30 novembro 2018

do baú de recordações

O facebook lembrou-me que há três anos publiquei um post a dizer que não tinha tempo. Se fosse só naquele dia há três anos...

A verdade é que ando desde 2015 com vontade de contar sobre a colónia de artistas de uma aldeia pacata na fronteira da Polónia com a qual tenho a sorte de partilhar alguns dias de outro mundo. Enquando não faço um post decente sobre isso, guardo no blogue este momento que o facebook me lembrou:

Ando há meses para contar sobre uma colónia de artistas berlinenses que se reúne num lugar mágico perto da Polónia ("uma fortaleza medieval, com fosso de água, que foi modernizada no período barroco"), mas a vida real atrapalha-me muito esta aqui. Hei-de contar, e pôr fotos, não perdem pela demora. Para já, deixo estas:





Hippolyte et Aricie - e mais um vício



Ontem fui à Staatsoper Unter den Linden ver o Simon Rattle a conduzir a ópera de Rameau "Hippolyte et Aricie", e acabei fascinada a ver o trabalho do Ólafur Elíasson. Mais um vício, como se não tivesse já vícios em demasia...

Simplesmente hipnotizante: o modo como trabalha com a luz, os reflexos, os espelhos.
Assim não há condições para ficar uma ópera inteira a cuscar o Simon Rattle!

(E se fosse só o Ólafur Elíasson a impedir-me de ver o Rattle, bem íamos. Mas - maldita Staatsoper, maldito inventor das óperas redondas para as pessoas do público se cuscarem mutuamente, em vez de olharem para o palco! - sempre que a minha vizinha se chegava para a frente para ver melhor, eu tinha de me torcer toda para tentar ver por debaixo do sovaco dela, ou esticar-me por cima do seu assento para ver na clareira entre ela e a amiga. Claro que também me podia chegar para a frente, mas não queria fazer a mesma cena de egoísta. Claro que também lhe podia dar uma cotovelada, e apontar para todas as pessoas atrás dela que ficavam sem ver. Mas mais ninguém se queixava, e iam ser duas contra uma, e a gente nunca sabe do que é que alguém é capaz, se já se chega assim à frente sem contemplações nem remorsos.)

(O que me dava jeito era ser rica, e ficar num dos lugares em frente ao palco, onde o único problema que tenho é sentar-me semideitada na cadeira, para os de trás poderem ver. Mas como só me chega para comprar bilhetes a preços de povo, fico sujeita a estas situações boas para reconhecer metáforas sobre a arraia miúda a melhorar a sua situação à custa dos outros, tal e qual como os ricos.)

(Espero que o Marx não tenha lido a última frase.)


aviso aos navegantes: estão a marcar uma revolução para amanhã

O amigo que me avisou, e me perguntou se já tinha comprado as latas de sardinha e enchido o depósito do carro, suspeita que andem por aqui os dedinhos do Bannon e do Putin.

Nos jornais leio que tanto Sahra Wagenknecht, à esquerda, como a AfD, à direita, vêem com bons olhos o movimento dos "coletes amarelos" franceses, e desejariam que chegasse à Alemanha. Mas duvido que Sahra Wagenknecht concorde com algumas coisas do primeiro vídeo que aqui passo. É sempre assim: ainda a revolução não começou, e já há dissidências...

Os dois vídeos são claramente de extrema-direita. O que mais me irrita no primeiro é este discurso nacionalista, egoísta, fim-do-mundista e autovitimizador colado às imagens de uma Alemanha moderna e aberta ao mundo. Vão filmar o mundinho deles, e deixem o meu em paz!

Os dois vídeos estão legendados: há aqui alguém que quer que a mensagem alastre a países que não falam alemão. E vem com frases como as que se seguem, que traduzo apenas porque são um bom elemento de estudo sobre como agitar o pessoal na internet:

COLETES AMARELOS - FIM DA DITADURA DA RFA!
01.12.2018 REVOLUÇÃO ALEMANHA!
PARTILHEM! VISTAM OS COLETES AMARELOS! Para os cépticos: a primeira frase do vídeo é dirigida a vós.
PONTOS DE ENCONTRO: http://qlobal-change.square7.ch/galle...  [NT: quem diria: um site suíço...]

Façam DOWNLOAD & REUPLOAD deste vídeo as vezes que quiserem! PARTILHEM POR TODA A PARTE! (Não se confundam com o número de cliques - há cópias do vídeo por toda a parte. Mesmo assim, espalhem-no o mais que puderem!)
A partir de 1 de Dezembro são apenas dez dias até à assinatura da nossa sentença de morte: o Pacto de Migração! Agora é tudo ou nada! ESTA É A VOSSA ÚLTIMA OPORTUNIDADE! Não é possível negociar com ditadores que são doentes mentais. NO DEALS! O nosso trabalho gratuito deve estar acessível a todos gratuitamente. O youtube já nos apagou uma vez! A censura é cada vez mais radical, pelo que também nos encontram nestes links (...) e neste blogue:  https://qlobal-change.blogspot.com/







Ólafur Arnalds

Deixei o youtube em autogestão, e ele foi indo, foi indo, e desembocou aqui.
A melhor música para pacificar esta manhã cinzenta e cheia de trabalhos secantes para fazer.



(*) Trabalhos secantes: aqueles trabalhos que são uma boa seca e nos cortam o dia como uma secante.
(Depois também há a procrastinação, que aumenta para os limites máximos o segmento que a secante ocupa na circunferência.) (Olha, olha, que curioso: cá está ela outra vez, não sei como arranja de aparecer sempre que venho ao blogger...)


