31 dezembro 2012

a luz ao fundo do túnel ...


"A luz ao fundo do túnel ... é um comboio" é uma gracinha que encontrei hoje no facebook. Respondi com outra gracinha, tipo "ainda bem, porque pensava que a luz ao fundo do túnel é o cartaz luminoso que anuncia o show de travestis do Coelho & Gaspar a fazer de Germania".

Mas o que queria realmente dizer, neste último dia de 2012, é (citando um amigo) que não se trata da luz ao fundo do túnel, mas do aqui e agora. A nossa vida não é quando conseguirmos enfim sair do túnel - é hoje, no coração das dificuldades. Que saibamos encontrar o passo seguro para atravessar a escuridão, e que saibamos encontrar os ombros amigos nos quais nos apoiaremos, os que se apoiarão em nós para caminhar.

Raramente um ano se apresentou com tão fracas garantias - pelo que teremos de ser nós a garantia do ano. Nela ponho nomes e rostos de pessoas amadas, e logo o 2013 começa a sorrir-se todo simpático para mim.

A quem aqui passa deixo estes votos: que o vosso 2013 se encha de rostos amados - e será então um bom ano.

***

Aproveito para deixar mais uns bocadinhos de sabedoria internética:



the curious case of Benjamin Button



Que vale um ano novo?
E logo este, que já entra com cara de velho.

por vinte euros


A Christina contou hoje que com vinte euros comprou várias camisolas grossas, um casaco de lã e um casaco de pele.
O meu coração de mãe alemã fica em sobressaltos: para ser tão barato, que espécie de químicos puseram na pele do casaco?
A minha costela europeia de culpa crónica também reage: como é possível produzir tanto por tão pouco dinheiro? Pobre gente explorada!
A não ser - alvitra o meu lado português - que tenha andado a comprar coisas nos contentores de alguma dessas entidades que recolhem no primeiro mundo para distribuir no terceiro. Nesse caso, vinte euros é uma roubalheira!, diz o meu lado suábio. E ainda se arrisca a apanhar sarna, ai!, acrescenta a higienista compulsiva que há em mim.

Esta minha identidade cultural múltipla é um desassossego.

28 dezembro 2012

mais um caso de plágio

A Casa das Belas Adormecidas, lembram-se?, a história de um homem que passa as suas noites ao lado de uma virgem, a pensar na vida, e que assim e que assado, e porque não?, etc.

Neste Natal (com uns anitos de atraso, reconheço) ocorreu-me a evidência: é o São José! 
A história está escrita há dois mil anos. Ai o malandro do Kawabata...

(Depois hei-de ir verificar: será que Terra de Neve é uma outra maneira de dizer Betânia?)

tão simples e tão óbvio


Do jornalzinho da loja de fair trade do meu bairro:

O Nicolau vem do Gana

A época de Natal é também uma época de comer chocolates - o comércio sabe esta verdade, e todos os anos aumenta o sortimento a partir de Outubro. Nas prateleiras juntam-se, entre outros, cerca de 160 milhões de Nicolaus de chocolate que esperam por um comprador.
O crescente mercado alemão abastece-se de cacau sobretudo na África, e as regiões produtoras ganham com esta nossa vontade de comer doces: mais de 30 países em vias de desenvolvimento e mais de 14 milhões de pessoas vivem da produção do cacau. No entanto, devido à variação dos preços mundiais e às estratégias das grandes empresas, apenas alguns destes produtores conseguem ganhar o suficiente para assegurar às suas famílias um nível de vida digno, a longo prazo.
Uma das consequências da pobreza nas regiões agrícolas é o trabalho infantil. As crianças são chamadas a contribuir para o sustento da família, e não têm tempo para ir à escola e para terem uma infância normal. Pior ainda: há plantações na África ocidental onde as crianças trabalham em condições de escravatura, às vezes até 15 horas por dia.
O Fair Trade ajuda: proíbe a exploração do trabalho infantil, garante preços mínimos e uma margem para, por exemplo, cuidados de saúde ou de educação. Já há 57 organizações de produtores de cacau integradas no sistema do Fair Trade. Mas podem ser muitas mais. Talvez um dia o S.Nicolau deixe de ser apenas o patrono dos vendedores, para passar a ser - em chocolate - um símbolo do comércio justo. Era o melhor que lhe podia acontecer!


27 dezembro 2012

acudam - no facebook há um hacker brasileiro a escrever em nome do Primeiro Ministro de Portugal

"Amigos,

Este não foi o Natal que merecíamos. Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram. Muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa. E muitos não puderam dar aos filhos um simples presente.

Já aqui estivemos antes. Já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos, já demos aos nossos filhos presentes menores porque não tínhamos como dar outros. Mas a verdade é que para muitos, este foi apenas mais um dia num ano cheio de sacrifícios, e penso muitas vezes neles e no que estão a sofrer.

A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.

A Laura e eu desejamos a todos umas Festas Felizes.

Um abraço,
Pedro."

