27 junho 2025

Joana Marques

 

Já tenho dito, e repito: não gosto do tipo de humor do Extremamente Desagradável da Joana Marques. Incomoda-me o olhar impiedoso, sempre em busca do ridículo nos outros, e o dedo (sou só eu que o acho salazarento?) que se ergue a apontar e humilhar. Um humor que vive do "parece mal..." - esse ranço tão português.

Sim, bem sei que o Estremamente Desagradável está numa cruzada contra a flatulência dos conteúdos que enchem o espaço público. Mas não será que a nossa sociedade corre o risco de morrer da doença e também da cura?

Quer dizer: como seria viver entre nós, se todos andássemos na vida com o mesmo olhar trucidante da Joana Marques, sentindo-nos no direito (e no dever, dirão muitos) de confrontar todos os outros com o seu espelho? Dizem: ah, e tal, se não gostas tens bom remédio, não vejas! Concordo inteiramente, penso que é uma atitude muito razoável, e até gostava de fazer essa mesma sugestão à Joana Marques. Se ao menos criasse personagens estereotipadas, em vez de andar a rir-se de pessoas concretas! Dito isto: não percebo como foi possível o tribunal ter aceitado levar em frente a queixa dos querubins, espero sinceramente que decida de forma exemplar a favor da acusada (que, mais que a Joana Marques, é a liberdade da criação humorística), e estou disponível para contribuir caso seja criado um fundo para a ajudar a pagar as despesas que possa haver.


produção literária



As minhas obras de short fiction (ou, como diz na imagem, listas de to do) já vão em quatro folhas A4, autênticos mind maps.

Mas padeço do mal generalizado de ter muito mais vontade de escrever que de ler - hoje, por exemplo, estive desde as sete da manhã a tentar não ler o que eu própria escrevi naquelas quatro folhas de to do... Veio a tarde, e comecei a pensar em algo mais ambicioso:


E assim vai a literatura.

[ Hino do procrastinador profissional:
"amanhããããã
vai ser outro dia!
amanhãããã
vai ser outro dia!" ]

homilia

 

Começo com um episódio histórico: os encontros semanais de Oração Para a Paz  que começaram na Nikolaikirche em Leipzig, e decorriam desde 1982 às segundas-feiras ao fim da tarde, tiveram um papel de grande relevo no movimento não violento que levou à queda do muro de Berlim. No dia 9 de Outubro de 1989, dois dias depois das tensas comemorações do 40º aniversário da RDA, às duas da tarde a nave central já estava à pinha. Tentando controlar a situação, o regime enviara membros do partido para encher a igreja. O pastor Christian Führer ficou contentíssimo: era uma magnífica oportunidade para dar a conhecer a essas pessoas a mensagem do sermão da montanha. 

Dito isto, deixem-me sonhar um bocadinho: seria possível pedir aos padres da Igreja Católica em Portugal que tivessem sempre a mesma homilia preparada para o caso de Vintruja aparecer na missa deles?

Mal o quarto pastorinho se viesse exibir numa igreja, o tema do dia passava a ser: o que diz a Bíblia sobre como tratar refugiados, imigrantes e estrangeiros. Sempre. 



25 junho 2025

oração

Mascha Kaléko ataca de novo.


Esta manhã, o Joachim foi à sua estante dos livros de desde sempre e trouxe-me um da Mascha Kaléko.
Mais uma vez se confirma: a interessada é sempre a última a saber!

Abri numa página ao acaso, dei com um poema chamado "oração", que termina assim:

"E deixa-nos ser sós, mas não abandonados."

Caramba!

Folheio mais. Eis-me de novo a sentir pena de quem não fala alemão.
E só porque gosto muito de quem por aqui passa, deixo uma ideia do que por lá vai (em tradução apressadíssima e sem rima, como sempre).

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Oração

Senhor, a nossa vida breve, um entretanto,
Em que o nada repartimos pelo nada.
E os nossos anos: vestígios, que se esbatem,
E todo o nosso ser: não mais que um por enquanto.

Que sabes tu, cego, do sofrimento dos mudos!
Não haverá um rei nas vestes de um mendigo?
Quem somos nós para decidir veredictos?
Fomos criados para acreditar e para fazer.