Brasil, um país do passado

Se não fosse da Deutsche Welle, ia pensar que são Fake News. E das de pior qualidade: coisas tão palermas que ninguém consegue acreditar.
Mas é da Deutsche Welle. Copio para aqui, para memória futura deste momento em que somos testemunhas impotentes da catástrofe.



Coluna Cartas do Rio

Brasil, um país do passado

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck. 

Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.
No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.
Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.
No Brasil atual, não se grita "herege!", mas "comunismo!". É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!
Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.
Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".
Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, "alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento", segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.
A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como "Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT". Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.
Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a "musa do veneno" (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).
Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.
O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.
Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.
Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.
Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.
Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo "criminalizados". Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.
Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A "Escola Sem Partido" tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como "asneira sem tamanho".
A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.
Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.
É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.
E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou "convexa", e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.
Brasil, um país do passado.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.


29 novembro 2018

a verdadeira artista...

Não é que a gente se levante realmente cedo. O sol é que chega tarde ao nosso dia, aqui perto da Sibéria.

Pelo que esta manhã, ao pequeno-almoço, reparei que o amanhecer ia ser especial, fui buscar a máquina fotográfica, e comecei a ir de cinco em cinco minutos à varanda para tirar fotografias.
Em camisa de dormir (de Verão) e descalça.

Se me der uma coisa má, é porque sou a Madame Curie da fotografia. A verdadeira artista. :)

 



como o tempo passa

Bem me lembro daquela vez, há três anos, quando disse „À velocidade a que o tempo começou a andar, daqui a nada chega a Páscoa e logo a seguir o Natal de 2018“.

Meu dito, meu feito.





28 novembro 2018

Khatia Buniatishvili sujeita a interrogatório...



Lá fora está um sol fantástico, tenho de ir ao correio e ao supermercado (e aproveito para levar a máquina fotográfica), mas fico em casa a ver este vídeo. Sol lá fora, sol cá dentro.

Esta mulher é fascinante. E gostei muito da resposta dela à acusação sobre o tamanho do seu decote: "estamos na Europa, ou no Irão?"

(e faz isto em alemão! caramba!)
(o filme tem legendas em inglês)

II Feira do Livro do Camões em Berlim

A Feira do Livro do Camões em Berlim abre hoje!
E às sete da tarde tem a tertúlia
e o pré-lançamento do audio-livro “Je suis Bovary”, uma conversa ao vivo sobre o amor nas suas múltiplas vertentes literárias, de e com Patrícia Portela & Leonor Barata.
Mais informações: II Feira do Livro.
(estou aqui a pensar: a CGD é mesmo ao lado. Se roubar para comer não é pecado, também devia haver tolerância para quem rouba para ler...)
 
(estou aqui - um bocado angustiada - a pensar: quais foram mesmo os livros que comprei em Portugal no verão passado, e deixei lá porque já não me cabiam na mala? é que roubar para comprar o mesmo livro pela segunda vez se calhar não tem desculpa...)
 
(estou aqui - faz-de-conta que aflita - a pensar: se passa um psi qualquer por este post, ainda me desgraço)
 
 

27 novembro 2018

Gleis 17



Tenho centenas de fotos deste memorial. E de cada vez me pergunto: tenho o direito de transformar o Horror em exercício estético?

Hoje, 27 de Novembro de 2018, faz 77 anos que saiu o primeiro comboio de judeus berlinenses para Riga. Contei aqui essa tragédia. Dois dias depois de ter escrito esse post, a História veio de novo ao meu encontro neste memorial: Estranhamente estranho a mim.




as contas que esperem

Mais pássaros na minha folha Excel...

E porque o vídeo termina de forma abrupta, fui à procura da versão completa.
- Orquestra Filarmónica de Viena, Georg Solti, filme August Everding - com legendas em inglês
- Orquestra Filarmónica de Berlim, Karajan, com Elisabeth Schwarzkopf no papel de Gretel
Na interpretação de Karajan, o dueto Abendsegen começa por volta de 54:00.
Elisabeth Schwarzkopf: sublime.

As contas que esperem. Tenho o escritório cheio de pássaros.





contas à música



Trabalhar ao som de música assim.

(Estou a fazer um relatório de contas, estou tramada: ainda me saem pássaros do lugar dos algarismos!)

26 novembro 2018

ainda Jordan Peterson e a tal agenda do Google

Um leitor comentou, a propósito do meu post anterior que analisava a insinuação de Jordan Peterson sobre o Google manipular o seu algoritmo segundo uma determinada agenda política, que quando se procura "couple" no Google Images, o resultado é um sem número de imagens de casais brancos, jovens e heterossexuais. Sobre a tal "agenda política" do Google, está tudo dito.

Outro leitor informou-me que no Quora alguém se deu ao trabalho de responder a essa insinuação. Copiei a sua explicação para o fim deste post. Leiam até ao fim, que vale a pena.

É assim este mundo em que vivemos: embora o Google se limite a apresentar aquilo que é mais procurado - e aparentemente o que é mais procurado quando se procura "casal" é um casal branco, jovem e heterossexual - o Jordan Peterson consegue pôr a correr uma teoria de conspiração de que o marxismo está a invadir as cabeças e os algoritmos, mudando as relações de poder a favor das minorias.
(Provavelmente ele vai dizer que não disse isto, porque a sua especialidade é escapar por entre os pingos da chuva, mas pronto. Se ele disser que não disse, alguém faça o favor de lhe perguntar o que queria dizer exactamente quando chamou a atenção para a tal manipulação do algoritmo do Google.) (Ah, claro, como pude esquecer? Ele vai responder que podemos ver um vídeo seu de duas horas no qual explica muito bem o que queria dizer com isso...)

