28 novembro 2008

santa klara



Há anos que acompanho a aventura de agarrar numa das igrejas mais antigas de Nuremberga para a transformar num espaço sacralizado, no coração da cidade.
Não foi fácil: desde a decisão sobre que tom dar à campanha para conseguir fundos financeiros ("uma ajudinha para Santa Klara por amor de Deus..." ou "viva St.Klara!"?), até às resistências relativas à "desmuseução" do espaço. A luta entre o pessoal do Património, desesperado por lhes andarem a profanar a exposição de medievalidade, e a comunidade católica, a querer recuperar o espaço para a vivência da Fé.

Daqui a nada saímos para Nuremberga, cheios de curiosidade.
Bom fim-de-semana!



27 novembro 2008

se acham que andar de bicicleta nas colinas de Lisboa é uma dificuldade...

...ponham os olhinhos nestes malucos que acreditam que é possível andar de bicicleta em San Francisco:



The San Francisco Bicycle Coalition is an alliance of thousands of people who ride bicycles, and who want to encourage more people to ride bicycles because they know it makes for a better city.
Devem morar todos lá para os lados de Haight-Ashbury...

Mas a verdade é que há muitos ciclistas em San Francisco.
E até conseguiram fazer algumas faixas para bicicletas no centro da cidade.
E volta e meia participam numa manifestação, a Critical Mass, que incomoda o trânsito e recoloca a questão muito pertinente de "a quem pertence a cidade?".
E gastam a energia a pensar em soluções (aqui, por exemplo), em vez de se desculparem com a dimensão dos problemas.

E outra verdade é que a vida sedentária que levamos, mais a poluição provocada pelos carros nas cidades, está a dar cabo da nossa saúde.
Se não acreditam, vão dar uma voltinha pelos blogues portugueses e vejam a quantidade de gente nova a queixar-se de que custa muito andar de bicicleta quando o terreno não é plano. Imagino como o meu tio Zé se riria deles - ele que, aos 75 anos, pedalava na sua bicicleta sem mudanças, várias vezes por semana, um percurso de 15 km no Minho: monte acima, monte abaixo, monte acima, monte abaixo.
Deixem-me fazer um desenho, porque isto é grave: um homem que tinha 75 anos, e não 30, e andava de bicicleta no Minho, e não em Amesterdão.
Se hoje em dia há pessoas de 30 anos que acham normal queixar-se da dificuldade em fazer uma subida de bicicleta, é porque a sua condição física já está muito para lá do indesejável.
Talvez os ortopedistas não estejam a exagerar quando dizem que vem por aí um geração com graves incapacidades físicas.

Finalmente: Lisboa, ou qualquer outra cidade portuguesa, não tem de inventar tudo. Há já imensos exemplos de soluções para trocar os carros por transportes públicos e por bicicletas.
Desde o melhoramento da rede de transportes públicos, passando por carruagens de comboio e metro concebidas com espaço para levar também bicicletas, incluindo também o brutal aumento de preço do estacionamento no centro das cidades e a punição severa dos que estacionam em locais proibidos (e funciona, oh lá se funciona: uma pessoa pensa dez vezes antes de ir de carro para o centro de Munique), até sistemas de aluguer de bicicleta para pegar num ponto e deixar noutro.

Ah, e estou-me a esquecer dos duches nas empresas, e dos armários para guardar o fato e a gravata, caso necessário. Não é preciso inventar nada, já existe por aí.

quem, eu?




Este post na barbearia do senhor Luís tem-me dado que pensar.
O assunto tem pano para toda uma fábrica de confecções, mas deixo aqui alguns apontamentos:

1. "Houve um tempo em que até os barbeiros conseguiam juntar um pé-de-meia. Foi num tempo anterior ao tempo da "tanga", num tempo em que as pessoas comuns tiveram alguma folga no fim-do-mês."
Quando eu andava no secundário, aí pela segunda metade dos anos setenta, uma das minhas amigas usava a roupa que já vinha das irmãs mais velhas, mais um acrescento nas calças para continuarem a servir, mais uma barra de croché nas mangas do casaco de fazenda. Outra, tinha apenas duas saias e duas camisolas para toda uma temporada. Os pais de ambas conseguiram juntar um pé-de-meia, até compraram casa. Embora para o caso também convenha lembrar que nessa altura a inflação explodiu, mas as rendas de casa não, pelo que muita gente pôde comprar casa à custa do senhorio.

O Daniel Pennac escreveu recentemente um livro muito bom, "Chagrin d'école", onde fala também dos novos modelos de consumo. Nenhum aluno aparece hoje na escola com um pulôver tricotado pela mãe ou pela avó. Pior ainda: nem sequer conhecem os nomes das peças de vestuário que usam, mas as marcas. E já que estou com a mão na massa: alguém me sabe dizer como se chama aquele tipo de sapatos conhecido por "allstars"? No meu tempo chamavam-se "sapatilhas de ginástica", mas isso agora não serve, porque - como qualquer criança sabe - para ginástica usam-se adidas ou nike, mas não allstars...

2. A "tanga"
Pode ser que eu me dê com os portugueses de uma amostra enviesada, mas sempre que vou a Portugal vejo as pessoas a consumir como se o mundo fosse acabar hoje. Os restaurantes estão cheios, as pessoas andam bem vestidas, nas estradas quase só se vêem carros novos, e muitos deles bem caros.
Até os vizinhos da minha avó fizeram obras na casa - eles que, nos anos sessenta e setenta, tinham apenas uma muda de roupa para as duas filhas, de modo que uma ia à escola de manhã, vinha a correr para casa dar a roupa à irmã, que saía a correr para ir à escola de tarde. E, obviamente, todos os cinco filhos trabalhavam arduamente com os pais na lavoura.
Todos dizem que "isto está tudo muito mal, isto está tudo uma miséria, e cada vez pior" - mas eu, não sei, à mesa do restaurante, olhando para as carteiras e os sapatos impecáveis, vendo os miúdos enfiados em marcas e pendurados nos seus ipods, enfim, não sei, mas tinha ideia que crise é uma coisa bem diferente.

