29 novembro 2013

Sergey Maximishin

No mural de facebook de um amigo encontrei escrito, laconicamente: "A homepage worth exploring: Sergey Maximishin, photograper". Devia ter acrescentado uma tabuleta: "atenção! fotografias minadas - entre por sua própria conta e risco"

Esta, por exemplo:

Office workers of a bank celebrate a colleague birthday.

Esta:

Location: Gudermes, Chechnya


E ainda esta, que aparece no meio das outras quase como redenção:

Location: Grozny, Chechnya



***


A fotografia da criança e do gato lembrou-me uma que fizemos na Pampa boliviana (o Sergey Maximishin que me perdoe o atrevimento!) - uma cena muito pacata num passadiço sobre o habitat dos crocodilos:



28 novembro 2013

daqui a nada vem o Natal, depois é só aguentar mais um bocadinho e lá para Maio, se tivermos sorte, acaba o Inverno

Felizmente já acenderam as luzes de Natal no Ku'damm - e por sorte acendem-nas logo por volta das três da tarde.




A seguir ao almoço fui com o Fox à casa nova, para devolver um projector que nos tinham emprestado ontem. Estava a escurecer tão depressa que temia que os operários abandonassem a obra antes de nós chegarmos. Regressámos pelo lago. A água parecia estarrecida de frio. Fiz algumas fotografias com o telemóvel jurássico, maldizendo o meu esquecimento da máquina fotográfica. 







Onde está o Fox? A andar sobre a água, melhor dizendo: a experimentar o famoso caminho das pedrinhas. Estavam escorregadias, por três vezes patinou até cair na água gelada. Se a Sociedade Protectora dos Animais sabe que eu deixo acontecer estas coisas, ainda o dão a outra família, para adopção...



27 novembro 2013

festa do pau-de-fileira

A nossa Richtfest (festa do pau-de-fileira, em português, e aqui anuncio com solenidade: quem tem comentadores atentos no blogue, tem tudo!) foi hoje. O dia amanheceu lindo, mas foi ficando cada vez mais cinzento. Às três da tarde, quando o mestre-de-obras e o Joachim fizeram os seus belos discursos, já quase não havia luz para fotografar - como se pode ver na primeira imagem.

(Se querem que conte tudo, eu conto: o arquitecto apareceu cá em casa, para vir buscar o farnel, uma hora antes do combinado. Telefonou da auto-estrada, "daqui a 15 minutos estou aí", eu em pânico porque ainda não tinha nada pronto - e aqui fique registado: consigo preparar um farnel enorme para mais de vinte pessoas, vinho quente e tudo, em menos de dez minutos! - e só quando já estava tudo no elevador é que se deu conta que se enganara nas horas. Em compensação eu ia chegando atrasada à festa onde era anfitriã, porque apareceu-me a desoras um canalizador para consertar um aquecimento, e que era só dois minutos, mas afinal foi mais, e depois atendeu o telefone, e depois perdeu a peça e andou a procurá-la por todos os lados, e eu ora num pé ora no outro como quem está aflitinha para ir à casa de banho, e ele "tenho de voltar amanhã, a que horas está em casa?")
 
O copo partiu com um lindo ruído de mil cacos, sinal de que daqui para a frente a obra vai correr às mil maravilhas (melhor dizendo: sinal de que vai dar muito trabalhinho apanhar aquilo tudo do chão). Os operários tiveram a gentil ideia de fechar uma das divisões com telas plásticas, e de pôr aquecimento e luz. Os vizinhos apareceram com ramos de flores e garrafas de vinho, mostrámos a casa e sentámo-nos à mesa com todos, vizinhos e operários. Levei vinho quente para os adultos, mas esqueci-me de chá para as crianças, que se vingaram nas paciências holandesas - e está bem. Os adultos também se regalaram com as bolas de presunto que fiz ontem (quase ia levando torresmos em vez de bolas, mas por sorte lembrei-me in extremis que tinha o forno aceso).
O ponto alto da festa foi quando quando uma das vizinhas comentou que estava tudo muito "gemütlich". Rimos todos, claro. Essa é a palavra usada para descrever um ambiente confortável e acolhedor - e nós ali num quarto com os tijolos à mostra, telas de plástico nas janelas e nas portas. Também nos rimos quando os operários começaram a contar que nem tudo foi fácil, mas que há coisas que é melhor não contar. Rimos, pois: que remédio!
O empreiteiro ofereceu-me um presente: as primeiras plantas para o jardim. E depois dizem que eu é que sou especialista em pôr o carro vários meses à frente dos bois!
Para já, estou a correr atrás do atraso como de costume: temos um mês para decidir tudo sobre a cozinha, o chão e os azulejos - e, pouco depois, os candeeiros. Comparado com isto, a angústia do guarda-redes antes do penálti é uma brincadeira de meninos.  

