Bem sei que não devia ter lido uma carta que não me foi dirigida, mas li, e fiquei alarmada. É entre - digamos assim - o Vaticano e um bispo preocupado em resolver o problema da pedofilia dos padres. Trata-se de uma carta confidencial, onde se fala da proposta de autorizar que os clérigos gays tenham relações sexuais com outros clérigos gays para evitar que abusem de criancinhas. Confesso que a li várias vezes, desconfiando que seria piada do Onion ou do Inimigo Público.
A primeira gracinha que me ocorreu foi que os malandros da Opus Gay agora invadiram o Vaticano e estão a fazer lobbyism a tão alto nível: conseguir que os padres gays possam ter relações sexuais, quando os outros estão amarrados ao voto de castidade, é obra!... (sim, eu sei: a inveja é uma coisa muito feia)
Também me apetecia brincar com a incompatibilidade entre a Realpolitik e a Moral, a Doutrina e tudo o que a Santa Madre tem vindo a juntar como andaime ao longo de dois milénios. Muito haveria para brincar, mas o caso é sério.
Para o caso de passar por aqui alguém ligado à hierarquia católica, deixo alguns comentários importantes:
1. O ponto mais interessante da carta é a alusão a uma revisão das directivas sobre a sexualidade dos padres. Espero sinceramente que sejam as boas notícias que há tanto esperava.
2. Sobre sugerir que os padres gays possam usar outros padres gays em vez de usar criancinhas, convinha deixar algumas coisas muito claras:
- Gay e pedófilo não são sinónimos. Há muitos pedófilos heterossexuais. Há muitos gays e muitos heterossexuais que não são pedófilos.
- Uma pessoa com tendências pedófilas é uma pessoa gravemente doente, que precisa de ajuda profissional em vez de uma espécie de escape para tentar distrair as suas pulsões. Se o sexo com um adulto evitasse de algum modo que se abusasse de crianças, não havia tantos homens casados a visitar o quarto da filha ou da enteada, nem havia tantas mulheres casadas a abusar da inteira fragilidade dos seus filhos.
- Sinto uma enorme repulsa por soluções em que se propõe o sexo como meio para atingir um objectivo alheio ao amor e ao profundo respeito entre duas pessoas. Admitir que se permitam relações sexuais entre dois padres gays porque um deles está quase a ceder à tentação de abusar de uma criança é um grave atentado à dignidade do padre utilizado como objecto de diversão. (Se precisam que eu faça um desenho: um padre heterossexual está quase quase a cair em pecado para os lados de uma miúda da catequese; em desespero de causa, arranja uma freira qualquer que esteja disposta a fazer com ele um truca-truca preventivo. A Igreja olha e diz "do mal, o menos"? Não, claro que não.)
- Porque será que não se fala das meninas que foram vítimas de padres pedófilos? Não as há? Ou estes casos não são tão mediáticos como os dos rapazes? Em todo o caso: se as há, o problema desses padres também tem de ser objecto de análise, em vez de se olhar apenas para os padres gays.
- Eu sei que a doutrina da Igreja Católica não vê o amor entre dois gays como uma forma digna e humana de amor. Ou, citando um testemunho comovente de um gay crente, não aceita que este amor possa estar tocado por Deus. Essa pessoa dizia algo como: "andei anos a recusar este amor, neguei-me e fugi de mim próprio, até que um dia percebi que estava a recusar a única forma de amar que Deus me dera". A Igreja Católica não o vê assim, mas não precisava de atirar para a sarjeta não apenas algo que significa muito para outras pessoas, mas também os seus próprios princípios de dignidade humana.
3. Se me perguntassem, eu sugeria que:
- Fizessem um apertado controle à saúde mental dos alunos que entram no Seminário. Tolerância zero para seminaristas e padres que mostram indícios de tendências pedófilas.
- Aceitassem que a afectividade e a sexualidade de uma pessoa são elementos não escamoteáveis da sua liberdade e dignidade. Não devem ser objecto de imposição de condições desumanas, nem sequer deviam ser tematizados num contexto de vocação.
- Permitir o casamento dos padres (bem, já nem me atrevo a pedir o dos padres gays) ia acabar com um sem-número de misérias e indignidades (o uso de prostitutas, a desgraça da "criada do padre", os amores clandestinos e condenados). Mas duvido que permitir que os padres tenham relações sexuais com outros adultos evite que os pedófilos abusem de crianças.
31 março 2012
30 março 2012
o Leo... o Leo Leo... o Leonard Cohen!
Vem em Setembro a Berlim. Até fiquei gaga.
Estava a ver a lista dos concertos, e já estou habituadíssima a que aconteçam quando eu estou em Portugal
(só para terem uma ideia, este Verão, enquanto eu estiver desse lado da insularidade, são estes alguns dos figurões que visitam Berlim: Bobby McFerrin com Chick Corea; John Malkovich para The Infernal Comedy, Bob Dylan, Lou Reed, Marianne Faithfull, Regina Spektor, The Beach Boys - sim, The Beach Boys, não estou a inventar nada!)
e eis que de repente o Leonard Cohen me salta aos olhos, e é Setembro!
Setembro, que grande mês. Amanhã vou comprar os bilhetes.
(E agora me ocorre: o Joachim acha que as férias em Portugal nos saem sempre muito caras. Se ele soubesse o dinheiro que poupamos por não estar em Berlim nessa altura... até podíamos marcar um almocinho no Abocanhado de Brufe para aplicar bem aplicada uma ínfima parte dessas poupanças. Boa ideia, amanhã telefono para lá a marcar mesa, hehehe.)
o céu é o limite
O céu - que digo eu? A Chave de Ouro da cidade do Porto! - é o limite:
a pessoa que está a rever a minha tradução do livro do Wladimir Kaminer disse que eu sou muito boa em palavrões.
Hehehe.
(Agora só era preciso o Porto eleger um presidente da Câmara de quem me desse gosto receber a Chave de Ouro. É como digo, e a esperança é a última a morrer: o céu é o limite.)
a pessoa que está a rever a minha tradução do livro do Wladimir Kaminer disse que eu sou muito boa em palavrões.
Hehehe.
(Agora só era preciso o Porto eleger um presidente da Câmara de quem me desse gosto receber a Chave de Ouro. É como digo, e a esperança é a última a morrer: o céu é o limite.)
29 março 2012
um navio abandonando os ratos
"Me sinto como um navio abandonando os ratos." (num discurso, em 1963)
Nunca soube pronunciar Millôr. Para mim, era o Melhor Fernandes.
Entrevista aqui (por Clarice Lispector). Biografia aqui. Colecção de citações aqui. Quando me morre um destes, é sempre a mesma sensação de perda: eu a contar os navios que me restam. E mais não digo, porque o sentido do ridículo acabou de passar por aqui a piscar-me o olho:
"A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte."
Nunca soube pronunciar Millôr. Para mim, era o Melhor Fernandes.
Entrevista aqui (por Clarice Lispector). Biografia aqui. Colecção de citações aqui. Quando me morre um destes, é sempre a mesma sensação de perda: eu a contar os navios que me restam. E mais não digo, porque o sentido do ridículo acabou de passar por aqui a piscar-me o olho:
"A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte."
então agora escreve-me um texto sem a letra M...
Segundo notícia de blogue da CNN, nas escolas públicas de Nova Iorque há instruções para banir dos seus testes "palavras sensíveis" do género: divórcio, religião, dinossauro, aniversário, Natal, televisão.
Isto é tão louco que a culpa só pode ser do Acordo Ortográfico!
(esta ainda é a fase de fazer do Acordo Ortográfico nosso bode expiatório para tudo, não é?)
Se não se sabe escrever dinosaur (dinossaur?), religion ou relijon, Halloween ou Halowin, etc., a escola facilitista dos EUA opta por tirar as palavras que são difíceis de escrever, para dar boas notas aos alunos das classes desfavorecidas. E pronto, está tudo explicado. É por causa da igualdade de oportunidades, e daquele presidente socialista que há agora na Casa Branca.
Eu gosto destas coisas. Gosto que o Houaiss tenha retirado palavras "desconfortáveis", deixando no seu lugar o absurdo vazio, gosto que a escola pública seja obrigada a escrever textos à laia do jogo de não poder dizer "não" e palavras onde apareça a letra m. E agora vou acabar com a gracinha de eu própria escrever todo um texto sem a letra m, porque o remate é importante e tem de ser dito com todas as letras:
Porque tudo isto nos confronta com a estupidez do exagero e da confusão entre tolerância e auto castração, obriga a pensar, e talvez conduza a uma mudança consciente.
Isto é tão louco que a culpa só pode ser do Acordo Ortográfico!
(esta ainda é a fase de fazer do Acordo Ortográfico nosso bode expiatório para tudo, não é?)
Se não se sabe escrever dinosaur (dinossaur?), religion ou relijon, Halloween ou Halowin, etc., a escola facilitista dos EUA opta por tirar as palavras que são difíceis de escrever, para dar boas notas aos alunos das classes desfavorecidas. E pronto, está tudo explicado. É por causa da igualdade de oportunidades, e daquele presidente socialista que há agora na Casa Branca.
Eu gosto destas coisas. Gosto que o Houaiss tenha retirado palavras "desconfortáveis", deixando no seu lugar o absurdo vazio, gosto que a escola pública seja obrigada a escrever textos à laia do jogo de não poder dizer "não" e palavras onde apareça a letra m. E agora vou acabar com a gracinha de eu própria escrever todo um texto sem a letra m, porque o remate é importante e tem de ser dito com todas as letras:
Porque tudo isto nos confronta com a estupidez do exagero e da confusão entre tolerância e auto castração, obriga a pensar, e talvez conduza a uma mudança consciente.
a casa da árvore
Cidade de surpresas: ao fundo do Ku'damm, junto à linha circular da S-Bahn, existe uma passagem para outro mundo.
28 março 2012
"Alemanha baixa salário mínimo dos não europeus"
Se lessem um título de notícia assim:
Alemanha baixa salário mínimo dos não europeus
Passa a ser de 44.800 euros por ano
- iam pensar o quê da Alemanha? O quê, digam lá, o quê?
E se a notícia continuasse assim: "O Governo alemão chegou a um acordo para reduzir o salário mínimo dos trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia e que são contratados por empresas da Alemanha, dos atuais 66 mil euros anuais para 44.800 euros."
- Iam pensar que os alemães estão loucos? E que isto é xenofobia pura e dura? E que é inadmissível?
E se a seguir se fizesse questão de dizer que esta é uma medida governamental da coligação chefiada pela Angela Merkel?
- Ah, fulanizemos, "a Merkel nunca me enganou, essa esta essa aquela, grandessíssima..."
