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07 julho 2019

algumas perguntas ao jornal Público

Por falta de tempo, não escrevo um post com frases do Hitler, do Goebbels, dos teóricos racistas do regime nazi e da Fátima Bonifácio (no seu texto de opinião "Podemos? Não, não podemos", publicado no Público), e a sugestão para os leitores tentarem adivinhar quais são as frases dos líderes nazis, e quais são as da Fátima Bonifácio.
Seria um exercício extremamente difícil, porque não há diferenças.
O ódio étnico e racial que Fátima Bonifácio revela abertamente no seu texto de opinião é o mesmo ódio que vivia em muitos cidadãos das sociedades alemã e europeias, o ódio que alimentou a máquina nazi e que lhe permitiu levar a cabo o Porajmos: o genocídio dos ciganos.

Em caso de dúvidas, a visibilidade maior que tem sido dada à Shoah no âmbito dos crimes nazis oferece-nos um instrumento simples para aferir o teor de ódio étnico e racial de um texto: basta trocar o grupo alvo do ataque por "judeus", e avaliar o resultado. No caso do texto "Podemos? Não, não podemos" de Fátima Bonifácio, ficaria assim:

A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a judeus. Os judeus  possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios. Os judeus (e já se sabe isto desde o Mein Kampf) são inassimiláveis: organizados em famílias e parceiros de negócio, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando viviam na terra deles. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. Além disso, os judeus são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de grupos rivais. O que temos nós a ver com este mundo? Nada. O que tem o deles a ver com o nosso? Nada.

Seria imaginável que algum órgão de comunicação social que se leve a sério publicasse um texto de opinião nestes termos? Não, de modo algum.

A publicação daquele texto de opinião de Fátima Bonifácio  suscita as seguintes perguntas, que dirijo aos responsáveis do jornal Público:

1. Se publicou o "Podemos? Não, não podemos" da Fátima Bonifácio, que motivos apresentaria para não publicar um texto com as mesmas frases, mas sendo sobre judeus em vez de ser sobre ciganos e negros? Onde traça a linha vermelha, e segundo que critérios?
Será por respeito às vítimas da Shoah? Argumento estranho, porque os ciganos foram igualmente vítimas das mesmas políticas nazis de genocídio, e os negros foram durante séculos vítimas de um racismo que justificou o negócio da escravatura (e vice-versa).   

2. Como foi possível não se terem apercebido do ódio étnico e racial (para além da ignorância e do preconceito) subjacente ao texto que publicaram no jornal? Repito a pergunta, porque ainda não consegui recuperar da perplexidade: como foi possível?
Exijo agora do jornal Público um exercício de transparência paralelo ao que a revista Spiegel fez quando se descobriu que um dos seus jornalistas inventava as reportagens que entregava para publicar.

3. Apesar da tomada de posição de Manuel Carvalho - e, pior ainda, por causa dos termos em que esta foi feita - os mal-entendidos sobre o alcance e significado da liberdade de expressão em Portugal ganharam renovada força. Para muitos, Fátima Bonifácio é a mártir mais recente do "maldito politicamente correcto que nos oprime e não deixa dizer as coisas como elas são". Um jornal não pode publicar textos de ódio étnico e racial. Pura e simplesmente: não pode. Ao publicar, e ao tentar emendar depois dizendo que cometeu um erro de análise, coloca o discurso de ódio étnico e racial no âmbito da opinião. "Começou por nos parecer que não tinha mal"...
De que modo vai o jornal Público  assumir a sua responsabilidade por ter contribuído, com o exemplo que deu, para baixar ainda mais o nível do debate sobre a liberdade de expressão e a fronteira da decência do discurso no espaço público?

4. A publicação deste texto não vai ter consequências no jornal Público? Estamos perante uma das crises mais graves da sua existência? Ou não se levam a sério e portanto partem do princípio que o texto do Manuel Carvalho vai resolver o problema?

13 comentários:

  1. Muito bem! Subscrevo na íntegra.
    Ana Coucello

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  2. Parece-me que comparar o trabalho de um jornalista, regido por um código deontológico, com um artigo de opinião não faz muito sentido. De resto, se a opinião da senhora devia ser publicada, talvez não. Mas a razão de uns artigos de opinião ridículos gerarem ondas de contestação e outros passarem despercebidos é uma coisa que intriga.

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  3. Helena, posso utilizar o texto alterado da Bonifácio que substitui a palavra ciganos por judeus em comentário nos blogs O Insurgente e o Blasfémias? Creio que haverá muitas pessoas que por lá andam que precisam de ver o que andam a defender. Caso me autorize, quer que a identifique como fonte? Obrigado.

