31 julho 2017

ataque em discoteca na Alemanha

Os factos: na noite de sábado, um curdo iraquiano que veio viver para a Alemanha em criança, há 26 anos, teve uma discussão feia com empregados da discoteca do seu cunhado, meteu-se no carro e voltou pouco depois com uma M16 de fabrico americano capaz de disparar até 800 vezes por minuto. Matou o porteiro da discoteca, e feriu gravemente três outras pessoas. A seguir, a polícia matou-o. Não se sabe aonde foi buscar aquela arma de guerra - suspeita-se que tenha sido na darknet.

A notícia que li esta manhã no site do Diário de Notícias foi escrita numa fase inicial da investigação da polícia, pelo que mencionava apenas o que se sabia nessa altura. Isto: um homem entrou numa discoteca armado, e começou a disparar sobre as pessoas. Matou uma pessoa e feriu gravemente três outras. A polícia não conhecia ainda todas as circunstâncias do crime, mas afastou a hipótese de ser um atentado fundamentalista. O homem tinha 34 anos e era de origem iraquiana.

É certo que no momento em que a notícia foi publicada a polícia já tinha afastado a hipótese de ser um atentado fundamentalista. Mas um iraquiano aos tiros na Alemanha é uma óptima notícia para vender jornais (aliás, outros sites informativos - ou "informativos", como o Correio da Manhã - tiveram também o cuidado de lembrar na mesma notícia que em Hamburgo houve um ataque terrorista com uma faca). Os comentários dos leitores não se fizeram esperar. Alguns exemplos, no Diário de Notícias:


David Mendonça Salvador leu a notícia que relatava os factos conhecidos até ao momento, e achou que lhe estavam a esconder alguma coisa, porque uma notícia que não confirma as nossas certezas só pode ser manipulação e mentira:  "A censura a que estamos sujeitos, a higienização dos factos que, irremediavelmente, nos sonega a verdade das coisas torna-nos iguais a qualquer regime faccínora. Na verdade, no que toca ao direito à verdade, a única coisa que nos separa dos fanáticos islamitas é o lado em que estamos nos actos..."

Os dois leitores seguintes optaram pela ironia amarga para se queixarem da ditadura do politicamente correcto:



Daniel Carr:"Ah! Se era de origem iraquiana, não era terrorista de certeza.

A única vantagem que vejo na actuação das Autoridades Alemãs em relação às nossas, é que o assassino morre; já não cometerá mais crimes, reinserção total."
Rui Aires: "Claro que não era terrorismo. Os iranianos lá são pessoas para terrorismo. Mas que xenófobos racistas. Trata-se certamente de um jovem apenas a precisar de integração multicultural. Ele que procure pela Dona Merkel. Ela ajuda-o." (Enganou-se um bocado na identificação do culpado alemão. Em 1991, quando este iraquiano veio para a Alemanha, o chanceler era Helmut Kohl.)

Por sua vez, Manuel Mariante aflige-se com as questões da natalidade na Europa: "Os invasores, perdão, os migrantes islâmicos não vem para se adaptar ao nosso modo de vida, mas sim para nos subjugar a longo prazo. Vejam a desmesurada natalidade deles!"
Talvez Manuel Mariante ficasse mais descansado se soubesse que as "invasoras islâmicas", mal conquistam um bom nível de escolaridade e desafogo financeiro, passam a ter tão poucos filhos como as alemãs. A solução é relativamente simples: integração. Infelizmente, o leitor Rui Aires não concorda. Provavelmente tem uma solução mais fácil: desconfiar de tudo e de todos, expulsar todos os estrangeiros, fechar a Europa por trás de um muro mais intransponível que o de Berlim. 

Por sorte o leitor Augusto Ribeiro sabe explicar uma componente importante do problema: "Andam a criar cobras e depois queixam-se se estas mordem..."
Estará com certeza a falar dos comentadores anteriores que, com a coragem inabalável dos que desafiam o politicamente correcto, espalham um discurso de ódio que envenena a coexistência.

Vejamos: árabe ou muçulmano não é sinónimo de terrorista. Nem sequer de terrorista potencial. Do mesmo modo que "homem português" não é sinónimo de violência doméstica e perigo de vida para a sua companheira. Se sabemos ver a diferença quando se trata dos nossos, porque simplificamos tanto quando se trata de outros?


