30 janeiro 2020

cuidado com os animais


Vi este aviso no mural de facebook de um amigo, e fiquei perplexa: porcos?! Então, e as ovelhas? Não me digam que o padre da infância do meu pai andava enganado quando falava desses pecados?
E que está ali a fazer o morcego? Um morcego?!!!!

Quando estava a concluir que ainda percebo menos disto que o padre da infância do meu pai, lembrei-me do mais óbvio: ir verificar.
No original da OMS não está "sex", está "contact".

E assim se esvaíram todas as minhas angústias existenciais.

Moral da história: se querem aprender tudo sobre o sexo como ele é, escolham bem o padre.
No caso de já não haver desses como os havia no tempo da infância do meu pai, a única solução é estar muito atento na internet, e verificar bem a origem da informação que lá é partilhada.

29 janeiro 2020

"libertação de Auschwitz" (2)

A propósito da Libertação de Auschwitz, publicaram também este post na Enciclopédia Ilustrada:

A BORBOLETA

Contente mesmo contente
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria".

(Tonino Guerra foi preso por ser antifascista, e enviado para um campo de concentração alemão, onde ficou como prisioneiro militar até ao fim da guerra)




"libertação de Auschwitz"

O tema de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "libertação de Auschwitz".
Partilho o texto que lá escrevi, apesar de repetir ideias e histórias que já passaram por este blogue.
No final, partilho também alguns dos comentários que o texto suscitou naquele grupo.


Na semana passada o presidente da República da Alemanha encontrou-se em Israel com alguns judeus sobreviventes dos campos de concentração. Uma das mulheres falou do dia da libertação, quando um soldado disse ao grupo de raparigas com quem ela estava que se podiam ir embora, para onde quisessem. Elas olharam umas para as outras, aflitas, sem força, desorientadas. Nenhuma festejou. "Nenhuma de nós disse um Aleluia", disse ela. "Não sabíamos para onde havíamos de ir."

Como a E. C. P. e o J. P. já aqui referiram, após a #libertação_de_Auschwitz os sobreviventes não tinham para onde ir. Na parte ocidental da Alemanha foram criados campos para “displaced persons”, onde alojaram os prisioneiros dos campos localizados na Alemanha. Muitos dos sobreviventes dos campos dos países de Leste dirigiram-se também para essses centros onde aguardaram enquanto decorria o processo moroso de determinação de um novo lugar para viver. No final da guerra, havia cerca de 250.000 judeus na Alemanha, tanto nesses campos como em alojamentos privados, tentando desesperadamente encontrar os seus familiares e recomeçar a vida.
(Mais informações nesta página do Museu do Holocausto e nesta página da BBC)

A emigração para a Palestina estava muito condicionada devido à pressão – mais que justificada – dos palestinianos. Um episódio à margem da tragédia: a criação da orquestra de Israel, que permitiu contornar as leis britânicas da emigração para a Palestina, e salvar da Europa inúmeros músicos que tinham conseguido escapar ao Holocausto, juntamente com as suas famílias. A criação do Estado de Israel em 1948 permitiu abrir as fronteiras aos judeus, que finalmente deixaram os seus campos de Displaced Persons e puderam instalar-se numa terra sua. Uma das minhas anedotas favoritas de humor hebraico refere-se a este momento da História dos judeus: um navio cheio de sobreviventes do Holocausto dirige-se a Israel. Ao avistarem terra, todos os passageiros desatam a gritar de alegria. Todos, menos um, que se lamenta e chora. “Porque é que te lamentas?”, pergunta-lhe outro passageiro. “Ora, se era para os ingleses nos darem uma terra que não era deles, preferia que nos tivessem dado a Suíça...”


