30 junho 2016
separação amigável
As notícias dos últimos dias sobre a reacção da União Europeia ao Brexit e os comentários nas redes sociais enchem-me de vergonha e desânimo. Bem sei que é fundamental impedir que os nacionalismos e populismos ganhem ainda mais força, e a situação se torne de todo incontrolável, mas questiono o método usado pelos responsáveis políticos e sinto embaraço e susto pelo nível de indigência política e ética no modo como se fala do tema.
Primeiro: a Alemanha convida os seis fundadores da comunidade europeia para uma reunião de urgência no dia seguinte a saber-se o resultado. Não sei se a reunião estava assim combinada há muito ou se foi uma reacção do momento, mas reuniões a seis, num contexto de crise dos 28, têm um peso simbólico extremamente negativo. Entendo a ideia de, para os fundadores da comunidade, fazer todo o sentido conversarem uns com os outros sobre o modo como a ideia inicial descarrilou. Mas, a partir do momento em que integram novos países no grupo, perdem a possibilidade de continuar a falar entre si, fazendo dos que chegaram mais tarde membros de segunda classe. É certo que, de momento, as erupções nacionalistas mais prementes são na França e nos Países Baixos, que estiveram nessa reunião a seis, mas o descontentamento global gerado pelas circunstâncias deste encontro pode ser muito bem capitalizado por todos os interesses nacionalistas, em todos os países - inclusivamente nesses dois.
Se a ideia era não dar mais força aos extremismos de fundo nacionalista e anti-europeu, correu-lhes mal.
Segundo: o ressabiamento e a maldade que andam por aí à solta, e que são alimentados pelas declarações dos políticos habilmente propagadas pelos meios de comunicação social. O Donald Tusk anuncia as próximas cimeiras europeias já sem o RU; a imprensa alemã empola, do discurso da Angela Merkel no seu parlamento, a frase que mais alimenta o ressentimento e satisfaz a sede de vingança - "a UE não vai deixar o RU fazer cherry-picking nas negociações da saída". Angela Merkel tem razão quando insiste que o acesso ao mercado comum implica respeito por determinadas regras comuns, nomeadamente a liberdade de circulação de pessoas - que foi um dos elementos centrais que levou à vitória do Brexit -, mas o modo como o seu discurso é tratado nos meios de comunicação reforça reacções de "eles vão finalmente deixar de se rir de nós" ou "agora é sem dó nem piedade!"
A verdade é que até as piadinhas me causam uma sensação de incómodo. Todos - do mais alto nível da política europeia ao cidadão comum - fazem piadinhas com fundo de Schadenfreude sobre os ingleses. E a eliminação da equipa de futebol inglesa permitiu deitar ainda mais achas na fogueira. Bem sei do humor como uma válvula de escape que alivia a pressão, bem sei da liberdade de expressão, bem sei da importância do riso para esconjurar os medos ou perplexidades, mas não entendo: as notícias que me chegam são as de um país desconcertado, profundamente dividido e em risco de se desagregar, uma sociedade em estado de choque, as pessoas atordoadas e assustadas perante o que lhes está a acontecer - e nós aqui a fazer piadinhas atrás de piadinhas sobre eles. Como estamos em termos de solidariedade dos povos? Ao mesmo tempo que protestamos por a Europa não ser solidária e atenta aos povos, mostramos abertamente a nossa falta de empatia e até o desprezo pelas pessoas de um país?
Talvez esteja a exagerar, talvez esteja condicionada pelo meu profundo sentimento de perda e pela raiva que sinto perante o sucesso das mentiras e da xenofobia que instrumentalizaram este referendo, talvez seja um problema meu de falta de sentido de humor (apesar de ter sorrido com algumas das piadas). Mas arrisco na mesma a pergunta: devemos acrescentar ao rol de defeitos da UE (a macrocefalia antidemocrática de Bruxelas, a combinação dos egoísmos nacionais, a supremacia alemã, os países divididos em actores principais e figurantes, etc.) a falta de solidariedade e empatia entre os povos? Que podem os políticos fazer para uma Europa mais coesa se as populações continuam a alimentar desconfianças e ressentimentos umas contra as outras? Quer dizer: será que a culpa do fracasso deste projecto não é só dos políticos, mas também de cada um de nós?
Voltando ao momento concreto: se o que está em causa é evitar o alastramento das tensões populistas para abandonar a UE, o que eu faria (agarrem-me, que...) se fosse porta-voz da União Europeia seria afirmar a tristeza por este projecto deixar de contar com um povo tão importante na História e na actualidade da Europa, agradecer sinceramente o seu contributo para o que somos hoje, e manifestar a intenção de preparar esta saída de forma o mais suave possível para evitar ao máximo convulsões sociais e económicas.
Para além do respeito e do cuidado pelo povo do Reino Unido, o que me move é a necessidade de, neste momento crítico, mostrarmos grandeza em vez de mesquinhez, e de fazer com que a motivação de cada país para permanecer na UE seja a vontade de fazer parte de um projecto considerado muito positivo e com possibilidade de ser corrigido e melhorado, em vez do medo de um terrível castigo quando se decide abandonar.
