18 junho 2020

o caso da estátua do Padre António Vieira


No embalo da actual onda internacional de contestação ao racismo, o boneco do Padre António Vieira em Lisboa foi uma das estátuas vandalizadas. Li algumas das manifestação de repúdio deste acto, que me suscitam os seguintes comentários:


1. Dizem: "quem vandalizou aquela estátua não sabe quem era o Padre António Vieira". 
Eu diria que quem fez aquela estátua é que não sabe quem é o Padre António Vieira no século XXI, digamos assim. Não lembra ao diabo erigir em Lisboa, em 2017 - repito: em 2017 - uma estátua de um europeu erguendo uma cruz por cima da cabeça de criancinhas indígenas.
Como é possível que, das tantas opções para homenagear o melhor do Padre António Vieira, com uma leitura actual da importância da figura histórica e com uma linguagem estética contemporânea - só para ter uma ideia, veja-se o olhar desmedido e perplexo do D. Sebastião que o escultor João Cutileiro nos deu em 1973, ainda durante a ditadura -, como é possível, dizia, que tenham optado por fazer aquela espécie de bibelô de praça de aldeia?
Pergunto ainda: as pessoas que abriram o concurso para essa estátua e atribuíram o primeiro prémio não estavam informadas sobre um dos mais importantes debates contemporâneos? Não lhes passou pela cabeça que erguer na Lisboa do século XXI uma estátua como esta - e não me refiro à homenagem ao Padre António Vieira, mas literalmente ao boneco de um europeu rodeado de indiozinhos e erguendo uma cruz - podia ser entendido como um claro posicionamento no debate sobre o colonialismo português?

Tal como foi feita, a estátua não parece uma homenagem, mas o aproveitamento desse pretexto para fazer um braço-de-ferro com o século XXI. Ninguém merece, e muito menos o Padre António Vieira.


2. Criticam esta pichagem como um ataque à sociedade portuguesa 
Uma estátua numa praça pública é uma afirmação do que é importante para uma sociedade - mas este boneco concreto está longe de ser uma representação consensual da importância do Padre António Vieira para o Portugal: nem no seu próprio tempo, nem no nosso. Em primeiro lugar, porque "missionário dos índios" não é o que o eleva acima dos outros do seu tempo; em segundo lugar, porque o que o Portugal do século XXI mais aprecia no Padre António Vieira não é a sua faceta de missionário de índios; finalmente, porque erguer em 2017 numa praça da capital uma estátua que afirma o orgulho que Portugal tem por um missionário colonialista - e é isso que aquela estátua representa - é algo que envergonha o nosso país perante os olhos de visitantes menos rodados nos bancos da escola do Estado Novo. 
Não há um mínimo de consenso - muito pelo contrário: aquele boneco é a imposição à cidade de uma opinião retrógrada expressa em bronze. Pelo que se poderia considerar esta pichagem como a manifestação de uma opinião de sinal contrário. Ou seja: uma reacção ao gesto prepotente de quem há três anos impôs no espaço público português uma visão ultrapassada da História universal e da responsabilidade dos países colonizadores europeus no actual estado do mundo.


3. Falam em "ditaduras ideológicas" e chamam "fanáticos" a quem vandalizou a estátua. 
Pode ser. Mas tão fanático e ditador ideológico será quem pintou "descoloniza" naquela representação do Padre António Vieira, quanto quem impôs aquele boneco anacrónico à cidade de Lisboa e à imagem que Portugal quer dar de si próprio ao mundo. 


4. Dizem: "derrubar e pichar estátuas é ofender a História"
O que é um belo exercício sobre os limites da liberdade de expressão.
Para já, pergunto: pichar aquela estátua é ofender a História de quem?
Mais: se defendemos "o direito a ofender" no âmbito da defesa da liberdade de expressão, como podemos impor a proibição de ofender a nossa versão da História do mundo? 
Porque é que se pode dizer tudo o que apetece, ao abrigo da liberdade de expressão, mas não se pode pichar uma estátua? É apenas para não danificar o material, se custou bom dinheiro aos contribuintes? Ou é porque nos incomoda ser confrontados com a opinião que ofende os nossos símbolos?
Em suma: será que, afinal, há limites para o "direito a ofender"?


5. Dizem: "esta gente ainda vai acabar a dar Portugal aos árabes"

Quanto a isso, estou descansada: já cá estão. Já cá estamos. Ou alguém pensa que a nossa pele trigueira é herança dos visigodos e dos suevos?