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Why does Google incorrectly show interracial couples during image searches?

Myron Rosmarin
Myron Rosmarin, SEO consultant and web search product manager
Google Image Search works by analysis of textual clues found within image tags and file names and also in surrounding text on the web page. The search algorithm doesn't have the ability to actually “know” with certainty what is in an image.
You can see the artifact of “close, but not quite right” play out in a myriad of examples. In fact, I would venture to say that most image search results are typically more wrong than right. This is because the quality of relevance signals for image subject matter are relatively weak.
So if you do a search for [white couples] and you get a mixture of white and non-white couples, you ought to be happy to have found images that matched your query even if some of the image results did not.
Edit: I just went to Google Image search to double check what you were seeing. I noticed the inter-racial couples you spoke of in your original post. The answer is simple. In many cases, the title of the image was “Black and White Couples” (or something like that). Your search of “white couples” is a strong match for half of that title. It is therefore not surprising that these results are showing up in your search for white couples.
EDIT: I closed comments because I originally understood the intent of the question to be a legitimate question about the image search algorithm. Turns out the question is the focus of a conspiracy theory. To those who believe that Google has an agenda they are pushing through their subtle manipulation of the image search algorithm to sneak some interracial couples for the infinitesimally small number of image search queries for [white couples], you’ll be much happier at Reddit.


23 novembro 2018

Jordan Peterson e a "build in political agenda" do Google

Para que não me venham acusar de distorcer o que Jordan Peterson diz, passo parte de uma entrevista de JT ao London Evening Standard:

“Look up ‘white couple’ on Google Images,” he says suddenly. “Then look up ‘black couple’, then ‘Asian couple’.” Peterson and I look together. If you Google ‘white couple’, the first four images on the top row show a white woman with a black man. “This is way more terrifying than you think, because it means that Google is messing about with algorithms that present information to the public according to a built-in political agenda.”

Sou bem mandada, fui ver o que aparecia no Google Images quando se escreve "white couple". Aconteceu-me tal e qual como Jordan Peterson menciona na entrevista: o google ofereceu-me inúmeras imagens de casais com diferentes cor de pele.

Terrifying, diz ele, e logo ali expõe a sua espantosa teoria sobre o Google manipular o seu próprio algoritmo de modo a alterar a representação da realidade para servir determinadas opções políticas.

Já eu, em vez de ir pelas teorias da conspiração, pensei meio segundo e entrei nos sites de cada imagem para procurar a frase completa. Em todos os casos era assim: "xxxx black and white couple xxxx"

Elementar! Uma busca no Google por "white couple" vai obviamente mostrar também todas as imagens sobre "black and white couple", "asian and white couple", e todas as outras variações de casal em que um deles é "white". Aliás, se fizerem nova busca retirando a possibilidade de "black" e de "asian" [faz-se assim:  "white couple" -black -asian ], o Google oferece imediatamente dezenas de imagens de casais - surpresa! - brancos.

Pensando um pouco mais, pergunto-me por que motivo alguém escreveria "casal branco" num texto. Se o universo da pesquisa do Google é uma sociedade de maioria branca (melhor: uma sociedade onde os brancos têm mais visibilidade), "casal branco" é a definição por defeito. Só se menciona a cor dos brancos se houver um desvio em relação ao habitual. A primeira pesquisa no Google ["white couple] mostra isso mesmo: os casais brancos não são simplesmente casais brancos, mas casais brancos aos quais aconteceu algo fora do normal, como por exemplo ter-lhes nascido um filho de pele escura.

Esta omissão do óbvio é algo normal no nosso quotidiano: nenhum jornal português se refere a um casal em Portugal dizendo "o casal português", mas provavelmente já mencionará a nacionalidade se se for um casal estrangeiro ou de várias nacionalidades. Do mesmo modo, nenhum catálogo de produtos escolares escreve "tesoura para destros", mas já escreverá "tesoura para canhotos" ou "tesoura para destros e canhotos". Se eu procurasse no Google Imagens por "para destros", não receberia muitas imagens de objectos apenas para estes, e receberia uma enorme quantidade de imagens de utensílios "para destros e canhotos" - e imagens de pessoas sorridentes, lado a lado, empunhando objectos iguais uma com a mão esquerda e outra com a mão direita. Devo concluir que o Google também tem uma agenda política para impor a supremacia dos canhotos sobre os destros?
(Malditos marxistas do Google, isto é só mensagens subliminares!...)

Mas então, perguntarão, se "white couple" não é uma categoria que se justifique mencionar nos textos, porque é que quando se procura "white couple", excluindo todos os textos onde aparece a palavra "black" ou "asian", aparecem tantas fotografias de casais brancos? Fui espreitar, e a explicação é muito simples: são catálogos de imagens. "Casal branco de idade", "casal branco jovem sorridente", "casal branco a discutir", etc.

Fica assim explicado porque é que o Google mostra casais de cores de pele diferentes quando a busca é por "white couple". O que suscita uma terrifying questão: o que levou Jordan Peterson a pegar nesta história, que tem uma explicação tão simples, usando-a para insinuar que o Google anda a manipular o seu algoritmo por motivos políticos? Terrifying, também, é a sua incapacidade de reparar realmente no mundo em que vive. Qualquer pessoa mais ou menos atenta repara que num mundo de brancos essa é a cor "por defeito" (em que cor pensamos quando dizemos lápis ou lingerie "cor de pele"?), pelo que não é explicitamente mencionada e por isso não faz sentido usá-la para fazer buscas no Google, e muito menos tirar conclusões fantasiosas a partir dos resultados desta pesquisa condicionada para falhar. 