29 junho 2016
perplexidade
Tive esta manhã dois simpáticos jardineiros de Dessau (Sachsen-Anhalt) a plantar árvores no meu jardim.
De caminho carregaram para o camião dois enormes montes de lixo de outras andanças no terreno que não têm nada a ver com o contrato com a firma deles, deixaram imensos sacos de terra que bem jeito me fazem, podaram-me quatro árvores de fruto e deram-me dicas importantes para algumas plantas que tenho por aí. Tiraram as botas antes de entrar em casa para ir ao quarto de banho. Não quiseram nem o café nem a água ou os sumos que várias vezes lhes ofereci. "Nós estamos aqui para trabalhar!", disseram, com uma gargalhada franca.
No fim também fizeram questão de não aceitar os 10 euros que queria dar a cada um. E bem sei que um jardineiro não ganha um salário propriamente alto.
Estou que não percebo o mundo.
De caminho carregaram para o camião dois enormes montes de lixo de outras andanças no terreno que não têm nada a ver com o contrato com a firma deles, deixaram imensos sacos de terra que bem jeito me fazem, podaram-me quatro árvores de fruto e deram-me dicas importantes para algumas plantas que tenho por aí. Tiraram as botas antes de entrar em casa para ir ao quarto de banho. Não quiseram nem o café nem a água ou os sumos que várias vezes lhes ofereci. "Nós estamos aqui para trabalhar!", disseram, com uma gargalhada franca.
No fim também fizeram questão de não aceitar os 10 euros que queria dar a cada um. E bem sei que um jardineiro não ganha um salário propriamente alto.
Estou que não percebo o mundo.
24 junho 2016
Brexit
Brexit.
A primeira sensação é de perda. O meu mundo mudou radicalmente, e vai mudar ainda mais.
Espero que saibamos todos aproveitar este momento de ruptura para aprender com os erros, e melhorar o que resta da UE. ("O que resta da UE" é uma formulação demasiado dramática, mas é como sinto hoje.)
Espero que os eurocratas tenham a grandeza suficiente de não complicar demasiado a vida à Grã-Bretanha só para estatuir um exemplo severo que impeça outros Estados de ponderar uma saída.
Espero que consigamos sair todos mais sábios desta crise.
(Entretanto, vou aproveitar a queda da libra para açambarcar Cadbury - como dizia o Manelinho: "os pequenos ganhos das grandes perdas")
A primeira sensação é de perda. O meu mundo mudou radicalmente, e vai mudar ainda mais.
Espero que saibamos todos aproveitar este momento de ruptura para aprender com os erros, e melhorar o que resta da UE. ("O que resta da UE" é uma formulação demasiado dramática, mas é como sinto hoje.)
Espero que os eurocratas tenham a grandeza suficiente de não complicar demasiado a vida à Grã-Bretanha só para estatuir um exemplo severo que impeça outros Estados de ponderar uma saída.
Espero que consigamos sair todos mais sábios desta crise.
(Entretanto, vou aproveitar a queda da libra para açambarcar Cadbury - como dizia o Manelinho: "os pequenos ganhos das grandes perdas")
23 junho 2016
freudenfreude
A explosão de alegria do comentador islandês perante o golo que leva a equipa do seu país aos oitavos de final é contagiante.
Já se inventava a palavra "Freudenfreude": antónimo de "Schadenfreude".
(Às tantas, já alguém a inventou.) (Triste vida.) (A ver se da próxima vez arranjo de não nascer tão tarde no meu tempo.)
Já se inventava a palavra "Freudenfreude": antónimo de "Schadenfreude".
(Às tantas, já alguém a inventou.) (Triste vida.) (A ver se da próxima vez arranjo de não nascer tão tarde no meu tempo.)
17 junho 2016
fracasso
De uma newsletter do Spiegel:
O fracasso tornou-se parte da realidade alemã contemporânea. Não se pode dizer que a queda de uma ponte de auto-estrada em Untenfranken representa uma nova revelação sobre nós. Já o sabemos há muito. A nossa perfeição perdeu-se. Seja a eternamente adiada abertura do novo aeroporto de Berlim, as trafulhices da Volkswagen, o piloto da Germanwings que tinha problemas mentais e conseguiu iludir todos os controles - nos últimos anos, muita coisa correu mal, e os alemães têm de corrigir a imagem que têm de si próprios. O que acontece nos outros países, também acontece no nosso.
O fracasso tornou-se parte da realidade alemã contemporânea. Não se pode dizer que a queda de uma ponte de auto-estrada em Untenfranken representa uma nova revelação sobre nós. Já o sabemos há muito. A nossa perfeição perdeu-se. Seja a eternamente adiada abertura do novo aeroporto de Berlim, as trafulhices da Volkswagen, o piloto da Germanwings que tinha problemas mentais e conseguiu iludir todos os controles - nos últimos anos, muita coisa correu mal, e os alemães têm de corrigir a imagem que têm de si próprios. O que acontece nos outros países, também acontece no nosso.