3. Perder a noção de tudo
O chart que se vê ali em cima refere-se à acção de uma empresa de software, lançada em fins de 1988 a um preço que hoje corresponderia a 0,5 euros. Vinte anos mais tarde, apesar da actual crise financeira, do rebentamento da bolha da internet e tudo isso, anda pelos 25 euros. O que dá um ganho de 50:1 em vinte anos, mesmo vendendo nesta época de crise financeira. Quem vendeu em 2000, terá tido um ganho de 120:1 em onze anos.
Perante um chart assim, é mais fácil perceber que os investidores percam completamente a noção da realidade.
A realidade que conhecem é uma acção subir 3% ou 5% num dia, e esses saltos se repetirem várias vezes num mês.
Esta empresa, em particular, nem sequer despede pessoal aos milhares para aumentar o seu valor na Bolsa - pelo contrário, continua a oferecer emprego.
Nos anos noventa, jogar em acções desta empresa (e de muitas outras, obviamente) oferecia uma probabilidade de lucro muito mais alta que jogar no totoloto ou na lotaria, sendo igualmente legal.
De modo que as pessoas habituaram-se a ter retornos de mais de 20% ao ano sem crises de consciência. E perderam a noção de tudo.

4. Nos últimos três anos, o Citibank contactou-nos várias vezes para nos propor aplicações mais vantajosas para as nossas poupanças. Nós é que tínhamos mais que fazer, e além disso não há amor como o primeiro (a tal acção do ponto 3, que nos deu muitas alegrias), tanto mais que já algumas vezes caíramos na asneira de diversificar o portfolio e ficáramos a ver as nossas queridas acções subir, enquanto o nosso portfolio não saía da cepa torta, até acabarmos a vender tudo, e a voltar ao primeiro amor agora muito mais caro...
Em Setembro, quando começou a derrocada, ficámos a saber o que é que o Citibank provavelmente nos teria oferecido: títulos do Lehman Brothers, que foi o que vendeu como aplicação muito segura e confiável a velhinhas de oitenta anos.
Como é possível resistir a um consultor bancário no seu escritório em tons de azul, numa instituição bancária de renome, que nos diz que os novos mercados financeiros bla bla bla e a globalização bla bla bla e as economias asiáticas bla bla bla e que esta é uma oportunidade única e não faz sentido ter o dinheiro a dormir a juros de 4% ao ano, e se queremos continuar feitos velho do Restelo no alvor do terceiro milénio, e se queremos perder o comboio para o admirável mundo novo?
Tanto mais que, nos anos noventa, as pessoas habituaram-se a achar normal ganhos da ordem dos 20%/ano.

5. Em 2005 comprámos uma casa em Weimar, recorrendo a um empréstimo bancário. Que teremos - pois é a triste lei da vida! - de pagar. Um consultor financeiro sugeriu-nos várias vezes usar as poupanças destinadas ao reembolso do capital em aplicações que rendem muito mais. Dizia ele: continuam a pagar juros de 4% ou 5%, enquanto esse capital vos rende pelo menos 20%, tudo muito seguro, tudo favas contadas!
Quando lhe perguntávamos como é que ele conseguia o milagre, tornava-se vago. E mais vago ainda ficava se lhe perguntávamos pela actividade empresarial subjacente: haveria armas pelo meio? negócios de guerras? exploração nua e crua de economias colonizadas? Ele tartamudeava. Uma vez, explicou-me: "quem diz A, tem de dizer B". Cesteiro que faz um cesto...
O mais interessante é que vinha de uma família de alemães da RDA idealistas do comunismo. Críticos do sistema político que se vivia, mas acreditando piamente nos amanhãs que cantam. Ele próprio dizia que um mundo muito melhor seria possível, se o estalinismo não tivesse assassinado a maior parte dos comunistas bons.
Depois aconteceu-lhe a reunificação, ele disse A, e viu-se obrigado a dizer B e todo o restante abecedário do capitalismo selvagem.
Mas nós, saciados por uma acção com óptimo desempenho e bastante transparência, e vindos de um mundo onde as referências se mantêm relativamente estáveis, para mais acossados pelos nossos amigos católicos fundamentalistas que insistiam para que abríssemos uma conta poupança num banco cristão (sim, que isto não é só o Ambrosiano; parece que há por aí bancos e companhias de seguros que fazem questão de procurar aplicações eticamente aceitáveis para os capitais), não nos víamos nada obrigados a concordar B com ele.

6. Voltando à questão do consumo: o escândalo nosso do dia de hoje, vem no Spiegel online, são as condições em que trabalham os desgraçados do Bangladesh que fazem os jeans para vender no Lidl e outros do género a menos de 10 euros. Mas nós compramos, não é?
Na Alemanha, o sector comercial que dá mais lucro é o dos discounts. As lojas onde há sempre pechinchas, que toda a gente gosta de comprar, sem se perguntar como é possível colocar no mercado produtos àquele preço.


Tudo isto para dizer que sim, concordo com a crítica do Luís sobre "a inocência e a admiração quando agora muitos ficaram a saber que afinal o seu dinheiro financiava negócios escuros e ilegais", mas contraponho que os nossos modelos de consumo e os mercados financeiros nos últimos vinte anos evoluíram de tal maneira que qualquer um poderia perder o pé. Ou a ética.
Não são só as aplicações de capital: é todo o nosso estilo de vida que só é possível por recurso a negócios escuros e ilegais.

