28 fevereiro 2014

caso haja por aí alguém que ainda tem 10 euritos na conta, e não tenha nada para fazer hoje ao fim da tarde...



Às oito da noite (sete em Portugal) o Digital Concert Hall apresenta em directo um dos acontecimentos mais importantes da Filarmónica de Berlim este ano: a Johannes-Passion de Bach, com encenação de Peter Sellars.
O coro faz um trabalho de expressão teatral impressionante, e a Magdalena Kožená, vestida de vermelho e muito grávida, a fazer de Maria Madalena junto a um Cristo moribundo, quase dá vontade de reescrever os Evangelhos.

(Durante o ensaio geral lembrei-me mais uma vez dos legionários do Astérix a choramingar depois de levarem uma tareia: "alistem-se no exército, diziam eles, e vão ter uma vidinha descansada..." - o pobre do Cristo passa mais de metade do tempo de joelhos ou de bruços, e o coro canta deitado, ou a fazer flexões...)

Como extra, aqui vai um bocadinho da Matthäus-Passion também encenada por Peter Sellars, e uma entrevista com ele sobre esse trabalho.






pontualidade é cinco minutos antes da hora


A ver se escrevo isto cem vezes, a ver se aprendo. 
Este prato estava no nosso apartamento das férias (vai uma pessoa para férias, e toma o pequeno-almoço em frente a um prato que fala de pontualidade!) e ainda está. 
Mas pensei muitas vezes em trazê-lo para o pendurar junto ao monitor do meu computador.
(E por falar nisso: ai que já me estou a atrasar outra vez!)


os holandeses dos suíços

Quando fui morar para a Alemanha, há 25 anos, falaram-me dos holandeses que enchiam o depósito dos seus carros com o combustível mais barato da Holanda, e atravessavam a Alemanha em direcção ao Sul sem deixar neste país um único tostão. As auto-estradas alemãs são gratuitas, e o combustível é mais caro porque parte do seu preço se destina a pagar as despesas da rede viária.

Lembrei-me muito disso nas férias passadas: levávamos da Alemanha não apenas o equipamento de esqui, mas até a comida. O Joachim e os amigos ainda iam a um restaurante na pista (o tal onde trabalhavam duas angolanas) beber um chocolate quente, mas nunca fomos a restaurantes. O pãozinho fresco de manhã, no último dia dois bolitos para quatro, e muita sorte.

Somos os holandeses dos suíços.

Nesta onda de frugalidade, saí logo no primeiro dia para um passeio com as minhas botas de ponta-e-mola, e nem máquina fotográfica levei. Foi pena, porque a paisagem estava um sonho, e só tinha o telemóvel jurássico comigo.



A famosa pista de esqui de fundo, que infelizmente tinha tantas subidas como descidas:




Fotografias que tirei para o caso de um dia fazer um catálogo com uma colecção Outono-Inverno:






(Estou há 25 anos na Alemanha, mas ainda sou portuguesa: tive pena dos suíços, e fui ao Coop comprar uns chocolates, umas pastilhas elásticas, umas bolacinhas, uns fondue de queijo, e assim. Coitados dos suíços, não é bonito ir-lhes gastar a neve sem deixar nada em troca. Depois ficam pobrezinhos e até se vêem obrigados a meter-se num carro e andar 100 km para virem fazer as compras do mês ao Aldi mais perto da sua fronteira.)


a quadratura do círculo

Hesitei muito antes de partir para férias. Tanto trabalho para fazer, e saio por uma semana?! Uma loucura.
Afinal foi o melhor que me podia ter acontecido e, sim, a quadratura do círculo é possível: para o projecto que actualmente me ocupa e preocupa, trabalhei mais numa semana de férias do que num mês em casa.
Além de ser um gosto trabalhar em frente a esta janela, não havia nem as compras nem o almoço nem o jantar para fazer, nem a roupinha para lavar, nem os telefonemas "será que me podes dar uma ajudinha?", nem internet, nem reuniões.
A quadratura do círculo é uma antecâmara do paraíso.



Nos intervalos para fazer ou beber um chá, ia controlar a varanda: 






  

E controlava também as nossas reservas de vinho branco e espumante para o jantar (a propósito: um doce para quem acertar no número de garrafas que aqui estão). 




27 fevereiro 2014

branca de neve

(os meus títulos não costumam ser muito originais, mas este aqui, então, nem sei que diga...)