15 junho 2016
"emigrante"
Devo à internet o fim da minha condição de emigrante-lá-longe. Durmo em Berlim, passo uma bela parte dos dias em Portugal, em português.
A princípio, há mais de um quarto de século, era o telefone. Por uns minutos voltava à minha terra, estava inteiramente do lado de lá. A voz - uma simples gargalhada - me bastava para o "beam me up".
Chamam-nos agora "expatriates". Tenho a sensação que é para ter um nome mais bonito, porque emigrante é muito bidonville. Mas a essência é a mesma, e a internet é a mesma para todos: essa larguíssima ponte que em segundos nos leva de regresso ao nosso país, à nossa cultura, aos nossos temas e à nossa língua.
A princípio, há mais de um quarto de século, era o telefone. Por uns minutos voltava à minha terra, estava inteiramente do lado de lá. A voz - uma simples gargalhada - me bastava para o "beam me up".
Chamam-nos agora "expatriates". Tenho a sensação que é para ter um nome mais bonito, porque emigrante é muito bidonville. Mas a essência é a mesma, e a internet é a mesma para todos: essa larguíssima ponte que em segundos nos leva de regresso ao nosso país, à nossa cultura, aos nossos temas e à nossa língua.
Bidonville: que estranhos valores europeus nos fazem pensar que os emigrantes são aqueles que vêm para ocupar o lugar mais baixo da pirâmide social? E que são cidadãos de segunda? Quantas vezes não ouvi eu que tenho de estar grata por me terem recebido aqui, e que não devia criticar nada, porque isso é morder a mão que dá de comer! Quantas vezes não ouvi que os imigrantes são tolerados mas têm de saber merecer essas regalias (as migalhas que pingam da mesa dos ricos, a regalia de fazer o trabalho que mais ninguém quer)!
Eu própria caio no mesmo erro: ainda hoje, ao ler que há lobbies turcos na Alemanha que confundem integração com assimilação e a recusam, e que estão a pressionar os deputados alemães com raízes turcas para se porem do lado da Turquia de Erdogan contra os mais elementares princípios da sociedade alemã, ainda hoje, dizia, me apeteceu mandar essa cambada toda para a terra deles. Por sorte percebi logo o erro em que estava a cair (se vivesse em França, ainda corria o risco de votar Le Pen, para proteger a França dessa gente...).
Eu própria caio no mesmo erro: ainda hoje, ao ler que há lobbies turcos na Alemanha que confundem integração com assimilação e a recusam, e que estão a pressionar os deputados alemães com raízes turcas para se porem do lado da Turquia de Erdogan contra os mais elementares princípios da sociedade alemã, ainda hoje, dizia, me apeteceu mandar essa cambada toda para a terra deles. Por sorte percebi logo o erro em que estava a cair (se vivesse em França, ainda corria o risco de votar Le Pen, para proteger a França dessa gente...).
Ser emigrante é fazer um caminho sem regresso para longe de todos os lugares. Nunca chegaremos à terra para onde fomos, e nunca voltaremos a ser um dos nossos. Eu sou "a alemoa".
Estou a embarcar para Portugal. Para o Porto. Hoje à noite vou dormir na minha casa, onde não há internet. Curiosamente, em Portugal fico mais longe deste meu quotidiano português que acontece no facebook e no blogue.
Daqui a uma semana regresso, e já sei como vai ser a tristeza do último passeio pela casa, pelas árvores do jardim. Pousar um último olhar nas flores e nas pedras, tentar reter.
Bem feita! Que me fique de lição, para ver se da próxima vez me lembro de não nascer assim portuguesa, com este tique de sofrer antecipadamente saudades para ir adiantando o trabalhinho.
Bem feita! Que me fique de lição, para ver se da próxima vez me lembro de não nascer assim portuguesa, com este tique de sofrer antecipadamente saudades para ir adiantando o trabalhinho.
14 junho 2016
"dance harder, fight harder, be more fearless than ever "
Pam Ann, no facebook:
My heart is so heavy, my eyes filled with tears ... We've all lost so many of our brothers and sisters today who just wanted to dance. I will make sure I dance harder, fight harder, be more fearless than ever and I will wave the rainbow flag stronger, higher and prouder than I ever have in my life. My thoughts and love go out to all the families and friends of all those murdered and fighting for their lives in Orlando. LOVE Pam Ann ❤️
(Lembram-se daquele velho mal-entendido sobre "orgulho gay"? Esse orgulho é isto - a coragem de assumir a sua identidade, mal-grado a hostilidade do mundo.)
10 junho 2016
mas que violência!
Esta manhã tive de apagar spam que alguém deixou num evento que criei (se querem saber tudo: a sardinhada dos Portugueses em Berlim vai ser no domingo, dia 12, a partir da uma da tarde, no parque Monbijou). Apaguei o post, e então o facebook perguntou-me: "Tens a certeza que queres eliminar esta publicação e eliminar Sylvia Andrade*?"