26 novembro 2008

aulas de educação sexual

Em resposta a uma gargalhada que dei por causa de um post no Vida Breve, a Snowgaze e a Rita escreveram algumas ideias que me parecem demasiado importantes para ficarem escondidas numa caixa de comentários, e por isso copio para aqui:

Da Snowgaze:

Também não gostei do poste. Eu não tive aulas de educação sexual, mas tinha professores que de vez em quando (leia-se: de cada vez que aparecia uma aluna grávida) nos davam um sermão sobre o assunto. Não chega. Numa terreola no meio das montanhas, é preciso aulas de educação sexual, até mais do que as obrigatórias aulas de religião. (...) Os miúdos precisam de saber o que não vem nas embalagens dos preservativos, e nem sempre aprendem em casa porque há muitos pais que preferem insistir que "não façam" e enfiar a cabeça na areia. Precisam de saber onde ir quando precisarem de ajuda, porque nem todos os pais estão disponíveis e nem todos os filhos estão à vontade com os pais para falar de sexualidade. Ridicularizar a questão porque os meninos (alguns meninos) não se sabem manifestar ou preferem faltar às aulas é pura e simplesmente perder a razão. Em demasiadas coisas na vida não se pode tomar a parte pelo todo, e a julgar pela enormidade da taxa de gravidezes na adolescência em Portugal, este assunto não está para comentários do género "leiam as instruções na embalagem dos preservativos".
E mais uns exemplos. É típico de rapazes portugueses (não sei se de homens também ) quererem ter relações sem usar preservativo e insistirem nisso mesmo depois de ouvirem vários nãos. É normal os rapazes portugueses baterem nas namoradas. Posto isto, como é que se pode dizer que a educação sexual (e cívica) não faz falta?


Da Rita:

Exacto. Assino por baixo da Snowgaze. Eu tenho toda a minha educaçao contraceptiva da revista Ragazza. No que só a este detalhe diz respeito, era muito boa, mais uns livros que me ofereceram mas não lhe chegavam aos calcanhares. Os rapazes não lêem nada do género, pelo que nem quero imaginar. Dirás, ouvem os amigos, os primos mais velhos, algo assim. Pois sim, mas é como jogar àquele jogo do telefone, em que vamos sussurrando mensagens de uns para os outros e nos rimos muito sobre o disparate que saiu no fim.

O que eu sei é: eu, em família esclarecidíssima mais os livros mais a revista Ragazza ainda consegui ter as dúvidas mais incríveis. E mais: ouvi as dúvidas mais incríveis de pessoas cultas e inteligentes. E conheço muitos casos do "menino nao usa preservativo" ou do "o meu namorado diz que se nao for para a cama com ele me deixa". E a maior parte das pessoas que conheço nunca perguntaria nada disto aos pais. Dos disparates à chantagem: tudo isto se resolvia com malta esclarecida: dos órgaos, dos contraceptivos, dos direitos, do que é e nao é legítimo pedir-se, etc.

Ridicularizar manifestações dos estudantes, que quase nunca são muito espontâneas, e chamá-los de preguiçosos é demasiado fácil. Claro que são em parte preguiçosos, é um sinal de inteligência. Ridicularizar estudantes que confessam a sua ignorância e querem ser educados num tema que julgam importante, é criminoso, mesmo (se calhar dá jeito, porque isto às tantas contrariava a parte da preguiça). E ridicularizar a participaçao na vida pública e democrática de estudantes ainda não maiores de idade, porque ainda nao têm a maturidade de formular de forma melhor o que querem dizer, é um bom investimento.

Assim podemos daqui a uns anos queixarmo-nos de que não participam na democracia e não votam. Às tantas estao a tratar dos filhos que tiveram com 15. Ou a lembrar-se do que escreveram os blogues da última vez que abriram a boca.

um jardim infantil na floresta

O Lutz traduziu uma entrevista do Spiegel online, na qual um neurocirurgião fala do contexto em que os nossos filhos crescem. Acusa ele o controlo, a falta de margem de manobra em liberdade e a coarctação da curiosidade natural como responsável pelo surgimento de uma geração de jovens adultos desmotivados e desprovidos de capacidade de iniciativa.
A acompanhar o artigo vem esta fotografia de um grupo de crianças cujo infantário funciona na floresta.



Resumo do pouco que sei sobre estes projectos:
- tendo em conta o ditado alemão que lembra que "não há mau tempo, só há roupa inadequada", vestem às crianças roupa confortável, resistente e a condizer com as condições climáticas (na foto, vêem-se as típicas calças impermeáveis que vão quase até ao pescoço, o que permite aos miúdos brincarem na lama sem ficarem todos molhados);
- o infantário não tem edifício; há uma hora certa para se encontrarem todos na paragem do autocarro, na estação de caminho de ferro ou à entrada da floresta;
- os miúdos passam a manhã na natureza, sem brinquedos, nem livros, nem cadeiras ou banquinhos;
- se chove muito, abrigam-se numa das cabanas que existem junto aos caminhos florestais;
- actividades possíveis: observar a fauna e a flora da floresta, construir cabanas nas árvores ou abrigos da chuva, fazer um dique num riacho, fazer brinquedos a partir dos materiais naturais, apanhar cogumelos no Outono, frutos do bosque no Verão (e aprender quais são os que não se devem apanhar devido ao risco de contaminação com vermes da raposa, por exemplo), etc.

É claro que quando, à hora do almoço, são devolvidos à família, vêm num estado lastimável: sujos, ranhosos, a pele talvez ressequida do frio, as unhas cheias de terra, os sapatos cobertos por várias camadas de lama. Mas passaram uma manhã inteira a agir, a fazer descobertas, a deixar o cérebro vaguear por veredas que não foram preparadas pelos adultos.

À parte as calças impermeáveis, a minha infância na aldeia da minha avó e no campismo na praia foi bastante assim. Se olho para trás, é na liberdade, na simplicidade e na alegria desses dias que encontro as minhas raízes mais profundas - as que me permitem andar agora pelo mundo sem me confundir.

25 novembro 2008

História alemã à moda cá de casa

Ao ouvir hoje rádio, pela manhã, a Christina ficou a saber que que vão libertar um terrorista empedernido da RAF, e ele vem morar para Berlim.
Veio contar-me, um bocado aflita, e sosseguei-a logo: o irmão desse terrorista era da turma do Joachim, e a mãe era a professora de matemática.
E mais: o pai de uma amiga dela, do tempo do infantário, viveu numa república de estudantes que estava sempre aberta a todos. Era um tal entrar e sair de amigos, que ele nem se dava ao trabalho de reparar bem neles. Mas depois, repentinamente, a república implodiu. Foi só aí que ele se deu conta que os seus colegas de apartamento tinham ligações à RAF, e os que entravam e saíam eram terroristas em busca de abrigo.
Em suma: ele que venha para Berlim, já temos larga experiência de terrorismo...