A notícia em português está aqui. Para memória futura, copio-a para o fim deste post.
A notícia no jornal alemão que deu origem a esta vai já a seguir, em tradução um bocadinho à pressa, mas verdadeira no essencial.
É só para deixar bem claro que em Portugal há cada vez menos pudor de fazer um discurso de ódio contra a Alemanha (e a sua Merkel), que todos os pretextos são bons, e que a coisa chegou a tal ponto que já ninguém desconfia, nem mesmo o jornalista cujo dever é estar especialmente atento quando a esmola é desmesuradamente grande. Porque - parece-me - o que se pensa e diz da Alemanha (e da sua Merkel) já é tão mau que poucos admitem sequer que possa haver algo errado na história.
É verdade que para pessoas um tanto dadas a acreditar em histórias mirabolantes e amigas de se deliciarem com escândalos de mesa de café (desde presidentes que continuam presidentes apesar dos estranhos negócios que fizeram e ninguém investiga, até reis que sairão das brumas e ditadores que seriam, eles sim!, capazes de pôr isto com dono, passando pela Nossa Senhora que tudo concede desde que peçamos com jeitinho - sim, estou a falar de uma maré negra que vinha da Galiza para o Minho, mas arrepiou corrente porque a nossa Nossa Senhora é melhor que a deles, ou então os nossos ministros rezam com mais devoção) para pessoas assim é difícil perceber a diferença entre um país e The Onion.
Mas devia haver algum limite para as histórias mirabolantes, para as projecções da auto-imagem e para a má-fé em relação a um parceiro europeu.
De facto (e se calhar já deu para perceberem que estou mesmo chateada) fica mal a um povo que tanto se queixa da arrogância dos alemães e do modo como "olham para nós sem respeito" fazer exactamente a mesma coisa de que os acusa.
E cá vai o artigo original, para compararem com o português, e me dizerem se tenho ou não razão para estar furiosa, assustada e decepcionada.
O governo baixa os obstáculos à entrada de profissionais estrangeiros com altas qualificações
E agora, o artigo português:
O Governo alemão chegou a um acordo para reduzir o salário mínimo dos trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia e que são contratados por empresas da Alemanha, dos atuais 66 mil euros anuais para 44.800 euros.
O diário «Financial Times Deutschland» revela esta quarta-feira que os partidos da coligação governamental, liderada pela chanceler Angela Merkel, decidiu adotar esta medida devido à falta de mão-de-obra qualificada no país e à forte procura das empresas locais.
Para os profissionais muito requisitados na Alemanha, como engenheiros, informáticos e médicos, o salário anual mínimo será reduzido até aos 34.200 euros anuais.
O Governo federal alemão planeia ainda, segundo o mesmo jornal, emitir um visto especial para quem for procurar emprego à Alemanha e que permitirá aos profissionais especializados não europeus residir naquele país até seis meses para poderem encontrar trabalho, cita a Lusa.
Esta iniciativa governamental estabelece ainda que quem demonstrar bons conhecimentos de alemão terá direito a um visto válido até dois anos e que os licenciados naturais de países fora da União Europeia, mas formados em universidade e escolas técnicas alemãs poderão ficar mais tempo no país para procurar trabalho.
ADENDA IMPORTANTE
A notícia foi corrigida. A nova versão:
Notícia corrigida às 15h
O Governo alemão chegou a um acordo para baixar o limite mínimo de salário a partir do qual os trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia terão de preencher para trabalhar no país. A antiga lei previa que só quem ganhasse pelo menos 66 mil euros anuais é que teria acesso ao visto, mas agora basta ganhar 44.800 euros por ano.
A alteração, que tem que ver então com o limite mínimo para a prova de rendimentos e não, como por lapso circulou nas agências noticiosas e na imprensa, sobre uma redução do salário mínimo, facilita a vida aos estrangeiros que querem obter um visto para trabalhar e residir na Alemanha.
O diário «Financial Times Deutschland» revela esta quarta-feira que os partidos da coligação governamental, liderada pela chanceler Angela Merkel, decidiram adotar esta medida devido à falta de mão-de-obra qualificada no país e à forte procura das empresas locais.
Para os profissionais muito requisitados na Alemanha, como engenheiros, informáticos e médicos, salário anual mínimo a partir do qual poderão obter um visto para trabalharem no país será reduzido até aos 34.200 euros anuais, fazendo com que mais profissionais se possam candidatar.
O Governo federal alemão planeia ainda, segundo o mesmo jornal, emitir um visto especial para quem for procurar emprego à Alemanha e que permitirá aos profissionais especializados não europeus residir naquele país até seis meses para poderem encontrar trabalho, cita a Lusa.
Esta iniciativa governamental estabelece ainda que quem demonstrar bons conhecimentos de alemão terá direito a um visto válido até dois anos e que os licenciados naturais de países fora da União Europeia, mas formados em universidade e escolas técnicas alemãs poderão ficar mais tempo no país para procurar trabalho.
A Alemanha voltou a crescer no início deste ano.
Alemanha baixa salário mínimo dos não europeus
Passa a ser de 44.800 euros por ano
- iam pensar o quê da Alemanha? O quê, digam lá, o quê?
E se a notícia continuasse assim: "O Governo alemão chegou a um acordo para reduzir o salário mínimo dos trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia e que são contratados por empresas da Alemanha, dos atuais 66 mil euros anuais para 44.800 euros."
- Iam pensar que os alemães estão loucos? E que isto é xenofobia pura e dura? E que é inadmissível?
E se a seguir se fizesse questão de dizer que esta é uma medida governamental da coligação chefiada pela Angela Merkel?
- Ah, fulanizemos, "a Merkel nunca me enganou, essa esta essa aquela, grandessíssima..."
A notícia em português está aqui. Para memória futura, copio-a para o fim deste post.
A notícia no jornal alemão que deu origem a esta vai já a seguir, em tradução um bocadinho à pressa, mas verdadeira no essencial.
É só para deixar bem claro que em Portugal há cada vez menos pudor de fazer um discurso de ódio contra a Alemanha (e a sua Merkel), que todos os pretextos são bons, e que a coisa chegou a tal ponto que já ninguém desconfia, nem mesmo o jornalista cujo dever é estar especialmente atento quando a esmola é desmesuradamente grande. Porque - parece-me - o que se pensa e diz da Alemanha (e da sua Merkel) já é tão mau que poucos admitem sequer que possa haver algo errado na história.
É verdade que para pessoas um tanto dadas a acreditar em histórias mirabolantes e amigas de se deliciarem com escândalos de mesa de café (desde presidentes que continuam presidentes apesar dos estranhos negócios que fizeram e ninguém investiga, até reis que sairão das brumas e ditadores que seriam, eles sim!, capazes de pôr isto com dono, passando pela Nossa Senhora que tudo concede desde que peçamos com jeitinho - sim, estou a falar de uma maré negra que vinha da Galiza para o Minho, mas arrepiou corrente porque a nossa Nossa Senhora é melhor que a deles, ou então os nossos ministros rezam com mais devoção) para pessoas assim é difícil perceber a diferença entre um país e The Onion.
Mas devia haver algum limite para as histórias mirabolantes, para as projecções da auto-imagem e para a má-fé em relação a um parceiro europeu.
De facto (e se calhar já deu para perceberem que estou mesmo chateada) fica mal a um povo que tanto se queixa da arrogância dos alemães e do modo como "olham para nós sem respeito" fazer exactamente a mesma coisa de que os acusa.
E cá vai o artigo original, para compararem com o português, e me dizerem se tenho ou não razão para estar furiosa, assustada e decepcionada.
Falta de pessoal qualificado
O governo baixa os obstáculos à entrada de profissionais estrangeiros com altas qualificações
Exclusivo - Em breve será possível à economia alemã recrutar profissionais fora da UE por um preço claramente mais baixo. De futuro, bastará a um estrangeiro fazer prova de um rendimento anual de 44.800 euros para poder viver na Alemanha.
Futuramente, será mais fácil a estrangeiros com boas qualificações receber um trabalho na Alemanha. Esta mudança é resultado de um acordo de facções dos partidos CDU e FDP, segundo o qual pessoas com um rendimento anual superior a 44.800 euros podem instalar-se neste país, em vez do limite mínimo de 66.000 euros que até agora eram exigidos. Para profissões onde há muita falta de profissionais (engenheiros, informáticos, médicos) esse limite pode baixar até 34.200 euros, segundo fontes da coligação.
Seis meses para procurar emprego
O acordo no Parlamento representa grandes melhorias para a economia, tornando-lhe possível ir ao estrangeiro buscar profissionais por um preço mais baixo (n.T.: por um preço mais baixo que o que a lei lhe permite hoje em dia, e não por um preço mais baixo que o pago aos profissionais alemães) para ocupar os postos de trabalho vagos. Apesar da facilidade de movimentos dentro da UE, ainda faltam candidatos aos empregos oferecidos, pelo que se decidiu abrir essa porta a pessoas que não são provenientes de países da UE. Tendo em conta a actual situação de oferta de emprego, o partido CDU abandonou a sua atitude de resistência a medidas que facilitem a entrada destes emigrantes.
A segunda novidade é a introdução de um visto especial para busca de trabalho. As pessoas provenientes de países que não pertencem à UE podem ficar na Alemanha até seis meses à procura de um emprego - independentemente da sua qualificação, e dos seus rendimentos até à data. No entanto, têm de fazer prova de estarem em condições de pagar as suas despesas durante esse período. Se arranjarem um emprego, o rendimento anual tem de estar acima daquele limite.
O acordo quanto à norma "EU-Blue-Card" é um êxito raro da coligação, já que esses partidos costumam ter opções antagónicas no que diz respeito a estes temas.
Estas propostas relativas à imigração deverão ser apresentadas na quarta-feira. Um nível intermédio a partir de 44.000 euros, sobre o qual se falou em tempos, será ignorado. De futuro, um salário a partir de 44.800 euros permite uma autorização de residência durante três anos. Depois disso, a pessoa pode estabelecer-se no país por um longo período.
Vantagens acrescidas para quem falar a língua
Uma outra regra nova refere-se ao conhecimento da língua. Quem falar bem alemão, pode tornar-se residente por período indeterminado já ao fim de dois anos. Essa foi uma condição imposta pela união CDU/CSU: "queremos premiar o esforço de integração".
Os estudantes estrangeiros que terminam um curso num estabelecimento de ensino superior alemão também podem ficar mais tempo neste país à procura de emprego: o prazo foi prolongado de 12 para 18 meses após o fim dos estudos. Durante o curso, podem ter um emprego paralelo durante 120 dias em vez dos 90 dias por ano que até agora eram autorizados.