As duas fotos que se seguem são de areia do Saara:



E esta é para uma amiga que disse que uma das minha fotografias lembra bolinhos com cobertura de açúcar - aqui vai uma tarte com cobertura de suspiro:



adeus esquis, olá raquetes de neve e: minhas ricas botinhas de ponta-e-mola!

Ao fim de 25 anos a fazer sucessivos cursos de esqui (sempre o mesmo: o dos principiantes) cheguei à conclusão que talvez fosse boa ideia mudar de vida. Esqui de fundo, aqui vou eu.
Arranjei um professor que passou hora e meia a dizer "você anda no exército? porque é que está tão direita? não se faça de robot, vá, avance normalmente" e outras delicadezas do género. Eu ria-me, e tentava fazer de conta que era humana, mas só disfarçava por alguns minutos.
Fartei-me de cair. Bastava-me ver uma descida, e ainda antes de começar a escorregar já estava catrapum, para que conste que sou uma pessoa muito dada à proactividade. Comecei logo a imaginar-me numa cadeira de rodas supersónica a entrar pela chancelaria adentro. Mas não parti nenhum ossinho, pelo que ainda não foi desta que comecei uma brilhante carreira política. No que diz respeito a esqui de fundo, só experimento de novo numa pista que seja sempre a subir, ou então apenas plana.

Em compensação, fiz uma bela caminhada com raquetes de neve. Parece-me que descobri finalmente, ao fim de 25 anos, uma actividade de férias na neve que me dá realmente prazer.
O Joachim ficou muito aliviado: gosta imenso de passar uma semana a meio do Inverno a fazer exercício ao ar livre, e a minha aversão aos esquis estragava um bocadinho o esquema. E eu descobri, ao fim deste tempo todo, que sou um bocado pateta: como é que andei metade da minha vida a tentar gostar do que não gosto, só para ficar melhor na fotografia da família?
A verdade é que nem preciso de esquis, nem de raquetes: arranjei umas botas fantásticas, com spikes de ponta-e-mola (quer dizer: normalmente estão escondidos na sola, mas quando são precisos é só virar o suporte, e ali estão eles prontos para me salvar a vida a cada passo que dou), e passeei imenso pelas pistas e florestas cobertas de neve.




O guia que nos levou a explorar as encostas de neve funda em raquetes de neve levou chá de sabugueiro e um vinho doce da região, feito com uvas vindimadas no princípio do Inverno, e fartou-se de contar histórias engraçadas sobre raposas bêbedas a gemer pelo meio das vinhas, confusões de nomes que acontecem aos funcionários estatais que não falam bem a língua do cantão, e outras trapalhadas do género. Apontou para uma carecada no monte e disse que foi um pirómano da aldeia que incendiou a floresta, e que foi preciso gastar muitos milhões para fazer artificialmente o que a floresta faz com tanta naturalidade: evitar as avalanches, reter a água, evitar a erosão. Também nos mostrou barragens que as aldeias souberam usar para enriquecer, e falou sobre a empresa Ricola que compra toda a produção de ervas aromáticas biológicas daquela região para fazer os seus rebuçados. Pelas entrelinhas do que dizia passava-me a ideia de uma economia feita de pequenas coisas sólidas, e de autarquias e populações que sabem lutar para melhorar a sua qualidade de vida.





A encosta do monte que ardeu é esta mancha branca atrás da aldeia, no canto esquerdo da fotografia:



No restaurante da pista onde o Joachim parava todos os dias havia duas angolanas, uma delas crescida em Lisboa. Disse-me que o meu marido fala melhor português do que eu, por isso nunca mais lá voltei. No último dia o Joachim e os nossos amigos regressaram ao apartamento na aldeia todos alegres, e traziam três garrafas de vinho que as angolanas lhes tinham oferecido. No período quente, quando os restaurantes das pistas estão fechados, elas vão trabalhar para o vinho nos terraços junto ao vale. Têm dois empregos, consoante a estação.
O mesmo se passa com o meu professor de esqui de fundo. É co-proprietário da escola de esqui, e no Verão trabalha no vinho. Agora vai-se reformar, e é um português quem o vai substituir na viticultura.
Algo me diz que daqui a uns anos vou passear em raquetes de neve por aquelas encostas, e o guia vai contar histórias divertidas de raposas bêbedas, e vai falar francês com um ligeiro sotaque português.