***

Uma ajudazinha aos senhores da Judiciária que tratarão deste caso: procurem o criminoso entre as pessoas que para comer se sentam em mesas, em vez de se sentarem em cadeiras. É um caso fácil de resolver - não deve haver muita gente a comer assim.

26 dezembro 2012

the twelve days of Christmas



Na Alemanha não são doze, são três. Gosto deles todos: este tempo em que tudo abranda.

24 dezembro 2012

não sei como é que faz, que a cada ano chega mais cedo!

Este ano, por exemplo, começa daqui a bocadinho. E eu, que tenho andado a cuidar de ser tranquilamente feliz em vez de preparar o Natal como de costume, suspeito que só vou conseguir armar o presépio e decorar a árvore de Natal lá para o dia 26. E embrulhar os presentes no dia 27.

A todos os amigos que por aqui passam, desejo um Natal tranquilo, e feliz,

e de inclusão



e de diálogo 


(beeeem, na medida do possível - que isto é apenas Natal, não é Natal e Páscoa ao mesmo tempo...)

21 dezembro 2012

sonata de Outono - andamento prestissimo (Dresden)



A primeira vez que me lembro de alguém ter falado de Dresden foi no dia 13 de Fevereiro de 1990 - o meu sogro passara toda a manhã mal disposto, e à hora do almoço referiu o terrível bombardeamento da cidade, os muitos milhares de refugiados mortos pelo fogo - uma notícia que marcou fundo a sua infância. A segunda vez, tínhamos acabado de nos mudar para Weimar, nem televisão tínhamos ainda: enquanto esvaziava caixotes, ouvia na rádio notícias trágicas sobre a Florença do Elba debaixo da água - o Zwinger inundado, a Semperoper e todo o centro histórico também.

(fonte

A terceira, foram os meus sogros, de novo: tinham ido a Dresden, regressaram fascinados, contavam sobre a Marienkirche, e sobre um professor de engenharia que aguentou a ruína durante quarenta anos: sempre que queriam destruir o que restara do bombardeamento, ele pedia que não o fizessem já, que tinha uns doutorandos a pesquisar a estática da igreja, e que lá se ia o trabalhinho todo buldózer abaixo. A quarta vez, foi a caminho da Polónia: ao passar junto a Bautzen, ao maravilhar-me com a beleza daquela terra, a alemã que conduzia o carro perguntou se eu não conhecia Dresden - "tens de lá ir, essa sim, é uma cidade realmente bonita". Finalmente, a exposição Friederisiko, sobre Frederico o Grande, que fizeram este ano em Potsdam, apresentava Dresden como o objecto cultural da cobiça do prusso - os quarenta vasos de cerâmica de Meissen em estilo "bola-de-neve", expostos no Neues Schloss de Potsdam como valiosíssimo troféu da guerra ganha, o famoso quadro que Frederico deixou ficar na cidade, limitando-se a mandar fazer uma cópia para o seu palácio - como quem apregoa que também sabe ser magnânimo.

O que tem de ser tem muita força: tínhamos de ir a Dresden, e o fim-de-semana do meu aniversário dava um óptimo motivo. Chegámos ao fim da manhã de sábado, e largámos rapidamente para o Zwinger. O famoso Zwinger, onde arquitectura e arte se combinam e misturam como se fossem a mesma coisa. Avisaram-nos que às quatro havia uma visita guiada aos Alte Meister, pelo que resolvemos ir antes disso até à Marienkirche, a igreja recentemente reconstruída.





Fomos andando pelo meio de todos aqueles monumentos, entrámos na igreja, tentámos destrinçar o que restou da antiga e o que é novo, descobrimos chocados a cruz de ferro toda retorcida que se salvou do incêndio - e subimos à torre. O que foi uma asneira enorme, porque lá de cima vê-se perfeitamente a cicatriz da guerra: a cidade medieval e barroca toda destruída, os prédios da RDA e da ofensiva de construção civil desenfreada que se seguiu à queda do muro, os lugares de desterro entre as casas - uma paisagem urbana que não resulta de um crescimento lento e doce ao longo dos séculos, uma cidade que dói.


Olhando com cuidado para as casas, vê-se bem que se limitam a citar a antiga arquitectura. Um conjunto estranho, um quer-mas-não-pode. Que fazer de uma cidade inteiramente destruída? Os polacos sabem reconstruir como se nada se tivesse passado. A RDA construía caricaturas do que foi. A RFA reconstruía com um ar de novinho em folha, os objectos a brilhar com uma perfeição que os fazia parecer o que são: artificiais.
Em Dresden vi os edifícios históricos com a fachada reconstruída, alguns deles com interiores inteiramente modernos, e ruas com casas "à la mode" (para citar ementas de restaurantes americanos) - sublinhando a mentira de todo o cenário. Parece-me ser um caso exemplar de "sei que não vou por aí", porque o resultado é deprimente.


  


Comemos uma salsicha na rua, entrámos num café muito bonito no terraço de Brühl (a "varanda da Europa", dizia Goethe) para um intervalinho de café e bolo: sentados no meio de reproduções de quadros famosos dos museus de Dresden, olhando para o rio que corria do lado de lá da porta de vidro.

