31 outubro 2012

mais notícias do nosso mais novo







O Fox roubou-nos uma escova de dentes, e passa horas entretido a tratar da sua higiene dental.
Ainda vamos ficar ricos, vendendo fotografias dele para os consultórios dos dentistas.

***

O Matthias comprou-lhe uma coleira nova, de peito. "Arreios", digo eu. Parece um homenzinho, o nosso Fox!
E já começou a levantar a perna para fazer chichi. Aaai, crescem tão depressa...

(Também já anda de olho na cadelinha Yorkshire da vizinha. A vizinha espanta-se: "és muito precoce, Fox! com essa idade..." - quer-me parecer que "precoce" é a única palavra que ela encontrou para exprimir desagrado sem sofrer as consequências. É que ela bem me vê, às vezes ainda tenho na mão o saco com o cocó do bicho, e provavelmente optará por medir as palavras...) (Mas como se explicará esta precocidade? Pois se ele nem andou numa escola de freiras nem nada...)


dias de Outono



Na rua, o Fox fareja as folhas caídas no chão. Vira-as de um lado e do outro como se procurasse alguma coisa. Depois trota pelo tapete amarelo, atira as folhas em todas as direcções, fá-las restolhar com gozo.
(E como me lembro do som dos meus próprios pés de cinco anos a atravessar os passeios do Outono!)

Ontem chovia. A primeira vez que havia chuva e frio na rua. O Fox desceu as escadas do prédio, parou de nariz no ar, deu meia volta e mostrou-me sem margem para dúvidas que aquilo não é para ele.
É um cão português, pobrezinho. Vai-lhe ser um Inverno muito comprido...

Aline Frazão (e desta vez não é só para quem mora em Berlim)


A Aline Frazão canta hoje às oito da noite, no Lido, em Berlim.
Ontem, antes de começar a falar dos seus livros, o José Eduardo Agualusa referiu-se a ela com ainda mais encanto do que eu quando escrevo sobre o Simon Rattle. Que foi o António Zambujo quem pela primeira vez lhe mencionou aquele nome, e que ela não a conhecia, mas quando a ouviu foi como uma revelação. Que só lhe aconteceu isto duas vezes na vida, uma com a Aline, outra com a Marisa, ainda esta não era conhecida, estava a cantar num evento particular. E que a Aline Frazão é bem mais que aquela voz prodigiosa: é uma pessoa profundamente empenhada na sociedade angolana, que pretende melhorar a Democracia do seu país. Vão, pois, disse ele.

Eu ia, mas daqui a bocadinho saio para os nossos tradicionais quatro dias de Toussaint na França.

E para quem se queixar que estas coisas só acontecem em Berlim, pois aqui fica o aviso: no dia 4 de Novembro a Aline Frazão vai cantar em Lisboa, no cinema São Jorge, às nove da noite. O José Eduardo Agualusa já disse que vai a esse concerto, de modo que para os de Lisboa é um dois em um: levem os livros do Agualusa de que mais gostam, pode ser que venham de lá com um autógrafo todo catita.

30 outubro 2012

surpresas

Há pouco mais de duas semanas fomos à Baviera, à festa de uma amiga que fazia 50 anos. Chegámos na véspera do aniversário, quinze minutos antes da meia-noite. Mesmo a tempo de ver os vizinhos invadir a casa, com garrafa de champanhe e copos, e um muffin amoroso com uma vela em cima.
O marido e os filhos trouxeram então o presente que seria uma enorme surpresa: um ramo de flores, com letras que a aniversariante foi pousando em cima da mesa, para formar uma frase. Uma parte da frase foi fácil, "em vez de Berlim", mas com as restantes letras era-lhe impossível formar uma palavra. Depois de muito tentar, comentou: "a única coisa que me ocorre é Nova Iorque, mas isso não pode ser". No meio de muita galhofa os vizinhos terminaram a frase, "Nova Iorque em vez de Berlim", e mesmo assim levou-lhe algum tempo até perceber que o seu presente era uma semana em Nova Iorque com toda a família. Na semana das férias de Outono, que estava previsto passarem em Berlim.

Passámos o resto do serão em grande risota a propósito dos filhos e do marido a trabalhar clandestinamente durante seis meses para preparar a surpresa. De a terem praticamente obrigado a festejar esse aniversário em vez de desaparecer para Londres, como queria. De terem ido fazer os passaportes para os miúdos sem a assinatura da mãe, dos papéis escritos a vermelho que acompanharam todo o processo: "supresa para a mãe e esposa! não enviar correspondência para casa!" (no dia seguinte, depois de ela própria ter ido fazer um passaporte de urgência, e levantado os dos filhos, mostravam as folhinhas muito coloridas, em letras garrafais, que tinham vindo com os documentos - o pessoal da burocracia às vezes comove...). Do susto que a filha apanhou quando ouviu a mãe a combinar com a avó berlinense comprarem os bilhetes de comboio com antecedência, do SMS aflito que enviou ao pai. Do amigo que ajudou a arranjar um apartamento pagável em Brooklyn. Peripécias.

Na sexta-feira passada meteram-se no avião. Pouco depois de chegar, escreveram no facebook: já comprámos velas, a Sandy pode vir.

***

Gostei muito da festa de aniversário. Escolheram um restaurante instalado na antiga vacaria de uma quinta, um ambiente rústico engraçado. Os convidados eram recebidos com um "happy bithday" tocado no saxofone pelo marido e pelo filho da aniversariante, e eu via as pessoas passar com presentes lindamente decorados. Quase todos ofereciam dólares para a viagem, mas, em vez do habitual envelope, traziam uma pequena obra de arte. Gosto de ver a criatividade nos presentes dos alemães, o tanto que põem no mínimo que fazem.
A aniversariante quis apresentar as 70 pessoas que convidara, e arranjou uma maneira muito original de o fazer: "levante-se quem me conhece há 50 anos", levantaram-se os pais, a tia e a madrinha; "levante-se quem me conhece há mais de 40 anos", levantaram-se o marido da tia e os primos; etc.
Fiquei com vontade de fazer o mesmo em alguma festa nossa. De experiência em experiência, a minha vida vai-se enchendo de © © ©...
Algumas pessoas fizeram as gracinhas habituais antes de darem o seu presente em público. Puseram a amiga em cima de um skate para testarem o seu equilíbrio antes de lhe oferecerem um passeio de Segway em Munique, coisas assim (no dia seguinte, ela diria, furiosa: "qual é a ideia de me porem a fazer figuras tristes em público? isto é coisa de amigos?!" Mas parece que é uma tradição da Baviera. Pelo que eu conclui que, se festejar o meu 50º, não convido ninguém dessa região).
Quando um grupo de colegas lhe ofereceu uma voltinha de helicóptero em Nova Iorque, ela exclamou: "mas toda a gente sabia desta viagem?!" - Pois parece que sim...

Depois veio o DJ, e começámos a dançar. O homem era bom, parecia que conhecia as músicas de sempre da minha vida. As que dançava já aos 15 anos, e não me importaria de dançar aos 80. Às vezes o DJ fazia um gostinho aos mais novos, e punha a música deles. Eu pensava: coitados, dançam isto aos 15, talvez o dancem aos 50, talvez aos 80. Cá eu tive muito mais sorte com as músicas que me calharam para a vida!
No dia seguinte, fiquei a saber o segredo de um bom DJ: nunca se deve escolher alguém mais novo que nós. Estes alemães sabem-na toda...