Complicando um pouco mais a análise: para testar a minha teoria da cor "por defeito" ser a cor da maioria da população, fui espreitar a internet angolana. Pensava que não encontraria nenhum casal negro com a legenda "casal negro", mas encontraria alguns casais brancos com a legenda "casal branco" e outros com "casal branco e negro". Procurei assim:
- "casal branco" site:ao
- "casal de brancos" site:ao
- "casal negro" site:ao
- "casal de negros" site:ao

Sabem o que encontrei? Nada. Praticamente nada.
Excepto no "casal branco": o meu écran encheu-se de imagens de móveis de quarto e de lençóis de casal brancos.

Ia tirar umas conclusões sobre Angola ser um país muito à frente, onde a cor da pele não tem importância nenhuma, mas de facto não sei e não quero incorrer numa Petersonada humilhante. Agradecia às pessoas especialistas nesses "cursos que não servem para nada excepto para passar a agenda marxista" (espero ter citado bem Jordan Peterson) que me expliquem porque é que, ao contrário dos sites dos EUA, nos sites angolanos ninguém menciona a cor da pele dos casais, sejam eles brancos, ou negros, ou misturados.

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Sabem o que é mais triste de tudo isto? Jordan Peterson diz aquele disparate, e vários milhões de pessoas abrem muito os olhos e dizem "oh pá, é isso mesmo! estamos tramados!"
Eu dou-me ao trabalho de explicar que não é nada disso, mas só meia dúzia de pessoas prestam atenção. E esses poucos nem precisavam de ler este texto: já sabem bem do que é que a marca Jordan Peterson gasta.

(Estamos tramados!)

21 novembro 2018

touradas

Lembro-me da primeira vez que vi uma tourada na televisão. Mesmo sendo a preto e branco, achei aquele espectáculo uma barbaridade. Os meus pais explicaram-me que o touro não sentia nada, que era pouco mais que uma injecção.

Tinha seis anos, eram os meus pais, quis acreditar. Acreditei. Durante décadas consegui fazer de conta que era só uma injecção.

Fui a duas touradas. Estava a fazer férias com amigos alemães, e lembrei-me de lhes mostrar "cultura portuguesa". Ainda queria acreditar que "era como uma injecção", e além disso era "cultura". Os amigos que levei à primeira das minhas touradas disfarçaram bem. Os que foram à segunda tourada não disfarçaram nada. E além disso um dos animais começou a mijar-se sem parar. Não sei se era de medo, se era de nervos, se era o quê. Sei que só então fui capaz de abrir realmente os olhos, ver o logro dos meus pais, dar-me conta do horror de tudo aquilo.

Ultimamente tenho lido vários textos sobre o sofrimento do touro. Agradeço a todos os que os escreveram. Que ninguém mais volte a conseguir acreditar que as bandarilhas não doem, e que as touradas não provocam um sofrimento terrível ao touro.


Este, que partilho a seguir, estava no blogue Pró Touro - pelos touros em liberdade.


Jose Sepúlveda, técnico de som do Canal Nou e que durante algum tempo trabalhou na transmissão de touradas decidiu relatar aquilo que viu e ouviu durante estas emissões. A imagem inserida no texto é apenas para ilustração do artigo.

” Sempre que trabalhei na parte sonora das transmissões frequentemente comentava que se em lugar da banda de música, dos aplausos, dos bravos, dos olés e etc o som fosse captado pelo Sennheiser 816 (microfone que capta a grande distância e com muita qualidade) perto da arena onde se escuta perfeitamente o som das bandarilhas a entrar na pele, os mugidos de dor do animal a cada tortura que é submetido e além disso se as pessoas acompanhassem os primeiros planos das feridas, dos coágulos tão grandes como a palma da mão, do sangue que jorra, do bater do coração ou o olhar do animal antes da estocada final 90% desligaria a televisão ao presenciar tamanha chacina ao ritmo de pasodoble.
Eu pessoalmente pedi para deixar de fazer esse tipo de trabalho, porque um dia em Castellón, tocou-me estar entre barreiras e fiquei muito incomodado ao escutar um touro depois do toureiro ter falhado por quatro vezes a estocada e tive que tirar os auscultadores e o animal agonizava, cuspia, afogava-se no seu sangue vindo morrer mesmo ao pé de mim apoiado na madeira e o seu olhar ensanguentado e com lágrimas, sim lágrimas, sejam ou não sejam de dor cruzou-se com o meu até que um inútil falhou duas vezes o descabelo e eu disse-lhe tudo e mais alguma coisa.

touro agonizando

Foi aí que terminou o meu trabalho em praças de touros para toda a vida.
São sentimentos pessoais e o mais provável é que um amante da “fiesta” ache ridículo, mas para mim ridículo é quando depois de semelhante carnificina olhas para o público e vês que aplaude, come sandes sem qualquer preocupação não tendo visto nem ouvido o que eu testemunhei”.


