Passeei com a minha amiga pelas ruas da vizinhança. Ela contava-me do tempo em que neste bairro viviam pessoas de todos os países, etnias, culturas e níveis sociais. Por exemplo: a sala dela, onde jantamos todos os dias, era o espaço de "children breakfast" dos Black Panther. Na rua, apontava-me as casas uma a uma. Esta é a última família filipina do bairro. Naquela casa vivia uma família de african americans - uma mulher com uma ranchada de filhos, netos ebisnetos com todo o tipo de percursos e histórias pessoais; estava a cuidar de um dos bisnetos, e quando morreu venderam a casa, esta casinha, por dois milhões. Esta aqui foi ocupada por mulheres negras. Aquela estava em péssimo estado, mas um casal gay está agora a transformá-la numa pequena jóia, como se vê. E mais uma casa em obras, que foi vendida por 2,4 milhões antes do restauro - sei lá por quanto a venderão depois de muito bem arranjada.
Tudo naquelas casas é impecável. Perfeito. Suspeito que os proprietários contratam jardineiros até para cuidar dos vasos que têm à janela.
*
Programa para o dia: fazer peixinhos da horta para o pot luck do grupo que vai reunir esta noite para combinar o acampamento em Salt Point este fim-de-semana.
Disse aos meus amigos que ia fazer a receita original de tempura, aquela que levámos para o Japão e os japoneses no roubaram, roubam-nos tudo, somos uns desgraçados, disse eu. E falei do "castela", o nosso pão-de-ló que os japoneses vendem com nome de espanhol. Duas vezes roubados!, rematei.
O meu amigo riu-se. Estudou História em Harvard, sabe interpretar as minhas piadas.
*
Fui ao Haight Street Market comprar ovos e feijão verde. Dantes, o Haight Street Market era a loja de uma família grega que vendia frutas e legumes baratos e de qualidade às vezes bastante questionável. Quando se começou a falar na instalação de um Whole Foods ao fundo da rua, eles alugaram a loja do lado, transformaram a loja num pequeno supermercado moderno, agradável, com muitos produtos biológicos e um dely. O pessoal da vizinhança vai ao Haight Street Market, os de fora vão ao Whole Foods. Fui ao mercado da vizinhança comprar coisas para os peixinhos da horta. Na secção dos ovos tinha um cartaz a anunciar ovos de Petaluma, com as galinhas à solta na paisagem, dizendo que comiam as suas comidas favoritas (ervas, sementes e insectos) e os galinheiros eram móveis, para poderem ser levados atrás delas. Lembrei-me logo da minha avó, que fechava as flores cuidadosamente atrás de uma sebe de rede fina, e deixava as galinhas à solta no quintal. Uma dúzia de ovos das galinhas de Petaluma custava 9 dólares. Que é que a minha avó fez errado, que se queixava sempre que o dinheiro não chegava?
Deixei os ovos de 9 dólares para os donos de casas de 2 milhões, e comprei os ovos mais baratos, quer dizer, os menos caros: 4 dólares. De galinhas sem gaiolas, sem hormonas, sem antibióticos, sem estimulantes, e com liberdade para voar. Ao menos isso.
Estou a pensar arranjar meia dúzia de galinhas para ter no meu jardim em Berlim.
31 agosto 2017
29 agosto 2017
apontamentos de San Francisco (2)
Stern Grove. Último concerto da 80ª temporada consecutiva. Quando cá morávamos, era o programa habitual nos domingos de verão: preparar o farnel, concerto, e fogueira ao fim da tarde em Ocean Beach. Voltar a San Francisco é sempre voltar às recordações desses dois anos de (de certo modo) férias.
Ontem era dia de Mavis Staples, veterana do Rhythm and Blues. Ali estava ela, no fim de semana em que a cidade se agitou com a presença de white supremacists - e falava de amor, de sermos capazes de sorrir uns aos outros, de falar uns com os outros. "Be kind" e "there must be love shared among us", entoava ela. Ela, que participou nas marchas dos anos 60 ao lado de Martin Luther King, que esteve na marcha de Selma para Montgomery. "Alguns de nós foram presos, oh yeah!, oh yeah!, e ficaram algum tempo na prisão, oh, yes, they did!, e depois, sabem o que acontecia? Saíam da prisão, e recomeçavam tudo de novo, ooooh, yeaaaah!"
"I'm a testimony! I'm a testimony! I'm a testimony", cantava ela.
Mavis Staples sabe dominar o público, "take them there". Levou-me a uma tarde inesquecível.
*
Jantar cedo, às seis da tarde. O filho dos meus amigos e a mulher estavam a sair para o Burning Man. Prepararam toda a tralha necessária para a semana, penduraram duas bicicletas atrás, por volta das dez da noite despediram-se e saíram num carro velho que fazia ruídos extremamente estranhos. Passados 40 minutos, ligaram a dizer que estavam parados na auto-estrada, mas que não corriam riscos porque se tinham escondido nos arbustos da berma. Depois de muitas mensagens e muita confusão - como por exemplo uma patrulha da polícia parar junto ao carro avariado e os dois saírem do esconderijo de mãos no ar, cheios de medo de levar um tiro devido a algum mal-entendido - saí com a minha amiga no carro dela, para irmos levar o seu cartão de AAA ao motorista do reboque. Ao passar por Richmond, a minha amiga repetia "que sorte não terem tido a avaria aqui, é um sítio com muita violência". Percebi finalmente porque é que eles se tinham escondido nos arbustos. Até então, pensava que tinham saído da auto-estrada para não serem atropelados por algum condutor distraído. Lá chegadas, desenhámos novo plano: mudámos a tralha toda para o nosso carro, o casal continuou caminho para o Burning Man, e nós voltámos as duas no camião do reboque. Bay Bridge e San Francisco by night - às duas da manhã, num camião barulhento.
O condutor falou da sua vida, do perigo de ser atropelado ou atacado na auto-estrada. Todos os dias se despede do filho dizendo-lhe "I love you". Se lhe acontecer alguma coisa, é essa a frase que fica com o filho. O rapaz tem 17 anos, e vai entrar agora no exército. Mas só fica lá até ter arranjado os dentes e conseguido maneira de tirar um curso superior.
Fazer serviço militar para poder tratar os dentes e estudar: eu a ouvir e a pensar "minha rica Europa!"
*
Ontem à noite um amigo que mora em Berkeley trouxe-me a casa. Por lorpice, disse-lhe o caminho mais longo e com mais stops de todos: Fillmore. Mas a conversa estava óptima (a conversa que preenche o caminho é o melhor dos destinos). Ao chegarmos, ele reparou no nevoeiro, e ficou encantado. Têm pouco nevoeiro em Berkeley, já tinha saudades.
Saudades do nevoeiro! Amar esta cidade.
*
Esta manhã fomos passear em Buena Vista e vimos um coiote dos grandes.
Não me impressionei, claro: quem vive numa rua berlinense onde passam frequentemente raposas, e tem um raposinho que corre atrás das primas a ladrar de maneira a acordar a rua toda...
(A propósito: a Christina disse que o Fox está tristíssimo, cheio de saudades de nós.)
Ontem era dia de Mavis Staples, veterana do Rhythm and Blues. Ali estava ela, no fim de semana em que a cidade se agitou com a presença de white supremacists - e falava de amor, de sermos capazes de sorrir uns aos outros, de falar uns com os outros. "Be kind" e "there must be love shared among us", entoava ela. Ela, que participou nas marchas dos anos 60 ao lado de Martin Luther King, que esteve na marcha de Selma para Montgomery. "Alguns de nós foram presos, oh yeah!, oh yeah!, e ficaram algum tempo na prisão, oh, yes, they did!, e depois, sabem o que acontecia? Saíam da prisão, e recomeçavam tudo de novo, ooooh, yeaaaah!"
"I'm a testimony! I'm a testimony! I'm a testimony", cantava ela.
Mavis Staples sabe dominar o público, "take them there". Levou-me a uma tarde inesquecível.
*
Jantar cedo, às seis da tarde. O filho dos meus amigos e a mulher estavam a sair para o Burning Man. Prepararam toda a tralha necessária para a semana, penduraram duas bicicletas atrás, por volta das dez da noite despediram-se e saíram num carro velho que fazia ruídos extremamente estranhos. Passados 40 minutos, ligaram a dizer que estavam parados na auto-estrada, mas que não corriam riscos porque se tinham escondido nos arbustos da berma. Depois de muitas mensagens e muita confusão - como por exemplo uma patrulha da polícia parar junto ao carro avariado e os dois saírem do esconderijo de mãos no ar, cheios de medo de levar um tiro devido a algum mal-entendido - saí com a minha amiga no carro dela, para irmos levar o seu cartão de AAA ao motorista do reboque. Ao passar por Richmond, a minha amiga repetia "que sorte não terem tido a avaria aqui, é um sítio com muita violência". Percebi finalmente porque é que eles se tinham escondido nos arbustos. Até então, pensava que tinham saído da auto-estrada para não serem atropelados por algum condutor distraído. Lá chegadas, desenhámos novo plano: mudámos a tralha toda para o nosso carro, o casal continuou caminho para o Burning Man, e nós voltámos as duas no camião do reboque. Bay Bridge e San Francisco by night - às duas da manhã, num camião barulhento.
O condutor falou da sua vida, do perigo de ser atropelado ou atacado na auto-estrada. Todos os dias se despede do filho dizendo-lhe "I love you". Se lhe acontecer alguma coisa, é essa a frase que fica com o filho. O rapaz tem 17 anos, e vai entrar agora no exército. Mas só fica lá até ter arranjado os dentes e conseguido maneira de tirar um curso superior.
Fazer serviço militar para poder tratar os dentes e estudar: eu a ouvir e a pensar "minha rica Europa!"
*
Ontem à noite um amigo que mora em Berkeley trouxe-me a casa. Por lorpice, disse-lhe o caminho mais longo e com mais stops de todos: Fillmore. Mas a conversa estava óptima (a conversa que preenche o caminho é o melhor dos destinos). Ao chegarmos, ele reparou no nevoeiro, e ficou encantado. Têm pouco nevoeiro em Berkeley, já tinha saudades.
Saudades do nevoeiro! Amar esta cidade.
*
Esta manhã fomos passear em Buena Vista e vimos um coiote dos grandes.
Não me impressionei, claro: quem vive numa rua berlinense onde passam frequentemente raposas, e tem um raposinho que corre atrás das primas a ladrar de maneira a acordar a rua toda...
(A propósito: a Christina disse que o Fox está tristíssimo, cheio de saudades de nós.)
28 agosto 2017
apontamentos de San Francisco
Passei por uma rapariga que tinha uma t-shirt onde se lia:
SORRY I'M LATE
I WAS SAVING THE WORLD
(onde é que se compra? esta t-shirt nasceu para ser minha!)
*
Estava a fotografar o nevoeiro ao fundo de uma das ruas que sai da Market quando vi, pelo canto do olho, um ciclista que tinha um fato-macaco muito justinho da cor da pele. Quando chegou mais perto de mim dei-me conta de que não tinha fato-macaco nenhum. A única peça de vestuário que trazia, se assim lhe podemos chamar, era um preservativo preto enfiado onde imaginam (não era o nariz). Ainda consegui fotografá-lo de costas a pedalar descontraidamente pela Market Street em direcção ao Embarcadero. Os polícias ao meu lado nem pestanejaram. Já não se fazem polícias como antigamente?! No meu tempo, andar nu na rua chamava-se "felony" (nem sei que crime é esse, em português) e dava cadeia.
*
O tempo em San Francisco continua igual a si mesmo, eu é que já me tinha esquecido. Para o campismo, trouxe algumas peças que guardo no saco da roupa de fazer ski. Mas não vim preparada para o verão de San Francisco. Sempre que olho para os vestidos leves e de cores garridas a ocupar metade da minha mala pergunto-me onde é que tinha a cabeça quando os escolhi.
*
O MOMA está maravilhoso. Passei uma tarde lá, e tenho de voltar um dia inteiro. Ou dois.
*
Na sala com quadros do Anselm Kiefer havia uma visita guiada. Fez-me impressão a superficialidade na apresentação do motivo "Margarethe" e "Sulamith".
Mas era preciso uma tarde inteira para explicar o poema de Celan a que os quadros aludem:
Lição de humildade: calhou de conhecer alguns trabalhos de Anselm Kiefer e o poema de Celan, e de me dar conta do que aquelas pessoas não estavam a ver. Mas por quantos milhares de quadros já passei sem fazer a mínima ideia do que me estava a passar ao lado?