 
 


E porque eu já sei do que é que a casa gasta, aqui vai uma fotografia do tipo "onde é que está o Fox?":
(pelo medo que tem de andar nas obras, não lhe antevejo grande futuro como trolha)




26 novembro 2013

uma casinha de imigrante

Então foi assim: comprámos um terreno e resolvemos construir uma casinha. Fizemos uma lista de desejos (dois escritórios, os quartos dos miúdos de maneira a poderem ser transformados em B&B quando eles saírem de casa, a cozinha e sala de jantar no topo, para podermos gozar a vista por cima dos telhados berlinenses, etc.) e falámos com o nosso arquitecto em Weimar, que nos fez um projecto muito honesto em estilo Bauhaus. 




Mostrei o projecto a um dos meus irmãos, que é arquitecto.
"Essa casa está muito alemã" disse ele. "Temos de a aportuguesar."
Dias depois, mandou-me isto:






Eu comecei a babar: vamos ter uma casinha de imigrante, uma bela casa portuguesa no coração de Berlim!

(Depois skypei com ele, para pedir mais uma janela aqui e uma porta acolá, e mais uma cobertura assim e assado, e ele, que deve ter má-consciência das que me fez quando dormia na cama de cima de beliche e eu na de baixo, respirou fundo e foi mudando o projecto.)

O engenheiro é que não achou graça nenhuma. "Vocês e o vosso Bauhaus-Barock!", resmungava ele, enquanto desenhava mais de trinta planos, em vez dos dez que faz habitualmente para uma habitação unifamiliar. O arquitecto alemão também não tinha muito que rir: "isso é muito bonito para Portugal - mas vocês têm consciência que os materiais desta casa têm de suportar variações de temperatura de mais de 60 graus?"

O empreiteiro foi a terceira vítima. Sem olhar muito bem para os planos, fez um orçamento para a cubicagem. Depois começou a construir, a deitar as mãos à cabeça, e a pôr custos extra nas facturas. Eu afligi-me: "não me digam que estamos a fazer uma segunda Casa da Música?!" O arquitecto disse que não pagava, que não tinha sido isso o combinado, e o empreiteiro entrou em greve. E nós a ver o Inverno chegar.

Tudo se resolveu. As paredes e o telhado já lá cantam (e mesmo a tempo, que esta manhã já havia gelo no passeio), só faltam alguns elementos do Bauhaus-Barock que serão postos em breve. Amanhã é a Richtfest: vamos comemorar com os operários e os vizinhos o fim da primeira fase da construção. Depois conto.


25 novembro 2013

28.3.2013 - pôr-do-sol na Pampa boliviana


"Subjugados por aquela paisagem - foi um dos poucos momentos em que tive a certeza de estar a sentir o mesmo que a minha mulher."
Era meu chefe, não tinha ainda nem quarenta anos, e surpreendia-me com frases assim. Eu estava a sair da universidade, ainda tinha muito para aprender. Por exemplo, que um casal não é um mimetismo nem um dado adquirido, mas diálogo e atento jogo de diferenças, com momentos - raros - de comunhão profunda.

Lembrei-me dessa frase ao ver esta foto. Um casal francês, que poupou o dinheiro suficiente para passar um ano à deriva na América Latina. Que bem falam os seus corpos mudos.


sabem a dieta que eu ia começar amanhã sem falta?



Começo na próxima semana, sem falta. 
Esta semana não é possível - o supermercado da minha rua está a vender os Mon Chéri a 12 euros o quilo. 


24 novembro 2013

a economia e a Bolsa - um pequeno caso prático



Há dias, um amigo fez-me um resumo chocante sobre os efeitos da entrada na Bolsa para a empresa onde ele trabalha, uma produtora de máquinas no Sul da Alemanha.