Descobri finalmente o nome daquele famoso bolo que comi em Praga: pelos vistos, é uma especialidade de Dresden, o "dresdner Eierschecke" - mas o de Praga era mil vezes melhor, e agora podia fazer um pequeno discurso sobre a globalização, para concluir que não é boa ideia exportarmos pastéis de nata, até porque já conheço em Berlim um cozinheiro alemão que os faz deliciosos, ai a nossa vida!


Saímos do café pouco depois das três, já o sol lançava uma luz rasa de fim de tarde.




Antes da visita guiada à pinacoteca, percorremos a parte do Zwinger dedicada à cerâmica. "Enfim", pensava eu, "cerâmica não é propriamente o que mais me interessa na vida, mas já que está incluído no preço do bilhete..."
Cerâmica não era o que mais me interessava na vida, mas uma pessoa não consegue atravessar aquelas salas e sair ilesa. E mais não digo - só visto!

Os Alte Meister estavam todos lá. Tantos, e em tal profusão, e tão conhecidos, que às tantas me perguntava se sobrou algum para os outros museus. Tantos, que a guia nem sequer conseguiu falar de todos os mais importantes. No fim da visita percorremos de novo as salas onde já tínhamos estado,  descobrindo por nós o que ela não mostrara: "olha ali aquele Rubens famoso, Leda e o cisne!" e "olha esta cena sub-aquática, que coisa impressionante!" e a colecção espanhola e francesa, em cujas salas nem chegáramos a entrar. Numa sala mais longínqua vimos um conjunto genial de retratos do séc. XVI (como é que a modernidade já tem 500 anos?), e tantos outros. Os Alte Meister pedem vários dias, e muitas horas de visita guiada.

Os guardas começaram a avisar que eram horas de fechar, e nós vimo-nos tristemente obrigados a sair. Atravessámos a praça, e fomos à Semperoper buscar os bilhetes que tínhamos reservado. Tencionávamos ir ainda ao hotel vestir algo mais adequado à ópera, mas descobrimos, ao levantar os bilhetes, que nos tínhamos enganado na hora. Começava às sete, e não às oito - daí a uns minutos!

O Joachim olhou desconsolado para as suas calças de ganga, para a camisola desportiva. Eu, da segurança das minhas botas elegantes e do meu vestido todo-o-terreno, animei-o: "somos berlinenses, não precisamos de nos preocupar com esses detalhes". Enchemos os bolsos com rebuçados Ricola que estavam à mão de semear em caixas enormes (grande ideia!), reservámos o vinho e os petiscos de salmão para o intervalo (sim, que não faço anos todos os dias), e sentámo-nos na galeria, a saborear o ambiente. Metade do público parecia ter vindo de Berlim, embora alguns tivessem tido tempo de ir ao hotel mudar de roupa. Havia senhoras com vestidos fascinantes - infelizmente, não tive coragem de fotografar um vestido sem costas que nem era preciso ver mais nada. E havia também as pessoas socializadas na RDA, que vestiam a sua roupa de excelente qualidade, mas com design dos anos oitenta ou noventa (tanto que podíamos aprender com eles! e tanto que o nosso planeta agradeceria!).

Uma certa euforia tomou conta de nós: estávamos na Semperoper. Olhávamos para a decoração das paredes e dos tectos, os edifícios históricos à volta da praça. Um sonho.







Antes do início da ópera, a Flauta Mágica, três figuras faziam pantomina no palco. Eram os três génios, vestidos com uma curiosa roupa que me deixava indecisa entre os teletubbies e o cirque du soleil. Descobriria mais tarde, à terceira vez em que o Papageno falava da falta de uma mulher, e pela terceira vez lhe saía um patinho vermelho pela carcela: ah, afinal eram os teletubbies. A figura da rainha da noite, com laivos de domina, e das três damas, com mamas e nádegas enormes, encaixavam bem no conjunto. A ópera foi salva por Sarastro e Pamina, excelentes cantores.
A famosa Semperoper é isto? Para isto é que pagámos bilhetes tão caros?, pensávamos desconsolados. Será que as pessoas compram a marca "semperoper", para receber espectáculos com qualidade de "discount"? Um fenómeno a observar com mais cuidado.





Na praça, os edifícios-cenário exibiam-se numa glória reforçada pela noite, e nós fomos jantar a uma cervejaria bávara.




(Ooops, este post já vai enorme, e ainda falta o domingo inteiro!)

