"Votem em mim, também quero mamar dessa vaquinha" foi o slogan com que um brincalhão brasileiro concorreu às eleições, faz já um bom par de anos. Pelo menos diz logo ao que vai, e só por ser tão honesto já merecia ganhar.
Lembrei-me desta frase ao ver que de repente nos blogues "de gajas" havia um inusitado interesse pelo leite sem lactose da Mimosa. Se fosse só uma, não me apercebia tão facilmente, mas à segunda vez que tropecei no leite sem lactose da Mimosa até a mim sem me abriram os olhinhos. Pensei: "quanto é que a Mimosa estará a pagar por post? aaah, também me dava jeito mamar dessa vaquinha!"
Às vezes, ao ler esses blogues, divirto-me a imaginar quanto é que cada post renderá. (E não me chateiem por perder tempo nesses lugares, que eu bem sei dos vossos cadernos de sudoku na casa de banho.)
Há os mesmo muito óbvios, com um produto e uma ficha para a carneirada lá largar o nome e o contacto, que devem valer umas boas centenas de euros (o que é que uma empresa não está disposta a pagar para obter centenas ou milhares de endereços electrónicos de potenciais compradores?).
Há os bastante óbvios, como os ó pra mim no hotel x, ó pra mim a comer batatas fritas deliciosas no bar y, ó pró meu rico filho a usar chupetas da marca z, mais as bolachas de marca aiquesemeestáaacabaroalfabeto e ração para cães de uma marca de luxo (quanto pagarão as empresas?).
E há aqueles que me deixam na dúvida. Por exemplo: porque é que de repente começaram todos a pôr fotografias de cozinhas? Seria a IKEA que estava para publicar o novo catálogo e decidiu "criar um clima"?
Finalmente, há os que se vê mesmo que não foram pagos, mas servem de isco. Outro tema. Sobretudo quando fazem incursões pela mais pura indigência: tanto o texto como os comentários parecem vir de gente que anda na internet com a cabeça em power saving - assustador.
Claro que o que me faz falar é a inveja, dirão. "Tu própria o disseste, também querias mamar dessa vaquinha, ó sua grande augada!"
Bem, confesso que me dava jeito ganhar umas boas centenazitas de euros por post, não digo que não.
Por uns mil euritos, estava bem capaz de fazer um post começado assim:
A IKEA vai publicar agora o seu novo catálogo de cozinhas e pagou-me para fazer aqui um pouco de publicidade. Ora, com todo o gosto! Primeiro, porque estou a precisar de juntar algum para comprar a próxima cozinha IKEA. Segundo, porque há mais de vinte anos que me dou bem com cozinhas IKEA. Como esta aqui, na minha primeira casa de Weimar:
É certo que a cozinha IKEA propriamente dita não se vê, mas é só porque estava sempre desarrumada e por isso eu não lhe tirava fotografias. E se as tivesse, não as punha aqui agora, que eu não sou tola para me envergonhar em público, a não ser que a IKEA me pague o dobro ou - pronto, faço preço de amigo, hoje estou magnânima - o triplo.
Por simpatia, podia acrescentar esta imagem, que o Matthias me mandou uma vez que eu estava a trabalhar em Portugal, com a legenda "mãe, estou a destruir a tua cozinha". Tinha deitado detergente da louça normal.
Se pagassem realmente muito, talvez até pusesse fotografias daquela cozinha que fiz na sala onde (tenho quase a certezinha absoluta) o Mahler himself terá feito música com o seu cunhado violoncelista. Mas para contar esta história teria de negociar muito bem, porque o mais provável é perder metade dos leitores deste blogue, só por causa da profanação. E ainda me arriscava a ser mandada para um campo de trabalhos forçados russo, já não era a primeira vez que isso acontecia a quem não respeita os espaços do sagrado.
No fim, com o dinheirinho, comprava uma cozinha assim:
(Mas feita pela Miele!)
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Uma pessoa põe-se a escrever um post, pelo meio farta-se de rir de si própria, e no fim descobre que a Rita entretanto escreveu
the ultimate paródia a este assunto numa adenda a um post de ontem. A quem se interessar pelo tema da publicidade escondida com o rabo de fora recomendo a leitura dos
comentários desse post.