29 abril 2013

24 de Abril de 2013




O pai chegou com a menina pela mão, trazia uma flor - como todos os outros.
Pegou nela ao colo, ela pousou a flor, com cuidado, no muro de flores que rodeava a chama eterna.

A cena repete-se milhares de vezes. Outros pais ou avós, outras crianças, outras flores. O mesmo silêncio, a mesma ternura. Alguns rezam, benzem-se, e às crianças.


  





Um grupo de uma escola rezou longamente, em voz alta. No fim, benzeram-se todos e saíram calmamente. Eles sabem por quem rezam.

Não deve haver muitas famílias arménias que tenham passado incólumes pelas terríveis perseguições que começaram a 24 de Abril de 1915. Todos os anos, neste dia, centenas de milhares de pessoas vêm pousar uma flor junto à chama eterna do Memorial do Genocídio - uma campa simbólica.




e que foste tu fazer à Arménia, Heleninha?

Fui fazer fotografias do Pedro Magano a trabalhar.
E vim de lá muito cansada, que o rapaz trabalha que se farta.


Aqui foi quando quase ia sendo preso por estar a filmar o Ararat na Cascata

 Aqui é uma foto que não deve ser vista pelo ortopedista dele ("- isso é lá posição para trabalhar? olhe as suas costas, homem!")

- Agora está melhor, mas ainda não é o ideal

 - Ah, assim, sim!

 - Ai! voltamos aos maus hábitos?

 Aqui está ele no meio da procissão, e nem o intenso aroma do incenso o desvia do seu dever!

No Templo do Sol, em Garni, que tem uma acústica extraordinária. Um belo momento de música arménia. 

 Em frente à Mãe Arménia. E de costas para o Ararat, que, nas suas palavras, "parece posto atrás da cidade pela pós-produção". 


Infelizmente eu não soube tirar partido da máquina para fotografar aquela cena espantosa tal como os olhos a viam.


***


Agora, muito a sério: esta cerimónia no Memorial do Genocídio, ao longo do dia 24 de Abril, é avassaladora. Nem dá para explicar. Só mesmo estando lá, ou vendo em filme.



20 abril 2013

e lá vou eu outra vez...



Será que dava para desacelerar um bocadinho? Ainda nem consegui contar os highlights da viagem à Bolívia e ao Peru, e já estou a fazer as malas para sair para a Arménia. Desta vez é em trabalho. Se é que se pode chamar trabalho a uma aventura incrível em que estou metida.

Depois conto. Para já, adianto que passei a semana a pedir ajuda a milhentos arménios que não conheço, e foram tão simpáticos e prestáveis que começo a pensar que vou gostar muito de conhecer este povo.

***

Não me digam que pensavam que eu saía daqui sem falar da Filarmonia?! Era o que mais faltava. Já tenho alguns posts em atraso sobre esse tema, mas é a tal coisa: é um bocado difícil viver e contar ao mesmo tempo. A ver se, depois do post sobre Machu Picchu e o outro sobre o cebiche de Lima e um museu que lá tem com uma colecção de cerâmica erótica formidável e explicações pedagógicas muito embaraçadas, hihihi, e ainda Sucre e Potosi, a ver, como dizia, se depois desses posts não me esqueço também de contar que começo a sentir uma certa atracção por Hindemith (será da idade?).

Pois é, há muito para contar, mas o avião sai daqui a bocadinho e ainda tenho de encher o frigorífico de comida para os rapazes que cá ficam, e fazer a mala, e mais uma ou outra coisita.
Por isso conto apenas isto: fui ao aeroporto buscar o colega que vai comigo para a Arménia. No caminho para casa dei umas voltinhas para lhe mostrar Berlim. Parámos na Filarmonia para eu lhe mostrar a surpresa da arquitectura, e de repente, sem saber como, demos connosco a assistir ao ensaio geral de um concerto histórico que vai acontecer amanhã.

***

- E que vais tu fazer à Arménia, Heleninha?
- Ora: assistir a um concerto histórico, claro. What else?

Depois conto.

1.4.2013 - Andean Explorer (Puno - Cusco)



Parece mentira. Há algo de completamente irreal no azul profundo do lago Titcaca, o verde das suas margens, o azulíssimo céu aqui tão perto.
Estamos no Andean Explorer, em carruagens com rosas verdadeiras na mesas e casas de banho espaçosas e muito limpas, em madeira e mármore.

(Puno)







Põem-nos a mesa com requinte, servem-nos um almoço excelente. Pela janela passam casebres e pastores pobres, e ocorre-me que seria assim que a família real atravessaria a miséria do país: transportada com luxo. Sinto vergonha.






Atravessamos o altiplano, passamos junto a barcos de junco abandonados na orla do lago e por entre cabanas de adobe, vemos rebanhos de lamas, bezerros a correr alegremente sobre as ervas, cholitas a fiar lã no centro da paisagem.





O comboio passa pelo centro de uma cidade, percorre a rua principal, com as suas tendas onde se encontra de tudo - desde livros a pregos, passando pelas inevitáveis folhas de coca, os legumes, a roupa usada que vem nos contentores dos EUA e da Europa. Os vendedores recolhem as suas mercadorias para mais perto da tenda, os compradores param para nos ver passar. Uma mulher tapa a cabeça com o avental - deve estar farta dos turistas e das suas máquinas fotográficas que tudo devassam. As crianças acenam, nós acenamos também.








No ponto mais alto da travessia, aí pelos 4300 m, o comboio pára junto a uma capelinha muito naïf e uma feira de produtos artesanais com vendedores muito pró-activos. Têm gorros lindíssimos tricotados à mão, mas são de tal modo insistentes que nem me apetece olhar para a mercadoria.
Uma velhinha,  com os dentes verdes de coca, oferece-se para ser fotografada no seu traje regional. Outra exibe-se com uma alpaca. Querem dinheiro para a fotografia. Não tenho dinheiro comigo, não fotografo. Mas devia ter algumas moedas, sempre. Aquelas pessoas vivem disso: de meia dúzia de turistas que, duas vezes por dia, saem de um comboio de luxo e lhes pagam para as fotografar. É um trabalho.




Surpreende-me a quantidade de árvores, arbustos e até flores que encontramos a 4.000 m de altitude.

Começa a descida para Cusco, ao longo de montanhas cobertas de neve, e a diversidade aumenta. Alguns quilómetros mais tarde entramos num vale muito viçoso, com casas bem mais ricas e confortáveis que as cabanas do altiplano, terraços de múltiplos verdes nas encostas.








As crianças regressam da escola nos seus uniformes, como se viessem de um internato inglês. Uma curiosa mistura: as casas de adobe, a paisagem dos Andes, o rosto de pequenos incas, e os uniformes de camisola verde-musgo, saias e calças cinzentas.






Está uma luz maravilhosa. A Christina sentou-se no último vagão do comboio, que é aberto, a conversar com uma amiga. O Joachim sente-se tonto de altitude e tenta dormir. O Matthias entremeia a leitura de um livro, que é trabalho para as férias, com o deslumbramento da paisagem. E eu vou fotografando, toda torta entre o cadeirão e a mesa. Quase deixo cair a máquina fotográfica quando descubro eucaliptos, cada vez mais eucaliptos naqueles montes. Até tu, Peru?

Chegamos a Cusco ao entardecer. Uma viagem memorável - pela beleza de paisagens, pelo extraordinário conforto. E pelas crianças que nos acenam, e por nós que acenamos como se de repente o mais importante do mundo fosse darmos sinais de os ter visto, para alargar ainda mais o sorriso naqueles pequenos rostos desconhecidos.