30 abril 2012

preparativos para a viagem

Pousada de Estremoz (foto encontrada aqui)


Há tempos escrevi - com o entusiasmo e a confiança a verter directamente para o teclado - um e-mail ao grupo Pestana, explicando que levava a Portugal o escritor Wladimir Kaminer, que lhe queria mostrar lugares muito especiais de Portugal, e perguntando se seria possível fazermos um pequeno circuito das Pousadas. Parecia-me que tinha escrito uma mensagem de fazer sorrir as pedras, mas pelos vistos recebem vários pedidos desses por semana. Triste vida: porque será que os outros também têm ideias tão geniais como eu?...
Passados uns dias, veio a resposta: sim. Foi um daqueles momentos em que fico capaz de rebentar de gratidão. E de dar um aumento de mesada à minha boa estrela, que bem merece (soubesse eu o NIB dela, e era já!)

 Óbidos (foto encontrada aqui)



Na entrevista da Berlinda, o escritor falava da imensa sede de viajar para o estrangeiro, impossível de realizar na época da União Soviética, e da consequente incapacidade de encontrar esses lugares inatingíveis, de tão sonhados e idealizados. Ultimamente tenho pensado bastante nisso, porque vou levá-lo a lugares que ele nunca se teria lembrado de sonhar. Uma cidade com passeios de mármore branco, por exemplo. Uma igreja com seis órgãos. Dormir numa antiga fortaleza em frente ao Atlântico. Passear num burgo medieval renascido após séculos de esquecimento - qual Bela Adormecida. Uma torre toda em mármore onde há uma sala de impressionante acústica (tenho andado a ensaiar diariamente canções portuguesas do séc.XVI, o meu duche está cada vez mais erudito). Dormir onde outrora viveu uma rainha santa de Portugal, sobrinha-neta de uma princesa santa da Hungria e da Turíngia, ambas capazes de transformar em rosas tudo o que tocavam (e agora me ocorre o simbolismo da coisa: na senda de São Francisco, dando pão aos pobres, acenando com rosas ao poder: seriam as primeiras socialistas?) (ainda agora comecei, e já me arrisco a levar um puxão de orelhas da Santa Madre).

Para a preparação da viagem, tenho-me servido do Itinerário Português do José Hermano Saraiva, e da Viagem a Portugal, do Saramago. Também encontrei pessoas de grande cultura e incrível disponibilidade que se ofereceram para nos enriquecer a visita a Mafra e a Évora (eu outra vez a desfazer-me em gratidão, com vontade de perguntar "is this real life?" e de me beliscar para ter a certeza que não estou a sonhar).
Mas gostava de saber mais, muito mais.

Por isso, aqui vai um pedido: agradeço todas as histórias e os detalhes interessantes que me queiram contar sobre Montemor-o-Novo, Estremoz, Évora Monte, Marvão, Portalegre, Óbidos, Ericeira, Cascais. E redondezas.
Aceitam-se também sugestões do género "Ó Helena, tens de os levar a ver a capela não-sei-quê, que vai do paleolítico ao néon em cinco metros quadrados" e "Ó Helena, não te esqueças de lhes contar aquela anedota de como é que se distingue uma azinheira de uma oliveira" e "Ó Helena, tens de comprar gadanhas em Estremoz" e tudo o mais que vos apetecer.
(Também se aceitam sugestões de como alargar os dias para 48 horas, pelo menos) (isso sim, dava mesmo muito jeito)

 Pousada de Cascais (foto encontrada aqui)
    
***

Eu nas Pousadas de Portugal! Já meti na mala aquela camisola com um B em xadrez na frente (que comprei com 70% de desconto, que eu sou um bocado maluca mas não sou completamente tresloucada) e que deixa a minha amiga de Munique sempre muito bem impressionada. Se até os de Munique impressiona, não me há-de deixar ficar mal nas Pousadas de Portugal. Só vai ser um bocadinho estranho andar todos os dias sempre com a mesma camisola, vou passar a ser conhecida como aquela da camisola vermelha com um B à frente.

29 abril 2012

o céu é o limite?

Um amigo que admiro e respeito imenso escreveu-me a contar que está a ler o Viagem a Tralalá, e está a gostar muito.
Espero que o céu seja o limite, porque eu - agarrem-me! - fiquei tão feliz que me arrisco a entrar em órbita.

russendisko - ensaio geral antes da grande estreia que será a 5 de maio em Lisboa


Nesta sociedade com a mania do empirismo, não me basta ter a certeza que a música da russendisko é capaz de pôr um paralítico a dançar. Não: as pessoas querem factos, números, preto no branco. Ora, nada mais fácil: ontem levámos para a russendisko uma amiga que teve um problema nos dois pés e de momento só anda com a ajuda de muletas. As miúdas na caixa não se deixaram impressionar: "já vimos de tudo por aqui", disseram elas. Pusemos um banco junto ao balcão do DJ, ela empoleirou-se lá em cima, e dançou - sentada - mais do que nós todos juntos. Daqui a duas semanas já não deve precisar das muletas (milagre! milagre!) e ficou combinado que vamos lá outra vez.