Muitos judeus polacos sobreviventes de Auschwitz tentaram regressar à sua terra e recuperar os seus haveres. Alguns destes foram mortos pelos antigos vizinhos – e imagino que esse crime não fosse resultante apenas da cobiça, mas se devia sobretudo ao facto de estes regressados da morte serem um espinho vivo cravado na consciência daquela comunidade. O filme húngaro “1945”, de Ferenc Török, fala-nos da tensão e do sentimento de culpa que esses regressos despoletavam: pouco depois do fim da guerra, corre numa aldeia húngara a notícia da chegada iminente de dois judeus que ninguém conhece. A simples presença dos dois homens na aldeia basta para sacudir as consciências e as relações entre os seus habitantes. O enredo está bem construído, as personagens desenvolvem-se com equilíbrio, a crítica social e histórica está bem colocada, e o conjunto resulta numa homenagem digna às vítimas do Holocausto. De tudo isso, que já está muito certo, sobressaem imagens de extraordinária força: as de dois judeus que atravessam em silêncio uma aldeia cheia de tensões. Das imagens mais inesquecíveis que vi na Berlinale de 2017.

Como o L. B. disse, após a libertação de Buchenwald os americanos obrigaram a população de Weimar a subir à colina para ver. Admito que os americanos estivessem perplexos pela combinação entre a dimensão do horror do campo e a cegueira da população da cidade, que vivia a 10 km daquele campo descomunal, assistira aos transportes e às marchas da morte, vira prisioneiros andrajosos e famintos a remover os escombros das casas bombardeadas. Também Jorge Semprun, um dos libertados desse campo, se sentia curioso em relação à população alemã que era testemunha daquele crime, e por isso foi visitar uma das aldeias próximas e pediu a uma velhinha que o deixasse entrar para ver a sua casa. Ela abriu-lhe a porta, levou-o à sala – de onde se via distintamente Buchenwald – e, sem saber bem o que dizer, comentou com o antigo prisioneiro: “é uma salinha muito acolhedora, não acha?”

Não vale a pena gastar tempo a julgar a população de Weimar e das redondezas de Buchenwald. Dizemos “nunca mais”, mas fazemos - quase! - o mesmo. Também nós somos exímios em não ver o sofrimento e o desespero dos humanos que se desenrola mesmo à frente dos nossos olhos. Quantos de nós reconhecem verdadeiramente o ser humano no sem-abrigo andrajoso, no pedinte vítima de uma rede mafiosa da Europa de Leste, na prostituta que aceita fazer tudo o que querem dela (sinal óbvio de que se trata de uma escravizada)?

Desviamos o olhar. Incomoda-nos, mostra-nos os limites do nosso poder de mudar alguma coisa, e de qualquer modo contamos com o Estado para cuidar desses problemas.

Temos desculpas – oh, tantas! A população de Weimar também as tinha. E eram tão boas, ou tão más, como as nossas.

---

Comentários do Lutz Brückelmann (velho amigo deste blogue) a este post:

As nossas desculpas são piores do que as das pessoas de Weimar. Ao contrário destas, estamos bem alimentados, seguros e livres.Em relação ao que nós não fazemos e devíamos fazer (e até sabemos que devíamos fazer), ouço nestes dias um audiobook, e ainda não arranjei coragem ou melhor forma de o impingir a todos os amigos: "The life you can save" de Peter Singer. Um guia prático para melhor fazer o que está no título do livro, incluindo respostas às críticas que recebeu dos seus argumentos. (O livro foi publicado pela primeira vez há 10 anos.) Ainda não o acabei, mas especialmente nas respostas às críticas descobri muitas desculpas minhas, para não ter feito mais do que fiz, e também pelo facto de que ainda hesito na divulgação do livro.

Comentário de outra colega enciclopedista:
Toda a informação e reflexão que aqui apresentas obriga-nos a levantar do conforto do nosso palavreado de santinhos que não têm nada a ver com esses horrores. Temos. Temos, sim, agora mesmo estamos à beira de ser interpelados e quantas vezes olhamos para o lado. Eu, confesso, até diante das notícias crescentemente horríveis dos telejornais, passo a vida a dizer que não aguento, que vou deixar de ver televisão... Então, isto é o quê? E sei que não adianta perguntar-me o que posso eu fazer?...


