30 outubro 2019

ai jajujótempo volta para traje...

Andava há que tempos para contar que o meu lado Calamity Jane atacou de novo: mal pusemos abelhas no nosso jardim, morreu o Karel Gott (sabem, o da canção da abelha Maia). Ia contar isso, mas ainda não organizei as fotos da colmeia e por isso adiei esta conversa. E ia contar também que quem carregou a colmeia pesadíssima para cima da garagem é uma pessoa de meia idade muito simpática, com aparência de homem mas vestindo sempre saias e vestidos de estilo confortável. Da última vez que veio ver se tudo estava bem com as abelhas veio de mini e eu senti-me feliz por viver numa cidade onde um homem pode vestir-se como lhe apetece.

Disse "homem", e não sei se é realmente um homem que gosta de vestir saias só porque sim, ou se usa saias por se sentir mulher apesar de ter uma aparência de homem.
Talvez um dia lhe pergunte. Perguntava hoje mesmo, se tivesse a certeza que ele gosta de conversar sobre isso. Tenho ficado calada para não o incomodar com a pergunta que - imagino - deve ouvir mais vezes que qualquer outra.
O problema do meu silêncio é que aquela pessoa não pode saber se nasce do respeito (é o caso) ou da indiferença.
Em todo o caso: acho que aquelas saias e aqueles vestidos que escolhe vestir lhe ficam lindamente, e tornam esta cidade um pouco mais bonita e ainda mais respirável. 



--

Esta manhã li no facebook um post escrito pela Helena Ferro de Gouveia, que me fez logo pensar na minha mãe, que em 1970, em Braga, usou na fase final da gravidez do meu irmão mais novo um fato muito catita de calças e poncho. Sublinho: em Braga.

É certo que muitas décadas mais tarde um padre - daqueles tão progressistas que chegou a ser seguido pela Pide - viria a dizer-me que a minha mãe era "estouvada". E contudo: muitas vezes ao longo destas décadas que já levo de Alemanha dou-me conta de que Portugal tem, em muitos casos, uma mentalidade mais aberta e moderna. Mas depois atravessa-se-nos um assessor de saia no Parlamento, e ai jajujótempo volta para traje...

--

O texto da Helena Ferro de Gouveia é este:

Helena Ferro de Gouveia
Durante uns segundos históricos, houve silêncio no Bundestag. Seguiu-se uma vaia e uma onda de comentários indignados. Estávamos na época do amor livre e das comunas, no pós Maio de 68. Nos cinemas passava filme de esclarecimento sexual “ Deine Frau, das unbekannte Wesen“ ( A tua mulher, o ser desconhecido ) de Oswalt Kolles.
A 14 de Outubro de 1970, Lenelotte von Bothmer, deputada do SPD (o PS alemão) , 53 anos e mãe de seis filhos, fez uma intervenção sobre política de ensino. Foi um escândalo. Não pelo que ela disse, mas por o ter feito de calças. “Die erste Hose am Pult!“, gritaram indignados alguns deputados. Carlo Schmid (SPD) evocou a honra e a dignidade parlamentar ferida, Richard Jaeger (CSU) argumentou que a deputada feria a dignidade feminina. “Sie sind keine Dame!“ ( você não é uma senhora), “Sie sind ein unanständiges, würdeloses Weib!“ ( é uma mulher indecorosa e sem honra). Também lhe perguntaram se da próxima vez iria discursar nua.
Quatro décadas depois a Alemanha tem uma chanceler que quase só veste calças, teve um ministro dos Negócios Estangeiros homossexual que levava o marido em viagens oficiais ( até à Arábia Saudita) e assessores de saias. Por cá o debate está a começar e confesso que me surpreende que pessoas que se dizem “de esquerda” ou “liberais” usem argumentário dos anos setenta para defender o iliberalismo. Causa-me profunda estranheza.
Não é uma mera questão de saias, nem do comprimento das mesmas. É uma questão de mentalidades.
Bom dia.


a caminho


 



Uma pessoa publica um post com imagens de uma bicicleta, põe-lhe o título "a caminho do correio", e no momento seguinte dá consigo a caminho do fim-de-semana do encontro anual da família, no país das bicicletas (na Holanda, lembro-me sempre do ar entusiasmado do Matthias há muitos anos, na nossa primeira viagem a Amesterdão: "as bicicletas têm sempre prioridade? Oh, mas isto é o país que me convém!").
De regresso a casa, descobre que tirou mais de 1000 fotografias. Um impossível, um milagre da multiplicação das imagens: como, se passou o tempo a conversar e a rir?




Começámos a fazer este encontro da família há quase um quarto de século. Nessa altura morávamos todos no sul da Alemanha, e o destino era a Borgonha. Em algum momento houve um interregno, e um recomeço em 2008. Em cada ano o encontro é preparado por um grupo diferente, e temos tido fins-de-semana lindíssimos - na Floresta Negra e na Holanda, na Alsácia ou em Berlim. Já descobrimos que o melhor é alugar uma casa com espaço para todos, numa região rural. As cidades dispersam-nos do mais importante: estarmos uns com os outros.

Este ano pôs-se a questão da abertura do grupo aos namorados da geração mais jovem. Eu disse logo que sim, claro, que são eles quem me vai empurrar a cadeira de rodas e pagar o lar de terceira idade. Mas havia familiares da minha geração que preferiam manter o grupo como ele está, sem abrir a "elementos de fora". Ainda não se deram conta de que esses novos elementos do grupo são aqueles que se tornarão progressivamente as pessoas mais importantes na vida dos nossos filhos, e nos empurrarão a nós, os pais, para uma posição de "elemento de fora".
Ou talvez por isso mesmo? Talvez seja um reflexo de alguns para preservar uma constelação que sentem estar ameaçada?

Quando o Matthias tinha meia dúzia de horas no nosso mundo, a Christina pegou nele ao colo, apontou para o Joachim e disse: este é o pai. Tinha dois anos e meio, e já então nos dava lições sobre a capacidade de se adaptar a situações novas e redesenhar constelações, assumindo-se ao leme do seu espaço e do seu destino.

Estamos todos a caminho, e nem vale a pena gastar energia com a ideia de "armar três tendas" e parar o tempo.



    
 
 
 


 
 




Secção Culinária: descobrimos o gosto das algas da salicórnia. Quase como ostras, só que em vegan. Delicioso.


Secção Foxxinho: odiou a viagem de carro. Na última etapa, sempre que o carro abrandava para uma rotunda, o Fox levantava-se ansioso, pensando que estávamos a chegar. Mas quando chegámos, foi uma festa: cavou a praia como se quisesse descobrir a passagem mais directa para a Austrália, cavou os diques como se quisesse sabotar o esforço dos holandeses acrescentarem a sua terra, encheu-se de caracoletas, encheu-se de areia, encheu-se de lama. Um cão feliz.





(não se esqueçam de reparar na folha estrategicamente colocada a tapar as partes,
para não incomodar o algorítmo)

25 outubro 2019

a caminho do correio


Esta manhã fui ao correio. Nem sei se vos diga, se vos conte, mas às vezes desconfio que devia pagar imposto por morar num bairro tão bonito.
(Quer dizer: pago. É o correspondente ao IMI, cala-te boca e adiante)

Aproveito para mandar notícias do Outono e da minha biciclete nova, que era a velha do pai da minha vizinha. Se calhar ainda a alugo para fazer filmes de meados do século passado.
(Sempre era uma ajudinha para pagar o IMI de viver num bairro tão bonito)




"sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada"



Este filme foi feito antes da eleição do Bolsonaro, com base num trabalho do filósofo Rafael Azzi, e continua extremamente actual. Se não quiserem ver o filme, podem ler o texto aqui. Dele destaco o seguinte:

Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.