O Wladimir Kaminer chegou à uma da manhã, para o segundo turno. Mal ele entrou, a sala foi percorrida por uma onda de entusiasmo. O estrado onde tínhamos estado com relativo desafogo encheu-se repentinamente de pessoas que o queriam filmar, fotografar, fotografar-se com ele. O delírio.
Quando saímos, havia na rua uma fila enorme de gente que esperava pacientemente para entrar. "Olá, Helena!", gritaram de lá. Eram portuguesas que iam para o segundo turno. Algo me diz que ainda havemos de passar aqui noites memoráveis da lusofonia berlinense.



(fotos: Inês Thomas Almeida)

28 abril 2012

ensaio geral

A música continua.
Esta manhã assisti ao ensaio geral de um concerto, com alguns amigos.
Trocava com eles olhares de encantamento, olhava para os músicos no palco, ouvia a música - e uma onda de gratidão crescia em mim: a vida é tão boa!
O concerto de hoje chama-se "Luto e Consolo". Começa com Johan Helmich Roman »Herren känner de frommas dagar« – música para o funeral do rei Frederik I. (1751). Segue com um salto de mais de duzentos anos, Ingvar Lidholm »... a riveder le stele« para coro a cappella - muito bom.

...a riveder le stele:

But night again is rising; time is now
That we depart from hence. We have seen all.
The Guide and I, entering that secret road,
Trailed to return into the world of light,
Nor though on any resting-place bestowed.
We climbed, he first, I following, till to sight
Appeared those things of beauty that heaven wears
Glimpsed through a rounded opening, faintly bright;
Thence issuing, we beheld again the stars.

Divina Comédia, Canto XXXIV


Depois do intervalo, Georg Friedrich Händel Concerto grosso F-Dur op. 6
e Johann Sebastian Bach »Ich hatte viel Bekümmernis« – Cantata para solistas, coro e orquestra BWV 21 - com momentos sublimes. Gostei especialmente da parte do "não!" "sim!" "não!" "Ja! Ich liebe Dich!" - parecia o Deus de Taizé.



O maestro, Olof Boman, é um sueco com corpo de atleta (eu a pensar que o Cesário Costa era o único que ainda não tinha sido alargado pela música - como o Rattle ou o Dudamel, para falar só dos que vi recentemente - mas afinal parece que ainda há mais focos de esperança entre os maestros) e graciosidade de bailarino. Às vezes ia até ao fundo da sala para lhe sentir a acústica, depois corria ao longo do corredor central e de um salto subia para o palco, saltando um bom metro de altura. Gostei de tudo: da camisa preta, do corte dos jeans, do cinto cognac, das sapatilhas azulão, do corte do cabelo. Aaah, a música!
E em certo momento, quando ele descaiu a anca num dos seus graciosos movimentos, dei-me conta que estava a pensar numa estátua do Museu Antigo. A do Torso of Doryphoros by Polykleitos of Argos (nem sei porquê, verdade seja dita...):


Ou seja: passei esta manhã a pensar pecados. Não sei que me deu. Se calhar é porque por aqui rebentou a Primavera, as ruas estão cheias do verde tenro das árvores, os passarinhos etc., e uma mulher não é de ferro.

hoje vou ficando por aqui



Vincenzo Capezzuto. Por aqui, por aqui,  por aí.

grande concentração de portugueses em Berlim

Sábado, 28 de Abril, dez da noite, no Kaffee Burger, Torstraße 60 (Mitte):




Russendisko!
 

Vamos mostrar ao Kaminer como é que os portugueses dançam aquela música extraordinária que ele lá põe. Para ele se ir preparando, pois claro, que de hoje a oito é em Lisboa.

Ou, para usar as palavras dos Portugueses em Berlim:

Olá a todos! Há um grupo de portugueses que está a preparar uma ida conjunta a um dos locais de culto da movida berlinense: a Russendisko - uma noite louca com o escritor Wladimir Kaminer a servir de DJ. Música russa e ucraniana de pôr toda a gente aos saltos, uma festança da grossa que é já lendária em Berlim. Será hoje, sábado dia 28 de abril, no Kaffee Burger (ao pé da Rosenthaler Platz). Quem quiser divertir-se à grande e à russa, está mais que convidado! :-)

Russendisko

A partir das 22h
Torstraße 58/60
10119 Berlin

Entrada: 5 euros

27 abril 2012

já ando há dois ou três dias sem falar na Filarmonia...