28 janeiro 2020

Les Misérables


Ontem fui ver Les Misérables, e por coincidência hoje o facebook recorda-me um texto do Joaquim Paulo Nogueira que partilhei há um ano, e que deixo no fim deste post.
O nome que deram ao filme em alemão foi: "die Wütenden" - "os furiosos".
Não gostei dessa tradução, porque desloca a perspectiva para fora daquilo que está na base do fenómeno. No princípio está a miséria - a miséria material que leva à miséria humana. A fúria vem depois, como uma "intifada": um corpo em tremor que sacode de si o intolerável. 
 
Enquanto o filme se desenvolvia no ecrã, eu ia juntando às suas cenas o trágico caso da Amadora: a mulher espancada pelo polícia, o motorista do autocarro espancado por um grupo de homens. 
A violência que alimenta a violência que alimenta a violência que alimenta a violência que -
 
Como evitar esta espiral negativa? O meu instinto de sobrevivência social grita-me que é preciso agir antes de se chegar ao ciclo infernal da violência física, é preciso ir ao encontro dos que vivem em condições miseráveis antes que a miséria se transforme em iniquidade estrutural. E lembra-me um episódio velho de trinta anos: quando me mudei para a Alemanha, a minha primeira professora de alemão comentou numa das aulas que era preciso impedir a entrada de mais imigrantes porque, por falta de casas, não havia condições para os alojar condignamente. "Isso é anti-social", disse ela.
Na altura achei-a egoísta e insensível. Hoje penso que havia nessa frase o reconhecimento de algo fundamental: uma sociedade que queira preservar a coexistência pacífica entre os grupos sociais precisa de assegurar que todos tenham condições de vida dignas. A miséria é o húmus da violência.
A solução, contudo, não é proibir a entrada de pessoas (pois se nem o muro de Berlim era intransponível!) mas recebê-las bem e oferecer-lhes a possibilidade de potenciar o melhor que têm para dar à sociedade na qual vivem.  

Cada vez mais ouvimos o discurso populista contra "esses a quem o Estado dá tudo". Em primeiro lugar, o Estado "não dá tudo" - dá os mínimos, no cumprimento dos valores básicos inscritos tanto na Constituição portuguesa como no que é o entendimento do espaço cultural e social europeu. Recordemos que foram esses princípios europeus de defesa da dignidade humana e da igualdade de oportunidades que estiveram na base do imenso volume de subvenções europeias oferecidas a Portugal para nos permitir passar para um outro nível de desenvolvimento económico e social. Em segundo lugar, e dito de uma maneira que até as pessoas de Direita entendam: fica muito mais barato ao Estado dar aos pobres condições para conseguirem escapar à armadilha da miséria, do que garantir a segurança de todos quando a violência social se radica em grupos que vivem num contexto de falta de perspectivas e de desespero extremo.

[Quanto ao filme: comecei por me sentir incomodada com o nível relativamente fraco de alguns actores e com o perfil demasiado primário de alguns personagens, mas em algum momento tudo isso passou para segundo plano e dei comigo a entrar sem amarras naquele mundo de miséria e desespero. Muito forte, e com um excelente final.]

 
---

O texto do Joaquim Paulo Nogueira:

Setembro de 1994, Bairro da Jamaica | . Nunca esquecerei aqueles prédios. Tinham sido abandonados a meio do processo de construção. Já se passaram vinte e quatro anos e ainda tenho gravadas as imagens. Subi as escadas em cimento, cimento desnivelado, sem nenhuma guarda, corrimão. Tinha medo de cair, todo eu tremia. Não havia luz eléctrica nas escadas. A luz dentro das casas era de um gerador. Não havia água canalizada nem luz eléctrica. A caixa do inexistente elevador era um buraco de entulho onde se avolumavam os sacos do lixo que os moradores deitavam para lá. Não havia contentores do lixo. Ouviam-se e viam-se ratazanas entre o lixo. Muitas pessoas não queriam falar, tinham vergonha. Era uma reportagem hardcore. A certa altura uma mulher chama-me, pede-me para entrar, quer mostrar o seu filho. Mostra-me as suas orelhas, ratadas. Faltavam-lhes pequenos pedaços comidos pelas ratazanas. Ouvi aquelas pessoas todas, todas as que quiseram falar. Tinham-nos feito uma espera, logo à entrada, e o tema era esse mesmo: sentiam-se abandonados. Ouvi-os a todos, nas suas queixas gerais, nas suas reclamações contra a autarquia, contra o país. Eram de quinta, sexta linha, era assim que se sentiam. Eu sabia que não ia poder utilizar aquele material. Tinha dois minutos e pouco para contar a história. À minha roda tinha sempre um grupo de crianças. Quando já tinha recolhido todos aqueles depoimentos que era suposto ter recolhido, a Praça Pública era um programa que dando voz vivia das vozes, virei-me para o repórter de imagem e disse:"- Preciso de fazer uma coisa com os miúdos". Queria acabar com eles. Tudo aquilo que via me angustiava, estava tão ao pé do choro, da comoção autêntica, mas não queria que aquilo fosse o que dali levava. Pedi então às crianças para me levarem ao lugar onde brincavam. Levaram-me a um terreno que ficaria uns cem metros afastado daquele pesadelo e falaram-me de uma outra realidade : o que é que era ir à escola onde se encontravam com outras crianças vindas de outros lugares. Falaram-me ali, naquele descampado que tinha uma árvore. Falaram-me da vergonha que tinham por viver ali, que tinham cuidado para fazer o caminho sozinhos para ninguém perceber que moravam ali . Falaram-me também dos seus sonhos, das suas brincadeiras e por momentos aí foram umas crianças normais. Sempre que hoje vejo as histórias em torno do Gheto da Jamaica ( era esse o título da notícia do Correio da Manhã que nos levou lá) estremeço. Passaram-se vinte e quatro anos e o bairro aumentou, tem mais pessoas, a tragédia continua.
( Entretanto: tragédia com fim à vista, o processo de realojamento já começou)

27 janeiro 2020

Davos 2020

"Em Davos encontram-se 3000 incendiários a debater como extinguir os incêndios de forma rentável!"

Cartoon de Klaus Stuttmann, aqui.


26 janeiro 2020

Mahler, Rattle, Petrenko



A sexta sinfonia de Mahler foi o primeiro concerto que Simon Rattle deu com a Orquestra Filarmónica de Berlim, em Novembro de 1987, e o último que deu na Filarmonia na qualidade de seu director artístico.

O novo director da orquestra, Kirill Petrenko, escolheu também essa peça como uma das primeiras a apresentar ao público. A caminho do concerto, na sexta-feira passada, pensei na coragem deste maestro: entre tantas peças que podia escolher para tocar com esta orquestra, foi repetir a sexta de Mahler enquanto a memória da outra - a da despedida do Rattle - ainda está bem viva no público berlinense. Coragem não lhe falta!

Não seria fácil para ninguém ocupar o lugar deixado por Simon Rattle, e a escolha desta peça pode ter sido um desafio, ou até uma simbólica tomada de posse.
Ora bem: foi de tal maneira, que as pessoas até se esqueceram de tossir. E eu passei oitenta minutos a sentir que nos estava a acontecer música perfeita.

No dia seguinte, os críticos concordaram que tinha sido perfeito, e que isso fora um erro: a sexta de Mahler precisa de mais tensão existencial, em vez do percurso linear que o Petrenko lhe deu. Dizem que este maestro ainda tem de crescer para o Mahler, e que será um prazer assistir ao seu percurso.

Eles lá sabem. Mas esta alegria já ninguém me tira: estar sentada na Filarmonia a sentir-me imersa em perfeição.


24 janeiro 2020

isto acontece 75 anos depois da libertação de Ausschwitz (4)

(imagem: Spiegel)

Na véspera da cerimónia do Yad Vashem, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, encontrou-se com um grupo de sobreviventes do Holocausto. O encontro teve lugar no centro AMCHA, uma organização de apoio a sobreviventes traumatizados.