O fosso não é entre nós e os árabes ou muçulmanos, ou entre nacionais e estrangeiros, ou entre europeus e não europeus. O fosso é entre a gente de bem e a gente de mal. A esmagadora maioria dos árabes/muçulmanos que vivem na Alemanha são gente de bem. 

É isso que os comentadores desta notícia têm muita dificuldade em entender.


Talvez compreendessem melhor se vissem esta cena que se passou a seguir ao ataque com faca em Hamburgo. Vários homens impedem o atacante, ainda armado, de fugir:




Os homens vivem na Alemanha e são, respectivamente: afegão, tunisino, egípcio e turco.
 

Gente de bem.



30 julho 2017

atrás de mim virá...

O TAZ remata um artigo sobre "The Mooch" dizendo que Scaramucci  conseguiu, no espaço de uma semana, transformar a imagem de um tresloucado Sean Spicer num tipo civilizado e razoável. Não é qualquer um que consegue tal façanha.

Se não se estivesse a passar na realidade, e na casa do presidente do país mais poderoso do mundo, podíamos dizer que era a série cómica para acabar com todas as séries cómicas: magnífica de tão inacreditável,
irrealista, impossível



“Who leaked that to you?” he asked. I said I couldn’t give him that information. He responded by threatening to fire the entire White House communications staff. “What I’m going to do is, I will eliminate everyone in the comms team and we’ll start over,” he said. I laughed, not sure if he really believed that such a threat would convince a journalist to reveal a source. He continued to press me and complain about the staff he’s inherited in his new job. “I ask these guys not to leak anything and they can’t help themselves,” he said. “You’re an American citizen, this is a major catastrophe for the American country. So I’m asking you as an American patriot to give me a sense of who leaked it.”
(...)
“Is it an assistant to the President?” he asked. I again told him I couldn’t say. “O.K., I’m going to fire every one of them, and then you haven’t protected anybody, so the entire place will be fired over the next two weeks.”

I asked him why it was so important for the dinner to be kept a secret. Surely, I said, it would become public at some point. “I’ve asked people not to leak things for a period of time and give me a honeymoon period,” he said. “They won’t do it.” He was getting more and more worked up, and he eventually convinced himself that Priebus was my source.
“They’ll all be fired by me,” he said. “I fired one guy the other day. I have three to four people I’ll fire tomorrow. I’ll get to the person who leaked that to you. Reince Priebus—if you want to leak something—he’ll be asked to resign very shortly.” The issue, he said, was that he believed Priebus had been worried about the dinner because he hadn’t been invited. “Reince is a fucking paranoid schizophrenic, a paranoiac,” Scaramucci said.
(...)
Scaramucci said he had to get going. “Yeah, let me go, though, because I’ve gotta start tweeting some shit to make this guy crazy.”

Minutes later, he tweeted, “In light of the leak of my financial info which is a felony. I will be contacting @FBI and the @TheJusticeDept #swamp @Reince45.” With the addition of Priebus’s Twitter handle, he was making public what he had just told me: that he believed Priebus was leaking information about him. The tweet quickly went viral.
Scaramucci seemed to have second thoughts. Within two hours he deleted the original tweet and posted a new one denying that he was targeting the chief of staff. “Wrong!” he said, adding a screenshot of an Axios article that said, “Scaramucci appears to want Priebus investigated by FBI.” Scaramucci continued, “Tweet was public notice to leakers that all Sr Adm officials are helping to end illegal leaks. @Reince45.”
A few hours later, I appeared on CNN to discuss the overnight drama. As I was talking about Scaramucci, he called into the show himself and referenced our conversation. He changed his story about Priebus. Instead of saying that he was trying to expose Priebus as a leaker, he said that the reason he mentioned Priebus in his deleted tweet was because he wanted to work together with Priebus to discover the leakers.
“He’s the chief of staff, he’s responsible for understanding and uncovering and helping me do that inside the White House, which is why I put that tweet out last night,” Scaramucci said, after noting that he had talked to me Wednesday night. He then made an argument that journalists were assuming that he was accusing Priebus because they know Priebus leaks to the press.
“When I put out a tweet, and I put Reince’s name in the tweet,” he said, “they’re all making the assumption that it’s him because journalists know who the leakers are. So, if Reince wants to explain that he’s not a leaker, let him do that.”
Scaramucci then made a plea to viewers. “Let me tell you something about myself,” he said. “I am a straight shooter.” 

28 julho 2017

"Welcome in warm and sunny Berlin"

"Welcome in warm and sunny Berlin", disse o piloto do avião em tom de gozo. Estava a chover. E fresquinho.