29 outubro 2012

oferta de emprego em Berlim

Oferta de emprego para técnicos de geriatria. Se querem um pouco de contexto: na Alemanha, o problema da terceira idade está cada vez mais complicado. Há um número crescente de pessoas a precisarem de assistência contínua, e faltam alemães dispostos a fazer esse trabalho. As empresas estão a procurar profissionais desse ramo noutros países, e já se coloca a hipótese de "exportar" os velhinhos, porque os lares no estrangeiro são mais baratos. Não sei se acho muita graça à ideia de mandar para o sul da Europa a avózinha com Alzheimer, e se haverá alguma família que concorde com uma coisa destas. Mas parece-me que, para os portugueses profissionais neste ramo, se pode abrir aqui não apenas a possibilidade de aprender alemão e ganhar um salário mais alto que em Portugal, mas inclusivamente investir numa hipótese futura de regressar a Portugal para organizar serviços de apoio geriátrico para reformados alemães e austríacos.

***

Somos uma rede de cooperação constituída por vários lares de assistência contínua, com boa localização em Berlim. Procuramos técnicos de geriatria portugueses, motivados e empenhados no exercício das suas funções.

Trabalhamos segundo diversos modelos e métodos de assistência contínua como, por exemplo, no que diz respeito à demência. Todos os lares dispõem de um Departamento de Gestão de Qualidade, que comprova e aperfeiçoa o desempenho do nosso trabalho.

O que esperamos de si:

·        forte motivação para o aperfeiçoamento profissional
·        competência social e técnica
·        sentido de responsabilidade, capacidade de resistência /flexibilidade
·        satisfação no trato com idosos
·        competências nas TIC, para utilizadores
·        profissionalismo „ de coração”

Uma primeira experiência em cuidados continuados / geriatria, em regime de internamento, contituirá grande vantagem.

Oferecemos:

•     Cerca de 6 meses de curso de língua alemã intensivo
(a tempo inteiro, em grupos pequenos com máx 10 pessoas)
·        durante o curso de língua:
300 € mensais para ajudas de custo
passe para os transportes públicos
disponibilização de alojamento
·        contacto com a comunidade portuguesa em Berlim
·        após os 6 meses de curso de língua, um contrato de trabalho com uma remuneração de min. 1.500 Euros líquidos, como auxiliar de geriatria, durante o período de reconhecimento legal, pelas entidades alemãs, do Diploma de Formação Profissional obtido em Portugal.
·        após concluido o curso de língua alemã, a garantia de um contrato de trabalho como Técnico de Geriatria,  por um mínimo de 3 anos, com uma remuneração de min. 2.150 Euros líquidos.
·        Apoio na procura de apartamento
·        Remuneração e suplementos justos e adequados à atividade
·        Oferta de formação e formação contínua na área de trabalho
·        Oportunidade de participação nos círculos de qualidade e em grupos de trabalho
·        Possibilidade de progressão na carreira, tanto no lar como na empresa
·        Boa fase de integração no trabalho devido aos mentores da Casa

As candidaturas poderão ser enviadas online para um dos websites abaixo indicados, ou por escrito, para qualquer uma das moradas:

Wilmersdorfer Seniorenstiftung                     Graf Schwerin Forschungsgesellschaft mbH
Mrs. Nickoll                                                    Mr. Blauert
Lentzeallee 2-4                                              Königsberger Str. 36
14195 Berlin                                                   12207 Berlin
Tel: +49 30 / 897 930 – 46                             Tel: +49 30 / 772 053 60
Fax: +49 30 / 897 930 – 40                            Fax: +49 30 / 772 053 79

As entrevistas serão efectuadas em Lisboa, entre 7 e 9 de Novembro de 2012.
Os candidatos seleccionados receberão atempadamente um convite, com a indicação do local, dia e hora exactos.

Angola em Berlim




Depois de amanhã, 31 de Outubro, às 20:00, a Aline Frazão vai cantar no Lido Berlin.

E amanhã, 30 de Outubro, o escritor José Eduardo Agualusa estará na Embaixada do Brasil, às 19:00.




Quem o quiser ir ouver (*), faça o favor de se inscrever antes, enviando um e-mail para cultural.berlim@itamaraty.gov.br
(não é por nada, é só porque as pessoas se têm habituado a aparecer lá sem se anunciarem, a sala fica a rebentar pelas costuras, eu acabo por ter de me sentar no chão, e pode acontecer de os rissóis, ou aquele fantástico bolo de laranja, ou outros petiscos do género não chegarem para todos os que aparecem...)


No dia 6 de Novembro o escritor Ondjaki apresenta excertos das suas obras, no dia 8 será passado o seu filme "Oxalá cresçam pitangas".



Para esta Angola berlinense ser perfeita, perfeita e completa, só faltava mesmo o Chico a cantar "morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela..."

(Quem quiser saber que mais é que o festival Berlinda traz a Berlim durante estes 30 dias da cultura em português, e ainda não viu um dos 300 links que aqui tenho posto, aqui vai mais uma vez: festival Berlinda)


(*) Parece-me que este ouver é invenção do Valkirio. Com grande pena minha, que gostava muito de ter sido eu a inventar. 

aviso a quem mora em Berlim


Hoje à noite a Luisa Sobral vai cantar na primeira parte do concerto da Melody Gardot. É no Tempodrom, às oito da noite. Ainda há bilhetes, mas os mais baratos custam quase setenta euros.
De modo que agora estou aqui sem saber se me vão atirar tomates por ter avisado tão tarde, ou por ter avisado e os bilhetes serem tão caros...

27 outubro 2012

"Portugal tem de fazer política europeia"





Ora aqui está alguém que sabe, e que nos vem dizer que afinal há alternativa. Afinal, não é preciso apertar ainda mais o garrotilho aos pobres, não é preciso manter a classe média no caminho que leva da depressão ao desespero, não é preciso continuar a matar a economia portuguesa.

Portanto: se isto não tem dúvida, e se é simples e claro como a água, porque é que o governo português não muda o rumo?

O filme só dura 13 minutos, e tem tudo muito bem explicadinho, com mensagem e destinatários e tudo. É só o Passos Coelho e o Gaspar assinarem em baixo, meterem a cartinha no envelope, irem entregar em mão própria, pronto. E se lhes falta dinheiro, podem ficar a dormir na minha casa, que fica a escassos 10 km da Chancelaria, e tem bons acessos com transportes públicos - não seja por isso!