E agora, o artigo português:
Alemanha baixa salário mínimo dos não europeus
Passa a ser de 44.800 euros por anoO Governo alemão chegou a um acordo para reduzir o salário mínimo dos trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia e que são contratados por empresas da Alemanha, dos atuais 66 mil euros anuais para 44.800 euros.
O diário «Financial Times Deutschland» revela esta quarta-feira que os partidos da coligação governamental, liderada pela chanceler Angela Merkel, decidiu adotar esta medida devido à falta de mão-de-obra qualificada no país e à forte procura das empresas locais.
Para os profissionais muito requisitados na Alemanha, como engenheiros, informáticos e médicos, o salário anual mínimo será reduzido até aos 34.200 euros anuais.
O Governo federal alemão planeia ainda, segundo o mesmo jornal, emitir um visto especial para quem for procurar emprego à Alemanha e que permitirá aos profissionais especializados não europeus residir naquele país até seis meses para poderem encontrar trabalho, cita a Lusa.
Esta iniciativa governamental estabelece ainda que quem demonstrar bons conhecimentos de alemão terá direito a um visto válido até dois anos e que os licenciados naturais de países fora da União Europeia, mas formados em universidade e escolas técnicas alemãs poderão ficar mais tempo no país para procurar trabalho.
ADENDA IMPORTANTE
A notícia foi corrigida. A nova versão:
Alemanha facilita vistos para obter mão-de-obra
Limite mínimo de salário anual para conseguir visto para trabalhar no país passa a ser de 44.800 eurosNotícia corrigida às 15h
O Governo alemão chegou a um acordo para baixar o limite mínimo de salário a partir do qual os trabalhadores qualificados naturais de países fora da União Europeia terão de preencher para trabalhar no país. A antiga lei previa que só quem ganhasse pelo menos 66 mil euros anuais é que teria acesso ao visto, mas agora basta ganhar 44.800 euros por ano.
A alteração, que tem que ver então com o limite mínimo para a prova de rendimentos e não, como por lapso circulou nas agências noticiosas e na imprensa, sobre uma redução do salário mínimo, facilita a vida aos estrangeiros que querem obter um visto para trabalhar e residir na Alemanha.
O diário «Financial Times Deutschland» revela esta quarta-feira que os partidos da coligação governamental, liderada pela chanceler Angela Merkel, decidiram adotar esta medida devido à falta de mão-de-obra qualificada no país e à forte procura das empresas locais.
Para os profissionais muito requisitados na Alemanha, como engenheiros, informáticos e médicos, salário anual mínimo a partir do qual poderão obter um visto para trabalharem no país será reduzido até aos 34.200 euros anuais, fazendo com que mais profissionais se possam candidatar.
O Governo federal alemão planeia ainda, segundo o mesmo jornal, emitir um visto especial para quem for procurar emprego à Alemanha e que permitirá aos profissionais especializados não europeus residir naquele país até seis meses para poderem encontrar trabalho, cita a Lusa.
Esta iniciativa governamental estabelece ainda que quem demonstrar bons conhecimentos de alemão terá direito a um visto válido até dois anos e que os licenciados naturais de países fora da União Europeia, mas formados em universidade e escolas técnicas alemãs poderão ficar mais tempo no país para procurar trabalho.
A Alemanha voltou a crescer no início deste ano.
Lego
Encontrado no facebook: pequena ginástica matinal para os neurónios.
Quem adivinha?
(Atenção: ao longo do dia, as pessoas foram dando palpites na caixa de comentários. Não publiquei logo esses palpites, mas vou fazê-lo agora. Ou seja: quem quiser adivinhar mesmo, não deve ler os comentários.)
Marlene Dumas Measures Her Own Grave
Do trapézio, sem rede, um blogue por onde tenho andado a passear.
Isto pode muito bem ser síndroma de estudante de medicina no segundo ano do curso, mas esta Dumas parece que andou a falar comigo antes de ter escrito o poema. Ou então, as mulheres são todas iguais. Ou melhor, talvez: as mulheres por volta dos "cinquenta danos" (como ficou traduzido no trapézio) são todas iguais.
Em todo o caso, ó pra mim em dois versos que me fazem rir:
I might as well have my ashes in a jam jar / and be more mobile.
Measuring your own grave
I am the woman who does not know
where she wants to be buried anymore.
When I was small, I wanted a big angel on my grave
with wings like in a Caravaggio painting,
Later I found that too pompous.
So I thought I'd rather have a cross.
Then I thought--a tree.
I am the woman who does not know
if I want to be buried anymore.
If no one goes to graveyards anymore
if you won't visit me there no more
I might as well have my ashes in a jam jar
and be more mobile.
But let's get back to my exhibition here.
I've been told that people want to know,
why such a somber title for a show?
Is it about artists and their mid-life careers,
or is it about women's after-50 fears?
No, let me make this clear:
It's the best definition I can find
for what an artist does when making art
and how a figure in a painting makes its mark.
For the type of portraitist like me
this is as wise as I can see.
-- M.D., 2008
(poema e fotografia encontrados aqui)
27 março 2012
o Chiado como marco e encruzilhada
Um texto imprescindível do Rui Bebiano:
Duas ou três coisas que eu sei sobre manifes:
(...) E por isso é impossível aceitar as manifestações de ódio ao manifestante da qual parte das forças policiais tem dado provas nos últimos tempos, em particular no dia da última greve geral. Trata-se de um, de mais um, sinal do regresso ao passado, à ideia de uma ordem inquestionável, legitimada por um indefinível «interesse público» e imposta pelo medo. Antes que ele se torne um hábito, convirá pois inscrever nas bandeiras do combate cívico – e nas dos partidos que defendem inequivocamente a democracia – a própria ideia de liberdade e do direito inalienável à opinião. Por todas as vias e em quaisquer circunstâncias. No voto, pela palavra e na rua. Na rua.um velhinho com swing
Terça-feira, dia de Lunchkonzert na Filarmonia. Hoje tocava o Duo Parthenon: Christina Rauh no violoncelo e Johannes Nies no piano. Beethoven, Martinu (com uma bolinha por cima do u) e Piazzolla.
A Christina Rauh explicou que o seu violoncelo é emprestado pela fundação alemã Musikleben. Foi feito por Giovanni Battista Rogeri em 1671 ("tem mais setenta anos que a Berliner Dom", dizia ela) e foi-lhe cedido pela fundação, na qualidade de vencedora de um concurso de músicos.
"Isto é um bocadinho como um casamento arranjado", explicou, " sabia que ia ter um violoncelo muito especial, mas não sabia se me ia dar bem com ele. Por sorte, foi amor à primeira vista. Tem um som, uma vibração, um..." (e continuou a tecer-lhe elogios, é tão bonito ver gente assim apaixonada)
Depois sentou-se no seu banco, fez uma troca de olhos com o pianista, e o danado do velhinho, o violoncelo de 340 anos, arrancou para o Le Grand tango de Piazzolla e o Burlesque de Kapustin com um swing que só visto.
No fim do concerto passei pela bilheteira, e para não variar arranjaram-se uns prodígios: um relativamente pequeno para o concerto com o Cesário Costa, o violinista Alexandre da Costa e a Abertura sinfónica Nr. 3 de Joly Braga Santos (no dia 1 de Abril às 4 da tarde, mais informações aqui), e um prodígio enorme para o concerto do Dudamel, que estava esgotadíssimo.
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filarmonia de Berlim
breviário para a quaresma (7)
ZEIT: A Europa só pode resolver os seus problemas actuais se acabar com o sistema capitalista? Não há uma maneira mais fácil?
Arundhati Roy: Quem dera. Mas nos nossos oceanos já quase não há peixes. No mundo inteiro o nível dos lençóis freáticos está a baixar. A floresta tropical está a ser destruída para criar vacas. Tudo isso mostra como a definição europeia ocidental de Liberdade e Igualdade tem sido míope e teimosa. Foi sempre à custa dos outros.
(aqui)
Arundhati Roy: Quem dera. Mas nos nossos oceanos já quase não há peixes. No mundo inteiro o nível dos lençóis freáticos está a baixar. A floresta tropical está a ser destruída para criar vacas. Tudo isso mostra como a definição europeia ocidental de Liberdade e Igualdade tem sido míope e teimosa. Foi sempre à custa dos outros.
(aqui)
sobre o que aconteceu no Chiado
Texto da Joana Lopes. Para que os acontecimentos do Chiado não vão parar às brumas da memória.
Ando há alguns dias com vontade de falar sobre o modo como a Polícia de um Estado de Direito deve tratar os cidadãos quando estes se manifestam. Aqui estão dois filmes de manifestações não autorizadas que ocorreram recentemente em Berlim.
A primeira, convocada por facebook, juntou algumas centenas de pessoas que brandiam sapatos em frente ao palácio do presidente da República (na altura em que o Wulff queria a todo o custo continuar presidente):
E esta, durante a cerimónia de despedida do presidente:
(notem que por volta de 1:15 se vê como os polícias tentam impedir os manifestantes - e não é à cacetada)
Neste vídeo, de nove minutos, vê-se o ambiente da manifestação e o modo como perturbam uma cerimónia protocolar do Estado. E nem assim os polícias tomam o freio nos dentes. Porque será?
Em Kreuzberg, um bairro de Berlim, começou a criar-se uma tradição de orgias de violência no primeiro de Maio. A luta com os polícias era uma espécie de happening e ponto alto dos festejos (aqui, em alemão). A simples presença de polícias era entendida como provocação, e sinal para atacar. Mas o Estado alemão soube desfazer este nó, "desescalar" a violência.
(Esta é a parte em que a Rita Dantas entra a dizer que não é bem assim, Heleninha, e eu estou ansiosa por ouvir isso que ela sabe - e viu com os seus próprios olhos - e eu não.)
Ando há alguns dias com vontade de falar sobre o modo como a Polícia de um Estado de Direito deve tratar os cidadãos quando estes se manifestam. Aqui estão dois filmes de manifestações não autorizadas que ocorreram recentemente em Berlim.
A primeira, convocada por facebook, juntou algumas centenas de pessoas que brandiam sapatos em frente ao palácio do presidente da República (na altura em que o Wulff queria a todo o custo continuar presidente):
E esta, durante a cerimónia de despedida do presidente:
(notem que por volta de 1:15 se vê como os polícias tentam impedir os manifestantes - e não é à cacetada)
Neste vídeo, de nove minutos, vê-se o ambiente da manifestação e o modo como perturbam uma cerimónia protocolar do Estado. E nem assim os polícias tomam o freio nos dentes. Porque será?