...e o pessoal já se começou a queixar. E a Filarmonia, Helena? - perguntam eles. Agora é só Russendisko?! - riem-se eles.

Eu não tenho é tempo para contar!
Voltei aos bancos do coro da Filarmonia, para um concerto demasiado curto. Nem sei como fizeram, mas mal nos sentámos já estávamos a aplaudir freneticamente. O malandro do Dudamel (ai... ai...) voltou ao palco, agradeceu muito - mas encore, vai no Batalha.
(Ultimamente dou comigo a usar muito expressões do Porto, "trenguice", "vai no Batalha" - deve ser uma forma de o meu inconsciente homenagear as gentes da minha cidade, especialmente as da Fontinha)
Pois, o Dudamel. E mais nada. Mais nada.
Houve momentos em que nem a música ouvia (e nem mesmo as tosses irritantes!), nem via a sala cheia de espectadores por trás do maestro. Não: era só ele, e aqueles olhos tão expressivos, aquela enorme cumplicidade com os músicos e com a música. E depois caía em mim, ó Heleninha, pensas que isto é um filme mudo? Concentra-te também na orquestra, vá, esforça-te um bocadinho.
O programa foi muito bom: Ravel - Ma Mère l'Oye; Erich Wolfgang Korngold, que eu nem sabia que existia e se saiu com um concerto para violino de que gostei muito (anoto o nome do violinista: Leonidas Kavakos - excelente, e com muito boa pinta); e depois do intervalo aquela peça que - se não estou em erro - o Nietzsche compôs para o filme 2001 Odisseia no Espaço. Os bancos do coro por trás da orquestra são o lugar ideal para ouvir o início do "Assim falou Zaratrusta" - a percussão ali mesmo à nossa frente, o grandioso órgão por cima de nós, nem precisamos de foguetão para chegar às estrelas.




 


Isso foi ontem. Hoje foi a Christina Pluhar com l'Arpeggiata: Via Crucis. Um concerto memorável, muito bem articulado, sem ser quebrado por aplausos, e enriquecido por uma bailarina que parecia da escola da Pina Bausch (hei-de investigar).

Os quatro italianos do Barbara Furtuna deixaram-me fascinada: com as suas figuras que mais pareciam saídas de um livro do Astérix, combinavam as vozes na perfeição - e várias vezes as suas harmonias me chegaram a lembrar o famoso mistério das vozes búlgaras (hei-de investigar).



O solista Vincenzo Capezzuto tinha uma voz extraordinária, semelhante a um contralto (hei-de investigar).

(Com tantos "hei-de investigar", já pareço um agente da PSP...)

Mas quem mais nos interessava era o Doron Sherwin - eu estava convencida que era a ele que um amigo nosso se referia quando dizia que um dos maiores orgulhos da sua vida foi ter-lhe passado um english horn para as mãos.

No final do concerto, o público estava delirante. Dois encores: o "Maria" do filme ali em cima, e a paródia muito bem encenada da Ciaccona di Paradiso e dell'Inferno:



Tinham avisado que podíamos levar os CDs para autografar. Comprámos um que não tínhamos, Los Pájaros Perdidos. Não temos a certeza de gostar, mas nem era essa a ideia - queríamos apanhar o autógrafo ao Doron Sherwin e oferecê-lo ao nosso amigo Robert.
Com a sorte que tenho, era a primeira da fila. Os músicos chegaram, e eu engasguei: todos eles a olhar para mim, à espera que eu dissesse uma coisa muito inteligente, e eu aimêdês aimêdês, dei-lhes os parabéns pelo concerto, agradeci, e depois desatei a dizer baboseiras. Por exemplo, ao Vincenzo Capezzuto queria dizer que gostei imenso da sua voz, mas só me saiu um "you are beautiful!"
Pelo que ele, logo a seguir aos beijinhos da Córsega  (Barbara Furtuna) e da florzinha da soprano, me pespegou com um "With Love, Vincenzo Capezzuto" e um sorriso enorme (e talvez um pouco trocista). Chegou a vez da Christina Pluhar, a quem eu perguntei onde estava o músico do english horn. Ela ensinou-me: "em alemão, chama-se Zink", e corrigiu a minha pronúncia. Depois disse-me para ir atrás do palco ver se o encontrava.