Vinte e cinco pessoas falaram com o presidente, contaram a sua vida, falaram da dificuldade de falar com os seus familiares sobre o que aconteceu. Uma delas, de 102 anos, diz que estarem ali sentados é uma maneira de se vingarem dos nazis.

Essas histórias comoventes revelam também o que há de prodigioso no facto de ser possível juntar alemães e israelitas na mesma cerimónia de memória do Holocausto.

isto acontece 75 anos depois da libertação de Ausschwitz (3)




Partilho um vídeo do Spiegel - partes de uma entrevista a Esther Bejarano, uma das últimas sobreviventes do Holocausto, com o título: "Avisos de uma sobrevivente".

Reparo no olhar desta mulher de 95 anos, sobrevivente de Auschwitz, quando diz: "vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar."
E de repente cai a ficha: ainda há entre nós pessoas que assistiram à chegada dos nazis ao poder. Pessoas que se lembram como foi, e que encontram paralelos no que vemos hoje em dia.
Depois de terem passado pelo horror do Holocausto, passam agora pelo horror de descobrir que pouco se aprendeu com o mais terrível capítulo do passado da Alemanha.

Para quem fala alemão: há aqui uma entrevista de uma hora com Esther Bejarano, feita em 2018.



Tradução:

"Tudo isso está ainda na minha cabeça. Continuo a ver aquilo por que passámos. Coisas absolutamente horrorosas."

Como descrever o horror real, o horror absoluto?
Esther Bejarano tenta. Conta a sua história inacreditável uma e outra vez. Durante a segunda guerra mundial, os nazis levaram-na para Auschwitz.
Actualmente empenha-se para que as pessoas não esqueçam o que aconteceu há cerca de 80 anos. Procura sensibilizá-las, alertá-las.
Tarefa especialmente importante nos nossos dias, porque os desenvolvimentos actuais na Alemanha afligem imenso esta mulher judia de 95 anos.

"Na rua desfilam nazis gritando slogans que já foram criados há muitos, muitos anos, com a saudação nazi, com tudo o que lhes ocorre... E a AfD desfila com eles. Isto é assustador. Temos a Pegida, temos a NPD. Para as pessoas que passaram por aquilo, naquela época, isto é realmente... nem sei descrever até que ponto isto é horroroso para nós."

Bejarano foi levada para Auschwitz em 1943, onde começou por ser forçada a fazer trabalhos muito pesados. Era a prisioneira nº 41948. Mas teve sorte: entrou numa orquestra de raparigas. O instrumento que aprendera a tocar era o piano, mas tinha de tocar acordeão, que tratou de aprender de forma autodidacta. Foi o que a salvou. Como membro da orquestra, estava mais protegida e não era obrigada a fazer trabalhos pesados. No entanto, os piores momentos que passou no campo foram aqueles em que estava a tocar com a orquestra, particularmente quando chegava um comboio.    

"Estes comboios que aqui chegavam sobre estes carris... estas pessoas que vinham nos comboios: foram todos levados para o gás. Eram os comboios que iam para a câmara de gás. E nós estávamos ali, obrigadas a fazer música. As pessoas ouviam a música e pensavam - estou certa disso - que um lugar onde há música não pode ser assim tão mau. Era a táctica dos nazis. Não tínhamos saída. Não podíamos fazer nada, absolutamente nada."

Repetidamente foi obrigada a ver até onde os guardas do campo eram capazes de ir.

"Por exemplo, havia aquele chefe Moll, com os seus dois cães - tinha pastores alemães - que obviamente estavam treinados para morder pessoas até as matar. Horroroso. Andava sempre na rua do campo com os cães, e se calhasse de não gostar da cara de algum dos prisioneiros, ou se estivesse com vontade de gozar o espectáculo de ver os cães a matar uma pessoa, açulava-os contra alguém. E os cães desfaziam aquela pessoa com os dentes."

Bejarano ficou naquele campo cerca de meio ano, até ser enviada para Ravensbrück. Em 1945 conseguiu fugir na altura em que os nazis estavam a evacuar o campo devido à chegada iminente dos Aliados. Já se passaram 75 anos, mas Bejarano continua a pensar diariamente nas imagens horrorosas, nas atrocidades cometidas pelos nazis.   