*
Hoje à tarde vou comprar roupa quente. Estou farta de passar frio no famoso verão de San Francisco. Sou eu e o Mark Twain.
(Afinal parece que o Mark Twain não foi o autor da frase "o inverno mais frio que passei foi um verão em San Francisco". E eu a pensar que aquela mania de fazer circular as frases à boleia de nomes sonantes era uma invenção da internet...)
SORRY I'M LATE
I WAS SAVING THE WORLD
(onde é que se compra? esta t-shirt nasceu para ser minha!)
*
Estava a fotografar o nevoeiro ao fundo de uma das ruas que sai da Market quando vi, pelo canto do olho, um ciclista que tinha um fato-macaco muito justinho da cor da pele. Quando chegou mais perto de mim dei-me conta de que não tinha fato-macaco nenhum. A única peça de vestuário que trazia, se assim lhe podemos chamar, era um preservativo preto enfiado onde imaginam (não era o nariz). Ainda consegui fotografá-lo de costas a pedalar descontraidamente pela Market Street em direcção ao Embarcadero. Os polícias ao meu lado nem pestanejaram. Já não se fazem polícias como antigamente?! No meu tempo, andar nu na rua chamava-se "felony" (nem sei que crime é esse, em português) e dava cadeia.
*
O tempo em San Francisco continua igual a si mesmo, eu é que já me tinha esquecido. Para o campismo, trouxe algumas peças que guardo no saco da roupa de fazer ski. Mas não vim preparada para o verão de San Francisco. Sempre que olho para os vestidos leves e de cores garridas a ocupar metade da minha mala pergunto-me onde é que tinha a cabeça quando os escolhi.
*
O MOMA está maravilhoso. Passei uma tarde lá, e tenho de voltar um dia inteiro. Ou dois.
*
Na sala com quadros do Anselm Kiefer havia uma visita guiada. Fez-me impressão a superficialidade na apresentação do motivo "Margarethe" e "Sulamith".
Mas era preciso uma tarde inteira para explicar o poema de Celan a que os quadros aludem:
Leite negro da madrugada que bebemos à tardinha
nós bebemos ao meio-dia e de manhã nós bebemos à noite
nós bebemos e bebemos
(...)
O teu cabelo de oiro, Margarethe
O teu cabelo de cinza, Sulamith.
Lição de humildade: calhou de conhecer alguns trabalhos de Anselm Kiefer e o poema de Celan, e de me dar conta do que aquelas pessoas não estavam a ver. Mas por quantos milhares de quadros já passei sem fazer a mínima ideia do que me estava a passar ao lado?
*
Haight-Ashbury (onde estou a morar por estes dias): museu a céu aberto, lojas de museu, o flower power traduzido em kitsch, grupos de pessoas que arrastam uma triste existência pelas ruas, com as marcas de décadas de uso de drogas. Pelo meio, o pessoal com o dinheiro q.b. para viver nesta zona, as lojas organic e dely.
*
A livraria de Haight-Ashbury: horas e horas de vagar. Junto a alguns dos livros há folhinhas escritas à mão, com a avaliação pessoal de funcionários da loja.
Estive lá no sábado em que se previa uma manifestação de neo-nazis em San Francisco. O tema mais em evidência era o racismo. Ao contrário do que vejo nas livrarias alemãs, não encontrei um único livro de memórias de sobreviventes do Holocausto. A cada país o seu passado e a sua responsabilidade para mudar o futuro.
*
A livraria de Haight-Ashbury: horas e horas de vagar. Junto a alguns dos livros há folhinhas escritas à mão, com a avaliação pessoal de funcionários da loja.
Estive lá no sábado em que se previa uma manifestação de neo-nazis em San Francisco. O tema mais em evidência era o racismo. Ao contrário do que vejo nas livrarias alemãs, não encontrei um único livro de memórias de sobreviventes do Holocausto. A cada país o seu passado e a sua responsabilidade para mudar o futuro.
*
Hoje à tarde vou comprar roupa quente. Estou farta de passar frio no famoso verão de San Francisco. Sou eu e o Mark Twain.
(Afinal parece que o Mark Twain não foi o autor da frase "o inverno mais frio que passei foi um verão em San Francisco". E eu a pensar que aquela mania de fazer circular as frases à boleia de nomes sonantes era uma invenção da internet...)
26 agosto 2017
como responder aos neoazis?
Ponto da situação: se bem entendi os sinais, a "conferência de imprensa" que está anunciada para daqui a vinte minutos em Alamo Square tem tudo para se tornar uma batalha campal. Com armas à mistura.
Ponto da situação: decidi que não vou.
Mas a luta continua. Partilharam comigo no facebook um texto excelente sobre outras formas de luta pacíficas, mais criativas e com efeitos realmente desconcertantes para os neonazis. Comecei logo a sonhar: que tal combinar com as universidades uma bolsa de estudo para african-americans por cada bandeira da confederação que aparecer nestas manifestações? Ia ser divertido ver a cara dos neonazis quando lhes agradecessem e os aplaudissem entusiasticamente por serem os responsáveis directos na entrada de, sei lá, cem african-americans em Stanford, Berkeley, Princeton, Harvard...
Copio para aqui o texto do New York Times:
Ponto da situação: decidi que não vou.
Mas a luta continua. Partilharam comigo no facebook um texto excelente sobre outras formas de luta pacíficas, mais criativas e com efeitos realmente desconcertantes para os neonazis. Comecei logo a sonhar: que tal combinar com as universidades uma bolsa de estudo para african-americans por cada bandeira da confederação que aparecer nestas manifestações? Ia ser divertido ver a cara dos neonazis quando lhes agradecessem e os aplaudissem entusiasticamente por serem os responsáveis directos na entrada de, sei lá, cem african-americans em Stanford, Berkeley, Princeton, Harvard...
Copio para aqui o texto do New York Times:
How to Make Fun of Nazis
By MOISES VELASQUEZ-MANOFF
AUGUST 17, 2017
For decades, Wunsiedel, a German town near the Czech border, has struggled with a parade of unwanted visitors. It was the original burial place of one of Adolf Hitler’s deputies, a man named Rudolf Hess. And every year, to residents’ chagrin, neo-Nazis marched to his grave site. The town had staged counterdemonstrations to dissuade these pilgrims. In 2011 it had exhumed Hess’s body and even removed his grave stone. But undeterred, the neo-Nazis returned. So in 2014, the town tried a different tactic: humorous subversion.
The campaign, called Rechts Gegen Rechts — the Right Against the Right — turned the march into Germany’s “most involuntary walkathon.” For every meter the neo-Nazis marched, local residents and businesses pledged to donate 10 euros (then equivalent to about $12.50) to a program that helps people leave right-wing extremist groups, called EXIT Deutschland.
They turned the march into a mock sporting event. Someone stenciled onto the street “start,” a halfway mark and a finish line, as if it were a race. Colorful signs with silly slogans festooned the route. “If only the Führer knew!” read one. “Mein Mampf!” (my munch) read another that hung over a table of bananas. A sign at the end of the route thanked the marchers for their contribution to the anti-Nazi cause — €10,000 (close to $12,000). And someone showered the marchers with rainbow confetti at the finish line.
The approach has spread to several other German towns and one in Sweden (where it was billed as Nazis Against Nazis).
This week, following the violence in Charlottesville, Va., Wunsiedel has come back into the news. Experts in nonviolent protest say it could serve as a model for Americans alarmed by the resurgent white supremacist movement who are looking for an effective way to respond (and who might otherwise be tempted to meet violence with violence). Those I spoke with appreciated the sentiment of the antifa, or anti-fascist, demonstrators who showed up in Charlottesville, members of an anti-racist group with militant and anarchist roots who are willing to fight people they consider fascists. “I would want to punch a Nazi in the nose, too,” Maria Stephan, a program director at the United States Institute of Peace, told me. “But there’s a difference between a therapeutic and strategic response.”
The problem, she said, is that violence is simply bad strategy.
Violence directed at white nationalists only fuels their narrative of victimhood — of a hounded, soon-to-be-minority who can’t exercise their rights to free speech without getting pummeled. It also probably helps them recruit. And more broadly, if violence against minorities is what you find repugnant in neo-Nazi rhetoric, then “you are using the very force you’re trying to overcome,” Michael Nagler, the founder of the Peace and Conflict Studies program at the University of California, Berkeley, told me.
Most important perhaps, violence is just not as effective as nonviolence. In their 2011 book, “Why Civil Resistance Works,” Dr. Stephan and Erica Chenoweth examined how struggles are won. They found that in over 320 conflicts between 1900 and 2006, nonviolent resistance was more than twice as effective as violent resistance in achieving change. And nonviolent struggles were resolved much sooner than violent ones.
The main reason, Dr. Stephan explained to me, was that nonviolent struggles attracted more allies more quickly. Violent struggles, on the other hand, often repelled people and dragged on for years.
Their findings highlight what we probably already intuit about protest: It’s a performance not just for the people you may be protesting against but also for everyone else who may be persuaded to join your side.
Take the American civil rights movement. Part of what moved the country toward the Civil Rights Act of 1964 were the images, broadcast to the entire country, of steadfastly nonviolent protesters, including women and occasionally children, being beaten, hosed and abused by white policemen and mobs.
Those images also highlight two points emphasized by Stephanie Van Hook, the executive director of the Metta Center for Nonviolence. First, nonviolence is a discipline, and as with any discipline, you need to practice to master it. Nonviolence training was a fixture of the movement. Even the Rev. Dr. Martin Luther King Jr. and his companions rehearsed in basements, role playing and insulting one another to prepare for what was to come.
And second, sometimes being on the receiving end of violence is the whole point. That’s how you expose the hypocrisy and rot you’re struggling against. They attack unprovoked. You don’t counterattack. You’re hurt. The world sees. Hearts change. It takes tremendous courage: Your body ends up being the canvas that bears the evidence of the violence you’re fighting against.
But ideally, of course, we’d avoid violence altogether. This is where the sort of planning on display at Wunsiedel is key. Humor is a particularly powerful tool — to avoid escalation, to highlight the absurdity of absurd positions and to deflate the puffery that, to the weak-minded at any rate, might resemble heroic purpose.
Germany is not America. For one, neo-Nazis aren’t allowed to carry assault rifles through the streets there, let alone display swastikas. But we do have similar examples of humor being used to counteract fascists in the United States. In 2012, a “white power” march in Charlotte, N.C., was met with counterprotesters dressed as clowns. They held signs reading “wife power” and threw “white flour” into the air.
“The message from us is, ‘You look silly,’ ” a coordinator told the local news channel. “We’re dressed like clowns, and you’re the ones that look funny.”
By undercutting the gravitas white supremacists are trying to accrue, humorous counterprotests may blunt the events’ usefulness for recruitment. Brawling with bandanna-clad antifas may seem romantic to some disaffected young men, but being mocked by clowns? Probably not so much.
Which brings us to Charlottesville, and the far right rallies that will surely follow. To those wondering how to respond, Dr. Stephan says that “nonviolent movements succeed because they invite mass participation.” Humor can do that; violence less so.
The broader issue, in her view, is this: Why do oppressive regimes and movements invest so much in fomenting violence? (Think of our president and his talent for dividing the country and generating chaos.) Because violence and discord help their cause. So why would you, she asks, “do what the oppressor wants you to do?”
This article was updated to reflect news developments.
An earlier version of this essay misstated Rudolf Hess’s ties to the town of Wunsiedel. He was only buried there; he was not born there.
Moises Velasquez-Manoff, the author of “An Epidemic of Absence: A New Way of Understanding Allergies and Autoimmune Disease,” is a contributing opinion writer.
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difíceis decisões
A manifestação deste sábado em Crissy Field foi cancelada porque os neonazis se recusaram a cumprir uma condição imposta pela polícia, que é deixar as armas em casa. Parece que vão fazer uma manifestação "informal" em Alamo Square (a praça das Painted Ladies, as casas vitorianas). E para essa manifestação irão obviamente armados.
Alguns amigos dizem-me que ir é um erro porque o que os neonazis querem é palco. E que devia ficar longe, para não complicar o trabalho da polícia.
Entretanto, ocorreu-me uma diferença fundamental em relação às manifestações na Alemanha: nestas não há gente armada, excepto a polícia. "A violência é monopólio do Estado". O pessoal das antimanifestações pode contar com umas bordoadas da polícia, mas o cenário de neonazis a desfilar de metralhadoras prontas a disparar é simplesmente impensável.