Lá fomos nós para trás do palco, onde estavam outros músicos e a bailarina. Só faltava o que nós queríamos, que apareceu finalmente ao fundo de um corredor comprido, tinha realmente sido aluno do nosso amigo, e de bom grado escreveu no nosso CD "With Gratitude" e acrescentou o seu endereço de e-mail. Infelizmente esborratou-me o "With Love, Vincenzo Capezzuto", não gostei nada.
Agora estou completamente na dúvida se fico com o "With Love, Vincenzo Capezzuto" para mim, ou se dou o "With Gratitude" com e-mail ao Robert.

Mas pelo menos já sei o que escrever se no lançamento da Viagem a Tralalá me pedirem um autógrafo. Vai ser isto: "With Love, Vincenzo Capezzuto".
Se me faz feliz a mim, também deve ser muito bom para os outros.  

Para terminar, aqui vai um vídeo do - Como é que adivinharam? Esse mesmo.


"cada tragédia tem o seu lado cómico" - entrevista com Wladimir Kaminer



Deve ser a primeira entrevista a este escritor em português desde o milénio passado...
Na Berlinda.org.

(Se preferirem, também podem ler lá em alemão)

foi você que pediu um "viagem a Tralalá"?




Aos amigos que têm perguntado onde podem comprar o livro: aqui, com desconto e portes de envio gratuitos (Portugal).



(Mas olhem que bom mesmo, bom mesmo, é irem ao lançamento no dia 5 de Maio, às 19 horas, na Feira do Livro em Lisboa, e depois à Russendisko, às dez da noite - e não se atrasem, que as primeiras danças são as melhores. Hehehe, isto não é verdade, são todas boas. Era mais assim: e não se atrasem, algo me diz que aquilo vai ser uma festarola das grandes.)

"diz-me em quem bates, dir-te-ei quem és"

No relato da Gui Castro Felga sobre o 25 de Abril de 2012 no Porto, com fotografias que me provocam lágrimas de orgulho (esta gente cujo rosto / às vezes luminoso), notei com alegria a calma com que tudo decorreu (como devia ser sempre, afinal!) e este extraordinário cartaz:


Um dia grande.
Em contrapartida, o 26 de Abril...

Tenho pensado muito no que o Nuno Ramos de Almeida disse há dias na TV. Cito de memória: o Estado, que devia assegurar estes serviços, opta por impedir as pessoas de os prestarem gratuitamente. E: a escola não é propriedade da autarquia, mas do povo, e destina-se a servir o povo.

Lanço um repto: não haverá um  grupo de juristas capaz de criar um contrato modelo para situações destas?
- Um contrato para legalizar e enquadrar a utilização de um edifício público a título gratuito por um grupo cujo objectivo comprovado seja servir a população.
- Esse grupo deveria ser autenticado pela população que serve (imagino algo como n assinaturas num raio de 1 km do edifício). Eventualmente, poderia até pedir-se uma renovação anual das assinaturas (ou de quatro em quatro anos, como as eleições).
- O contrato e as suas regras democráticas deviam ser publicados em todos os jornais, para debate e uso de outras autarquias.

Wladimir Kaminer e o Teatro

Encontrei este texto aqui, e repasso.
Começou a contagem decrescente para o périplo português do Wladimir Kaminer. Na próxima sexta-feira - 4.05.2012, às 18:30 - estará na livraria Fonte de Letras, em Montemor-o-Novo.



02/05/2006

20 kilos of drama

Theatre is what the Dutch doctors order but Wladimir Kaminer found that reading plays en masse demands nerves of steel.

The Berliner Theatertreffen festival runs from 5-21 May. The "Stückemarkt" section presents contemporary drama and offers six playwrights selected by the Stückemarkt jury the chance to be discovered for the theatre via staged readings. This year 557 scripts were submitted from 26 countries. Wladimir Kaminer is on the jury and has read the lot of them.
I was once sitting in an ICE train from Stuttgart to Berlin, which had got stuck in the spring snow at a small station along the way. The train was already 55 minutes late – two trains had been cancelled before it. The train was jammed full of sleeping and howling babies, German soldiers in uniform, travelling pensioners and beer-guzzling beards. On the snow-covered platform many more people were waiting in snow-covered coats for hopelessly delayed trains. Hessen suddenly looked like Russia, only that the weather conditions were not described as winter but as "snow chaos". The anxious conductress was issuing warnings to the passengers over the loudspeaker every five minutes, to be friendly to one another, to have pity on the passengers of trains that had been cancelled and who were therefore now in our train, and to take our luggage off the seats. I was the only person in the carriage who was happy about the delay: I still had thirty-five theatre plays to read before we reached Berlin. My luggage – 20 kilos of dramas – were spread over two seats in two piles: "German-language" and "international". No one dared sit on them. Plays do not make ideal reading material for travelling thanks to a pronounced dearth of adventure and witty observation. You need nerves of steel to read just one in its entirety. Theatre plays generally consist of nothing but dialogues which drag on over several pages and often make no sense. "Margot: Pull! Pull! Heinz: Yes yes. Margot: Pull! Moritz: Die! (orgasm). Death. Heinz: Good. Margot: Thanks. Heinz: That's alright. Margot: Good. Yes. How are you?" And so on and so forth. Of course these conversations eventually develop into a plot and sometimes even interesting stories, but it takes a while.