--

Ontem mostraram no doclisboa um documentário de Alison Klayman sobre o Steve Bannon: "The Brink". Esta entrevista com a realizadora, publicada no Expresso, mostra bem o que se move nos bastidores das redes sociais, e que ideologia e interesses estão por trás da manipulação de que somos constantemente alvos. 
Se o Goebbels cá viesse, morria de inveja.

24 outubro 2019

sorrir para não chorar

(foto e notícia: Guardian)

Encontrei esta foto no facebook, com a seguinte legenda:
Puppeteers in Syria.
When everything fails, love survives
.
 
A humanidade destes dois pantomimeiros lembrou-me um filme comovente que vi já há algum tempo. 



São
The Flying Seagull Project e precisam muito do apoio de todos para continuarem a desenvolver o trabalho importantíssimo que fazem em prol das crianças refugiadas e migrantes.
Quem quiser fazer uma doação, pode entrar neste site:
https://theflyingseagull.charitycheckout.co.uk/profile

"Astérix"

Não sei bem em que momento o #Astérix entrou na minha vida. Terá sido pela revista Tintim? Terá sido um livro?

Sei qual foi o (meu) primeiro filme: "Os Doze Trabalhos de Astérix" (e quantas vezes penso naquela "casa que enlouquece"...).



Quando apareceu "A Volta à Gália" no quiosque por baixo da nossa casa, armei com os meus irmãos um pedinchório pegado. Farto de nos ouvir, o pai escreveu "Gália" no jornal que estava a ler, e disse-nos para andar à volta dele.

Se fossem os meus filhos, dava-lhes A Volta à Gália, e todos os outros da colecção. Mas os tempos eram outros, e era também outra a gestão do desejo de leitura ds crianças. Ninguém precisava de nos mandar ir ler, ou de nos seduzir para o gosto da leitura. Com a parca oferta infantil que havia na televisão, sem telemóveis nem computadores, estávamos "condenados" à leitura, nos intervalos de brincar com os outros miúdos na rua. 

Leitores ávidos, foi com alegria que nos demos conta da falência da livraria ao fundo da Rampa da Escola Normal, na esquina com a Rua de Santa Catarina. Estavam a vender os livros ao desbarato - e, entre eles, vários álbuns do Astérix em francês. Não é que o nosso francês fosse muito forte, mas com a sede de Astérix que levávamos, até seríamos capazes de aprender chinês. Fizemos o pequeno crowdfunding desse tempo - vasculhar todos os bolsos da casa, e as carteiras que a mãe não estava a usar - e juntámos o suficiente para comprar dois álbuns. Alegria!


Depois de os ler e reler, fizemos um segundo crowdfunding - gavetas, armários, por baixo das almofadas do sofá - e fomos com uma mão cheia de moedinhas tentar comprar um terceiro álbum. O livreiro sorriu, aceitou as nossas moedas e ofereceu-nos todos os livros que ainda tinha. 

Ficámos de tal modo gratos que até tivemos pena de ele estar a fechar a loja. Um senhor tão simpático!

Hoje, à distância de quase meio século, imagino a cena pelos olhos dele: aquele bando de miúdos a rondar a montra uma e outra vez, tão apaixonados pelo Astérix que até se dispunham a lê-lo em francês, as moedinhas miseráveis na palma da mão, o pedido de um desconto...


Uns meses mais tarde, veio a salvação: descobrimos a biblioteca sob as árvores frondosas do Marquês, e sentimo-nos como o Aladino na sua gruta: tesouros por todos os lados! 

É verdade que para lá chegar tínhamos de andar quase meia hora, mas que nos importava? Passámos inúmeras tardes naquela biblioteca, muitas vezes deitados no chão, por ser a posição mais confortável para ler. O responsável da biblioteca gostava de nós. Depois de aviarmos todos os Astérix e Lucky Luke disponíveis, aconselhou-nos outras leituras. 

Há tempos passei no pavilhão da biblioteca do Marquês. Pareceu-me tão pequenino, tão diferente da ideia que guardava dele! E está fechado. 


Já o Astérix, continua grande como sempre. Ou até maior: a cada releitura, descubro novos detalhes da inteligência de Goscinny e Uderzo.

23 outubro 2019

Saint Pernocas Day in Berlin


Mais imagens do baú do facebook: o dia da Maratona de Berlim. Setenta mil pessoas (ou lá quantas foram este ano) a correr por um lado, e nós a correr pelo outro, para fazer festa ao nosso amigo Will em quatro pontos diferentes. No último ponto de encontro, já em Unter den Linden, nem reparou em nós. Estava concentradíssimo nos últimos metros da maratona. Conseguiu 2:32 - e por aqui se vê o nosso extraordinário desempenho: não é qualquer um que consegue apanhar um amigo em 4 pontos diferentes da cidade quando ele corre ligeiramente abaixo da velocidade da luz. 

Diverti-me muito a passar filmes do vencedor em directo no facebook  ("vocês viram aqui primeiro") - o pelotão da frente, aos primeiros dez minutos da corrida. E tive pena de o nosso amigo ser tão rápido, porque a seguir fomos todos para casa e não pude ver os brincalhões que aparecem depois do marco das três horas.

(Uma pessoa tem de se divertir com alguma coisa enquanto está à chuva e ao frio à espera que passe um maratonista amigo.)


sinais de vida humana



Hoje encontrei sinais de vida humana numa caixa de comentários do youtube. Este, para exemplo:

"My son lived 19 days and died of a heart condition. On the day he died just before surgery, knowing it would take a miracle, I played for him one last song from my mp3 player right before his surgery. I chose the 2nd movement of this piece. I wanted to blur the lines between heaven and earth. 10 years later, I don't regret the decision."
(Mvt. 2 is 11:14 to 22:10)


à maneira da antiga caixa de sapatos



Este rapazinho fez 23 anos há dias.
Como o tempo passa, etc., mas ele continua assim: a testar os seus próprios limites com doçura, e a fundir-se com a luz mais bela.

Reencontrei esta foto no facebook, e repartilho-a aqui. O facebook substitui alegremente a antiga caixa de sapatos onde guardávamos as fotos. Estas aqui, por exemplo:

A arrumar fotos antigas
Matthias, 9 anos

(os pés que não chegam ao chão)
 

A arrumar fotos antigas (agarrem-me, que isto nunca mais acaba!)
Esta foi na altura em que o rapaz - o mais pequeno, na foto - era 
o campeão de xadrez da região de Weimar.
Ganhou o prémio num sábado, e no domingo de manhã o professor de xadrez telefonou 
para nossa casa para se certificar de que nós tínhamos percebido o alcance daquela vitória. 
Um doce de professor, aquele.

03.2013 - Na Pampa boliviana, "perto" de Rurrenabaque - a 3 h de carro em estradas impossíveis mais 2 h de barco. Aldeia lacustre num rio que desagua no Amazonas.
(o Matthias devia estar a fotografar um crocodilo, que era o que ali mais havia)


22 outubro 2019

fora do mundo




Tirei estas fotografia há seis anos com o telemóvel jurássico.