"Não há como evitar pensar nisso. Vocês têm de compreender que para mim é muito duro ter de falar tantas vezes sobre este tema. Mas faço-o, porque sei que é extremamente importante. Mas, para mim, isto não é uma coisa fácil. É sempre muito duro contar a minha história."
[repare-se no olhar de Esther Bejarano ao dizer isto: 4:50]

E, no entanto, ela fá-lo. Bejarano visita escolas, faz palestras, e continua a apostar na sua paixão: a música. A música salvou-lhe a vida em Auschwitz, e é agora um bom meio para falar sobre aquilo que viveu. Bejarano sobe frequentemente ao palco com a banda rap de esquerda "Microphone Mafia", e transmite a sua mensagem de forma clara: a História não se pode repetir!

Por isso mesmo vê com grande preocupação os paralelismos com o que testemunhou no tempo do nazismo, a brutalização da linguagem que observa em funcionários da AfD. E quando algum país europeu se recusa a aceitar refugiados, também aí reconhece os traços daquela época.

"É o que lhe digo: naquele tempo fizeram exactamente o mesmo. Por exemplo, a minha irmã fugiu para a Suíça, e foi enviada de volta para território alemão. E foi assassinada. Hoje é um pouco diferente, mas há semelhanças."

O que faz com que seja muito importante não calar. Bejarano gostaria de ver mais humanidade, e exige do governo alemão que tome medidas para contrariar esta tendência. Combina essas exigências com uma advertência inequívoca: 

[6:26] "Vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar. Se estes partidos de direita ganharem ainda mais força, então... vejo um futuro muito negro. Porque pode voltar a acontecer o mesmo que aconteceu naquela época."

   

isto acontece 75 anos depois da libertação de Auschwitz (2)

Neste vídeo há algumas passagens do discurso histórico do presidente da República da Alemanha, Frank-Walter Steinmayer, em Yad Vashem, no dia 23 de Janeiro de 2020.






O presidente alemão começou por se dirigir à assembleia em hebraico, e a seguir passou para inglês. Por respeito às vítimas e ao local, não fez o discurso na sua própria língua, o alemão.

O discurso completo, em inglês, pode ser visto aqui. Partilho o texto:



“Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.”

What  a  blessing,  what a  gift,  it is  for  me  to  be  able  to  speak  to you here today at Yad Vashem
Here at Yad Vashem burns the Eternal Flame in remembrance of the victims of the Shoah.
This place reminds us of their suffering. The suffering of millions.  
And it reminds us of their lives – each individual life.
 
This  place  remembers  Samuel  Tytelman,  a  keen  swimmer  who won  competitions  for  Maccabi  Warsaw,  and  his  little  sister  Rega,  who helped her mother prepare the family meal for Sabbath.
This place remembers Ida Goldish and her three year-old son Vili. 
In October, they were deported from the Chisinau ghetto. 
In the bitter cold  of  January,  Ida  wrote  her  last  letter  to  her  parents    I  quote:  “I regret  from  the  very  depth  of  my  soul  that,  on  departing,  I  did  not realise  the  importance  of  the  moment,  [...]  that  I  did  not  hug  you tightly, never releasing you from my arms.”
 
Germans  deported  them. Germans  burned  numbers  on  their forearms. Germans  tried  to  dehumanise  them,  to  reduce  them  to numbers, to erase all memory of them in the extermination camps. They did not succeed.
 
Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. And as human beings, they live on in our memory. Yad  Vashem  gives  them,  as  it  says  in  the  Book  of  Isaiah,  “a momument and a name”.
I, too, stand before this monument as a human being – and as a German. 
I  stand  before  their  monument. I  read  their  names.I  hear  their stories. And I bow in deepest sorrow. 

Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. 
  