Soube-me bem, depois do calor que tive em Lisboa, farta de andar aos ziguezagues na rua em busca de alguma sombra.

Hoje o dia acordou de sol e calor.
Triste vida: para onde quer que vá, o bom tempo vai comigo...







21 julho 2017

Mário Laginha e Pedro Burmester em Ponte de Lima - não parece, mas é sobre insularidades

O que tenho em comum com o Pedro Burmester:
- a ambos nos acontece de chamar "cidade" a Ponte de Lima
- ambos levamos com um coro de protestos, "não é cidade, é vila, ó!"
(mas os protestos que eu recebo são mais incisivos)

O que o Laginha e o Burmester têm em comum com o Simon Rattle: os concertos acabam-se-lhes demasiado depressa. Aconteceu na quarta-feira, em Ponte de Lima. O Aaron Copland: dois ou três minutos, no máximo. O João Paulo Esteves da Silva: meio minuto. Um choro feliz, do Mário Laginha: um minuto.
E assim, peça após peça. Nem sei porque me dei ao trabalho de ir de Viana a Ponte de Lima, para um concerto que praticamente acabou quando ainda mal tinha começado.

Embora tenha chovido a manhã toda e parte da tarde, o palco estava descoberto. Isso é que é fé! Fé, ou então um acordo limiano com o São Pedro. Em todo o caso, não choveu. Mas o Mário Laginha queixou-se da humidade. Foi depois de ter tocado o "Lisboa, debaixo de chuva" (isto não é uma queixa - gosto imenso das composições do João Paulo).

Também quero voltar à Sonata Breve do Laginha, que tem ali muito para saborear.

Nos dedos do Pedro Burmester, o J.S. Bach da Fantasia Cromática parecia um rapaz do nosso tempo. Tenho de averiguar o caso: não sei se o Burmester transforma Bach, ou se transforma os meus ouvidos.

A última peça do programa era La Valse, de Ravel. Tocaram muito bem, mas fiquei preocupada. É que há tempos vi a Yuja Wang a dar conta desse recado sozinha. Ora, aonde é que vamos parar, se uma jovem chinesa consegue despachar sem ajuda de ninguém uma peça que em Portugal tem de ser executada por dois homens feitos?...
(espero que tenham reparado nas reticências)

Por falar em homem feito: a última vez que ouvi o Pedro Burmester tocar ao vivo foi no Palácio da Bolsa, há uns bons trinta anos, era ele um jovem promissor. Entretanto, a sua excelência como pianista levou-o tão longe que os habitantes de Ponte de Lima nem o transformam em sarrabulho por dizer "cidade", nem nada.

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Tanto que acontece enquanto vivo do outro lado da Europa!
Olho para o meu país em modo intermitente, como num álbum de fotografias: o Burmester no Palácio da Bolsa nos anos oitenta, o Burmester em Ponte de Lima em 2017; o Sérgio Godinho num concerto em Viana, eu a pensar que talvez seja a última vez que o vejo. Valha-me o Laginha e todos os outros portugueses que ora vejo aqui ora vejo em Berlim: desfazem a distância e transformam a percepção. A intermitência dá lugar a uma continuidade no espaço comum europeu.


12 julho 2017

diário intermitente das férias (3)

VII.
No sábado foi a vernissage em Ponte de Lima, e de lá fomos directos à festa do café da nossa aldeia. Sardinhas, um porco inteiro assado, caldo verde. Miúdas a dançar num palco (caramba, no meu tempo as miúdas daquela idade quase nem existiam no espaço público, quanto mais dançar assim desempoeiradas e cheias de graça num palco!), muitas conversas alegres, espectáculo de bombos e concertinas. Muito gostava eu de saber como é que o chefe das concertinas consegue tocar tão bem e dançar tanto ao mesmo tempo.
Por volta da meia-noite avisaram-nos: amanhã de manhã vamos à vossa casa!
É dia de ir pedir dinheiro para a festa da freguesia, formaram-se dois grupos para ir de vizinho em vizinho.
Domingo, bem cedinho, em menos de um segundo passei do sonho para dentro do vestido. Vinham a subir a nossa rua, boom-boom-booom, boom, bombombom. Por sorte andam devagar, não nos apanharam de calças de pijama na mão.
Depois seguiram para a casa do lado, e nós fomos atrás. Apanharam uma laranja, ainda em bolinha verde, da laranjeira do pátio, e andaram a jogar vólei com os bombos. A laranjinha saltava de um para o outro, booom... booom... ....laklak... boooom... ....booom... laklak, conforme caía no bombo ou no tambor.
Pelo meio muitos palavrões alegres.
Estamos no Minho. Vida boa.