"Jurássico" não é um exagero: há um modelo igual no Museu da Técnica em Berlim.

Tinha ido levar o Joachim ao aeroporto, e no regresso, sabe-se lá porquê, estacionei o carro num desvão da estrada e fui espreitar o canal. Há momentos assim, quando uma pessoa esquece todo o bulício da estrada atrás de si, e se concentra inteiramente no silêncio da luz ao entardecer. Fora do mundo.

E depois isto: o plash-plash de ritmo calmo, e um remador que se inscreve na cena outonal: imaterial e oblíquo.

21 outubro 2019

assim se fazem fake news...





Anda aí um grande regabofe por causa do discurso do Trump, no qual ele terá dito que a Itália e os EUA são aliados desde o tempo da Roma antiga. Para ajudar à zombaria publicaram imagens da expressão da intérprete que está atrás dele, como se estivesse perplexa devido ao que está a ouvir - imagens que se tornaram virais, claro, porque o pessoal gosta é de uma boa piada, por muito manipulada que seja.

Passo um filme no qual se pode facilmente comprovar que a cara que a intérprete faz é de mera concentração. Independentemente do que ele diz, volta e meia ela levanta a cara da folha onde está a escrever apontamentos e olha para ele sempre com a mesma expressão concentrada. Bem sei que as redes sociais são o que são, mas incomoda-me imenso o modo como abusaram da imagem de uma profissional que está ali a trabalhar e a tentar fazer o seu trabalho o melhor possível.

Mais me incomoda ainda a troça sobre o discurso do Trump.
Foi isto o que ele disse: "the United States and Italy are bound together by a shared cultural and political heritage dating back thousands of years to Ancient Rome."
Que se pode apontar de errado a esta frase? Quando muito, a banalidade. Mas convenhamos que era um discurso para o presidente da Itália, e convinha dizer meia dúzia de coisas simpáticas sobre o que une os dois países.

O que corre pelas redes sociais, e não só, é que Trump terá dito mais uma das suas calinadas: a Itália e os EUA são parceiros desde o tempo da antiga Roma.

Isto é de tal modo manipulado e estúpido que não dá para acreditar. Muito menos dá para aceitar tamanho tiro no pé: há tantos motivos gravíssimos para criticar o Trump, e andamos aqui a perder tempo e sobretudo a perder razão com estas manipulações que só nos ficam mal.

Esta chacota desautoriza-nos, e reforça nos fãs do Trump a convicção de que ele é perseguido pela nossa maldade e cegueira, e que o que contra ele se noticia são "fake news".

Um conselho a todos: se querem rir, arranjem uns livrinhos de anedotas, que os há para todos os gostos. Inventar mentiras para rir à custa do Trump devia ser um no go. Um absoluto no go.

A não ser que haja interesse em reforçar a sua base de apoio, para que ganhe também as próximas eleições. Nesse caso, inventem fake news e riam-se muito dele, dêem-lhe ainda mais argumentos para se auto vitimizar perante os seus eleitores.

comboio nocturno



Ainda não perdi a esperança em mim própria de partilhar aqui algumas imagens e peripécias das nossas férias na África do Sul, vai já há meio ano (bem, e de caminho terminar a série EUA 2009, e mais a da Bolívia, e mais a da Costa Rica...). Lembrei-me de novo dessa viagem por causa de um artigo que li hoje sobre comboios nocturnos. É que nós fomos de Joanesburgo para Cape Town no comboio turístico, em vez de avião, e foi uma viagem que mais se podia chamar uma paragem: uma infinita sucessão de paragens. Mas dou-lhe um grande desconto, por causa da noite e daquele dormir embalado pela regularidade do movimento e dos ruídos. E também do sossego das horas passadas a ler.

Viajar de comboio é um tema cada vez mais presente. Mais que tema, realidade: ultimamente ouço de vários amigos que foram de Berlim a Portugal de comboio. De modo que também eu - por causa da Greta Thunberg e de gostar realmente daquele dormir no embalo do comboio - estou a pôr a hipótese de viajar entre a Alemanha e Portugal num comboio nocturno. E hoje, ao ler uma entrevista a um rapaz que até tem um blogue (aqui, em alemão) sobre o assunto, este projecto ganhou ainda mais força. 

Dizia ele que as pessoas que viajam de comboio são excelentes companheiras de viagem, e que só por causa das conversas já vale a pena ir de comboio nocturno (e eu a fazer contas de cabeça: quando foi a última vez que me lembrei de trocar meia frase sequer com a pessoa ao meu lado no avião da Ryan Air?). E que a comida no vagão-restaurante dos comboios checos é qualquer coisa - mas isso já eu sabia: se for para ir de comboio de Berlim até ao Báltico, ou até Praga, há que escolher uma ligação com comboios checos. Ah, e se for de Berlim para Praga, arranjar um lugar do lado esquerdo, por causa da Sächsische Schweiz. Quem avisa...

A companhia, dizia ele. E depois descreveu as suas rotas favoritas:
- Berlim-Budapeste. Acordar às 7 da manhã e ver a paisagem do Danúbio.
- Estocolmo-Narvik - por causa das Lofoten e da última etapa da viagem, que é a descida das montanhas até ao nível do mar (melhor ainda: na época mais clara do ano).
- Helsínquia-Kolari no Aurora-Borealis-Express.
- Milão-Sicília (oh, e eu que quero tanto ir à Sicília!). Paisagem belíssima, e na última etapa o comboio vai de ferry.
- Viena-Kiev, passando por Lemberg.

(Ai! Agarrem-me que eu estava a pensar ir a Portugal de comboio, mas se calhar vou-me perder um bocadinho em todas as outras direcções!)

Conselhos práticos:
1. Para quem vive na Alemanha (não sei como será para outros países) - ver os horários no site da DB (Deutsche Bahn) mas comprar os bilhetes nos sites das companhias nacionais de comboios, porque o da DB é demasiado complicado.
2. Comprar os bilhetes com muita antecedência - 3 ou até 6 meses, se possível.
3. Para quem pretende fazer várias viagens: comparar com o preço do interrail.

Sites importantes:
The man in seat 61...Interrail

Livro: Europe by Rail

17 outubro 2019

até ao pescoço (2)


Estes que morrem no mar pagaram fortunas à máfia que os mete num barco a caminho da Europa. Alguns dos que conseguirem chegar à Europa continuarão a dar muito a ganhar à redes criminais organizadas: se não receberem o estatuto de refugiado, a máfia ajuda-os a ficar ilegalmente na Europa, empregando-os - por exemplo - em explorações agrícolas, desempenhando tarefas que são necessárias mas poucos europeus querem fazer. Muitos deles pagam metade do seu salário à organização que os esconde.

Como se as condições de vida e de trabalho destas pessoas não fossem suficientemente horríveis, há casos de mulheres obrigadas a ter relações sexuais com o detentor de algum cargo de poder - por pequeno que seja - para garantir o alojamento e o posto de trabalho. Elas sujeitam-se: há dívidas para pagar, há uma família lá longe que precisa desesperadamente do dinheiro que lhe conseguem mandar regularmente.

E porque é que eles querem vir para a Europa, sabendo o destino cruel que provavelmente será o seu? De que fogem eles?
Fogem dos horrores que resultaram da desestabilização do Iraque devido àquela guerra de invasão que foi iniciada com a cumplicidade de Portugal. Fogem de regiões em processo de desertificação resultante do desequilíbrio da Natureza provocado pelos standards de consumo e poluição dos países ricos. Fogem de países africanos a sofrer ainda as terríveis convulsões resultantes da sua herança colonialista.