6. Dizem: "vamos aceitar que nos destruam todas as estátuas?"

Se me é permitido brincar: todas, todas, não. Só as que for preciso...

Agora, a sério:

- É fundamental não deixar que se instale na nossa sociedade uma prática de facto consumado. Nem na realização das obras, nem na sua destruição. Serve para a bonecada colonialista que escolheram para representar o Padre António Vieira, serve para o conceito "Museu dos Descobrimentos", serve para um relicário do Salazar em Santa Comba, serve para esculturas de preço incompreensível encomendadas por um município qualquer. Em casos sensíveis como estes, enquanto não houver um mínimo de consenso não se faz (estou-me a lembrar do Memorial para os Sinti e Roma vítimas do nazismo, em Berlim, cuja obra se atrasou imenso porque não havia consenso sobre a inclusão da palavra "cigano" na placa explicativa).

- Esta querela da estátua não é mais que um campo de batalha por substituição, e está a distrair-nos do que é verdadeiramente importante. Entre outros: ouvir as pessoas, sensibilizar para as dificuldades da vida das minorias, encarar de frente a tralha ideológica que o Estado Novo nos deixou de herança.

- Mesmo reforçando e aprofundando o diálogo e o consenso democrático, haverá sempre algum extremista que decidirá afirmar a sua posição contra a da sociedade democrática, vandalizando uma estátua de algum famoso, uma obra de arte, um mural ou um Centro de Acolhimento de Refugiados. Que esses incidentes não nos desviem do nosso caminho, que é no sentido do fortalecimento do sistema  e do diálogo democráticos.


algumas provocações a propósito de estátuas - a luta contra o racismo



Santuários esventrados: nesta minha longa passagem pela Bretanha ainda não encontrei uma única igreja medieval cuja entrada não seja um testemunho trágico do desvario dos tempos. E pode dizer-se que, apesar de tudo, estas igrejas de santos apeados e flechas destruídas ainda tiveram sorte. Da Abadia de Saint-Mathieu, por exemplo, restam apenas algumas paredes. Mas o fenómeno não é apenas bretão. Na Borgonha, a Abadia de Cluny - importantíssimo centro religioso e cultural da Idade Média - teve a mesma má sorte que a de Saint-Mathieu: foi vendida a um particular que fez dela pedreira. Do imponente conjunto arquitectónico, praticamente só sobrou o seu lugar. Aconteceu no centro da Europa, há pouco mais de duzentos anos. 

Foi a Revolução Francesa, que se despenhou sobre a França com enorme violência, mas cujo resultado foi a implantação de um novo ideal de organização social, sintetizado no lema liberdade-igualdade-fraternidade.

Uma pessoa olha para aqueles nichos vazios, e pergunta-se em que é que os privilegiados do Antigo Regime estariam a pensar enquanto fruíam da sua douceur de vivre, alheios e insensíveis à situação incomportável em que o povo vivia. Não podiam ter chegado ao "liberté, égalité, fraternité" a bem?
Que ilusões e omissões permitiram a erupção de uma onda incontrolável de fanatismo que fez rolar tantas cabeças?

*

Pergunto-me se o derrube e a pichagem de estátuas que actualmente estão a ter lugar em vários países são sinal de que a História continua o seu curso, e de que nenhuma sociedade está ao abrigo de novos conflitos sociais e de revoluções - com todos os seus inevitáveis excessos.

Traçando um paralelo entre o movimento revolucionário actual e a Revolução Francesa, pergunto: será que o "comam brioches" do nosso século é a ignorância e o desprezo com que se responde aos que alertam para as "microagressões", o "privilégio branco", o "racismo estrutural"? Será que nos salões de Luís XVI também comentariam "ai que maçada, hoje em dia não se pode dizer coisa nenhuma, que há sempre algum servo a sentir-se ofendido - cambada de snowflakes..."?

Mas divago. Este não é seguramente o limiar de uma revolução com o ímpeto da Revolução Francesa. Os oprimidos não são em número suficiente para lhe dar essa dimensão. O lugar da maioria nos "salões de Versalhes" continua cinicamente assegurado.
(De muito maior alcance, contudo, serão os conflitos quando a crise climática se abater em cheio sobre nós. Infelizmente, já não teremos de esperar muito para ver.)