Dá-nos o conhecimento sem muito perguntar.
Ensina-nos a humildade de perdoar sem dívida.
Dá-nos a força para tudo isto suportar,
E deixa-nos ser sós, mas não abandonados.

e mais não quero

 


Meu reino por uma informação: onde é que este simpático rapaz mora?
Melhor dizendo: metade do meu reino pela informação, e a outra metade para comprar o apartamento por baixo, por cima ou ao lado do dele.
E mais não quero.

24 junho 2025

Mascha Kaléko


Fique registado que no dia 23 de Junho de 2025 descobri a poeta Mascha Kaléko (1907-1975), e que a descobri por um poema que me deixou o dia inteiro a pensar como podia ser traduzido. 

De modo que agora tenho duas dúvidas: como traduzir este poema, e como me aconteceu ter andado tantos anos sem saber da existência da Mascha Kaléko. 

O problema central da tradução deste "Take it easy!" é que usa uma expressão idiomática, "pôr no ombro fácil" em tradução literal, com o sentido de não levar as coisas muito a sério. Pensei em "fechar um olho", mas a expressão portuguesa tem uma conotação mais próxima de tolerar algo que se sabe não estar certo - o que não é bem a mesma coisa. Seria mais "deitar para trás das costas", mas o texto exige que haja um contraponto, e fazê-lo com costas e barriga era o anticlimax do poema. Porque, convenhamos, na tradução de poemas, o meu desplante vai ao ponto de virar os versos sem pensar na métrica, nem na rima, nem no ritmo, nem na música -  mas anticlimax já é abuso! Até para mim. 

Portanto, para os mais curiosos, aqui deixo a tradução do sentido do poema, usando a tradução literal da expressão idiomática:


"Take it easy!"

Tehk it ih-si, dizem-te
Em inglês, para mais. 
"Põe no ombro fácil!"

Acontece que tens dois.
Põe sobre o fácil. 

Obedeci a este imperativo
Popular humanitário.
E fiquei torta. 
Porque o outro ombro
Também existe.

Por desdita há então que se forçar 
A escolher, às vezes, o mais difícil. 



Mascha Kaléko nasceu em 1907 em Chrzanów, perto de Auschwitz, filha de um casal de judeus - de mãe austríaca e pai comerciante russo. Em 1914, por causa da guerra, ou talvez por causa da violência crescente dos pogroms no Leste da Europa, a família decide fugir para a Alemanha, onde não é bem recebida. Devido à sua nacionalidade, o pai chegou a estar preso num campo de "estrangeiros inimigos".

(...) Já tinha seis anos, e ainda acreditava
Que no fim das guerras havia paz.


Em 1918, instalam-se em Berlim. Mascha aprende secretariado, e observa a Berlim dos anos vinte. Escreve de forma simples sobre o que conhece e vivencia. O quotidiano na grande metrópole. O amor e a fragilidade. A condição das jovens mulheres emancipadas daquela época, a sua tosca emancipação ("Vivemos de pão e chá / porque é barato. / Por vezes há quem nos ofereça um souper / ...se estivermos disponíveis. (...) De nada serve todo o crêpe satin / Somos os que somos: apenas manequim."). Escreve sobre a liberdade de costumes dessa década berlinense ("Aqui e ali beijos em bancos tranquilos / - ou então em barcos a remos. / O erotismo é reservado para os domingos. / ...E quem se lembra de pensar no futuro? / Chamamos as coisas pelos nomes, e só raramente coramos."

No famoso Romanisches Café, mesmo em frente à Gedächtniskirche (onde é agora o centro comercial Europa-Center, ao fundo do Ku'damm), consegue passar da "piscina dos pequeninos" para a "piscina dos nadadores", a pequena sala à esquerda onde diariamente se encontram os mais importantes jornalistas, críticos, escritores, artistas plásticos, músicos e actores daquela época: Else Lasker-Schüler, Gottfried Benn, Georg Grosz, Alfred Döblin, Bertolt Brecht, Hanns Eisler, Erich Kästner, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque e tantos outros.