Estamos metidos nisto até ao pescoço. Mas não vemos, porque somos peritos na arte de não ver.

Algum dia, contudo, teremos de abrir os olhos, teremos de ver e decidir. Talvez quando o fluxo de pessoas que procuram na Europa um porto de abrigo se tornar incontrolável, talvez quando o poder das máfias que vivem deste negócio (de momento, são cerca de seis mil milhões de euros por ano) se virar com toda a força contra nós.

Como evitar dar ainda mais dinheiro e poder às máfias, um poder que haveremos de pagar muito caro? Elementar: secar-lhes a fonte do rendimento, tornar o seu trabalho supérfluo. Mudar as regras do jogo de modo a que as pessoas possam viver em paz e prosperidade no seu próprio país, e garantir um transporte seguro àqueles que precisam realmente de se refugiar na Europa.

Talvez tenha chegado o momento de experimentar um pouco de decência.
Porque as experiências de indecência que temos feito - o pacto com o Erdogan ou com países do Norte de África para manter os refugiados longe da Europa - além de representarem uma traição dos valores que dizemos serem os europeus,
também nos custam muito dinheiro. Com resultados que ficam muito aquém da despesa e da vergonha em que incorremos.

the Trump Era


Quando uma pessoa lê uma carta assinada pelo Trump e não sabe - não sabe mesmo! - se se trata de um documento real ou de uma sátira: isso é "the Trump Era".

Ou, como alguém dizia algures nas redes sociais: the Trump Error.


15 outubro 2019

ar fresco

Esta semana tenho no apartamento do rés-do-chão uma família com filhos adolescentes.
Ao contrário da esmagadora maioria dos miúdos desta idade, estes, quando falam comigo, olham-me nos olhos e abrem a cara toda num sorriso genuíno.
O bem que faz! Quase me dá vontade de inventar pretextos para falar com eles, e saborear mais uma vez o milagre daqueles sorrisos.

Há dois anos tive uma família suíça com duas meninas de 7 e 9 anos, que ficaram um mês inteiro a aprender alemão. Sempre que entravam no jardim olhavam para cima, para a janela do meu escritório. Se me viam, e eu a elas, acenavam. Encantadoras.

Temos recebido outras famílias com crianças que também cumprimentam, mas apenas por boa educação. Boa educação já é melhor que nada, claro, mas não é aquela espécie de ar fresco nas relações sociais que torna certas pessoas especiais e inesquecíveis.

Estas diferenças que vou observando no trato das crianças e dos jovens que nos visitam levam-me a olhar para as nossas experiências como família: penso na satisfação do Matthias, aí pelos sete anos, na festa do 70º aniversário de uma vizinha: sentado à mesa, a conversar naturalmente com o bando de irmãos da aniversariante, e a sair da festa muito feliz e orgulhoso por causa da longa troca de ideias que tivera com todos aqueles adultos. Penso na Christina também por essa altura, sempre atenta aos colegas de nível social mais desfavorecido - não para lutar contra a injustiça da marginalização mas por se interessar realmente por eles. E lembro-me de um chefe da UCSF que adorava os nossos filhos porque gostavam muito de conversar com ele. Um dia que um deles queira experimentar a UCSF, encontra lá um aliado conquistado por mérito próprio na altura em que andava na escola primária, ou antes ainda.

Parece-me que a simpatia e a empatia não se ensinam, e não será com certeza falha dos pais se os miúdos adolescentes forem demasiado tímidos para suportar o olhar de estranhos. Mas aqueles que abrem a cara em sorrisos luminosos, aqueles que oferecem um olhar atento à pessoa que está à sua frente - esses terão com certeza um caminho muito mais fácil, porque ainda antes de dizer a primeira palavra já conquistaram o interlocutor.

Todos nós preferimos ar fresco.

--

Sobre os miúdos que nem sequer têm a boa educação de cumprimentar, pergunto apenas: será que os pais têm ideia das portas que se fecham no futuro dos seus filhos pelo simples facto de não terem tido a perseverança e a firmeza de lhes ensinar o básico das relações sociais?

Acredito que as regras de cortesia são a melhor estratégia para fintar a timidez: saber o que é esperado de nós em cada situação livra-nos do embaraço de tentar inventar um comportamento adequado perante estranhos.


12 outubro 2019

ah, é apenas a minha opinião, e tenho direito a ela...

Amanhã vai haver uma marcha em Berlim contra o anti-semitismo e o racismo.
Muito simbolicamente começa na Bebelplatz: a praça no centro de Berlim - entre a universidade, a biblioteca, a ópera e a catedral católica - onde os nazis queimaram os livros em 1933.

Alguns dirão: pois, lá está - queixam-se da fogueira de livros dos nazis, mas querem fazer o mesmo. Querem impedir os outros de dizer o que pensam.

Quem assim fala ainda não percebeu que não se trata de uma questão de simetria. "Racismo" e "respeito pelo ser humano" não são opiniões de valor igual e que merecem igual respeito. Não é uma questão de concordar em discordar, e muito menos de tentar encontrar um consenso - trata-se de respeitar valores básicos para a coexistência pacífica entre todos.

Lembram-se do Walter Lübcke, o político que foi assassinado este ano?
Eis a história completa (pode-se ler mais aqui e aqui, em alemão): em 2015, na altura em que os refugiados sírios entravam no país aos milhares por dia, foi necessário criar rapidamente centros de acolhimento para todas essas pessoas. Em cada região foram identificados edifícios devolutos que pudessem ser usados para esse fim, e fizeram-se sessões de esclarecimento com os cidadãos. Numa dessas sessões, no dia 14.10.2015, Walter Lübcke tentava explicar às pessoas o que ia ser feito, mas o seu trabalho estava a ser muito dificultado por agitadores de extrema-direita que se tinham espalhado por toda a sala, que o interrompiam gritando "Estado de merda" e "governo de merda" e atiravam perguntas provocatórias e polémicas. A certo momento, Walter Lübcke louvou o trabalho das escolas, do voluntariado e das instituições que trabalham em conjunto para transmitir os valores essenciais desta sociedade, disse que dá gosto viver num país que se identifica com eles, e - irritado com os gritos e as provocações - rematou: "e quem não defende estes valores, está à vontade para se ir embora do país se não concordar".
O vídeo deu a volta pela internet com títulos como "ser alemão não é crime".
Quatro dias depois festejava-se em Dresden o primeiro aniversário da Pegida, e um dos oradores comentou, a propósito deste incidente, que haveria com certeza outras maneiras de tratar os alemães que não concordam com a política de integração, mas infelizmente os campos de concentração estavam momentaneamente fora de serviço. Mais tarde foi obrigado a pagar uma multa por discurso de ódio.
Entretanto, um vídeo manipulado (onde se ouve esta frase sem o contexto provocatório em que ocorreu) multiplicava-se pela internet, acompanhado por inúmeros comentários violentos. O blogue  "Politicaly Incorrect" publicou a morada, o número de telefone e o endereço de e-mail de Walter Lübcke. Ao longo dos anos seguintes, políticos de extrema-direita divulgaram este vídeo repetidamente numa estratégia de auto vitimização. Até que no dia 2 de Junho de 2019 um homem se dirigiu à casa de Walter Lübcke e o matou com um tiro. Era o homem que no fim deste vídeo se ouve a gritar "Verschwinde!) ("desaparece!")
A notícia do assassinato do político foi acolhida em certas partes da internet com comentários de júbilo: "uma ratazana nojenta a menos!", "agora só faltam os outros todos", "a guerra ainda mal começou".