*

Lido algures:

Porque é que dizem "o racismo que matou George Floyd é terrível, mas é inadmissível que os manifestantes ataquem e destruam propriedade privada e monumentos, e temos de tomar medidas imediatas contra isso", em vez de dizer "o ataque e a destruição da propriedade privada e dos monumentos é terrível, mas o racismo que matou George Floyd é inadmissível, e temos de tomar medidas imediatas contra isso"?

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(…) When they say « why do you burn your community, why do you burn down your own neighborhood? » It’s not ours! We don’t own anything! We don’t own anything! There is a social contract that we all have that if you steal or if I steal, then, the person who is authority comes in and they fix the situation, but the person who fixes the situation is KILLING US! So the social contract is broken! And if the social contract is broken why the fuck do I give a shit about burning your fucking football Hall of Fame, about burning a fucking Target. YOU BROKE THE CONTRACT! YOU’RE KILLING US ON THE STREETS AND DON’T GIVE A FUCK! You broke the contract, WE FOR 400 YEARS PLAYED YOUR GAMES AND BUILT YOUR WEALTH! YOU BROKE THE CONTRACT WHEN WE BUILT OUR WEALTH AGAIN ON OUR OWN BY OUR BOOTSTRAPS IN TULSA AND YOU DROPPED BOMBS ON US! WHEN WE BUILT IT AGAIN IN ROSEWOOD AND YOU CAME IN AND SLAUGHTERED US! YOU BROKE THE CONTRACT SO FUCK YOUR TARGET! FUCK YOUR HALL OF FAME! As far as I’m concerned they could burn this bitch to the ground and it still wouldn’t be enough and they are lucky that what black people are looking for is equality and not revenge!

(Repare-se nos últimos momentos do vídeo: quando uma Kimberley Jones emocionalmente exausta desaba nos braços de uma amiga)

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Há exageros na actual luta para nos alertar para o racismo estrutural da nossa sociedade? Há. Muitos, e alguns bem graves, porque abalam valores básicos das sociedades modernas e democráticas - nomeadamente a liberdade de expressão e artística.

Compreendo a preocupação de quem fala em ataque à cultura, à liberdade de pensamento e de expressão. Compreendo quem teme que em breve se comece a queimar livros, e cita Heinrich Heine: «Não era senão um prelúdio; onde se queimam livros, terminar-se-á por queimar pessoas».

Compreendo tudo isso, mas: o problema é que já estão a queimar as pessoas. Nos EUA, a média anual dos últimos cinco anos é de cerca de mil assassínios de base racista perpetrados por polícias. Mil pessoas, anos após ano. As pessoas já estão a arder - de facto, estão a arder há mais de quatro séculos - mas a maioria de pele branca não repara, entretida que está a proteger os ilimites da sua liberdade de expressão. Não repara nem quer reparar que muitos dos seus livros, dos seus filmes, das suas obras de arte e das suas palavras são uma humilhação constante para um determinado grupo, reforçam os sentimentos de superioridade e os preconceitos da maioria contra uma minoria, e contribuem para perpetuar uma ordem racista na sociedade.

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De um lado temos: o assassínio de George Floyd (um polícia a matar, três a ver e a manter a ordem pública). O assassínio de Philando Castile, em frente à sua filha de 4 anos. O assassínio de Ahmaud Arbery: um linchamento no ano da graça de 2021. O cinismo desta resposta de um branco a um trabalhador negro: "You know what? You’re probably right. You deserve more. But why would I ever give it to you, when I can get you for this?"

Do outro lado temos: os privilegiados da ordem social que pratica a opressão dos outros. A defender os seus livros e os seus filmes, as suas estátuas e a sua versão da História, os seus símbolos, as suas coisas, as suas liberdades, a sua douceur de vivre.

Em vez de começar hoje mesmo a reconhecer e a corrigir o imenso crime perpetrado dia após dia durante mais de quatro séculos contra os escravos africanos e os seus descendentes, agitam a bandeira dos seus direitos e das suas liberdades. Os seus direitos antes dos direitos dos outros.  
(Volta, Maria Antonieta, estás perdoada.)

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Pergunto: o facto de sabermos
 que em 2020  Shola Richards só se atreve a passear no seu bairro na companhia das filhas e do cão, porque se passeasse sozinho os brancos daquela rua iam sentir-se ameaçados e isso bastaria para o assassinarem, não nos provoca uma imensa vergonha e não nos impele a tomar todas as medidas possíveis para corrigir essa situação?