Durante cerca de um século foi uma empresa sólida, com produtos mais caros que os da concorrência mas com óptima fama no mercado. A sua taxa de crescimento era relativamente baixa, mas constante. Os trabalhadores orgulhavam-se muito de fazer parte daquela equipa, e nos tempos livres ostentavam alegremente bonés e t-shirts da firma.
Foi comprada por um grupo económico que tem curvas de crescimento semelhantes a uma montanha russa, e vive permanentemente em função da próxima subida abrupta. Para os directores desta empresa com curvas de pura adrenalina, um gráfico com subida constante mas pouca inclinação parece algo pré-histórico. Nada que mereça admiração, muito menos respeito. Um anacronismo.
Aconteceu, portanto, o que seria de esperar: o grupo decidiu que esta empresa devia entrar na Bolsa, e para isso foi necessário criar um novo departamento, enorme, retirando dinheiro do destinado a pagar o pessoal produtivo. O objectivo último da empresa deixou de ser a qualidade, para dar lugar às contas a apresentar aos accionistas. O curto prazo - os resultados trimestrais - passou a ditar as políticas da empresa. Os trabalhadores trabalham cada vez mais para receber cada vez menos. Andam desmotivados e até envergonhados, devido à redução da qualidade do que produzem. Deixaram de usar bonés com o nome da sua empresa. Qualquer um dos antigos trabalhadores seria capaz de explicar aos directores o que é preciso mudar para a empresa recuperar o nome e a quota de mercado que já teve. Mas os directores não querem saber: vêm e vão com um grau de rotação surpreendentemente alto - e à saída levam os seus milhõezitos consigo, independentemente dos resultados que deixam.

Uma pessoa pergunta-se qual é, afinal de contas, o interesse da Bolsa. E fica com vontade de impor uma regra no pagamento aos directores: esperam cinco anos para receber os milhões combinados, e só se conseguirem provar que a sua gestão contribuiu de facto para os bons resultados da actividade produtiva e para a solidez da empresa.

(sim, eu sei: daqui a nada chega o momento em que estendo a mão e bato na mesinha de cabeceira...)

23 novembro 2013

encontros

Encontro com as crianças do infantário onde a Christina trabalhou, na Bolívia: fazíamos fotografias (eles posavam, muito sérios) e depois mostrávamos o resultado (eles riam muito). Comemos do almoço deles (tão bom! ofereci-me logo como voluntária, disse que trabalhava pela comida, as cozinheiras e educadoras fecharam logo ali o acordo, no meio de muitas gargalhadas). À mesa, os miúdos à minha volta tiveram um pequeno retrocesso no desenvolvimento, e pediram que lhes desse a sopa. Adoraram poder ser bebés de novo. Uma menina amorosa, de casaco branco e totós no cabelo, apaixonou-se pelas minhas mãos, e eu pelas dela: os seus dedinhos doces de chocolate a passear ao longo das minhas veias azuladas sob a pele clara. United colors.

Uns meses mais tarde a Christina despediu-se deles. "Vais ter cuidado contigo, não vais?", disse ela a um dos pequenitos. Ele abraçou-a: "Prometo. E tu, prometes que também vais ter cuidado contigo?"
(Comparados com estes, os do Grey's Anatomy são uns meninos de coro)










22 novembro 2013

uma mãe é uma mãe é uma mãe

Há tempos o Matthias anunciou que não quer fazer a viagem de finalistas do secundário, porque é uma parvoíce: gastam um dinheirão para passarem uma semana inteira semi-embriagados (estou a ser gentil) num sítio qualquer. Ele prefere fazer uns dias de férias com um pequeno grupo de amigos. Pensaram na Holanda ("eh, pá!, Matthias, podem ficar naquela pousada de juventude maravilhosa junto ao mar!") (agarrem-me, que ainda vou com eles), pensaram numa ilha na Dinamarca (não conto pormenores, mas só vos digo que do lado de lá da internet há gente muito boa), e acabaram por escolher ir até Portugal e passar uns dias na nossa casa no Minho.
Não gosto nada da ideia de seis miúdos de 17 e 18 anos num carro a atravessar a Europa, mas o Joachim - que queria ter feito isso mesmo quando chegou ao fim do secundário, e não fez - foi buscar um mapa da Europa e começou logo ali a sonhar com eles (agarrem-no, que...).