No final dos anos vinte já é uma autora aclamada. O primeiro livro publicado esgota rapidamente. Diz-se que só a poesia de Goethe vende mais. 

Trabalho oito horas como empregada
Por má paga cumpro as tarefas do dia
Em certas noites escrevo poesia
O meu pai diz, era só o que nos faltava. 

A pouco e pouco, chega a mudança radical. Os nazis conquistam o poder. No centro de Berlim, na praça entre a ópera e a universidade, atiram livros à fogueira. Por agora, os livros de Mascha Kaléko escapam, porque o regime ainda não se deu conta de que é judia. No Romanisches Café, aparece um grupo de homens em uniforme a perguntar por Walter Mehring, cuja recente peça de teatro irritara os nazis. Mascha Kaléko arma-se em inocente, distrai-os com uma longa conversa, enquanto Mehring escapa discretamente do local, atravessa a praça em direcção à estação do Jardim Zoológico, e apanha sem demora o primeiro comboio para Paris. Em 1937, o seu editor dá-lhe a terrível notícia: está proibida de trabalhar como escritora e de publicar. 

Em Setembro de 1938 consegue fugir para os EUA, com o filho e o marido. Mesmo a tempo! Um mês mais tarde, o regime nazi declara que os passaportes de judeus já não são válidos, e dois meses mais tarde incendeia sinagogas e empresas de judeus em todo o país. Mascha Kaléko e a família estão a salvo em Nova Iorque, mas ela não se sente feliz ("Tudo à minha volta desabrocha à luz do sol / Mas esta Primavera não é a minha"). O casal tenta criar em Greenwich Village um café com um ambiente semelhante ao do Romanisches Café, mas sem sucesso. Torna-se claro que esse tempo passou, e não voltará nunca. O marido é músico, encontra facilmente trabalho. A poeta em língua alheia vê-se remetida para funções de mãe, esposa e assistente do marido. 

Os homens com ofício têm sempre
um tesouro, normalmente feminino.
O que faz falta às mulheres
É a "esposa do artista". Ou um substituto equivalente. 
Mesmo que não seja uma Vénus,
Com doce boquinha de rosa,
Está por ali, escreve bem à máquina, e cozinha.
(...)
Quando Siegfried desembainhava a espada, e Don Carlos o punhal, 
raramente os chamavam para irem mudar as fraldas ao bebé. 
A alma de Petrarca, afastada do mundo, compunha os seus poemas
Livre de obrigações tais como limpar os legumes.

Bem gostaria de continuar estas linhas, mas, como sempre, tenho de interromper.
- O meu marido chama. Quer falar comigo sobre o seu próximo concerto


Regressam a Berlim em 1956, e Mascha Kaléko dá-se conta de tudo o que já não existe na sua cidade  tão amada: 

Berlim na primavera. Berlim sob a neve.
O meu primeiro livro numa livraria.
Os amigos no Romanisches Café.
O tanto que vejo que já não vejo!
Tão alto me falam as pedras de "Pompeia"!
Engolimos ambos o remédio por fim.
Pompeia sem pompa. Bonjour, Berlin!


Numa retrosaria da Uhlandstraße, ao comprar um artigo qualquer, é reconhecida pela vendedora, que vai ao fundo da loja buscar o seu livro "caderno lírico de estenografia", a primeira edição de 1933. Diz-lhe que o guardou durante todo aquele tempo terrível, e pede-lhe um autógrafo. 

Outros encontros não são tão aprazíveis. O tempo da inocência já vai longe. No país que quis exterminar um povo, nunca sabe com quem está a falar, que tipo de experiências fez essa pessoa, como a vê, e que espécie de discurso espera dela. 