"Yaoundé"

A propósito da palavra do dia, que era #Yaoundé, alguém escreveu na Enciclopédia Ilustrada: “Estas buscas que a EI nos obriga a fazer têm uma virtude: baralham o algoritmo todo. Ficamos com perfís completamente atipificáveis.”
Era mesmo o elogio que faltava fazer à Enciclopédia Ilustrada: combate a Cambridge Analytica e o Bannon! Ainda dão o prémio Nobel da Paz a quem teve a feliz ideia de criar este grupo.

Agora, e para não arranjar problemas por estar a gastar um post com um tema que não está ligado à palavra do dia, deixem-me contar-vos que uma vez apanhei um táxi em San Francisco cujo condutor vinha da capital dos Camarões.
- Conhece os Camarões?, perguntou ele.
- Sim! Tem uma fantástica equipa de futebol!, disse eu, que tenho uma grande cultura geral só de ouvir dizer. Ele ficou muito satisfeito. Depois ocorreu-me que não sabia mais nadinha dos Camarões, e comecei a tentar puxar pela memória. Finalmente, ocorreu-me mais uma coisa:
- E tem imensa biodiversidade!
Ele anuiu, mas já não tão convencido. Foi aí que me dei conta de que estava a confundir Camarões com Madagáscar. Ooops. Calei-me por uns momentos, ele falou de não sei quê, e daí a nada estávamos ambos a zurzir no Trump. Depois, por estarmos quase a chegar ao cruzamento da rua onde ficava a minha casa, disse-lhe que me podia deixar ficar na esquina, porque se me levasse à porta de casa depois tinha de ir dar uma volta enorme naquela zona de ruas de sentido único. Mas ele insistiu em entrar na rua, dizendo:
- Já me sinto triste só de pensar que vai sair do meu carro.

De modo que é assim: não sei bem onde é Yaoundé, mas sei que produz uns simpáticos exemplos de seres humanos.


o ímpar perfeito


Conheço no facebook duas fantásticas criadoras de tendências: vão para o trabalho com sapatos um de cada cor, e depois falam disso no seu mural como se fosse engano. Mas eu bem sei, bem lhes adivinho a estratégia: tudo faz parte de uma muito bem pensada campanha de marketing!

E pensava eu que os meus filhos é que eram muito à frente, por não se darem ao trabalho de emparelhar as meias, e usarem uma de cada cor...

Meias diferentes têm a sua graça
(e adoro aquelas combinações de riscas e bolinhas, ou cores diferentes. Especialmente quando as cores são incompatíveis, um autêntico convite a avançar permanentemente, porque nem pensar em deixar os pés parados lado a lado, a fazer tooooooinnnnng! nos olhinhos)
mas sapatos diferentes é o non plus ultra!
As minhas amigas criam a tendência, eu vou atrás: vou ver que sapatos tenho aí que combinem assim bem uns com os outros. Porque só sapatos iguais mas de cor diferente é um bocadinho banal, parece-me. Já tem de ser algo realmente ousado!

Se não souberem de mim durante as próximas horas, é porque estou no fundo do armário dos sapatos a ver se encontro o ímpar perfeito. 
 

20 novembro 2018

a perfeita camuflagem


- Como é que se camufla um raposito em Berlim?
- Espera-se pelo Outono e...





18 novembro 2018

é com alegria que anuncio o regresso de... (um doce para quem adivinhar)



Não, não é o regresso do Outono glorioso. Podia ser, mas não é.
Também não é o regresso do Inverno: em pezinhos de lã, revelado nas pérolas de gelo que debruam as folhas do caminho. Não, não é bem isso.



O regresso que anuncio com alegria também não é o anoitecer no lago, pouco depois das cinco da tarde.
Era o que faltava, alegrar-me por estes dias tão curtos!

 
  
Não senhores. Nada disso.
O regresso que anuncio é o deste simpático. Voltou cá a casa por uns dias!



Recomeçaram os passeios, o vagar para reparar na luz das árvores de Outono contra o céu azul, nas folhas desenhadas pela geada, na lua do lago ao fim do dia.

17 novembro 2018

é assim que uma pessoa se põe velha...


E vão 55.
Assim sem pensar muito, já cá devem cantar uns bons vinte mil favorite days.
(Apenas vinte mil? Oh, vida tão curta para tanta alegria!)


15 novembro 2018

ai, Brexit!

Notas soltas:

1. O problema que a Irlanda do Norte levanta ao Brexit faz-me pensar numa frase de Jean Paul: "a satisfação pelo que temos é muito menor que a infelicidade de o perdermos". De tal modo demos por certa a paz que a União Europeia trouxe àquela ilha, que nem nos lembrámos que um Brexit poderia despertar os velhos demónios. E só agora, quando o Brexit exige que se levante de novo a fronteira entre as duas Irlandas, nos damos conta do valor do que tínhamos e vamos perder.

2. Diana Zimmermann, a correspondente do Heute Journal em Londres, dizia hoje a propósito da hipótese de a Grã-Bretanha chegar à conclusão que afinal foi tudo um erro enorme, e decidir continuar na UE:
"Não se sabe qual seria o resultado de um segundo referendo, mesmo se as sondagens dão, de momento, uma ligeira desvantagem ao Brexit. Donald Tusk disse hoje que a Grã-Bretanha é sempre bem-vinda. No entanto, esse regresso não seria sem problemas. Nos últimos dois anos e meio muita coisa aconteceu aqui, houve debates... Se agora decidissem regressar ao seio da União Europeia, não o fariam por se terem entretanto dado conta de como é extraordinária, mas sobretudo porque descobriram como é complicado abandoná-la. Muitos dizem que o governo negociou mal, ou então que a UE chantageou a Grã-Bretanha. O regresso à União nestas condições seria sentido como uma humilhação. Num país que desde há alguns anos recomeçou a ter movimentos nacionalistas, a humilhação é algo muito perigoso."
(o Heute Journal pode ser visto aqui - as notícias sobre o Brexit surgem a partir de 10:38)

3. Ao olhar para o modo como os políticos que provocaram este imbróglio abandonaram o barco e deixaram a Theresa May, que era contra o Brexit, desempenhar a impossível tarefa de levar o processo até ao fim com um mínimo de danos, fico a pensar que de futuro os políticos que propuserem um referendo devem também apresentar um plano de execução e os nomes da equipa que ficará responsável pelo cumprimento da vontade do povo, se o povo assim o decidir.
Em defesa da Democracia, é preciso acabar com a inimputabilidade dos agitadores.


