outros.
(E mandar simplesmente borda fora quem provou não merecer estar borda dentro.)

snowgaze disse...

Ah, e eu com esperança que as 4 horas e 10 minutos tivesse sido o tempo de viagem... Já fui ver ao site da D-Bahn para me desenganar...
A Oktoberfest tem muita graça nos primeiros anos... depois começa-se a pensar naquelas multidões a caminho das tendas de cerveja às 8 da manha já com uma garrafa pela mão, nas multidões a acotovelarem-se para entrar, na quantidade de gente a cair de bêbada pelas ruas antes do entardecer, nos casos de polícia típicos destes dias, dos transportes e ruas apinhadas, das ruas que tresandam a vómito apesar da limpeza noctívaga, e de repente já não tem tanta piada. E ainda acrescento, o que será que leva tantos milhões a sentarem-se à mesa para beber cerveja a 10 euros a caneca de litro (com gorjeta, enquanto ainda estão sóbrios que depois a gorjeta sobe) até estarem tão bêbados que já nem sabem às quantas andam.

Carlos Azevedo disse...

Borda fora e com um belo pontapé no dito cujo! ;-)

Helena disse...

snowgaze, eu por enquanto só tenho olhos para os dirndl sem gola...
Ainda hei-de ir a Munique nessa altura, e com tempo para ver também o resto.
E sim, é bem mais que 4 horas: saímos à uma e um quarto, chegámos às sete e meia.

Helena disse...

Carlos, a parte do pontapé não sei, que eu sou muito paz e amor!
;-)

Mas borda fora, e irreversivelmente, lá isso...

E agora com licencinha, vamos mudar de assunto: que os borda dentro são do melhor que há, e é desses que vale a pena falar!

Carlos Azevedo disse...

Tem razão, embora eu nem sempre consiga ser tão assertivo.

Mudando de assunto: arranjou alguma coisa da Mônica Salmaso por aí?

Helena disse...

Tenho andado numa correria tal que nunca mais tratei disso! Mas está na minha lista de desejos da amazon, onde vou gerindo os meus impulsos...

Carlos Azevedo disse...

Queria eu conseguir gerir os meus... :-)