Em 1956, ao saber que o prémio Fontane, da Academia das Artes de Berlim, lhe será entregue por um antigo membro das SS, recusa-se a recebê-lo. O secretário geral da Academia tenta persuadi-la a aceitar, diz que o escritor e membro do júri já ultrapassou há muito aquele seu erro de juventude, que é muito bem visto em toda a sociedade. Diz-lhe que a Academia se sente muito satisfeita por conseguir atrair um crítico tão conceituado, pede-lhe para considerar que ele precisa daquele cargo porque não consegue viver apenas do que escreve, e que todos temos uma família para sustentar. Apela à sua sensibilidade e empatia de mulher. Ela explica que, como emigrante, também não tem a vida fácil. No estrangeiro, perguntam-lhe como se pode identificar de novo com o mundo da escrita de um país que continua a manter nazis em lugares de destaque. Que irá ela responder depois de receber um prémio de literatura das mãos de um antigo SS? Não, por muito que o prémio a honre e o montante lhe faça falta, não pode aceitá-lo nestes termos, nem como escritora nem como judia. O director explode: "Não sou judeu, e passei por dificuldades iguais ou até maiores que os judeus. E não é possível acusá-lo eternamente por causa de um erro de juventude. Só se tornou SS por ser tão alto. Tudo isso já foi ultrapassado e está resolvido..."

Nunca mais foi nomeada para um prémio de literatura. 

Como sempre, continua a escrever poemas sobre a sua vida e os seus contextos. Os editores pedem-lhe mais leveza, mais humor, tal como escrevia antes. A vida é difícil para todos, dizem, o público precisa de textos estimulantes. Os poemas melancólicos e desanimadores não fazem falta a ninguém. 

A Alemanha do pós-guerra remete Mascha Kaléko para o esquecimento. O seu nome não consta dos léxicos da literatura alemã, nem mesmo em 1990. E a sua obra integral só é publicada em 2012. E talvez isso ajude a explicar porque andei todos estes anos sem saber dela. 

O casal emigra para Israel em 1960. Nova língua, novo exílio. 

Para onde quer que viaje, 
O meu destino é Nenhures.
 

    

E também:



Inventário

Casa sem telhado
Criança sem cama
Mesa sem pão
Estrela sem luz.

Rio sem cais
Montanha sem cabo
Pé sem sapato
Fuga sem destino.

Telhado sem casa
Cidade sem amigo
Boca sem palavra
Floresta sem cheiro.

Pão sem mesa
Cama sem criança
Palavra sem boca
Destino sem fuga. 


Termino com um poema seu (traduzido, tal como todos os anteriores, muito à pressa) que parece uma mensagem enviada ao nosso tempo:


Neste tempo

Não temos outro tempo senão este, 
Que para nós inclina escasso copo.
Temos de beber. Uma segunda vez
Não floresce para nós.  À distância, já um monstro:

Efemeridade. Somos meros seres fugazes
Por trás de toda a luz, a palidez nos avisa.
Já se derrama em nós o gelo de um brilho tardio
E somos velhos antes de ter sido jovens.

Chegámos outrora com a credulidade da infância
A um século devastado pela tempestade. 
Ainda temos esperança. Dentro de nós um silêncio de espanto.
Mas só recebe ajuda quem grita.

Por vezes sonhamos com o paraíso
E o desejo de felicidade nos envergonha.
Famintos, tentamos conquistar o nosso pedaço. 
- Não temos outro tempo senão este...


---

Quase todas as informações contidas neste texto foram retiradas de um programa da SWR3, de 5.1.2025:

„Ich habe mit Engeln und Teufeln gerungen“ – Lebensspuren der Dichterin Mascha Kaléko, de Simone Hamm.

Mais alguns poemas:

- Traduzidos para 
português: https://escamandro.wordpress.com/2018/06/27/mascha-kaleko-por-valeska-brinkmann/  

- E para inglês: https://thehighwindowpress.com/2022/08/08/mascha-kaleko-four-poems/ 

- E para espanhol: https://poemashumanos.com/2018/09/13/y-patria-es-solo-donde-estoy-contigo-tres-poemas-de-mascha-kaleko/