Oh, pá! Eu não quero eliminar a Sylvia Andrade!
Que violência.
(Estou a brincar, mas tem o seu quê de sério: a violência no abuso do espaço alheio, a violência na linguagem das mensagens de sistema. A pergunta "queres eliminar" combina muito mal com o nome completo de uma pessoa. Se me deixassem mandar, mudava para "queres bloquear o acesso a esta personagem?")
* Apelido modificado.
Oh, pá! Eu não quero eliminar a Sylvia Andrade!
Que violência.
(Estou a brincar, mas tem o seu quê de sério: a violência no abuso do espaço alheio, a violência na linguagem das mensagens de sistema. A pergunta "queres eliminar" combina muito mal com o nome completo de uma pessoa. Se me deixassem mandar, mudava para "queres bloquear o acesso a esta personagem?")
* Apelido modificado.
Etiquetas:
viver na internet
08 junho 2016
mais um post onde se fala de refugiados (isto sou eu a escrever a palavrinha mágica para aumentar o número de leitores)
O dicionário informa que o equivalente português de "Vorfreude" é "antecipação".
Antecipação?! Isso não me serve para descrever a feliz expectativa enquanto avançava para este Junho, o mês berlinense do Philippe Jaroussky. Meio ano de Vorfreude a olhar para os tantos bilhetes que comprei para toda a família, imaginando a beleza que nos seria dada.
O problema é que, como bem diz o ditado, "o homem põe, e Deus dispõe":
Primeiro, foram os meus filhos que disseram que não podiam ir a esses concertos (algo me diz que são um caso de lost in translation: ainda tenho de lhes ensinar o significado de Vorfreude). Decidimos oferecer os bilhetes a alguns dos seus amigos sírios, e escusado será dizer que estes souberam traduzir muito bem Vorfreude para a sua língua materna. Em especial um deles, que tem andado a receber hate mail ("vai para a tua terra! ninguém te quer aqui!), além de uma carta oficial que o está a preocupar imenso, informando que, segundo o tratado de Dublin, tem de voltar ao país pelo qual entrou na Europa. Agora que conseguiu chegar tão longe, e até já trabalha em Berlim como informático, teme ser enviado para um campo de refugiados na Turquia.
Segundo, foram os concertos que tiveram de ser todos cancelados por motivos de saúde do Philippe Jaroussky.
O problema da Vorfreude é quando se desfaz em dolorosos sacões, como um balão bojudo com a saída de ar aberta, largado à solta.
O homem põe, Deus dispõe, mas eu remato "hahaha, não me doeu nada, hahaha, até estou a rir, hahaha, vês?" É que àqueles sírios já ninguém rouba a alegria de lhes terem sido oferecidos bilhetes para concertos do Jaroussky. Ao menos isso.
Antecipação?! Isso não me serve para descrever a feliz expectativa enquanto avançava para este Junho, o mês berlinense do Philippe Jaroussky. Meio ano de Vorfreude a olhar para os tantos bilhetes que comprei para toda a família, imaginando a beleza que nos seria dada.
O problema é que, como bem diz o ditado, "o homem põe, e Deus dispõe":
Primeiro, foram os meus filhos que disseram que não podiam ir a esses concertos (algo me diz que são um caso de lost in translation: ainda tenho de lhes ensinar o significado de Vorfreude). Decidimos oferecer os bilhetes a alguns dos seus amigos sírios, e escusado será dizer que estes souberam traduzir muito bem Vorfreude para a sua língua materna. Em especial um deles, que tem andado a receber hate mail ("vai para a tua terra! ninguém te quer aqui!), além de uma carta oficial que o está a preocupar imenso, informando que, segundo o tratado de Dublin, tem de voltar ao país pelo qual entrou na Europa. Agora que conseguiu chegar tão longe, e até já trabalha em Berlim como informático, teme ser enviado para um campo de refugiados na Turquia.
Segundo, foram os concertos que tiveram de ser todos cancelados por motivos de saúde do Philippe Jaroussky.
O problema da Vorfreude é quando se desfaz em dolorosos sacões, como um balão bojudo com a saída de ar aberta, largado à solta.
O homem põe, Deus dispõe, mas eu remato "hahaha, não me doeu nada, hahaha, até estou a rir, hahaha, vês?" É que àqueles sírios já ninguém rouba a alegria de lhes terem sido oferecidos bilhetes para concertos do Jaroussky. Ao menos isso.
07 junho 2016
70x7, as pombas e as serpentes, o facebook
Quando, há cerca de cinco anos, comecei a estar mais activa no facebook, decidi manter a cronologia aberta a todos, e aceitar todos os pedidos de amizade - excepto os que eram spam óbvio.
Entretanto, dei-me conta de que não tenho jeito nenhum para o cristianismo. Estando escrito "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas." (Mt. 10:16), aqui a artista não consegue levar a sério a parte dos lobos (e fica inteiramente desconcertada sempre que se depara com um), e não tem muito jeito para a prudência da serpente.
