14 janeiro 2026

joga pedra na Geni

 


Estava aqui a pensar que se um gajo tivesse sido indecente comigo num contexto profissional em que eu tinha de comer e calar, porque se piasse lixava a minha vida profissional, provavelmente iria sofrer esse abuso em silêncio. Mas talvez não conseguisse continuar calada se visse aquele que me fez tanto mal a ser permanentemente aplaudido no espaço público.
Seria certamente movida pela emoção, porque ninguém no perfeito uso da sua racionalidade, toda a sua racionalidade e nada mais do que a sua racionalidade cometeria o harakiri de erguer a voz contra um homem poderoso na nossa (ainda) coutada do macho latino.
Estava também a pensar que muita gente desconfiará que essa mulher foi paga para publicar uma mentira. O que me leva a perguntar: quantos milhões teriam de me pagar para deitar a minha vida e a minha tranquilidade a perder, passando a ter colado a mim, para sempre, o carimbo da gaja que fez queixinhas, sabe-se lá porquê, provavelmente até aceitou tudo enquanto foi subindo na horizontal, e quando já não precisava, a ingrata...
(não preciso de dizer mais, pois não? Todos sabem o que acontece às mulheres que ousam incomodar os homens.)
Não sei o que aconteceu. Ninguém sabe, excepto - provavelmente - os envolvidos.
Mas sinto-me pessoalmente ultrajada pela maneira como atacam a queixosa. É sempre o mesmo esquema de apedrejar a mulher. Hoje é ela, amanhã serei eu ou será a minha filha.
(Ah, e para os que dizem que ela só tinha de arranjar outro emprego, em vez de se sujeitar em silêncio, respondo: "a vergonha tem de mudar de lado". De um modo geral: no local de trabalho, quem está mal é a pessoa que abusa do poder que o seu cargo lhe dá. O "direito de pernada" tem de ser erradicado do perfil de um cargo de chefia. De facto, o envolvimento com um subordinado devia representar um risco real de perder o emprego de chefia. Desculpa, Michelle Obama.)

4 comentários:

CCF disse...

Tanto que concordo com o que escreveu, obrigada!

bea disse...

Acho imensamente estranho que tal confissão surja agora. No caso inverso, teria a mesma reacção. Seres que não prestam e são inteligentes e até profissionalmente muito competentes, existem. E isto é verdade para os dois lados. Porque um deles mente. O caso está em tribunal. É esperar pela sentença.

Mas talvez convenha a Helena pensar que nem todas as mulheres são iguais. Não sei nada dessa senhora além do que ela mesma disse.

Espiral disse...

Obrigada pelo post. Choca-me ainda isto ser tão díficil de entender por tantos e tantas

Helena Araújo disse...

Bea, não estranho absolutamente nada esta revelação ter surgido agora. Sei por experiência própria que uma pessoa guarda um segredo mau anos e anos, até que em determinado momento - por causa de uma frase, por causa de uma situação - soltamos o segredo sem sequer sermos capazes de pensar.

Imaginando que a acusação é verdade: o mais normal seria mesmo o segredo soltar-se neste momento em que a pessoa em causa está por todo o lado a tentar dar uma imagem muito lavadinha de si.
Tenho a certeza que eu própria faria isso: guardo segredo sobre os episódios e o nome de alguns homens que me fizeram mal. Se algum desses de repente aparecesse feito figura pública a pedir votos para ser eleito presidente da República, certamente diria a todos o que me fez a mim.

Quanto à questão sobre um deles mentir: não me compete a mim tecer considerações sobre o caso.

Mas, de um ponto de vista puramento lógico: o acusado tem de mentir para se safar; a que acusa deita imenso a perder, quer diga a verdade quer minta. E por que motivo havia uma mulher de sair da sua zona de conforto, quando tem um excelente emprego e um excelente currículo, para deitar tudo a perder?
É esse medo do apedrejamento que cala muitas mulheres. Não vamos apedrejar esta, que teve a coragem de falar.