No embalo da actual onda internacional de contestação ao racismo, o boneco do Padre António Vieira em Lisboa foi uma das estátuas vandalizadas. Li algumas das manifestação de repúdio deste acto, que me suscitam os seguintes comentários:
1. Dizem: "quem vandalizou aquela estátua não sabe quem era o Padre António Vieira".
Eu diria que quem fez aquela estátua é que não sabe quem é o Padre António Vieira no século XXI, digamos assim. Não lembra ao diabo erigir em Lisboa, em 2017 - repito: em 2017 - uma estátua de um europeu erguendo uma cruz por cima da cabeça de criancinhas indígenas.
Como é possível que, das tantas opções para homenagear o melhor do Padre António Vieira, com uma leitura actual da importância da figura histórica e com uma linguagem estética contemporânea - só para ter uma ideia, veja-se
o olhar desmedido e perplexo do D. Sebastião que o escultor João Cutileiro nos deu em 1973, ainda durante a ditadura -, como é possível, dizia, que tenham optado por fazer aquela espécie de bibelô de praça de aldeia?
Pergunto ainda: as pessoas que abriram o concurso para essa estátua e atribuíram o primeiro prémio não estavam informadas sobre um dos mais importantes debates contemporâneos? Não lhes passou pela cabeça que erguer na Lisboa do século XXI uma estátua como esta - e não me refiro à homenagem ao Padre António Vieira, mas literalmente ao boneco de um europeu rodeado de indiozinhos e erguendo uma cruz - podia ser entendido como um claro posicionamento no debate sobre o colonialismo português?
Tal como foi feita, a estátua não parece uma homenagem, mas o aproveitamento desse pretexto para fazer um braço-de-ferro com o século XXI. Ninguém merece, e muito menos o Padre António Vieira.
2. Criticam esta pichagem como um ataque à sociedade portuguesa
Uma estátua numa praça pública é uma afirmação do que é importante para uma sociedade - mas este boneco concreto está longe de ser uma representação consensual da importância do Padre António Vieira para o Portugal: nem no seu próprio tempo, nem no nosso. Em primeiro lugar, porque "missionário dos índios" não é o que o eleva acima dos outros do seu tempo; em segundo lugar, porque o que o Portugal do século XXI mais aprecia no Padre António Vieira não é a sua faceta de missionário de índios; finalmente, porque erguer em 2017 numa praça da capital uma estátua que afirma o orgulho que Portugal tem por um missionário colonialista - e é isso que aquela estátua representa - é algo que envergonha o nosso país perante os olhos de visitantes menos rodados nos bancos da escola do Estado Novo.
Não há um mínimo de consenso - muito pelo contrário: aquele boneco é a imposição à cidade de uma opinião retrógrada expressa em bronze. Pelo que se poderia considerar esta pichagem como a manifestação de uma opinião de sinal contrário. Ou seja: uma reacção ao gesto prepotente de quem há três anos impôs no espaço público português uma visão ultrapassada da História universal e da responsabilidade dos países colonizadores europeus no actual estado do mundo.
3. Falam em "ditaduras ideológicas" e chamam "fanáticos" a quem vandalizou a estátua.
Pode ser. Mas tão fanático e ditador ideológico será quem pintou "descoloniza" naquela representação do Padre António Vieira, quanto quem impôs aquele boneco anacrónico à cidade de Lisboa e à imagem que Portugal quer dar de si próprio ao mundo.
4. Dizem: "derrubar e pichar estátuas é ofender a História"
O que é um belo exercício sobre os limites da liberdade de expressão.
Para já, pergunto: pichar aquela estátua é ofender a História de quem?
Mais: se defendemos "o direito a ofender" no âmbito da defesa da liberdade de expressão, como podemos impor a proibição de ofender a nossa versão da História do mundo?
Porque é que se pode dizer tudo o que apetece, ao abrigo da liberdade de expressão, mas não se pode pichar uma estátua? É apenas para não danificar o material, se custou bom dinheiro aos contribuintes? Ou é porque nos incomoda ser confrontados com a opinião que ofende os nossos símbolos?
Em suma: será que, afinal, há limites para o "direito a ofender"?
5. Dizem: "esta gente ainda vai acabar a dar Portugal aos árabes"
Quanto a isso, estou descansada: já cá estão. Já cá estamos. Ou alguém pensa que a nossa pele trigueira é herança dos visigodos e dos suevos?
6. Dizem: "vamos aceitar que nos destruam todas as estátuas?"
Se me é permitido brincar: todas, todas, não. Só as que for preciso...
Agora, a sério:
- É fundamental não deixar que se instale na nossa sociedade uma prática de facto consumado. Nem na realização das obras, nem na sua destruição. Serve para a bonecada colonialista que escolheram para representar o Padre António Vieira, serve para o conceito "Museu dos Descobrimentos", serve para um relicário do Salazar em Santa Comba, serve para esculturas de preço incompreensível encomendadas por um município qualquer. Em casos sensíveis como estes, enquanto não houver um mínimo de consenso não se faz (estou-me a lembrar do Memorial para os Sinti e Roma vítimas do nazismo, em Berlim, cuja obra se atrasou imenso porque não havia consenso sobre a inclusão da palavra "cigano" na placa explicativa).
- Esta querela da estátua não é mais que um campo de batalha por substituição, e está a distrair-nos do que é verdadeiramente importante. Entre outros: ouvir as pessoas, sensibilizar para as dificuldades da vida das minorias, encarar de frente a tralha ideológica que o Estado Novo nos deixou de herança.
- Mesmo reforçando e aprofundando o diálogo e o consenso democrático, haverá sempre algum extremista que decidirá afirmar a sua posição contra a da sociedade democrática, vandalizando uma estátua de algum famoso, uma obra de arte, um mural ou um Centro de Acolhimento de Refugiados. Que esses incidentes não nos desviem do nosso caminho, que é no sentido do fortalecimento do sistema e do diálogo democráticos.