Do dia de "vagão" na Enciclopédia Ilustrada trago um post meu e dois outros de que gostei especialmente:
I.
quanto ao sítio para onde vão
e quando é que descerão
não me perguntem, não digo, não sei.
.
O nome de Nathan vai aos murros no tablado,
o nome de Isaac vai cantando alucinado,
o nome de Sara grita por água para o nome
de Aarão que morre de sede.
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Não saltes em movimento, nome de David,
tu que és nome à tragédia condenado,
a ninguém atribuído, sem morada,
pesado em demasia para usar neste país.
.
Demos ao nosso filho um nome eslavo,
que aqui nos são contados os cabelos,
que aqui se separa o bem do mal
pelo recorte das pálpebras e pelo nome.
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Não saltes. O filho será Lech.
Não saltes. Não é altura ainda.
Não saltes. Qe a noite se propaga como um rir
e arremeda nos carris o bater dos rodados.
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Uma nuvem de gente lá foi pelo país,
de grande nuvem chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima,
chuva pouca e uma lágrima, tempo seco.
Ao bosque negro conduzem os carris.
.
Estrondo de rodas. Bosque, denso bosque.
Estrépito no bosque dos gritos suplicantes.
Estremunhada escuto noite fora
matraquear o silêncio no silêncio.
Wislawa Szymborska (Polónia), PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA. Tradução de Júlio Sousa Gomes. Relógio D'Água.
.
Não poderia deixar passar a palavra do dia,
#vagão,
sem aqui trazer este poema, por demais pungente, que nos dá a ver o
horror, o supremo horror, vivido pelos deportados que, sufocando de
medo, sede, angústia e tudo o mais que nem ousamos imaginar, eram
levados para os campos da morte, ou para o "bosque negro", onde o menor
mal era a morte.
Os transportes ferroviários foram tão
importantes na Alemanha nazi que a wikipedia tem uma página que lhes é
dedicada, "Ferrovias do holocausto". Ele há coisas!
Não apaguem a memória!
II.
De José Praça:
No
memorial de Yad Vashem em Jerusalém, dedicado às vitimas do Holocausto,
encontra-se o vagão de Birkenau, junto ao qual se pode ler este poema
do israelita de origem alemã Dan Pagis (1930-1986). A terrível
simplicidade de um discurso abruptamente interrompido, deixando à
imaginação do leitor as causas do corte e a sequência do seu raciocínio.
Por vezes, o horror descreve-se assim.
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Escrito com lápis num #vagão fechado
Aqui neste vagão
sou Eva
com o meu filho Abel.
Se tu vires o meu outro
filho Caim, filho do homem,
diz-lhe que eu...
Dan Pagis
Foto do site do Memorial de Yad Vashem.
III.
O meu contributo:
Como já muitos disseram, a palavra
#vagão
traz uma associação imediata ao Holocausto. Mas, estranhamente, a
primeira associação que fiz foi ao vagão da pedreira de Buchenwald – que
não é um vagão, é um carro com rodas de ferro. Algum curto-circuito nas
minhas sinapses olhou para aquele carro e viu nos braços dos
prisioneiros de Buchenwald a locomotiva e os carris que lhe faltavam.
Também pensei no filme “Lion – a Longa Estrada para Casa”. Viram? A
cena em que o miúdo entra para o vagão de um comboio parado e adormece é
de partir o coração.
Mas não tenho como fugir ao tema do Holocausto.
A estação berlinense de S-Bahn que uso com mais frequência é a de
Grunewald. Um bairro de luxo, uma praceta linda, uma estação com uma
entrada muito bonita. Raramente passo por aquela porta sem me lembrar
das centenas de judeus que todas as semanas, às vezes várias vezes por
semana, desfilavam pelas ruas do bairro com os poucos haveres que lhes
permitiam transportar. Passavam em frente aos palacetes (alguns dos
quais eles próprios tinham frequentado – embora esse detalhe não seja
aqui chamado, porque a dignidade humana não depende da riqueza e da
cultura de cada um), e ao chegar à praceta, no exacto lugar por onde eu
passo várias vezes por semana, dava-se o golpe: em vez de usarem a
entrada dos seres humanos, eram obrigados a subir a rua inclinada que
dava acesso à plataforma das mercadorias. Os moradores daquele bairro de
privilegiados eram testemunhas regulares da ignomínia, e eu transporto a
memória dela.
No Museu do Holocausto em Washington d.C.
entra-se para a exposição atravessando um vagão usado no transporte dos
judeus e de ciganos. É uma experiência chocante, que começa pela
surpresa do seu tamanho diminuto e o esforço de imaginar o que seria
tantas dezenas de pessoas viajando de pé, comprimidas umas contra as
outras, em viagens intermináveis a uma média de 20 km/h, porque o
comboio, já de si lento, era obrigado a dar prioridade a todos os outros
comboios.
Os primeiros vagons usados no Holocausto eram antigas
carruagens de terceira classe, do séc. XIX. Mas as janelas grandes
permitiam muitas fugas, e os bancos reduziam a capacidade de transporte,
pelo que os nazis trocaram aquelas carruagens por vagões de
mercadorias.
Nem todos os vagões eram de transporte de gado (e
nestes, os nazis fecharam os respiradouros com tábuas, para evitar as
fugas), e a cruel realidade é que as pessoas eram transportadas em
condições mais próximas das de mercadorias inertes do que das de
animais. Mas o nome que foi dado aos vagões da deportação foi “vagão de
gado”: pelo poder simbólico do nome, e pelo destino comum dos animais e
das pessoas vítimas desses transportes: o matadouro industrial.