***

Hoje era dia de visita ao Museu de História, para estudarem o período de Bismark e do imperador Guilherme II.
Devido à quantidade de famílias nobres que estão representadas na turma dela, mais parecia uma visita aos velhos álbuns de família. Uma das miúdas, que tem título de princesa, apontou para a segunda esposa do imperador e disse: "era da minha família". E outra, uma das mais simpáticas da turma, em frente a um retrato do Hindenburg: "olha o meu tataravô!"

***
E para fechar o ciclo, o papel de Portugal nesta trama histórica: a turma inteira adora a minha tarte de grão de bico. E estou em crer que o irmão do terrorista também não desgostaria...

a gargalhada do dia

Os pequenos estúpidos, no vida breve.

E também tem um post onde se fala da famosa escritora Evelyn Waugh, e de Laroche Foucault.

Os meus filhos perguntam-me porque é que me rio tanto. Respondo-lhes que, se chorasse tanto como era preciso, ficava desidratada.

Adenda (26.11): já cá não está quem riu!
Vão à caixa de comentários ler o que escreveram a Snowgaze e a Rita - garanto que é muito melhor que o post.

quem avisa amigo é

Um aviso: hoje há flamingos no Imagens com Texto.

Um retrato possível do artista: "Dada a regularidade da presença dos flamingos nas marés-baixas, fui ver uma tabela de marés na internet e fui tirar fotos com a minha máquina compacta."

E mais um aviso: quando forem a esse blogue, levem tempo. É lugar onde nos entregamos, com gosto, a longos passeios.

24 novembro 2008

o bom selvagem



Fomos ver o filme "Bem-vindo ao Norte".
Rimos, rimos, rimos.
Saímos do filme bem dispostos, um pouco comovidos, e com vontade de acreditar no poder da amizade e do bem querer.

***

Sim, há muito mais para dizer: que no filme é tudo gente boa, que não há estrangeiros, que é uma divagação kitsch para distrair os franceses dos seus problemas. Tudo isso, com certeza, mas também isto: o apelo a um olhar aberto, capaz de ver para lá dos preconceitos.

***

Depois do filme, o nosso momento Ch'ti: sair do cinema Paris, na chiquíssima Ku'damm, e enfiar um gorro Tenson na cabeça, o mesmo que o protagonista do filme recebera para se defender das terríveis intempéries do norte...
Subir a Ku'damm a fazer figura de urso, e a rir.


Antes que me perguntem: é claro que o gorro é feito com imitação de pele. Muito bem feita, por sinal.
E agora pergunto-me eu: se como carne de coelho, porque é que tenho pruridos em usar um gorro com pele desse animal?
Entre o fundamentalismo ético e a doce irresponsabilidade dos consumos, cá vou andando ao ritmo de uma ética que parece "colada com cuspo"...

23 novembro 2008

parlezvousfrançais?

às oito da manhã de sábado...

Ontem, às oito da manhã, estavam vinte pessoas num ginásio de Berlim a encher caixas

{ com café (1/2 kg), chocolates vários, bolachas, mel, bolo de frutos secos (1 kg), chá, garrafa pequena de espumante, rebuçados, um prato de cerâmica pintado à mão, uma vela decorativa }

e a fechá-las com um laçarote dourado, e a colar em cima uma estrela de cartão canelado em cores brilhantes que uma das organizadoras tinha cortado à mão.

Foram 350 caixas, pagas pela autarquia local, e que, ao longo do mês de Dezembro, assistentes sociais irão oferecer, juntamente com uma hora de companhia e conversa, a casa dos idosos que recebem auxílio dos serviços da Segurança Social.

Quando entrei no ginásio, ainda ensonada, e vi a quantidade de caixas para armar e encher, e as paletes de caixotes cheios de produtos para distribuir, pensei com alívio que o meu turno era apenas até às 10 horas. Aguentar, trabalhar duas horas, voltar para a minha cama quente, e quem vier atrás que feche a porta.
Mas depois, quando comecei a fazer os laços, dei-me conta que cada caixa era única e especialíssima para a pessoa que a vai receber. Pensando nas mãos enrugadas e gastas que a vão tocar, colava cada uma das estrelas (quantas noites terão sido necessárias para cortar tantas e tão bem?) com cuidado e intenções de design - dando-se o caso de ser a única estrela que aquela pessoa receberá no Natal, tem de ir muito bonita sobre a caixa, para iluminar o melhor possível os dias de Inverno.

Olhei à minha volta e vi o milagre: haver no meu bairro vinte pessoas dispostas a levantar-se bem cedo numa manhã gelada de sábado para oferecer um pouco de felicidade a gente sem sorte.

***

Organização alemã é coisa fina. Às 10:20 estava tudo terminado, os caixotes vazios desfeitos e metidos no meu carro para os levar ao contentor, o pessoal todo a tomar um pequeno-almoço que a fazedora de estrelas tinha preparado. E a conversar, "lembram-se daquela vez que só saímos daqui às quatro da tarde?" e "caixas é muito melhor, no ano em que tivemos sacos de pano foi terrível!", "ah, pois foi, nem me quero lembrar!", e logo outra "ah, e daquela vez que tivemos cestos e as coisas caíam todas?!"

Comentei com uma das organizadoras que me alegrara muito ao ver a qualidade dos produtos escolhidos: quase todos do "comércio justo", e alguns até biológicos. Coisas caras e boas, para que as pessoas se sintam por um momento a partilhar a mesa dos ricos.
Ela, contudo, tem as suas dúvidas: o que é melhor para quem tem tão pouco? receber produtos em maior quantidade, mas comprados no Lidl, ou dar algo de boa qualidade e preço tão eticamente correcto?
Por outro lado, deve um organismo do Estado alemão comprar produtos a um preço eticamente incorrecto?