No dia seguinte saímos à procura de um sítio onde tomar o pequeno-almoço (aviso aos viajantes: tomem o pequeno-almoço no hotel), e depois invadimos o palácio, para conhecer a colecção da Grünes Gewölbe e a Türckische Cammer. O palácio ardeu praticamente todo na sequência do bombardeamento, mas depois da reunificação resolveram reconstruir as antigas salas de exposição, no rés-do-chão, segundo o modelo histórico e aproveitando o máximo do que fora possível salvar. O resultado é muito bonito, e a colecção (o que não foi destruído na guerra, o que não foi retido como despojo) é fascinante. E demasiado - seriam precisos vários dias para apreciar convenientemente tudo aquilo.
Começámos pela colecção de objectos do império otomano, testemunha da febre de orientalismo que atravessou aquela corte. As tendas de cuidadosos bordados, as armas cheias de ornamentos, as roupas, os arreios dos cavalos, os quadros e as descrições das festas da época - coisas do outro mundo. Praticamente tudo recebido como presente diplomático, ou comprado por um enviado de Augusto o Forte, grande apreciador dessa cultura, que se aproveitava bem dos conhecimentos do súbdito (e também da mulher dele - a maitresse turca do rei. Aquilo eram uns tempos que sabe Deus...).
No antigo Grünes Gewölbe fomos esmagados pela colecção e pelas salas. Na parte moderna da exposição demos o tilt. Não é possível ver tanta beleza num dia só (parece que me estou a repetir, mas é mesmo só para deixar bem claro). O "microgabinete", por exemplo: uma salinha com peças para apreciar à lupa, onde se vêem curiosidades como um caroço de cereja no qual esculpiram umas 150 cabeças. E não vou contar mais, que estou a ver se acabo este post ainda hoje.

Saímos do palácio, fomos em busca de um restaurante para almoçar. Encontrámos um engraçado: o Augustiner an der Frauenkirche - restaurante da Baviera! Parece que Dresden foi invadida por bávaros - ou empresas de restauração, ou turistas, ou ambos (é o mais provável).



Começava a ficar tarde, mas resolvemos espreitar ainda o Albertinum, com a sua colecção de arte moderna - a Galerie Neue Meister, que pouco fica a dever à Galerie Alte Meister do Zwinger.

Depois regressámos a Berlim. Mas (não tenho a certeza de já ter dito isto) voltaremos a Dresden!
Tanto mais que só depois me disseram que não vimos a parte mais bonita da cidade, a Neustadt. E não tivemos tempo de ir à Pfunds Molkerei.

 (fonte)





Hélène Grimaud e Sol Gabetta

O concerto de que falei neste post pode ser visto durante os próximos 80 dias aqui (procurar o concerto com os nomes das duas).
Podem começar aos 1:34, Rachmaninov + pianista inteira na cara nua, e depois voltar ao princípio. Ou ficar numa de repeat, como eu.

(Ouvem-se algumas tosses, mas nada como se ouviu lá. Os rapazes da Arte live web fizeram um bom trabalho.)


entretanto na Austrália...

Not photoshopped picture of Australia at the moment:





uma tragédia com traços humanos

Já faz mais de dois ou três dias que não falo do Kaminer. Imperdoável!
Antes que o mundo acabe, traduzo rapidamente um artigo do suplemento cultural do Tagesspiegel de 20.12.12 - não vos vá acontecer de irem desta para a próxima era sem alguma informação essencial...



DEUTSCHES-SYMPHONIE-ORCHESTER - Wladimir Kaminer escreve um texto para "Ivan, o terrível", de Prokofiev - e participa ele próprio como narrador, czar e bobo.


Wladimir Kaminer já está a contar os dias. A 21 de Dezembro, irá para a sua datscha em Brandeburgo com os dois filhos e Olga, a sua mulher, para fazer uma pequena festa do fim do mundo.
"O fim do mundo já é há muito um tema importante na Rússia", conta ele, divertido. Não apenas em 1991, quando a União Soviética se desmoronou. Também depois havia rumores sobre os mais variados cenários apocalípticos. Actualmente está à venda um set para o dia X: "com velas, trigo, vodca, sabão e uma corda", informa Kaminer, que entretanto se tornou um especialista em curiosidades russas. E que também está bem preparado, de tal modo que podemos partir do princípio que irá sobreviver ao apocalipse.
É que tem ainda muitos projectos. Em Janeiro vai trabalhar com o maestro Tugan Sokhiev e a Deutsche Symphonie Orchester. O novo maestro da orquestra apresenta o oratório de Prokofiev, "Ivan, o terrível", e Kaminer tem nele um papel importante: está a escrever o respectivo texto, e vai participar em "três dimensões": como narrador, czar e bobo.
"De cada vez que aparece um ditador, os russos procuram as suas raízes", diz Kaminer. E encontram Ivan IV, que fundou o império russo. Em tempos, o inventor da "Russendisko", que vive em Berlim desde 1990, estudou intensamente a História russa. "Ele queria fazer de Moscovo a 'terceira Roma' - e foi com certeza um modelo para Estaline", diz ele sobre o usurpador, que na realidade devia ter o cognome "o ameaçador".
Entre 1942 e 1945 Sergei Eisenstein fez um filme sobre Ivan Grosny. As ordens vieram directamente do Kremlin. A primeira parte mostra a ascensão do czar, a segunda parte faz alusões ao domínio pelo terror de Estaline, e começou por ser proibida. "Prokofiev compôs a música depois da evacuação", conta Kaminer. "Está fortemente influenciada pelo início da segunda guerra mundial".  Mas ao pathos da ópera contrapõe a sua própria visão. Para Kaminer, Ivan IV é também uma figura cómica. "As suas intenções eram grandes e belas", anuncia, em tom de propaganda, "mas todos os seus planos fracassaram devido à fraqueza do material humano. As pessoas não se aliaram às suas ideias. As mulheres morriam-lhe." Encontra semelhanças com Estaline: "Também a maravilhosa ideia do comunismo falhou devido à falta de vontade da população de se entregar a esse ideal." O que torna Kaminer famoso é, mais ainda que o facto de ser um fantástico contador de histórias, o seu humor picaresco. "O maestro implorou-me que não escreva nada divertido", revela ele, sorrindo maliciosamente. Ele tentou: "A meia dúzia de linhas que escrevi fazem dele quase uma história triste. Quando o pathos se dilui em textos claros e sóbrios, esta tragédia ganha traços humanos."