Ontem, os seis reuniram-se para combinar melhor a viagem, e o Matthias foi-me mandando mensagens com perguntas:

Matthias: Na nossa casa, quanto achas que vamos gastar em comida? E temos de pagar também a água e a electricidade, não temos?

Eu: Penso que uns 6 ou 7 euros por dia chegam. A comida custa tanto como na Alemanha, excepto a carne, os legumes e a fruta, que são mais baratos. Claro que vocês não têm de pagar água e luz. A não ser que passem o dia inteiro em frente ao computador - nesse caso é 100 euros por pessoa e por dia, hehehe.

Matthias: Obrigado. Mais perguntas: a carne da Peneda-Gerês é muito mais cara, ou ainda podemos pagar? As bebidas alcoólicas são caras? Quando é que temos de dizer em que dias queremos usar a casa?

Eu: A melhor carne (bife) custa entre 10 e 11 euros no Talho do Soajo. Em princípio a casa está sempre disponível, é uma questão de combinar. As bebidas alcoólicas são proibitivamente caras em Portugal. Bebam água.


21 novembro 2013

mais um nicho de mercado...





Se eu fosse esperta, abria agora uma loja de flores em segunda mão.


ADENDA: cuidado com o post que o Luís Novaes Tito escreveu a propósito desta minha ideia. Arriscam-se a sair de lá com mais uma dúzia de rugas de riso.


18 novembro 2013

anda, filhinha de Deus...



- Anda, filhinha de Deus, hoje mesmo começas uma dieta. 



- Começar uma dieta antes do Natal?! Está tudo maluco.



- Já ouviste a novidade? A Helena diz que quer começar uma dieta.
- Oremos, para que tenha coragem e perseverança, e comece por se desfazer da caixa de "mon chéri" que escondeu ao lado do computador para os momentos em que a consciência dela não estiver a olhar. 


(Exposição de quadros de Lucas Cranach no Jagdschloss Grunewald)



17 novembro 2013

no 50º andar da vida

Na impossibilidade de abrir uma garrafa de champanhe para beber convosco, deixo-vos um presente que acabei de receber (obrigada, Malou!):



Há bocadinho tresli uma mensagem que me enviaram, nem sei como (por acaso sei, mas isso não interessa muito) (sim, a encomenda do vinho chegou a horas): em vez de "ano", li: "no 50º andar da tua vida".
Gosto da ideia - nós como uma casa que cresce, cada vez mais alta, oferecendo perspectivas cada vez mais largas, até tocar o céu.

Gosto do que vejo deste "andar", e estou curiosa sobre o que verei mais lá à frente.
Se tivesse de resumir o 50º andar numa palavra, numa palavra só, seria esta: alegrieigratidão.


Adenda:

Informa-me uma amiga que o vídeo acima, embora muito engraçado, ficou um pouco aquém do original. Victor Borge (agarrem-me, pressinto aqui um novo vício):

15 novembro 2013

gente boa



Telefonaram cá para casa. O espumante para a festa de amanhã, encomendado a um amigo que é produtor na zona do Reno, já está no armazém. Queriam vir entregá-lo na terça-feira.
- Na terça-feira?! Mas eu preciso dele para a festa que é já amanhã!
- Aqui não diz nada que tinha de ser entregue hoje.
- Mas olhe que nós dissemos isso ao vendedor.
- Ele deve ter-se esquecido.
- Oh, não me diga! E agora?
- Vou ver se há maneira de resolver o problema, e já lhe ligo.

Daí a 10 minutos:
- Infelizmente, não há mesmo solução. Já não temos aqui nenhum condutor para sair, que possa levar também isso.
- E onde é que fica o armazém? Se calhar o meu marido pode ir aí buscar.
- Fica a sul do aeroporto Schönefeld. Pode vir até às duas da tarde [eu a pensar: o Joachim a fazer pausa do almoço, hihihi hohohoho hahahahha huhuhuhuhu, boa piada, contem-me outra!] ou então deixamos as caixas fora do armazém, até às quatro e meia. [idem]
- E amanhã?
- Também explorei essa possibilidade, mas infelizmente amanhã não há ninguém aqui na empresa.