26 fevereiro 2014

l'espace bleu entre les nuages



Quando era criança, o dia em que saía a revista Tintim era de festa. Grande Tintim!
Lembro-me particularmente de dois livros: História sem Heróis, de Dany e Van Damme, e este de Cosey: Jonathan - O Espaço Azul entre as Nuvens. Marcou-me tanto, que me lembro inevitavelmente dele sempre que vejo um - lá está - espaço azul entre nuvens enormes.
E fotografo. Já tenho uma bela colecção de Monets-Cosey-Canon.



para o Nuno Abrantes Ferreira, que num momento de introspecção descobriu que vive num esgoto


Sobre esta interessante crónica do Nuno Abrantes Ferreira, tenho uma pergunta e um apontamento:

A pergunta: quanto é que o P3 paga por estes textos? É que - como dizia aquele político brasileiro honesto no slogan com o qual concorria às eleições - também quero mamar desta vaquinha!

O apontamento: há alguns anos, quando a Alemanha se deu conta de que estava a viver acima das possibilidades do tratado de Maastricht, e se viu obrigada a pôr um forte travão nas despesas públicas, houve três rubricas que não foram afectadas pelos cortes: a Educação, a Investigação e o apoio às crianças das famílias com menores rendimentos, para poderem escapar ao círculo vicioso da pobreza.
"A nossa única riqueza são as pessoas", disse-se. "Não podemos desperdiçar capacidades - cada um deve ter a possibilidade de dar o melhor de si."
E ainda: "não nos podemos dar ao luxo de ter pobres."

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Gosto muito da ideia de os pobres serem um travão ao enriquecimento de um país (infelizmente a história alemã recente, desde Schröder, tem dado passos preocupantes noutra direcção), mas vou concentrar-me na questão do desperdício de capacidades, e da Educação como elemento fundamental de criação de riqueza. O esgoto no qual o Nuno Abrantes Ferreira vive é uma self-fulfilling prophecy que se alimenta da sua mentalidade, tão diferente da dos países europeus mais ricos. Em certas regiões da Alemanha a escolaridade já era obrigatória, para rapazes e raparigas, em finais do século XVI. O exemplo foi alastrando, e a Constituição da República de Weimar instituiu a escolaridade obrigatória para todo o país em 1919. Por essa altura, já havia pedagogos um pouco por toda a Europa a olhar para o Ensino como forma de promover e realizar o ser humano, muito para lá da mera transmissão de informação. Enquanto isso, no Parlamento português discutia-se se era realmente importante que as pessoas soubessem ler, e até se invocavam os lírios do campo e os passarinhos dos montes para provar que é possível ser feliz sem essas modernices. A propósito: pouco depois do 25 de Abril, uma empregada da minha avó, uma velhinha analfabeta muito imbuída da sabedoria do bom povo, comentava que a Igreja tinha aberto os seus seminários a rapazes pobres que lá aprenderam a ler, e para quê? para agora serem todos comunistas.

Em suma, senhores do P3: quanto me pagam para eu largar no vosso espaço um belo naco de liberdade de expressão? Gostava muito de desenvolver esta tese:

O português quando nasce, nasce sempre para ser grande. Mas por qualquer razão nunca passa de mais um pequenino. E a culpa nunca é dele. Nem é da crise, dos mercados, da Europa ou do azar. A culpa é de Topo Gigios que insistem em pensar como o Nuno Abrantes Ferreira, por muito que a experiência de outros países demonstre que o que os faz avançar é a ousadia e a teimosia de quererem ser grandes.


manhã (4)

Bem sei que esta série é muito repetitiva, mas - que querem? - gosto delas todas (e poupei-vos a mais umas cinquenta deste género). As minhas manhãs durante esta semana de férias pareciam aquela anedota parva do menino que "dava dois pulinhos na varanda". Levantava-me, ia à varanda. Vestia-me, ia à varanda. A meio do pequeno-almoço ia à varanda. Etc.

(carregar nas imagens para ampliar)












manhã (3)





manhã (2)

 

14 fevereiro 2014

até já


Daqui a bocadinho saio para a Suíça, para passar uma semana de férias na casa de amigos, a fazer esqui de fundo. Se regressar de muletas, é um sinal inequívoco de que tenho queda para chancelerina...

Provavelmente farei férias também da internet, pelo que desejo a todos uma boa semana - e peço que, na minha ausência, cuidem bem dos escândalos nossos de cada dia.

(Senhores ladrões: escusam de pensar que podem assaltar a casa no entretanto. Deixámos cá um feroz cão de guarda.)