Em Kreuzberg, um bairro de Berlim, começou a criar-se uma tradição de orgias de violência no primeiro de Maio. A luta com os polícias era uma espécie de happening e ponto alto dos festejos (aqui, em alemão). A simples presença de polícias era entendida como provocação, e sinal para atacar. Mas o Estado alemão soube desfazer este nó, "desescalar" a violência.
(Esta é a parte em que a Rita Dantas entra a dizer que não é bem assim, Heleninha, e eu estou ansiosa por ouvir isso que ela sabe - e viu com os seus próprios olhos - e eu não.)
26 março 2012
nós
Talvez já tenha posto aqui este filme. Talvez até lhe tenha chamado "nós", como hoje. E é sempre o mesmo fascínio, a mesma surpresa, a mesma ternura que se solta em mim.
and now, for something really new...
Fotografia encontrada no facebook - diz que foi visto numa loja de chineses.
Fico aqui sem saber se isto é *o* símbolo da futura paz mundial, ou se faz parte do vestuário dos anjos que tocam as cornetas anunciando o fim dos tempos.
25 março 2012
"bom, paciência"
E disse: bom, paciência, que era a sua fórmula de despedida do retrato da mulher.
Bom, paciência.
Apetecia-me pegar neste retrato, e metê-lo de cabeça para cima, para que possa respirar bem.
O Tabucchi.
Bom, paciência.
Apetecia-me pegar neste retrato, e metê-lo de cabeça para cima, para que possa respirar bem.
O Tabucchi.
(daqui)
e porque hoje é domingo, e falei nos sem-abrigo...
Mudei a minha perspectiva em relação aos sem-abrigo quando vivi nos EUA.
No país das infinitas possibilidades, era muito claro que qualquer um estava sujeito a ir parar debaixo de uma ponte numa questão de semanas. Olhava para os sem-abrigo, pensava "podia ser eu". À porta do nosso supermercado havia um, sempre o mesmo. Dava-lhe um pouco da comida que tinha comprado para nós. E sobretudo, olhava-o nos olhos - que era uma coisa que antes, na Europa, não fazia.
Uma vez (hoje é domingo de manhã, acho que posso contar histórias de mãe babada) deixei os miúdos no carro (não sabia que era proibido) (e foi antes da Maddie) e fui num instantinho ao supermercado. Quando voltei, o sem-abrigo disse-me com os olhos marejados: "your kids are so sweet, m'am".
Depois percebi, e deve ter sido uma cena linda: os dois dentro do carro a olhar para o sem-abrigo, a falar um com o outro, a rebuscar os bolsos e sacos em busca de moedas, as moedas na palma da mão e eles a olhar para o sem-abrigo, a sair do carro para lhe dar tudo o que tinham.
No país das infinitas possibilidades, era muito claro que qualquer um estava sujeito a ir parar debaixo de uma ponte numa questão de semanas. Olhava para os sem-abrigo, pensava "podia ser eu". À porta do nosso supermercado havia um, sempre o mesmo. Dava-lhe um pouco da comida que tinha comprado para nós. E sobretudo, olhava-o nos olhos - que era uma coisa que antes, na Europa, não fazia.
Uma vez (hoje é domingo de manhã, acho que posso contar histórias de mãe babada) deixei os miúdos no carro (não sabia que era proibido) (e foi antes da Maddie) e fui num instantinho ao supermercado. Quando voltei, o sem-abrigo disse-me com os olhos marejados: "your kids are so sweet, m'am".
Depois percebi, e deve ter sido uma cena linda: os dois dentro do carro a olhar para o sem-abrigo, a falar um com o outro, a rebuscar os bolsos e sacos em busca de moedas, as moedas na palma da mão e eles a olhar para o sem-abrigo, a sair do carro para lhe dar tudo o que tinham.
cómoda
Os sem-abrigo fazem um jornal (para ser mais exacta, em Berlim são dois) que vendem depois pelas ruas e nos transportes públicos. Que compramos, satisfeitos por eles estarem a fazer algo útil, e nós participarmos de algum modo nesse processo: aquele jornal comprado é um elo que os integra na nossa normalidade.
Os sem-abrigo berlinenses que vendem o seu jornal são os nossos pobres, e estamos de bem com eles (eu sei, contra mim falo, podem começar a bater, "arranje-me um pobre, mas sem tuberculose, que esses morrem muito" - ou algo assim, é uma frase de Lobo Antunes que volta e meia me vergasta).
Já não me dou tão bem com os pedintes romenos que começaram há alguns anos a aparecer nesta cidade, e exibem esses jornais numa capa de plástico para pedir esmola. Incomoda-me o abuso e a deturpação do sentido - quase como a profanação de um símbolo.
Depois de um Verão em Portugal, o Matthias deu a uma dessas pedintes-de-jornal-no-saco a moeda do carrinho do supermercado, e comentou, como quem explica: "talvez seja uma cigana portuguesa, temos de ajudar".
Imaginei que, na cabeça dele, sendo portuguesa faria "nós" connosco. E dei-me conta que tenho os pobres arrumados em categorias: os nossos, pelos quais me sinto responsável, e os outros.
Muito espertinho quem se lembrou de chamar "cómoda" a um móvel de gavetas.
Os sem-abrigo berlinenses que vendem o seu jornal são os nossos pobres, e estamos de bem com eles (eu sei, contra mim falo, podem começar a bater, "arranje-me um pobre, mas sem tuberculose, que esses morrem muito" - ou algo assim, é uma frase de Lobo Antunes que volta e meia me vergasta).
Já não me dou tão bem com os pedintes romenos que começaram há alguns anos a aparecer nesta cidade, e exibem esses jornais numa capa de plástico para pedir esmola. Incomoda-me o abuso e a deturpação do sentido - quase como a profanação de um símbolo.
Depois de um Verão em Portugal, o Matthias deu a uma dessas pedintes-de-jornal-no-saco a moeda do carrinho do supermercado, e comentou, como quem explica: "talvez seja uma cigana portuguesa, temos de ajudar".
Imaginei que, na cabeça dele, sendo portuguesa faria "nós" connosco. E dei-me conta que tenho os pobres arrumados em categorias: os nossos, pelos quais me sinto responsável, e os outros.
Muito espertinho quem se lembrou de chamar "cómoda" a um móvel de gavetas.
24 março 2012
home front
Pensava eu que o estádio superior dos embates de uma mãe com os seus filhos adolescentes era aquela frase fantástica:
E eu toda contentinha ao perceber que já tinha chegado (e escapado com vida) ao estádio superior do período mais difícil da vida deles, e que dali para a frente era sempre a melhorar. Era, era...
É sempre possível subir mais um degrau nos confrontos. Desta vez com uma que me apanhou totalmente desprevenida:
É preciso muita auto-estima para atravessar a adolescência dos filhos.
***
Mas depois ponho na mesa uma couve-flor com curry, e eles elogiam e lambem os beiços e pedem para fazer mais vezes. Não há dúvida: aquela frase tão sofrida que nos atiram à cara como quem suplica por um salva-vidas, "vocês não me entendem!", é bem verdade.
- Oh, não! Outra vez comida saudável!
E eu toda contentinha ao perceber que já tinha chegado (e escapado com vida) ao estádio superior do período mais difícil da vida deles, e que dali para a frente era sempre a melhorar. Era, era...
É sempre possível subir mais um degrau nos confrontos. Desta vez com uma que me apanhou totalmente desprevenida:
- Já pensaste fazer um curso de cozinha?
É preciso muita auto-estima para atravessar a adolescência dos filhos.
***
Mas depois ponho na mesa uma couve-flor com curry, e eles elogiam e lambem os beiços e pedem para fazer mais vezes. Não há dúvida: aquela frase tão sofrida que nos atiram à cara como quem suplica por um salva-vidas, "vocês não me entendem!", é bem verdade.
23 março 2012
música para a quaresma
Assistir a um ensaio de música coral com um maestro de um lado e uma cantora lírica do outro é uma experiência inesquecível:
Voz de um lado: A acústica desta igreja é maravilhosamente redonda...
Voz do outro lado: Não sei o que é que esta igreja tem, que falta profundidade à acústica!
Voz de um lado: É um coro excepcional.
Voz do outro lado: Não consigo entender bem algumas frases.
Eu: Mas o programa tem as letras, não tem?
Voz do outro lado: Sim, sempre ajuda um pouco.
Voz de um lado: Esta peça moderna é demasiado romântica para o meu gosto.
E por aí fora.
Pior que isto, só mesmo cair nas mãos de uma junta médica.
Mas nem as avaliações profissionais me impediram o ignorante prazer de fechar os olhos e me deixar levar pelas ondas que percorriam a igreja. O Heinrich Schütz, com os cantores espalhados por vários pontos da sala, ficava perfeito e envolvente. E os Fragmenta Passionis, do Rihm, surpreenderam-me em especial com os seus momentos quase fotográficos dos sons do mob. Muito bom.
A quem interessar possa:
Sábado, 24 de março 2012, 16:00
Voz de um lado: A acústica desta igreja é maravilhosamente redonda...
Voz do outro lado: Não sei o que é que esta igreja tem, que falta profundidade à acústica!
Voz de um lado: É um coro excepcional.
Voz do outro lado: Não consigo entender bem algumas frases.
Eu: Mas o programa tem as letras, não tem?
Voz do outro lado: Sim, sempre ajuda um pouco.
Voz de um lado: Esta peça moderna é demasiado romântica para o meu gosto.
E por aí fora.
Pior que isto, só mesmo cair nas mãos de uma junta médica.
Mas nem as avaliações profissionais me impediram o ignorante prazer de fechar os olhos e me deixar levar pelas ondas que percorriam a igreja. O Heinrich Schütz, com os cantores espalhados por vários pontos da sala, ficava perfeito e envolvente. E os Fragmenta Passionis, do Rihm, surpreenderam-me em especial com os seus momentos quase fotográficos dos sons do mob. Muito bom.
A quem interessar possa:
Sábado, 24 de março 2012, 16:00
Sophienkirche Berlim
Wolfgang Rihm
Fragmenta passionis
Heinrich Schütz
Musikalische Exequien op. 7
Wolfgang Rihm
Sieben Passions-Texte für sechs Stimmen
Fragmenta passionis
Heinrich Schütz
Musikalische Exequien op. 7
Wolfgang Rihm
Sieben Passions-Texte für sechs Stimmen
Raphael Alpermann, Cembalo/Orgel
Wieland Bachmann, Kontrabass
Aleke Alpermann, Violoncello
Solisten des RIAS Kammerchores, Sänger
Wieland Bachmann, Kontrabass
Aleke Alpermann, Violoncello
Solisten des RIAS Kammerchores, Sänger
RIAS Kammerchor
Hans-Christoph Rademann, Dirigent
"este país"
Pela manhã uma amiga disse-me que o Público vai começar a vender o Chico Buarque aos bocadinhos, um naco por semana. Fui logo ver, ai!, sim, quero!