Telefonei ao Joachim. Telefonei-lhe a ela:
- Olhe, não dá mesmo. O meu marido não pode sair do trabalho tão cedo.
- A que horas é que ele sai?
- Nunca antes das seis da tarde.
- Então, vamos fazer assim: eu levo as caixas para a minha casa, em Kreuzberg, e ele depois do trabalho vai lá buscá-las. Dou-lhe a minha morada, o meu nº telemóvel, e ele vai lá ter.

Claro que lhe vamos dar uma garrafinha das melhores que vierem nas caixas.

E mais uma vez confirmo: o mundo está cheio de gente boa. Pessoas excelentes.

também quero mamar dessa vaquinha

"Votem em mim, também quero mamar dessa vaquinha" foi o slogan com que um brincalhão brasileiro concorreu às eleições, faz já um bom par de anos. Pelo menos diz logo ao que vai, e só por ser tão honesto já merecia ganhar.
Lembrei-me desta frase ao ver que de repente nos blogues "de gajas" havia um inusitado interesse pelo leite sem lactose da Mimosa. Se fosse só uma, não me apercebia tão facilmente, mas à segunda vez que tropecei no leite sem lactose da Mimosa até a mim sem me abriram os olhinhos. Pensei: "quanto é que a Mimosa estará a pagar por post? aaah, também me dava jeito mamar dessa vaquinha!"

Às vezes, ao ler esses blogues, divirto-me a imaginar quanto é que cada post renderá. (E não me chateiem por perder tempo nesses lugares, que eu bem sei dos vossos cadernos de sudoku na casa de banho.)
Há os mesmo muito óbvios, com um produto e uma ficha para a carneirada lá largar o nome e o contacto, que devem valer umas boas centenas de euros (o que é que uma empresa não está disposta a pagar para obter centenas ou milhares de endereços electrónicos de potenciais compradores?).
Há os bastante óbvios, como os ó pra mim no hotel x, ó pra mim a comer batatas fritas deliciosas no bar y, ó pró meu rico filho a usar chupetas da marca z, mais as bolachas de marca aiquesemeestáaacabaroalfabeto e ração para cães de uma marca de luxo (quanto pagarão as empresas?).
E há aqueles que me deixam na dúvida. Por exemplo: porque é que de repente começaram todos a pôr fotografias de cozinhas? Seria a IKEA que estava para publicar o novo catálogo e decidiu "criar um clima"?
Finalmente, há os que se vê mesmo que não foram pagos, mas servem de isco.  Outro tema. Sobretudo quando fazem incursões pela mais pura indigência: tanto o texto como os comentários parecem vir de gente que anda na internet com a cabeça em power saving - assustador.

Claro que o que me faz falar é a inveja, dirão. "Tu própria o disseste, também querias mamar dessa vaquinha, ó sua grande augada!"

Bem, confesso que me dava jeito ganhar umas boas centenazitas de euros por post, não digo que não.
Por uns mil euritos, estava bem capaz de fazer um post começado assim:

A IKEA vai publicar agora o seu novo catálogo de cozinhas e pagou-me para fazer aqui um pouco de publicidade. Ora, com todo o gosto! Primeiro, porque estou a precisar de juntar algum para comprar a próxima cozinha IKEA.  Segundo, porque há mais de vinte anos que me dou bem com cozinhas IKEA. Como esta aqui, na minha primeira casa de Weimar:



É certo que a cozinha IKEA propriamente dita não se vê, mas é só porque estava sempre desarrumada e por isso eu não lhe tirava fotografias. E se as tivesse, não as punha aqui agora, que eu não sou tola para me envergonhar em público, a não ser que a IKEA me pague o dobro ou - pronto, faço preço de amigo, hoje estou magnânima - o triplo.

Por simpatia, podia acrescentar esta imagem, que o Matthias me mandou uma vez que eu estava a trabalhar em Portugal, com a legenda "mãe, estou a destruir a tua cozinha". Tinha deitado detergente da louça normal.


Se pagassem realmente muito, talvez até pusesse fotografias daquela cozinha que fiz na sala onde (tenho quase a certezinha absoluta) o Mahler himself terá feito música com o seu cunhado violoncelista. Mas para contar esta história teria de negociar muito bem, porque o mais provável é perder metade dos leitores deste blogue, só por causa da profanação. E ainda me arriscava a ser mandada para um campo de trabalhos forçados russo, já não era a primeira vez que isso acontecia a quem não respeita os espaços do sagrado.