14 novembro 2018

isto é que é vida...


O príncipe Carlos festeja hoje 70 anos. Já tinha boa idade para ir para a reforma, mas ainda não o deixaram assumir o trabalho que foi decidido para ele antes ainda de ter nascido.

Uma pessoa ri-se, mas depois fica a pensar em todas estas perversões: a liberdade que lhe roubam, a desconfortável situação de esperar a morte da mãe para cumprir o seu próprio destino, a impossibilidade de escapar ao ridículo de continuar à espera...

Pode ter palácios, dinheiro e pompa, mas, decididamente: há vidas melhores. Bem melhores.

10 novembro 2018

o meu 9 de Novembro de 2018


Ontem era o centenário da instauração da república na Alemanha, mas não ouvi falar disso, nem dos 29 anos da queda do muro - excepto no noticiário, onde mostraram partes da cerimónia no Parlamento. À minha volta, o tema do dia era a provocação descarada de um grupo de extrema-direita, que marcou para os oitenta anos do terrível pogrom nazi uma "marcha fúnebre pelas vítimas da política".

De modo que fomos para a rua: vários milhares de berlinenses de um lado, 140 do outro, e 1200 polícias entre os dois grupos. Estive apenas com a Christina, porque o Matthias e os seus amigos estavam numa manifestação que vinha de outro lado da cidade.

Antes disso fomos a uma cerimónia junto ao memorial da Levetzowstrasse, onde deram a palavra a Marian Kalwary, sobrevivente do gueto de Varsóvia, e a Horst Selbiger, berlinense e filho de um judeu, nascido em 1928.

Marian Kalwary, de 89 anos, pôs toda a gente a rir ao recusar uma cadeira dizendo que isso "é para gente nova!".


 

Depois leu com dificuldade o texto alemão que lembrava o que aconteceu há oitenta anos na Europa, e fez um pedido na qualidade de sobrevivente do gueto: vim de Varsóvia a Berlim urgir-vos para não esmorecerem na luta, e para não esquecerem nunca.

Horst Selbiger, numa voz muito clara, falou-nos do que viu naqueles terríveis dias.
E sublinhou: "Quem dorme em Democracia acorda em ditadura. Fascismo não é uma opinião, fascismo é um crime!"


Também respondeu à questão de que falei ontem, sobre o 9 de Novembro ser a melhor data para um feriado alemão, por agregar a maior vergonha e a maior glória.

"Não!", disse ele. "Ouço dizer que hoje em dia é possível combinar este dia da vergonha e da culpa com um feriado festivo. E assim deixam que se comemore no dia 9 de Novembro a unidade alemã. E assim se deixa cair no esquecimento a data da vergonha e da culpa. Se nós o permitíssemos! Erguei-vos!  Oponham-se a essas pessoas da extrema-direita! Ainda somos a maioria, e devemos aproveitá-la! E, por favor, não digam nunca mais "tem de ser possível encerrar este capítulo". É isto que vos digo: não podemos, e não o faremos. Não há esquecimento, não há perdão, e temos de pôr fim, de uma vez por todas, a esta transformação dos criminosos em vítimas."



As pessoas apinhadas na praça ouviam-nos em silêncio atento.


A seguir, uma banda cantou algumas músicas (entre outras: Donna donna donna, Ich wandere durch Theresienstadt, Bella Ciao - nesta, a primeira estrofe foi cantada em ritmo mais lento, mais ao estilo da música judaica) e eu fui comprar o livro do Horst Selbiger, que por acaso estava junto à mesa, e mo autografou - "para memória do 9 de Novembro de 2018" - por baixo da frase:

Façam-nos perguntas, nós somos os que restam!
Quando deixarmos de existir, só ficará a História em papel
.

Pusemo-nos a caminho. Largas centenas de pessoas, rodeadas por muitos polícias, alguns deles com câmaras de filmar. A Christina a ensinar-me os truques ("não vás demasiado à frente, se as coisas correrem mal é lá que complica primeiro" e "fica atenta ao pessoal todo de preto"), eu a dizer que achava mal as palavras de ordem tipo "nunca mais Alemanha!", ela a comentar que sentia um certo desconforto ao ver as bandeiras de Israel naquelas ruas de Moabit, que é um bairro onde moram muitos muçulmanos, eu a responder que as pessoas daquela manifestação também vão para a rua em defesa dos direitos dos muçulmanos. E perto de nós o carro de som, que avançava empurrado por alguns manifestantes, a passar a gravação da mensagem "nunca mais! para estes crimes, não há esquecimento e não há perdão" em várias línguas: alemão, hebraico, farsi, árabe.