E um pouco de música: https://www.deutschelyrik.de/einmal-sollte-man.html


19 junho 2025

aniversário

Hoje o meu deus faz anos (meu e de mais ninguém, ouviram?)
De modo que vou daqui até ao Mezio - onde tenho encontro marcado para uma caminhada no Parque e outras coisinhas mais - a cantar as tantas canções dele que sei de cor: diz que Deus diz que dá, se eu só lhe fizesse o bem, se acaso me quiseres, o primeiro me chegou, quando olhaste bem nos olhos meus, vai meu irmão, mirem-se no exemplo, apesar de você, e agora eu era o herói, pai afasta de mim esse cale-se, olha será que ela é moça, eu faço samba e amor até mais tarde, e muitas mais, e mais todas as dos Saltimbancos.
Com tanta cantoria ainda me perco no caminho, e ainda vou ter a um ermo com uma azinheira (ou um carvalho), e ainda me aparece a mãe deste meu deus lá em cima dos ramos, e eu então, digo-lhe assim:

- Obrigada. 

11 junho 2025

e assim ia a vida

Lembra-me o facebook que há onze anos estava a mudar de casa, e não foi fácil:

Ponto da situacäo:
- estamos vivos
- mas a nossa internet nem por isso (parece que vem cá hoje um homem fazer näo sei que ligacäo, e depois parece que é só esperar mais um bocadinho, até ao Outono, disseram)
- ao fim de 4 camiöes de mudancas descobri que o meu mal é síndroma da personalidade múltipla:
-- livros? sou o Pacheco Pereira
-- quadros? parece a despensa do Gurlitt - literalmente, excepto no que diz respeito ao nome dos autores
-- sapatos? acabei de descobrir que sou a Imelda Marcos
-- agilidade? sou o Tarzan, movendo-se por entre uma selva de caixas - e nem preciso de lianas
E assim vai a vida.

03 junho 2025

se andam com falta de sorrir, venham!

 



Sabem aquilo de chegar Novembro e eu ter pena de todos os portugueses que não estão em Berlim para poderem ver bom cinema português nos Portuguese Cinema Days in Berlin?

Pois bem: quando Maomé não vai à montanha...

No próximo sábado, em Lisboa, há uma sessão de homenagem a Maria Teresa Horta, que inclui o revolucionário filme de António de Macedo, Verão Coincidente (1963), baseado num poema da escritora, e O Que Podem as Palavras (2022), o documentário sobre as autoras das Novas Cartas Portuguesas que encantou o público berlinense quando passou aqui, em Novembro de 2024.

Já conto o resto do programa, mas deixem-me parar um pouco mais neste documentário: demorou dez anos a ser concluído, e, enquanto avançava e não avançava, as escritoras morreram. Ficou apenas Maria Teresa Horta, e as entrevistas preparatórias que nem tinham sido feitas para entrar realmente no filme. O resultado é um milagre: um relato a três vozes que encaixam perfeitamente umas nas outras, e de onde emana uma enorme alegria de ser e de resistir.
Se andam com falta de sorrir, venham ao Cinema Ideal no próximo sábado às 4 da tarde. Se querem conhecer/lembrar os meandros daquele julgamento e da primeira acção feminista internacional em defesa daquelas valentes portuguesas, venham também.

Mas o programa vai muito além disto. Após a exibição, haverá uma conversa com a realizadora Luísa Marinho, António de Sousa Dias e Manuel Neves, moderada por Anabela Galhardo Couto.
Vão falar de um tema menos conhecido na vida de Maria Teresa Horta: a sua ligação ao cinema.
Não haverá certamente muitas mais oportunidades na nossa vida para ouvir Manuel Neves contar como, ali para o início da década de 50 do ano passado, o ABC Cine-Clube de Lisboa passou um filme extraordinário, que atraiu um grupinho de gente jovem, entre os quais vinha aquela rapariga a quem ele, algum tempo depois, viria a pedir que assumisse a direcção do cineclube, porque o regime não lho permitia a ele. E foi assim que Maria Teresa Horta se tornou a primeira mulher portuguesa à frente de um cineclube, e foi humilhada pela PIDE, e começou a arranjar sarilhos com a ditadura, aos 18 anos acabadinhos de fazer.

Caso queriam saber mais, encontramo-nos no próximo sábado, 7 de Junho, às 4 da tarde, no Cinema Ideal.