E até os ajudo, transcrevendo parte do que foi dito na entrevista (porque já percebi que eles são um bocado preguiçosos: preferem que o trabalhinho seja feito por mulheres em Berlim - e até nem se importam que não saia tão bem feito como o povo português exige, porque o que realmente interessa é poderem desculpar-se com um "ai, a culpa não é minha, foi ela que fez assim!..."):

Tem a palavra Maria João Rodrigues, conselheira da Comissão Europeia:

O novo consenso que se está a desenhar (...) consiste em dizer que países como Portugal têm de fazer o esforço de redução do défice e da dívida mas têm ao mesmo tempo que crescer, investir e criar emprego, porque isso é vital, é a razão última de tudo isto, mas também porque sem crescimento é muito difícil reduzir a dívida e o défice.
(...)
Portugal tem de estar muito atento à forma como o quadro europeu está a evoluir. Realmente há ano e meio havia um enfoque quase exclusivo na questão da redução do défice e da dívida, mas entretanto as coisas mudaram, porque há um balanço do que está a acontecer no terreno, porque há uma composição diferente do Conselho Europeu, e hoje o discurso oficial da União Europeia frisa bem que é necessário fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
(...)
Este programa proposto pela troika devia ser realinhado com este novo quadro europeu.
(...)
Há uma vertente negativa que, a meu ver, não é suficientemente conhecida do lado europeu, e que seria importante levar a conhecer, porque, a certa altura, há o risco da vertente negativa se tornar mais importante que a vertente de resultados positivos que estão a ser obtidos. (...) Não há nenhum problema em dizermos que estamos a fazer um esforço real, estamos a obter alguns resultados positivos, mas também há resultados negativos em relação aos quais o Conselho Europeu tem de estar atento, e tem que ponderar qual é o equilíbrio devido entre a parte negativa e a parte positiva.
(...)
De acordo com a minha experiência, se Portugal intervier no Conselho Europeu com um discurso que é este: (...) como há um risco de o impacto negativo superar os resultados positivos, nós vamos propor aqui um certo ajustamento do programa, e que a meu ver neste momento é relativamente claro. O objectivo central para Portugal é, evidentemente, voltar a crescer, criar emprego. De facto é necessário reduzir o défice e sobretudo a dívida pública, porque têm um nível muito elevado e são uma grande restrição sobre a nossa possibilidade de crescer. Mas, actualmente, nós não conseguimos fazer as duas coisas, crescer e reduzir o défice e a dívida, com estes custos de financiamento. Portanto, há aqui um terceiro pólo da equação muito importante - que é o central, a meu ver -, que é conseguir chegar a custos e condições de financiamento normais.
(...)
Antes de discutir tempo, nós temos de discutir, à cabeça, condições de financiamento: taxa de juro, os chamados colaterais, portanto as condições a que o país acede para financiar o Estado e as empresas. Se conseguir condições melhores, vai poder pagar a sua dívida com encargos menores para o orçamento do Estado, e vai também facilitar o acesso ao crédito por parte das empresas.
(...)
Com uma boa argumentação, e tirando partido dos instrumentos que se estão a desenvolver (porque nós temos neste momento uma transição do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira para um mecanismo permanente de estabilidade financeira, que vai ter outros instrumentos; temos o horizonte de num certo momento poder recorrer aos novos instrumentos do Banco Central Europeu, que foram anunciados durante o Verão; temos também no horizonte a construção do que se chama uma união bancária, que deveria normalizar a circulação do capital disponível na Europa). Portugal tem de jogar com toda essa paleta de instrumentos. Mas também lhe devo dizer que para propor uma estratégia deste tipo - melhores condições de financiamento - o segundo aspecto seria apresentar em cima da mesa uma boa carteira de projectos de investimento, porque - atenção! - o Banco Europeu de Investimentos tem neste momento um reforço da sua capacidade de financiamento, e está à procura de projectos. Eu própria tenho sido contactada, perguntando o que é que Portugal está em condições de apresentar como projectos de investimento de futuro, de qualidade. E de certeza que há essa capacidade na sociedade portuguesa, há empresários com provas dadas.
(...)
O país enquanto país tem de apresentar essa boa carteira de projectos porque a margem financeira está lá para ser aplicada.
Depois, o terceiro ponto, é discutir metas credíveis para redução do défice e da dívida. A meu ver, não faz sentido definir o objectivo em termos de défice nominal, o que nós temos de ter é medidas credíveis de redução do peso da dívida, mas com um horizonte que seja sustentável a prazo e, acima de tudo, que não liquide capacidade em Portugal. (...) Nós temos que reformar uma série de coisas em Portugal, mas uma coisa é reformar, outra coisa é destruir capacidade de empresas que são viáveis, de empregos que são viáveis, de qualificação de pessoas que estão disponíveis para trabalhar... Essa liquidação de capacidade não pode ser feita, e é essa linha de separação que temos de apresentar como argumento central aos nossos parceiros europeus. (...)
- E essa lista de parceiros inclui a Alemanha?
(...) Temos de apresentar uma estratégia clara - e a meu ver são estes três pontos: condições de financiamento, carteira de projectos e consolidação orçamental com metas mais credíveis -, e depois: a quem é que nós apresentamos isso? Bom, devo dizer que o nível troika não é um nível relevante. A troika é uma equipa operacional que obedece a instruções de um outro nível. E é com esse outro nível que o país tem de entrar em interlocução. É o nível da decisão política. Ainda agora vimos no caso da Grécia: a troika que está a operar na Grécia teve instruções políticas para encontrar outro tipo de soluções que há um ano e meio eram impensáveis. Portanto: é com esse nível que temos de falar. (...) Estou a falar dos presidentes das instituições europeias, Comissão Europeia, Conselho Europeu, grupo Euro (o sr. Juncker), mas estou também evidentemente a falar do governo alemão, à cabeça, porque, em termos informais, o governo alemão - se bem que não esteja presente no cargo destes presidentes que acabei de referir - tem pessoas chave no sistema que condiciona a solução para Portugal. O director do actual Fundo Europeu de Estabilidade Financeira é alemão, há alemães nos pontos chave de decisão de apoio ao Ecofin, dentro da Comissão Europeia; dentro da Comissão Europeia há um canal quase estanque de instrução às equipas troika que é altamente influenciado informalmente pelo governo alemão. Portanto: a execução com o governo alemão é a chave. E acho que a percepção do governo alemão também está a evoluir. Claro que muito condicionada agora pela política interna alemã, porque vamos ter eleições em Setembro, e se há objectivo central que a senhora Merkel tem é obviamente ser reeleita, mas, apesar dessa condicionante, ela também já percebeu que tem de chegar lá não com desastres nestes países que estão a ser intervencionados, mas com resultados positivos à vista. (...)
Portanto: Portugal tem de fazer política europeia. Portugal, se quer resolver o seu problema, tem de fazer um esforço interno de adaptação para um modo de crescimento que resulte mais, mas também tem de ter política europeia activa, fazer coligações. Hoje há, no Conselho Europeu, um jogo de alianças completamente diferente. (...) Portugal tem tido uma opção que tem sido sobretudo alinhar a posição portuguesa com a posição deste governo alemão. Mas atenção: o jogo envolvente está a mudar. Na própria Alemanha, em primeiro lugar. Mesmo que a senhora Merkel ganhe eleições, é muito provável que a composição do futuro governo alemão seja bastante diferente, e vá integrar partidos que estão muito mais atentos a uma solução equilibrada para a crise; em segundo lugar, porque hoje temos no Conselho Europeu uma grande coligação, em que temos o senhor Monti, da Itália, o presidente Hollande, o próprio presidente Rajoy, num alinhamento de forças que torna mais difícil à senhora Merkel marcar todo o jogo. Ela tem muita força política, porque tem por trás a força económica e financeira da Alemanha, mas está mais isolada do que estava antes. Embora eu lhe deva dizer que o objectivo não é propriamente isolá-la, porque a solução para a Europa vai exigir sempre o envolvimento da Alemanha. (...) Há alemães que dizem "nós compreendemos que não podemos ter sucesso construído em cima do desastre dos outros. Não é do nosso interesse. É do nosso interesse que os outros também possam ter sucesso". Este é o discurso para a intelligentsia alemã que funciona, e que pode ser ouvido, e que nós temos de levar lá.