Andar no facebook partindo do princípio de que do lado de lá é tudo gente boa até prova em contrário pode parecer um cheque em branco, mas tem o seu preço: quando me aparece uma prova em contrário, raramente dou segunda oportunidade. Não há cá "perdoar 70 x 7 vezes" - excepto quando se trata de amigos da vida real.
Bem sei que seria mais avisado partir do princípio de que o facebook está cheio de lobos. Mas não consigo olhar para um desconhecido através dos óculos de "o que tu queres sei eu". Antes de as conhecer, não sei o que as pessoas querem (e mesmo depois de as conhecer melhor...). Elas que vão revelando ao que vêm, e em função disso decido se me apetece continuar a cruzar-me com elas no facebook, ou se desapareço do seu raio de observação e acção.
A este propósito, lembro uma frase que vinha numa carta que a polícia californiana nos mandou, por causa de uma infracção de trânsito: "está prestes a perder o privilégio de conduzir". O facebook seria um lugar muito mais respirável se as pessoas tivessem consciência que os murais alheios e a atenção do seu proprietário não são um direito inalienável seu, mas um privilégio que têm de saber merecer.
(Depois, no dia do Juízo Final, hei-de ter uma conversinha sobre essa história dos lobos e do 70x7. Talvez me safe, como naquela oral de Contabilidade de Custos, quando respondi "ora ainda bem que me fala nisso, porque tenho dúvidas sobre este ponto e sobre aquele", e o temido catedrático, atónito, "como é que vem para a oral sem saber isso?", mas explicou-me, e deixou-me passar.)
(Por falar nisso, e agora vou mudar completamente de assunto, o Juízo Final bem podia ser uma explicação da nossa vida à luz de um amor infinito por cada um de nós e pelo mundo.) (E o inferno seria, nesse caso, atravessar a eternidade com a consciência de termos vivido na terra muito aquém da plenitude a que podíamos aspirar.) (Espero que nos seja então descontada a ansiedade que já vamos experimentando à medida que os anos passam e nos damos conta da finitude do corpo e da incompletude do ser.) (Descontada com juros, por favorzinho, que isto não é fácil.) (Se calhar tratava de terminar o que já devia estar pronto há 3 dias, em vez de estar aqui a alinhavar pensamentos em público.)
Entretanto, dei-me conta de que não tenho jeito nenhum para o cristianismo. Estando escrito "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas." (Mt. 10:16), aqui a artista não consegue levar a sério a parte dos lobos (e fica inteiramente desconcertada sempre que se depara com um), e não tem muito jeito para a prudência da serpente.
Andar no facebook partindo do princípio de que do lado de lá é tudo gente boa até prova em contrário pode parecer um cheque em branco, mas tem o seu preço: quando me aparece uma prova em contrário, raramente dou segunda oportunidade. Não há cá "perdoar 70 x 7 vezes" - excepto quando se trata de amigos da vida real.
Bem sei que seria mais avisado partir do princípio de que o facebook está cheio de lobos. Mas não consigo olhar para um desconhecido através dos óculos de "o que tu queres sei eu". Antes de as conhecer, não sei o que as pessoas querem (e mesmo depois de as conhecer melhor...). Elas que vão revelando ao que vêm, e em função disso decido se me apetece continuar a cruzar-me com elas no facebook, ou se desapareço do seu raio de observação e acção.
A este propósito, lembro uma frase que vinha numa carta que a polícia californiana nos mandou, por causa de uma infracção de trânsito: "está prestes a perder o privilégio de conduzir". O facebook seria um lugar muito mais respirável se as pessoas tivessem consciência que os murais alheios e a atenção do seu proprietário não são um direito inalienável seu, mas um privilégio que têm de saber merecer.
(Depois, no dia do Juízo Final, hei-de ter uma conversinha sobre essa história dos lobos e do 70x7. Talvez me safe, como naquela oral de Contabilidade de Custos, quando respondi "ora ainda bem que me fala nisso, porque tenho dúvidas sobre este ponto e sobre aquele", e o temido catedrático, atónito, "como é que vem para a oral sem saber isso?", mas explicou-me, e deixou-me passar.)
(Por falar nisso, e agora vou mudar completamente de assunto, o Juízo Final bem podia ser uma explicação da nossa vida à luz de um amor infinito por cada um de nós e pelo mundo.) (E o inferno seria, nesse caso, atravessar a eternidade com a consciência de termos vivido na terra muito aquém da plenitude a que podíamos aspirar.) (Espero que nos seja então descontada a ansiedade que já vamos experimentando à medida que os anos passam e nos damos conta da finitude do corpo e da incompletude do ser.) (Descontada com juros, por favorzinho, que isto não é fácil.) (Se calhar tratava de terminar o que já devia estar pronto há 3 dias, em vez de estar aqui a alinhavar pensamentos em público.)
Etiquetas:
viver na internet
o Jovem "Conversador" de Direita está cada vez melhor
Já aqui disse que estava capaz de apostar que sei quem é o autor do Jovem Conservador de Direita. Apostava, mas não digo o nome, porque assim não me envergonho se não for, e além disso deixo a pairar a ideia de que "sei coooiiiisas..."