Every time Heinz and Moritz got too much for me, I would move into the smoking section to clear my head. There I found people who were having conversations that seemed identical to the plays I was reading. In these phases of nascent doubt, I asked myself who or what on earth had landed me in the Theatertreffen festival's "Stückemarkt" (play market section) jury. I thought my job would be to judge the Russian contributions and otherwise smile affably in the jury photos. The rest would be taken care of by the other jurors, a highly professional group of people whose lives revolved around the theatre: dramatic advisers, directors, playwrights.

I'd seriously underestimated the whole undertaking. Most of all, I'd underestimated my fellow countrymen. Russian writers, it seems, write plays every day before breakfast and at every other opportunity as well. A little altercation in the tram? Battabing – it's a play! The title: "A man sees red." An unhappy relationship? Two plays for the theatre and one for the radio to boot. And I underestimated the German writers. A total of 557 plays were submitted to the "Stückemarkt" section. And it was our job to pluck out six pearls from this theatrical sea. Each of us emerged with a list of favourites we felt demanded to be discussed at length. Not a single play got more that three (out of a possible five) jury votes. This dissension was certainly a characteristic of our jury as a whole. What's more, in the final round, each of us read very personal things into the same material. I found that most of the plays reminded me of a classic and recurring nightmare I have in which close acquaintances of mine in a familiar setting do mad things and don't bother to explain their behaviour. The plays covered virtually all society's phobias and fears: fear of death, of terrorism, unemployment, devastation, failure... And there seemed to be a conspicuous number of plays involving children. Children searching for their parents, children dying from a terrible virus, children running amok, children no one wants, children over forty. The competition entrants were bent on bringing to the stage everything you'd never want to experience.

The only thing that became very clear from all this reading was that theatre as a genre is still very close to the people. In spite of sustained efforts to establish it as an elitist art form, the stage continues to be perceived by writers as a place where mass-dementia and hysteria can run riot. It's not a coincidence that doctors in the Netherlands prescribe play acting to their patients – it's good for the nerves and helps combat stress and depression. In every Dutch clinic worth its salt there is a stage and experienced therapists as directors. This is the stuff of dreams for German depressives. In Berlin, and this I know first hand, they might be allowed to play the drums in a special room for therapeutic reasons, if they're lucky.

But then theatre starts early in Germany. Already in kindergarten, they organise productions on a regular basis. A stage is built and each child is given a pair of rabbit ears and has its face painted, then the show begins. The teacher plays guitar and all the children try to hide behind one another. The parents applaud and call out: "Don't be scared, come to the front!", to their own little rabbits of course. Then things continue in school with Shakespeare and Kleist. The children have to learn strange if not incomprehensible passages by heart and recite them at a previously arranged point in time. Thus children here are turned into limelight hogs at a tender age. When they grow up, they turn into actors and directors – or they write plays and send them to the Stückemarkt.

So after four hours of discussion we had arrived at six completely insane plays and drank a glass of champagne. Followed by beer, schnapps, wine and cognac – there was not even consensus among the jury in our choice of drinks. I am very happy that we managed to succeed. In passing, I should mention that I once played in German theatre myself. Since this fits the subject mater and there is still space on this page, I will go into a little more detail. When I left frosty Moscow in 1990 for this theatre Mecca, I was immediately allocated a job at the theatre by the employment office in the Prenzlauer Berg district of East Berlin. In the West, I should add, people believed that the theatre was the best thing, or rather the only good thing about the GDR. Which is why so many theatre projects received generous state funding. Every bar had its imposing, moustachioed theatre maker with pipe and whiskey glass, handing out government employment programme positions. And so I became a member of a very talented off-theatre group. I seem to remember they did dance and movement theatre but it definitely involved a bit of talking and plenty of pyrotechnics. At our first premiere in Berlin we immediately set fire to an empty house – and for that we received the much-coveted "Independent Theatre Prize".