26 outubro 2012

do palato para a alma


Estamos mal! Agora que tinha decidido começar uma dieta, é que me calha de tropeçar no blogue do palato para a alma?! Receitas que parecem deliciosas misturadas com apontamentos da vida. Estamos mal...

(estamos tão bem!)

música e poesia do Brasil






Quando vivia em San Francisco, ofereci-me como voluntária no festival de Stern Grove. No único fim-de-semana em que realmente podiam precisar de mim, porque o convidado era o Chico César, e talvez fosse importante haver alguém na equipa que falasse português, eu estava em Los Angeles (a mostrar aos miúdos o dilúvio na Disneyland, por sinal). Pedi a uma amiga, a Susan, que fizesse ela de voluntária em Stern Grove, e abalámos para o sul.
Quando voltei, a Susan tinha um CD do Chico César autografado para mim, e um outro para ela, com uma dedicatória linda: "obrigado por me traduzir".

("Obrigado por me traduzir" - e não seremos sempre tradutores daqueles que encontramos? E saberemos traduzi-los com justiça? Saberemos entender o original, saberemos acrescentar-lhe algo bom que é nosso - como quem abre pontes para direcções novas? Saberemos acrescentar-lhes o ponto de quem conta um conto, dois pontos até: olhar e traduzir o outro, abrir-lhe a frase para que se continue - um devir)

Às vezes a Susan ficava a tomar conta dos miúdos para nós irmos dar uma voltinha à noite. No dia seguinte, os miúdos contavam que a Susan tinha posto aquele CD a tocar, e que tinham dançado "horas e horas" na cozinha - "olha, mãe!", e dançavam como gatos: ágeis, graciosos. Com os olhos cheios de luz.

Já lá vão dez anos, e continuo muito grata à Susan e ao Chico César.
Música e poesia do Brasil, aonde eu for é bom que vá com vocês.

25 outubro 2012

a árvore e a floresta


Um dia destes hei-de criar o clube dos amigos de confundir a árvore com a floresta. Depois faço-me presidente - hehehe. E depois arranjo de nomear o jj.amarante membro honoris causa do nosso clube, só por causa deste post, no qual explica que não é assim tão fácil distinguir uma da outra, e assim nos redime a todos.

(O Imagens com Texto devia fazer parte do plano de educação nacional - só era preciso disfarçar um bocadinho a alegria de descobrir mundos inesperados, para não chocar o ministro)

(fotografia roubada a esse post, que por sua vez a encontrou aqui)

a escola do nosso futuro


Boys hang from a bar for five minutes as part of a physical training exercise at the Gymnastics Hall of the Shanghai University of Sports. The photo was part of Nir Elias's series "Pain Threshold -- Sports Education in China."
(daqui)

"A escola moderna é onde se aprende, onde se respeitam os professores, é a que tem metas claras de aprendizagem, onde se avalia, onde se ensina os jovens que a vida não é só alegria, a vida é muito trabalho", sustentou Nuno Crato. (daqui)


24 outubro 2012

memorial dos Sinti e Roma perseguidos pelo III Reich



Depois do memorial do Holocausto dos judeus europeus, depois do memorial que lembra os homossexuais perseguidos e assassinados, chegou finalmente a vez dos "ciganos" (palavra que não se pode usar na Alemanha, por ser um ferrete de discriminação). Fica mesmo ao lado do Parlamento alemão, e foi inaugurado hoje.





Hermann Höllenreiner, um sobrevivente, mostra ao presidente da República o número tatuado no seu braço.

O memorial é da autoria do israelita Dani Karavan: uma superfície de água, com um triângulo no seu centro, que - segundo o jornal - todos os dias se afundará para emergir depois com uma nova flor.

Os representantes dos povos perseguidos lembraram o essencial: este é o Holocausto esquecido, e Europa não aprendeu quase nada com ele. Anticiganismo devia ser tão condenado como o anti-semitismo. Este memorial representa um reconhecimento que ainda não se traduziu numa mudança de atitude em relação aos povos nómadas da Europa.

Na televisão, ouvi de Romani Rose uma síntese chocante da situação que nos envergonha a todos: "Os Sinti e Roma vivem entre os alemães, estão bem integrados. Vão à escola, estudam, têm bons empregos. Mas não revelam a ninguém qual é a sua etnia. Desde pequeninas, as crianças são educadas para não contarem a ninguém que falam outra língua, além da alemã."

(As fotografias foram tiradas do Tagesspiegel)

ontem, na Filarmonia

O Lunchkonzert de ontem na Filarmonia foi excelente. Começaram com o trio em sol menor, op. 45, de Robert Kahn, um compositor que eu não conhecia, e me deixou rendida. O Max Bruch que se cuide, que as Oito Peças para clarinete, viola e piano ainda se arriscam a perder o lugar cativo cá dentro do meu coração...
Infelizmente não encontrei nenhum vídeo para partilhar convosco - apenas este site, onde se pode ouvir pequenos trechos dos movimentos: o allegro, o allegretto quasi andantino e o presto. Ai, o quasi andantino...

Não gostei tanto do trio em lá menor, op. 114, de Brahms - mas, a seguir àquela revelação de Kahn, quem me podia aparecer e ficar incólume?
Além disso, sem ter lido o programa com atenção, ia com a secreta esperança que tocassem este:



***

Filarmonia duas vezes no mesmo dia é um pouco demais, reconheço. Mas o que tem de ser...
Fiz o jantar a toda a velocidade, e saí tão depressa de casa que quase me esquecia de tirar o avental. Nem pensar em mudar a roupa - fui com os jeans do dia. Por sorte havia mais uma ou duas mulheres também de calças de ganga - pensei perguntar-lhes se também quase se tinham esquecido de tirar o avental.

Fui a esse concerto por causa da Patricia Petibon. Embora a voz tenha tido alguma dificuldade para encher aquela sala enorme (e que voz não terá?) esteve muito bem na Shéhérazade de Ravel: misteriosa, sonhadora, frágil. A sua figura de porcelana oferecia uma delicadeza suplementar à interpretação da peça. E eu, que esperava encontrar o fogo e a vivacidade que associo à Petibon, até lhe perdoei ter levado o cabelo preso - e mais perdoei quando vi as costas do vestido - aaah, les couturiers français!

O vestido era este (o penteado não):


Apesar de ter mangas compridas, pura e simplesmente não tem costas. Tem apenas a saia, à altura da fita horizontal, e uma fita que sai do ombro e atravessa as costas, oblíqua, para agarrar a cauda da saia junto à cintura. Muito me espanta os violinistas atrás dela não terem trocado as notas todas... (isto os alemães são um povo de uma disciplina férrea, é o que é.)



Ao ler o programa, descobri surpreendida que o maestro, Michael Gielen, já tem 85 anos. Nasceu em 1927 em Dresden, filho de um director de ópera, e começou a sua carreira em Buenos Aires, onde em 1949 deu o primeiro concerto de piano. Mudou-se para a Argentina?!, pensei eu. Desconfio sempre um pouco dos alemães que nessa altura da História foram parar à América Latina. Mas não: era filho de mãe judia.