Passámos por um prédio onde havia um homem à janela, junto a uma bandeira da Alemanha, que nos berrava insultos. O pessoal respondia em coro. E a polícia filmava, para verificar depois se estes tumultos ainda estavam dentro da ordem constitucional.

O cortejo parou junto à estação central de caminho-de-ferro, na barreira que a polícia tinha preparado para separar os manifestantes. Tudo tranquilo - excepto alguns turistas aflitos para apanhar o comboio. Deixei a Christina, e fui para a Filarmonia, para assistir a um concerto em memória das vítimas do 9 de Novembro de 1938. No metro, viajei ao lado de três miúdas vestidas de preto e com a cara tapada. Estariam com certeza a tentar furar a barreira policial, para chegar mais perto dos da extrema-direita. Passei a correr pelo memorial do Holocausto, estava tudo calmo. E daí a nada estava sentada na Filarmonia, a ouvir o concerto. Mas isso é tema para outro post.

Já em casa, vi os noticiários do dia. O discurso do presidente da República no Parlamento, afirmando que "quem despreza os direitos humanos e a Democracia, quem desperta de novo o antigo ódio nacionalista, esses não têm de modo algum direito ao preto-vermelho-ouro da bandeira", o aplauso dos deputados da AfD fazendo de conta que aquela mensagem não era para eles, e parte da cerimónia na sinagoga da Rykestrasse, da qual a AfD foi ostensivamente excluída. Angela Merkel referiu o alarmante crescimento do anti-semitismo na Alemanha, e o representante da comunidade judaica na Alemanha, Josef Schuster, falou da AfD sem dizer o nome, tal como antes o presidente da República fizera no Parlamento: "De novo somos confrontados com incendiários. Quero que reparem nestes números: em 2016 houve cerca de 1000 ataques a casas de refugiados, entre os quais mais de sessenta ataques incendiários. Mais de sessenta! São, em média, cinco ataques incendiários por mês a casas onde vivem pessoas que procuram refúgio entre nós."

Lembrei-me da conversa sobre a bandeira israelita nas ruas de Moabit: esta gente também seria capaz de desfilar para proteger os muçulmanos.

Portanto: no 80º aniversário do pogrom nazi contra os judeus, o representante dos judeus alemães tomou a palavra para lembrar as novas vítimas do ódio: os refugiados muçulmanos. E depois há quem se admire do meu optimismo.


do vidro ao cristal

(foto)


Ontem escrevi sobre a dificuldade em encontrar uma designação mais adequada que "noite de cristal" ou "noite dos cristais" para os ataques nazis de 9.11.1938, e fiquei a pensar nos motivos possíveis para os berlinenses (que foram, aparentemente, quem cunhou o termo) escolherem "cristal" em vez de "vidro" - ou "estilhaços", ou "destruição", ou "assalto".

Na manhã do dia 10 de Novembro de 1938 os passeios das cidades estavam cobertos de vidros das montras das lojas e das janelas. Vidros, e não cristais. Há uma diferença clara entre um e outro, e a língua alemã conhece-a bem: ninguém diz "janelas de cristal" ou "montras de cristal".

Porquê, então, usar um material mais nobre para designar o que viam?

Só me ocorre uma hipótese: inveja e ressentimento. O que os berlinenses viram derramado pelos passeios não foi o vidro das montras, mas o luxo dos odiados judeus. Por isso terão chamado "cristal" aos vidros partidos. 



09 novembro 2018

9 de Novembro de 1938 (3)

Já publiquei este texto há alguns anos neste blogue, mas deixo-o de novo, para o caso de alguém não ter lido:

Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):

Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas. 
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam - passe o eufemismo - actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos "polícia judiciária!". Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. "Não adianta", disse ele, "e além disso está a resistir à autoridade do Estado!" Só parou quando chegámos à minha casa.

(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)

9.11.2018 em Berlim: se me deixassem organizar a contramanifestação de hoje, caramba, ai!, se me deixassem mandar...

Estava aqui a pensar numa coisa que me disseram ontem, "não se combate maldade com maldade", e também que, aconteça o que acontecer, os neonazis que querem desfilar hoje em Berlim vão regressar a casa todos satisfeitos, com a sensação do dever cumprido, porque agitam a cidade e aparecem nos noticiários.

E foi então que tive uma ideia fantástica, modéstia à parte: querem fazer uma "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" a atravessar o centro geográfico da política alemã? Oh, meus amigos, façam favor!

Mas:

- Não devia haver contramanifestação;

- Não devia haver nenhum jornalista a acompanhar o evento, e a comunicação social devia ignorá-lo;

- As luzes de todos os edifícios (Chancelaria, Parlamento, etc.) e das ruas deviam estar apagadas;

- Ao longo de todo o percurso devia haver ecrãs gigantes a mostrar filmes sobre as Vítimas da Política: crianças a morrer de fome no gueto de Varsóvia, as mulheres alemãs a cercar o centro da Rosenstrasse para obrigar o regime a libertar os seus maridos judeus, os transportes de judeus para os campos, o "Querem a guerra total?" e o "sim! queremos!" sobreposto à imagem dos jovens soldados alemães desesperados no campo de batalha, a vida nos campos de concentração, as colunas de refugiados expulsos do Leste da Prússia, o "ninguém quer construir um muro", os métodos da Stasi, o Willy Brandt a ajoelhar em frente ao gueto de Varsóvia, etc.