No fim, com o dinheirinho, comprava uma cozinha assim:


(Mas feita pela Miele!)

***

Uma pessoa põe-se a escrever um post, pelo meio farta-se de rir de si própria, e no fim descobre que a Rita entretanto escreveu the ultimate paródia a este assunto numa adenda a um post de ontem. A quem se interessar pelo tema da publicidade escondida com o rabo de fora recomendo a leitura dos comentários desse post.

14 novembro 2013

eu e o Pedro Mexia

Com alegria venho anunciar que o Pedro Mexia e eu temos algo muito importante em comum.
Ó aqui, do Malparado:

UM PROBLEMA 

Um amigo conta-me que o «Chief Curator» do Ashmolean Museum, em Oxford, lhe confessava há tempos, com secura britânica: «Books are a problem». A minha casa não é, está bem de ver, o Asmolean Museum; mas à entrada devia haver um cartaz a dizer aos incautos: Books are a Problem. 

PEDRO MEXIA AT 00:00


Pois é - eu também não sei como fazer para que não se encham de pó.

(...era este o problema dele, não era?)


***

E para que não se perca um post inteiro com um disparate só, acrescento mais alguns, dedicados ao tema "choques culturais":

"Eu e o Pedro Mexia", "o Pedro Mexia e eu" - na Alemanha, a primeira formulação é do mais mal-educado que se possa imaginar. Nunca se põe a primeira pessoa em primeiro lugar. Lembro-me vagamente de ter aprendido a mesma regra em Portugal mas, tendo em conta o número de vezes que não a vejo ser respeitada, concluo que talvez seja uma regra irrevogável.

Escolhi a formulação "eu e o Pedro Mexia" para o título porque, primeiro, me queria armar um bocadinho e, segundo, porque sendo o Pedro Mexia um moço muito delicado, com certeza me deixa passar à frente dele. Isso de deixar passar as senhoras à frente é um problema para quem, como eu, viaja entre culturas com diferentes graus de feminismo. Bom, talvez não lhe possa chamar feminismo, talvez seja um mero coiso qualquer, porque se é verdade que na Alemanha nenhuma mulher se lembra de esperar que o homem pare para a deixar passar primeiro pela porta, também é verdade que esta sociedade ainda entende que o lugar das mães é em casa a criar os filhos. Em todo o caso: na Alemanha nenhum homem trava para deixar passar a senhora (por acaso há por aí uma blogger portuguesa que afirma o contrário, mas eu cá só falo do que vejo com estes que aterratalicoisa). Em Portugal, travam praticamente todos. Nem queiram saber a quantidade de acidentes e engarrafamentos que provoco em Portugal: eles chegam à porta, param, eu - que não ia a contar com isso - choco contra eles. Ou: eles chegam à porta, param, e eu paro também, à espera que eles passem.

Nos EUA é mais complicado: toda a gente deixa passar toda a gente. Por exemplo, à entrada do supermercado, há uma delicadeza tácita que leva todos a abrandar. Não sei como é que depois se resolve porque eu - vinda de uma Alemanha onde, à porta do supermercado, todos aceleram para entrarem antes dos outros -, à porta do Albertson's, dava-me um portuguesíssimo ataque de chica-esperta e  aproveitava o abrandamento geral para passar à frente. Até parecia Moisés a atravessar o Mar Vermelho, hehehehe. Depois regressei à Alemanha, e na primeira ida ao supermercado fartei-me de atropelar velhinhas. Culpa delas, claro: nem se desviavam para eu passar, nem avisavam "excuse me" quando passavam por trás de mim num dos corredores, nem nada. Muito cheias de si, punham o seu próprio "eu" em primeiro lugar. Não sabem que isso é má educação?!

Pelo que se conclui que na Alemanha a boa educação é só na retórica.

(Escolhi o verbo "travar" em vez de "parar" por causa do treino em curso para um dia destes começar a escrever segundo o Acordo Ortográfico. Numa atitude de respeitosa evasiva, fujo às palavras de cuja nova grafia não gosto. "O homem para para mim": era o que faltava escrever isto, ainda corro o risco de me chamarem ninfomaníaca, já não bastava o português ser uma língua muito traiçoeira, agora está que mais parece um campo minado.)