Só então me dei conta que o mais importante naquele palco não era a Patricia Petibon, que me tinha chamado lá, mas um homem que transporta consigo a memória da música de quase um século e está entre as últimas testemunhas vivas do Holocausto.

12 de Novembro


Vi hoje no facebook que tencionam mostrar este cartaz durante a visita da Angela Merkel a Portugal.
Visto do lado da Alemanha, desconfio que vai ser lido assim: "então já não basta chamarem-nos nazis?! além de não saberem o que foi o III Reich, também não conhecem a História da RDA?"

Parece-me arriscado apropriarem-se assim dos símbolos mais significativos de outros povos - ainda sai o tiro pela culatra. "Nós somos o povo" foi a resposta certeira a um regime ditatorial que dizia agir em nome do interesse do povo quando lhe recusava mais democracia. Duvido que algum alemão entenda os motivos dos portugueses para citarem a frase "wir sind das Volk", porque nesta crise ninguém está a usar o nome do Povo em vão - de facto, "Povo" é uma palavra que se tem usado pouco. E não está claro para ninguém (nem em Portugal) o que é o povo, o que pensa sobre esta crise, quais são os seus objectivos, e como os pretende atingir.
Se é para se apropriarem de frases históricas, mais valia recorrerem a esta: "Ihr Völker der Welt, schaut auf diese Stadt!" - "Povos de todo o mundo, olhai para esta cidade" (o apelo do presidente de Berlim Ocidental quando começou o bloqueio soviético a essa parte da cidade). Eu trocaria "Stadt" por "unsere Verzweiflung" - o nosso desespero.

Portugal não está presente na opinião pública alemã - a não ser como país dos meninos bem comportados que sofrem mas não fazem ondas. Os noticiários falam das manifestações na Grécia (violentas) e na Espanha (com muitos participantes), mas o nosso país é referido, no máximo, como "e também em Portugal".
O artigo de fundo da Stern, na semana passada, era sobre o que os europeus pensam da Angela Merkel. Hei-de falar sobre isso noutro post. Para já, adianto que um jornalista andou por 16 países europeus e entrevistou 120 pessoas, mas aparentemente não foi a Portugal nem à Irlanda. O que confirma mais uma vez o que já se sabe: nesta crise fala-se sobretudo da Grécia, bastante da Espanha, um pouco da Itália - o resto é paisagem.

Não gosto da frase "morder na mão de quem dá de comer". Primeiro, porque os países não se dividem em donos e cães submissos. Segundo, porque é preciso ver de onde vem a comida, e em que condições é dada, etc.
Mas o que se está a preparar - morder numa mão que, mal ou bem, tem papel decisivo na ajuda a Portugal - não me parece a melhor estratégia. Não é com insultos à Angela Merkel que os portugueses vão conseguir apelar ao sentido de justiça do povo alemão.

Se estivesse em Lisboa, era isto que faria no próximo dia 12, para tentar ter impacto na opinião pública alemã:

- Encher o percurso por onde o carro dela vai passar com cartazes enormes nas fachadas das casas, a informar sobre casos (verdadeiros, de preferência):
"Maria da Conceição Silva, 78 Jahre alt: 98 €"
"Manuel Silva, 55, arbeitslos, 3 Kinder: 377 € + 35 € Kindergeld = 412 €"
"Joana Silva, 7: kein Frühstück, kein Abendessen" (não tem pequeno-almoço nem jantar)
"João Silva, 13: Schwarzarbeit statt Schule" (trabalho clandestino em vez de ir à escola)
"João Lopes, 60, schwerbehindert: 120 €" (deficiência grave)

e também, entre outros:
"Taxa de desemprego em 2008: ...% / Taxa de desemprego em 2012: ...%"
"Salário mínimo: x € líquidos. Preço de um litro de leite: y"
"Taxa de desemprego entre os menores de 30 anos: ...%"

- Pedir a famílias e pessoas isoladas que se voluntariem para oferecer um retrato da crise. Fazer uma manifestação apenas com casos concretos: os agregados familiares (pai, mãe, filhos, avós) e um cartaz com o montante mensal que a respectiva família tem para viver; jovens com cartazes onde dizem que nos últimos x anos fizeram y estágios sem remuneração.
O que a Angela Merkel e os alemães têm de ler é que há pessoas a viver com menos de 200 euros por mês, desempregados com filhos a receber 377 euros do fundo de desemprego, e outros números do género, todos sintoma do nível de degradação a que este país europeu chegou.

Os números que mostram a dimensão da tragédia de pessoas concretas, preto no branco, é que contam. Muito mais, em todo o caso, que frases roubadas à História dos outros.

23 outubro 2012

coisas da vida no tempo da internet


Na escola, o Matthias tem de fazer um trabalho sobre propaganda nos filmes do III Reich. Hoje foi à Biblioteca pedir o filme "Jud Süß" emprestado, e disseram-lhe que esse filme existe, mas não pode ser emprestado a qualquer um. Veio para casa de mãos a abanar. Ligou o computador, googleou, zimbas: está agora a ver o filme integral no youtube.

(Não avisem a Alemanha nos próximos dias, por favor)

o Álvaro tinha razão!


Ontem, nos Diálogos Económicos do festival Berlinda, na representação de Baden-Württemberg, serviram pastéis da nata. Estavam deliciosos, os melhores que comi em Berlim. O cozinheiro andava por ali, e dei-lhe os parabéns. É alemão, e cozinha no Hotel Sana. Se for tão bom para o resto como é para os pastéis, acabou de ganhar uma cliente regular para o restaurante Nau. (Bom, "cliente regular" é como quem diz: depende da regularidade com que eu conseguir assaltar as caixas automáticas...)

As travessas dos pastéis pareciam aquela cena do maná no deserto: não acabavam nunca. De modo que eu olhei em volta para me certificar que nenhuma câmara de segurança estava por ali a cuscar-me, e disfarçadamente meti dois pastelitos na carteira para levar aos meus rapazes. Quase ninguém viu. E como os pastéis não paravam de brotar das travessas, daí a bocadinho tirei mais dois (é o nosso segredinho, está bem?).

Esta manhã cruzei-me com a vizinha no elevador, e contei-lhe que ando muito atrapalhada com dores musculares nas costas, e tenho de ir urgentemente a um fisioterapeuta. Ela, que é homeopata, ofereceu-se logo ali para me espetar umas agulhitas para aliviar a dor. Daqui a nada vou a casa dela, e levo-lhe o último pastel de nata.

Portanto: o Álvaro tinha toda a razão, uma razão de visionário, e só falhou por defeito. Ó pra isto: a partir do know-how português (a receita), eu arranjei de pôr um alemão a trabalhar para pagar a uma alemã que vai trabalhar para mim. The pastéis de nata rule the world!