Continuo a meditar no caso. Que sentido faz ir a uma manifestação correr real perigo de vida para dar aos neonazis o prazer de terem um grande palco? Por outro lado, como é possível aceitar que eles ocupem as ruas como se fosse algo normal e aceitável no nosso tempo?
25 agosto 2017
liberdade de expressão
Amanhã vai haver uma manifestação de white supremacists em San Francisco. Estou a pensar que tenho de participar na antimanifestação, e estou a morrer de medo do que possa acontecer. Em Charlottesville mostraram até onde são capazes de ir para defender a sua estratégia de conquista de poder.
(Lembram-se daquela anedota do "primeiro aviso"? É aí que estamos.)
Quanto mais olho para o nosso tempo, melhor entendo como foi possível pessoas normais terem deixado o III Reich instalar-se.
Li no San Francisco Chronicle entrevistas a moradores da área de Crissy Field, onde vai decorrer a manifestação dos neonazis. As respostas põem a tónica nos direitos individuais de quem vê a sua vida alterada devido à manifestação. Frases como "por causa de gente que defende este tipo de valores, não posso fazer o meu jogging matinal" ou "não posso passear o cão" ou "as lojas vão estar todas fechadas". Na Alemanha seria mais "é inadmissível que gente que defende este tipo de valores possa fazer uma manifestação" (ou, como diz a minha filha, "não podemos deixar que esta merda castanha volte a ocupar as ruas alemãs") (castanho era a cor associada aos nazis).
Da próxima vez que me falarem das "imposições ideológicas de carácter estalinista" que alegadamente estão em curso na Europa, vou lembrar-me disto: um país onde a liberdade de expressão permite que os neonazis saiam à rua, um povo que não tem uma matriz de valores comum à qual recorrer para analisar, criticar e impedir o que está em curso.
Tudo o que existe é válido e livre de acontecer. A História nunca existiu, e os países não têm de aprender com ela.
(Lembram-se daquela anedota do "primeiro aviso"? É aí que estamos.)
Quanto mais olho para o nosso tempo, melhor entendo como foi possível pessoas normais terem deixado o III Reich instalar-se.
Li no San Francisco Chronicle entrevistas a moradores da área de Crissy Field, onde vai decorrer a manifestação dos neonazis. As respostas põem a tónica nos direitos individuais de quem vê a sua vida alterada devido à manifestação. Frases como "por causa de gente que defende este tipo de valores, não posso fazer o meu jogging matinal" ou "não posso passear o cão" ou "as lojas vão estar todas fechadas". Na Alemanha seria mais "é inadmissível que gente que defende este tipo de valores possa fazer uma manifestação" (ou, como diz a minha filha, "não podemos deixar que esta merda castanha volte a ocupar as ruas alemãs") (castanho era a cor associada aos nazis).
Da próxima vez que me falarem das "imposições ideológicas de carácter estalinista" que alegadamente estão em curso na Europa, vou lembrar-me disto: um país onde a liberdade de expressão permite que os neonazis saiam à rua, um povo que não tem uma matriz de valores comum à qual recorrer para analisar, criticar e impedir o que está em curso.
Tudo o que existe é válido e livre de acontecer. A História nunca existiu, e os países não têm de aprender com ela.
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liberdade de expressão
18 agosto 2017
uma lição sobre bagatelização dos nazis
Traduzo muito rapidamente um artigo que Sascha Lobo publicou no spiegel online a propósito da conferência de imprensa dada por Trump após a tragédia de Charlottesville. Sascha Lobo mostra o paralelismo entre o discurso de Trump e certas estratégias de comunicação na internet, e escolhe não perder uma única oportunidade de chamar neonazis aos Alt Right - o que é a sua maneira de lutar contra as estratégias de semear a dúvida quanto aos verdadeiros valores e objectivos daquele grupo.
Como disse, é uma tradução rápida (estou de férias, e com ipad e internet periclitantes). Se tiverem dúvidas sobre alguma frase, digam-me - pode ser culpa da tradução.
Após o atentado de Charlottesville, Trump serviu-se dos truques habituais de comunicação dos neonazis. Na conferência de imprensa, o presidente usou um estilo que já tem vindo a ser usado há muito na internet.
"Havia muito boa gente, dos dois lados."
É preciso pôr em contexto esta citação da conferência de imprensa de Donald Trump sobre a manifestação "unite the right" em Charlottesville. Para isso, neste caso basta uma imagem:
(foto: Andy Campbell)
Esta foto é suficiente pelo que representa: os inúmeros braços erguidos na saudação nazi, as palavras de ordem e as canções anti-semitas, a violência aberta e carregada de ódio como foi o ataque às pessoas da contra-manifestação. Aconteceu sob o lema "unite the right", que resume o comportamento do grupo: não se tratou de casos individuais, mas de uma base comum.
Para isto, não se encontra palavra mais adequada que "neonazis".
Muito antes das eleições nos EUA, encontrei um tweet que na altura ainda tinha piada: "Trump é como se a caixa de comentários da internet tomasse a figura de um homem e concorresse às eleições". Entretanto, já nos demos conta do alcance desta comparação.
Na conferência de imprensa sobre os acontecimentos de Charlottesville, Trump utilizou exactamente os mesmos modelos de comunicação com que os "Alt Right" (um eufemismo para extrema direita e neonazis) operam há muito na internet. Por trás disso escondem-se naturalmente truques antiquíssimos, desde a retórica da Grécia Antiga até à dialética erística de Schopenhauer. Mas seja por estratégia, seja por um mero impulso, Donald Trump transformou o tipo de comunicação online dos "Alt Right" numa conferência de imprensa.
"Chame-lhe o que quiser"
Começa com a resposta à pergunta sobre ter precisado de tanto tempo para fazer declarações sobre o ocorrido. Trump respondeu: "não esperei muito tempo [...] É preciso algum tempo para ter acesso aos factos. Os factos ainda não são conhecidos. [...] Honestamente: as pessoas ainda não conhecem todos os factos."
Dizer que ainda não se conhecem todos os factos é um modelo frequente nas discussões na internet. Desse modo fica subentendido que ainda não é possível fazer um julgamento definitivo. O que parece lógico, mas não é mais do que um truque, porque raramente se trata de conhecer "todos os factos". O que se trata é de conhecer o fundamental, e isso é identificável sem estar na posse de todos os detalhes.
É assim que um argumento da análise racional se transforma no seu contrário. Obviamente, é preciso ter factos para poder julgar. Mas se - perante a clareza de suásticas, saudações nazis e fantasias de exterminação dos judeus - Trump explica que os factos ainda não são todos conhecidos, isso significa que quer encobrir a realidade e semear a dúvida na opinião pública.
À pergunta "tratou-se de terrorismo?", Trump responde: "Pode chamar-lhe terrorismo, pode chamar-lhe assassinato, pode chamar-lhe como quiser. [...] Acabamos perante semântica jurídica. O condutor do carro é um assassino." Nesta curta passagem escondem-se duas mensagens que dão imenso jeito aos neonazis do "Alt Right". O "chame-lhe como quiser" é mais do que um comentário descuidado. Com estas palavras, em última análise transforma o atentado terrorista numa questão de definição pessoal.
Com uma oração subordinada, Trump abre a possibilidade para outras interpretações, que os neonazis já estão a espalhar na rede: ter-se-á tratado de um acto de resistência. Num momento Trump falava de incertezas jurídicas, para logo a seguir afirmar que o condutor é um "assassino". O motivo: um assassino costuma agir sozinho, enquanto actos terroristas contêm, por definição, uma culpa partilhada. Deste modo, Trump liberta os neonazis do "Alt Right", uma vez que isola o autor do atentado.
Esta estratégia observa-se frequentemente na rede, em comentadores da direita: por exemplo, quando, perante um atentado de origem fundamentalista islâmica, por sistema se alarga a culpa a todos os muçulmanos, ao mesmo tempo que o terrorismo de extrema direita é obra de pessoas isoladas que de algum modo descarrilaram ou têm problemas mentais. É assim que um dos lados é sempre envolvido na culpa, e o outro lado nunca o é.
Um truque habitual da comunicação online
Perante a questão levantada por John McCain, relacionando a violência de Charlottesville àquilo a que chamou um "grupo Alt Right", Trump começa por apoucar o senador. A seguir, diz: "Defina o que é Alt Right". Trump sabe muito bem o que é "Alt Right", tanto mais que trouxe Steve Bannon - a figura mais poderosa do âmbito desse movimento neonazi - para a Casa Branca. Mas aqui faz de conta, como se tudo fosse difuso, como se faltasse clareza, como se fosse algo difícil de definir. Deste modo, torna mais difícil atacar o grupo, chamá-lo à responsabilidade. O que é mais um paralelo para a comunicação na rede levada a cabo pelos neonazis do "Alt Right".
De facto, também esse grupo cuida de manter a indefinição - embora nem sempre. Quando serve os seus propósitos, apresenta-se como uma estrutura de activistas bem organizada. Mas nos casos em que possam ter problemas, sublinham a falta de nitidez, a dificuldade da definição. Exactamente como Trump fez na conferência de imprensa.
Quando Trump se sente mais pressionado pela perguntas incisivas dos jornalistas sobre a violência dos neonazis do "Alt Right", diz: "E então os "Alt Left"? [...] Têm uma certa culpa? [...] Penso que têm." Recorre a um dos truques standard mais importantes da comunicação online, que os "Alt Right" usam muito: whataboutism.
Este neologismo americano pode traduzir-se por "então-e-ismo". A cada pergunta sobre actos, culpa, responsabilidade responde-se com outra: então, e o outro lado? As crianças com fome em África? Os morto da primeira guerra mundial? Desse modo, parece estarmos perante uma interpelação dos princípios morais do adversário para o atacar, quando afinal se trata de uma manobra de diversão, para afastar para longe as questões incómodas, quando não há nenhum argumento válido para apresentar.
A menção ofensiva à "Alt Left" não foi um acaso. Trump constrói um opositor que não é a sociedade civil a protestar contra os neonazis, mas uma facção semelhante com um nome semelhante. Trump fala como se em Charlottesville o "Alt Right" não se tivesse erguido contra a população americana normal, antes se tivesse tratado de um confronto de activistas de direita contra activistas de esquerda.
Os neonazis da "Alt Right" fazem algo semelhante, como se não estivessem a ser confrontados por cidadãos normais, mas por gente esquisita da esquerda radical.
Numa anedota americana tão crua como amarga mostra-se bem o perigo deste deslocamento de referências:
- Neonazi: "Morte a todos os judeus!"
- Contramanifestante: "Não!"
- Observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."
A estratégia dos neonazis do "Alt Right" é acusar de extremismo quem repudia as suas próprias posições extremas e contrárias aos direitos humanos. E Trump, ao opor "Alt Left" a "Alt Right", dá força a esta narrativa.
Trump afirma: "Num dos lados havia um grupo que era mau, e no outro lado havia um grupo que também era muito violento, e ninguém quer falar disso, mas eu vou falar agora." Na conferência de imprensa, Trump sublinha o carácter violento do "Alt Left", ao mesmo tempo que, de certo modo, protege os manifestantes de extrema direita: também terá havido entre eles "bad people", mas a maior parte "manifestava-se de modo inocente" e era "fine people". Este modelo de apresentação das questões é do mais maldoso que se pode encontrar, uma vez que, independentemente da violência que possa ter havido da parte dos contramanifestantes, houve um atentado em que um dos extremistas de direita matou uma mulher que estava a protestar pacificamente.
Quando se silencia esta diferença fundamental entre os dois níveis, estamos perante uma bagatelização deliberada de um assassinato por motivos terroristas. E isso sem mencionar a formulação "ninguém quer falar disso, mas eu falo agora" - que já é a maneira clássica de a direita encenar uma quebra de tabu, a revelação de uma verdade que todos sabem e ninguém se atreve a mencionar. A seguir, aumenta ainda mais a sua repartição das culpas: "Havia um grupo de um lado, a que podem chamar "os esquerdistas" [...] que veio e atacou violentamente o outro grupo." Desse modo, Trump desloca a culpa para os contramanifestantes.
Não se trata de autorização para se manifestar, mas de assassínio
"Do outro lado havia um grupo que vinha com a intenção de atacar, não tinha autorização para participar na manifestação, e era extremamente violento. [...] Havia muitas pessoas naquela manifestação [a "unite the right"] que vieram para se manifestar pacificamente e de forma muito legal. [...] Essas pessoas tinham autorização, as do outro grupo não tinham nenhuma autorização [...] um momento horrível para o nosso país."
A impressão que Trump quer criar aqui é algo que se encontra frequentemente nas discussões online: o respeito pelas regras do Estado de Direito com uma função de legitimização. Mas em momento algum a questão é a autorização para a manifestação - trata-se de um assassinato.
Trump, no entanto, sublinha repetidamente que a manifestação dos neonazis estava conforme os preceitos legais, e a dos contramanifestantes não estava. Trump apresenta um grupo onde havia uma maioria de neonazis com tochas, saudações nazis, canções antisemitas e um assassínio de motivação terrorista como se fossem manifestantes "inteiramente dentro da legalidade" que, citando Trump, apenas se manifestavam "contra o desmantelamento de uma estátua que era muito, muito importante para eles". Quase nos sentimos tentados a ter pena dos pobres nazis e da estátua que significa tanto para eles.
O presidente dos Estados Unidos dissipou todas as dúvidas que pudesse haver sobre a sua atitude e deu-nos uma lição sobre como bagatelizar o nazismo. À qual, naturalmente, não podia faltar um final trumpiano: "A propósito, sou proprietário de uma das maiores quintas produtoras de vinho dos EUA. Fica em Charlottesville."
Como disse, é uma tradução rápida (estou de férias, e com ipad e internet periclitantes). Se tiverem dúvidas sobre alguma frase, digam-me - pode ser culpa da tradução.
Após o atentado de Charlottesville, Trump serviu-se dos truques habituais de comunicação dos neonazis. Na conferência de imprensa, o presidente usou um estilo que já tem vindo a ser usado há muito na internet.
"Havia muito boa gente, dos dois lados."
É preciso pôr em contexto esta citação da conferência de imprensa de Donald Trump sobre a manifestação "unite the right" em Charlottesville. Para isso, neste caso basta uma imagem:
(foto: Andy Campbell)
Esta foto é suficiente pelo que representa: os inúmeros braços erguidos na saudação nazi, as palavras de ordem e as canções anti-semitas, a violência aberta e carregada de ódio como foi o ataque às pessoas da contra-manifestação. Aconteceu sob o lema "unite the right", que resume o comportamento do grupo: não se tratou de casos individuais, mas de uma base comum.
Para isto, não se encontra palavra mais adequada que "neonazis".
Muito antes das eleições nos EUA, encontrei um tweet que na altura ainda tinha piada: "Trump é como se a caixa de comentários da internet tomasse a figura de um homem e concorresse às eleições". Entretanto, já nos demos conta do alcance desta comparação.
Na conferência de imprensa sobre os acontecimentos de Charlottesville, Trump utilizou exactamente os mesmos modelos de comunicação com que os "Alt Right" (um eufemismo para extrema direita e neonazis) operam há muito na internet. Por trás disso escondem-se naturalmente truques antiquíssimos, desde a retórica da Grécia Antiga até à dialética erística de Schopenhauer. Mas seja por estratégia, seja por um mero impulso, Donald Trump transformou o tipo de comunicação online dos "Alt Right" numa conferência de imprensa.
"Chame-lhe o que quiser"
Começa com a resposta à pergunta sobre ter precisado de tanto tempo para fazer declarações sobre o ocorrido. Trump respondeu: "não esperei muito tempo [...] É preciso algum tempo para ter acesso aos factos. Os factos ainda não são conhecidos. [...] Honestamente: as pessoas ainda não conhecem todos os factos."
Dizer que ainda não se conhecem todos os factos é um modelo frequente nas discussões na internet. Desse modo fica subentendido que ainda não é possível fazer um julgamento definitivo. O que parece lógico, mas não é mais do que um truque, porque raramente se trata de conhecer "todos os factos". O que se trata é de conhecer o fundamental, e isso é identificável sem estar na posse de todos os detalhes.
É assim que um argumento da análise racional se transforma no seu contrário. Obviamente, é preciso ter factos para poder julgar. Mas se - perante a clareza de suásticas, saudações nazis e fantasias de exterminação dos judeus - Trump explica que os factos ainda não são todos conhecidos, isso significa que quer encobrir a realidade e semear a dúvida na opinião pública.
À pergunta "tratou-se de terrorismo?", Trump responde: "Pode chamar-lhe terrorismo, pode chamar-lhe assassinato, pode chamar-lhe como quiser. [...] Acabamos perante semântica jurídica. O condutor do carro é um assassino." Nesta curta passagem escondem-se duas mensagens que dão imenso jeito aos neonazis do "Alt Right". O "chame-lhe como quiser" é mais do que um comentário descuidado. Com estas palavras, em última análise transforma o atentado terrorista numa questão de definição pessoal.
Com uma oração subordinada, Trump abre a possibilidade para outras interpretações, que os neonazis já estão a espalhar na rede: ter-se-á tratado de um acto de resistência. Num momento Trump falava de incertezas jurídicas, para logo a seguir afirmar que o condutor é um "assassino". O motivo: um assassino costuma agir sozinho, enquanto actos terroristas contêm, por definição, uma culpa partilhada. Deste modo, Trump liberta os neonazis do "Alt Right", uma vez que isola o autor do atentado.
Esta estratégia observa-se frequentemente na rede, em comentadores da direita: por exemplo, quando, perante um atentado de origem fundamentalista islâmica, por sistema se alarga a culpa a todos os muçulmanos, ao mesmo tempo que o terrorismo de extrema direita é obra de pessoas isoladas que de algum modo descarrilaram ou têm problemas mentais. É assim que um dos lados é sempre envolvido na culpa, e o outro lado nunca o é.
Um truque habitual da comunicação online
Perante a questão levantada por John McCain, relacionando a violência de Charlottesville àquilo a que chamou um "grupo Alt Right", Trump começa por apoucar o senador. A seguir, diz: "Defina o que é Alt Right". Trump sabe muito bem o que é "Alt Right", tanto mais que trouxe Steve Bannon - a figura mais poderosa do âmbito desse movimento neonazi - para a Casa Branca. Mas aqui faz de conta, como se tudo fosse difuso, como se faltasse clareza, como se fosse algo difícil de definir. Deste modo, torna mais difícil atacar o grupo, chamá-lo à responsabilidade. O que é mais um paralelo para a comunicação na rede levada a cabo pelos neonazis do "Alt Right".
De facto, também esse grupo cuida de manter a indefinição - embora nem sempre. Quando serve os seus propósitos, apresenta-se como uma estrutura de activistas bem organizada. Mas nos casos em que possam ter problemas, sublinham a falta de nitidez, a dificuldade da definição. Exactamente como Trump fez na conferência de imprensa.
Quando Trump se sente mais pressionado pela perguntas incisivas dos jornalistas sobre a violência dos neonazis do "Alt Right", diz: "E então os "Alt Left"? [...] Têm uma certa culpa? [...] Penso que têm." Recorre a um dos truques standard mais importantes da comunicação online, que os "Alt Right" usam muito: whataboutism.
Este neologismo americano pode traduzir-se por "então-e-ismo". A cada pergunta sobre actos, culpa, responsabilidade responde-se com outra: então, e o outro lado? As crianças com fome em África? Os morto da primeira guerra mundial? Desse modo, parece estarmos perante uma interpelação dos princípios morais do adversário para o atacar, quando afinal se trata de uma manobra de diversão, para afastar para longe as questões incómodas, quando não há nenhum argumento válido para apresentar.
A menção ofensiva à "Alt Left" não foi um acaso. Trump constrói um opositor que não é a sociedade civil a protestar contra os neonazis, mas uma facção semelhante com um nome semelhante. Trump fala como se em Charlottesville o "Alt Right" não se tivesse erguido contra a população americana normal, antes se tivesse tratado de um confronto de activistas de direita contra activistas de esquerda.
Os neonazis da "Alt Right" fazem algo semelhante, como se não estivessem a ser confrontados por cidadãos normais, mas por gente esquisita da esquerda radical.
Numa anedota americana tão crua como amarga mostra-se bem o perigo deste deslocamento de referências:
- Neonazi: "Morte a todos os judeus!"
- Contramanifestante: "Não!"
- Observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."
A estratégia dos neonazis do "Alt Right" é acusar de extremismo quem repudia as suas próprias posições extremas e contrárias aos direitos humanos. E Trump, ao opor "Alt Left" a "Alt Right", dá força a esta narrativa.
Trump afirma: "Num dos lados havia um grupo que era mau, e no outro lado havia um grupo que também era muito violento, e ninguém quer falar disso, mas eu vou falar agora." Na conferência de imprensa, Trump sublinha o carácter violento do "Alt Left", ao mesmo tempo que, de certo modo, protege os manifestantes de extrema direita: também terá havido entre eles "bad people", mas a maior parte "manifestava-se de modo inocente" e era "fine people". Este modelo de apresentação das questões é do mais maldoso que se pode encontrar, uma vez que, independentemente da violência que possa ter havido da parte dos contramanifestantes, houve um atentado em que um dos extremistas de direita matou uma mulher que estava a protestar pacificamente.
Quando se silencia esta diferença fundamental entre os dois níveis, estamos perante uma bagatelização deliberada de um assassinato por motivos terroristas. E isso sem mencionar a formulação "ninguém quer falar disso, mas eu falo agora" - que já é a maneira clássica de a direita encenar uma quebra de tabu, a revelação de uma verdade que todos sabem e ninguém se atreve a mencionar. A seguir, aumenta ainda mais a sua repartição das culpas: "Havia um grupo de um lado, a que podem chamar "os esquerdistas" [...] que veio e atacou violentamente o outro grupo." Desse modo, Trump desloca a culpa para os contramanifestantes.
Não se trata de autorização para se manifestar, mas de assassínio
"Do outro lado havia um grupo que vinha com a intenção de atacar, não tinha autorização para participar na manifestação, e era extremamente violento. [...] Havia muitas pessoas naquela manifestação [a "unite the right"] que vieram para se manifestar pacificamente e de forma muito legal. [...] Essas pessoas tinham autorização, as do outro grupo não tinham nenhuma autorização [...] um momento horrível para o nosso país."
A impressão que Trump quer criar aqui é algo que se encontra frequentemente nas discussões online: o respeito pelas regras do Estado de Direito com uma função de legitimização. Mas em momento algum a questão é a autorização para a manifestação - trata-se de um assassinato.
Trump, no entanto, sublinha repetidamente que a manifestação dos neonazis estava conforme os preceitos legais, e a dos contramanifestantes não estava. Trump apresenta um grupo onde havia uma maioria de neonazis com tochas, saudações nazis, canções antisemitas e um assassínio de motivação terrorista como se fossem manifestantes "inteiramente dentro da legalidade" que, citando Trump, apenas se manifestavam "contra o desmantelamento de uma estátua que era muito, muito importante para eles". Quase nos sentimos tentados a ter pena dos pobres nazis e da estátua que significa tanto para eles.
O presidente dos Estados Unidos dissipou todas as dúvidas que pudesse haver sobre a sua atitude e deu-nos uma lição sobre como bagatelizar o nazismo. À qual, naturalmente, não podia faltar um final trumpiano: "A propósito, sou proprietário de uma das maiores quintas produtoras de vinho dos EUA. Fica em Charlottesville."
17 agosto 2017
resistir
Ia começar a traduzir um artigo muito bom sobre a banalização dos nazis no discurso do Trump quando soube do atentado em Barcelona. Primeiro falava-se apenas em "alguns feridos" ("uffff! desta vez escapámos com um olho negro", pensei) mas parece ter sido muito mais grave. Fala-se em treze mortos, treze imensas desgraças. E ainda o horror dos reféns no restaurante, o detalhe do outro carro envolvido que foi encontrado a 60 km de Barcelona. Só daqui a alguns dias saberemos com mais clareza o que se está a passar hoje na Catalunha.
A muitos milhares de quilómetros de distância, na costa ocidental dos EUA, penso no medo instalado na cidade, no choque e no luto que hoje se abateu sobre tantas pessoas dessa parte do mundo que me é tão próxima. Imagino o seu sofrimento, e o horror que entrou hoje nas suas vidas.
Mas não pensem os terroristas que vão ganhar, e conseguem mudar o meu rumo. Hoje ainda hei-de traduzir o texto que mostra como estamos a aceitar a bagatelização dos nazis. Não posso fazer nada para evitar os crimes do terrorismo islâmico, mas vou continuar a fazer a minha parte para que o ódio não se torne algo aceitável nas sociedades ocidentais. Não nos podemos tornar iguais a esses que nos atacam.
15 agosto 2017
deixaram-me entrar
Confesso que estava um bocado apreensiva com a passagem da fronteira para entrar nos EUA. O pessoal da Immigration nunca exagerou na simpatia, e as notícias que vão chegando à Europa sobre a facilidade com que se atropelam os direitos e a dignidade dos humanos afectam o optimismo e aquela confiança pueril que faz crer que tudo vai correr bem. Desta vez voei para os EUA temendo que alguma coisa corresse realmente mal, e não me deixassem entrar. De modo que andei numa de self-fulfilling prophecy, só fiz asneiras.
Começou em Amesterdão: o agente na entrada da zona dos aviões para os EUA queria saber dos motivos da minha viagem, e eu passei o tempo todo a dizer "nós". Como não tinha ar de princesa, ele quis saber quem era "nós", já que estava sozinha.
- Ah, claro! É o meu marido, que já está nos EUA, num congresso.
- E o que vão fazer? Onde vão estar?
- Férias. Vamos para Oregon, eclipse, avenue of giants, San Francisco. Depois o meu marido vai para o Burning Man...
- Burning Man? Queimam pessoas?! Isso parece perigoso.
- [ ai! já foste, Heleninha! Estás aqui estás a ser presa por suspeita de violência e terrorismo ] É um festival, em Nevada. Nunca ouviu falar? Setenta mil pessoas.
- Que tipo de pessoas vão para esse lugar? O seu marido é uma pessoa muito espiritual?
- [ ai! mete a marcha-atrás a duzentos à hora, Heleninha, faz-te de pateta ] Beeeem, nós somos católicos...
- Boa viagem, então.
Na máquina de controlo do passaporte correu tudo bem, mas a seguir tinha de ficar quieta para tirar uma fotografia. Olhei para o espelho à minha frente, e dei com o meu ar descomposto, de quem se tinha levantado às quatro da manhã, pareceu-me que o decote do vestido estava exagerado. Pensei que não queria a minha imagem naqueles preparos sabe-se lá nas mãos de que polícia, e tentei fechar o casaco - justamente no momento em que a câmara disparou. De modo que vai andar por aí uma foto minha a tentar compor pudicamente o decote.
Em Portland dei-me conta de que me tinha esquecido de trazer comigo o formulário ESTA. Engoli em seco, pensei que era agora que me iam mandar de volta para a Europa. O scanner do meu passaporte não funcionou. Depois funcionou, mas não conseguiu registar as minhas impressões digitais. Tentei uma segunda máquina. Também encravou. Pedi ajuda a um agente. Surpreendentemente correu tudo sem problemas e ele deu-me um impresso que tinha uma cruz enorme sobre o meu nome e restantes dados. Pensei "pronto, já foste! Regressas no mesmo avião, vais ver mais 4 filmes que te regalas..." Mas deixaram-me passar.
Na Alfândega perguntaram-me se trazia álcool comigo, e eu achei que me estava a perguntar se sou daquelas pessoas que andam com uma garrafa de aguardente no bolso do casaco - sim, só tinha dormido 3 horas depois de ter andado várias horas a segar relva praticamente de cócoras, e estava completamente atordoada - de modo que respondi "oh, nããããooooo!" como se ele tivesse feito uma insinuação ofensiva. Depois perguntou-me se trazia carne, "dairy" (oh, maldita pergunta para quem trazia um quilo de queijos austríacos e da Ilha), sementes, frutos, nozes...
- Não...
Olhou para mim com ainda mais atenção, levantou uma sobrancelha:
- Tem a certeza?
- Bem... tenho alguns queijos velhos em bloco.
- Ah, OK.
- E agora me lembro: há bocado, quando lhe respondi sobre o álcool, esqueci-me completamente que tenho duas garrafas de vinho português para oferecer aos meus amigos.
- OK. Boas férias, então.
Depois só tive de mostrar o passaporte mais meio milhão de vezes, e entrei nos EUA.
Tenho a sensação que os agentes foram mais simpáticos que habitualmente. Suspeito até que estavam a tentar contrabalançar as notícias que vamos recebendo dos EUA.
Começou em Amesterdão: o agente na entrada da zona dos aviões para os EUA queria saber dos motivos da minha viagem, e eu passei o tempo todo a dizer "nós". Como não tinha ar de princesa, ele quis saber quem era "nós", já que estava sozinha.
- Ah, claro! É o meu marido, que já está nos EUA, num congresso.
- E o que vão fazer? Onde vão estar?
- Férias. Vamos para Oregon, eclipse, avenue of giants, San Francisco. Depois o meu marido vai para o Burning Man...
- Burning Man? Queimam pessoas?! Isso parece perigoso.
- [ ai! já foste, Heleninha! Estás aqui estás a ser presa por suspeita de violência e terrorismo ] É um festival, em Nevada. Nunca ouviu falar? Setenta mil pessoas.
- Que tipo de pessoas vão para esse lugar? O seu marido é uma pessoa muito espiritual?
- [ ai! mete a marcha-atrás a duzentos à hora, Heleninha, faz-te de pateta ] Beeeem, nós somos católicos...
- Boa viagem, então.
Na máquina de controlo do passaporte correu tudo bem, mas a seguir tinha de ficar quieta para tirar uma fotografia. Olhei para o espelho à minha frente, e dei com o meu ar descomposto, de quem se tinha levantado às quatro da manhã, pareceu-me que o decote do vestido estava exagerado. Pensei que não queria a minha imagem naqueles preparos sabe-se lá nas mãos de que polícia, e tentei fechar o casaco - justamente no momento em que a câmara disparou. De modo que vai andar por aí uma foto minha a tentar compor pudicamente o decote.
Em Portland dei-me conta de que me tinha esquecido de trazer comigo o formulário ESTA. Engoli em seco, pensei que era agora que me iam mandar de volta para a Europa. O scanner do meu passaporte não funcionou. Depois funcionou, mas não conseguiu registar as minhas impressões digitais. Tentei uma segunda máquina. Também encravou. Pedi ajuda a um agente. Surpreendentemente correu tudo sem problemas e ele deu-me um impresso que tinha uma cruz enorme sobre o meu nome e restantes dados. Pensei "pronto, já foste! Regressas no mesmo avião, vais ver mais 4 filmes que te regalas..." Mas deixaram-me passar.
Na Alfândega perguntaram-me se trazia álcool comigo, e eu achei que me estava a perguntar se sou daquelas pessoas que andam com uma garrafa de aguardente no bolso do casaco - sim, só tinha dormido 3 horas depois de ter andado várias horas a segar relva praticamente de cócoras, e estava completamente atordoada - de modo que respondi "oh, nããããooooo!" como se ele tivesse feito uma insinuação ofensiva. Depois perguntou-me se trazia carne, "dairy" (oh, maldita pergunta para quem trazia um quilo de queijos austríacos e da Ilha), sementes, frutos, nozes...
- Não...
Olhou para mim com ainda mais atenção, levantou uma sobrancelha:
- Tem a certeza?
- Bem... tenho alguns queijos velhos em bloco.
- Ah, OK.
- E agora me lembro: há bocado, quando lhe respondi sobre o álcool, esqueci-me completamente que tenho duas garrafas de vinho português para oferecer aos meus amigos.
- OK. Boas férias, então.
Depois só tive de mostrar o passaporte mais meio milhão de vezes, e entrei nos EUA.
Tenho a sensação que os agentes foram mais simpáticos que habitualmente. Suspeito até que estavam a tentar contrabalançar as notícias que vamos recebendo dos EUA.
14 agosto 2017
e lá vou eu outra vez
Quem me mandou cortar a relva com uma gadanha mal ajustada, que me obrigava a trabalhar praticamente de cócoras? Com gadanhas assim, ninguém precisa de um personal trainer para desgraçar o corpinho. Vão ser nove longas horas de Amesterdão até Portland.
Mas depois começam as férias: crabbing, eclipse do sol, redwoods, San Francisco, Monterey, campismo em Big Sur.
E por causa daquela vez em que estava nos fiordes, digamos assim, de Oregon, a comer os caranguejos maravilhosos que tínhamos pescado no dia, e dei comigo a desejar estar antes em Bruxelas a comer chocolates Godiva, vou prevenida: acabei de comprar uma bela caixinha de trufas.
Até já.
13 agosto 2017
a mulher da gadanha
Triste sina: antes das férias tento fazer tudo o que andei a procrastinar nos dias (e anos) anteriores. Uma correria.
Por exemplo: na véspera de sair para Portugal, em princípios de Julho, lembrei-me que tinha de plantar as dálias. Ou isso, ou podia dizer adeus à minha bela colecção de dálias de meter na terra no princípio do verão e tirar antes de chegar o gelo. Estava um calor insuportável, e eu sem tempo sequer para abrir buracos fundos, quanto mais para mergulhar os bolbos em água, esperar até ficarem bem empapados e plantar depois. De modo que passei uma ou duas horas a trabalhar no jardim num stress desesperado, convencida que não estava a plantar dálias - estava a enterrá-las.
Ora bem: Deus existe, podem crer. Mandou meia dúzia de dilúvios finais para Berlim, que empaparam os bolbos na terra o suficiente para a maioria deles sobreviverem.
Agora que estou prestes a sair para algumas semanas nos EUA, lembrei-me que a relva tem de ser cortada. Como já está demasiado grande, o cortador de relva já não dá conta do recado. Tenho andado de gadanha furiosa no jardim, convencida que não estou a cortar a relva - estou a decepá-la.
A ver como é que Deus se desenrasca desta vez...
12 agosto 2017
ele diz "lavagem ao cérebro", mas eu desconfio que há um ditado alemão mais apropriado para explicar o fenómeno
Tenho uma amiga - digamos que se chama Maria - que é uma mulher formidável, a todos os títulos.
Para a perfeição ser completa, falta-lhe apenas ter uma cara bonita.
Uma vez veio a uma festa nossa com um vestido mini que lhe ficava divinamente. Alguns rapazes viram-na de costas, e ficaram todos alvoroçados, olha-me aquela! olha-me aquela!
Segui o olhar deles no momento em que ela se estava a virar para nós, vi como murcharam:
- Oooooh, afinal é só a Maria...
"Só" a Maria. Uma mulher extraordinária, cujo único defeito é não ter uma cara belíssima, é "só" a Maria.
Um ditado alemão, com tradução livre do Speedy Gonzalez, diz (menores de 18 anos e ladies, é favor não lerem): quando o caralho sobe à cabeça, o cérebro fode-se.
11 agosto 2017
como se fosse Natal: voucher para uma semana no Digital Concert Hall
Ai, estes três!
💗 💗 💗
Ora bem, meus amigos: recebi um voucher para acesso gratuito durante uma semana ao Digital Concert Hall. Vou sorteá-lo entre os amigos (ou cuscas que por aí andam) que me disserem que estão interessados. Escrevam um comentário a este post, ou mensagem privada.
(Não, este post não é escrito em parceria com os Filarmónicos de Berlim. Antes fosse. Dizia-lhes logo: oh, pagamento por este serviço de publicidade?! Ora essa, não se incomodem com isso, é um prazer! Mas se me arranjassem um colchãozito no vão de umas escadas mais ou menos esquecidas no edifício...)
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filarmonia de Berlim
10 agosto 2017
como fazer uma tarte tatin de peras
Descascar cinco ou seis peras, e cortá-las em quartos. Aquecer o forno na chapa inferior a 200 graus.
Num tacho, aquecer 75 g de manteiga (pelo menos). Misturar 100 g de açúcar mascavado (ou menos). Deitar essa mistura no fundo de uma forma de tarte, pousar as peras em cima, em meter no forno para alourar a pera.
Como não fazer uma tarte tatin de peras: depois de meter a forma com as peras no forno, não ir procurar um botão para a camisa do marido, não tentar enfiar um fio demasiado grosso na agulha, não coser o botão, não dobrar a camisa e não ir espreitar o que se passa no facebook.
Num tacho, aquecer 75 g de manteiga (pelo menos). Misturar 100 g de açúcar mascavado (ou menos). Deitar essa mistura no fundo de uma forma de tarte, pousar as peras em cima, em meter no forno para alourar a pera.
Como não fazer uma tarte tatin de peras: depois de meter a forma com as peras no forno, não ir procurar um botão para a camisa do marido, não tentar enfiar um fio demasiado grosso na agulha, não coser o botão, não dobrar a camisa e não ir espreitar o que se passa no facebook.
aqui em Berlim tem estado um verão impecável
Aqui em Berlim tem estado um verão impecável: bastam-me os dedos de uma mão para contar os dias em que tive de regar o jardim... :)
debates necessários
Não sei como é que o realizador - e meu amigo - Ricardo Espírito Santo faz, mas em poucos anos arranjou maneira de estar no centro de dois debates importantes sobre a ética na escolha das imagens a transmitir. E das duas vezes não deixou dúvidas sobre os valores que defende.
O primeiro foi o caso da morte do Féher. O Ricardo percebeu imediatamente que o jogador estava a morrer, e no mesmo instante tomou a decisão de não fazer imagens do seu rosto. Nunca será demais louvar esta atitude, por si própria e também por constituir um acto de resistência ao imperativo do negócio por meio da devassa e da criação de imagens que alimentam a mais sórdida curiosidade.
O segundo aconteceu por estes dias, também na transmissão de um jogo de futebol, com um plano que pretendia partir de um espectador e alargar para um geral, e infelizmente começou nos seios de uma adepta, abriu de modo a incluir o seu rosto e continuou para o restante público. O Ricardo pediu desculpa aos espectadores e à adepta, dizendo que foi totalmente involuntário, "um plano q envergonha valores fundamentais" e que "este plano não devia ter sido emitido, ponto final". Pediu também pessoalmente desculpa à adepta, que lhe revelou que o seu mural de facebook foi encerrado por ter sido alvo de comentários extremamente agressivos e sexistas, "dezenas de insultos, as coisas mais escabrosas q possam imaginar, coisas verdadeiramente horríveis q esta senhora nunca deveria ter vivido", "obscenidades relacionadas com o corpo". E conclui: "Quem se insurgiu com o meu pedido de desculpas, quem acha q isto se resume a dúzia e meia de 'virgens ofendidas', perceberá agora por que razão este plano nunca deveria ter existido?"
Descontando a parte extremamente desagradável do debate - os insultos ao realizador e à equipa por ter passado o plano, a crítica ao realizador por ter pedido desculpa, os insultos à adepta, os insultos a quem criticava e a quem apoiava -, foi muito importante ter-se falado tanto deste tema. E o Ricardo Espírito Santo soube conduzi-lo com a clareza de quem não tem dúvidas sobre os valores que defende. Infelizmente, a pressão de uma lógica de produzir espectáculos do tipo "quanto mais indecoroso, melhor" e a desculpabilização geral, de que também tivemos inúmeros exemplos neste debate, farão com que cada vez menos pessoas lhe sigam o exemplo.
Sinto-me grata ao Ricardo também por essa teimosia de não abdicar de certos valores quando à sua volta tantos encontram mil desculpas para escolher seguir por caminhos mais fáceis e economicamente compensadores.
O primeiro foi o caso da morte do Féher. O Ricardo percebeu imediatamente que o jogador estava a morrer, e no mesmo instante tomou a decisão de não fazer imagens do seu rosto. Nunca será demais louvar esta atitude, por si própria e também por constituir um acto de resistência ao imperativo do negócio por meio da devassa e da criação de imagens que alimentam a mais sórdida curiosidade.
O segundo aconteceu por estes dias, também na transmissão de um jogo de futebol, com um plano que pretendia partir de um espectador e alargar para um geral, e infelizmente começou nos seios de uma adepta, abriu de modo a incluir o seu rosto e continuou para o restante público. O Ricardo pediu desculpa aos espectadores e à adepta, dizendo que foi totalmente involuntário, "um plano q envergonha valores fundamentais" e que "este plano não devia ter sido emitido, ponto final". Pediu também pessoalmente desculpa à adepta, que lhe revelou que o seu mural de facebook foi encerrado por ter sido alvo de comentários extremamente agressivos e sexistas, "dezenas de insultos, as coisas mais escabrosas q possam imaginar, coisas verdadeiramente horríveis q esta senhora nunca deveria ter vivido", "obscenidades relacionadas com o corpo". E conclui: "Quem se insurgiu com o meu pedido de desculpas, quem acha q isto se resume a dúzia e meia de 'virgens ofendidas', perceberá agora por que razão este plano nunca deveria ter existido?"
Descontando a parte extremamente desagradável do debate - os insultos ao realizador e à equipa por ter passado o plano, a crítica ao realizador por ter pedido desculpa, os insultos à adepta, os insultos a quem criticava e a quem apoiava -, foi muito importante ter-se falado tanto deste tema. E o Ricardo Espírito Santo soube conduzi-lo com a clareza de quem não tem dúvidas sobre os valores que defende. Infelizmente, a pressão de uma lógica de produzir espectáculos do tipo "quanto mais indecoroso, melhor" e a desculpabilização geral, de que também tivemos inúmeros exemplos neste debate, farão com que cada vez menos pessoas lhe sigam o exemplo.
Sinto-me grata ao Ricardo também por essa teimosia de não abdicar de certos valores quando à sua volta tantos encontram mil desculpas para escolher seguir por caminhos mais fáceis e economicamente compensadores.
09 agosto 2017
ética versus dietética
Não sei se o caso é de 2011 (parece que foi a data da primeira edição) ou de 2016 (data desta entrevista à Visão). Em todo o caso, e já que este é o assunto do dia nas redes sociais, cá deixo também alguns apontamentos:
- não sei qual é a dietética que a senhora pratica, mas está-lhe a fazer mal à ética;
- não conheço mais nenhum livro com um nome tão comprido: "a dieta de Auschwitz versus o pão nosso de cada dia" - mais um bocadinho, e escrevia na capa o primeiro capítulo inteiro;
- se me permitem humor negro, à boleia desta estupidez oportunista: aquela história que ela conta de ter estado em Luanda em 75, e ter ido para a maternidade debaixo de uma chuva de balas e de granadas, inspira-me para o título do seu próximo livro - "fitness na guerra civil versus vida sedentária na paz"...
De resto: preciso de um garrafão de 5 l cheio de pimenta, para pôr na língua, por causa das palavras feias que larguei enquanto ia lendo a entrevista.
(Ah, e diz que é judia por parte da mãe. Até parece aquela anedota do menino que ia com a avó cega pela rua e lhe dizia "há aqui uma poça de água - salta, avó!", e a avó saltava. Um homem que ia a passar e viu que não havia água nenhuma ralhou com ele, e o menino respondeu "a avó é minha, faço com ela o que me apetecer!")
isto agora é eclipses da lua uns atrás dos outros, ou quê?
Ontem o eclipse no meu terraço foi assim:
Em suma: tenho de arranjar maneira de cortar aquela árvore, que me está a estragar o show da lua cheia...
De caminho, dou também destino às nuvens, que ontem também contribuíram para estragar a festa:
Mas, como diz o povo, não há mal que sempre dure, talicoisa, e portanto:
1. Ao fim de alguns minutos, a lua apareceu exuberante e nua.
2. Prometo que tão depressa não volto a publicar aqui fotos manhosas da lua cheia (ou vazia, ou seja lá como for) (ah, mas aviso já que daqui a 10 dias posso muito bem aparecer com fotos do eclipse do sol em Oregon) (ou até antes disso, e aqui em Berlim, se o céu ficar coberto...)
Em suma: tenho de arranjar maneira de cortar aquela árvore, que me está a estragar o show da lua cheia...
De caminho, dou também destino às nuvens, que ontem também contribuíram para estragar a festa:
Mas, como diz o povo, não há mal que sempre dure, talicoisa, e portanto:
1. Ao fim de alguns minutos, a lua apareceu exuberante e nua.
2. Prometo que tão depressa não volto a publicar aqui fotos manhosas da lua cheia (ou vazia, ou seja lá como for) (ah, mas aviso já que daqui a 10 dias posso muito bem aparecer com fotos do eclipse do sol em Oregon) (ou até antes disso, e aqui em Berlim, se o céu ficar coberto...)
08 agosto 2017
a perseguição a Trump
Há algum tempo que me sinto incomodada pelo modo como a comunicação social persegue Trump. Não falo das notícias sérias, que são indispensáveis, mas de um gozo especial em fazer notícias mordazes a propósito de detalhes insignificantes, passar imagens em que ele aparece muito desfavorecido, chafurdar em lamas antigas para encontrar algo com que o provocar.
Esta manhã, por exemplo, na newsletter diária do Spiegel, um dos responsáveis da revista falava assim a propósito das férias de Trump:
Dantes, quando Donald Trump ainda não era presidente, quando ainda nenhum conselheiro especial se lhe colara aos calcanhares e não era atormentado diariamente com indiscrições da Casa Branca - nesse tempo bendito Trump era de opinião de que fazer férias era coisa de fracotes. "Nice work ethic", tuitou ele, quando Barack Obama no Verão de 2011 saiu para 10 dias de férias em Martha's Vineyard.
Desde que se tornou presidente, não há nada que mais gosto dê a Trump que escapar-se ao fim-de-semana para a Florida. E no que diz respeito às férias de Verão, de repente mudou de opinião e já não quer quebrar com a tradição do seu antecessor. Desde a sexta-feira passada está num clube de golfe em New Jersey, para umas férias de 17 dias. "Se uma pessoa não tem gosto pelo trabalho, é porque está no lugar errado", disse Trump há alguns anos, a propósito do tema férias, numa altura em que era ainda um feliz empresário de imobiliário nova-iorquino. Talvez por estes dias tenha vagar para reflectir de novo sobre esta frase.
Qual é a necessidade de falar de Trump nestes termos? Aliás: isto que está aqui dito é sequer relevante?
Esta perseguição - exagerada, fora de foco, impiedosa e avessa a regras elementares de fairness - a um político eleito tem efeitos desastrosos: alimenta o ressentimento daqueles a quem Clinton chamou "deploráveis", dá-lhes novas razões para a escolha que fizeram, aumenta ainda mais o fosso entre "eles" e "nós" e reforça a ideia de uma imprensa vendida aos interesses "deles". Ou seja: uma imprensa na qual não se pode confiar.
Não é esse o caminho para melhorar o funcionamento do sistema democrático. Precisamos de uma imprensa imparcial e concentrada no que é realmente importante, deixando para os programas satíricos os materiais de fait divers e a ridicularização dos políticos.
Esta manhã, por exemplo, na newsletter diária do Spiegel, um dos responsáveis da revista falava assim a propósito das férias de Trump:
Dantes, quando Donald Trump ainda não era presidente, quando ainda nenhum conselheiro especial se lhe colara aos calcanhares e não era atormentado diariamente com indiscrições da Casa Branca - nesse tempo bendito Trump era de opinião de que fazer férias era coisa de fracotes. "Nice work ethic", tuitou ele, quando Barack Obama no Verão de 2011 saiu para 10 dias de férias em Martha's Vineyard.
Desde que se tornou presidente, não há nada que mais gosto dê a Trump que escapar-se ao fim-de-semana para a Florida. E no que diz respeito às férias de Verão, de repente mudou de opinião e já não quer quebrar com a tradição do seu antecessor. Desde a sexta-feira passada está num clube de golfe em New Jersey, para umas férias de 17 dias. "Se uma pessoa não tem gosto pelo trabalho, é porque está no lugar errado", disse Trump há alguns anos, a propósito do tema férias, numa altura em que era ainda um feliz empresário de imobiliário nova-iorquino. Talvez por estes dias tenha vagar para reflectir de novo sobre esta frase.
Qual é a necessidade de falar de Trump nestes termos? Aliás: isto que está aqui dito é sequer relevante?
Esta perseguição - exagerada, fora de foco, impiedosa e avessa a regras elementares de fairness - a um político eleito tem efeitos desastrosos: alimenta o ressentimento daqueles a quem Clinton chamou "deploráveis", dá-lhes novas razões para a escolha que fizeram, aumenta ainda mais o fosso entre "eles" e "nós" e reforça a ideia de uma imprensa vendida aos interesses "deles". Ou seja: uma imprensa na qual não se pode confiar.
Não é esse o caminho para melhorar o funcionamento do sistema democrático. Precisamos de uma imprensa imparcial e concentrada no que é realmente importante, deixando para os programas satíricos os materiais de fait divers e a ridicularização dos políticos.
eclipse lunar à minha moda
(hihihi)
Aqui a inteligência rara esqueceu-se que ontem havia eclipse lunar.
Mas fotografei na mesma: estávamos a jantar no terraço quando a lua começou a subir, e estava lindíssima. Foi mesmo no fim do eclipse, sobrou apenas uma sombra minúscula no lado. Se é que não estou a imaginar coisas.