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  4. Obrigada por escrever tão bem aquilo que eu estava a pensar, e com muito mais diplomacia do que eu seria capaz de usar.
    Acrescento o meu espanto com a pequena onda de indignação que se vai levantando a propósito da indignação gerada pelo artigo de MFB, protestos de quem se arma com a sacrossanta liberdade de expressão e tenta fazer da articulista uma mártir.
    Espanto-me ainda com o facto de ninguém ter desarmado a primeira falácia do artigo de MFB, a de que a existência de quotas pressupõe que um candidato perfeito em matéria de competência e mérito será preterido por um que «simplesmente» preenche a quota, ignorando voluntariamente que durante séculos mulheres e minorias foram impedidas de adquirir determinadas competências e, quando essa proibição não pôde manter-se, entre dois candidatos de igual competência e mérito, o homem branco era sempre o preferido, pelo simples facto de ser homem e branco.
    Também é revelador que poucos tenham desarmado a segunda falácia de MFB: ela concorda que a existência de quotas foi determinante para dar visibilidade às mulheres, o que contraria espectacularmente a ideia que está por detrás da falácia anterior. É que ela é mulher...
    É bem verdade que para quem se habituou ao privilégio, a igualdade sabe a perseguição.

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  5. Calita, onde é que eu comparei o trabalho de um jornalista com um texto de opinião? O que eu aqui questiono é a responsabilidade de um jornal que publica um texto de ódio étnico e racial.
    Um jornal!

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  6. ATAV, esteja à vontade. Mas por favor explique o contexto e indique a fonte.

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  7. "Assunto mais importante a ter em conta são as baterias que se viraram contra o Público. Sobre essa injustiça, cabe ao cidadão agradecido que sou, lembrar que nos 30 anos para que vai aquele jornal ele fez mais por uma certa modernidade de Portugal - incluindo nela exatamente a luta contra o racismo - do que qualquer instituição portuguesa: universidades, políticas governamentais e qualquer outro jornal." - Ferreira Fernandes, in DN.

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  8. E desde quando é que o trabalho bem feito nos demite da responsabilidade de continuar a fazê-lo bem? Nada desculpa o jornal Público por ter publicado um texto com este calibre de racismo e anticiganismo. O facto de ter agora traído os valores básicos que tem defendido ao longo de todos estes anos é ainda mais um motivo para se encherem de vergonha e para perceberem que alguma coisa muito grave está a acontecer na equipa que faz o jornal.
    Volto a falar do Spiegel, que tem tido um papel fundamental no fortalecimento da Democracia alemã: quando fizeram asneira, em vez de se esconderem atrás dos pergaminhos vieram a campo assumir a enormidade do erro cometido e informar quer sobre o que levou àquele erro quer sobre as medidas tomadas para que não voltasse a acontecer.

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  9. O Público errou. Quem nunca errou?
    Claro que o texto de MFB é racista, claro que não deveria ter sido publicado (ou então, publicado devidamente contextualizado, com uma nota editorial que exercesse o contraditório e expusesse a irrelevância do pensamento da historiadora).
    Não foi assim, mas por favor não me venham dizer que isso mancha de forma indelével a reputação do jornal. Vejo que há quem o qualifique de tabloide, provavelmente por nunca ter lido o Correio da Manhã.
    Continuará a ser o meu diário de referência, a par do The Guardian e do NYT. Todos com erros no cartório, mas ainda assim grandes jornais.

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  10. Muito bem, Helena.

    O ilustre Ferreira Fernandes parece ter cada vez mais um dia fraco e outro forte...

    Como pode ignorar a radical diferença entre o «Público» de há trinta anos e o pasquim actual, criado e em desenvolvimento já quase há doze?

    O que o «Público» inicial e dos primeiros talvez dez anos terá feito por "uma certa" modernidade de Portugal (conceito que, em si mesmo, não tem forçosamente nada de positivo...), já o desfez várias vezes, sobretudo nos últimos sete ou oito anos, em que deixou de ser um jornal de referência, para passar a ser apenas mais um órgão de comunicação tablóide, muito permeável à mentira descarada e à manipulação dos seus leitores.

    Os exemplos são incontáveis e constantes; quem não o conhecer, que o compre. Ou que o leia - e retire as suas conclusões.

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  11. Joaquim, parece-me que o Conde de Oeiras já respondeu bem ao seu comentário.
    Eu acrescento apenas que discurso racista não se admite num jornal, nem sequer com contextualizações e contraditórios.
    Aliás, dizer "contraditório" neste contexto lembra-me uma anedota que ultimamente tenho contado muito, infelizmente:

    Manif neonazi: Morte aos judeus!
    Contramanif: Não!
    Observador: Vejo que há aqui uma divergência de opinião. Temos de debater para conseguir encontrar um consenso.

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  12. Só agora li o inacreditável artigo da M.ª de Fátima Bonifácio.

    De tudo o que mais me chocou - e foi muito! -, o uso despropositado e abusivo da palavra Cristandade foi o mais revoltante.

    Bolas para esta "modernidade"...

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