***

Para quem não acredita em milagres, e prefere o árduo caminho da realidade, o encontro de empresários que a Berlinda organizou, em colaboração com a aicep e a embaixada de Portugal, foi um bom passo para mostrar alguns projectos que revelam as potencialidades de Portugal e dos portugueses, e para criar uma plataforma de networking entre empresários e interessados.
No fim das palestras houve um espaço informal de troca de ideias e experiências, e, pelo modo como os pastéis não desapareciam das travessas, parece-me que as conversas foram mesmo boas.
Falei com uma advogada especializada em IT internacional, que trabalha em colaboração com um escritório de advocacia em Portugal. Ela comentou que é uma pena os portugueses não falarem alemão, porque são extraordinariamente bons na área de IT, mas concorrem em inglês a projectos na Alemanha, e só por isso já ficam relegados para segundo plano.

Gostei de um detalhe a que assisti, no fim do encontro: o anfitrião, um responsável da representação de Baden-Württemberg, falava com uma das organizadoras, perguntava se tudo tinha corrido bem, e oferecia aquele espaço para outros encontros no futuro. Para ele será talvez uma coisa pequenina e banal, para mim foi um gesto de abertura e boa vontade que me sensibilizou.

22 outubro 2012

a quem interessar possa (e more em Berlim)


Amanhã, 23.10.2012, o Lunchkonzert no foyer da Filarmonia, à uma da tarde, é imperdível (para mim, pelo menos): o Walter Seyfarth e o seu clarinete!
Dois trios para clarinete, violoncelo e piano - Kahn e Brahms.
Já estou lá sentada no chão mesmo em frente ao estrado.



E à noite há Patricia Petibon a cantar a Shéhérazade de Ravel.
Eu bem digo que esta cidade é um stress...

21 outubro 2012

"E se nos fomos embora? E se ficamos sós?"



Documentário Manuel António Pina from Terra Líquida Filmes on Vimeo.

Sai uma pessoa para o fim-de-semana, volta, liga o computador, e leva uma tareia:

O Manuel António Pina! 

Às primeiras palavras que li, ainda em dúvida sobre a direcção que a frase tomaria, tive o impulso de desligar o computador: ninguém reparou, não aconteceu.

Aconteceu.

Como tantas vezes nos últimos tempos, são versos seus que me lançam uma ponte da dor para o mistério: alguém o chamou por outro nome, um absoluto nome, de muito longe - e ele partiu ao encontro desse nome.

É a vida. É parte disso a que impropriamente chamamos vida.




Coisas sólidas e verdadeiras




Publicado em 2012-08-01

 
O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!
Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.
Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"
Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.



19 outubro 2012

"a quem nos visita, o sol da nossa simpatia"


Ontem troquei um dos melhores violoncelistas do nosso tempo pelo filme Viagem a Portugal, e não me arrependi. Nem um bocadinho.

Por sorte estava na última fila, e ninguém me via literalmente de boca aberta, simultaneamente horrorizada com a história e fascinada por aquela complexa sobreposição de obras de arte - tanta arte, e tão boa, e tão bem entrelaçada (interpretação, argumento, fotografia, ritmo) que quase não dá para acreditar.

Passei o filme a pensar que a primeira pergunta que faria ao Sérgio Tréfaut, no fim, seria: "isto foi tudo inventado, não foi?" - mas tive azar. Após a última cena, vem a maldita revelação: nada disso foi inventado. E o Sérgio Tréfaut acrescentou que aquilo se passa várias vezes por dia nos nossos aeroportos. Alguém vá protestar com o arquitecto da Embaixada do Brasil, que não previu um buraco no chão onde eu pudesse enfiar-me naquele momento.

A conversa com o realizador foi longa e muito agradável.
E tinham uma intérprete que me deixou outra vez de boca aberta: excelente trabalho de tradução consecutiva!
(a minha sorte é que já quase não há moscas, caso contrário neste festival Berlinda ainda me arriscava a sei lá o quê, calateboca... fechateboca, melhor dizendo)

Alguém insistiu que este filme tem de passar no Parlamento Europeu. Concordo inteiramente.


***

(E não é que ontem descobri que não sou insensível ao charme de homens mais velhos? Coitadinho do Queyras, ao pé do Makena Diop não tem grandes hipóteses...)


***

O Festival Berlinda está a revelar-se extraordinário. Como é que com uma organização tão simples, e sem os habituais apoios de mil instituições e fundações, consegue encher as salas assim, noite após noite? No concerto do João Vasco e do Eduardo Jordão havia até pessoas em pé. No Viagem a Portugal, a sala estava praticamente cheia (nas fotos só se vê metade do público - as cadeiras estavam ocupadas até à última fila). Alguma coisa está a acontecer em Berlim, e está a acontecer muito bem.

Talvez deva fazer aqui uma declaração de interesses: volta e meia a Berlinda publica textos meus, e às vezes tenho de ir ao aeroporto buscar ou levar algum artista convidado. É tudo. Não tenho a menor responsabilidade na organização e no êxito deste festival. Por isso estou tão à vontade para elogiar.

café Juli's



O que se segue não é publicidade, é serviço público: ontem, o catering do Festival Berlinda foi feito pelo Café Juli's, que é de dois alemães que passaram algum tempo em Portugal, se apaixonaram pelo país, e agora servem especialidades portuguesas em Prenzlauer Berg, na Metzer Str. 21.

Serviram um bolo de laranja que o melhor é nem vos dizer nada, porque, se consta por aí que eles têm um bolo de laranja tão bom, nunca mais chega para mim. Parece que não o fazem todos os dias. O melhor é telefonar e perguntar que bolos têm nesse dia, e se tiverem o de laranja, não digam a mais ninguém, excepto a mim. Hehehe.

o céu sobre Berlim




Esta manhã.

18 outubro 2012

um segredo sobre um segredo


No segunda língua, um post belo como sempre: um segredo sobre um segredo.

sabores míticos



Será que todos temos uma reserva de sabores míticos?

Não consigo esquecer um chá de menta que bebi numa espelunca perdida junto à estrada algures entre o Mar Vermelho e Luxor.

***

E um chocolate que estava no frigorífico dos amigos com quem passei uma semana, quando tinha nove anos. Não me lembro do nome do chocolate, nem sequer da embalagem, mas nunca nenhum chocolate conseguirá ter aquele sabor perfeito.

E a roupa-velha do dia de Natal, com os restos da consoada. Sei que nunca serei capaz de fazer uma roupa-velha com aquele sabor. O molho de cebola e tomate que a "Semaria", a empregada da minha avó, fez uma vez para juntar às batatas cozidas. Não consigo esquecer o ar apetitoso do azeite a atravessar as cebolas em tiras grossas, os tomates maduros a rebentar de sol cortados em mil bocados, prontos para se juntarem à festa. O ar delicioso do molho na tigela junto às batatas.

(Comecei a fazer dieta. Já me disseram que uma dieta não basta, o melhor é fazer três ao mesmo tempo: sempre se passa menos fome.)

17 outubro 2012

viagem a Portugal



Por causa do festival Berlinda, calhou-me ontem de ter estado à conversa com o Sérgio Tréfaut. Costuma-se dizer "palavra puxa palavra", mas no caso dele é "palavra puxa filme": "conhece o filme italiano X?" e "ah, lembra-me o filme polaco Y" (e eu de bloco de notas e caneta em riste dentro da minha cabeça, "não esquecer: arranjar o filme X, o filme Y").

É um enorme prazer conversar com uma pessoa assim: simpática e simples, culta, e apaixonada pelo que faz.