Pessoalmente, sinto uma vergonha profunda - e é essa vergonha que me impede de chamar ridículas às acções contra o Tom Sawyer, o Mocking Bird e o Gone With the Wind.

No dia em que Shola Richards puder passear sossegadamente na sua própria rua sem que os vizinhos o vejam automaticamente como um desigual e como um vulto ameaçador, provavelmente também esses filmes e esses livros serão deixados em paz.

Até lá, teremos de ouvir, debater, alertar, educar, e fazer as concessões necessárias para tornar o mundo igualmente respirável para todos.

*
Provoco: se, por cada negro assassinado, a sociedade fosse castigada com a eliminação total de um livro ou um filme de fundo racista, quanto tempo levaria até acabarem os assassínios de pessoas motivados pela cor da pele?
(Não, não estou a propor que queimem todas as cópias de Gone With the Wind como retaliação pelo assassínio de George Floyd. Estou apenas a dizer: se doesse à maioria mesmo a sério, tão a sério como dói à minoria, o problema já tinha sido resolvido há muito.)

*

Quando Oskar Maria Graf se deu conta de que os seus livros não faziam parte da lista negra dos nazis, não tinham sido atirados às fogueiras, e, pelo contrário, eram recomendados pelo regime, escreveu: "O conjunto da minha vida e da minha obra dá-me o direito de exigir que entreguem os meus livros às imaculadas chamas da pira, em vez de caírem nas mãos sujas de sangue e nos cérebros pútridos do bando de assassinos de uniforme castanho."

"Queimem os meus livros!": um grito de decência e de defesa dos mais altos valores.

Nos tempos que correm, ninguém pediria tanto. Basta assinalar o conteúdo racista de um filme, trocar no livro uma palavra estigmatizante e insultuosa pela sua inicial com asterisco, escrever um prefácio crítico (sim, há muita gente de bem que precisa que lhe façam um desenho), mudar uns quantos nomes de ruas e deixar o registo da razão da troca, levar certas estátuas para o museu a que têm direito e onde serão devidamente contextualizadas.

*

É lamentável que se tenha chegado a este ponto de exagero e violência, mas não podemos, em consciência, dizer que não estávamos à espera disto. A História já nos deu muitas lições sobre este tema. Por exemplo, e fazendo a ponte para o início deste post: se Luís XVI tivesse estado muito mais atento e aberto ao clamor do tempo, provavelmente ainda hoje tinha o crânio em cima das omoplatas. 

Melhor seria mudar de vida, e começar hoje mesmo a reconhecer o mal que fizemos e fazemos às minorias, e a unir esforços para corrigir o que tem de ser corrigido urgentemente, em vez de nos enterrarmos em trincheiras de "nós" e "eles", que só nos conduzirão ainda mais depressa para tempos desvairados.


17 junho 2020

incontinências do carácter

Partilho um texto do Vasco Pimentel no facebook. Esta maravilha de síntese sobre a questão da ofensa:


Eu nunca me ofendi.

Com nada, rigorosamente nada.

Não fico ofendido, pronto.

Falta-me o chip, suponho (faltam-me outros, eu sei, ninguém os tem todos).

Por vezes, isso sim, fico com a vaga ideia de que alguém tentou ofender-me. Sim, tenho a certeza, já aconteceu. Isso eu noto. Já que leio & converso sobre o assunto, parece-me ser capaz de identificar o gesto.

A minha reacção, no entanto, é sempre a mesma - e é involuntária, insisto: o gesto da pessoa que tentou ofender-me leva-me imediatamente a classificá-la. A ela, à pessoa. Fico a saber (foi ela que me forneceu a informação) que é burra, ou má, ou que sofre de um problema qualquer que a aflige. As consequências do gesto sobre a minha pessoa são inexistentes, nulas.

"Não passas dum imbecil", por exemplo. Sabendo eu que sim, passo dum imbecil, que sou outras coisas (passo de...), e que, por acaso, essa até nem é uma delas, a frase anula-se a si própria, sem necessitar de desencadear primeiro um processamento que passe pela humilhação, a dúvida ou a tristeza. Eu não sou imbecil, tal como já não era antes, tal como não serei depois. Nada se alterou, portanto.