11 julho 2017

diário intermitente das férias (2)

IV.
E agora largo o cantinho internet debaixo da ramada e vou fazer uma fogueira com tábuas velhas de uma pipa de vinho, para depois grelhar uns bifes que trouxe ontem do Soajo.
Foi a vizinha que me deu. Uma braçada delas, "estão impregnadas de vinho, é o melhor que há para grelhar carne", disse ela.
Depois descobri que tenho uma árvore carregadinha de ameixas amarelas e não sabia, isto até parece que sou dona de um latifúndio, mas não: sou apenas distraída.
Em todo o caso, agarrem-me, que estou com vontade de ter inveja de mim própria.


V.
Joachim não me deixou queimar as tábuas. Guardou-as para uma pintura. Agora sei o que a mulher do Picasso sofria: ela a pegar numa travessa para pôr o almocinho em cima, e ele, zás, tirava-lha da mão e pintava-a.

VI.
Um amigo que soube desta história das tábuas no facebook ofereceu-me logo uns cascos de carvalho de metro e meio para o Joachim pintar.
Coitadinho do Picasso, coitadinhos de nós: que espantosas obras perdemos todos, só porque no tempo dele não havia facebook?


10 julho 2017

diário intermitente das férias (1)

I.
Outros têm o OK Google, eu tenho os amigos do facebook a quem ponho sempre questões que começam por "A ver se o facebook serve para alguma coisa".
A mais recente:

A ver se o facebook me serve para alguma coisa (hehehe, até parece que tenho dúvidas):
há alguma maneira de eu saber qual era a peça que estavam a passar na antena 2 ontem, 7 de julho, às 11:35 da manhã? É que gostei imenso, e tentei identificar mas parecia-me uma rapsódia de inúmeras peças e autores.
Não ouvi até ao final, para ver se diziam o nome da peça no fim, porque tinha a praia à minha espera e já parecia mal fazê-la esperar tanto.
(estava neblina, o sol do meio-dia ontem ficou de vir e não veio, não se preocupem)


II.
O problema é que estou a usar internet da idade da pedra lascada. 

III.
Convidaram-me ali ao lado - no facebook - para gostar da antena 2. Gosto, pois!
É a minha companhia favorita nos "rally Portugal" habituais das férias que faço neste país.

(Quer dizer: "férias". Depois regresso a Berlim para descansar das férias que tive.) 
(Isto não é uma queixa. Longe disso.)
Gosto da música, gosto das histórias que contam tantas vezes à volta da música, gosto do António Costa Santos a esfregar sal na ferida da minha insularidade (eu em Viana, ele a contar das coisas imperdíveis em Lisboa, eu em Lisboa ele a contar das coisas imperdíveis em Ponte de Lima) e gosto dos Dias da História do Paulo Sousa Pinto. Até já pedi ao Paulo uma ajudinha para melhorar ainda mais o nível da Enciclopédia Ilustrada, mas ele, tá queto, desde que é colaborador da antena 2 já não se dá com a arraia miúda.


09 julho 2017

"nu"