(Coitado do Queyras: esta quinta-feira, as cartas dele estão fraquinhas.)

16 outubro 2012

mais música

O  concerto de hoje no foyer da Filarmonia foi curtinho: apenas o trio para piano nº1 em ré menor, op. 49, de Felix Mendelssohn Bartholdy. 
Não conhecia, e gostei muito.
Uma senhora ao meu lado gostou ainda mais: começava a aplaudir ainda antes do fim do andamento. Estava numa cadeira de rodas, pouca força tinha nas mãos. Se fosse outra pessoa, ia pensar coisas feias dela, mas o entusiasmo daquela era contagiante - quase aplaudi também, assim mesmo: várias notas antes do fim do primeiro andamento, várias notas antes do fim do segundo...

No piano estava Kyoko Hosono, nos instrumentos de cordas estavam dois músicos que pertencem à Filarmónica há mais de dez anos: Nikolaus Römisch no violoncelo, e Cornelia Gartemann no violino. Tive a sorte de estar sentada de frente para a Cornelia Gartemann, e de poder saborear aquela música em cada um dos músculos do seu rosto. Só por isso já teria valido a pena ir àquele concerto, mas foi muito mais. Foi isto:





***

E agora tenho uma dúvida: na próxima quinta-feira, devo ir à Filarmonia assistir a um concerto com o Qeyras (de preferência com lugar de frente para o violoncelista, hehehe), ou à Embaixada do Brasil ver o "Viagem a Portugal" com a presença do seu realizador, Sérgio Tréfaut?

(e para quando a clonagem por umas horas, para quando a beaming machine?)

15 outubro 2012

it takes two to tango




Os 20 FINGERS - na próxima quarta-feira em Berlim, concerto de abertura do festival Berlinda. Espectáculo gratuito (mas de inscrição obrigatória - para mais informações, carregar neste link).


 

one small step for mankind...

...but one giant leap para o Felix Baumgartner!
É uma maluquice, por certo, mas uma maluquice que toca a matéria dos sonhos.




11 outubro 2012

Agualusa, Aline Frazão, Madredeus, Diana Andringa...


O Festival Berlinda está a chegar a Berlim. A partir de 17 de Outubro, e durante um mês, haverá todos os dias um evento cultural ligado a um país de expressão portuguesa. O título deste post mais não é que uma selecção aleatória. E nem falei do concerto de abertura, 20 FINGERS (ai, que ainda não me inscrevi!). Nem do filme "Virgem Margarida" e do "Viagem a Portugal". O Marcelo Ferroni e o Luiz Ruffato.

À excepção do concerto dos Madredeus, todos os eventos são gratuitos.

O programa está aqui: Festival Berlinda.

uma pequena aldeia, uma poção mágica...

Será que temos consciência do que é nosso e tem valor, do que nos pode abrir pistas para o futuro?

Para quem mora em Berlim, se interessa pelos sectores de inovação tecnológica e energias renováveis em que os portugueses se têm distinguido, e quer contactar directamente com alguns dos nossos melhores profissionais nessa área, os Diálogos Económicos (iniciativa conjunta do AIECEP e do Festival Berlinda) são uma óptima oportunidade para o fazer. É já no dia 22 de outubro, das 16:00 às 18:30. Mais informações: apresentação e programa.

(atenção: os interessados têm de se inscrever, e o número de lugares é limitado)

Praga (5)


Como de costume, não dou vazão. Daqui a nada saio para o sul da Alemanha (uma amiga festeja 50 anos - isto é que é uma triste vida: mal uma pessoa se distrai um bocadinho, zimbas, passa-se logo meio século!) e ainda não acabei a série de Praga.

Ora então, onde é que eu ia?
Domingo de manhã. Começámos por apanhar o metro para ir para o outro lado do rio. As escadas rolantes nunca mais acabavam - desconfio que o metro de Praga anda em túneis ali para os lados da Austrália. É que nem no Chiado vi uma coisa assim!


A nossa linha de metro estava em obras, de modo que atravessámos o rio a pé. Tanto melhor, porque estava um belo dia de sol para passear.




Saímos na ilha que fica entre as duas pontes do centro, atravessámos devagarinho o seu magnífico parque às portas do Outono.


Ao chegar à ponte Karlova, subimos as escadas, e demos connosco no centro da Disneylândia. Ou melhor: no que a Disneylândia gostava de ser quando for grande.
(Não estou a falar dos turistas, mas daquela extraordinária mistura de torres e casas de várias épocas)


Apanhámos o eléctrico 22, cheio de turistas e carteiristas (dizia o nosso guia). Os turistas, era verdade. Os carteiristas, não tive oportunidade de comprovar. Agarrei-me bem à minha carteira, e saboreei a paisagem. Este eléctrico sobe a colina até ao castelo, e aqui me deparo com uma dificuldade de tradutor. Como traduzir Pražský hrad? Em português dizem castelo de Praga, mas, para mim, esta incrível colecção de palácios reais e nobres, mais a catedral e várias outras igrejas, mais ruas medievais é bem mais que um castelo. Mas burgo - que associo ao surgimento de uma nova classe, os burgueses urbanos, por oposição à nobreza, também não devia ser o correcto. Paço de Praga? Citadela? (citadela sem muralhas?!)


Dentro do "castelo", parecia que tudo nos corria mal: por preguiça perdemos a missa da manhã, por patetice perdemos o render da guarda ao meio-dia (estávamos em frente à catedral quando ouvimos as fanfarras, já era tarde para correr para a praça), por inércia e forretice perdemos a Rua do Ouro, uma ruazinha do séc. XV, onde o Kafka morou. Mas encontrámos outra vez a especialidade de Praga: igrejas por trás de casas. É a catedral de S. Vito, a Santa Engrácia non plus ultra dos checos: começada em 1344, só foi terminada em 1929. Deve ser a única igreja gótica do mundo que ainda não fez cem anos.


Não nos apeteceu comprar o bilhete para entrar em todas as igrejas e palácios. Não nos apeteceu subir à torre da catedral, que tem 280 degraus mas, ao contrário das outras torres antigas da cidade, não tem elevador. Limitámo-nos a passear por ali, e chegámos à conclusão que aquele castelo é como se a catedral de São Pedro no Vaticano tivesse sido virada do avesso: encontramos ao ar livre a mesma profusão de estilos, vestígios históricos e riquezas, a mesma cornucópia arquitectónica.


Descemos a colina a pé, pelo meio das vinhas,


chegámos a um parque onde o inevitável armador de bolas de sabão deixava as crianças fascinadas, uma e outra vez,


passámos por um autêntico cliché de fim do Verão,


contornámos o museu do Kafka e entrámos num restaurante bastante luxuoso com um terraço sobre o rio e a famosa ponte,



onde, troika oblige, encomendámos os pratos mais baratos: um risotto de polvo e açafrão, uma pizza de sashimi de atum com um molho de wasabi que não passava de deliciosa espuma, e as inevitáveis cervejas (mais baratas que água...)



Ao nosso lado, um casal inglês saboreava o menu degustação prato a prato, os felizardos. Estavam a fazer uma viagem de barco, todos os dias paravam numa cidade diferente e faziam caminhadas culturais. Daí a nove dias chegariam a Berlim, antes tinham ainda Dresden e Meißen. O senhor estava todo entusiasmado com a ida a Meißen. Eu, no lugar dele, estaria toda triste com aquela viagem: um dia em Praga? Um dia em Dresden? Um dia em Berlim? Isso é o autêntico suplício de Tântalo - e eles ainda pagaram para serem torturados daquela maneira!