O primeiro bocado já saiu ontem. Pedi logo se mo compravam, e tal, e coisa, mas - eu bem me parece que o país evoluiu muito nos últimos vinte anos, e que a única portuguesa que ainda complica sou eu... - a mesma amiga informou-me que o posso comprar na internet. Pois claro, na loja online do Público. Escrevi a perguntar como fazer para comprar toda a colecção sem ter de pagar o porte para a Alemanha CD a CD, semana a semana, e passadas duas horas estava a receber uma simpática resposta.
Da próxima vez que apetecer dizer "este país", vou-me lembrar deste episódio.
O primeiro bocado já saiu ontem. Pedi logo se mo compravam, e tal, e coisa, mas - eu bem me parece que o país evoluiu muito nos últimos vinte anos, e que a única portuguesa que ainda complica sou eu... - a mesma amiga informou-me que o posso comprar na internet. Pois claro, na loja online do Público. Escrevi a perguntar como fazer para comprar toda a colecção sem ter de pagar o porte para a Alemanha CD a CD, semana a semana, e passadas duas horas estava a receber uma simpática resposta.
Da próxima vez que apetecer dizer "este país", vou-me lembrar deste episódio.
22 março 2012
super super super good
Esta música foi muito ouvida ontem no filme Russendisko. Vou dá-la ao meu professor de zumba, a ver se finalmente deixamos o "ai se eu te pego" e começamos a dançar uma coisa de jeito.
De momento, o Matthias está com isto em repeat. Não sei o que é que os pais dos outros adolescentes têm, que se queixam destas cenas... Se não fosse o meu adolescente a ter isto em repeat, era eu!
De momento, o Matthias está com isto em repeat. Não sei o que é que os pais dos outros adolescentes têm, que se queixam destas cenas... Se não fosse o meu adolescente a ter isto em repeat, era eu!
tertúlia pela democracia e cidadania
Esta manhã, ao ler no facebook que no Fundão se organiza uma Tertúlia pela Democracia e Cidadania, estaquei na palavra "tertúlia". Esquisitice minha, claro, que adjectivo tertúlia com leve. A ser assim, uma tertúlia parece-me pouco. Parece-me que a Democracia portuguesa precisava era de ser internada na melhor unidade de cuidados intensivos - se as houvesse para as Democracias.
Em não as havendo, pois que se comece por tertúlias, e que sejam muito participadas. Participação é preciso, sair da "zona de conforto" do cinismo e do cepticismo, olhar para exemplos que já há, acreditar que é possível mudar para melhor.
***
Esta semana, a turma do meu filho - miúdos pelos quinze anos - teve como trabalho para História escrever duas páginas A4 sobre o centro de informação do memorial do Holocausto em Berlim. Cada aluno tinha de descrever e analisar a informação disponível e a lógica subjacente à exposição, confrontar essa análise com um discurso de um vice-presidente do Parlamento alemão sobre este tema, sugerir o que poderia ser melhorado. Surpreendeu-me: a escola não queria uma descrição da informação disponível, mas uma análise da forma escolhida para passar essas informações, tendo como referência princípios fundamentais da República.
Ao ler a seriedade no trabalho do meu filho, mais uma vez me dei conta de como a construção da Democracia é um trabalho árduo, quotidiano e incansável, para recomeçar sempre e sempre e sempre.
Benditas escolas, estas, que trabalham para que cada aluno se entenda como alicerce fundamental da Democracia.
conhece-te a ti mesmo
Esta manhã acordei com algo na cabeça que parece ser mais que o brain storming do costume.
Não sei se é vodca ou gripe.
(é gripe, claro, claro que é gripe...)
Não sei se é vodca ou gripe.
(é gripe, claro, claro que é gripe...)
21 março 2012
esta deslumbradinha que aqui anda...
Esta distraidinha que aqui anda só ontem se deu conta que hoje vai a Hollywood. Ou lá perto.
Amanhã cá virei contar, provavelmente com cara de deslumbradinha como de costume.
Para já, tenho de me ir outra vez disfarçar de senhora, e tal.
Trocando por miúdos: estava a pensar que ia à première de um filme alemão, importante com certeza, mas vá, alemão. Uma coisa assim tipo Berlinale, onde já vi a Doris Dörrie em fato de treino verde (bom, era uma homenagem ao Jafar Panahi, provavelmente ela não tinha nenhum Valentino verde, e por isso veio em fato de treino, que a homenagem aos colegas presos é mais importante que o glamour, e viva Berlim!, sempre).
Afinal tem a Paramount pelo meio. Consta que forraram o chão de esmeraldas para passar o rio de champanhe que vamos beber. Uma coisa de outro mundo.
Acabei de decidir que vou de vestido cocktail, e galochas (para não meter mais água que de costume).
Amanhã cá virei contar, provavelmente com cara de deslumbradinha como de costume.
Para já, tenho de me ir outra vez disfarçar de senhora, e tal.
Trocando por miúdos: estava a pensar que ia à première de um filme alemão, importante com certeza, mas vá, alemão. Uma coisa assim tipo Berlinale, onde já vi a Doris Dörrie em fato de treino verde (bom, era uma homenagem ao Jafar Panahi, provavelmente ela não tinha nenhum Valentino verde, e por isso veio em fato de treino, que a homenagem aos colegas presos é mais importante que o glamour, e viva Berlim!, sempre).
Afinal tem a Paramount pelo meio. Consta que forraram o chão de esmeraldas para passar o rio de champanhe que vamos beber. Uma coisa de outro mundo.
Acabei de decidir que vou de vestido cocktail, e galochas (para não meter mais água que de costume).
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russendisko,
viver em Berlim
construir pontes
Este vídeo, de uma canção israelita interpretada à maneira persa, numa sala em Teerão, aparece no site Israel loves Iran.
--- Israel loves Iran?!
Comecemos pelo princípio, por Ronny Edry e Michal Tamir, um casal israelita, que há meia dúzia de dias fizeram um cartaz com uma mensagem simples e clara:
Depois juntaram ao cartaz fotografias deles, e puseram no facebook:
Outros seguiram-lhes o exemplo:
E em breve começaram a chegar respostas do Irão, e reacções do mundo inteiro.
It's impossible to count the hundreds of posters that have been shared on Facebook and the thousands of messages that have been exchanged between Israelis and Iranians in just the last few days. This past weekend, as I sat with the couple, messages and friend requests from all over the world streamed in to their inbox, dozens every half hour.
"This is a message by the people to the people," Ronny explained to me. "We don't want war. No matter what the governments are saying, on both sides, we are against it, since we will be the ones fighting it.... I think it is important that we raise our voices."
Raising your voice is easier these days, especially via social media. "We can undercut the middle man, the politicians," Ronny said. "I'm not addressing Ahmadinejad. Today we can reach Iran and they can reach us."
Nevertheless, both Michal and Ronny are still amazed that their message got to "the other side" so quickly. Michal is calling it the fall of the second Berlin Wall. "We're breaking borders and states of mind, breaking out of this cage called 'Israel.'"
"We physically can't go" to Iran, she added, "but our message of love is there, faster than any ambassador."
"Everyone's against war, and for peace," Ronny and Michal said, feeding off each other's energy, often finishing each other's sentences. "It's much harder to say 'I love you.' Think about it -- it's the hardest thing for a human being to say...it's the fear of rejection, of looking like a fool. But they really do love us back."
The letter Ronny attached to his original online poster spelled out this simple, powerful idea: "For there to be a war between us, first we must be afraid of each other, we must hate. I'm not afraid of you, I don't hate you. I don't even know you. No Iranian ever did me no harm. I never even met an Iranian.... Just one in Paris in a museum. Nice dude."
Ronny and Michal are acutely aware of the risks taken by their new Iranian friends. The couple has received messages explaining the political and security dangers of communicating with Israelis, especially for those living in Iran. While the majority of communications have come from Iranians in exile, which is hardly free of danger, others are emanating from inside the country. The fact that many Iranians are reaching out at grave personal risk gives Michal, Ronny, and the Israelis on the other side added motivation -- to continue speaking out, to continue spreading the message.
20 março 2012
primavera russa
Antes do ensaio do coro, ontem, a Warwara contou-nos que na Rússia começa agora a semana em que se festeja a chegada da Primavera. Uma das tradições é ir ao mercado comprar um passarinho que antes alguém caçou, para oferecer a alguém que o soltará de novo. "O Pushkin tem um poema sobre isto...", disse ela.
Longe de casa mantenho
tradições da minha terra:
abro a gaiola a um pássaro
- começou a Primavera.
Estou em paz. Para quê
esta zanga à divindade,
se às suas criaturas
posso dar a liberdade?
Pushkin (1823)
(O Speedy Gonzalez está cada vez mais ousado: agora traduz
poemas russos do alemão para o que se vê. Encontrado aqui.)
Em seguida, a Warwara passou com um cesto cheio de passarinhos num ninho de branco bordado. Escolhi um que vou oferecer hoje à tarde a uma família russa: viva a Primavera!
"A propósito, Helena" acrescentou ela, "quase todos os poemas do filme Une Autre Vie, que me emprestaste, são do Pushkin."
Ah, Une Autre Vie! Belo filme de Dominique Pernoo sobre um professor de violoncelo em Minsk, os rapazinhos que são seus alunos, o amor à música e a sua ligação à poesia.
Ma belle, ne dis plus tout bas
Les vieux refrains de Géorgie,
Par grâce, ne rappelle pas
Les heureux jours d'une autre vie.
Tu chantes et je crois revoir
La nuit, la steppe solitaire,
Et sous les pâles feux du soir,
Les traits aimés de l'étrangère.
J'oublie, alors que je te vois,
Ces traits qui brisent mon courage;
Tu chantes, soudain devant moi
A reparu sa pâle image.
Ma belle, ne dis plus tout bas
Les vieux refrains de Géorgie,
Par grâce, ne rappelle pas
Les heureux jours d'une autre vie.
Les vieux refrains de Géorgie,
Par grâce, ne rappelle pas
Les heureux jours d'une autre vie.
Tu chantes et je crois revoir
La nuit, la steppe solitaire,
Et sous les pâles feux du soir,
Les traits aimés de l'étrangère.
J'oublie, alors que je te vois,
Ces traits qui brisent mon courage;
Tu chantes, soudain devant moi
A reparu sa pâle image.
Ma belle, ne dis plus tout bas
Les vieux refrains de Géorgie,
Par grâce, ne rappelle pas
Les heureux jours d'une autre vie.
Pushkin: Ne Poi,Krasavitsa...
Um filho da Warwara fez um filme sobre o bisavô: "Sergej in der Urne".