***

Conversa puxa conversa, fiquei a saber que nas autarquias há uma pessoa encarregada de divulgar as necessidades de trabalho honorário. Quem tem tempo para oferecer dirige-se a essa pessoa, diz o tipo de trabalho que gosta mais de fazer, a área onde quer trabalhar, e ...zimbas! no momento seguinte está a preparar presentes de Natal, ou a ler o jornal em voz alta na sala de um lar de terceira idade, ou a atravessar a cidade com olhos atentos para recolher os sem-abrigo antes que o Inverno os leve desta para melhor. Trabalho não falta e - já hoje usei a palavra milagre? - trabalhadores também não.

21 novembro 2008

suspender a Democracia

Não sei se Manuela Ferreira Leite estava a brincar, ou se estava a abrir o jogo, ou se este incidente se insere numa estratégia obscura.
Não sei.

Mesmo que estivesse a brincar, basta dar uma volta pelos blogues, e deparar com comentários do género "e está cobertinha de razão!", e "era isso mesmo que este país precisa", para concluir que nenhum político português se pode permitir uma piada deste género.

Algumas reacções são simplesmente assustadoras.
Fico a pensar que resultado teria um referendo sobre a possibilidade de suspender a Democracia por seis meses para fazer as reformas bem feitas e sem discussões...

Contudo, mesmo que no povo português haja esta ânsia de um "homem bom, honesto e competente" que nos venha resolver os problemas, o papel dos políticos é deixar claro - sem margem para dúvidas ou sonhos - que o caminho da Democracia não vai por aí.

20 novembro 2008

Joana Morais Varela

"Leitora habitual da “revista”, tive um único contacto de trabalho com a directora, que me deixou a melhor das impressões, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. Se quer acabar com a revista, a Gulbenkian tem todo o direito de o fazer (na linha de outras atitudes assumidas pela Fundação que em nada beneficiam o país e a cultura, é certo – mas não se trata de um organismo estatal…). Sacrificar uma pessoa competente e dedicada, avançando ainda por cima suspeitas de incúria, entra no domínio da indignidade.

Na minha opinião de utilizadora, a Colóquio/Letras continua sendo uma revista cultural sem par no país e a sua directora merece o maior respeito e consideração nessa sua função. Espero que a justiça à intervenção cultural de Joana Varela não se limite a um procedimento burocrático – prejudicará a visada, se é essa a intenção; mas deixará sobretudo uma nódoa muito negra na imagem da Administração da Fundação.
"

Ana Cardoso Pires

comme l'eau qui coule

Devido a este post no baile da D.Ester (podem ir lá ler imediatamente, que é muito especial), voltei aos Carpenters.

Aqui vai a musiquinha, em versão karaoke, para o caso de também quererem cantarolar:




É por estas e por outras que reparo que já não tenho dez anos. Nem vinte.

Por estas, e por me dar conta que em algum momento cheguei a uma bifurcação: eu decidi avançar por um dos lados mas o meu corpo seguiu na outra direcção.
"Este corpo que me carrega" dava um bom título para um blogue - fica prometido, começo quando me tornar hipocondríaca.

Recentemente ouvi alguém criticar aquele hábito de nos desejarmos "muita saudinha", porque criamos ideais de vida que nos aprisionam e nos tornam mais difícil aceitar a realidade. Fez-se-me luz: é bem verdade que mais vale rico, saudável e feliz que combinações aleatórias com os seus contrários, mas valerá a pena gastar energia a sonhar poder fugir à vida tal como ela é?
Por outro lado, fico a pensar: vê-se que o filósofo que recusa a importância da saudinha nos lugares comuns dos nossos votos não conhece o sistema nacional de saúde português...
Sim, eu sou do tempo em que era importante ter uma leira de reserva para poder vender em caso de doença.
Ora aí está mais uma acha a acrescentar às por estas e por outras que já lá tenho.

Pois é: ainda não vai longe o tempo em que me imaginava como alguém que se ia cumprir no futuro. "Quando for grande...", dizia-me eu. Mas um ano destes olhei de relance por cima do ombro, e dei-me conta de que já existo há muito, com história e tudo!
Deve ser a isto que chamam crise da meia-idade, mas custa-me acreditar. A minha meia-idade anda sempre pelo menos dez anos à frente de mim.

Voltemos ao vídeo, de um concerto em 1974. Repararam na roupa da mocinha?
É só para corroborar a afirmação que fiz num post anterior: 30 anos é mesmo muito tempo!
Não são três décadas, são três eternidades...

um ano feliz

Uma vez comprei uma agenda-livro com os meses e os respectivos dias, mas sem indicação do ano e dos dias da semana. Queria ir anotando os momentos especiais à medida que vão acontecendo na minha vida, até conseguir um ano inteiro feliz.
Vinte anos e muita preguiça mais tarde, devo ter preenchido o suficiente para três meses.
Mas a vantagem destas coisas é que hoje é sempre o primeiro dia do resto da minha vida - em qualquer momento é possível recomeçar!

O Luis Novaes Tito, honra lhe seja feita, completa hoje o seu ano de "já fui feliz aqui".
Já disse o quanto gostaria de ter sido eu a inventar essa rubrica. Pronto, não inventei, mas saboreei na Barbearia quase quotidianamente esta maneira optimista de estar na sua própria vida.

Ao senhor barbeiro: parabéns, e muito obrigada! E que venham muitos mais motivos para variações sobre o mesmo tema!

19 novembro 2008

uma lição de Democracia

...tal como os miúdos a entenderam, e explicaram à professora:

"A professora já reparou? Os professores andam há que tempos em diálogo e negociações, e a situação fica cada vez pior. Nós cá, agarrámos em ovos e tomates, e o nosso problema foi imediatamente resolvido!"

18 novembro 2008

já não posso ouvir esta desculpa barata

"Num país com poucos anos de democracia..."

(começa assim um post do Arrastão, que acabei de ler no Vida Breve)

O 25 de Abril foi em 1974. Estamos em 2008, o que faz 34 anos.