We mostly played in the Kulturbrauerei, but also in public locations like under the Gleim Bridge, at the edge of Teutoberger Platz, in the middle of market places, in front of town halls and department stores – or just like that, on the street, and we always had big audiences. Nowhere else had I experienced a people so interested in theatre. At these open-air performances I, with the rather clumsy German I spoke at the time, was allowed to play the devil in a modern French drama. In black clothes, with a mask over my face and a burning torch in my hand, I ran around the square revealing my inner self. The friendly audience followed my performance, and my inability to speak properly seemed to go unnoticed. It was movement theatre after all. Sometimes our performances would last for several hours – without a break. The people never went home. "Go hang yourselves!" they'd shout instead, or "Get a job, you idiots!" and "Children, children!" All this acting steeled my nerves. It was the first step in my professional career.

*

Wladimir Kaminer is one of Germany's most popular young writers. He has recently published his fifth book, Die Reise nach Trulala (The Journey to La-la-land). Kaminer was born in the former Soviet Union in 1967, and emigrated to East Germany in 1990. He lives in Berlin with his wife and two children. (Read some of his writing here)

The article originally appeared in the Theatretreffen programme brochure and was also published in die Tageszeitung on 25 April, 2006.

Translation: lp

26 abril 2012

da série: quem me dera ter problemas como os meus

Encomendei na Boden um casaco lindo de morrer (com 50% de desconto, caso contrário não encomendava, e mesmo assim...). A Christina disse que não tinha forma. O Matthias disse "hum... em parte parece um esfregão, em parte está OK". O Joachim disse "não está perfeito, mas se gostas tanto...". A vizinha disse "essa cor está muito na moda!" mas "o corte não é bom para ti". A outra vizinha disse "ai essa cor! Vais ser aquela de casaco vermelho do Ku'damm". A amiga disse "tinhas de usar vários push-ups uns em cima dos outros, leva-o a um costureiro para apertar".
Levei-o a um costureiro. Olhou, olhou, puxou, apertou. Ia custar cem euros. É justo, disse eu, mas somando ao seu preço, nunca na vida pagaria tanto por um casaco. Ele começou a baixar o preço, no seu alemão muito macarrónico vinha por ali abaixo como quem cai pelas escadas: dezoito, não!, oitenta, setenta. Foi um sarilho conseguir explicar-lhe que eu não o queria explorar, só não queria gastar tanto num casaco.
Problema resolvido, vou devolver o vermelhinho. Com pena, é certo.
Mas se esta cor está na moda, não faltarão outros modelos, igualmente bonitos, e com a parte da frente cortada para mulheres normais e não para a Marilyn Monroe.

o lavrador da arada (2)

Toca o telefone, é uma senhora de idade, cujo nome eu não consigo associar imediatamente. Ao fim de alguns ãh... ãh... dou-me conta que é a avó do nosso Miguelito (este). Veio com o marido passar uns dias em Berlim e queria conhecer-nos. Pergunto-lhe se querem vir jantar a nossa casa, conhecer o cenário onde o Miguel passou alguns meses, e ela responde: também podem vir jantar ao nosso hotel, estamos no Adlon.

Que mais nos falta acontecer? Começo a desconfiar que o próximo parente do Miguel que nos quiser conhecer vai enviar um convite para irmos passar uns dias no Burj al Arab... 

(E lá vou eu ter de me disfarçar de senhora outra vez, esta minha vida é um stress...)

(Tristes sinais dos tempos: o lavrador da arada sonhava com um lugarzinho no céu; eu, quando me dá para delirar, ocorre-me um arranha-céus de luxo árabe...)

25 abril 2012

de um primeiro de Maio a um 24 de Abril


É muito doloroso imaginar este banco vazio.
Todos os dias são maus para morrer, todos os tempos. Mas hoje, logo hoje!

Que nos resta? As nossas próprias mãos, unidas às mãos de outros que queiram juntar-se ao esforço de reinventar um sentido para Portugal. Começar hoje. Recomeçar hoje e sempre.

Por exemplo: esta tarde, no Porto.

(foto encontrada no mural do facebook do Miguel Portas)

24 abril 2012

GILF - mais três anões de última hora, e os happy few que restaram da primeira votação






Se tivessem um anão com livro como o primeiro, mas com a cara do da cenoura, era já. Como não há um desses, lá vou eu ter de me armar de novo em democrática. Este Abril éuma chatice.
(Agora vou sair um bocadinho, para ir a um concerto giro com o adepto do anão do Bambi muito kitschoso. Mas vão fazendo os comentários, eu depois publico-os todos e encomendo ainda hoje. O que me apetecer, hehehe, que hoje ainda é 24 de Abril.)


Adenda, a pedido da Rita:



o que tenciona fazer no Dia da Liberdade 2012?

