25 maio 2021

sulcos na paisagem


De regresso a Berlim, num ICE a 250 km/h - fotos tiradas com o telemóvel para não fazer barulho, e com um vidro sujo de permeio (como se vê bem na primeira).












Frankfurt am Main


Por ter dito mal de Frankfurt num post anterior, levei uma boa ensaboadela por parte de quem sabe. Para não me acusarem de fazer caixinha, partilho o roteiro que me ofereceram:


"Frankfurt nao é uma cidade turística, mas é uma cidade peculiar e interessante.

O mais interessante de Frankfurt é o seu internacionalismo. Tem de se conhecer bem, mas os sítios onde comi melhor na Alemanha foi em Frankfurt. Comida alemã, japonesa, tailandesa e brasileira. Há um espírito um bocado idiota dos jovens consultores em Frankfurt (os meus amigos que me perdoem), mas isso fez a cidade uma mistura (muito moderna e cheia de gadgets) muito interessante.

O meu passeio favorito era o triângulo de Sachenhausen (porque morava ali perto), começar com brunch na Schweizerstrasse, descer ao rio, virar para Este junto ao rio até ao Brückenviertel e subir de novo até Südbahnhof ou Localbahnhof.

O Palmengarten é maravilhoso e tinha concertos ao ar livre brutais.

Mas o que eu gostava mais eram os passeios bucólicos junto ao rio. Comecava em Frankfurt e acabava em Offenbach."


22 maio 2021

voltar a lugares onde tentámos ser felizes



Esta manhã voltámos ao mercado onde costumávamos começar os sábados numa vida longínqua: antes de San Francisco, antes de Weimar, antípodas de Berlim. Estava igual ao que lembrávamos, excepto faltar o stand francês de frangos grelhados onde uma Christininha de 3 anos comprava sozinha o nosso almoço, muito orgulhosa por desempenhar uma tarefa tão importante - e nós a alguns metros, atentos e tão orgulhosos como ela, um pouco comovidos até, sem nos darmos conta da vida a acontecer demasiado depressa, e que tínhamos o pé no acelerador.


No stand das ervas aromáticas pedi autorização para fotografar, e eles protestaram: que devia ter vindo no princípio da manhã, quando estava realmente lindo. Fiquei a pensar que não é dado a todos começarem a manhã encantados com a beleza do seu trabalho.


 






Na banca dos espargos cheguei um pouco mais à frente para ver o que o Joachim ia comprar. O casal ao meu lado pediu que fosse de novo para trás, porque não estava a respeitar a distância de segurança. O que era verdade, mas: ao lado deles havia ainda dois metros livres, enquanto do nosso lado uma mesa impedia que eu chegasse perto da banca. 


De modo que me voltei a lembrar dos motivos para não ter muitas saudades desta terra e das suas gentes. 


Passámos ainda pela nossa antiga rua, mas não fomos verificar se os vizinhos ainda eram os mesmos. Já lá vão mais de vinte anos - se viessem à porta, que lhes diríamos? 

("Quanto é que as vossas filhas calçam agora? Ali atrás estão a dar uns sapatos impecáveis.") 







viagem de comboio




Ontem fizemo-nos ao Sul em viagem de comboio. 

(Este país é comprido que se farta!)


O tempo estava como em Berlim: dependia do lado para onde se olha. Não consegui fotografar um arco-íris muito bonito que havia no caminho. Em troca, fiz imagens aleatórias de comboios em Fulda. Onde estava uma luz linda - a paisagem é que nem por isso. 






Pouco depois o arco-íris reapareceu, mas antes de conseguir fazer uma fotografia apresentável levei com novo comboio a armar-se em oferecidinho para imagens aleatórias.




Frankfurt am Main: com sky line, e rio , e lua, e comboios e tudo. 

(Uma das muitas cidades alemãs onde não me apetecia nada viver)





Ao chegar ao destino, comecei a temer o pior: toda a gente que passava por mim estava muito encasacada. E eu com um vestidinho de verão, porque seis horas antes Berlim estava bem quente. Mas tudo acabou por correr bem: ainda não foi desta que tive um congelamento instantâneo ao sair do comboio. 


(Perdi uma grande oportunidade de ter cinco minutinhos de fama, mas estava capaz de apostar que foi melhor assim.)  


21 maio 2021

viver no campo

 Por estes dias tenho andado - derreada, suada, desgraçada das costas - feliz.






19 maio 2021

nazis, Israel/judeus, europeus: o que há por trás de certas caricaturas

Lá vamos nós outra vez: a tragédia Palestina/Israel agudiza-se, e recomeçam as caricaturas que comparam o que Israel faz aos palestinianos com o que os nazis fizeram aos judeus - o Holocausto em Gaza...

Fico sempre incomodada com este tipo de comparação, e passo a explicar porquê:

1. O cinismo e a hipocrisia dos europeus  

Foi um gravíssimo erro instalar um país novo no território dos palestinianos, algo que nunca devia ter acontecido e deu origem a uma sucessão de crimes contra aquele povo e contra a nossa ideia de Humanidade: quotidiana tragédia desde 1940, sem fim à vista e cada vez mais aguda. 