Também se pode mudar o tema, com o tempo:
- mostrar-lhes filmes de comunidades que acolheram bem os refugiados e onde todos vivem como amigos, filmes da destruição da Síria, filmes de apresentação de algumas das famílias que fugiram para a Alemanha, mostrar-lhes a riqueza cultural dos países de onde vêm os refugiados, etc.
- passar pequenos filmes sobre os Direitos Humanos, ou sobre a Constituição Alemã.


Em suma: sempre que haja manifestações deste tipo, não se deve oferecer resistência nem palco mediático, antes aproveitando a oportunidade para dar uma lição de História àquelas pessoas. Provavelmente não há melhor oportunidade de os concentrar num lugar, durante tanto tempo, a ver aqueles filmes.

9 de Novembro de 1938 (2)


"Aconteceu, e por isso pode voltar a acontecer: é esta a essência daquilo que temos para dizer."
Primo Levi

No 80º aniversário do pogrom nazi de 1938, a extrema-direita quer marchar em Berlim. Esta "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" é organizada pelo grupo "nós pela Alemanha".

O ministro do Interior do Estado de Berlim, Andreas Geisel (SPD), está a fazer os possíveis para inviabilizar a manifestação. Um tribunal proibiu-a, outro tribunal levantou esta manhã a proibição, e neste momento decorre o recurso. O problema é que o sistema legal alemão parece não ter como impedir uma manifestação convocada nestes termos, apesar de ser óbvio que se trata de uma provocação.

Andreas Geisel, por seu lado, não tem dúvidas sobre a gravidade do momento:

"A nossa Democracia pode e tem de ser capaz de aguentar muitos embates. Nós, democratas, somos capazes de lidar com opiniões contrárias. Mas a nossa Democracia não tem de aceitar tudo. E muito menos por parte daqueles que na realidade desprezam a nossa comunidade democrática. A perspectiva de que, no 80º aniversário da Noite de Pogrom do Reich, pessoas de extrema-direita possam marchar - provavelmente com velas, depois do anoitecer -  pelo Bairro do Governo é para mim insuportável.
A provocação dirigida às vítimas e aos seus descendentes é premeditada e realizada conscientemente. Trata-se de deslocar os limites do aceitável continuamente para a direita. Não podemos continuar a tolerar o extremismo de Direita sob o manto da liberdade de expressão. Este é o momento em que todas as pessoas democratas se têm de erguer e afirmar: "Stop! Daqui não passam."


Eles estão a preparar-se para marchar. Se a próxima instância não proibir a marcha, eles vão atravessar o centro geográfico da política da Alemanha Federal protegidos pela polícia. Marquei encontro com a minha filha na Hansaplatz às 16:30. Estão-se a juntar milhares de pessoas para os cercar e impedir de iniciar a marcha. E a polícia, obrigada a proteger uma manifestação autorizada pelo tribunal, será a nossa inimiga. Espero que não batam com força.

--

Em 2002 assisti a algo semelhante em Weimar. Os neonazis convocaram uma manifestação, e a população saiu de casa naquele dia horroroso de vento, chuva e neve para lhes fazer frente. O Joachim juntou-se ao grupo que impedia os neonazis de profanarem o pequeno cemitério dos judeus. E eu em casa, com os miúdos pequeninos, cheia de medo que aquilo corresse muito mal e eles ficassem órfãos.

9 de Novembro de 1938 (1)




O que há num nome?

Quem se terá lembrado de chamar "Noite de Cristal" a este momento de brutal ruptura com a ideia que tínhamos da nossa civilização?

Não terão sido os nazis, que em documentos da época lhe chamavam “operação judeus”, “operação vingança”, “operação Rath”. Talvez tenha sido cunhada pela população de Berlim, perante os montes de vidros estilhaçados que se acumulavam sobre os passeios, e entrou no léxico da História.

Se esta expressão - eufemística, quase romântica e até glorificadora - seria natural durante a época do III Reich, o que explica que se tenha mantido na Alemanha até aos anos oitenta do século passado? Mais: o que explica que ainda seja usada em tantos países (nomeadamente em Portugal e no Brasil)? Curiosamente, até em Israel se usa esta designação (»Leil HaBdolach«), embora sempre com aspas.

Em 1988, Avraham Barkai escrevia no seu „1938 – Ano Fatídico“: „Noite de Cristal! Os cristais brilhantes, reluzentes, cintilantes de uma festa! Começa a ser tempo de eliminar, ao menos dos textos de História, esta expressão malévola e adoçada”.
 
Na viragem da primeira década do nosso século, quando os meus filhos andavam no secundário em Berlim e estudavam estes temas, ainda não havia um nome estabelecido para referir esse capítulo da História. “Kristall” era sem dúvida uma palavra a evitar, mesmo se ligada a Reich, “noite de cristal do Reich”. Usar “pogrom” em vez de “cristal” também não é adequado, porque o pogrom é normalmente uma erupção de violência popular, um fenómeno de mob, algo muito diferente destes ataques a judeus planeados e executados a partir da cúpula do sistema nazi. Por outro lado, falar em “noite” também é incorrecto, porque essa vaga de violência com ataques aos edifícios e perseguições às pessoas durou vários dias. Na exposição Topografia do Terror, em Berlim, o título dado a estes acontecimentos é “Terror anti-semita 1938”.
 
Entretanto, e apesar de não ser muito adequada, a designação mais usada tem sido “Noite de Pogrom do Reich”, “Reichspogromnacht”.

À boleia de Avraham Barkai, sugiro que também em Portugal se reveja o nome usado. Seria um bom exercício de debate sobre o politicamente correcto: a necessidade de nos darmos conta, por fim, do significado das palavras que usamos, e da ideologia que transportam.