Aqui está o comunicado do convite para a manifestação de amanhã em Berlim, em inglês. Sublinhados meus.



#KeinFussbreit (= não ceder)

Antisemitism and racism kill. Right wing terrorism is threatening our society.

The right-wing terrorist attack in Halle leaves us stunned and makes us angry. We commemorate the victims. Our thoughts turn to all members of the Jewish community, all affected people, relatives of the victims in and around the snack bar and at the further targets of the attack, as well as to all those who have long since ceased to feel safe.

Two people were killed in the terrorist attack. The members of the Jewish community have only just escaped a massacre. By now it is evident, that the perpetrator acted based on antisemitic and racist motives. He may have committed the crime alone, he is therefore not a lone perpetrator - the crime stands in the following context:

Jews, Muslims, People of Colour and all those who don’t fit into the inhuman conception of the world of the (extreme) Right, can no longer feel safe and secure
• More than 200 people have been killed by right-wing violence since 1990 in Germany
• Consolidated militant Nazi structures, the NSU network and right-wing networks in German security agencies
• Lack of willingness to elucidate and bring about justice, as recently experienced in the NSU Complex and in other radical right acts of violence
An unceasing trivialisation of the right-wing danger and a defamation and obstruction of democratic, civil society and antifascist engagement
and an advancing normalisation of antisemitic, racist and inhuman mindset in parliaments, media and the general public

We view this act as an attack on our society! A society in which we are committed to defend social and human rights and in which all people should be able to live a self-determined life free of fear.

Antisemitism, racism and any form of group-based discrimination are not mere opinions that a democratic society must endure. They lead to inhumanity, humiliation, discrimination and violent crime. We stand united and oppose this resolutely.

In this difficult hour, we stand together in solidarity and above all: indivisible!
We demand a consistent and complete resolution of all right-wing criminal acts of violence!
We call on everyone to show solidarity!
We will not allow ourselves to be played off against each other.
Together we express our grief, anger and compassion. On Sunday, October 13th we will walk from the Bebelplatz in Berlin-Mitte to the New Synagogue in the Oranienburger Straße.

This call was initiated by people, activists and organisations from the #Unteilbar alliance. We invite all people, groups and alliances who are committed to the demands and principles of the call to join us. The demonstration was registered together by #unteilbar and the Jewish Forum for democracy and against antisemitism – JFDA.

11 outubro 2019

até ao pescoço



A Turquia invade território curdo, e Erdogan ameaça a Europa (0:53):

"Ó União Europeia, se tentarem classificar a nossa operação como uma invasão, a resposta será muito simples: vamos abrir as fronteiras, e enviar 3,6 milhões de refugiados na vossa direcção."

Dá vontade de responder: não mandem, nós vamos buscar.
3,6 milhões em 500 milhões não chega nem a 1%.

Mas não: metemos o rabo entre as pernas, e assistimos caladinhos à invasão da Turquia.
Estamos metidos neste crime até ao pescoço.

o poder das palavras e a violência de extrema-direita (1)

Traduzo e partilho aqui algumas frases importantes do debate que neste momento decorre na Alemanha sobre o poder das palavras e a violência de extrema-direita, no contexto da tentativa de massacre numa sinagoga alemã a 9.10.2019.

Destaco uma delas, que é um elemento fundamental neste debate:

"Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet."

Um atirador a filmar um massacre em directo para a internet mostra que esta é muito mais que apenas um espaço de opinião. O lugar de verbalização é simultaneamente o lugar de formação de comunidades de tal modo sólidas que há quem decida criar factos (massacres!) para servir o sangue de que essa comunidade se mostra sedenta.

Se isto não é um convite - melhor dizendo: um ultimato! - a repensarmos todas as nossas teorias sobre a liberdade de expressão, não sei que mais será necessário para finalmente abrirmos os olhos.

----

Dirk Kurbjuweit: Há espaços do pensamento e da fala que estão ou abertos ou fechados. É melhor que alguns fiquem fechados, porque entrar neles é indecente ou, por vezes, perigoso. Nos últimos anos políticos da AfD têm feito muito para abrir dois destes espaços e atrair outros para entrarem neles.
Esses dois espaços de pensamento estão ligados a este atentado. O primeiro é o desprezo e a falta de consideração por quem é entendido como "outro". (...) O segundo é a banalização do nacional-socialismo. (...) Abriu-se de novo um espaço no qual já não é tabu dirigir um olhar suave ou aprovador ao período mais terrível da História alemã, um período de assassínios em massa.
O atacante de Halle movia-se nestes dois espaços, que estão ligados: há algumas coisas boas no nazismo, acredita que o Holocausto é um boato, os judeus são para ele "os outros", que ele odeia. E então, fez algumas armas e começou a disparar.
Estes espaços já existiam antes da AfD. Umas vezes as portas estavam mais bem fechadas, outras vezes pior. De momento estão escancaradas, e tem muito a ver com a AfD.
É esta a responsabilidade deste partido no atentado de Halle.

Marina Weisband: Nós começamos por falhar na tarefa de impedir a violência verbal. Na internet, no parlamento, em debates na televisão. (...) Há que lutar contra a teimosia de afirmar que o anti-semitismo é sobretudo muçulmano - não aceito que as minorias sejam jogadas umas contra as outras. (...) O nosso inimigo é o ódio. Não lhe podemos dar palco."

Max Czollek: A seguir ao ataque, Annegret Kramp-Karrebauer falou em "sinal de alarme". Mas isto não é um caso de alarme, isto é uma catástrofe. "Sinais de alarme" era quando deixavam metades de porco em frente a sinagogas, quando ofendiam pessoas nas ruas, e quando um político disse que o III Reich não passou de uma caganita de pássaro na História alemã. Aquilo a que agora assistimos é a tempestade sobre a qual temos andado a avisar. Nós, os que andámos há anos a chamar a atenção para o perigo do terrorismo de direita: os sinais que recebemos da célula neonazi NSU, do assassinato de Walter Lübcke, dos êxitos da AfD, da caça ao homem em Chemnitz e dos centros de refugiados em chamas. (...) Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet.  O nazismo e o ódio, que passam facilmente da cruz eleitoral para a aniquilação do "outro" são parte deste país. (...) Os judeus também estão no radar destes novos-antigos racistas. Quem quer uma Alemanha sem muçulmanos também a quer sem judeus. (...) A nossa direita, da qual a AfD é um sintoma, representa uma ameaça para todas as pessoas que não forem entendidas como "alemãs". (...) A ideia de que o antifascismo e o antiracismo são elementos básicos do interesse nacional da Alemanha após 1945, ou seja, que a esquerda e a direita não estão à mesma distância do centro político pós-nacional-socialismo, não corresponde à atitude política actualmente dominante. Mas devia.
Porque se, em 2019, este país não se baseia num consenso antifascista - então, não sei em que se pode basear.



dar a palavra aos cientistas

Há muitos, muitos anos, levei os miúdos à sala nobre da Universidade para assistirem à dissertação do pai no final das suas provas de doutoramento. Ia a dissertação nos primeiros minutos quando o Matthias, de seis anos, encostou a boca ao meu ouvido e sussurrou: "mãe, há algumas coisas que não entendo. Por exemplo: o que é pH?"