(Mas que maneira tão fácil de parecer poderosa!)
Também disse que, em termos de genialidade na construção de um heterónimo, já se podia equiparar esse autor ao Fernando Pessoa. Não é qualquer um que consegue defender de forma tão coerente e razoável o contrário daquilo em que acredita.
Escrevi mais ou menos isto há seis meses, e por um triz escapei de repetir tudo sem me dar conta. Valeu-me uma busca no google que desembocou no meu próprio blogue. O JCD é o meu detector pessoal de velocidade de galope do Alzheimer. Menos mal: mais divertido e mais barato que um teste de ressonância magnética.
Voltando ao título do post, que é o que aqui me trouxe, aqui vos deixo o exemplo mais recente:
5 razões que provam que o Dr. Harry Potter é de direita
Nos últimos dias percebi que o Dr. Harry Potter tem fãs de esquerda bastante extremistas. Só a simples menção do facto evidente de que os alunos de Hogwarts estariam ao lado dos colégios privados na polémica dos contratos de associação, levou a que fosse mais odiado por alguns deles do que o Dr. Cujo nome não deve ser pronunciado. Isto fez-me querer saber mais sobre os livros do Dr. Harry Potter. Terei eu analisado mal este fenómeno da cultura popular e interpretado incorrectamente esta série de livros como literatura juvenil de direita? Claro que não. Depois de ter ouvido o meu estagiário a falar sobre estes livros durante 5 minutos cheguei à conclusão definitiva de que o Dr. Harry Potter é um herói de direita, sem margem para dúvidas. As razões são as seguintes:
1. Hogwarts é um colégio saudavelmente elitista
Hogwarts é um colégio de direita. Para começar, os alunos eram obrigados a usar uniforme. Não havia t-shirts do Che Guevara, nem meninas em trajes menores. Além disso, só os melhores entravam em Hogwarts. Sendo que "melhores" no contexto de Hogwarts quer dizer "portadores dos melhores genes". Um Muggle bem pode estudar uma vida inteira para ser feiticeiro que, chegando à idade, não só não vai receber a desejada carta de Hogwarts como, se ousar ser pró-activo, ainda ganha um traumatismo craniano ao tentar atravessar o portal para a plataforma 9 e 3 quartos. Se a esquerda mandasse no Ministério da Magia, iriam tratar de arranjar quotas em Hogwarts para Muggles por questões de integração e diversidade. Isto ia levar a uma quebra dos níveis da qualidade de Hogwarts e, em pouco tempo, estariam a abrir disciplinas completamente inúteis para um feiticeiro (e para qualquer pessoa) como Sociologia, Filosofia ou Artes Dramáticas.
2. Hogwarts forma feiticeiros tendo em conta necessidades de mercado, sem quaisquer inclinações ideológicas
Hogwarts é um colégio completamente virado para o mercado de trabalho na área da feitiçaria. As disciplinas leccionadas não permitem qualquer interpretação ideológica. São áreas técnicas como Herbologia, Poções, Feitiços ou Defesa contra as Artes Negras (as artes marciais dos feiticeiros). A única disciplina remotamente de esquerda é Adivinhação, a disciplina da tresloucada hippie Prof. Trelawney e que é referida nos livros como uma perda de tempo, por ser inútil e que só é escolhida pelo Dr. Harry Potter para encher chouriços porque é fácil. Curiosamente é também a única disciplina onde se apela à criatividade, na interpretação de borras de café, por exemplo. Isto mostra claramente que a criatividade é um aspecto secundário e opcional da aprendizagem. Um feiticeiro não tem de ser criativo, tem ser bom. Hogwarts prepara os seus alunos para serem bons técnicos de feitiçaria, não os prepara para serem intelectuais de feitiçaria daqueles que falam muito mas, quando pegam na varinha, são incapazes de evocar um simples Expelliarmus. Não há cá análises críticas sobre o que são artes negras (artes negras são más, ponto, não há cá cinzentos nem análises de contexto), nem questionamento sobre o papel do feiticeiro na luta contra o neoliberalismo. Os alunos estão em Hogwarts para fazer, não para "pensar".
3. A saga do Dr. Harry Potter retrata o triunfo da direita conservadora contra a extrema direita grunha
A luta entre a direita conservadora e a extrema direita grunha é um combate que, pessoalmente, me diz muito, dado os meus confrontos recentes com militantes do PNR. Esta luta é o grande fio condutor dos livros do Dr. Harry Potter. Vejamos, o Mundo da feitiçaria é conservador de direita. A ordem estabelecida é tipicamente conservadora. Há famílias poderosas de feiticeiros que zelam pelo bem comum, que coexiste com um sistema meritocrático que permite a ascensão de descendentes de Muggles especiais que o mereçam. Mas não há grandes misturas. Vivem em harmonia na sua desigualdade. Os feiticeiros protegem os Muggles mas, para além disso, não querem nada com eles. Tudo funciona bem e de forma pacífica. A única ameaça são os grunhos de extrema direita, os autodenominados Devoradores da Morte, que querem purificar o sangue dos feiticeiros e não olham para os Muggles como pessoas, mas sim como animais que só atrapalham os feiticeiros. O Dr. Harry Potter e companhia unem-se para proteger a ordem estabelecida conservadora da ameaça progressista e revolucionária do Dr. Voldemort.