É como se alguém te mija para cima, e depois te acusa de teres mijo a escorrer pelas calças abaixo. Eu tenho, sim senhor, mas quem mijou na rua & para cima dos outros foste tu (tu agora já não és tu, é o parvalhão que mija). Isso permite-me concluir o que eu tiver de concluir sobre a TUA pessoa. É estúpido concluíres o que quer que seja sobre a MINHA, visto eu poder provar que o mijo não me escorre espontaneamente pelas calças abaixo. Já contigo é bem diferente, visto que eu posso concluir, sem esforço, que tu, sim, mijas para cima das pessoas. Fico a saber isso, e di-lo-ei a quem me apetecer. Conclusão, só há UMA pessoa que sai prejudicada. E essa pessoa não é, não PODE ser eu. O mijo pelas calças abaixo não me atormentará sem mais um segundo da minha vida. A tua, porém, fica marcada para todo o sempre.

Tenho que ler mais sobre isso de "ficar ofendido", porque visivelmente não percebo nada do assunto.

The End.

Vasco Pimentel, aqui.  

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Dois apontamentos à margem:

- Gostei muito da imagem do ofensor como um animal que marca o seu território às mijinhas: a ofensa como instrumento de delimitação de território e afirmação de poder.
(Que coisa tão ante-pré-histórica, que grande macaquice!)
(O que me lembra a expressão de uma amiga: "Isto não é o meu circo, isto não são os meus macacos.")

- Tenho a certeza absoluta que o Vasco Pimentel não escreveu a pensar nos chamados "snowflake", mas para o caso de alguém interpretar mal o texto, convém notar que a ausência desse "chip" só é possível em relações simétricas. Quando se trata de ofensas a pessoas que são quotidianamente sujeitas a humilhações e perseguições devido à sua condição de pertença a uma minoria, dizer-lhes que não se devem ofender e que a ofensa fica com quem a pratica seria insensibilidade e cinismo.


  

16 junho 2020

isto não é a minha praia




Por estes dias andamos entre Brest e Plomodiern, onde amigos nossos alugaram uma casa a 80 m do mar - ou a 1 km, conforme a maré.

Esta não vai ser "a minha praia", mas tem-me dado muitas alegrias. Embora ontem o universo tenha resolvido dar-me com uma mão e tirar com outra: depois das festivas compras para um jantar extraordinário (até para quem já está há três meses na Bretanha), e do telefonema de uma amiga querida enquanto caminhávamos em direcção ao mar, presenteou-nos com uma chuvada apenas dois graus abaixo de dilúvio. Agora sei porque é que o Astérix tinha medo que o céu lhe caísse em cima da cabeça. 

Mas esta manhã, durante o pequeno-almoço com croissants de manteiga com sal, olhámos pela janela e ali estava o universo a oferecer-nos um arco-íris, e a pedir desculpa pelos incómodos do dia anterior. 

Amigos como sempre, pá. Mas não te estiques muitas vezes, ouviste?




[ O jantar incluiu um Muscadet Sèvre et Maine afinado durante seis meses junto às ostras de Aber Wrac'h. As garrafas vinham com inúmeras ostras bebés agarradas ao vidro. Foi o autêntico jantar em família: avós, bisavós, netos e bisnetos, tudo à mesma mesa... ]







15 junho 2020

"é porque gosto muito de ti, minha filha", diz o Universo

"é porque gosto muito de ti, minha filha", diz o Universo. E eu: "obrigada, obrigada, mas dava-me jeito poder respirar um bocadinho entre um gracias a la vida e o outro..."

Bem queria fazer uns posts com algum jeito sobre esta Bretanha fascinante que tenho andado a descobrir, mas não há condições: um casal amigo veio de visita, e lá vou eu de novo para a estrada, quase sem tempo para descarregar as fotos do fim-de-semana mágico que tivemos.

Deixo apenas um adianto:






















12 junho 2020

enfants gâtés

Tínhamos tantos planos para este fim-de-semana - apartamento numa torre medieval sobre a cidade de Morlaix, o mercado de sábado na antiquíssima praça, a costa do granito rosa, a ilha de Bréhat (que é especialmente linda na primavera), aproveitar as marés extremas destes dias para aprender a apanhar marisco na areia, e ainda a pequena Troménie de Locronan, que é este domingo - mas: a Bretanha está em alerta laranja de tempestade.  

