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15 janeiro 2026

*naperon*

 


Tenho um armário cheio de naperons herdados de outros tempos. Já não vou para nova: nasci na época dos naperons em cima da televisão e debaixo dos objectos que povoavam mesas, mesinhas e aparadores, e lembro-me bem do naperon 2.0 desses dias: o chapeu de crochet à volta do rolo de papel higiénico que se via em muitos carros, por trás do vidro traseiro.

Muitos dos naperons no meu armário, se já cá estavam quando nasci, são certamente centenários. Portanto, tenho um museu em casa, e nele guardo testemunhos de mulheres que sabiam criar o belo com as suas mãos. Do tempo em que criar o belo com as mãos era um acto natural de vida das mulheres.

Os naperons, concedo, eram um bocadinho inúteis. Mas nada era inútil na passagem de saberes (agora metes a agulha assim, agora dás uma volta, agora puxas), naquele prazer de se entregar à criação, no trabalho meditativo e no domínio da matemática, no brilhozinho dos olhos ao mostrar os trabalhos terminados e perfeitos: prodígios do saber fazer. Nada era inútil na minha própria aprendizagem, no decifrar dos esquemas das revistas, na imensa certeza de que também eu seria capaz de criar algo belo. Não sei quem fez esses naperons, que guardo quase religiosamente e não uso. Não sei que avó, tia, prima ou amiga. Que vida, que preocupações teriam. Em que momentos se aquietavam em paz, a bordar ou a fazer crochet.

Mas, de certo modo, todas elas estão juntas no meu armário - não como num cemitério, "aqui jaz", mas como num lugar de encontro: "aqui vive". [ Na imagem: um naperon de renda de bilros, feito por alguma mulher do sul da Alemanha, que encaixilhei (já que as televisões actuais não dão para pôr naperons em cima...) ] **** As outras mulheres que se encontram no Largo:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

1 comentário:

  1. Tenho assim um naperon encaixilhado, mas foi oferta; os que herdei estão mesmo a uso (exceptuo dois que, pela delicadeza da linha e desenho merecem também caixilho, mas a minha preguiça guarda em gaveta). Acho uma beleza incrível nesses pontos miudinhos, feitos à luz da candeia, roubando horas ao sono, ou na breve hora do almoço. Quanto de sonho vai neles, quanta frustração tecida e desenleada nos seus nós pequenos - é o que penso ao lavá-los manualmente na tentativa de prolongar uma vida datada.
    Infelizmente ninguém me ensinou o crochet que aprendi só por teimosia individual e já perto dos 50; não me seduziu. Também não me parece que algum dia me dedicasse aos naperons, prefiro coisas mais úteis.

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