4. Os homossexuais sabem como viver sem pecado
Segundo a Dra. JK Rowling, o Dr. Dumbledore era homossexual. Fiquei muito contente quando soube desta revelação porque o Dr. Dumbledore é um exemplo para todos os homossexuais, visto que prova que é possível manter uma vida virtuosa, ao mesmo tempo que se tem instintos pecaminosos. Se a saga do Dr. Harry Potter fosse de esquerda o Dr. Dumbledore não era director. Abraçaria a sua homossexualidade e partiria para a América do Sul à procura de orgias com esbeltos feiticeiros latinos peritos em feitiços dirigidos ao aumento de certas partes do corpo. Mas, em vez disso, sabendo que possuía uma orientação sexual pecaminosa, manteve-se no sítio onde, como grande feiticeiro que era, poderia ser útil. Não querendo formar uma família tradicional, como era seu direito, tomou a segunda melhor opção: dedicou a sua vida à academia e ao bem comum. É um excelente exemplo de que, só porque uma pessoa é homossexual, não precisa de ter comportamentos pecaminosos.
5. A esquerda aparece apenas como um exemplo das fantasias próprias de adolescentes idealistas e ingénuos A única causa remotamente de esquerda defendida nos livros é a defesa da libertação dos elfos domésticos levada a cabo pela Dra. Hermione. Chega a ser cativante, assistir a esta ingenuidade própria da adolescência da Dra. Hermione a favor dos "pobres e oprimidos". No final, libertam alguns elfos domésticos mas, a maior parte deles, os que são bem tratados pelos seus donos, prefere manter-se na escravidão porque só assim são felizes. Ao fim ao cabo, os elfos domésticos são electrodomésticos feitos de carne. Como qualquer electrodoméstico nasceram para ser escravizados mas revoltam-se se forem maltratados. Experimentem tratar a vossa máquina de lavar roupa ao pontapé. Um dia ela vai revoltar-se e vai deixar de funcionar. Foi o que aconteceu com o Dobby. Era maltratado pelos Malfoys e revoltou-se. Se o tivessem tratado bem, ele ter-se-ia mantido feliz como escravo.
Se, perante esta argumentação, continuarem a achar que o Dr. Harry Potter é de esquerda e um defensor da escola pública é porque a vossa cegueira ideológica vos impede de ver a realidade.
05 junho 2016
Komitas
A minha manhã abriu-se com esta canção medieval arménia que encontrei no mural de um amigo no facebook.
A canção lembra-me o que o compositor Tigran Mansurian dizia, numa entrevista para o ARtMENIANS, sobre o Komitas a compor num jardim com 2000 anos - o exercício de composição como um passeio passeio quotidiano por um espaço musical com dois milénios. E lembra-me também o que o Jordi Savall comentou a propósito da música arménia: testemunha da sensibilidade e da poesia de um povo sem terra, que vive em constante sobressalto.
Os pensamentos são como as cerejas... Por falar no Komitas, perguntei-me se o Komitas String Quartett terá um CD com as suas "miniaturas" de Komitas.
Se existir, tenho a certeza que é um álbum formidável (onde se compra? comprava logo 10 - um para mim, e os outros para oferecer aos amigos mais queridos).
Se não existir, já começava a ser tempo de alguém tratar disso.
(Se me deixassem mandar...)
04 junho 2016
Nathalie Stutzmann!
Este é o mês do Jaroussky em Berlim: vários concertos e duas master classes. Comprei os bilhetes há meio ano, e preparava-me em quase alvoroço para ir ao primeiro desses concertos quando recebi uma mensagem informando que Philippe Jaroussky estava doente e que a maestrina Nathalie Stuzmann, que é também contralto, iria dirigir a peça e ao mesmo tempo cantar a parte dele.
Que decepção! Bem sei que os humanos às vezes adoecem, mas o Jaroussky não nos pode desfazer assim seis meses de alegria antecipada.
Pelo que pensei duas vezes se me valia a pena ir ao concerto - e decidi ir, apesar das expectativas goradas e do tanto trabalho que tinha em casa. Outros terão pensado o mesmo, e não foram. Havia muitas cadeiras vazias na sala, e faltaram-me os casais gay que costumam aparecer em grande número nos concertos deste cantor.
O Stabat Mater foi extraordinário. A Nathalie Stutzmann começou como é normal: de costas para o público (e eu a pensar: "vamos lá ver o que sai daqui"). Ao chegar o seu momento de cantar, pegou na estante e virou-se para o público, dirigindo a orquestra de costas com precisão e graça. E quando abriu a sua voz magnífica de teca e cardamomo, esqueci completamente o Jaroussky.