O site do filme conta que Sergej Stepanowitsch Tschachotin era cientista, amigo de Einstein e Pawlow, revolucionário, antifascista, pacifista e conquistador. Teve uma vida de extremos: casou cinco vezes, divorciou-se cinco vezes, teve oito filhos. O bisneto tenta reencontrar todos os familiares para em conjunto realizarem o último desejo de Sergej: levarem as suas cinzas para a Córsega. E acaba por descobrir a história de todo um século condensada na vida desse homem. Há informações sobre ele na wikipedia, em português.
Falhei a première do filme, mas quero muito ir vê-lo. E estou na dúvida se ofereço o passarinho aos russos, ou se o como eu - feito pela neta do autor de "Le viol des foules par la propagande politique", talvez me passe por via bucal um pouco daquele génio?
No fim do ensaio ficámos ainda a conversar um pouco. Falei do cantar do muezzin na mesquita de Neukölln, e logo uma soprano, acabada de chegar de Moscovo, contou que assistiu nessa cidade a uma peça de teatro muito boa, dizia nomes que eu não entendia, o do escritor e encenador, muçulmano, e o da actriz, tártara, e que o tema tinha a ver com os judeus, e que bem tratado estava, disse que perguntou ao escritor "porque é que tu, sendo muçulmano, te interessas por judeus?" e ele respondeu do seu fascínio. Falava com tal encanto, que me apeteceu aprender rapidamente russo e ir a Moscovo ver aquela extraordinária actriz que com um simples dedo mindinho é capaz de revelar universos.
19 março 2012
diálogos de culturas
No sábado passado participei numa visita guiada a Neukölln - um dos bairros mais problemáticos da cidade, ao que dizem. Um dos eixos centrais deste bairro é a Karl-Marx-Straße, predominantemente turca. O outro é a Sonnenallee, mais árabe. Nós andámos sobretudo pela zona da Karl-Marx-Straße.
O Comenius Garten, um jardim filosófico perto da Richardsplatz:
Entrámos numa loja de vestidos de festa, onde a nossa guia falou das festas tradicionais turcas e da circuncisão dos rapazes como rito de entrada no mundo dos homens, e onde nos mostraram as várias maneiras de arranjar o lenço que cobre a cabeça das mulheres. Curioso como algumas dessas maneiras citam o ideal de beleza feminina do antigo Egipto:
(fonte)
(fonte)
A loja estava em saldos - óptimo! óptimo!
Azar, azar: não encontrei nenhum vestido de jeito para a próxima quarta-feira, e começo a ficar um bocado aflita sem saber que vestir para atravessar a passadeira vermelha da première do Russendisko. E se testasse aquela minha teoria sobre Berlim, e se fosse em chinelos e pijama? Melhor não, ainda me arrisco a aparecer na capa da Gala: "Matthias Schweighöfer foi buscar a sua avó ao lar de terceira idade).
Seguimos para um café turco, com as paredes pintadas de vermelho e decoradas com várias bandeiras de clubes de futebol. No balcão havia um cesto de maçãs para as pessoas se servirem. As bebidas não eram muito variadas: chá, ou café solúvel. O importante não são as bebidas, disse a guia, mas que as pessoas tenham um local para se encontrarem, para verem futebol juntas. E acrescentou que o letreiro sobre a porta, "reservado a sócios", mais não é que uma maneira de pagar menos impostos.
Mais à frente, passámos pelo Stadtbad. Um balneário construído no princípio do séc. XX, com piscinas entre colunas artísticas, esculturas várias, mosaicos e frescos. Um sonho, a preços normalíssimos. Já tínhamos estado lá com os miúdos, e só nos assustámos um bocadinho com o dístico junto à caixa: "É proibido trazer armas para este estabelecimento".
Ao lado, abriu recentemente um centro de educação cultural e artística para as crianças mais novas. De pequenino se enriquece o pepino, enquanto se pinta e trabalha com barro fala-se alemão: uma entre outras maneiras de dar aos filhos dos emigrantes a possibilidade de romper os círculos de pobreza.
A visita terminou numa mesquita. Era a hora da oração. A guia vestiu uma saia comprida por cima da sua minissaia, controlou que nenhum de nós tinha roupa desrespeitosa para o local, e disse às mulheres que podiam tapar a cabeça com um lenço, mas não eram obrigadas. Cubro a cabeça, ou vou assim?, pensei eu, e não cobri. Tirámos os sapatos, entrámos, sentámo-nos ao fundo da sala. Os homens sentavam-se à frente, alguns olhavam para trás e falavam connosco. O muezzin passou por nós, a caminho do seu lugar, e saudou-nos amigavelmente: bem-vindos, bem-vindos! O imam sentou-se no seu estrado, à frente de todos.
A oração começou com um canto do muezzin. Uma melodia que nos agarrava e levava para outro mundo. Agarrem-me, que eu converto-me...
À nossa frente, os homens concentravam-se cada um na sua própria oração. Por uns momentos agitavam as mãos abertas ao lado das orelhas (como crianças imitam orelhas de elefante), um gesto que significa "deixo o mundo para trás, nada disso me interessa agora, quero estar inteiramente nesta oração". Depois faziam uma profunda vénia, erguiam de novo o tronco, punham-se de joelhos e pousavam a cabeça no chão. Levantavam-se, repetiam. Como cada um o fazia segundo o seu próprio ritmo, o grupo formava ondas sempre em movimento, e na sala havia uma estranha energia. Depois o imam começou a recitar versículos do Corão, e o movimento tornou-se uníssono: os homens juntaram-se ombro com ombro, curvavam-se e ajoelhavam ao mesmo tempo.
E nós ali, na mesma sala, sem nos darmos sequer ao trabalho de mostrar um pouco de respeito pondo um lenço na cabeça. Entre os visitantes, um casal conversava numa surdina demasiado alta.
Senti vergonha: pelas nossas cabeças descobertas, pela barulheira que o casal fazia - nós, bárbaros. E admiração: pela impressionante tolerância com que éramos recebidos.
No fim da oração, o muezzin e o responsável pela mesquita ficaram a conversar connosco. Explicaram o relógio electrónico ligado a um computador, que indica a hora certa de cada oração segundo a posição do sol nesse dia, exemplificaram alguns ritos do imam para orações especiais, responderam às nossas perguntas.
O muezzin ainda não falava muito bem alemão, e o outro tentava ajudá-lo, o que tornava a conversa uma divertida cena de Dupond e Dupont:
- Na mesquita qualquer pessoa pode ler o Corão, mas convém que o saiba ler bem.
- Sim, até um rapazinho pode ler, desde que leia bem.
- Mas costuma ser o homem mais velho.
- Tem é que ler bem, porque há letras que se confundem, o "ha" e o "ra", por exemplo, só se distinguem por um ponto...
- Temos o "ha" e "ra", são muito parecidas...
- E uma forma a palavra "criar", a outra "barbear"...
- "Criar" ou "barbear", conforme tenha ponto ou não...
- E então podes ler "Deus criou o mundo" ou "Deus barbeou o mundo"...
- Conforme saibas ler, dizes "Deus criou" ou "Deus barbeou", já faz alguma diferença, e é só um ponto.
Explicaram também a importância dos ombros unidos: no Islão, o "nós" é muito importante; o "eu" não existe. E disseram porque não havia mulheres naquela oração: ou ficam no fundo da sala, ou rezam noutro lugar. Mas não se devem misturar com os homens, para não os distraírem. "Nada contra as mulheres", dizia um deles. "Mas se vêm para o meio de nós, não nos conseguimos concentrar na oração".
Despedimo-nos, calçámos os sapatos e saímos para a rua. A visita terminou numa padaria turca, da cadeia Leckerback, que quase não se distingue de uma padaria alemã.
E assim se passou a nossa visita ao problemático bairro turco da cidade. Fiquei com vontade de pedir outra, desta vez para os lados da Sonnenallee: uma incursão ao lado árabe, para tentar finalmente descobrir os maus, que no sábado passado não os encontrei entre os turcos...
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viver em Berlim
17 março 2012
a dificuldade da escolha
Já há finalistas para o Smithsonian Magazine's Annual Photo Contest, e quem quiser pode votar aqui.
Eu estou completamente dividida entre quase todas. Quase me apetecia nem ir votar, e desta vez não é por serem todos igualmente maus - muito pelo contrário.
Pudéssemos nós exercer o direito de voto sempre com a mesma alegria...
Copio algumas, só para terem uma ideia. Apetecia permanecer em cada uma delas como se fosse a única. Pudesse eu não ter laços nem limites, Ó vida de mil faces transbordantes, etc., quem me dera ficar nestas fotografias com toda a calma, mas tenho de ir fazer as compras para amanhã, que daqui a nada o supermercado fecha.
(daqui)
Eu estou completamente dividida entre quase todas. Quase me apetecia nem ir votar, e desta vez não é por serem todos igualmente maus - muito pelo contrário.
Pudéssemos nós exercer o direito de voto sempre com a mesma alegria...
Copio algumas, só para terem uma ideia. Apetecia permanecer em cada uma delas como se fosse a única. Pudesse eu não ter laços nem limites, Ó vida de mil faces transbordantes, etc., quem me dera ficar nestas fotografias com toda a calma, mas tenho de ir fazer as compras para amanhã, que daqui a nada o supermercado fecha.
(daqui)
viver em Berlim
Saí de casa, comecei a descer as escadas do prédio, e quase ao chegar ao rés-do-chão reparei que ainda estava com os chinelos de andar em casa. Parei uns momentos a pensar se valia a pena subir de novo para trocar, ou se ia à rua de chinelos - assim como assim isto é Berlim, ninguém repara.
breviário para a quaresma (6)
Como até agora, mas mais! Olhamos para o presente como se fosse uma mera passagem para um mundo que nos oferece cada vez mais, e baseia a gestão de problemas futuros em estratégias expansionistas.
Portanto: se o petróleo está a desaparecer, escava-se mais fundo; se a água falta, tira-se o sal aos oceanos; se os peixes começam a faltar, os navios vão procurar mais longe. Olhemos para a automobilização crescente, o ritmo de crescimento das viagens aéreas, a contínua intensificação dos fluxos internacionais de mercadorias - por todos os lados se vê o mesmo: aumento do uso dos recursos, aumento da mobilidade, destruição da natureza, aumento das emissões. E não temos um plano B.
"A categoria finidade é tão inquietante para a nossa cultura como a ideia da sua própria morte para o indivíduo."