A Democracia portuguesa já não tem idade para ser uma criança, nem sequer um adolescente. Vai ficar eternamente jovem e irresponsável?

Ah, antes que me esqueça da Lapalissade do dia: a Democracia portuguesa somos nós todos. Está nas nossas mãos. É as nossas mãos.

ai!



Lembram-se da boneca voodoo do Sarkozy?

Pois bem: inventaram algo semelhante para o Sócrates. Eu - aprendiza compulsiva de bom samaritano, só pode ser - não pude resistir a prender com o cursor a cabeça dele, para que a queda seja menos dolorosa.

15 novembro 2008

import shop Berlin




Ontem andei a passear por esta feira de "produtos regionais no mercado global".

Estou muito satisfeita, porque poupei mais de três mil euros - que é mais ou menos o valor do que queria comprar e não comprei.

Encontra-se de tudo: desde ourivesaria moderna combinando peças antigas com elementos actuais, até aos cada vez mais inevitáveis chapéus de feltro feitos à mão. Passando pelos tapetes persas, as máscaras africanas, os tajines de barro onde se cozinham legumes sem água nem sal que ficam com um sabor incrível (só nesse poupei 40 euros! - mas tive de me controlar muito)

Saí da área wellness meio agoniada de tanto pesto e outros cremes de ervas que provei. Mais os azeites sicilianos, mais o óleo de argan marroquino...
Fui salva pelo stand de cadeiras ergonómicas - não se pode dizer que sejam bonitas, mas envolvem o corpo de tal maneira que uma pessoa parece ter voltado ao colo materno, e esquece tudo - até a indigestão.
Disse à Christina que quero uma cadeira de baloiço daquelas quando fizer 60 anos, mas ela respondeu: "não sei se ta podemos comprar - quando tu fizeres 60 anos eu posso estar a viver da Segurança Social".
Será que isto é realismo, será que é a famosa Angst dos alemães, ou será apenas humor à moda da mãe dela?

Encontrei um comerciante que vendia mantas de lã lindas, lindas, lindas, até pensei "porque é que em Portugal não se fazem coisas destas?", e aí vi o letreiro - era de Manteigas. Também tinha um stand com bordados de Guimarães, de óptima qualidade, e outros de artesanato urbano de muito bom gosto.
Os portugueses queixaram-se que é tudo demasiado caro, desde o aluguer do espaço até ao preço do café. Também, quem os mandou vir para Berlim sem me perguntarem primeiro quais são os truques para quem ganha em euros do sul?
Espero que no fim de semana as coisas melhorem para eles. Para já, boas notícias: está a chover. Pode ser que o pessoal decida ir à feira, já que não pode ir passear de bicicleta pelas florestas outonais.

O pavilhão africano é uma festa. Um passeio por África, uma delícia.
Mas só aparentemente. Contaram-me depois as condições em que as pessoas vêm para Berlim: têm de mandar a mercadoria por barco, dormem num canto do stand porque não têm dinheiro para o hotel, e acabam por regressar a casa com quase tudo o que trouxeram (pagando novamente o frete), porque há demasiada oferta muito igual.
A única esperança deles é que apareça algum comerciante berlinense que os queira como fornecedores.
...Sai uma pessoa toda descansada numa sexta-feira à tarde para ir a uma feira de artesanato, e cai sem querer no coração da miséria do nosso mundo.

14 novembro 2008

mas que pretos?

Num dos seus livros, Michael Moore faz a apologia dos pretos americanos. Não aqueles que se portam como brancos (a Rice, o Powell), mas os que se mantêm fiéis à sua identidade.
Esses sim, diz ele, são gente realmente interessante - e até declara que vai passar a empregar na sua empresa apenas pretos. Dos verdadeiros, entenda-se.
A intenção pode ser boa, mas é um pouco, digamos, ingénuo querer que as pessoas façam depender o seu comportamento do tom da sua pele e do imaginário do Michael Moore.

Confesso que sou um bocado daltónica.
Se é para descrever um Nelson Mandela ou um Kofi Annan, ocorrem-me muitos adjectivos antes de me lembrar da cor da pele deles. E muito menos de dizer que são "pretos".
Durante a campanha, mal me dei conta que o Obama não era branco - quando muito, um belo moreno. Bem sei que se fartaram de bater no Berlusconi por ter dito o mesmo, mas, que querem?, quando gosto das pessoas acabo a achá-las minhas iguais.
Além disso, e para usar a classificação do Moore, o homem tem presença e comportamento de "branco".

Tudo isto para dizer que talvez haja um equívoco na discussão sobre a América pós-racial.

Foi eleito um homem que soube passar uma mensagem de um modo tão arrebatador que se criou um momento de unidade, ao ponto de as pessoas se esquecerem de reparar no tom da sua pele. O que foi em parte facilitado por ele ser meio branco, ter sido educado no ambiente da classe média branca, e não ter marcados traços (e agora com licença, tenho de ir pesquisar no glossário do racismo, que é o mais adequado para esta conversa) negróides.

Os EUA elegeram para presidente o político que melhor lhes soube mostrar que estava em condições de dar ao país aquilo que é necessário neste momento.
Mas não elegeram - disso tenho a certeza absoluta - um preto.

"Preto", o que se chama "preto", são aqueles que fazem os trabalhos que ninguém quer, os que apanham prisão perpétua por roubarem uma pizza, os que vão morrer longe mesmo que morram no passeio da nossa rua.
"Preto" é o reverendo Jeremiah Wright, de quem Obama oportunamente se demarcou.

E esses continuarão a existir, rodeados de desconfiança e rejeição.

pretos

Em Potsdam, aqui há tempos, um par de neonazis atacou um preto que estava à espera do autocarro (e por acaso até tinha nacionalidade alemã e era engenheiro). Deram-lhe uma "ensinadela" tal, que o homem esteve vários dias entre a vida e a morte.

Em Weimar fizeram o mesmo a um moçambicano. Um rapaz de vinte e poucos anos, que ficou incapacitado para trabalhar.