Aqui um exemplo, com Vivaldi:
A sua voz combinava-se harmoniosamente com a da soprano Anna Prohaska, que também esteve muito bem, mas nem o tom claro e fresco desta, nem as perfeitas modulações, nem o penteado, nem o lindíssimo vestido sem costas conseguiram por um momento desviar a nossa atenção do prodígio que estava a acontecer naquela sala. O público aplaudiu longamente e de pé. A caminho da saída, a desconhecida ao meu lado comentou, com um enorme sorriso: "que sorte tivemos!"
Inesquecível.
02 junho 2016
cenas da minha vida real
O nosso Bolinhas está a chegar ao fim, Temos andado a tentar mantê-lo vivo até usarmos o último saco do pacote, mas entretanto já fui comprar um aspirador novo. Por causa dos nossos muitos degraus e do cão, tinha de ser superleve e superpotente (a minha vida real é uma suíte de quadraturas do círculo). Na loja, em dúvida sobre cinco modelos diferentes, pedi ajuda. A funcionária da secção passou-me para a mão o sexto modelo, um Miele que estava com preço especial. A ver se me lembro de não ir nunca às compras sem passar antes por uma hora de psicoterapia, para poder resistir às etiquetas escritas a vermelho com um sinal de percentagem muito grande. Em menos de nada dei comigo a caminho da caixa com um Miele debaixo do braço. Por sorte o caminho para a caixa era longo, deu-me tempo de cair em mim. Voltei para trás, olhei com mais atenção para as características do aparelho. Rendimento em tapete, numa escala de A a F: D. Rendimento em chão duro: C. E também não era nenhum peso leve. Ou seja: a única coisa que eu ia comprar era um Miele e um % escrito a vermelho!
Perguntei à funcionária se aquele D não era sinal de mau rendimento, e ela respondeu-me que havia pior. Ah, bom.
Larguei a caixa, recomecei a busca. Encontrei um que tinha "A" a tudo, era dos mais leves que lá estavam, e mais barato que o % Miele. Como não encontrava nenhuma caixa do modelo, fui ter com a vendedora, que estava a atender uma senhora cheia de perguntas sobre um robot. Pousei o modelo da exposição na plataforma de demonstração dos robots, e fiquei pacientemente à espera.
Passou outra cliente, que viu o meu aspirador pousado em cima da mesa, parou, e começou a passar-lhe a mão pela carapaça. Avisei-a que o queria comprar, e ela sorriu: "fique descansada, não venho comprar aspiradores. É que tenho um igual em casa, e gosto imenso dele."
Finalmente consegui falar com um funcionário, que me disse que aquele era o último aparelho disponível, e por isso mo vendia por metade do preço. Até vi estrelas em forma de % .
A senhora atrás de mim na fila da caixa perguntou-me se o aspirador era bom. Repeti a informação da outra cliente, e acrescentei que devia ser mesmo especial, porque a outra até lhe tinha feito festinhas e tudo. Paguei, validei o talão do estacionamento, a senhora atrás de mim desejou-me "boa sorte e muito prazer com o seu aspirador", eu repeti "hehehe, vou ter muito prazer com este aspirador" e desatámos ambas a rir.
Ainda estava a rir quando desci o estacionamento pelo poço em serpentina. Ao chegar à cancela passou-me o riso: tinha-me esquecido de pagar o estacionamento! Tentei subir a serpentina em marcha atrás, mas havia cada vez mais carros atrás de mim. Impossível.
Um homem que vinha a passar na rua veio ter comigo, disse-me que infelizmente se tinha esquecido do seu cartão de utilizador diário no escritório e por isso não o podia usar para me deixar sair. Sugeriu-me que tocasse a campainha, e dissesse que me esquecera desse cartão. Toquei a campainha, e disse a verdade: esqueci-me de pagar, e já há 5 carros atrás de mim, se me pode deixar sair, eu estaciono o carro na rua e vou pagar. Do lado de lá, um riso bem-disposto: deixe estar, vou abrir a cancela, pode-se ir embora, não precisa de pagar nada.
Às vezes suspeito que a minha vida real decorre numa realidade paralela.
01 junho 2016
o forreta do São Pedro comprou um aparelho auditivo com 50% de desconto!
Por causa da relva cada vez mais seca, e do acerto da conta da água de 2015 que ainda me está a tinir na conta bancária, tenho andado a pedir ao São Pedro que faça chover de noite.
Parece que o forreta do santo comprou um aparelho auditivo com 50% de desconto: só ouviu a primeira metade da frase.
Copiosamente, em pleno dia. Estava capaz de organizar um crowdfunding para comprar um aparelho auditivo que lhe permita ouvir as rezas até ao fim.
Parece que o forreta do santo comprou um aparelho auditivo com 50% de desconto: só ouviu a primeira metade da frase.
Copiosamente, em pleno dia. Estava capaz de organizar um crowdfunding para comprar um aparelho auditivo que lhe permita ouvir as rezas até ao fim.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