Philharmonie: première 12.1, 20:00
Repetição: 13.1


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O jornal traz um outro artigo sobre Kaminer, informando sobre o evento "Natal em Russo", no Volksbühne (sem link na internet). Diz mais ou menos isto:

Quem não aguenta mais o Natal em casa junto ao pinheirinho com luzes LED, pode refugiar-se no teatro Volksbühne. Wladimir Kaminer convida de novo este ano para um "Natal em Russo" - e de certeza que não vai ser contemplativo. Será mais entre o alegre e o divertido.
O escritor já falou sobre a diferença entre o Natal russo e o alemão numa crónica que apareceu no "taz" a 22.12.1998: "vodca de barbear". O Natal alemão é uma festa chata - todos se metem em casa, e escondem-se atrás de um ganso assado. No Volksbühne, Kaminer mostra como deve ser uma festa de Natal em cheio. O programa é mais que uma sessão literária, embora ele leia alguns excertos dos seus livros - talvez até inéditos. Mas também vai haver música e dança - a partir das onze da noite começa a lendária russendisko. Talvez antes se ouça a canção "Moskau, Moskau" de Dschinghis Khan, com a receita para a festança: "atirem os copos à parede, a Rússia é um belo país".

Volksbühne, 24.12, 21:00; Russendisko a partir das 23:00 no Roter Salon (18€/14€)


Dschinghis Khan - Moskau - MyVideo


Às vezes penso que o Natal foi inventado por um grande sádico. Quando as pessoas estão bem e felizes com as suas famílias, é uma festa maravilhosa. Quando não estão bem, o Natal multiplica exponencialmente a sensação de desconforto. Por esse motivo, este "Natal em Russo" é um grande serviço prestado por Wladimir Kaminer. Bem lhe podiam dar uma medalhinha por serviços humanitários!

"que faz parte da minha infância"

O Matthias chegou a casa depois da escola e contou que tinham visto um filme, na aula de francês, e que nele ouviu uma música que não sabia de quem era, mas fazia parte da sua infância. "Lembras-te qual era aquela música que ouvíamos muito?", perguntou, como se fosse fácil.
Depois de muito pesquisar, descobrimos. Esta:



Lembro-me bem de quando descobrimos esse CD e ouvíamos essa música em repeat: a descoberta da costa amalfitana (ouço os primeiros acordes: vejo os montes sobre o mar azul, a paisagem salpicada de casas, as fachadas pintadas com trompe l'oeil), o almoço no paredão de Portofino, a cartuxa de Pavia (e o frade a explicar o silêncio apenas cortado pelas leituras da bíblia no refeitório, ao domingo, "uma vida muito dura, mas pacífica"), o Carnaval em Veneza com o Matthias sempre às cavalitas. E Paolo Conte, Paolo Conte, Paolo Conte. Parte da infância dos nossos filhos.

20 dezembro 2012

antes que o mundo acabe...


Quero agradecer à Ellen Degeneres o que já me fez rir com este bocadinho:

preparando o fim do mundo




O Matthias vai fazer hoje com os amigos uma pequena festa do fim-do-mundo: vão comer sushi, depois vêem um filme, depois dormem aqui.

Eu vou tratar de me despachar a preparar as coisas para o Natal, que amanhã às três da tarde chega a minha sogra, e o fim do mundo era ela encontrar a nossa casa no estado em que está neste momento.

Há também quem se faça ao caminho, com destino a Bugarach, a aldeia que vai escapar ao apocalipse porque tem por lá uns extraterrestres com OVNIs e tudo.

Ontem ouvi dizer na televisão que não é ainda o fim do mundo. É apenas um pouco tarde, diria o outro. É apenas um pouco cedo, disseram eles. O calendário Maia chegou ao fim, começa agora uma nova era.

Gosto da ideia de começar uma nova era. Há algo de muito prometedor neste chegar a um fim e estar perante todo um princípio. Um princípio que podíamos fazer nosso.
Penso um pouco mais, e dá-me uma espécie de cansaço: não, provavelmente uma era inteira não chega para despirmos os egoísmos e aprender a viver com os outros em justiça e paz. Tanto trabalho para fazer! O melhor é começar hoje mesmo, dia 20 de Dezembro de 2012, a preparar o princípio de um novo mundo.