Após a eleição do Obama, os jornais berlinenses noticiaram a existência de um engenheiro de sistemas queniano, nesta cidade, que é primo em segundo grau do novo presidente dos Estados Unidos.

Coitadinhos dos neonazis.
Se forem por aí à caça de "pretos", pode-lhes sair um primo do "homem mais poderoso do mundo".
Era tudo muito mais simples no tempo em que o mundo era a preto e branco...


(...e ainda bem que o mundo está a ficar mais complexo!)

***

Por falar em mundo complexo: a propósito do ataque ao engenheiro de Potsdam (que é a capital de Brandenburgo, a Land à volta de Berlim, ou seja, parte da antiga RDA), tive uma discussão terrível com um alemão, que no princípio dos anos 60 fugiu do Leste para Berlim Ocidental. Ele achava que havia exagero na acusação, e que nem sempre que um par de rapazes manda um preto em coma para o hospital isso é sinal de xenofobia. E que os "wessis" têm a mania de acusar os "ossis" de serem contra os estrangeiros, quando muitas vezes são os estrangeiros que provocam.

Pede-se às mulheres violadas que se apertem um bocadinho mais no banco dos acusados, para caberem também os pretos que apanham fracturas cranianas na paragem do autocarro...

13 novembro 2008

aventuras

Do que a Rita me foi lembrar hoje:

Os Cinco! Os Sete! A colecção Mistério!
O que esses livros nos faziam sonhar e sentir fortes, apesar de crianças!

Aos sete anos, fazia concursos com o meu irmão, dois anos mais velho: nas tardes de domingo e chuva deitávamo-nos no chão da sala, ele lia um livro dos cinco, eu lia um dos sete, a ver quem chegava primeiro ao fim.
O malandro passava por cima das partes das sanduíches e dos scones, o que na prática correspondia a poupar quase metade das páginas.

Por essa altura o meu pai decidiu vender a quinta do pai dele, com uma casa solarenga minhota, lindíssima. Combinei com o meu irmão passarmos a propriedade a pente fino, na esperança de encontrar um tesouro que evitasse a venda. Lembro-me bem dos olhos de raio-x com que avançávamos lentamente pelos corredores.
Não encontrámos nada, a casa foi vendida.
A casa, o jardim, o pomar, os terrenos até à fronteira do ribeiro, as palmeiras e tangerineiras, as japoneiras onde o avô fazia experiências de cores, a cavalariça.
Um golpe rude para a minha infância, que acreditava que podia ser como os Cinco e salvar a situação no último momento.

E depois - eu adivinhara! - ao fazer obras, os novos proprietários descobriram um pote cheio de libras de ouro.

12 novembro 2008

boleros com bossa



Atenção Bona (12.11), Estugarda (13.11), Colónia (14.11) e Munique (18.11): está a passar por aí uma música inesperada, mas muito nossa conhecida.

Montserrat, uma cantora espanhola, que vive há anos no Rio de Janeiro, gravou com Roberto Menescal um álbum onde canta boleros cubanos e mexicanos ao ritmo da Bossa Nova. Se querem ter uma pequena ideia de como é, vejam aqui. Dá para ouvir a música, mas falta a graça da cantora e o salero nas suas mãos; e também não se vê a banda: a paz e a bondade no rosto do Sérgio Bello, o prazer com que Adriano Magoo brinca com os teclados, a entrega de Julian Tirado ao violão.

Assisti ao espectáculo no Quasimodo em Berlim.
A sala cheia de brasileiros, a pena deles quando chegou ao fim: "porque parou? parou porquê?" - e eu com eles.

***

Para quem não sabe quem é Roberto Menescal (eu também não sabia, mas do outro lado do mundo há um amigo que me ensina estas coisas todas):

a oeste nada de novo

10 novembro 2008

Miriam Makeba



Khawuleza, Miriam, que hoje dança-se africano no céu.

08 novembro 2008

multiplicação

A propósito deste vídeo, que encontrei no amor e outros desastres,



lembrei-me de um quadro enorme que existe no foyer da Filarmonia de Berlim (carreguem sobre a imagem para a ver em detalhe - é formidável!) (e muito gostava eu de saber como é que conseguiram fazer aquilo):



A foto não representa o quadro na sua totalidade, e foi roubada daqui. Vale a pena dar um saltinho lá e ver outros trabalhos do mesmo autor.
E vale a pena ir à Filarmonia ver o quadro completo. Além da arquitectura do edifício.
E, já agora, assistir a um concerto.

06 novembro 2008

outros testemunhos

I.

I am so happy! I made calls for Obama all day Sat, Sun and Mon and sat at work nervously all day Tuesday. It is the dawn of a new and wonderful era.


II.

Hey, the first time I've rejoiced in a national election since the 60s (and that time was soured by subsequent events...)!
(...) Happy days are here again.

De notar que esta exclamação vem do americano mais inteligente, informado, cínico e crítico que conheço.


III.

A propósito do vídeo abaixo, recebi este comentário:

It tapped into the spring of water Jesus references in the story about the Samaritan woman in John’s Gospel:
Everyone who drinks of this water will be thirsty again, but those who drink of the water that I will give them will never be thirsty. The water that I will give will become in them a spring of water gushing up to eternal life.
Jn 4:13-14


His water is life-giving water and that video is that water cracking open the earth and spilling out on parched land.

05 novembro 2008

um testemunho

e-mail de um amigo que mora há décadas em Los Angeles:

Ao lado do salão de barbeiro/cabelereiro, chamado Ven-Mar -
"Coiffures de Paree" (sic), onde votei, havia um outro estabelecimento
comercial que oferecia cappuccinos, lattes e água aos eleitores na fila.
Os caras saiam de dentro e perguntavam às pessoas na fila se queriam
alguma coisa.
Depois de ter desistido de votar antes da gravação da XXXX esta manhã,
devido ao comprimento da fila, voltei lá no horário do almoço e
fiquei 50 mins. na espera até entrar no recinto.
Foi emocionante ver a expressão nos rostos das pessoas
que saiam de lá dentro.
Depois do 11 de setembro de 2001, este está sendo outro dia
em que o mundo mudou.