Sugestão 1:

Às 15h do Dia da Liberdade, concentração em frente à Câmara Municipal do Porto, para rumar depois para o Largo da Fontinha e apanhar uma tareia das grandes, como se se fosse um estudante universitário do antes do 25 de Abril.

(se estivesse em Portugal, era para lá que ia)

(mais informações: aqui e aqui)

(para mim, o problema resume-se a isto: em vez de agradecer a um grupo de pessoas por prestar gratuitamente os serviços que deviam ser prestados pelo Estado - oferecer actividades culturais, nas suas múltiplas formas, aos filhos dos mais desfavorecidos da nossa sociedade - e de legalizar a situação do uso do edifício tendo em conta os serviços que lá são prestados, o Estado opta por mandar a Polícia despejar o edifício e destruir material pedagógico)

(a propósito: o Manuel António Pina escreveu mais uma das suas crónicas de pôr o dedo na ferida)


Sugestão 2:

De 24 para 25 de Abril – emissão histórica em direto. Uma iniciativa do Centro de Documentação 25 de Abril e da Ideias Concertadas. Na página Facebook do CD25A, das 22 horas de 24 às 22 de 25, a Revolução dos Cravos passo a passo, relatada e documentada.
(texto copiado do blogue A Terceira Noite)



Sugestão 3 (para os que estão em Berlim):




concurso GILF 2012

Estou cheia de dúvidas qual destes anões comprar para oferecer a uma amiga. Ela está a morrer de medo que eu lhe ofereça um anão exibicionista, ou um com uma faca espetada nas costas, ou assim - como se eu fosse capaz de uma coisa dessas!) e eu estou a morrer de medo de não ser capaz de escolher o mais bonito de todos.
Vamos a votos? Trata-se, nada mais nada menos, de eleger o gilf do ano!

GILF: Gnome I'd Like to Face

(ou estavam a pensar o quê, heinhe?!)



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O meu favorito, se querem saber, é o 7. Mas é sempre a mesma coisa, ninguém me deixa mandar, já perdeu, etc., snif snif. 

Nota importante: se não responderem depressa, eu vou lá sozinha e pode ser que acabe a trazer este:

 ou este:


ou este:



las idas y las vueltas



Do texto deste vídeo: Cantes de ida y vuelta, fandangos, romances, canarios, folías, guarachas, jácaras por bulerías... Los espíritus creativos de Fahmi Alqhai y Arcángel buscan sendas inexploradas a través de la fecundación mutua del Flamenco y la Música Barroca.

Não sei bem o que esperava do concerto de ontem. Talvez barroco com uma pontinha de flamenco? Saiu-me um concerto surpreendente: tudo, e uma pontinha de barroco. Accademia del Piacere, sem dúvida: experiências muito criativas, por músicos extraordinários (excepto a voz feminina, à qual faltava técnica e volume).

Depois de um concerto assim, começo a estar aberta para rever a minha posição sobre a Christina Pluhar e os seus Pajaros Perdidos. A ver o que l'Arpeggiata traz na sexta-feira.

**

Quando me dirigia à caixa para levantar os bilhetes que comprara na internet, um senhor ofereceu-me um bilhete na fila 5. Tinha dois, e só precisava de um, disse ele. Que fazer com o meu bilhete, num lugar bem mais fraquinho? Num primeiro impulso, fui boa pessoa: saí para o Gendarmenmarkt a perguntar a quem via se queria um bilhete gratuito. Ninguém queria, nem sequer o trompetista que estava a tocar junto à estátuta do Schiller. Voltei para a entrada do teatro, vi que alguém acabara de comprar um bilhete à porta, e brandi o meu. "Quanto custa?", perguntou um interessado. "Ahem... vinte euros", respondi eu.
Moral da história: quando me apanharem em flagrante de bondade, aproveitem logo. O diabo que às vezes me espreita precisa de entre cinco e sete minutos para as começar a tecer.

23 abril 2012

preciso de uma máquina para me teletransportar, outra para me clonar, e sobretudo um complexo de vitaminas para os neurónios



Aqui a inteligência rara, apesar de ter dois concertos agendados há muito para esta semana (de facto são três, mas o terceiro é o do Dudamel, não conta) e de ter inclusivamente um membro de uma das orquestras a dormir cá em casa, e de ter anotado no calendário que o Jordi Savall estava no sábado passado na Dussmann, só ontem à noite é que lhe caiu a ficha: está a decorrer a 6ª Bienal de Música Antiga de Berlim!

Se alguém souber onde arranjar vitaminas para os neurónios, agradecia.

Felizmente ainda fui a tempo de comprar bilhetes para l'Arpeggiata na sexta, e para um Barock goes Flamenco hoje à noite. Só tenho imensa pena de ter perdido o Jordi Savall ontem.