Harald Welzer
(daqui)
Portanto: se o petróleo está a desaparecer, escava-se mais fundo; se a água falta, tira-se o sal aos oceanos; se os peixes começam a faltar, os navios vão procurar mais longe. Olhemos para a automobilização crescente, o ritmo de crescimento das viagens aéreas, a contínua intensificação dos fluxos internacionais de mercadorias - por todos os lados se vê o mesmo: aumento do uso dos recursos, aumento da mobilidade, destruição da natureza, aumento das emissões. E não temos um plano B.
"A categoria finidade é tão inquietante para a nossa cultura como a ideia da sua própria morte para o indivíduo."
Harald Welzer
(daqui)
16 março 2012
encontro em português (2)
Resumindo:
- pastéis de nata: mnham mnham
- pastéis de salmão: mnham mnham
- creme de atum: mnham mnham
- pumpernickel com salmão fumado e ovo: mnham mnham
- tarte flambée ainda quentinha: mnham mnham
- bola de presunto ainda quentinha: mnham mnahm
- vinho da Madeira: mnham
(estava muito bom, eu é que provei pouquinho, por causa do altruísmo e assim)
- conversa: mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
(estava muito boa, mas a volta das apresentações começou às oito, e às onze ainda não tinha chegado a minha vez, e não era por sermos muitos, era mais por sermos muito faladores. Fiquei a saber a diferença entre o Pavaroti e o Bocelli - a diferença é um chocadíssimo aaaaaaaaaah inesquecível de uma cantora lírica que lá estava, "- és cantora de ópera?", "- não *suspiro*, sou cantora lírica", quase decidi que quando for grande vou estudar história da matemática, gostei de saber que em Portugal até para fazer trabalho de voluntariado é preciso meter cunhas, hehehehe, aprendi uns truques para beneficiar do sistema de segurança social alemão em todo o seu esplendor (legalmente, claro, estão a pensar o quê?), e fiquei a saber um pouco mais sobre a vida dos emigrantes portugueses em Berlim: todos iguais, todos diferentes)
Desconfio que esta manhã umas dez pessoas virão a este blogue com o coração nas mãos, "ai que será que ela vai escrever sobre nós?", mas não digo mais que isto, sobretudo porque não acertámos muito bem o budget da chantagem, e eu não quero estourar todos os foguetes ainda antes de marcar a data da festa. E há praí umas cinquenta que virão cá para saber o que aconteceu e foi falado lá, e também para essas não digo nada, tivessem ido, homessa (homeça? homeça? omeça? o acordo ortográfico falha-me sempre quando é realmente importante).
- pastéis de nata: mnham mnham
- pastéis de salmão: mnham mnham
- creme de atum: mnham mnham
- pumpernickel com salmão fumado e ovo: mnham mnham
- tarte flambée ainda quentinha: mnham mnham
- bola de presunto ainda quentinha: mnham mnahm
- vinho da Madeira: mnham
(estava muito bom, eu é que provei pouquinho, por causa do altruísmo e assim)
- conversa: mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
(estava muito boa, mas a volta das apresentações começou às oito, e às onze ainda não tinha chegado a minha vez, e não era por sermos muitos, era mais por sermos muito faladores. Fiquei a saber a diferença entre o Pavaroti e o Bocelli - a diferença é um chocadíssimo aaaaaaaaaah inesquecível de uma cantora lírica que lá estava, "- és cantora de ópera?", "- não *suspiro*, sou cantora lírica", quase decidi que quando for grande vou estudar história da matemática, gostei de saber que em Portugal até para fazer trabalho de voluntariado é preciso meter cunhas, hehehehe, aprendi uns truques para beneficiar do sistema de segurança social alemão em todo o seu esplendor (legalmente, claro, estão a pensar o quê?), e fiquei a saber um pouco mais sobre a vida dos emigrantes portugueses em Berlim: todos iguais, todos diferentes)
Desconfio que esta manhã umas dez pessoas virão a este blogue com o coração nas mãos, "ai que será que ela vai escrever sobre nós?", mas não digo mais que isto, sobretudo porque não acertámos muito bem o budget da chantagem, e eu não quero estourar todos os foguetes ainda antes de marcar a data da festa. E há praí umas cinquenta que virão cá para saber o que aconteceu e foi falado lá, e também para essas não digo nada, tivessem ido, homessa (homeça? homeça? omeça? o acordo ortográfico falha-me sempre quando é realmente importante).
breviário para a quaresma (5)
Sabendo que neste desumano país só podemos preservar a nossa dignidade se escolhermos o caminho da resistência, estar na prisão é apenas uma parte imprescindível da nossa dignidade... devido ao teu poema "massacre" estiveste preso durante quatro anos. Penso que valeu a pena.
Liu Xiaobo ao seu amigo, o poeta Liao Yiwu
(daqui)
Liu Xiaobo ao seu amigo, o poeta Liao Yiwu
(daqui)
15 março 2012
encontro em português
Daqui a nada saio para um encontro em português aqui no coração de Berlim. Apalavrámos assim uma espécie de piquenique no atelier de um artista, e logo se verá (depois contarei o que se viu) (as partes contáveis, claro).
Espero que alguém leve rissóis (prometo que deixo dois ou três para os outros). Eu levo uma espécie de bola (que em brasileiro se lê "bôla") mas é... ahem... feita com uma receita de um livro francês que se chama... ahem... cakes. Pois parece que para aqueles lados chamam "cake" a bolos salgados.
Para quem não me conhece e vai também: eu vou ser a que tem uma espécie de unhas de viúva mas em azul, porque hoje de manhã estive a ajudar a minha filha a pintar o cabelo com um spray (até me senti grafitter e tudo). Esta semana os que terminam o secundário agora (ela, portanto) têm uma espécie de despedida maluca da escola. Na segunda feira foram vestidos de prostitutas e proxenetas (numa escola católica, hihihi), na terça de pijama, na quarta de "anónimo", e hoje era dia de "figuras importantes da infância". A Christina foi de Marge Simpson, e pediu-me ajuda para pintar o cabelo de azul. Claro que não pensei em usar luvas, de modo que depois de muito lavar as mãos sobraram-me as unhas naquela bonita figura. Mas aposto que até à próxima semana já terá passado, é o que interessa.
Em suma, aqui estamos:
ela:
eu:
Muito fáceis de reconhecer, ambas.
Espero que alguém leve rissóis (prometo que deixo dois ou três para os outros). Eu levo uma espécie de bola (que em brasileiro se lê "bôla") mas é... ahem... feita com uma receita de um livro francês que se chama... ahem... cakes. Pois parece que para aqueles lados chamam "cake" a bolos salgados.
Para quem não me conhece e vai também: eu vou ser a que tem uma espécie de unhas de viúva mas em azul, porque hoje de manhã estive a ajudar a minha filha a pintar o cabelo com um spray (até me senti grafitter e tudo). Esta semana os que terminam o secundário agora (ela, portanto) têm uma espécie de despedida maluca da escola. Na segunda feira foram vestidos de prostitutas e proxenetas (numa escola católica, hihihi), na terça de pijama, na quarta de "anónimo", e hoje era dia de "figuras importantes da infância". A Christina foi de Marge Simpson, e pediu-me ajuda para pintar o cabelo de azul. Claro que não pensei em usar luvas, de modo que depois de muito lavar as mãos sobraram-me as unhas naquela bonita figura. Mas aposto que até à próxima semana já terá passado, é o que interessa.
Em suma, aqui estamos:
ela:
eu:
Muito fáceis de reconhecer, ambas.
breviário para a quaresma (4)
Se há na Política um "instrumento milagroso" para o bem-estar, o amortecimento de desigualdades sociais, a redução do desemprego..., esse instrumento é o "Crescimento". Mas:
A nossa economia pode realmente crescer sem fim? O nosso mundo consumista tem futuro? O crescimento económico pode ser um objectivo legítimo dos países industrializados, numa altura em que a economia mundial já atingiu os seus limites ecológicos e mais de mil milhões de pessoas sofrem fome? Vamos poder continuar este caminho?
**
O crescimento como desejo e ideia central não domina apenas as multinacionais, as bolsas e os ministérios, mas também as nossas cabeças.
A procura de algo novo, de consumo e de crescimento está ancorada no mundo interior dos nossos desejos, esperanças e valores. Tornar-se alguém! Tornar-se sempre melhor, ir mais longe, fazer mais. Cada dia é dia de julgamento e prestação de contas, inspeccionado pelo rendimento, ordenado por lucro e prejuízo. Nenhum momento deve ser perdido, nenhuma acção deve resultar improdutiva. Alcançar em si próprio tanto mundo quanto possível (Wilhelm von Humboldt)!
Harald Welzer
(daqui)
A nossa economia pode realmente crescer sem fim? O nosso mundo consumista tem futuro? O crescimento económico pode ser um objectivo legítimo dos países industrializados, numa altura em que a economia mundial já atingiu os seus limites ecológicos e mais de mil milhões de pessoas sofrem fome? Vamos poder continuar este caminho?
**
O crescimento como desejo e ideia central não domina apenas as multinacionais, as bolsas e os ministérios, mas também as nossas cabeças.
A procura de algo novo, de consumo e de crescimento está ancorada no mundo interior dos nossos desejos, esperanças e valores. Tornar-se alguém! Tornar-se sempre melhor, ir mais longe, fazer mais. Cada dia é dia de julgamento e prestação de contas, inspeccionado pelo rendimento, ordenado por lucro e prejuízo. Nenhum momento deve ser perdido, nenhuma acção deve resultar improdutiva. Alcançar em si próprio tanto mundo quanto possível (Wilhelm von Humboldt)!
Harald Welzer
(daqui)
14 março 2012
Sarkozy e Schengen
(fonte das fotografias anteriores: aqui - com um texto interessante sobre o modo como o UDC joga com o medo, e as respostas que estes posters suscitaram)
(fonte)
Em 2009 a Suíça fez um referendo para decidir a entrada no espaço de Schengen. Se bem percebi, a vontade de muitos suíços era não entrar, para não terem "hordas" de romenos e búlgaros a invadir o seu país (isto sou eu a tentar evitar usar a palavra "cigano"). Mas as vantagens económicas acabaram por falar mais alto: os parceiros comerciais europeus fizeram saber que ou Schengen, ou anulavam os acordos bilaterais já realizados.
Ironicamente, parece que um dos países que na altura pressionou a Suíça está agora, apenas três anos passados, a querer mudar de vida e a rever a sua posição. Eu bem desconfio que a História anda em círculos. Será preciso reinventar a roda? Ou bastará enviar ao Sarkozy o discurso que o presidente da Confederação Suíça fez ao país a propósito desse tema? Está aqui, escrito num francês simples que qualquer filho de emigrante na França compreende.
(E coitadinha da Angela Merkel: quando pela Europa vai uma onda de protestos devido às afirmações do Sarkozy, ela, que apoia a sua candidatura, remete-se a um triste "no comments"...)