(mas eu, para já, vou arrumar a casinha...)

Dennis Hopper - The Lost Album. Vintage-Fotografien aus den 1960er Jahren






Estavam perdidas numa cave, cinco caixas, e numa delas alguém escrevera "decorações de Natal". Eram as fotografias que Dennis Hopper escolheu para uma exposição em 1970 e 1971, fotos que testemunham a sensibilidade do seu olhar sobre os anos 60 da América do Norte: de Martin Luther King a Andy Warhol, passando por legiões de Hells Angels com símbolos nazis na roupa e nos capacetes. As fotografias estiveram agora no Martin-Gropius-Bau em Berlim, tal e qual como na exposição original.

Uma das primeiras mostra a Tina Turner a lavar a roupa (o que confirmou a minha convicção de que ainda hei-de acabar artista famosa - é só perseverar e não desistir nunca de lavar a roupinha com toda a dedicação).



O Paul Newman, lindo, claro, e outros figurões:



 (fonte)




(Robert Rauschenberg with his tongue stamped “Wedding Souvenir, Claes Oldenburg,” 1966. Daqui.)

A fantástica "double standard" que me prendeu e fez sorrir longamente:




A crítica corrosiva:




E muitas mais. Mais de 400. Algumas daquelas tipo ovo de Colombo, "até eu podia fazer, como é que não me lembrei disso antes dele?" (não me lembrei disso antes dele, porque ainda nem tinha nascido quando ele começou a reparar no poder estético de detalhes como texturas, das combinações de cartazes ou letreiros com figuras humanas,  etc.), outras com jogos geniais de reflexos e sombras, outras feitas de um olhar cru sobre a natureza humana.

Havia também uma pequena advertência para o nosso tempo:


E uma série muito curiosa de fotografias da sua própria casa. Uma confusão de tralha diversa, e cartazes a fazer de papel de parede. Como este, na casa de banho:


A foto foi feita com o meu telemóvel - infelizmente, não ficou muito bem. Paralizada em frente ao original, agradeci ao Dennis Hopper abrir-me (escancarar-me!) os olhos para a extraordinária malandrice dos publicitários dos bons velhos tempos antes de eu ter nascido, esses tempos de impoluta moral, quando tudo ainda era certinho como devia ser...

Quando terminei de saborear as fotografias estava a começar o filme "easy rider". Hesitei - queria muito vê-lo - mas depois decidi ir para casa lavar a roupa e passar a ferro, que começa a ser tempo de fazer pela vida e tratar de ganhar o meu primeiro  Grammy.

19 dezembro 2012

ah, Camões!


Piazzolla inesperado



Ontem havia violetistas a tocar Piazzolla no foyer da Filarmonia. Quatro violetistas da Filarmónica. Estavam três destes que tocam no filme, e a Julia Gartemann em vez do Matthew Hunter (o da direita).

Gente que sabe é outra coisa. Às vezes fechava os olhos, e até me esquecia que o tango não se toca com violas, quase imaginava um acordeão.
(ou eles tocam muito bem, ou eu estou mais surda do que pensava, e a tirar pelo sentido...)

18 dezembro 2012

o sublime e o boçal


(foto roubada no facebook da Sol Gabetta - um autêntico caso de "olha eu ali, mesmo atrás da Hélène Grimaud")

Não esperem de mim que diga que o concerto de ontem da Hélène Grimaud e da Sol Gabetta foi sublime - não esperem de mim que chova no molhado.
Mas pronto, eu chovo: foi sublime, especialmente a sonata op. 38 de Brahms, em particular o segundo andamento.



O que foi também extraordinário:

- o primeiro encore, Ernest Bloch (e a Hélène Grimaud a esculpir-se sobre o piano nos acordes finais)



- o segundo encore, Rachmaninov



- por sorte a Hélène Grimaud leu este blogue e desta vez trouxe uma bandolete a segurar o cabelo. E depois do intervalo até vinha de rabo-de-cavalo. Querido Pai Natal, este ano não precisas de me trazer mais presentes.

E a tanto sublime, como responde o público? Com um extraordinário ataque de boçalidade. Parecia que estavam combinados. De deitar as mãos à cabeça: não apenas as tosses aqui e ali a cortar a música, sobretudo nos momentos mais leves - muito mais que isso, o trovejar de tosse e catarro por toda a sala nas pausas entre andamentos; um "juuuuh!" seguido de ovação a meio de uma peça (como se a Grimaud e a Gabetta tivessem acabado de marcar um golo). E o mais inacreditável foi um senhor do público a escarrar os pulmões a preceito, com exclamações de alívio e tudo, e a Hélène Grimaud a virar a cabeça por cima do ombro, procurando o autor de tal sinfonia com uma expressão chocada, "mais qu'est-ce que c'est ça?!!!"
Foi uma sorte não terem parado ali mesmo.
No fim das peças saíam do palco de mão dada, em sorrisos e cochichos. Imagino o que diriam de nós do lado de lá da porta...