Estava na hora de voltar ao hotel. Atravessámos de novo a ponte, na direcção da antiga judiaria.



Ainda queríamos espreitar o antigo cemitério judaico, que deve ter uma densidade populacional superior à de Hong Kong, mas não vendiam bilhetes só para o cemitério. Ficámos por ali, até que uma porta se abriu, e eu entrei um minuto só, para fazer estas duas fotografias de um lugar inacreditável:


(Senhores gestores do conjunto monumental da judiaria de Praga: por favor, não levem a mal. Prometo que da próxima vez vamos com tempo, compramos os bilhetes e vemos tudo)

Junto ao cemitério e às antiquíssimas sinagogas, a Rua de Paris:



Como dizia no princípio: mil anos de História europeia largada em pistas de urbanismo e arquitectura.

Praga é uma cidade que pede muito mais tempo que um mero fim-de-semana. Voltaremos a ela: para ver os bonecos do relógio astronómico, assistir a um concerto na sala espanhola do palácio real e outro na igreja de São Martinho do Muro, para entrar no teatro onde o Don Giovanni de Mozart se ouviu pela primeira vez. Para atravessar a ponte Karlova de madrugada, sem turistas. Para um teatro de marionetes, que um turista é um turista é um turista. Para visitar a judiaria com calma. Para um dia inteiro no castelo-burgo-paço de Praga, inclusivamente os 280 degraus. Para os museus de Kafka, de Dvorak e os que mais calharem. Para subir de teleférico à colina em frente à cidade antiga, para passear nas ruelas junto ao castelo. Para ouvir o carrilhão da igreja Loreto. Para aprendermos mais sobre a Europa, neste sítio tão longe e tão perto de Portugal.

10 outubro 2012

a propósito de um casaco...

Muito se falou ontem do casaco que a Angela Merkel usou em Atenas, por ter sido o mesmo que usara no jogo de futebol em que a Alemanha deu 4-2 à Grécia.



Afirmou-se que foi intencional: ela queria humilhar a Grécia.
Ora bem: esta mulher ontem correu risco de vida (ou alguém tem dúvidas?) para ir ao lugar onde é mais odiada, dizer que a Alemanha está com a Grécia. Reafirmou o seu apoio ao governo grego para que a Grécia permaneça no Euro. Foi falar, e ouviu - e com ela, todo o povo alemão: nos noticiários televisivos de ontem, na Alemanha, falou-se largamente das dificuldades terríveis que a Grécia está a atravessar.
- Como é que essa teoria da humilhação encaixa nestes factos?

Disse-se que ela não tem gosto nenhum para se vestir, e que isso não admira, porque foram muitos anos de educação no bloco de Leste.
Quando ouço coisas destas, fico com o cérebro como um quartel de bombeiros quando soa o alarme. Se há coisa que eu apreciei quando morei numa cidade do antigo bloco de Leste, foi a falta de valorização desse tipo de estética. É uma libertação, podem crer. Os meus filhos podiam ir para a escola sujos, esfarrapados, com as cores todas mal combinadas - ninguém dizia nada. Mas perguntavam-se porque é que determinado rapazinho (que tinha vindo de Munique) tinha necessidade de ir para a escola com pólos Ralph Lauren, calças Lewis, sapatos Timberland. Entre as duas tiranias (a de não usar marca para poder pertencer à matilha, ou a de usar marca para poder pertencer à matilha), prefiro a primeira. É mais barata, e dá mais margem para descobrir um estilo pessoal.
Lembro-me de um concerto de piano, em casa da professora da Matthias, no qual ela apareceu muito bem vestida - com roupa que estava na moda nos anos oitenta. Foi um bocado surpreendente (a gente não espera aqueles ombros descomunais, aquelas lapelas de casaco) mas ao fim de uns momentos percebi que o assunto não tinha importância nenhuma. E mais: não é possível falarmos em protecção do ambiente, estilo de vida sustentável, etc. e mudarmos todo o guarda-roupa sempre que a moda muda.
Havia no bloco de Leste valores muito positivos, que bem podíamos aprender - em vez de largarmos este tipo de comentários sobre eles.

Falaram dos casacos horríveis que ela veste. Pois, longe vão os tempos em que o Hugo Boss desenhava os uniformes da SS...
[Adenda: não é verdade que o Hugo Boss tenha desenhado esses uniformes - a fábrica Hugo Boss limitou-se a produzi-los, a partir do desenho encomendado]

Os "casacos horríveis" são um uniforme. Tem aquela dúzia de casacos todos com o mesmo corte mas em cores diferentes, duas t-shirts (uma preta e uma branca) e três ou quatro colares. Alguém inventou para a Angela Merkel uma roupa de trabalho, e tiveram particularmente cuidado com o comprimento do casaco - dantes, ela vestia uns casacos curtos que lhe ficavam mesmo muito mal.
Ela veste o uniforme sem perder um único neurónio a pensar nisso - como se viu, ao levar a Atenas o mesmo casaco que levara ao tal jogo. Tem coisas mais importantes em que pensar.
E acho muito bem - para fazer um gostinho aos olhos e para ter um registo das ocasiões em que vestiram o quê, temos a Máxima na Holanda, a Letícia em Espanha, a Catherine no Reino Unido, as Marias na Dinamarca. Mas essas só têm de se apresentar bonitinhas e de bico fechado, não têm nas mãos o futuro da Europa.    

Chamaram-lhe gorda. Lá vem outra vez a sirene dos bombeiros...
Primeiro, as mulheres que criticam a Angela Merkel por ser gorda: porque será que as mulheres são extraordinariamente venenosas contra outras mulheres? E como lhes ocorre criticar assim o excesso de peso de uma mulher? Não saberão que também lhe pode acontecer a elas?
Segundo, a sociedade inteira que acha graça: como é possível neste nosso princípio do séc. XXI usarem o aspecto físico para desvalorizarem uma mulher? E porque é que a sociedade trata assim as mulheres, e protege os homens?
O Helmut Kohl, por exemplo, o homem que entendeu a breve janela de oportunidade que se abriu no dia 9 de Novembro de 1989, sentiu a urgência do momento, e conseguiu a reunificação da Alemanha (um país que estava ocupado e sob custódia há mais de quarenta anos) em menos de onze meses. Alguém se lembrou de lhe chamar gordo mal vestido? Mesmo agora, que se vê que esta Alemanha forte pode ser um perigo para a Europa, que se vê que o Euro mal alinhavado (e aceite assim por Kohl como preço a pagar para a França autorizar a reunificação) está a provocar problemas gravíssimos: quando criticam a acção do Kohl, alguma vez se referem a ele como aquele gordo mal vestido?


E como o corte na casaca é como as cerejas, acabaram a falar do célebre decote no vestido que usou para ir à ópera em Oslo. Para além do óbvio "ainda bem que ninguém tem outros problemas na vida", só me ocorre um comentário: espero que nunca vos aconteça viverem permanentemente rodeados de fotógrafos prontos a fazer a pior fotografia possível de vocês.

Grrrr.