Bilhetes (5€/4€) à venda na bilheteira do cinema, ou online:
https://bilheteira.cinemaidealemcasa.pt/ (se não for possível comprar, tentem entrar por outra página do site, ou passar do PC para o telemóvel, ou vice versa)
Mais informações: https://www.facebook.com/events/1250223019866617



02 junho 2025

duas vezes Ligeti

 

1. Bem sei que tenho "Ligeti" no título do post, mas de facto é: Barbara Hannigan, Barbara Hannigan, Barbara Hannigan!



2. O segundo Ligeti é esta peça para cem metrónomos. Recomendo muito pôr várias janelas com este filme a tocar ao mesmo tempo, muito baixinho. Uma pessoa até se sente na Amazónia, num daqueles momentos em que o céu nos cai em cima da cabeça feito chuva.


A wikipedia diz sobre ela:
"The piece requires ten "performers", each one responsible for ten of the hundred metronomes. The metronomes are set up on the performance platform, and they are then all wound to their maximum extent and set to different speeds. Once they are all fully wound, there is a silence of two to six minutes, at the discretion of the conductor; then, at the conductor's signal, all of the metronomes are started as simultaneously as possible. The performers then leave the stage. As the metronomes wind down one after another and stop, periodicity becomes noticeable in the sound, and individual metronomes can be more clearly distinguished. The piece typically ends with just one metronome ticking alone for a few beats, followed by silence, and then the performers return to the stage.[1]
The controversy over the first performance was sufficient to cause Dutch Television to cancel a planned broadcast recorded two days earlier at an official reception at Hilversum's City Hall on 13 September 1963.[2][3] "Instead, they showed a soccer game".[4] Ligeti regarded this work as a critique of the contemporary musical situation, continuing:
but a special sort of critique, since the critique itself results from musical means. ... The "verbal score" is only one aspect of this critique, and it is admittedly rather ironic. The other aspect is, however, the work itself. ... What bothers me nowadays are above all ideologies (all ideologies, in that they are stubborn and intolerant towards others), and Poème Symphonique is directed above all against them. So I am in some measure proud that I could express criticism without any text, with music alone. It is no accident that Poème Symphonique was rejected as much by the petit-bourgeois (see the cancellation of the TV broadcast in the Netherlands) as by the seeming radicals. ... Radicalism and petit-bourgeois attitudes are not so far from one another; both wear the blinkers of the narrow-minded.[5] Poème symphonique was the last of Ligeti's event-scores, and marks the end of his brief relationship with Fluxus.[6] The piece has been recorded several times, but performed only occasionally."

3. E como não há dois sem três... Aqui ficam os nonsense madrigals. Uma reinvenção.


01 junho 2025

 



Diz-me o Facebook que faz ontem um ano estava de novo a ser feliz na Filarmonia: 1.6.2024 Ontem regressei ao Simon Rattle (ou ele a mim) e foi lindo – tudo!
A peça que Jörg Widmann escreveu para o trompista Stefan Horn (estreia mundial, e se calhar primeira e última vez que é tocada, que esta peça é um inconseguimento programado para qualquer trompista, excepto o Stefan Dohr) (hum...hum... acabei de ser desamigada por todos os trompistas do mundo, excepto o Stefan Dohr) era uma delícia de surpresa e humor.
Dei comigo a pensar que estava muito mais certa na batuta de Simon Rattle que na de um Petrenko: ali estava ele, o Simon Rattle da inovação e do risco, do prazer do inesperado na música, do humor. O Simon Rattle dos Late Night.
Na 6ª de Bruckner: ali estava o Simon Rattle a dirigir a música tantas vezes apenas com a expressão do rosto, a tirar desta orquestra toda a transparência, a profundidade e a subtileza de que ela é capaz.
E ali estava eu num dos bancos do coro, por trás da percussão, tão perto que bem podia ser mais uma da orquestra, encantada e com as costas a doer, sem tirar os olhos do maestro.
Uma sinfonia inteira a sorrir.
Havia várias cadeiras vazias na sala, teria sido possível sair dos bancos do coro e ir ocupar um lugar mais confortável. Mas ficaram todos. Desconfio que tinham tantas saudades como eu de ver o Simon Rattle a comunicar com a orquestra.