ADENDA - o concerto completo, aqui:

17 dezembro 2012

ai!


Inventaram chocolate com sabor a sushi.
Tenho uma amiga que leu numa revista que o chocolate faz mal à dieta. Mas nos tempos que correm já não se pode confiar na comunicação social, é o que vale. 
Por isso: cá vou eu! Sem remorsos antecipados, nem nada. 

(Ai. Que isto ainda vai acabar mal.) 

estrelas


Para o concurso de Natal deste ano, pensei oferecer ao senhor barbeiro estas estrelas. Tudo a ver: uma menina nada piegas, que generosamente dá o último naco de pão e a última camisa, e é recompensada pelas estrelas (seriam doze, em círculo?) que se transformam em moedas de ouro. Tinha de ser um conto alemão, claro.

Mas, infelizmente, para o Luís Novaes Tito este não é um tempo de brincadeiras.
Hors concours, deixo-lhe aqui essa imagem - não por causa das moedas, obviamente, mas por essas estrelas que vêm ao encontro de quem sofre, como se quisessem dizer "nós vimos, nós sabemos de ti: não estás só". Como os amigos, Luís. Com um abraço.


***

A história dos irmãos Grimm, para quem não conhece:


Les ducats tombés du ciel 

Il était une fois une petite fille dont le père et la mère étaient morts. Elle était si pauvre qu’elle n’avait ni chambre ni lit pour se coucher; elle ne possédait que les vêtements qu’elle avait sur le corps, et un petit morceau de pain qu’une âme charitable lui avait donné; mais elle était bonne et pieuse. Comme elle était abandonnée de tout le monde, elle se mit en route à la garde du bon Dieu.

Sur son chemin, elle rencontra un pauvre homme qui lui dit: “Hélas! J’ai si grand’ faim! Donne-moi un peu à manger.” Elle lui présenta son morceau de pain tout entier en lui disant: “Dieu te vienne en aide!” et continua de marcher. Plus loin, elle rencontra un enfant qui pleurait, disant: “J’ai froid à la tête; donne-moi quelque chose pour me couvrir.” Elle ôta son bonnet et le lui donna. Plus loin encore elle en vit un autre qui était glacé faute de camisole et elle lui donna la sienne; enfin un dernier lui demanda sa jupe, qu’elle lui donna aussi. La nuit étant venue, elle arriva dans un bois où un autre enfant lui demanda une chemise. La pieuse petite fille pensa: “Il est nuit noire, personne ne me verra, je peux bien donner ma chemise,” et elle la donna encore.

Ainsi elle ne possédait plus rien au monde. Mais au même instant les étoiles du ciel se mirent à tomber, et par terre elles se changeaient en beaux ducats reluisants et, quoiqu’elle eût ôté sa chemise, elle en avait une toute neuve, de la toile la plus fine. Elle ramassa les ducats et fut riche pour toute sa vie.

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16 dezembro 2012

o stress continua... (2)



Curiosamente, no post com o título "o stress continua..." vieram simpaticamente informar-me que me posso inscrever no concurso "os blogues do ano 2012" do Aventar.
O stress continua, não há dúvida!
Estou agora a pensar: inscrevo-me? não me inscrevo?
É que já sei como é, e não me dá jeito nenhum andar por aí, a usar os computadores dos foyers dos hotéis para votar em mim própria, e a telefonar à minha sogra para ela telefonar às amigas para votarem em mim (sim, que já basta a Merkel, não é preciso envolver agora toda a terceira idade alemã para mudar os desígnios portugueses).
Portanto, trespasso a pergunta aos leitores: acham que me inscreva, ou ficamos assim e tratamos de saborear o mais tranquilamente possível esta época natalícia, e em Janeiro tratamos de saborear o mais tranquilamente possível a época pós-natalícia?
(Também é verdade que correr os foyers de todos os hotéis de Berlim é uma boa ideia para queimar as calorias da época... E ainda arranjo de entrar para a iconografia da cidade, torno-me na famosa "penetra da internet")

não há amor como o primeiro!

Tenho andado por aí a dar com a cabeça nas paredes, ele é a Konzerthaus, ele é a Semperoper, ele será num futuro próximo o Radialsystem
(as más companhias, as más companhias, já avisava a minha avó - tenho uma amiga que não desiste enquanto não me levar ao Radialsystem, e eu estou a ponto de me deixar convencer, então desde que vi que eles têm um programa de "night music" em que as pessoas ouvem a música estendidas em colchões de yoga, ai, agarrem-me que...)
mas ontem fui à Late Night na Filarmónica de Berlim, e saí de lá a sorrir. Muito depois do bengaleiro, muito depois de ter entrado no carro - ainda a sorrir. O Simon Rattle, ah, o Simon Rattle! Não há amor como o primeiro.

O programa começou com Paul Hindemith, Kammermusik nr. 1, op.24,  nr. 1 (gostei especialmente da terceira parte, ao minuto 4:30, "muito lento e com expressão"):



O Final:



Seguiu-se "Being beauteous", cantata com poema de Rimbaud, de Hans Werner Henze. Simon Rattle falou do compositor, "um amigo de há quarenta anos", que morreu recentemente. Disse "esta belíssima peça é também um In Memoriam", e a voz embargou-se-lhe.



