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Lembro-me bem da mercearia do senhor Oreste na aldeia da minha avó. Tinha todos os produtos a granel, e as pessoas pediam "275 gr de arroz" e "um naco de sabão rosa". O arroz era pesado dentro de um pacote de papel grosso, o sabão era cortado na guilhotina (esqueci-me de reparar se era a mesma guilhotina do bacalhau). As conversas ao balcão, as gargalhadas, "hoje o meu home tomou banho e fez a barba, fuosca-se que está que parece um cuzinho de menino", "jazus, mulher, tu que estás a fazer aqui na benda? bai é aprobeitar, caraites!", "ai bou, bou, carailhos me fuadam se não bou, que ele está mesmo a pedir que lhe façam cócegas!"
Lembro-me quando começaram a vender o óleo e as massas em embalagens de plástico, e começaram a usar latas de conserva. Na casa da minha avó surgiu um problema novo: o que fazer com esse lixo? Até então, as cascas e os restos de comida eram para os porcos ou as galinhas, o papel era queimado na lareira onde havia sempre uma fogueira (para cozinhar, para ter água quente), as garrafas de vidro davam jeito para engarrafar o vinho e o azeite.
Uns anos mais tarde abriram supermercados na aldeia da minha avó. Self-service, com todos os produtos exageradamente empacotados. Sem pessoal a servir, nem conversas ao balcão. Por essa altura já a aldeia se tinha organizado para recolher o lixo.
Hoje abre em Berlim um supermercado sem embalagens. As pessoas levam as suas próprias embalagens reutilizáveis. A ideia ocorreu a duas amigas de 24 e 30 anos, no fim de um belo jantar com uns copitos de vinho e um caixote de lixo cheio. Fizeram projectos e contas, divulgaram na internet, e em meia dúzia de dias receberam 70.000 euros em donativos para se lançarem nesta aventura. Curiosamente, a ideia de uma loja sem embalagens já me tinha ocorrido em 1991. Não tinha ainda 30 anos, estava muito infeliz no meu emprego e a pensar no que havia de fazer com o resto da minha vida. Mas, vejo-o agora, naquele momento faltou-me a amiga e os copos de vinho certos.
Mas o melhor, o melhor de tudo, era se o senhor Oreste voltasse, com os seus sacos enormes pousados no chão e a sua guilhotina, e as mulheres em conversas alegres ao balcão. Talvez seja esse o verdadeiro nicho de mercado: uma mercearia onde se vai estar com as pessoas do bairro, e se aproveita para fazer as compras sem poluir ainda mais o nosso mundo.
Mas é que é mesmo. Ou então insistir em conversar com as meninas da caixa do supermercado que se frequenta. Torna-se muito mais simpático.
ResponderEliminarPois é, Gi, mas isso de conversar com as meninas da caixa, só mesmo se não houver ninguém atrás de nós, cheio de pressa.
ResponderEliminarE em muitos supermercados já começaram a substituir as meninas por máquinas. Poupar no pessoal, poupar no pessoal...