Paris-Londres-Berlim, Berlim-Moscovo-Tóquio
(daqui) (e acabei de saber o preço do bicho, ai!, querem lá ver que quando não estiver em uso deve ser guardado num cofre bancário?)
No princípio da semana passada o Joachim foi a Paris, depois voltou, depois foi a Londres. Levei-o ao aeroporto, incrédula da pouquíssima bagagem que levava: a sua maleta de médico, apesar de ter o portátil, parecia mais vazia que a minha carteira quando vou ao supermercado da esquina. Assegurou-me que sim, que tinha tudo o necessário, inclusivamente um fato de banho. Vá lá que não tinha as sapatilhas de jogging que costuma levar para estas viagens...
No sábado voltou, e eu fui buscá-lo. Desafiei-o para irmos dar uma voltinha até Moscovo, porque era dia da Russendisko do Kaminer. Ele disse que não: estava era mortinho por aterrar num sofá berlinense. Para falar verdade, eu também. Mas tinha uma missão a cumprir: ir falar com o escritor, para ver se se conseguia o milagre de ele virar toda a sua agenda do avesso, e vir dar-nos um passinho de dança a Lisboa, para o lançamento daquele tal livro mais famoso deste blogue. A Christina, que é um amor, aceitou fazer companhia à cota, e lá fomos as duas para a discoteca. (A ver se me lembro disto da próxima vez que me zangar muito muito muito com ela)
O George Clooney de Berlim mas para mais bonito (quem o disse não fui eu, foi esta senhora) estava no seu posto de comando a fazer música. Falei com a Olga Kaminer, que me tirou todas as esperanças, que já têm todos os dias ocupados até meados de 2013, e assim. E eu paciência, o que não tem remédio remediado está, mas pelo sim pelo não mando-lhe um email com a data da saída do livro, talvez se arranje um milagrezinho, e ela que sim, está bem, e daí a bocado vi-a a atravessar a pista de dança para ir falar com o marido. O Wladimir Kaminer também a viu, e pôs-se a tocar um trombone imaginário para receber a sua Olga com toques de fanfarra. Ela gritava-lhe explicações ao ouvido, ele interrompia-a para lhe sorrir, para a beijar, e ela recomeçava e explicava, e ele beijava-a de novo. Na Moscovo de Berlim há filmes lindos, é o que vos digo. Pouco depois viram-me e acenaram-me, eu acenei de volta e fui ter com eles, para ouvir de um muito sorridente Kaminer que talvez sim, talvez se arranje alguma coisa. Agradeci (e só não lhes beijei os pés porque eles estavam por trás do balcão, e eu não sou a mulher-aranha) e quando já estava a preparar-me para sair do Café Burger a Olga Kaminer veio convidar-me para a première do filme Russendisko, que é na próxima quarta-feira. "Se quiser pode levar a sua filha", acrescentou.
A Christina não cabia em si de contente: ela e o Matthias Schweighöfer no mesmo tapete vermelho?! (A ver se se lembra disto da próxima vez que se zangar muito muito muito com a cota)
No domingo era o 11 de Março, uma orquestra de Tóquio homenageava na Filarmonia as vítimas do tsunami, e distribuíram convites para irmos depois ao centro cultural Japão-Alemanha, em Dahlem. Fui, claro. O Japão aqui ao dobrar da esquina, e valeu a pena: raramente comi um sushi com um arroz tão bem feito, e uns castella caseiros melhores ainda que o pão-de-ló da Nélia em Esposende.
Agora temos é de combinar com o Francisco uma ida à Coreia, ele sabe de um restaurante em Wedding que...
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russendisko,
viver em Berlim
13 março 2012
Waseda University Orchestra
(fonte)
(mas esta foto não corresponde ao meu concerto, nem sequer à Waseda University Orchestra, e os nossos músicos estavam mais vestidos, que isto aqui ainda é e será Inverno, e: quem me manda ser respeitadora e não fazer fotografias só porque lá está escrito que é proibido fotografar?)
Num longínquo domingo de Janeiro fui de madrugada (enfim, por volta das nove da manhã) para a porta da Filarmonia esperar que a caixa abrisse (às onze) porque queria comprar uns bilhetinhos para concertos em Fevereiro. Ora, quando o sacrifício é grande, tento fazê-lo render: levava uma lista enorme de encomendas de amigos, e é um autêntico caso de win-win, porque nem sei que me parece fazer uma fila de três horas para no fim comprar dois míseros bilhetes. Enquanto esperava, descobri que os tambores japoneses voltavam a Berlim, com a Waseda University Orchestra. Ena, ena!, pensei eu, por mim e pelo resto da família, porque os Taiko são-nos uma espécie de mínimo denominador comum musical. E comprei quatro bilhetes: um autêntico caso de win-win-win-win.
O concerto foi no domingo passado. Os jovens músicos da orquestra da universidade de Waseda começaram a entrar na sala, o público começou a aplaudir, eles continuavam a entrar e eram mais que as mães (por uns momentos desconfiei que é o Japão, e não a China, que tem o maior número de habitantes), e o público aplaudia freneticamente, e foi aí que caiu a ficha (oh, Heleninha...): 11 de Março! Era um concerto em memória das vítimas do tsunami, e desatei a aplaudir com tanto entusiasmo como os outros.
A primeira peça que tocaram foi a sinfonia alpina, de Richard Strauss. Muito bem, muito bem. Melhor ainda, se pensarmos que é uma orquestra de amadores: estudantes de Direito, Filosofia, Ciências, etc.
Lendo no programa os vários momentos dessa jornada (3. subida, 4. entrada na floresta, 5. caminhando junto a um regato, 6. cascata, etc.) lembrei-me de uma conversa que tivemos há semanas no bar dos artistas, sobre a aversão do Karajan aos programas: "um casal está a assistir à sinfonia alpina - às tantas, um já vai no 12 enquanto o outro ainda só está no 8".
A seguir ao intervalo repetiu-se o procedimento: os músicos entraram, o público aplaudiu, o maestro entrou, o público aplaudiu e - justamente quando o maestro estava a erguer a batuta para começar - entrou um violinista atrasado. O maestro olhou para ele com a mais impassível cara de zanga, o rapaz sentou-se, muito enfiado, o público aplaudiu. Estes berlinenses adoram bater palmas. Eu, do nada que sei da cultura japonesa, tenho ideia que o pior que pode acontecer a alguém é ser apanhado em falta e, mais horrível ainda, ser evidente que todos repararam que ele foi apanhado em falta. Aquele curto aplauso do público deve ter sido um haraquiri no amor-próprio do rapaz. Mas lá se sentou, lá agarrou no violino, e lá tocou com os outros "as alegres brincadeiras de Till Eulenspiegel", que deve ser a peça mais adequada para se tocar quando se está completamente de rastos por dentro.
A seguir, o almejado momento: uma peça de Kazuki Yutani, composta em 2011, para tambores japoneses e orquestra. Os músicos dos tambores estavam bem mais vestidos do que nesta fotografia, mas não fazia mal. Tinham calças largas, com pregas, com aberturas do lado, lacinho à frente e ainda - julgo eu - uma almofada incorporada para se sentarem mais confortavelmente. Pela descrição parece esquisito, mas era mesmo muito bonito.
A música: aaaaah!
No fim, o público aplaudiu com toda a energia que ganhara dos tambores. Os músicos ergueram-se para agradecer o aplauso, e só dois ou três sorriam levemente. É estranho aplaudir uma orquestra de músicos com expressão de esfinge.
Tinham ainda três peças extra-programa: a primeira, uma canção japonesa em memória das vítimas do tsunami (melodia e arranjos um bocadinho tipo de puxar à lagrimita, e com algum êxito, que uma mulher não é de ferro) (e não pude deixar de me lembrar do concerto de 11 de Setembro de 2011 naquela sala, e da homenagem de Anne-Sophie Mutter, tocando Air da suite nº 3 de Bach); a segunda, uma peça japonesa com os nossos queridos tambores, que nunca falha nos concertos desta orquestra (enfim, nos dois que eu vi...) e agrada sempre; e a terceira, para alegria geral, "Berliner Luft". O público delirou, e eu também.
Em suma, o concerto acabou assim: uma orquestra de japoneses tocava a música dos berlinenses, e uma certa portuguesa que eu cá sei, se o soubesse fazer, ter-se-ia juntado ao coro dos fantásticos assobios do refrão - do fundo do coração, como se fosse uma coisa muito sua, como se tivesse andado na escola com a Marlene Dietrich.
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filarmonia de Berlim,
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bandex - um futuro pior
Quando ia pôr aqui este vídeo que uma amiga me enviou (sim, já hoje o dia vai alto e ainda não disse bem dos meus amigos?!), descubro que a sem-se-ver já o tinha divulgado, com informação e tudo. Aos interessados em saber mais: vão ler lá.
e mais uma vez a galinha da vizinha é ligeiramente mais gorda que a minha...
Eu bem digo que me deviam pagar um subsído de insularidade!
(troco o Lunchkonzert de hoje - e olhem que hoje vai ser bom! - por uma tacinha dessas de crème brûlée - quem vai nisso?)
(Eh, pá, e de repente lembrei-me de uma crème brûlée au romarin que comi na Borgonha, tão boa que perdi a vergonha e fui pedir a receita ao chefe, tão simpático que ma deu num papel rabiscado, e era assim: 18 gemas de ovos, 2 litros de natas, já não sei quanto açúcar, um ramo de alecrim. E mainada. Depois andei a tirar pela intuição feminina, e fiz leite-creme com um raminho de alecrim a cozer no leite, e ficou uma delícia.)
12 março 2012
a "palavra feia"
(fonte)
A propósito deste post do Rui Bebiano (ó pra mim outra vez com cara de "olhem!!! descobri a roda!!!" - três dias depois de já toda a gente ter lido esse texto...), lembrei-me de mais um daqueles "choques culturais" que tive quando morava em Weimar: no dia 8 de Março, a minha filha chegou a casa com uma rosa para mim. Tinham-lhe dito na escola que neste dia os filhos devem dar uma flor à mãe - pelos vistos era tradição na RDA. Quem diria...
Na RDA, era suposto todas as mulheres terem um emprego. Não se compreendia que alguma mulher quisesse ficar em casa a educar os filhos; curiosamente, na Alemanha Ocidental, na mesma altura, acontecia exactamente o contrário: não se compreendia que uma mulher quisesse ter um emprego apesar de ter filhos. Pois bem: na RDA, as mulheres tinham quase todas um emprego, mas tinham direito a um dia de folga por mês para poderem ficar em casa a fazer as limpezas gerais e assim. Hehehehe, era um sistema muito "homano"...
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