"transexual"
Na empresa onde trabalhei nos anos 90 havia um colega que se vestia como um homem, mas com adereços femininos: o cabelo comprido apanhado em rabo-de-cavalo, o colar de pérolas a espreitar dentro do colarinho da camisa aberto, os sapatos luva (muito pouco comuns entre homens, na Alemanha).
Soube depois que estava a fazer todo o processo para transformar o seu corpo. Em determinado momento mudou oficialmente: deixou de ser Peter, passou a ser Hilde (até parece aquela anedota do homem chamado Manuel Merda que foi pedir para mudar o nome. Tendo em conta o caso concreto, autorizaram. E ele mudou: para António Merda), e passou a usar uns vestidos camiseiros confortáveis e elegantes.
Uma mulher que participou numa viagem de fim-de-semana do departamento contou-me que gostou imenso de conversar com a Hilde. Eu imaginava, com estranheza, a Hilde, que eu conhecera como Peter, a dormir nas camaratas femininas, a frequentar as casas de banho femininas. Precisei de algum tempo para perceber que o estranho era a Hilde ter passado tantos anos a frequentar camaratas e casas de banho masculinas.
Este fim-de-semana houve outra vez "colónia de artistas" num palácio perto da Polónia. Como de costume, no serão de sábado vimos juntos um filme, e desta vez escolheram "The Danish Girl". Dormi mal, porque a Lili do filme passou a noite a acordar-me para me lembrar a angústia de estar mal no próprio corpo e o sofrimento dos perseguidos pela sociedade.
No regresso para Berlim trouxemos uma amiga, e falámos sobre o filme. Em menos de nada o tema passou para um projecto de fazer casas de banho públicas com três categorias: homem/mulher/transexuais. Ela dizia que isso é caríssimo e que há outros problemas mais prioritários. Eu argumentava que há uma maneira bem mais fácil de resolver esse problema (que não atinge muitas pessoas, mas as faz sofrer muito): mudar as placas das casas de banho - em vez de homem/mulher, passa a ser com urinol/sem urinol. Ela retorquia que gosta de ter uma certa privacidade na casa de banho, e não haver nenhum homem por perto quando está a dar um retoque na maquilhagem. Disse que se sentia devassada.
Foi então que me lembrei da Hilde, que teve a sua vida devassada até aos trinta anos: permanentemente invadida, vigiada, criticada. Na casa de banho, em casa, na rua.
--
Na Berlinale de 2017 vi dois filmes ligados a este tema. Repescando os posts que escrevi na altura:
1.Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-knit), de Naoko Ogigami, é um filme sobre questões de transgénero para principiantes. No Japão só agora se começa a falar nestes temas, pelo que a transexual apresentada é uma pessoa perfeita, amorosa, maravilhosa, tudo de bom.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.
2.
Bones of contention, de Andrea Weiss. Um documentário sobre as atrocidades do regime franquista, em particular contra os homossexuais, e sobre o debate em curso na sociedade espanhola que opõe a necessidade de fazer o trabalho da História ao pavor de se confrontar com ela.
Partindo de Federico García Lorca - a pessoa, a sua poesia e o mistério do seu corpo desaparecido - o filme informa sobre terríveis crimes cometidos nesse período negro da História de Espanha, o modo como permaneceram muito para além da morte de Franco e o papel do silêncio no insidioso prolongamento das injustiças e das ofensas à dignidade humana.
Uma passagem particularmente curiosa é a conversa entre uma lésbica e um homossexual sobre o que é mais doloroso: a perseguição, a prisão, a tortura e os choques eléctricos para curar a homossexualidade (o que o regime fazia aos homens) ou a condição de inexistência absoluta (reservada às lésbicas - que pura e simplesmente não existiam).
Outra passagem muito interessante é quando falam de uma manifestação que organizaram. Os transexuais pediram para participar, mas a princípio os gays e as lésbicas não queriam. Depois acabaram por concordar, e os transexuais apareceram na linha da frente. Na hora em que a polícia carregou, foram os mais corajosos.
Cada um pense na razão para essa coragem. Eu vou por Brecht: "mas ninguém diz violentas / as margens que o oprimem".
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Na Berlinale de 2017 vi dois filmes ligados a este tema. Repescando os posts que escrevi na altura:
1.Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-knit), de Naoko Ogigami, é um filme sobre questões de transgénero para principiantes. No Japão só agora se começa a falar nestes temas, pelo que a transexual apresentada é uma pessoa perfeita, amorosa, maravilhosa, tudo de bom.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.
2.
Bones of contention, de Andrea Weiss. Um documentário sobre as atrocidades do regime franquista, em particular contra os homossexuais, e sobre o debate em curso na sociedade espanhola que opõe a necessidade de fazer o trabalho da História ao pavor de se confrontar com ela.
Partindo de Federico García Lorca - a pessoa, a sua poesia e o mistério do seu corpo desaparecido - o filme informa sobre terríveis crimes cometidos nesse período negro da História de Espanha, o modo como permaneceram muito para além da morte de Franco e o papel do silêncio no insidioso prolongamento das injustiças e das ofensas à dignidade humana.
Uma passagem particularmente curiosa é a conversa entre uma lésbica e um homossexual sobre o que é mais doloroso: a perseguição, a prisão, a tortura e os choques eléctricos para curar a homossexualidade (o que o regime fazia aos homens) ou a condição de inexistência absoluta (reservada às lésbicas - que pura e simplesmente não existiam).
Outra passagem muito interessante é quando falam de uma manifestação que organizaram. Os transexuais pediram para participar, mas a princípio os gays e as lésbicas não queriam. Depois acabaram por concordar, e os transexuais apareceram na linha da frente. Na hora em que a polícia carregou, foram os mais corajosos.
Cada um pense na razão para essa coragem. Eu vou por Brecht: "mas ninguém diz violentas / as margens que o oprimem".
04 agosto 2017
a surpresa dos dias
Uma pessoa tira os olhos do computador e põe-nos (assim por cima do
ombro, como quem não quer a coisa) na janela, agarra na máquina
fotográfica, foca acima dos telhados, e faz de conta que amanheceu em
África.
Melhor dizendo: como imagina África.
Melhor dizendo: como imagina África.
I 💓 Berlin
Este Verão não tem sido fácil em Berlim. Parece que alguém lá em cima resolveu fazer aqui alguns ensaios para o dilúvio.
Quando o céu lhes cai em cima da cabeça, que fazem os berlinenses?
Divertem-se.
Quando o céu lhes cai em cima da cabeça, que fazem os berlinenses?
Divertem-se.
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viver em Berlim
cu-cu
O diálogo dos instrumentos, o movimento da câmara, o sorriso da pianista.
Dúvida: será melhor ouvir apenas este momento encantador, ou a peça toda?
(o concerto completo está aqui, mas não é gratuito)
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filarmonia de Berlim
03 agosto 2017
aaai...
"Quando te der saudade de mim" - brincamos, Chico?
"Basta dar um suspiro", Chico?
* Aaaai *
"Que eu te alcanço em algum lugar".
Aaaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai, aaai.
Cá fico à espera. Até já.
cambada de inúteis
Tantos amigos no facebook, tanta amizade e tal, e nenhum é capaz de me avisar a tempo de que começou a chover e tenho de ir apanhar a roupa do estendal. Cambada de inúteis.
(Por sorte, olhei pela janela.)
(Por sorte, olhei pela janela.)
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viver na internet
com a sorte que tenho, talvez fosse boa ideia tentar o euromilhões
Há tempos atropelei um ciclista. Melhor dizendo: ele é que me atropelou a mim. Mas eu ia de carro e vi-o a dar um salto mortal à minha frente depois de me ter batido, pelo que não vou insistir nesse detalhe.
Começando pelo princípio: desci o Mehringdamm e antes de virar à direita na Bergmannstrasse parei na passadeira para deixar passar toda a gente. Depois de ter desaparecido a última bicicleta, o último carrinho de bebé, o último miúdo em bicicleta sem pedais, todos, olhei para trás e vi um ciclista que vinha muito longe. "Tenho tempo", pensei. Arranquei, e no momento seguinte o homem estava a gritar "hei!" e a fazer o tal salto mortal à frente dos meus olhos horrorizados.
Saí do carro, alarmada. "Matei um homem!", pensei. "Matei um homem!"
No momento seguinte ele levantou-se, e disse: "Desculpe, eu vinha demasiado depressa, não consegui travar!"
(Berlim tem uns quatro milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais honesto deles todos.)
O ciclista que vinha atrás deste era neurologista. Fez-lhe um exame rápido, pareceu-lhe tudo em ordem, mas achámos melhor chamar a ambulância e a polícia. Entretanto prendi o que restava da bicicleta dele a um poste, ele quis saber do estado do carro, eu disse que não sabia e não me interessava, e repeti pela milésima vez "estou tão feliz por você estar vivo!"
A ambulância levou-o, à noite liguei-lhe e ele ficou muito surpreendido por eu me interessar pela sua saúde. Disse que estava tudo bem. Uns dias mais tarde ligou-me a perguntar se podia comprar uma bicicleta usada para substituir a estragada. Uma bicicleta usada!
(A Alemanha tem oitenta milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais correcto deles todos.)
Passados uns dias recebi uma carta da polícia. Avisavam-me que tinham aberto um processo-crime contra mim, acusavam-me de negligência grosseira por não ter respeitado a prioridade de terceiro e ser culpada de um acidente com danos corporais.
Respondi-lhes: "Provoquei o acidente, não nego. Mas da maneira como o descrevem até parece que sou uma terrorista ao volante. Nada disso - sou apenas má em matemática: não contei com o declive do Mehringdamm, e que o ciclista podia ter desenvolvido uma velocidade superior àquela a que estou habituada no Ku'damm, onde habitualmente conduzo."
Recebi segunda carta, informando-me que o processo tinha sido arquivado. Nem sequer me pediram para pagar os 30 euros de multa por ter provocado um acidente, nem nada.
Começando pelo princípio: desci o Mehringdamm e antes de virar à direita na Bergmannstrasse parei na passadeira para deixar passar toda a gente. Depois de ter desaparecido a última bicicleta, o último carrinho de bebé, o último miúdo em bicicleta sem pedais, todos, olhei para trás e vi um ciclista que vinha muito longe. "Tenho tempo", pensei. Arranquei, e no momento seguinte o homem estava a gritar "hei!" e a fazer o tal salto mortal à frente dos meus olhos horrorizados.
Saí do carro, alarmada. "Matei um homem!", pensei. "Matei um homem!"
No momento seguinte ele levantou-se, e disse: "Desculpe, eu vinha demasiado depressa, não consegui travar!"
(Berlim tem uns quatro milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais honesto deles todos.)
O ciclista que vinha atrás deste era neurologista. Fez-lhe um exame rápido, pareceu-lhe tudo em ordem, mas achámos melhor chamar a ambulância e a polícia. Entretanto prendi o que restava da bicicleta dele a um poste, ele quis saber do estado do carro, eu disse que não sabia e não me interessava, e repeti pela milésima vez "estou tão feliz por você estar vivo!"
A ambulância levou-o, à noite liguei-lhe e ele ficou muito surpreendido por eu me interessar pela sua saúde. Disse que estava tudo bem. Uns dias mais tarde ligou-me a perguntar se podia comprar uma bicicleta usada para substituir a estragada. Uma bicicleta usada!
(A Alemanha tem oitenta milhões de habitantes, e eu arranjei de atropelar o mais correcto deles todos.)
Passados uns dias recebi uma carta da polícia. Avisavam-me que tinham aberto um processo-crime contra mim, acusavam-me de negligência grosseira por não ter respeitado a prioridade de terceiro e ser culpada de um acidente com danos corporais.
Respondi-lhes: "Provoquei o acidente, não nego. Mas da maneira como o descrevem até parece que sou uma terrorista ao volante. Nada disso - sou apenas má em matemática: não contei com o declive do Mehringdamm, e que o ciclista podia ter desenvolvido uma velocidade superior àquela a que estou habituada no Ku'damm, onde habitualmente conduzo."
Recebi segunda carta, informando-me que o processo tinha sido arquivado. Nem sequer me pediram para pagar os 30 euros de multa por ter provocado um acidente, nem nada.
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viver em Berlim
agoraphobic traveller
Jacqui Kenny sofre de agorafobia, mas percorre todo o mundo no street view do google, e publica as fotos dessas viagens no instagram.