Penso nessa cena quando vejo pessoas a fazer afirmações peremptórias sobre o aquecimento climático, baseando-se em frases de algum famoso ou em filmes que encontraram no youtube para provar por a+b que isto não é bem como "os do lobby do aquecimento climático" dizem. Parecem miúdos de seis anos que ainda não se deram conta de que há assuntos de tal forma complexos que ficam fora do alcance da sua compreensão. É que nem sequer põem a hipótese de haver algumas coisas que não entendem: um filme de 15 minutos no youtube, combinado com uma boa demão de teorias da conspiração, e eis o pessoal a acreditar que sabe mais do que praticamente todos os investigadores científicos juntos.

Em que momento perdemos a noção do "só sei que nada sei"? Em que momento perdemos o sentido do ridículo que nos deveria impedir de tentar rebater o discurso científico com argumentos encontrados numa página qualquer da internet?

Não tenho a menor vergonha de afirmar que não percebo nada de aquecimento climático. Se quisesse entender o suficiente para poder rebater de forma séria o discurso científico produzido sobre estes fenómenos, tinha de largar tudo o que faço e entregar-me inteiramente ao seu estudo.

E penso também muito naquele letreiro à porta de um consultório médico: "Se veio aqui em busca de uma confirmação das informações do Dr. Google, sugerimos que se dirija antes ao Dr. Yahoo". Que é como quem diz: há níveis diferentes, e cada macaco no seu galho. Não há debate possível entre um cientista e alguém que, por causa de umas coisas que encontrou na internet, pensa que já compreendeu tudo até ao fim.


100 minutos de terror

Para o caso de haver por aí alguém interessado em saber o que aconteceu anteontem em Halle, traduzo partes deste artigo do Spiegel (onde encontrei também a imagem):

Stephan Balliet é acusado de homicídio em dois casos e tentativa de homicídio em nove casos. O Procurador-Geral fala abertamente em "terrorismo" e a ministra da Justiça fala em "ataque terrorista de extrema-direita". 

O que aconteceu:

 
11:54 - SB estaciona o carro perto da sinagoga e prepara o livestream na internet. No carro há quatro armas de fogo e vários quilos de explosivos. Balliet fala para a câmara do smartphone e larga algumas tiradas contra os judeus, os migrantes e o feminismo.
11:59 - SB põe o capacete ao qual prendeu o telemóvel, e conduz até à sinagoga onde se encontram 51 pessoas.
12.01 - Sai do carro e durante vários minutos tenta entrar na sinagoga, mas encontra todas as portas e janelas fechadas. O representante da comunidade judaica assiste a tudo o que é mostrado por uma câmara: "disparou várias vezes contra a porta e atirou vários explosivos, mas a porta não abriu - Deus protegeu-nos!", disse mais tarde ao Spiegel.
12.03 -  Uma mulher que passa na rua dirige-se a SB para criticar o uso que explosivos, que confundiu com bombas de Carnaval, e é morta por ele.
12.05 - Um condutor de entregas domiciliárias quer saber o que se passa com a mulher caída na rua. SB tenta matá-lo, mas a arma não dispara. O homem entra no carro e foge.
12.07 - SB desiste de entrar na sinagoga. Afasta-se no seu carro e descobre mais à frente o "Kiez Döner". Decide que será este o novo alvo, e pára o carro.
12.10 - Ataca o restaurante com explosivos e armas feitas por ele próprio. Dispara à queima-roupa para pessoas na rua, e mata um técnico dentro do restaurante.
12.16 - Quando quer fugir no carro, é confrontado pela primeira vez com a polícia, que atravessou um carro na rua. Dispara vários tiros contra a polícia e atinge o carro. É atingido no pescoço por um tiro da polícia, mas consegue entrar no carro e fugir.

12.18 - SB passa de carro em frente à sinagoga, mas não pára. Não se ouvem sirenes da polícia.
12.22 - Perto da estação dos comboios, SB atira o telemóvel pela janela, e continua na direcção de Leipzig. A polícia perde-lhe o rasto.
Pouco depois das 13.00 - Aparece 38 minutos mais tarde em Wiedersdorf, uma aldeia a 14 Km de Halle. Tem de mudar de carro, provavelmente porque terá dado um tiro no seu próprio pneu. Nessa aldeia tenta arranjar um carro e atira sobre duas pessoas. Rouba um táxi que encontra numa oficina, e continua a fuga.
13.38 - SB vai para a A9 (Berlim-Munique) e depois continua em direcção ao sul numa estrada nacional. Provoca um acidente sem feridos. Às 13.38 a polícia consegue apanhá-lo perto de Werschen, 40 Km a sul de Halle.

---

Uma nota à margem - as ruas onde ele andou tinham alguns dos melhores nomes da cultura e do Humanismo alemães: Schiller, Humboldt, Lessing, Goethe, Herder, Wieland. Há obviamente quem resista muito a avançar sobre os ombros de gigantes. 

10 outubro 2019

ataque terrorista em Halle - vídeo com legendas em português



Hoje ensinaram-me a descarregar vídeos, experimentei alguns programas e depois passei mais umas boas horas a pôr as legendas em português.
Estou a ter muito trabalho com esta peça, mas ela merece-o: eis o jornalismo que assume o seu papel de esteio fundamental da Democracia e de uma sociedade com sentido de decência.

 (Se as legendas não aparecerem automaticamente, basta carregar na respectiva caixa, na base do filme.)

---

Entretanto, se quiserem saber mais detalhes do que aconteceu ontem (sintetizando e traduzindo rapidamente do Spiegel):

O atacante gravou tudo num vídeo de cerca de meia hora. Inclusivamente os tiros e as pessoas a morrer. Ou as tentativas de arrombar a sinagoga, as exclamações "fuck!" e o nome "loser" que chamou a si próprio. Carregou um Golf alugado com armas e explosivos, matou um homem e uma mulher, feriu outras pessoas, foi ferido pela polícia mas conseguiu fugir. Passou do seu carro para um taxi, e foi apanhado na sequência de um acidente provocado por ele.

Na internet foi encontrado um manifesto com o plano detalhado do ataque, que se acredita ser autêntico. Estava num fórum da extrema-direita. O manifesto anuncia que ele pretende matar "de preferência" judeus. 

Stephan B. vive com a mãe em Benndorf, os vizinhos dizem que é muito reservado e nunca cumprimenta, e que estuda em Halle.

A polícia recebeu as primeiras chamadas a pedir ajuda pouco depois do meio-dia. Nas primeiras imagens do vídeo, num parque de estacionamento, ouve-se a sua voz irritada por as máquinas não estarem a funcionar como ele quer. Quer que o vídeo seja visto no mundo inteiro, e por isso de vez em quando fala em inglês. Faz um discurso de negação do Holocausto, põe o capacete e começa a conduzir. Ouve-se música rap.


Em frente à sinagoga agarra numa das muitas armas que estão no carro e parecem ser artesanais. A seguir tenta arrombar a sinagoga, lança alguns explosivos e mata pelas costas uma mulher que está a passar. 

Desiste ao fim de alguns minutos. Regressa ao seu carro, e cruza-se com um homem. Trocam algumas palavras, e o atacante dispara a sua arma, mas não sai nenhum tiro. O homem consegue entrar no seu carro e fugir.