And  this  also  must  be  said  here: The  perpetrators  were  human beings. They were Germans. 
Those who murdered, those who planned and helped in the murdering, the many who silently toed the line: They were Germans. The industrial mass murder of six million Jews, the worst crime in the history of humanity, it was committed by my countrymen. The  terrible  war,  which  cost  far  more  than  50  million  lives,  it originated from my country. 

75 years after the liberation of Auschwitz, I stand before you all as President of Germany – I stand here laden with the heavy, historical burden of guilt. 

Yet at the same time, my heart is filled with gratitude for  the  hands  of  the  survivors  stretched  out  to  us,  for  the  new  trust given  to  us  by  people  in  Israel  and  across  the  world,  for  Jewish  life flourishing in Germany. 

My soul is moved by the spirit of reconciliation, this spirit which opened up a new and peaceful path for Germany and Israel, for Germany, Europe and the countries of the world.
The  Eternal  Flame  at  Yad  Vashem  does  not  go  out.  

Germany’s responsibility does not expire. We want to live up to our responsibility. By this, you should measure us.
I stand before you, grateful for this miracle of reconciliation, and I wish I could say that our remembrance has made us immune to evil.  
Yes, we  Germans  remember. But sometimes it seems as though we understand the past better than the present. The  spirits  of  evil  are  emerging  in  a  new  guise,  presenting  their antisemitic, racist, authoritarian thinking as an answer for the future, a new solution to the problems of our age.
I wish I could say that we Germans have learnt from history once and for all. But I cannot say that when hatred is spreading. I  cannot  say  that  when  Jewish  children  are  spat  on  in  the schoolyard,  I cannot say that when crude antisemitism is cloaked in supposed criticism of Israeli policy. I cannot say that when only a thick wooden door prevents a right wing  terrorist  from  causing  a  bloodbath  in  a  synagogue  in  the  city  of Halle on Yom Kippur. 

Of course, our age is a different age. 
The words are not the same. 
The perpetrators are not the same. 
But it is the same evil.  
And there remains only one answer: Never again! Nie wieder! 

That is why there cannot be an end to remembrance. 

This  responsibility  was  woven  into  the  very  fabric  of  the  Federal Republic of Germany from day one. But it tests us here and now. This  Germany  will  only  live  up  to  itself,  if  it  lives  up  to  its historical responsibility. We fight antisemitism! We resist the poison that is nationalism! We protect Jewish life! We stand with Israel!
Here at Yad Vashem, I renew this promise before the eyes of the world. 
And I know that I am  not alone.  
Today we join together to say: No to antisemitism! No to hatred! 

From  the  horror  of  Auschwitz,  the  world  learned  lessons  once before. 
The nations of the world built an order of peace, founded upon human rights and international law.

We Germans are committed to this order and we want to defend it, with all of you. 
Because this we know: Peace can be destroyed, and people can be corrupted. 

Esteemed  Heads  of  State  and  Government,  I  am  grateful  that together  we  make  this  commitment  today: A  world  that  remembers the Holocaust. A world without genocide. 

“Who knows if we will ever hear again the magical sound of life?  
Who  knows  if  we  can  weave  ourselves  into  eternity    who knows?” 
Salmen  Gradowski  wrote  these  lines  in  Auschwitz  and  buried them in a tin can under a crematorium. 
Here  at  Yad  Vashem  they  are  woven  into  eternity: Salmen Gradowski, Samuel and Rega Tytelman, Ida and Vili Goldish. They  were  all  murdered. Their  lives  were  lost  to  unfettered hatred. But our remembrance of them will defeat the abyss. And our actions will defeat hatred. 

By this, I stand. 
For this, I hope.   

Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.


isto acontece 75 anos após a libertação de Auschwitz (1)


"Cerveja do Reich", à venda numa loja de bebidas em Sachsen-Anhalt.

Trago a imagem de uma página de facebok em alemão, onde encontrei o comentário que passo a traduzir:

"É perturbador assistir ao intenso esforço da extrema-direita para apresentar a sua ideologia como algo completamente normal e que faz parte da sociedade.
Fala-se muitas vezes de sociedades paralelas, de pessoas que não querem integrar-se, que não reconhecem os nossos valores.
Sim, esta sociedade paralela existe, constitui 15% dos eleitores e representa um perigo para a nossa ordem democrática liberal."