13 novembro 2013

os meus problemas




Problema nº1:

Fez na semana passada 24 anos que vim morar para a Alemanha. Há tanto tempo a viver longe de Portugal, o mar ganha uma dimensão mítica na minha saudade. O mar - mais ainda que o sol, os rissóis e os pastéis de Belém.
Assim sendo, não é de estranhar que, ao descobrir a Rachel's Wave do Matthew Cusik, tenha ficado pespegada à montra, a babar. É uma colagem com bocados do mapa-múndi, cujas reproduções, à venda nas galerias de arte, insistem em atravessar-se no meu caminho, parece pirraça.
Calha bem de estar para fazer cinquenta anos - cinquenta anos é quase como aquele "pode-me guardar este casaco de peles até o meu marido me fazer uma ofensa imperdoável?", e pedi. Mas o pessoal cá de casa achou que tudo o que for menos de um original a óleo é coisa de fancaria. No way. Têm alguma razão, mas olho para esta colagem, que traz em cada cor um bocadinho diferente do mundo (cliquem na imagem para ver os detalhes), e dá-me vontade de chegar depressinha aos oitenta, para poder passar a culpa das decisões impulsivas e irracionais para a nessa altura já muito aceitável senilidade.
Até lá, plano B: tenho esta onda como fundo do ecrã de computador, e estou aqui toda satisfeita a lembrar nela as ondas do Verão passado.  

Problema nº2:

Tenho andado a preparar uma visita guiada à Filarmonia (que ainda agora fez cinquenta anos, uma jovenzinha de luxo) para os amigos que vêm de outras cidades: depois do brunch de domingo, ala que se faz tarde, com sorte apanharíamos até um bocadinho dos ensaios. Mas depois ocorreu-me que os amigos vão preferir ver a casa que estamos a construir, e que esta semana chegou ao último andar. Já os imagino empoleirados no terraço do topo, a largar comentários e piadas, a escolher o quarto onde vão dormir, e a sonhar connosco momentos felizes naquele lugar.
Parece-me que a Filarmonia vai ter de esperar até ao 60º aniversário.

Resumindo, é isto: ainda nem cheguei aos cinquenta, e já sonho com os próximos aniversários "importantes". É assim que uma pessoa se põe velha...

12 novembro 2013

9 de Novembro de 2013 - 75 anos (6)



Do post "9. Novembro 1938" no Quase em Português:

"A Kristallnacht foi um marco na escalada da perseguição antisemita na Alemanha Nazi, e um teste importante para ver em que medida a população comum tolerava ou até participava na violência aberta contra os Judeus. 
Ela não participou, mas não se mexeu. 
A partir daí, os assassinos sabiam que podiam contar com a cobardia do povo." 


Poder contar com a cobardia do povo.  E não estou a falar só dos alemães. Alguém dizia, a propósito desta data, que enquanto estamos ocupados a lembrar o que aconteceu em 1938 podemos esquecer o que se passa hoje ao nosso lado.





Neste mapa: número de pessoas que perderam a vida no mar quando fugiam para a Europa, entre 1993 e janeiro de 2012 - 2889 no Atlântico; 2425 no Estreito de Gibraltar; 6000 em Lampedusa; 861 entre a Albânia e a Itália; 941 entre a Turquia e a Grécia.

(Não estou a dizer que a UE é nazi, e que o Mediterrâneo é o novo Auschwitz - apenas que hoje, como o povo alemão há 75 anos, nós não nos mexemos para evitar as injustiças que acontecem ao nosso lado. Há 75 anos terá sido por cobardia. E hoje, o que explica o nosso comportamento?)

Elisabeth Warren for President



Ainda agora pus no lixo uma fotografia do Obama que tinha cá em casa desde os tempos eufóricos de 2009, e já estou pronta a embarcar na próxima ilusão?!
Não há dúvida: a esperança é o pior inimigo da Humanidade.

E contudomente... Elisabeth Warren for President!

(Ou, melhor ainda: fazemos uma vaquinha para lhe dar os milhões que são necessários para receber a nacionalidade portuguesa, e depois pedimos-lhe que seja política em Portugal. Que me dizem? Fazemos? Fazemos?)