A Bretanha a ser a Bretanha. E nós, enfants gâtés, perplexos sem saber o que aconteceu à Bretanha que nos deu três meses seguidos de tempo excelente, e sem saber o que fazer aos nossos planos de fim-de-semana.

Se calhar devíamos ir antes a Ouessant. Diz que "qui voit Ouessant voit son sang", e que nos dias de tempestade até as casas de granito se vergam ao vento.  

Ou então, aceitar a vida como ela é. Se estamos na Bretanha, seremos capazes de saborear o mercado de Morlaix com chuva, de andar a apanhar navalhas na praia com chuva, de passear em Bréhat e Ploumenac'h com chuva. 

É a Bretanha, stupid
Nada que não se resolva com umas boas galochas e um impermeável. 


10 junho 2020

coisas de morar num apartamento minúsculo



Hoje jantei no atelier do Joachim.
(se soubessem o que penso de quem inventou as tiny houses!...)


Plomodiern



Confesso: foi por mero acaso que descobrimos Plomodiern: era a terra onde encontrámos o apartamento mais barato com vista para o mar. A praia de dois quilómetros em frente ao apartamento não nos pareceu nada mal. Na própria tarde em que chegámos percorremo-la de ponta a ponta. O regresso é que foi difícil, porque a maré subiu, e de repente todas as pessoas ficaram umas em cima das outras numa faixa estreita de areia. Vestimos os fatos de banho, e regressámos pelo mar.
Ainda temos de aprender algumas coisas sobre desconfinamento, praias e marés.  


Tínhamos a praia em frente à janela, e já teríamos ficado muito satisfeitos com o que tínhamos se não fosse o mercado da sexta-feira de manhã que nos atraiu ao centro da localidade, a uns bons 4 km da costa. Foi onde nos demos conta do que estávamos a perder enquanto pensávamos que o que tínhamos já bastava. Ao lado do mercado havia uma igreja impressionante, que não vinha em nenhum dos nossos guias turísticos. E ao lado da igreja havia uma padaria com kouign-amann em forma de rosa, que também não vi em lado nenhum e foi o melhor de todos os que comi até hoje. 

Já a caminho de Plomodiern tínhamos parado numa padaria em Argol, uma terrinha minúscula também ela fora do mapa turístico, e ficámos surpreendidos com a riqueza do  enclos paroquial. Um magnífico portal, em cujo centro se vê o rei Gradlon a cavalo. 

Há registos históricos sobre este rei, mas a lenda é muito mais interessante: apaixonou-se por Malgwenn, uma rainha do norte que era meio mulher meio fada. Tudo estava a correr bem para ambos quando Malgwenn se sentiu profundamente ofendida pela decisão dele de se converter ao cristianismo. Zangada, foi-se embora da vida dele por um rio de corrente perigosa. Gradlon lançou-se no seu encalço, e atirou-se ao rio apesar dos avisos dela para que não a seguisse. Ao vê-lo debater-se na corrente, ela sentiu-se obrigada a voltar atrás para lhe salvar a vida. Abandonou-o em seguida, furiosa por aquele sinal de que afinal ainda o amava. Muitos anos mais tarde Malgwenn voltou para desencaminhar Dahut, a filha que deixara a Gradlon. Pai e filha moravam na lendária, muito rica e ainda mais pecaminosa cidade de Ys, protegida das águas do mar por fortíssimas muralhas. No meio de tanto deboche, e de igrejas tão pouco frequentadas que as ervas lhes cresciam nos degraus, só o rei Gradlon mantinha uma vida pia  e regrada. A sua estouvada filha, em compensação, ganhou o hábito de atrair homens aos seus aposentos e obrigá-los a pôr uma máscara para não a verem durante os actos do amor. De madrugada, uma mola escondida na máscara mandava os amantes daquela para ainda melhor. O diabo, que estava à coca como sempre, seduziu a jovem e conseguiu que ela roubasse ao pai e lhe desse a chave de ouro que abria e fechava as eclusas que protegiam a cidade. Foi assim que as portas do mar se abriram e submergiram a lendária cidade de Ys, com a sua riqueza e o seu pecado. Aconteceu que, nessa noite, São Corentim era hóspede do rei, e ouviu o ruído da água a invadir as ruas. Acordou o rei e escaparam a cavalo. A meio da fuga o rei viu a filha, e puxou-a para cima do cavalo. O excesso de peso atrasava o galope do bicho, as águas estavam cada vez mais perto. São Corentim exigiu que o rei deixasse a filha para trás. Gradlon recusou. Determinado, São Corentim empurrou-a com o seu báculo. Dahut afoga-se nas águas que libertara, o rei salva-se no seu cavalo - e reaparece no portal do enclos paroissial de Argol, a tal cidadezinha fora de todos os guias turísticos que fica no caminho para Plomodiern. 