Mais à frente, o atacante atira um explosivo para dentro de uma tasca de döner, mata um homem que está lá dentro, e atira sobre pessoas que tentam fugir na rua. Depois esconde-se atrás do seu carro e dispara contra os polícias.




ataque terrorista em Halle

Para terem uma ideia de como o atentado terrorista neonazi a uma sinagoga foi hoje tratado na televisão alemã, traduzi (muito a correr) o noticiário Heute Journal de 9.10.2019, que podem ver aqui.

ADENDA: dado que este post continua a ser partilhado, incluo aqui o vídeo já com legendas em português




[0:18 - Reportagem, voz off]
Leipzig, esta noite. Trinta anos depois da noite em que tudo podia ter acontecido, quando 70.000 pessoas temeram que as forças armadas estatais atirassem sobre os manifestantes - o que não aconteceu. A revolução pacífica tornou-se imparável.

[0:43 - Claus Kleber]
Boa noite. No dia que devia ser para celebrar o melhor da Alemanha, foi o pior da Alemanha que dominou as notícias: dois mortos, e pelo menos dois feridos em Halle an der Saale. O plano do autor do atentado era muito pior: o seu alvo era a comunidade judaica de Halle, na sua sinagoga, na festa mais importante do ano judaico, desprotegida e à mercê do assassino e da sua arma automática.

[01:13 - Imagens do ataque, voz off]
A meio do dia ouvem-se tiros em Halle. No bairro St. Pauli, que normalmente é muito tranquilo, uma mulher é morta a tiro perto da sinagoga. Dentro do edifício encontram-se entre setenta e oitenta pessoas. Os judeus comemoram hoje a sua festa maior, Yom Kipur, a festa da reconciliação.

[01:34 - Testemunha]
Atirou primeiro com a caçadeira, depois pegou na outra, que tem um som diferente. (...) Parecia equipado como um polícia, com o equipamento completo de combate, capacete, roupa de protecção, caçadeira, arma automática, granadas que atirou contra as paredes...
- Também ouviu explosões?
- Sim.

[01.56 - Imagem aérea]
A sinagoga é o alvo do ataque. O atacante, um alemão de 27 anos, tenta penetrar no edifício, e filma os seus actos. No vídeo, que decidimos não exibir, nega o Holocausto, fala com desprezo sobre estrangeiros e mulheres. Depois do fracasso deste ataque, mudou de alvo, dirigindo-se a uma loja de döner kebab a cerca de 600 m da sinagoga. Aqui, um homem é morto a tiro.

[02:22 - Porta-voz da polícia de Halle]
O atacante fugiu de carro, saiu de Halle. A polícia conseguiu detectar o carro e prender o homem.

[02:32 - Reportagem, voz off]
Também há disparos numa localidade vizinha, Landsberg. A polícia não confirma uma ligação aos acontecimentos em Halle, mas durante toda a tarde fala de uma "situação de amok". A polícia faz várias buscas domiciliárias em Landsberg. Entretanto o caso já está nas mãos do Procurador-Geral Federal, e a ministra do Interior publica um comunicado: "o que sabemos neste momento aponta para, pelo menos, um atentado de carácter antisemita. Segundo a avaliação do Procurador-Geral Federal, há indícios suficientes de uma possível motivação de extrema-direita."
O presidente de Sachsen-Anhalt interrompeu uma viagem ao estrangeiro e aterrou em Berlim ao anoitecer.

[3:14 - Reiner Haseloff, CDU]
Duas pessoas foram assassinadas, e o objectivo era matar muitas mais. É horrível ter de descrever um acto destes. Para mim é horrível ver esta motivação anti-semita que já se revela, saber que uma comunidade religiosa, concidadãos nossos, não se sentem em segurança, e que alguém os queria matar.

[3:41 - Reportagem, voz off]
A polícia fala de um único atacante, com motivação de extrema-direita, que queria entrar na sinagoga para provocar um banho de sangue.

[3:51 - Claus Kleber]
Já aqui se referiu a existência de um vídeo do ataque. O atacante - supõe-se que à semelhança de quem lhe serviu de modelo - transmitiu os ataques live na internet. Na redacção vimos este vídeo e  analisámos os factos que contém, mas decidimos não mostrar absolutamente nada dele. A vontade de se encenar a si próprio e de auto glorificação é também um dos motivos para estes actos de violência, e não queremos contribuir para isso. Está fora de causa!

[4:22 - Jornalista no exterior ]
- Annegret, ao longo do dia não era certo se se tratava apenas de um ou mais atacantes. Agora já se sabe?
- Ainda não há confirmação oficial, mas tudo indica que se trata de um homem isolado. Pode ter acompanhantes, pessoas que estavam ao corrente do seu plano, mas sobre isso ainda não sabemos nada. O vídeo que ele fez e está agora a ser analisado pela polícia mostra que não tinha mais ninguém com ele, ninguém a usar armas e a atacar a sinagoga. É um alemão de 27 anos, de Sachsen-Anhalt, que vive em Halle.
- Hoje vimos imagens de Halle. A comunidade judaica dá nas vistas? E a sinagoga?
- A sinagoga fica perto do centro antigo de Halle, e é bastante visível. É uma rua aberta, a sinagoga não está escondida. Uma habitante do bairro contou-nos há pouco que passa por lá frequentemente de bicicleta e nunca viu polícia a proteger o edifício. Pergunta-se porque é que justamente hoje, o dia mais importante da comunidade judaica, não havia ali polícia - de momento, esta ausência é objecto de grande crítica.

[6:25 - Claus Kleber]
Ontem à noite teve lugar em Berlim uma conferência dos serviços de segurança e do ministério da Justiça sobre os riscos da extrema-direita e do anti-semitismo, com o título "Justiça e sociedade contra a violência de extrema-direita". H. Funke fez a palestra principal.
- Boa noite, prof. Funke. A partir do que sabemos neste momento, que conclusões pode tirar sobre o contexto e as motivações do atacante?
- Antes de mais, um anti-semitismo assassino. No seu cerne está a ideologia da extrema-direita e dos neonazis na Alemanha e no mundo inteiro, como há um ano em Pittsburgh com um terrível resultado, vinte pessoas de religião judaica assassinadas, ou em Christchurch, onde atacaram uma mesquita e mataram a tiro cerca de cinquenta pessoas. É este o cerne.
- Este atacante, depois de não conseguir entrar na sinagoga, foi para outro lugar, para uma loja de döner, e matou um homem que em princípio não seria judeu. O que parece errático e tresloucado.
- Aparentemente, sim. Mas o cerne é monstruoso: é a misantropia que se revela em ideologias como o anti-semitismo, ou na raiva contra refugiados, ou na raiva à loja de döner e aos árabes.
- Como é que uma sociedade se pode proteger de um delírio que começa por ser praticamente invisível mas acaba por desembocar nesta violência assassina?
- De duas formas: os serviços de segurança - e ontem falou-se muito sobre isso - têm de estar mais conscientes da existência de novos riscos, redes que estão profundamente ramificadas, e em parte são terroristas, ou, como é provavelmente este caso, que trabalham com desvios de comunicação, influência e actos de imitação. Essa é uma questão. Mas a outra questão é que temos de acabar com o discurso de ódio, por exemplo o de um Björn Höcke, que no seu livro programático afirma que quer expulsar milhões de pessoas deste país para fora, e o quer fazer com - cito - "uma crueldade bem doseada, bem afinada". Ou seja: com sadismo. Isto não pode ser, não se pode admitir no espaço público, nos media. Isto destrói não apenas o sentido da moral, mas também a sociedade.
- Se bem entendi, coloca esta acção de um homem isolado em Halle an der Saale, ou seja, na província alemã, no mesmo nível de ataques que vão da Austrália à Noruega.
- É o lado negativo da internet. Uma pessoa vê, e encontra elementos que quer imitar. Este caso lembra Christchurch, mas lembra também Pittsburgh.
- A sociedade vai conseguir resolver o problema desta Hidra e das suas muitas cabeças?
- Ainda não é uma Hidra. Mas está a crescer. Temos o caso do 1 de Setembro de 2018 em Chemnitz, quando houve um encontro partidário nacional que juntou militantes da extrema-direita e hooligans, onde alguns gritaram "Hitler", temos o grupo Revolution Chemnitz, e temos o assassinato de um político, o primeiro cometido pela extrema-direita na História da República Federal Alemã. São tempos perigosos, e temos de lutar contra isso. Ambos: os serviços de segurança, e a sociedade. Só assim conseguiremos controlar o problema, e espero que isso aconteça.