Acrescento ainda um comentário sobre os preços: aquele "88" não está ali por acaso. O H é a oitava letra do alfabeto. Dois H seguidos significa...? E 18,88? "A" é a primeira letra do alfabeto. "H" é a oitava. 18: "A H". Pois, isso mesmo.

(Texto original, na página "Steife Brise - die Wahrheit über Aalsuppe":
Es ist beunruhigend wie massiv Rechtsextreme versuchen ihre Gesinnung als etwas völlig Normales und Teil der Gesellschaft darzustellen.
Es wird oft über Parallelgesellschaften gesprochen, über Menschen die sich nicht integrieren wollen, die unsere Werte nicht anerkennen.
Ja, es gibt diese Parallelgesellschaft, sie macht 15% der Wahlberechtigten aus und stellt eine Gefahr für unsere FDGO dar.)

23 janeiro 2020

até me esqueci do que ia dizer



"Estava eu descansadinha, sentada no facebook", disse eu ontem ao jantar, e os amigos desataram a rir. Riram tanto que até me esqueci do que ia dizer. Tanto melhor: falaram eles, e foi assim que fiquei a saber da existência desta peça de David Lang: "The Little Match Girl Passion".

Uma beleza.

Aqui fica uma introdução à peça:





21 janeiro 2020

vida boa



Hoje esteve um dia glorioso em Berlim. Fui à Filarmonia comprar bilhetes para o concerto da sexta-feira, e não consegui impedir-me de tirar as fotografias possíveis dentro do S-Bahn e do autocarro. Clic-clac, clic-clac, clic-clac - um dia destes ainda arranjo sarilhos com os outros passageiros, por causa da barulheira que faço a tirar fotografias (escusam de tentar ensinar-me como se faz para silenciar o telemóvel: tem esse botão avariado - mas obrigada na mesma).

A fila estava enorme - o dobro da semana passada. Comecei a conversar com o senhor atrás de mim, que também estava surpreendido com tanto público. Revelou-me que na semana anterior tinha conseguido comprar bilhetes para o Blomstedt um dia antes do concerto. "Suspeito que as pessoas não saibam o prodígio que é ouvir o Blomstedt", acrescentou. E daí a nada estava a falar da veneração que os músicos da orquestra têm por este maestro de 93 anos, e de como isso se nota na música que fazem com ele. Elogiou a sua agilidade apesar da artrose avançada, "está melhor que o Karajan". Confirmou o que já digo há anos: os lugares por trás da orquestra são os melhores. E no caso do Petrenko, mais ainda: "o Petrenko é tão expressivo que quase nem era preciso a orquestra tocar - a música já está toda estampada no maestro", disse ele. Revisitámos a 4ª de Bruckner da semana passada, as expressões de felicidade no rosto do Blomstedt nas passagens especialmente bem conseguidas, o solo de trompa do Stefan Dohr a abrir a sinfonia como se fosse fácil, "imagine que aquilo corria mal - lá se estragava a sinfonia toda!", os músicos que eu vi a chorar no fim do concerto. Trocámos cromos sobre os nossos melhores concertos naquela casa (mas ele ganhou: era amigo do primeiro violino no tempo do Karajan, ia a todos os concertos que queria). E recomendou-me muito ouvir as introduções aos concertos quando são feitas pelo Götz Teutsch, que já foi o primeiro violoncelo da orquestra, e fala das peças com intimidade e prazer de amante. 

Finalmente chegou a nossa vez, e consegui os bilhetes que queria. Esperei para ver se ele também teria sorte (teve) e à despedida ele comentou: "às vezes é uma sorte haver filas compridas na Filarmonia. Esta hora a conversar consigo passou num instante. Muito obrigado!"

Então é assim: esta cidade tem mais de 3,5 milhões de habitantes, e não sei como, mas arranjo de passar a vida a cruzar caminhos com os mais simpáticos deles todos.