Aimeudeus, que o armazém de minis do Cristovam ainda rebenta com o carregamento que vou ter de lhe mandar por causa de escrever um post com tanto atraso (1), mas o que tem de ser tem muita força, tanto o escrever com atraso como o pagamento das minis, e por isso ala que se faz tarde rumo ao meu destino.
É que estou de férias, longíssimo da internet. É certo que ao fundo do quintal tenho a internet que a vizinha me empresta, mas como tem estado de chuva a internet fica-me muito para além da minha zona de conforto. Hoje está um dia mais agradável, posso aviar de uma vez as palavras todas dos últimos oito dias. Podia, se tivesse meios para pagar todas as minis, e o Cristovam armazém para as guardar. Ainda põe o Doutor (2) a dormir ao relento - sabe-se lá se o tempo muda e dá origem a uma nova frase idiomática, que seria o contrário de "tirar o cavalinho da chuva". Tipo, sei lá, "chover na careca do Doutor". De cada vez que um enciclopedista não cumpre as regras, chove na careca do Doutor. Ou então, só para usar a palavra mágica: anda um burro nu na rua.
(Não acredito que já escrevi isto tudo e ainda não disse ao que venho!)
Passa-se que no dia em que na enciclopédia a palavra mágica era "nu", eu estava a fazer férias com a modelo do grupo de pintores berlinense do meu marido. Durante os próximos dias a nossa casa minhota vai ser uma pequena colónia de artistas, e a modelo veio uns dias antes. Perguntem-me sobre nus, sei tudo: já vi esta mulher trabalhar, e é excelente. Muito diferente da mim, naquela manhã de sábado em que o Joachim perguntou "posso pintar-te?" e eu estendi-me nua na cama a ler um livro e disse "pinta praí". Outros têm musas, o Joachim tem uma megera. Mas faço isto para bem dele, diz que o sofrimento molda o carácter. Um dia ainda me há-de agradecer, e dizer "devo-te tudo o que sou".
(Quantas piscadelas de olho terei de pôr para perceberem que estou a brincar?)
Uma amiga, que é da área da Literatura e em tudo descobre o simbolismo e o filme, perguntou-me que tal estavam a ser os dias da esposa e da modelo. Não sei. Não me ocorreu pensar nessas categorias, embora agora, depois do que ela disse, me pareça que tinha aqui material para um belo filme. Ou livro.
As "férias da esposa e da modelo" têm sido assim: ontem andei desesperada atrás da empresa Hermes que não entregava os quadros que enviámos de Berlim para a exposição em Ponte de Lima. A vernissage é já amanhã, chama-se "Nudes from Berlin", e comecei a temer que íamos mostrar as paredes nuas: "Nudes from Ponte de Lima". Depois de as caixas aparecerem respirámos fundo e fomos à feira de Barcelos (Carlos, estavam lá as tuas cruzes!) e depois fomos apanhar uma chuvada valente na minha praia favorita, a de Forte de Paçô, comprámos congro no pescador do porto de Viana e fizemos um belo arroz.
Esta manhã a modelo - que é bailarina - levantou-se e começou a fazer exercícios de sentir o corpo. Balançava a sua figura esguia até o corpo inteiro vibrar com a graça da gelatina, convidou-me para a acompanhar. Que eram apenas vinte minutos. Ora, eu já estava a sentir o corpo há que horas, uma fome desgraçada, e já estava sentada em frente ao pãozinho branco, à compota de alperce deliciosa que a vizinha me deu, ao paio de Felgueiras. Bom apetite!, disse-lhe eu, e comecei a comer.
Fomos à praia. Estava cinzenta, e fizemos uma caminhada. Vamos até Lisboa?, propus. Vamos, pois!, respondeu. Mas decidimos não ir, porque não nos apetecia atravessar os rios a nado.
Depois tomámos um longo banho. Eu virava os pés para as vagas para ver as pequenas cataratas que nasciam entre os meus dedos, e ela dançava as suas voltas de dervixe no sítio onde as ondas se arrebentavam em espuma.
Ela diz que eu liberto o seu lado mais infantil. Sinto sempre uma enorme estranheza quando me dizem o que recebem de mim, quando não faço mais que dar água sem caneco.
E depois falámos de coisas muito sérias. Ela já trabalha como modelo há 15 anos, e está farta. Aceitou fazer este trabalho por ser com este grupo, mas sente-se cada vez mais vazia e cansada, suspeita cada vez mais de quem a pinta. É que, quando começou, decidiu trabalhar da forma mais exigente: mostrar a alma ainda mais que o corpo. E sente que as pessoas não dão o devido valor ao que ela lhes oferece.
Digo-lhe a frase que ouvi a um dos pintores: é preciso saber olhar com pudor para o corpo nu. Penso na riqueza desse exercício partilhado de nudez: a modelo que revela a alma, o pintor que revela o carácter.
E agora, mudando completamente de assunto: nos lagos alemães onde se pratica o nudismo aprendi que um corpo nu pode ser a coisa menos erótica do mundo. Talvez seja porque as pessoas deixam a alma em casa, e trazem apenas o corpo para a sonolência do sol.

(1) Na Enciclopédia Ilustrada as multas são pagas em minis.
(2) Provavelmente adivinharam (como eu): "Doutor" é o nome de um garboso burro - estou em crer que é o burro mais apreciado de todos os enciclopedistas.


o triângulo das Bermudas ataca de novo

Perdi-me por aqui:





02 julho 2017

acho que estou mesmo a precisar de férias...