[10:37 - Claus Kleber]
Em situações de perplexidade como estas, os símbolos e os gestos têm um grande significado. A chanceler esteve hoje com a comunidade da Grande Sinagoga de Berlim.

[11:00 - Entrevista com Josef Schuster,  representante do Conselho Central Judaico da Alemanha]
- Herr Schuster, devíamos ter previsto que isto iria acontecer?
- É certo que temos vindo a alertar para um certo temor dos desenvolvimentos e desvios na direcção da extrema-direita, e de um extremismo com potencial de violência. No entanto, não contava com um ataque concreto a uma sinagoga como o que hoje aconteceu.
- Será que nós, a sociedade alemã, o governo alemão, subestimámos alguma coisa, ou falhámos algo nos últimos tempos?
- Já chamei a atenção para o que tem acontecido ultimamente: há linhas vermelhas que estão a ser ultrapassadas, ideias que as pessoas tinham mas não se atreviam a dizer em público começaram a ser aceitáveis. E às palavras seguem-se actos - isto é um facto conhecido, que hoje, infelizmente, se verificou mais uma vez. 
- Frases dessas têm sido alvo de protestos claros por parte do governo, dos media, da maior parte da sociedade, mas aparentemente não está a ser suficiente.
- Não está a ser suficiente, e a isso junta-se um elemento novo em Halle, que foi o que mais me chocou: o atacante não conseguiu entrar na sinagoga graças a uma porta resistente, mas em dias como estes deve haver forças da polícia a proteger as comunidades judaicas. O que é algo que lamento, mas se tivesse estado ali um carro da polícia podia ter-se evitado pelo menos a segunda morte.
- Perguntas que os media e a opinião pública com certeza se farão nos próximos dias. Para além disso: o que é que a sociedade terá de fazer no dia seguinte a este atentado?
- A sociedade tem de fazer algo que é independente deste atentado, e que é fácil - mas se calhar muito difícil. É o conceito de coragem civil. Começa no nível mais simples: quando num café alguém fizer afirmações anti-semitas, racistas, xenófobas, alguém tem de se erguer e dizer "reparaste no que acabaste de dizer? pensas mesmo isso que disseste? parece-te que o que disseste é aceitável?" - é a isto que chamo coragem civil. E se for claro que estas afirmações, que estas opiniões são rejeitadas, é um passo muito importante.

[14:36 ]
O noticiário passa de novo para Leipzig, onde as pessoas celebram os 30 anos do início da revolução pacífica que levou à queda do muro um mês depois. Informam que o horror de Halle esteve no centro dessas celebrações. Mas não vou traduzir, porque isto já vai muito longo.

09 outubro 2019

se Cristo cá viesse...



Se Cristo cá viesse, provavelmente subia a este palco e dava um abraço à Ellen DeGeneres, que soube redizer tão bem, à maneira dela, o essencial da mensagem cristã.


08 outubro 2019

esta semana há circo

Há tempos li um romance sobre as manipulações na comunidade científica que resultam na entrega do prémio #Nobel a um investigador em vez de outro. Mas - cabeça de alho chocho! - já não me lembro do nome do livro, nem do autor, nem sequer do idioma em que o li.

Tenho muitas reservas em relação ao prémio Nobel. Pode ser dor de cotovelo, claro. Se mo tivessem dado a mim...
(sim: já que a tendência tem sido para reduzir o tamanho das peças literárias, depois do teatro, do jornalismo, do conto e dos poemas musicais, bem podiam pensar em mim como expoente máximo dos blogues, justamente agora que praticamente já só sobra o meu; ou então bem podiam pensar nas crónicas - ao menos as crónicas, caramba! - para dar ao Lobo Antunes; e é para não mencionar a originalidade da nudez atroz e involuntária do arquitecto Saraiva, esse estilo único criado por ele e por ele desenvolvido com enorme sucesso e perseverança.) (Algo me diz que acabei de cometer um terrível erro ao juntar o Lobo Antunes, o pateta do arquitecto e esta vossa servidora na mesma frase, mas o mal está feito. Adeus, mundo cruel, senhor juiz compreenda que foi alguma coisa que me deitaram naquele café.) (E depois: porque não alargar os estilos literários aos contextos contemporâneos? Um dia destes ainda haviam de dar o Nobel da literatura a um autor de tuítes...) (Hoje pareço um kamikaze com mola: a largar-se uma e outra e outra vez sobre o alvo.)

Tenho muitas reservas, dizia. Se já é difícil escolher com justiça (a propósito: o que é isso?) o primeiro prémio em literatura nacional, que dizer de um prémio de alcance mundial? Que sabem os senhores suecos da literatura - sei lá - portuguesa, nigeriana, tailandesa? E como decidir qual foi a conquista da medicina (da química, da física, da economia) mais digna de nota?

No final, fica a ideia de uma espécie de Óscares das Academias, da Literatura e da Paz: um espectáculo para alguns se celebrarem, e para animar as conversas de café.
Em suma: esta semana há circo.
Palminhas!

(Mas este ano podiam dar quase todos os prémios Nobel à Greta. A miúda que em 14 meses conseguiu fazer ouvir a sua voz no mundo inteiro, apelando a que os políticos dêem finalmente ouvidos aos cientistas, a miúda que conseguiu fazer-se ouvir, apesar do poderosíssimo lobby dos que querem transformar factos científicos em matéria de opinião: merece todos os Nobel da Ciência. E depois, dêem-lhe também o da Paz. Dêem-lhe o Nobel da Paz todos os anos da próxima década: porque, ao alertar as gerações mais novas para a catástrofe em curso, conseguiu levar este tema para o centro das famílias, criando em muitas uma predisposição para a renúncia voluntária em nome do futuro dos seus filhos, que é fundamental para reduzir as agitações sociais que a luta contra o aquecimento climático pode provocar.)

(Sobra o da Literatura. Se teimarem em não o dar ao Lobo Antunes, olha, dêem-mo a mim. Que não é qualquer um que consegue juntar tantos parêntesis num texto só, para mais escondendo neles o mais importante do que tem a dizer. Que me dizem deste estilo fusion, onde dadaísmo e falsa modéstia se cruzam, heinhe? Sou tão século 21 que já quase se podia dizer 22.)

(Se calhar acabava aqui este post, apesar de a veia do disparate estar a jorrar copiosamente.) (Ou talvez por isso mesmo)