(Sim, adivinharam: contraí mais um vício. E um projecto para dias que virão depois dos projectos que já tenho.) (Portanto: lá para 2050...)
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viver na internet
02 agosto 2017
"overshoot day"
Overshoot day, dia da sobrecarga da terra: aquilo que usarmos do planeta a partir de hoje, e até ao fim do ano, não vai ser regenerado. De ano para ano, este limiar chega cada vez mais cedo.
Como ouvi várias vezes hoje: "estamos a viver acima das possibilidades da Terra".
Sem pensar mais de cinco minutos, faço uma lista:
O que já mudei na minha vida, para fazer a parte que me compete:
- Reduzi drasticamente o consumo de carne - não chega a 10% da quantidade de carne que costumava comer.
- Uso muito mais transportes públicos..
- Uso electricidade produzida em barragens pequenas.
- Construí uma casa muito bem isolada, que pouco precisa de aquecimento no inverno.
- Se puder ir a pé, não vou de carro.
- Faço separação de lixo, para reciclar o mais possível.
- Não compro papel de alumínio.
- Evito comprar coisas baratas que se estragam facilmente (a avó do Joachim dizia "não temos dinheiro suficiente para comprar barato" - podemos mudar para: "não temos planeta suficiente para comprar barato").
- Só ligo as máquinas da roupa ou da louça quando estão realmente cheias.
O que quero mudar:
- Comprar menores quantidades de comida, para não haver nada a estragar-se e a ser deitado fora.
- Comprar num supermercado biológico e de produtos regionais que traz as coisas a casa. Eles usam o mínimo possível de embalagem. Além disso, como os produtos só são manuseados por eles, há muito menos desperdício. Uma vez que também vendem "cestas surpresa", conseguem reduzir os restos ao mínimo. O meu problema: tenho de me organizar para fazer uma encomenda semanal, e é preciso decidir previamente tudo o que vou cozinhar nessa semana, bem como as quantidades necessárias. Tenho andado a adiar, mas um dia destes vai.
O que me está a custar mesmo muito:
- Abdicar das viagens de avião.
E vocês, como é a vossa lista de cinco minutos para ajudar a levar o overshoot day para fins de dezembro, como era há trinta anos?
Como ouvi várias vezes hoje: "estamos a viver acima das possibilidades da Terra".
Sem pensar mais de cinco minutos, faço uma lista:
O que já mudei na minha vida, para fazer a parte que me compete:
- Reduzi drasticamente o consumo de carne - não chega a 10% da quantidade de carne que costumava comer.
- Uso muito mais transportes públicos..
- Uso electricidade produzida em barragens pequenas.
- Construí uma casa muito bem isolada, que pouco precisa de aquecimento no inverno.
- Se puder ir a pé, não vou de carro.
- Faço separação de lixo, para reciclar o mais possível.
- Não compro papel de alumínio.
- Evito comprar coisas baratas que se estragam facilmente (a avó do Joachim dizia "não temos dinheiro suficiente para comprar barato" - podemos mudar para: "não temos planeta suficiente para comprar barato").
- Só ligo as máquinas da roupa ou da louça quando estão realmente cheias.
O que quero mudar:
- Comprar menores quantidades de comida, para não haver nada a estragar-se e a ser deitado fora.
- Comprar num supermercado biológico e de produtos regionais que traz as coisas a casa. Eles usam o mínimo possível de embalagem. Além disso, como os produtos só são manuseados por eles, há muito menos desperdício. Uma vez que também vendem "cestas surpresa", conseguem reduzir os restos ao mínimo. O meu problema: tenho de me organizar para fazer uma encomenda semanal, e é preciso decidir previamente tudo o que vou cozinhar nessa semana, bem como as quantidades necessárias. Tenho andado a adiar, mas um dia destes vai.
O que me está a custar mesmo muito:
- Abdicar das viagens de avião.
E vocês, como é a vossa lista de cinco minutos para ajudar a levar o overshoot day para fins de dezembro, como era há trinta anos?
"nadar"
Lembram-se? A vida dos humanos começa a #nadar, e com uma vitória de medalha de ouro (bom, às vezes é ex-aequo).
O problema é quando se sai da água e se entra na terra, e se tem de negociar com os outros phelps todos (malditos alfas!).
[Querem lá ver que assim sem pensar nem nada acabei de me habilitar ao próximo Nobel da Antropologia?...]
resposta da avó
O Pedro Farinha escreveu alguns "recados para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em agosto". Pergunto-me o que é que ele tem contra aquilo que quer ridicularizar. Fiquei na dúvida entre deixar que a avó lhe respondesse, ou um neto dele. Responde a avó (uma avó nascida em 1900, avó de ranchadas de netos, e só não eram mais porque naquele tempo isso era "coisa que morria muito"). Mas também é um bom exercício pensar na resposta que esta carta poderia receber daqui a 25 anos.
• A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.
-- Ovos de aviário?! Que é isso?
Ela que me diga que fica enjoada, que vai ver: há-de comer o dobro, até lhe passarem os enjoos.
• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
-- Ainda bem que deixaste essa comida toda. Vou dar também às jornaleiras, que este mês o dinheiro está mais escasso que de costume, e está a ser difícil ter com que lhes fazer a merenda.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
-- Pastelaria?! Sumos de pacote?! Chocolates?! O que é isso?
E que tens tu contra a nossa Margarida, uma vaquinha tão asseada? Até lhe limpamos a corte quase todos os anos. Vais-me falar outra vez de salmonelas e brucelose? Ora! Hão-de ir beber o leite às tetas da vaca, que é assim que ele sabe melhor. E o que não mata, engorda!
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
-- Claro que só uso açúcar amarelo e só metade da dose. Tu pensas que o dinheiro cresce nas árvores?! E que te leva a pensar que faria um bolo em Agosto? A Páscoa foi em Abril. E o Natal é só em Dezembro.
Cenoura biológica?! O que é isso? Será que estás a falar dessas modernices de produtos que o eng. Sousa Veloso mostra na televisão do café? Não quero cá disso, eles hão-de comer a cenoura que o campo dá, bem estrumadinha com a bosta e o mijo da Margarida, se é boa para mim também é boa para eles.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
-- Ainda bem. Vou guardar para o Natal.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
-- Eles que vão ao pomar e apanhem a fruta do chão. Aqui não há criados.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
-- Como, "antes de apagar a luz"?! É que nem a acendem. A luz é muito cara. Vão para a cama com as galinhas, não tenho dinheiro para vícios.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
-- Dialogo, dialogo, mas é de pau na mão. Uma boa reguada é um grande remédio para fitas. E nada de abraços, que um homem quer-se é rijo. Ainda acaba de nervos frágeis, e a fazer porcarias com outros homens.
• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
-- Nem sei do que estás a falar, mas vejo que já esqueceste o que aprendeste em casa. Os pais é que sabem como é que se educa os filhos. Uma mãe tem sempre razão. E o pai lá está para o fazer sentir ao filho - se não for a bem, terá de ser a mal.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
-- Plástico?! O que é isso?
Brinquedos? Que os façam eles próprios, eu tenho é mais que fazer.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
-- Se forem à feira, é para ficarem a vender os feijões e os ovos que levo num cesto. Ou então calados e quietos ao meu lado, que é como a canalha se quer.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
-- Porque é que insistes tanto nessa mania dos brinquedos? Eles têm é um corpinho bom para trabalhar. Hão-me de ajudar no que for preciso: há muitas ervas daninhas para arrancar, muita erva para segar, é preciso tomar conta da vaca no pasto, é preciso lavar a roupa e ajudar-me a dobrar. Não te preocupes, falta de ocupação é que eles não vão ter.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
-- Era o que mais faltava! Não estamos no Carnaval. Talvez ali para as colheitas, nas rodas da eira, os deixe fazer essas palhaçadas. Mas sem exageros, que não queremos cá paneleiros na família.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
-- Então agora o sabão rosa já não te serve? Estás muito fino, a cidade estragou-te.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
-- Que tens tu agora contra os panos de linho feitos cá em casa?
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
-- Vão ouvir música, mas é a do terço. É a música que aqui se ouve à noite. São sons muito bons para o cérebro, a digestão e a alma. Na família do papa Pio XI rezava-se sempre o terço à noite, e foi assim que ele chegou tão longe.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
-- Só sobem às árvores se souberem estimá-las. Da última vez partiram-me um ror de ramos, perdeu-se muita fruta.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
-- Eu dou-lhes a pele a tocar na pele, mas é com bofetadas, se precisarem. É mesmo como tu dizes: a energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
-- Estás aqui, estás também tu a levar energia positiva na pele!
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.
-- Frigorífico?! Plástico?! Que é isso?
• A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.
-- Ovos de aviário?! Que é isso?
Ela que me diga que fica enjoada, que vai ver: há-de comer o dobro, até lhe passarem os enjoos.
• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
-- Ainda bem que deixaste essa comida toda. Vou dar também às jornaleiras, que este mês o dinheiro está mais escasso que de costume, e está a ser difícil ter com que lhes fazer a merenda.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
-- Pastelaria?! Sumos de pacote?! Chocolates?! O que é isso?
E que tens tu contra a nossa Margarida, uma vaquinha tão asseada? Até lhe limpamos a corte quase todos os anos. Vais-me falar outra vez de salmonelas e brucelose? Ora! Hão-de ir beber o leite às tetas da vaca, que é assim que ele sabe melhor. E o que não mata, engorda!
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
-- Claro que só uso açúcar amarelo e só metade da dose. Tu pensas que o dinheiro cresce nas árvores?! E que te leva a pensar que faria um bolo em Agosto? A Páscoa foi em Abril. E o Natal é só em Dezembro.
Cenoura biológica?! O que é isso? Será que estás a falar dessas modernices de produtos que o eng. Sousa Veloso mostra na televisão do café? Não quero cá disso, eles hão-de comer a cenoura que o campo dá, bem estrumadinha com a bosta e o mijo da Margarida, se é boa para mim também é boa para eles.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
-- Ainda bem. Vou guardar para o Natal.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
-- Eles que vão ao pomar e apanhem a fruta do chão. Aqui não há criados.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
-- Como, "antes de apagar a luz"?! É que nem a acendem. A luz é muito cara. Vão para a cama com as galinhas, não tenho dinheiro para vícios.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
-- Dialogo, dialogo, mas é de pau na mão. Uma boa reguada é um grande remédio para fitas. E nada de abraços, que um homem quer-se é rijo. Ainda acaba de nervos frágeis, e a fazer porcarias com outros homens.
• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
-- Nem sei do que estás a falar, mas vejo que já esqueceste o que aprendeste em casa. Os pais é que sabem como é que se educa os filhos. Uma mãe tem sempre razão. E o pai lá está para o fazer sentir ao filho - se não for a bem, terá de ser a mal.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
-- Plástico?! O que é isso?
Brinquedos? Que os façam eles próprios, eu tenho é mais que fazer.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
-- Se forem à feira, é para ficarem a vender os feijões e os ovos que levo num cesto. Ou então calados e quietos ao meu lado, que é como a canalha se quer.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
-- Porque é que insistes tanto nessa mania dos brinquedos? Eles têm é um corpinho bom para trabalhar. Hão-me de ajudar no que for preciso: há muitas ervas daninhas para arrancar, muita erva para segar, é preciso tomar conta da vaca no pasto, é preciso lavar a roupa e ajudar-me a dobrar. Não te preocupes, falta de ocupação é que eles não vão ter.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
-- Era o que mais faltava! Não estamos no Carnaval. Talvez ali para as colheitas, nas rodas da eira, os deixe fazer essas palhaçadas. Mas sem exageros, que não queremos cá paneleiros na família.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
-- Então agora o sabão rosa já não te serve? Estás muito fino, a cidade estragou-te.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
-- Que tens tu agora contra os panos de linho feitos cá em casa?
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
-- Vão ouvir música, mas é a do terço. É a música que aqui se ouve à noite. São sons muito bons para o cérebro, a digestão e a alma. Na família do papa Pio XI rezava-se sempre o terço à noite, e foi assim que ele chegou tão longe.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
-- Só sobem às árvores se souberem estimá-las. Da última vez partiram-me um ror de ramos, perdeu-se muita fruta.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
-- Eu dou-lhes a pele a tocar na pele, mas é com bofetadas, se precisarem. É mesmo como tu dizes: a energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
-- Estás aqui, estás também tu a levar energia positiva na pele!
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.
-- Frigorífico?! Plástico?! Que é isso?
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