Mas que não haja dúvidas: na origem desta catástrofe estão os europeus - o anti-semitismo dos europeus, a sua má vontade contra os judeus e a sua má consciência por causa do Holocausto. Os europeus e os seus pogroms contra judeus ao longo dos séculos; os europeus que participaram (em muitos casos de bom grado) na máquina do Holocausto e os que fizeram de conta que não viam nada do que acontecia, ou decidiram que não podiam fazer nada (a este nível, os EUA também não lhes ficaram atrás - veja-se por exemplo o caso do navio Saint Louis cheio de refugiados judeus, ou a recusa de bombardear os acessos ferroviários a Auschwitz); os europeus cujo anti-semitismo continuou de óptima saúde mesmo após a derrota dos nazis. 

Os nazis não eram os únicos anti-semitas da Europa. Mesmo depois da guerra, em muitos países europeus os judeus continuaram a ser perseguidos e assassinados ou, pelo menos, mal vistos. Em 1945, o "problema dos judeus europeus" não era apenas o problema de centenas de milhares de sobreviventes profundamente traumatizados que precisavam de um território seguro para viver, mas sobretudo o problema de vários países que não queriam ter nada a ver "com essa gente", e que desenharam uma solução confortável para si próprios à custa dos palestinianos.

Se a Europa não tivesse um forte interesse em ver-se livre dos judeus europeus, Israel nunca teria chegado a existir. Foram os países ocidentais que escolheram os palestinianos para pagar o preço dos erros cometidos ao longo dos séculos pelos europeus, e foram os países ocidentais que trataram os palestinianos como seres humanos de segunda, tal como antes já tinham feito com os judeus. 

Se queremos acusar Israel de genocídio, lembremos então que um dos elementos centrais deste - a negação da humanidade do "outro", que no caso dos palestinianos começou pela negação da sua própria existência ("uma terra sem povo para um povo sem terra") - teve origem nos países ocidentais.

Portanto, desde já: a tragédia a que assistimos na Palestina não é só uma história de Israel contra os palestinianos - é o resultado directo do que, após a queda dos nazis, uma Europa anti-semita fez aos judeus e aos palestinianos para resolver o problema que ela própria tinha com os judeus europeus. Temos grandes responsabilidades nesta situação. E só por isso já devíamos pensar duas vezes antes de dizer que os judeus (ou Israel) é que são os maus da História, e de andar a partilhar caricaturas em que Israel aparece conotado como nazi.


2. O sadismo dos europeus

Há algo de muito sádico e perverso no facto de pessoas do continente que mais mal fez aos judeus - os pogroms, as expulsões, o Holocausto - se servirem justamente deste crime contra a Humanidade, que nos devia envergonhar e aterrar para sempre, para fazer caricaturas com o objectivo de humilhar e envergonhar os judeus (ou Israel). 

Bem sei que estas caricaturas pretendem apenas afirmar que Israel faz aos palestinianos o que os nazis fizeram aos judeus, mas, mesmo que a comparação fosse factualmente correcta (v. ponto seguinte), imaginem uma mulher que conseguiu não se dar conta de que o marido abusava sexualmente do seu filho, dia após dia, noite após noite, e desata a ralhar com o filho  quando descobre que este, por sua vez, abusou de outras crianças, "Olha lá, isso é coisa que se faça? O raio do rapaz não tem vergonha de abusar dos mais pequenos! Então tu tens o desplante de fazer aos outros o mesmo que te fizemos a ti na nossa casa, seu grande mau carácter?!"
Nós, os europeus que desenhamos, apreciamos e partilhamos aquelas caricaturas de Israel, somos essa mulher.  


3. A equiparação dos crimes cometidos contra os palestinianos ao genocídio levado a cabo pelos nazis:

- Penso que há uma diferença grande entre querer exterminar um povo e querer expulsar um povo do seu território. Lembro que a Alemanha nazi fechou as fronteiras para não deixar escapar mais nenhum judeu, porque os queria matar até ao último, enquanto Israel comete todo o tipo de crimes e atropelos com o único objectivo de dificultar ao máximo a vida aos palestinianos no seu território, de forma a que estes acabem por se ir embora. É um crime, mas não é o mesmo crime que os nazis cometeram contra os judeus. 

- O genocídio dos judeus europeus (e, já agora, dos cristãos arménios, ou dos Tutsi no Ruanda) resultou numa redução brutal dessa população na área onde vivia. No princípio do século XX havia 11 milhões de judeus na Europa, e 6 milhões foram assassinados no Holocausto. Já na Palestina, passaram de 1,2 milhões em 1947 para quase 5 milhões em 2019. Em vez de reduzir drasticamente, a população quadruplicou. Tanto melhor, obviamente, mas seria o primeiro caso de genocídio no qual a população quadruplica em vez de ser dizimada.