A culpa é dos russos.

identificação de um homem

Shame. Saí do cinema com falta de ar.

Valeu-me o Cummings:

i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh… And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you so quite new

e.e. cummings


Aqui em versão tropical:




No autocarro, dois adolescentes completamente embriagados sentaram-se no banco à minha frente.
Ele dizia frases curtas brutais:
- um i-phone é o melhor para dar cabo de um rosto - tinhas de me ver, não parava - batia e batia com o i-phone naquela cara -
Ela tentava apaziguá-lo, mas ele não parava:
- cala-te! cala-te! - não percebes nada - às vezes tenho de bater - um ódio, odeio as pessoas -

Olhou para mim com ar inquiridor mas por sorte eu estava extremamente concentrada a ler uma placa da frente para trás e de trás para a frente - Augustinerplatz/ztalprenitsuguA - ele desistiu de olhar, e continuou o seu discurso:

- cala-te, cala-te! - basta um olhar, um olhar nem que seja por uma fracção de segundo - tenho-lhes um ódio! -

Saíram do autocarro. Entre os passageiros espalhou-se uma onda de alívio. No seu lugar sentou-se uma menina de três anos, de olhos escuros muito curiosos e alegres. Ar fresco, enfim!

22 abril 2012

hip Berlin goes Cais do Sodré

Antes que de Lisboa se ergam vozes a argumentar contra a regionalização, que talicoisa, cá vai mais um convite:



O lançamento do livro será no sábado, dia 5 de Maio, às sete da tarde na feira do livro.
Um muitos em um: as perguntas que lhe farão, as respostas que ele dará, a componente paisagística (digamos assim), aquele livro tão bonito autografado pelo autor (e eu caia desta cadeira abaixo se não conseguir no meu exemplar também um autógrafo da Vera Tavares), e de brinde mais isto: uma pessoa a falar alemão com sotaque russo, e outra a falar português com sotaque alemão (ocasionalmente trocando também os bb pelos bb).

A seguir há festa, e que festa: Hip Berlin goes Cais do Sodré! 
A Russendisko começa às dez da noite na Pensão Amor. Não se atrasem muito (quem avisa, amiga é).

21 abril 2012

à atenção dos beduínos que vivem nessa região de Portugal onde não há gente, nem escolas, nem hospitais, nem cidades, nem comércio, nem indústria, nem hotéis


Só para que não se queixem que o que é bom só acontece em Lisboa, ó pra isto:

O périplo português do Wladimir Kaminer começa em Montemor-o-Novo! 

Será na sexta-feira, 4 de Maio, às 18:30, na Livraria Fonte de Letras. "Conversa com o autor, e um cheirinho de Russendisko" é o que diz o convite. No entanto, por essa altura já ele terá visto algumas das paisagens mais bonitas do país, já terá falado com gente do melhor que há em Portugal, e já estará rendido à gastronomia alentejana. De modo que tenho cá uma intuição que nessa conversa ele vai é começar por perguntar onde é a repartição para se naturalizar português, e se há alguém que lhe queira dar aulas de cavaquinho. Vai uma aposta? Vão lá ver, e verão.

E se provarem que afinal existem, aparecendo em grande número, de brinde talvez se arranje também um aeroportozinho.

de mãos vazias

Hoje colhi todas as rosas do jardim e cheguei junto de ti de mãos vazias.


A Rita faz hoje anos. Trinta. 
Gostava de lhe dar todos os presentes do mundo, e desfazer-me em elogios, todos os que ela merece - e são tantos! - mas as minhas mãos parecem-me nuas e incapazes.

Rita: chego ao pé de ti de mãos vazias, e coração cheio. 
Que tenhas um grande dia, e que venha por aí uma década fantástica, quase tão boa como as que se lhe seguirão. E obrigada por existires assim mesmo como és. Wir hätten dich sonst sehr vermisst.


Para terminar, um presentinho. Espero que gostes (carrega na imagem).


a li


Olhei para o desenho, e gostei.
Depois pensei: esta li deve ser analfabeta. Ou como se explica que um camaleão não tome a cor dos seus livros?
Depois repensei: esta li deve ler muito. Porque - como todos sabem - um camaleão só se encontra com a sua própria cor depois de ter lido muito, muito, muito, muito.

Quanto mais olho, mais gosto. Por me dar conta que é uma mensagem que vai mais longe que as habituais "os livros são divertidos / os livros mudam-te / os livros enriquecem a tua vida".

O desenho é da Gui Castro Felga. Concorria a um concurso da Bertrand, e não ganhou.
(É o problema do costume: ninguém me deixa mandar!)