O problema é que nunca gostei de Henze. Não será o meu primeiro desamor, mas nisso de desamores sou igualmente fiel a todos. A soprano bem se esforçava, o Simon Rattle bem se esforçava, os músicos davam tudo por tudo, mas eu...
A minha amiga gostou muito, por isso fiz-lhe um jeitinho e aplaudi com força.

Seguiu-se uma pausa forçada - Simon Rattle veio ao palco pedir desculpa, sorrindo: "costume change..."
Finalmente voltaram ao palco. A soprano toda vestida de novo. Será que havia necessidade?
Pouco depois percebemos que sim - a última peça, de William Walton, não tinha nada a ver com as anteriores. E foi interpretada com um enorme sentido de humor. Soprano e maestro trocavam de papéis: dirigiam e declamavam alternadamente (excepto daquela vez em que o Simon Rattle veio meter o bedelho na direcção da soprano, e mandou calar os músicos mal a maestrina os tinha mandado começar). E o Rattle a esganiçar a voz na parte em que fazia de rainha Vitória? E a soprano, a Barbara Hannigan, no fim da peça, que só se lembrou que também era maestrina quando o Simon Rattle já ia a meio de cumprimentar os músicos, e foi com grande espalhafato de atrapalhação fingida cumprimentá-los também?
Depois admiram-se que a gente saia daquela sala com um sorriso compulsivo.



15 dezembro 2012

o stress continua...

Hoje passei pela Filarmonia com amigos de Weimar. Queríamos ir ver a exposição do Schinkel, no Kulturforum, mas antes aproveitámos para fazer a visita guiada na famosa casa em frente. Ouvimos uma orquestra de câmara a ensaiar os acordes finais de uma peça barroca - tocaram a última frase pelo menos 5 vezes. São os stalker da perfeição, estes músicos.
Depois o orgão entrou em cena. Agora tem ainda mais tubos - no Verão instalaram as chamadas trombetas espanholas ("espanholas", dizem eles na Alemanha - são é ibéricas). Agora é que eu queria ouvir ali a oitava de Mahler! Mas talvez não ousem mais, talvez temam que a casa venha abaixo. Pois se já antes do Verão foi completamente avassalador, e não tinha essas trombetas viradas para o público!
O orgão calou-se, e nós descemos para perto do palco para ver o elevador dos instrumentos. Saiu o cravo, entrou o piano. "O do Pollini?", perguntei eu, que bem sei do concerto desta noite. "Não, não deve ser", disse a guia, "estou a ver o Marek Janowski, deve haver um ensaio para outro concerto". Um jovem pianista sentou-se ao piano, e a sala encheu-se de uma música clara e segura - que era aquilo? Parecia que estava a fazer variações sobre temas de Bach. Mais um em quem estar de olho: Alexej Golatch. No fim desse ensaio o piano seria retirado, para trazer um outro, o que acompanha o Pollini para todos os concertos. Naquela sala a azáfama não pára!

A exposição do Karl Friederich Schinkel está muito boa, mas o melhor de tudo foi vê-la com aqueles amigos, que há décadas estão ligados a alguns dos museus mais importantes da Alemanha, e conhecem as peças de outras exposições que organizaram, ou porque eles próprios as emprestaram. "Olha, está aqui aquele quadro engraçado do Hummel!" ou "emprestaram-me este quadro do Schinkel para uma exposição que fiz sobre o Goethe, para servir de contraponto" ou "o Schinkel conheceu Goethe e apreciava-o muito - aliás, só assim se explica que tenha aceitado fazer a sala em homenagem a Goethe no Neues Schloss; em si, o projecto não era muito interessante".
Ao percorrer as salas da exposição fui-me dando conta de quanto do que faz parte da minha vida é criação do Schinkel - não apenas os edifícios lindíssimos em Berlim, ou o jardim da ilha dos museus, mas também o céu estrelado do cenário da Rainha da Noite, na Flauta Mágica.





Gostei imenso do quadro "a noite cai sobre Nápoles" (infelizmente esta reprodução pouco tem a ver com o original):



Contava mais, mas neste preciso momento estou a ouvir em directo o concerto do Pollini no Digital Concert Hall (diz que vão tocar uma peça de Liszt que os nazis usavam para anunciar vitórias, diz que a escolha foi um bocado criticada - coitado do Liszt, sujeito a censura!)
E ainda tenho de fazer o jantar, e jantar, e sair para o Late Night. É a seguir a este concerto que estou a ouvir, e parece que hoje vai ser muito bom. Parece que o Simon Rattle e a soprano vão trocar de funções: ela dirige a orquestra, e ele... veremos.
Será que já disse hoje que esta cidade é um stress?
- Um stress feliz.

E lá vou eu!

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Nota, para quem vive em Berlim: o Late Night começa às 22:30, custa 10 euros. Quem te avisa teu amigo é.