Aqui a inteligência rara marcou o voo para um dia e o aluguer do carro para o dia seguinte à meia-noite.

(Eu faço estas coisas para testar a amizade das pessoas.)
(Sim, as primeiras vítimas a quem pedi ajuda passaram o teste com distinção )

muçulmanos e filhos de imigrantes no Parlamento alemão

O meu post sobre todos os deputados muçulmanos do Parlamento alemão terem votado a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo suscitou algumas perguntas, nomeadamente sobre o número de deputados muçulmanos. O problema é que não se sabe ao certo quantos deputados são muçulmanos, porque nem todos os deputados indicaram a sua filiação religiosa. Li notícias sobre haver oito deputados declaradamente muçulmanos: uma deputada nos democrata-cristãos (hihi), uma no SPD, quatro nos Verdes. Não sei a que partido pertencem os outros dois.Aqui deixo mais alguns números que encontrei neste artigo:

- Nas últimas eleições, o número de deputados com um ou os dois progenitores imigrantes subiu de 21 para 35, o que equivale a 5,6 % do número total de deputados.
Esta percentagem é muito inferior à percentagem desse grupo na sociedade alemã: 19%.

- Há 11 deputados de origem turca (1,75 % do total de deputados; enquanto 3,7 % da população da Alemanha tem origem turca).

- Deputados de origem turca por partidos:
-- CDU: 1
-- SPD: 5
-- Verdes: 4
-- Linke: 1
[quase a propósito, lembro que estes deputados tomaram uma posição fulcral de crítica na questão do genocídio arménio, o que levou Erdogan a pôr em causa se o seu sangue seria realmente turco, frase a que o presidente do Parlamento alemão respondeu com a clareza necessária sobre o respeito que se exige para com a instituição e os servidores da Democracia alemã]

- Pela primeira vez, foram eleitos dois deputados afro-alemães.

- Número e percentagem de deputados provenientes de famílias de imigrantes em cada partido:
-- Verdes: 7 em 63, 11,1 %
-- Linke: 7 em 64, 10,9 %
-- SPD: 12 em 192, 6,3 %
-- CDU: 8 em 255, 3,1 %
-- CSU: 1 em 65, 1,8 %


01 julho 2017

afogaram-me o lago!


Depois do dilúvio de quinta-feira fui até ao lago, e dei com ele afogado. A água subiu uns bons 70 centímetros. Queria poder mostrar mais fotografias, mas o Fox resolveu que estava farto de apanhar chuva e foi-se embora para casa. Tive de ir atrás dele, não fosse o maluco do bicho lembrar-se de ameaçar um pastor alemão qualquer que se cruzasse no seu caminho. Rafeiros portugueses, é assim.

Hoje vou tentar passar lá de novo. Se o lago tiver voltado ao normal, tenham paciência, e esperem pelo próximo dilúvio.

(Espero que tenham de ser muito pacientes, porque isto não se devia repetir com frequência: disse-se que nesta região choveu em 36 horas o que é costume chover num ano inteiro.)














se alguém me inventasse isto, isso é que era!

Um dia destes saí bem cedinho com o Fox. Era para ser um passeio curto, mas ele trotou até ao lago e eu fui atrás. Começou a chover com desespero, e dei comigo a olhar para as ilhas de nenúfares tranquilamente pousadas na água agitada de bátegas - e sem câmara para filmar. Voltei a casa, vesti roupa seca, e saí de novo para a chuva a toda a velocidade, para ir à minha vida.

À minha frente, numa ponte que se erguia em curva e desaparecia na névoa densa e cinzenta, um homem avançava debaixo de um guarda-chuva. Enquanto andava, adejava a mão livre ao som de uma música dentro de si. Parecia "The Man I Love" da Pina Bausch, mas com uma mão só. Só que eu estava com pressa e não quis parar para revolver o fundo da mochila até encontrar a câmara. Vou passar o resto da vida com pena de não ter filmado aquela cena.

Ainda não eram nove da manhã, e já tinha perdido duas oportunidades de gravar a beleza do momento. Era preciso inventar uns óculos com câmara incorporada, eu punha-os e ia por aí, pensava "isto!" e os óculos "click!", pensava "aquilo!" e os óculos "zoom e click!", pensava "esta cena!" e os óculos "bzzzzzzzzzz". Na realidade, já existem óculos com câmara incorporada, mas ainda era preciso inventar-lhes uma telepatia para os meus olhos.

(Suspeito que hoje acordei Professor Pardal.)