- Quanto aos números de vítimas: em 75 anos, a ocupação da Palestina fez cerca de 14.000 vítimas no lado palestiniano. Esse número corresponde a um pouco mais de 1% da população palestiniana no início do conflito. Os nazis assassinaram mais de 50% da população judaica da Europa em cinco anos e meio. O que Israel fez ao longo de 75 anos, faziam os nazis em cinco dias. 
Independentemente do número de vítimas, é sempre um crime contra a Humanidade. Mas não podemos afirmar que Israel está a cometer assassinatos em massa tal e qual como os nazis. 

Se é para comparar com outros crimes semelhantes, o mais próximo que me ocorre é a invasão do Iraque pelos EUA. Segundo estimativas, só nas primeiras seis semanas da invasão o exército norte-americano terá matado entre onze mil e catorze mil iraquianos. O que Israel fez em 75 anos, fizeram os EUA em seis semanas (e foi apenas o princípio). O "problema" é que uma caricatura que compare Israel/Gaza a EUA/Iraque não funciona da mesma maneira, porque lhe falta um ingrediente forte: o anti-semitismo que rejubila ao ver os judeus humilhados por imagens do Holocausto aplicadas contra Israel. 

- Quanto à brutalidade: quem afirma que Israel trata os palestinianos como os nazis tratavam os judeus, devia talvez relembrar as execuções em massa de centenas de mulheres, crianças e velhos nus em frente à sua própria vala comum; ou as pessoas metidas à força em carruagens de gado para fazerem viagens de vários dias, apinhadas e em pé, sem água nem comida; ou a triagem à chegada do comboio, e o envio directo de centenas de pessoas para câmaras de gás, dia após dia; ou o laboratório de experiências onde por exemplo se obrigava uma criança a beber ácido para ver o que acontecia no corpo dela e como se podia tratar.


Em suma: tenho dificuldade com estas comparações da Alemanha nazi com Israel porque isentam os europeus da sua própria responsabilidade histórica, porque dão, cinicamente, novo vigor ao anti-semitismo que ainda existe em nós, e porque não encontro paralelos nem nos objectivos, nem nos métodos, nem no número de vítimas.

Se querem chamar genocídio à perseguição ignóbil que Israel tem em curso contra os palestinianos e à assombrosa assimetria de forças, seja. Mas então inventem outro nome para o que fizeram aos judeus e aos ciganos na Europa do III Reich. Porque não é a mesma coisa.

 

18 maio 2021

o tempo que faz em Berlim


Berlim é uma cidade tão grande que parece aquelas anedotas tipo "era um cão tão comprido que ia de Faro a Ponta Delgada". Ou então: Berlim é tão grande que precisava de um boletim meteorológico especial para cada bairro. 

(Até me lembra uma amiga em San Francisco que tinha os filhos em infantários diferentes, e à semana vestia um de inverno e o outro de verão.)

Ontem, por exemplo: céu carregado e um arco-íris duplo desde Wilmersdorf até aos confins de Berlim Oriental, e céu azul e ensolarado no meu bairro.

Deixo mais algumas imagens do(s) arco-íris, porque era pena ter tirado tantas e partilhar apenas três...




Já não é a primeira vez que o céu se divide descaradamente em tempo bom para mim e os meus vizinhos e tempo mau para o resto da cidade (como a foto abaixo, tirada há algumas semanas, documenta). 

Começo a suspeitar que sei o motivo para Grunewald e Dahlem serem dos bairros mais caros da cidade: somos o Allgarve de Berlim...


17 maio 2021

por uns momentos pensei estar no Krüger...


Esta tarde fui a uma consulta médica de rotina. Aproveitei para verificar o avanço do projecto "galeiroõezinhos" e "patinhos feios" (também conhecidos por "cisnes bebés") no lago. Parece que está tudo a andar a bom ritmo, excepto as tartarugas, que andam mais devagar.





No regresso passei por outro lago. Também lá encontrei um ninho de galeirão. Havia um adulto no ninho (não percebo nada de galeirões, mas parto do princípio que seria a mãe), e um outro (o pai, digamos assim), que andava num vai-vém para levar comida ao ninho. Dava-a à mãe, esta virava a cabeça e passava-a a uma bolinha de cabeça avermelhada que estava ao seu lado (partilho um vídeo, apesar de ter péssima qualidade). 

Cabeça avermelhada: será que o pica-pau de cabeça vermelha que vi no inverno passado se andou a armar em cuco e largou ali um filho para a pobre da galeiroa chocar? O mais tardar quando quiser nadar e for ao fundo, saberemos...

Quando estava prestes a continuar caminho, desenhou-se no ar a silhueta de um pássaro que nunca tinha visto por aqui. Para águia era pequeno. Talvez um açor? Planou sobre o lago, e pousou numa árvore. 

Logo a seguir, o galeirão que andava à cata do jantar apressou-se para o ninho aos saltos sobre a água, com grande estardalhaço. Foi aí que percebi ao que vinha o de rapina: provavelmente também estava à procura de um jantar. Que crueldade.

E passa-se tudo isto bem perto do centro de Berlim, uma terra que se diz civilizada. Mais parecia o Krüger!

(Excepto o verde)