Moral da história: it's a men's world, é só o que vos digo. Quando as cenas metem água, numa a mulher salva o homem, na outra o homem deita a mulher a perder. É verdade que aquela Dahut não havia de ser flor que se cheirasse, mas também houve um grão-vizir que fazia mais ou menos o mesmo que ela, e o pior que lhe aconteceu foi arranjar uma mulher inteligente e lindíssima que lhe contava histórias antes de adormecer. Já a Dahut, coitada, parece que se transformou em sereia e anda pela baía de Douarnenez feita alma-penada. 
  
Entretanto, as primeiras conclusões para os turistas na Bretanha são estas: desconfiem dos vossos guias turísticos. Provavelmente não vos contam nem da missa a metade. E procurem as padarias centrais de todas as localidades por onde passarem: pode ser que descubram uma igreja quinhentista extraordinária. E bom kouign-amann.

A igreja do centro de Plomodiern é assim (e nós que só queríamos ir espreitar o mercado da terrinha...):








A beleza sóbria de granito desta igreja é animada pelas flores que crescem selvagens na sua fachada - e não pude evitar lembrar as ervas nos degraus das igrejas de Ys.
Serão sinal de um novo dilúvio prestes a despenhar-se sobre nós?



É aqui, em Plomodiern, que começa a história de São Corentim, e da sua relação com o rei Gradlon. São Corentim era um eremita no sopé do Menez Hom, e tinha num poço um peixe mágico: se o santo lhe tirava um pedaço para o almoço, em chegando à hora do jantar o peixe já estava outra vez como novo, pronto a dar mais um bocado. E assim sucessivamente, refeição após refeição. 
Um dia o rei Gradlon foi à caça para aqueles lados, e perdeu-se. Cheio de fome, foi bater à porta do São Corentim, que lhe deu uma boa posta do seu peixinho. Ficaram bons amigos. Anos mais tarde, depois de perder Ys e criar a nova capital, o rei agradecido viria a nomeá-lo para ser o primeiro bispo de Quimper, assim lhe dando entrado no clube dos sete santos fundadores.

São Corentim teve foi muita sorte de ter vivido naquele tempo, porque se fosse hoje, em vez de um lugar de bispo o que conseguia era um trinta e um nas redes sociais por andar a consumir o bicho em vez de o entregar à Ciência. 

Ora bem: isto sou eu a dar a minha opinião. Porque se em vez de ser para dar a minha opinião fosse para tentar perceber alguma coisa do que estou a falar, num instante descobriria que a imagem do peixe que se dá e não acaba nunca é, muito provavelmente, uma alegoria do cristianismo e da partilha do corpo de Cristo, que apresenta aqui ecos do milagre da multiplicação dos peixes. Suspeitaria que aquele bocado de peixe que São Corentim deu ao rei Gradlon marca simbolicamente a conversão deste ao cristianismo. E que aquela história de amores, desamores, desencaminhamentos e perdições do rei cristão e da rainha fada é uma metáfora dos desencontros no processo de cristianização dos pagãos.

Tudo isto é Plomodiern. E a praia: enorme. Linda. Cheia de medusas azuis, de estranhas algas que me pareceram a princípio restos de garrafas de plástico, centenas de gaivotas, milhões de pulgas da areia e um grupo de pilritos destemidos que procuravam o jantar na margem gentil da maré baixa. 








Num passeio descobri uma casa no topo da encosta sobre a praia, onde alugam a turistas um apartamento de terraço virado para a imensidão do pôr-do-sol. A casa da esquerda, na primeira fotografia que se segue, com a paisagem que se vê na segunda. E já sei onde quero ficar da próxima vez que voltar a Plomodiern.



E o tempo?, perguntarão. Tivemos direito a dias cinzentos e a dias radiosos. A vento, a chuva, a calor. Banhos de mar a uma hora, camisolas e casacos a outra. A variedade da paleta bretã.