Hoje, pela primeira vez na vida, senti vontade de ter netos,
pra poder contar estas histórias.

Dia Mundial do Sorriso

Uma palavra de apreço pelo modo digno com que McCain se despediu:




Bem sei que me estou a repetir, mas hoje o que apetece é dançar com este...




...e recuperar este vídeo fantástico:

04 novembro 2008

piadinha do dia

Whoever wins is going to demand recount.

coisas da vida

Por causa do Lutz e do título "o cão de Paulo Rangel", dei por mim a googlear para tentar perceber aquele post.

Descobri o blogue Quinta do Sargaçal, onde esta questão foi discutida de uma forma muito enriquecedora ("os neo-neolíticos", grande nome!).

Encontrei também algures (desculpe o autor, não me lembro mesmo em que caixa de comentários foi) um link para um site horroroso, sobre o sofrimento dos animais a quem tiram os nossos casacos de peles. Podem ir ver, mas previno de novo: é horroroso.

E por causa do Lutz, fui parar ao Blasfémias, onde deixei este comentário:



Se trazem a religião para a conversa, como aconteceu em alguns comentários, temos de analisar o livro do Génesis.
O que lá está escrito é que Deus criou os animais e enviou o Homem a dar-lhes nome. Na cultura de quem escreveu este texto, “nomear” significa “tornar-se responsável por”.
Ou seja: do ponto de vista bíblico, a superioridade humana concedida por acção divina é atravessada pela responsabilidade perante toda a Criação.

Voltando às questões mais terra-a-terra: pelas suas responsabilidades na política portuguesa, Paulo Rangel, apesar de ser jurista, tem obrigação de se dar conta e envergonhar de um profundo atraso civilizacional, evidente tanto no número de cães e gatos vadios que há em Portugal, como no modo como são tratados os animais domesticados. Se um “Dia do Cão” (ou um “Dia do Animal”) oferece um contributo para a consciencialização, o debate ético e a evolução civilizacional do país, venha ele!

03 novembro 2008

passear com a Rita

6 posts sobre Roma

5 impressões sobre Istambul

E parece que depois ainda vai a não sei onde não sei quando.
Já estou à espera das próximas viagens, para voltar com guloseimas assim.

eleições à americana

A passagem de McCain pelo Saturday Night Live, acompanhado pela sua mulher a vender jóias e afrontado pela Tina Fey, é a coisa mais surpreendente que me aconteceu nesta campanha.
Alguém imagina um político europeu, na fase final da campanha eleitoral, a fazer humor sobre si próprio desta maneira?




Algo surpreendente, também, e um pouco assustadora - por revelar a fragilidade de um país profundamente dividido - esta mensagem que recebi de um amigo californiano:

Dear Red States:

If you somehow manage to steal this election too we've decided we're leaving. We intend to form our own country, and we're taking the other Blue States with us. In case you aren't aware, that includes California, Hawaii, Oregon, Washington, Minnesota, Wisconsin, Michigan, Illinois and all the Northeast. We believe this split will be beneficial to the nation, and especially to the people of the new country of New California.

To sum up briefly: You get Texas, Oklahoma and all the slave states. We get stem cell research and the best beaches. We get the Statue of Liberty . We get Hollywood and Yosemite, thank you. You get Dollywood.
We get Intel and Microsoft. You get WorldCom. We get Harvard. You get Ole' Miss. We get 85% of America's venture capital and entrepreneurs. You get Alabama. We get two-thirds of the tax revenue, you get to make the
red states pay their fair share.

Since our aggregate divorce rate is 22% lower than the Christian Coalition's, we get a bunch of happy families. You get a bunch of single moms.

Please be aware that Nuevo California will be pro-choice and anti-war, and we're going to want all our citizens back from Iraq at once. If you need people to fight, ask your evangelicals. They have kids they're apparently willing to send to their deaths for no purpose, and they don't care if you don't show pictures of their children's caskets coming home. We do wish you success in Iraq , and hope that the WMDs turn up, but we're not willing to spend our resources in Bush's Quagmire.

With the Blue States in hand, we will have firm control of 80% of the country's fresh water, more than 90% of the pineapple and lettuce, 92% of the nation's fresh fruit, 95% of America's quality wines, 90% of all cheese, 90% of the high tech industry, 90% of the corn and soybeans (thanks Iowa!), most of the U.S. low-sulfur coal, all
living redwoods, sequoias and condors, all the Ivy and Seven Sister schools plus Stanford, Cal Tech and MIT.

With the Red States, on the other hand, you will have to cope with 88% of all obese Americans (and their projected health care costs), 92% of all U.S. mosquitoes, nearly 100% of the tornadoes, 90% of the hurricanes, 99% of all Southern Baptists, virtually 100% of all televangelists, Rush Limbaugh, Bob Jones University, Clemson and the University of Georgia.

Additionally, 38% of those in the Red states believe Jonah was actually swallowed by a whale, 62% believe life is sacred unless we're discussing the war, the death penalty or gun laws, 44% say that evolution is only a theory, 53% that Saddam was involved in 9/11 and 61% of you crazy bastards believe you are people with higher morals then we lefties.


Finally, we're taking the good pot, too. You can have that dirt weed they grow in Mexico

Peace out,
--Blue States

vive la belle France

Fim-de-semana esticado, e muito especial, num mosteiro perto de Beaucroissant e dos Alpes da região de Grenoble.

Uma pessoa lê Beaucroissant e a boca enche-se de água, mas é um engano.
A comida era um pouco acima de miserável (demo-nos conta que já não temos idade para aditivos químicos, e nem sequer para pão branco). E o vinho também não era grande coisa.
E que interessa? Muito mais importante que isso foram as pessoas que encontrámos.
Da próxima vez levaremos nós o vinho e o pumpernickel.


As fotos que se seguem foram roubadas daqui, já que a nossa máquina está a pedir a reforma com justa causa.

O mosteiro:



A vista da sala de reuniões:



Os passeios pela floresta levavam-nos até esta plataforma: