30 setembro 2008

não sabemos para onde vai esta crise financeira...

...mas está aqui muito bem explicado de onde veio.

Com um grande Muito Obrigada! à Shyznogud, que até de técnica percebe, e outro à minha fonte, situada bem no centro desta tsunami.



(para ver melhor, carregar no quadradinho do lado superior direito, e depois no "+" ao lado da lupa)

criminalidade

1. Na semana passada, enquanto esperava pela Christina, que tinha ido comprar um bilhete, uma amiga dela assistiu à seguinte cena numa estação metro de Berlim: dois homens puxaram a carteira de uma velhinha, que se agarrou à carteira e começou a gritar; com um sacão, levaram-lhe a carteira e deixaram-na caída no chão; correram pelas escadas rolantes, mas foram perseguidos por outro homem aos gritos, que chamou a atenção dos passageiros no andar de baixo. Os ladrões foram agarrados, e a Polícia apareceu logo a seguir.
A amiga da Christina foi ajudar a senhora a levantar-se, furiosa com os mirones parados à sua volta.

Há aqui um elemento muito positivo: o pessoal reage.
Em vez de ficar à espera da TV para contar que os ladrões eram louros ou pretos...


2. Há pouco menos de um ano, o nosso carro foi arrombado, para levarem um telemóvel todo velho que nos servia de piloto GPS.
Ontem à noite, aconteceu outra vez. Partiram o vidro da direita atirando uma pedra com tanta força que estragou a porta do lado esquerdo. E levaram coisas disparatadas: dois comandos automáticos de garagem, um cartão para acumular pontos do supermercado, dois pares de chuteiras do Joachim e a caixa de medicamentos do seu clube de futebol.

Hoje de manhã comentei o caso com o porteiro da garagem, quando me estava a dar um novo comando automático. Dizia ele que isso não parecia coisa de profissionais, mas de miúdos.
Gostei: uma vez na vida não são pretos, nem brasileiros, nem a máfia de leste, nem nada. Apenas miúdos, nome de inclusão.

poder do consumidor, ou: a mesquinha vingança

* Riscar da lista de projectos umas férias na Áustria nos próximos anos.
* Evitar as autoestradas austríacas.


Mas será que isto basta?
Para onde vai a Europa se, no seu coração, um partido que aposta na xenofobia leva 18% dos votos?

Aqui ao lado, em Brandenburgo, vi um cartaz eleitoral de uma lista que unia os partidos da esquerda com o objectivo de derrotar a extrema-direita.
Parece menos um programa político que uma capitulação.

29 setembro 2008

como é que se inicia uma carreira de tradutor literário

Aprendi hoje: quem se quiser lançar numa carreira de tradutor literário, deve começar por jogar no totoloto.
Até ganhar.

28 setembro 2008

enganei-vos um bocadinho

Não era meio milhão, era um milhão inteiro de amigos.

Amigos, sim: o ambiente na cidade estava incrível. Toda a gente a falar com toda a gente, todos bem dispostos e descontraídos. E ainda por cima: bom tempo.

Gostei especialmente de um homem que, já na fase final, em Unter den Linden com a porta de Brandenburgo à vista, gritava aos heróis que já vinham a correr há mais de quatro horas: "vocês são fantásticos! aguentem, só mais um bocadinho! a massagem já está à espera! vocês são óptimos! força!" - e isto, ouvi-o eu durante mais de meia hora.

Para que o Joachim me pudesse distinguir no meio da multidão, levei uma bandeira enorme do Matthias: Portugal, assinada pela selecção de futebol, e como se não bastasse já, um enorme "amo-te Portugal".
Deu muito jeito, porque se via a grande distância. E, ao fim de três horas, eu já nem me sentia embaraçada nem nada.
Além disso, fez alguns portugueses felizes - por alguns segundos.

***

A quem interessar possa: 3:51:10.

27 setembro 2008

maratona de Berlim

É amanhã.

O Joachim vai correr.
Os miúdos e eu vamos correr quase tanto como ele para o apanhar em quatro pontos diferentes.

Para o resto do percurso, contamos com meio milhão de amigos estrategicamente espalhados pela cidade.

26 setembro 2008

o voto dos emigrantes - segunda volta

Comecemos por alguns dados fundamentais:

- A resolução dos problemas ligados ao acto eleitoral não pode de modo algum passar por dificultar a participação dos eleitores.

- Num mundo onde a mobilidade por motivos profissionais é um facto cada vez mais incontornável, por um lado, e onde, por outro lado, se pede a todos que, por motivos ecológicos, limitem as suas viagens, é absurdo trocar um sistema de voto por correspondência, já em funcionamento, pela obrigatoriedade do voto presencial. Lógico seria caminhar no sentido inverso: permitir a todos os eleitores o voto por correspondência ou electrónico.

- Esta discussão sobre o voto dos emigrantes tem ignorado uma outra discussão cada vez mais necessária: quais são os direitos e os deveres de um emigrante em relação ao país de origem? Quais são os critérios para atribuição dos direitos de eleitor? Como equacionar a questão dos descendentes dos emigrantes? Até que ponto faz sentido que um neto de emigrantes portugueses, que não fala português e só conhece o país como turista (quando muito!), possa votar em eleições portuguesas? Por outro lado, nos países que não aceitam a dupla nacionalidade, até que ponto faz sentido retirar a uma pessoa, com nacionalidade diferente da do país onde nasceu e foi socializada, a sua única possibilidade de participar num acto eleitoral?

- Paralelamente - e fique aqui dito de forma clara -, um dos motivos invocados para a alteração da lei subentende um brutal insulto aos emigrantes: ao defender que o processo é propício a "chapeladas", insinua-se que o comportamento eleitoral dos emigrantes é irresponsável, leviano e até desonesto. Notem que ninguém disse que isso aconteceu por obra de Fulano, do partido X, no bairro português da cidade Y, mas se usou uma generalização: "há chapeladas". E porque o voto por correspondência concedido aos emigrantes tem sido alvo de "chapeladas", é preciso acabar com este processo para todos os emigrantes.



Estando certa que o Presidente da República vai vetar esta lei, proponho agora um debate para melhorar o sistema actualmente existente.

A recente crónica de Vital Moreira no Público, sobre este tema, é um bom ponto de partida para procurar soluções:


1. "A primeira razão para abandonar o voto por correspondência nas eleições parlamentares é evidentemente a consistência de soluções, não se compreendendo o dualismo de soluções quanto à mesma questão."
Poderia perguntar "e porque não a consistência de soluções alargando o voto por correspondência às eleições presidenciais?", mas não pergunto, porque sei bem que estes dois processos não são comparáveis.
O direito de voto para os emigrantes nas eleições presidenciais é uma conquista recente, e foi difícil. Compreendo a argumentação: dado que, nas eleições parlamentares, os círculos eleitorais dos emigrantes elegem apenas quatro deputados, devidamente enquadrados num sistema de Democracia representativa, os riscos eventuais estão mais ou menos controlados. Em contrapartida, a eleição para o Presidente da República é directa, pelo que o voto de um grupo que, não residindo em Portugal, representa uns 30% dos eleitores, é um alto elemento de risco.
Enquanto não se resolver a questão dos critérios para atribuição do direito de participação eleitoral a não residentes, o melhor é não misturar as eleições presidenciais com as parlamentares, e esquecer a questão da consistência.


2. "A segunda razão é o enorme custo financeiro e administrativo da votação por correspondência, que implica o envio de boletins de voto e de sobrescritos, por correio registado, para todos os eleitores inscritos, muitas dezenas de milhares (mesmo que depois a participação eleitoral se fique por percentagens muito baixas)."
É um facto inegável: muitas das moradas nos ficheiros não estão actualizadas, e as pessoas que recebem as cartas não se dão ao trabalho de votar. Desperdício dos dinheiros públicos, excesso de trabalho e frustração dos funcionários do Consulado.
Podia lembrar agora que o exercício democrático tem custos, mas prefiro não ir por aí.
Sugiro o seguinte:
- quem reside na cidade onde há uma mesa de voto, vota nesse local;
- quem reside longe, envia um pedido ao Consulado para poder votar por correspondência. Por mim, que não percebo nada de Direito Constitucional, e dado que o eleitor vai poupar algumas dezenas ou centenas de euros em deslocação, até pode juntar um envelope de resposta onde já se escreve como destinatário, e os selos necessários ao envio do boletim de voto por carta registada (o Consulado disponibiliza esses dados no seu site).
Poupa-se trabalho e dinheiro ao Consulado, e assegura-se que só as pessoas realmente interessadas em votar vão receber o boletim.


3. "Mas a principal objecção ao voto por correspondência decorre evidentemente de este não assegurar alguns princípios básicos de qualquer eleição digna desse nome, que são a pessoalidade e o sigilo do voto. De facto, o voto por via postal não garante que a votação seja feita pelo próprio eleitor nem muito menos que o voto seja secreto."
Ora bem: se um adulto recebe uma carta registada e está impedido de a abrir ele próprio e responder em sigilo, isto é um caso de Polícia e não de alteração da lei eleitoral.
Mas pronto, está bem: dando de barato que esses portugueses da diáspora vivem num contexto de profunda miséria moral, vamos integrar mais um elemento de controlo: o pedido de envio do boletim de voto por correspondência terá te vir com cópia do documento de identificação e assinatura autentificada (*), e o Consulado avisa que os boletins serão enviados na semana de tantos a tantos, para que as pessoas estejam atentas à sua caixa do correio e avisem imediatamente se não receberem o seu boletim até ao fim desse prazo.
(*) Assinatura autentificada: na Alemanha, país que conheço melhor, é possível fazer isso nos correios, ou até no secretariado das paróquias. Não é preciso complicar o sistema de voto postal de tal modo que custe demasiado tempo e dinheiro.


4. "(...)o voto por correspondência envolve um risco de fraude eleitoral, se as forças políticas se decidirem a "organizar" a votação dos seus militantes e simpatizantes, recolhendo os boletins de voto e procedendo ao seu preenchimento e envio colectivo."
Insultos é que não!!!
Em nome de quê é que eu daria o meu boletim de voto para ser preenchido por outras pessoas?
Decididamente, não tenho imaginação para tanto.
Haverá um partido a fazer trabalho de porta em porta em cata de boletins de voto? Trocando boletins por brindes, talvez? E haverá realmente emigrantes dispostos a entregar o seu boletim em troca de um boné ou uma bandeirinha made in China, sei lá?
Ou haverá na diáspora portuguesa um submundo totalitário que obriga os emigrantes a participar nas reuniões do partido e a entregar os seus boletins de voto?
Se isto realmente acontecesse, não seria mais saudável para a Democracia investigar o caso, e punir o partido que assim age?


5. "(...)tudo se resume a saber se a vantagem de uma provável maior participação eleitoral deve pesar mais do que as desvantagens do voto postal, designadamente a violação dos princípios da pessoalidade e do sigilo do voto, incluindo o risco de fraude eleitoral"
Vamos mais devagar: uma "maior participação eleitoral" não é uma vantagem, mas um imperativo democrático.
Não estamos a escolher entre uma provável maior participação eleitoral e as desvantagens do voto postal. Estamos a escolher entre dificultar o acesso ao acto eleitoral - o que é uma medida espantosamente antidemocrática - ou melhorar o processo do voto postal, corrigindo os maus funcionamentos que entretanto foram detectados.
Às tantas, nem seria necessário uma nova lei, bastando alterar o regulamento do voto por correspondência.


6. Uma última nota: completamente de acordo com Vital Moreira quando critica a acusação de que esta é uma manobra do PS para evitar que o PSD eleja mais deputados. Mas já não gosto tanto quando insinua que o PSD terá um interesse particular na manutenção do voto por correspondência.
Não ajuda em nada à Democracia portuguesa andar a sugerir que um dos seus partidos mais importantes tem comportamentos mafiosos. Se há provas, denuncie-se abertamente e castigue-se. Se não há provas, não lancem rumores.

Este clima de insinuação - e já não falo apenas da gracinha do Vital Moreira - é uma vergonha e uma calamidade para o país.



Em suma:

1. Vete-se esta lei.

2. Mantenha-se a possibilidade de votar por correspondência a quem, devidamente identificado, se der ao trabalho de a pedir. Alargue-se este procedimento aos eleitores residentes no território nacional - ao menos, enquanto não vem o voto digital.

3. Inicie-se um debate sério para equacionar a participação dos emigrantes e dos seus descendentes nas eleições portuguesas.


***

Adenda: recomendo a leitura deste post e dos comentários, no ma-schamba.

ainda o voto dos emigrantes

Dois apontamentos:

Vários blogues criticaram o facto de a Manuela Ferreira Leite ter interrompido o seu silêncio para falar justamente desta questão. Diziam eles que é uma questão menor. De tão obcecados que andam a criticar a Manuela Ferreira Leite, nem param para pensar se têm razão ou se já só batem por reflexo condicionado.

Até agora, eu achava que os portugueses estavam a dizer tão mal do PS devido à acção de agentes de má-língua ao serviço de estratégias várias, resultando numa epidemia nacional de negativismo lemingue.
Bem: agora que sofri na própria pele os efeitos da actuação deste governo, vou ter de dar o dito por não dito.
Mas garanto que não imaginava que fosse possível descer tão baixo.

24 setembro 2008

do desespero

Estes dois posts:

- o 112 distrital

(...) Dão-me outro número que responde ao primeiro toque: conto a história pela 3ª vez. Vão passar para outra extensão: conto a história pela 4ª vez e, finalmente, um oásis: sem burocracias e/ou pedidos de explicações, alguém se disponibilizou para ir até lá e verificar o que se passa.
Entre a minha chamada para o 112 distrital e a chegada daquela boa alminha da GNR à casa do meu irmão mediou bem mais de uma hora.
(...)


- o Cazaquistão

(...)Fui encontrá-lo sentado na cova de uma maca. Assim mesmo: uma maca em V e lá estava ele sentado no epicentro da cova. A sua era uma da dúzia de macas encostadas umas às outras no corredor de acesso ao serviço de urgências. Um corredor a servir de enfermaria, a servir de quarto de hospital, pejado de macas, cheias de novos e velhos, ligados ao oxigénio e ao soro, uns conscientes, outros em perfeito delírio. E os visitantes por ali, a assistirem àquilo tudo. Impotentes. Um homem, numa cadeira de rodas, algaliado, pedia uma maca para se deitar um bocadinho. Não havia. Não havia macas sobrantes. Teria de aguardar na cadeira de rodas.(...)

a gargalhada do dia

A Rita:

3. Ainda da Vogue (estou mais ou menos à procura de um penteado que me envelheça um bocadinho, que me dê um ar de senhora que pode mandar numa escola em Bruxelas e que se possa desfazer a seguir): o rabo de cavalo, enquanto penteado, é adequado a uma noite confortável a ver dvd's. Estou muito mais descansada. Nunca sei como arranjar o cabelo quando planeio uma noite confortável a ver dvd's.

22 setembro 2008

agarrem-me, que eu vou votar PSD!

Ou então: agarrem-me, que estou com vontade de trocar a nacionalidade portuguesa pela alemã.
Há dias assim.

Os alemães podem votar sem terem de comparecer a um local de voto. No dia das eleições podem estar a gozar um bom fim-de-semana ou férias, podem estar ausentes por churrasco no jardim ou estágio no estrangeiro, ou até envolvidos num projecto internacional sei lá o quê neste mundo cada vez mais globalizado. Podem votar com alguma antecedência numa assembleia eleitoral aberta previamente para o efeito, ou enviar o voto pelo correio.
Eu, cidadã portuguesa residente na Alemanha, posso votar por correspondência para as eleições da minha autarquia ou do parlamento europeu. Mas não posso votar por correspondência para eleições portuguesas - como se os emigrantes morassem todos à esquina do seu local de voto.

Parece que acabaram com essa possilidade devido às irregularidades. Mas, convenhamos, se é esse o problema, não seria mais fácil tratar de corrigir as irregularidades, em vez de impedir os emigrantes portugueses de exercerem o seu direito de voto?

É nestes momentos que me lembro daquela frase "daria a minha vida para que tu possas dizer o que quiseres, mesmo que não concorde com a tua opinião".
Pois: estou capaz de oferecer o meu apartamento a emigrantes eleitores do PSD que tenham de se deslocar a Berlim para votar.

(Nada, nada, passa-me já, é só contar até vinte e respirar profundamente, e retiro já o convite aos eleitores do PSD)

(Mas pergunto-me, muito sinceramente, se me vale a pena dar-me ao trabalho de ir ao consulado votar num partido que assim me complica o exercício do mais básico direito democrático. Não é que considere o PSD melhor, mas começo a desconfiar se é assim tão pior que o PS!)

***

Por sorte que o 10 de Junho ainda vem longe. Porque se fosse agora, e viessem com aquela cantilena habitual das comunidades portuguesas e os nosso queridos emigrantes e o $#%&"#$, se fosse agora, dizia, não seria capaz de impedir um chorrilho de malcriadices que até a mim própria fariam corar.
Mas sempre quero ver que belos discursos empulgados farão no próximo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

"Empulgado" não é erro ortográfico, é fúria.

***

Emigrantes, que meios de protesto nos restam?
Encerrar imediatamente as nossas contas de emigrantes na Caixa Geral de Depósitos?
Cortar o mais possível nas remessas (já não é desta que mando uns mil euritos para pintar a minha casa em Portugal)?
Mudar de nacionalidade (já estive bem mais longe de o fazer)?

***

ADENDA
No ma-schamba há uma lista de links para blogues onde este assunto foi discutido. Gostei especialmente deste, no respirar o mesmo ar, e fartei-me de rir com o desabafo do Marco Oliveira.
Completo com este apontamento, da Snowgaze.

20 setembro 2008

ai o casamento

Miguel,

A tua resposta ajudou-me a ver com mais clareza.
Acho que andei a misturar duas coisas diferentes: contrato de casamento e relação afectiva.

Fui consultar o meu Código Civil (de 1982 - não sei o que entretanto terá mudado), onde se lê, no artigo 1577º: "casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código."
E depois vêm os deveres (artigo 1672º: "Os cônjuges estão reciprocamente vinculados pelos deveres de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência"), seguidos de inúmeros artigos sobre filhos e bens.
Não encontrei lá o menor traço de afectividade.
Na celebração do casamento não se pergunta a cada um dos noivos "hoje tens-lhe um grande amor?", mas: "tens a certeza que sabes no que te estás a meter, e tens a certeza que queres comprometer-te a isso?"

Vendo a partir desta perspectiva, parece-me que a revisão da lei do divórcio pôs o carro à frente dos bois.
Era preciso discutir primeiro o casamento (e não vou falar da parte sobre "pessoas de sexo diferente").
De que falamos quando falamos de casamento?
Daquele romântico "que seja infinito enquanto dure" do Vinicius, ou de um conjunto de obrigações em que incorre quem assinar esse contrato, uma troca de garantias entre os contraentes?
Penso que o processo legal do divórcio é mais a rescisão de um contrato que o anúncio oficial do fim de uma relação sentimental.

Acho positivo que se torne mais fácil assumir para os efeitos legais que uma relação acabou.
Mas, por outro lado, o que se passa com as obrigações e o seu não cumprimento? Vamos alterar o artigo 1672º para: "os cônjuges estão reciprocamente vinculados pelos deveres desejáveis, mas facultativos, de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência"?
(ai! acho que contraí telepatia com o Cavaco Silva: escrevi isto, para descobrir depois que ele diz o mesmo no ponto 5 do seu veto)
Quer dizer: ao desvincular o faltoso da sua culpa (de não cumprimento do estabelecido num contrato), mais vale nem sequer realizar o contrato.

E já que falei do veto presidencial, vejamos melhor o ponto 6.
Não compreendo aquela história da mulher a apanhar forte e feio e a querer continuar casada. A não ser que a intenção de quem escreveu o veto fosse dizer que uma pessoa (não é preciso achar que é sempre a mulher), se foi vítima de violência doméstica, quer que a repartição dos bens no decorrer de um processo de divórcio tenha em conta o comportamento do cônjuge, em vez de ter de recorrer a um processo judicial para receber uma indemnização.
No mesmo ponto, e logo a seguir, a parte em que se refere a nova redacção do nº 2 do artigo 1676º fez-me imaginar neste cenário: faz de conta que eu fazia questão em não arranjar emprego porque prefiro gastar o do meu marido a ganhá-lo eu, não dava o necessário apoio aos filhos, nunca punha o jantar na mesa a horas decentes para os ritmos familiares, e de caminho arranjava um namorado. Pedia o divórcio, e como tinha sido a parte prejudicada no casamento, já que me vira obrigada a não trabalhar para dar assistência à família (diria eu), o desgraçado do meu ex-marido tinha de me dar uma choruda recompensa.
(Também é verdade que, neste caso, ele pagaria isso e muito mais de bom grado só para se livrar de mim...)
Queremos uma lei que permita este tipo de situações?

A minha primeira pergunta no post anterior padece dessa confusão entre a vida afectiva de um casal e as obrigações contratuais do casamento civil.
Muitas das discussões realizadas andaram também à volta dessa confusão. Em especial a questão da culpa. Não se trata da culpa no fim da relação afectiva, mas no não cumprimento de um ou de vários deveres que foram aceites de livre vontade ao celebrar o contrato de casamento.

Na tua última frase também não se estabelece bem a diferença:
"De resto, dar as coisas por garantidas é um excelente caminho para sufocar lentamente (às vezes não tão lentamente como isso) a saúde de uma relação."
Completamente de acordo, se as "coisas dadas por garantidas" de que falas são os sentimentos e a disponibilidade do parceiro.

Contudo, no que diz respeito aos deveres, nunca corres o risco de os dar por garantidos, porque são uma exigência que fazes a ti próprio, e são resultado de consciencialização e conquista pessoais e quotidianas.
Quem diria que um texto legal tão pouco romântico fornece padrões tão importantes para a saúde de uma relação?


***

No entretanto, informei-me: as regras do jogo que vigoravam quando eu me casei na Alemanha já não são válidas.
Como eu sou um bocado maluca, provavelmente teria feito tudo da mesma maneira, e depois logo se vê.
Mas, por uma questão de princípio, não acho bem que mudem as regras a meio do jogo. Não podiam mudá-las para casamentos celebrados a partir da data de entrada em vigor da nova lei?

18 setembro 2008

ai o divórcio

Será que, ao facilitar os trâmites do divórcio, alguns casamentos vão melhorar?
Será que, por ser muito mais fácil assinalar o fim, as pessoas do casal não se deixarão acomodar na segurança do estabelecido, e estarão mais atentas a dar sentido e conteúdo ao que têm, sabendo-o agora tão institucionalmente frágil?

(O que levanta uma questão para debate - de preferência, antes de casar: uma vida de casal é ancorada na segurança institucional ou na vontade das partes?)

Será que vem por aí um novo impulso à emancipação das mulheres? Será que estas vão estar mais atentas à defesa dos seus interesses, por saberem que de um dia para o outro podem acordar divorciadas e no mais baixo nível da carreira profissional - o único que permitiu conciliar o trabalho com a assistência à família e os afazeres domésticos?

(isto não são bem ideias, isto sou eu a escrever mais rápido que o pensamento)

mais Estado, menos Estado

A TV alemã passa a vida a organizar debates sobre os acontecimentos da actualidade. Ontem foi a vez, como não podia deixar de ser, de discutir os mercados financeiros.
Entre o zapping e o sono, ouvi dois comentários interessantes:
- "Se o Estado actua como amortecedor das crises que os institutos financeiros provocam, estes vão habituar-se a jogar sem rede porque sabem que o Estado não os deixa cair. Para evitar a irresponsabilização galopante dos managers, é fundamental que o Estado regule drasticamente o funcionamento destes mercados."
- "Boa ideia", respondia outro, "mas como é que um Governo nacional pode actuar sobre este complexo mundo financeiro completamente internacionalizado?"

17 setembro 2008

"a globalização do toque"

No Contemplamento vem hoje uma descrição hilariante da vida de uma pessoa que gosta de manter as distâncias neste mundo cada vez mais beijoqueiro.

Como a compreendo!

Quando vim viver para a Alemanha, trazia os dois beijinhos na mala de cartão. Os amigos do Joachim cumprimentavam-me de abraço - com o qual eu não contava. O resultado era eu avançar para eles de beijinho em riste, enquanto eles chegavam perto demais num repente de abraço, e a combinação destes movimentos acabar com eu a dar-lhes um bruto beijo no pescoço. Deviam pensar que eu era maluca; eu só pensava com os meus botões que eles haviam de ir ser assim efusivos para a terra deles.

Este Verão apanhei pela proa com um emigrante em França, que por tudo e por nada dava quatro-beijinhos-quatro.
Para cúmulo, fazia-o a uma velocidade vertiginosa, sem afastar muito a cara naquele vaivém de uma bochecha para a outra. E eu ali a deixar, e a pensar que estava tem-te-não-caias para um beijinho de esquimó.

Também não gosto de ver a Angela Merkel aos beijinhos aos outros políticos.
(Ainda hei-de verificar se o Sarkozy lhe dá quatro-beijinhos-quatro, e a quantos milímetros lhe fica do nariz.)

Mas sejamos optimistas: apesar de tudo, na terra de onde ela vem as coisas já foram piores.

16 setembro 2008

turistas em Lisboa

A minha vizinha, aqui de Berlim, passou uns dias em Lisboa.
Disse-me que achou a cidade muito pior que há sete anos, quando lá esteve pela primeira vez.
A pobreza, o estado degradado das casas, dizia ela.
Tanta mudança em apenas sete anos?, admirei-me eu.
Parece que se perdeu a tentar subir para o castelo, e andou a subir e a descer escadas e ruelas numa encosta qualquer. Não me disse qual, mas pareceu-me que não seria Alfama, nem nenhum dos bairros que vêm nos guias turísticos.
Era um bairro com muitos muçulmanos, dizia ela.

***

A minha vizinha, lá de Portugal, passou uns dias em Lisboa.
Já aqui falei dela uma vez: é aquela mulher de 32 anos que já trabalha há 20, e não conseguiu ainda sair do salário mínimo. Apesar das Novas Oportunidades não pode continuar os estudos porque não tem carro nem boleia para as aulas nocturnas. Transportes públicos? A camioneta precisa de mais de uma hora para fazer os 12 km que a separam da cidade, e às sete da manhã já está a sair de novo para o trabalho.

Andou a poupar durante anos, e foi agora passar três dias a Lisboa. Pela primeira vez na vida.
Regressou feliz. Firmemente decidida a voltar, e a pôr de lado todos os meses algum dinheiro para poder entrar nos sítios onde não entrou desta vez por serem demasiado caros. O jardim zoológico, por exemplo.

Fiz-lhe um circuito para "Lisboa por pouco dinheiro". A Expo, a travessia no Cacilheiro, a autêntica fábrica de pastéis de Belém, os eléctricos. Coisas assim. Se tiverem mais sugestões, agradeço. Eu, e mais três mulheres do Portugal real, que vão atravessar onze meses de fábrica de confecções com a miragem de quatro dias de férias em Lisboa.

***

Se houver por aqui alguém ligado ao Governo, ou a algum lobby, deixo uma sugestão: acesso gratuito a museus e outras instituições culturais para estes portugueses cujo salário mal chega para pagar a alimentação, quanto mais a cultura.
Aliás (isto são os meus neurónios a entrar em autogestão), aí está um bom aproveitamento para o cartão do cidadão: se o cartão contém o número do contribuinte, talvez pudesse incluir uma informação suplementar das Finanças para as bilheteiras, para que o seu portador tenha acesso gratuito ou com desconto a certos equipamentos culturais.

a minha wish list na amazon está cada vez maior

Últimas entradas:


- Sigrun Eng



Podem ouvir Sigrun Eng aqui, por exemplo o "I'm Away" com Rachel Haden.
Obrigada ao Ruben, que ma revelou. Nas suas palavras: "uma prova
que boas idéias, sensibilidade e bom gosto produzem boa música mesmo fora da
Filarmonia."


- Kurt Weil Duo



Sigrun Eng (violoncelo) e Hilde Leite Gaupås (voz). Aqui.


- LONELY DRIFTER KAREN




Aqui, e obrigada à Maria João Pires, melhor dizendo, ao Nuno do Quase Famosos.

****

Se é para transformar os wishes em prenda de anos, pelas minhas contas, vou ter de chegar aos 100, e ter amigos muito generosos.

não esquecer...

...de ir dar uma espreitadela ao Imagens com Palavras.

15 setembro 2008

Sarah Palin & Hillary Clinton

Nota: de cada vez que faço uma nova ligação para um vídeo no youtube, ele é apagado.
A Gabriela disse-me que é possível ver no Truthdig, aqui.

***




Estou há duas horas a tentar lembrar-me onde é que descobri isto, e nada.
É o buraco negro de Genève, só pode ser.
Com tantos sítios no mundo, tinha de vir parar à minha cabeça?!!!

blog connections (2)

Com agradecimentos ao Marco Oliveira pelo seu post onde encontrei este belo texto de José Tolentino Mendonça.


Sempre que salto, salto para o infinito

Deste Verão português surdamente incompatível, com conflitualidades, embaraços e pessimismo, resgato uma frase que seria pena ficar perdida entre a cinza. Foi proferida pelo atleta Nelson Évora, e representa, creio, não apenas a descrição de uma técnica ou de um método, mas é uma espécie de razão onde a vida, a inteira vida, se pode decidir. "Sempre que salto, salto para o infinito", disse ele. No triplo salto dos Jogos Olímpicos de Pequim esse infinito correspondeu a 17,67 metros, e valeu-lhe a medalha de ouro. Mas o infinito é esse aberto que não acaba...

Nos programas biográficos que, em seguida, as televisões dedicaram ao atleta, comovi-me a olhar para as instalações desportivas mais do que precárias num centro escolar, para o ziguezague árido e incaracterístico das estradas suburbanas, para o exíguo futuro que se avista das florestas de apartamentos colados a apartamentos. Aquele cenário poderia servir para contar uma história completamente diferente. Por isso a frase de Nelson Évora é tão importante. Aos miúdos que hoje têm a idade que o campeão olímpico então teria, e que as televisões entrevistam naqueles mesmos lugares, como é fundamental testemunhar-lhes o que significa "saltar para o infinito". Transcender-se, ir além, ir mais longe, sabendo que isso implica que cada um se tenha encontrado humildemente com os seus limites e plenamente com as suas possibilidades. Num tempo de tectos baixos e de metas imediatas, como parecem ser os nossos, "saltar para o infinito" constitui talvez uma impopular aposta. Mas a esperança, a verdadeira esperança, pede de nós risco e coragem.

blog connections

io, obrigadinha por me ensinares o caminho das pedras até aos aromas de Pessoa.
Em troca, ofereço-te Mahler - obrigadinha, Rita!

12 setembro 2008

deitar acima

Está no Lida Insana, e não percam mais tempo por aqui, vão lá ler tudo:

O que eu espero é que ontem alguém que se sente impotente perante o seu município, a sua máquina administrativa, o seu governo, o seu assaltante, o seu bruto particular, alguém que sente a fragilidade da existência, alguém que sabe junto aos botões o que está certo e o que está errado, mas que sabe também que não tem a mínima chance de se sair bem se se dispuser a enfrentar as formas de prepotência, marginais ou instituídas, que habitualmente nos esmagam, o que eu realmente espero é que alguém assim tenha assistido, como eu, com espanto silencioso e reverente, à grande entrevista da Maria José Morgado.

Hegel, sobre certas maneiras de ser blogue

Enquanto o senso-comum recorre ao sentimento, - seu oráculo interior - descarta quem não está de acordo com ele. Tem de declarar que não tem mais nada a dizer a quem não encontra e não sente em si o mesmo; em outras palavras, calca aos pés a raiz da humanidade.

Pois a natureza da humanidade é tender ao consenso com outros, e sua existência reside apenas na comunidade instituída das consciências. O anti-humano, o animalesco, consiste em ficar no estágio do sentimento, e em só poder comunicar-se através do sentimento.


in Fenomenologia do Espírito

(«Indem jener sich auf das Gefühl, sein inwendiges Orakel, beruft, ist er gegen den, der nicht übereinstimmt, fertig; er muß erklären, daß er dem weiter nichts zu sagen habe, der nicht dasselbe in sich finde und fühle; - mit anderen Worte, er tritt die Wurzel der Humanität mit Füßen.
Denn die Natur dieser ist, auf die Übereinkunft mit anderen zu dringen, und ihre Existenz nur in der zustande gebrachten Gemeinsamkeit der Bewußtsein[e]. Das Widermenschliche, das Tierische besteht darin, im Gefühle stehenzubleiben und nur durch dieses sich mitteilen zu können.»)

e já que andam a falar tanto em divórcio...

Um pouco de metafísica para complementar a discussão:

11 setembro 2008

post privado



Estão abertas as inscrições para o calendário da família de 2009.
Pedidos para o meu e-mail privado, sabem, aquele:
helenaaquelaquehojejáescreveudemais-caramba-seráqueelanuncasecala@gmail.de

Este ano inventaram um novo melhoramento: os meses são de trás para a frente, de modo que em chegando a meio do mês pode-se passar para a folha do mês seguinte, dobrando-a e escondendo a sua metade inferior, de modo que se vê simultaneamente o que nos vai acontecer no que falta deste mês, e o que nos espera no princípio do mês seguinte.
(repararam nesta frase? é puro alemão, só as palavras é que são portuguesas...)

Ora bem: em Portugal ainda não começaram a produzir isto?! Estão à espera de quê?!



PS. Garantem que afinal o mundo não vai acabar tão cedo?
Que chatice, lá terei de ir acabar o trabalho que comecei ontem.

parece que o mundo era para acabar ontem

Parece que o mundo podia ter acabado ontem, e ninguém me avisou?!

O tempo que eu perdi a limpar a casa e a tratar da roupa, e afinal podia ter sido desnecessário!

(Amigos da onça, é o que vocês são todos.)

à atenção de quem produz noticiários em Portugal

Podiam, por favor, começar a fazer essas terríveis notícias sobre o terrível aumento da terrível criminalidade assim desta maneira?

evoluções

A propósito dos livros escolares, o Diogo nota, num comentário no post anterior, que esta será uma espécie em vias de extinção. Bem lembrado: conheço uma escola californiana onde os miúdos nem cadernos têm - vão para a escola com o seu portátil, e trabalham directamente no computador.

Uma vez, há quase uma década, no fim de um pequeno trabalho que fiz numa empresa da Silicon Valley, entreguei uma folha onde tinha escrito alguns apontamentos. A americana olhou para mim, perplexa: ninguém trabalha com papel, os meus apontamentos deviam ser inscritos directamente no sistema!
Elementar, meu caro Watson. Eu é que nasci tarde demais num mundo demasiado moderno...

É que ainda quase sou do tempo em que se dava às crianças da escola primária pequenos quadros de lousa, para poupar papel.

Embora, em boa verdade, não se possa falar do tempo, mas da distância. A gente afasta-se meia dúzia de quilómetros das grandes cidades e dá-se conta que andou umas dezenas de anos ópratrás.

10 setembro 2008

alguns apontamentos sobre a minha experiência internacional com livros escolares

(hehehe
isto saiu-me um título e peras!)

Vem este post a propósito da crítica do Rui Bebiano à actual situação que obriga famílias a endividarem-se para comprar os livros escolares.

A minha filha fez os dois primeiros anos numa escola privada, Montessori, em San Francisco. Não comprei um único livro.
A professora ia dando fotocópias e revistinhas aos miúdos, conforme o que lhes convinha no momento.
Verdade seja dita, naquela escola os currículos eram feitos à medida dos professores disponíveis. Por exemplo: no ano em que contrataram uma professora especializada em arte e espanhol, puseram todas as crianças a aprender espanhol e a fazer obras de arte fantásticas.
E custava 600 dólares por mês. O que uma pessoa não faz para evitar que os seus filhos vão parar àquelas escolas com detectores de metais à porta...

Na Alemanha, cada Land tem o seu próprio Ministério da Educação. Na Turíngia e em Berlim, as duas regiões que conheço bem, os livros escolares são emprestados pela escola.
Tem um inconveniente: se os professores de determinada área escolhem um manual, e se se verificar depois que afinal não era muito bom, vão ter de conviver com ele cinco anos seguidos.
E uma enorme vantagem: o material complementar (cadernos de exercícios, etc.) que os pais têm de comprar não ultrapassa o limite previamente definido pela escola. Para nós, tem sido entre 30 e 50 euros por ano.

Dado que a Turíngia está perto da bancarrota, houve um ano em que o Ministério decidiu exigir dos pais a comparticipação na compra dos livros escolares. Dependendo do número de crianças no agregado familiar e dos rendimentos da família, era pedido um pagamento anual de cerca de 30 euros. Os pais pagaram sob protesto, o caso foi para tribunal, e o Estado acabou a devolver esse dinheiro aos pais. Se bem entendi, esse procedimento tinha dois erros graves: o Estado demitia-se da sua função de garantir ensino gratuito para todos, e a empresa privada a quem a gestão do processo fora entregue tinha acesso a dados sobre o rendimento dos agregados familiares, dados esses que deviam estar protegidos.

Berlim, ao que dizem, já está na bancarrota há muito. Mas ainda vai arranjando maneira de comprar os livros escolares para emprestar aos alunos.
Na escola pública berlinense que conheço os professores, no fim do ano lectivo, põem em contacto os alunos de dois anos consecutivos, para aquisição dos cadernos de exercícios usados. Ou seja: se os livros comprados pelos pais forem usados com cuidado, é possível recuperar parte do seu custo, vendendo-os aos alunos que vão precisar deles.

***

Há tempos andei a pensar em ocupar um nicho de mercado em Portugal: uma empresa na internet para troca de livros escolares usados. Mas parei, ao considerar os custos dos correios.

Pensando bem, o mais fácil seria as escolas optarem por um livro para usar cinco anos, comprá-lo e emprestá-lo aos alunos. Podia até pedir-se aos pais uma comparticipação, que nunca seria mais do que um quinto do que agora são obrigados a gastar.
Ou, pelo menos, optarem por um livro para cinco anos, permitindo aos pais encontrar na sua escola compradores para os livros usados.

(Bem sei que estou a estragar o arranjinho aos professores que escrevem os manuais e aos editores que os colocam no mercado com uma pressão estonteante, mas, tenham lá paciência, é por uma boa causa...)

09 setembro 2008

há mar e mar, há banhistas e banhistas

O jj. amarante fala neste post da destruição paisagística da costa, e da dificuldade em compatibilizar as férias na praia para toda a classe média e a protecção da paisagem.

Este Verão descobri a praia no Wannsee, um grande lago a cerca de 15 km do centro de Berlim. Durante a Guerra Fria, era o local de veraneio mais importante para a população de Berlim Ocidental. Com linha de S-Bahn, para melhor servir os berlinenses, e com um monumental balneário construído nos anos 20.





A gente vê aquela praia cheia de gente (tem 1,2 km de comprimento e espaço para 12.000 banhistas) e não acredita que na margem do lago só se vejam árvores, aqui e ali interrompidas por uma mansãozita dos fins do séc. XIX.
Onde estão os prédios para o pessoal que faz questão de ter uma janela a dar para a água?
Onde está a pressão imobiliária, a criatividade de furar as directrizes do ordenamento do território, ou até de "dar um jeitinho" aos planos directores municipais?



Uma brilhante bloguista desta praça desfez o mistério: os ricos da Alemanha não gostam de viver em prédios de apartamentos.

08 setembro 2008

das alegrias de ter crianças por perto

1. Explicou-me a Klara, que tem 3 anos: "eu vim de Deus, que me emprestou ao meu pai."


2. Que fazer em Giessen num sábado de chuva, com crianças de 11 anos, 11 anos com deficiência mental, 3 anos?
Fácil: ir para o Mathematikum. E adorar.
E ainda não percebi a ligação entre a sequência de Fibonacci e as pinhas. Tenho de observar as pinhas com mais cuidado.
E apesar de mais uma vez me ter dado conta das minhas limitações. Até parecia mentira: o Matthias e o Joachim resolviam os desafios de construir figuras geométricas bi- e tridimensionais a toda a velocidade, e eu... nem conhecendo o truque chegava lá.
(Muuuh, como dizia o outro)

Isto para dizer que, se passarem por Giessen, deviam reservar duas horitas, ou mais, para um museu hands-on da matemática.

05 setembro 2008

ó pra nós aqui no charco

Há alguns anos, um adolescente contou-me que tinha feito uma visita escolar ao Parlamento, e que tinha gostado, e que tudo tinha corrido muito bem porque não havia perigo, o Paulo Pedroso não estava lá.
Algo me diz que agora acredita que o Paulo Pedroso só se safou porque tinha bons advogados, e que isto da Justiça é só truques, e agora, olha, vai pagar o pobre do contribuinte pela esperteza dele, Este país, já se sabe, é sempre a mesma coisa!
Um pormenor curioso: o pai desse rapaz é daqueles professores capazes de meter atestado médico para ir de férias com a família.

É isto que mais me assusta em Portugal: a profunda desconfiança no sistema, a par de um humor desesperado - essa necessidade compulsiva de fazer uma piada por mais indigna, injusta e corrosiva que seja. E assim se vai levando a vida.
Nem sei se isto é um ciclo vicioso, se é uma lapalissade: quanto mais vemos os acontecimentos pela sua pior versão, pior tudo nos parece.

Por outro lado, ao afirmar tão peremptoriamente que "isto é tudo uma corja" damo-nos uma boa desculpa para termos, à dimensão da nossa vidinha, alguns comportamentos enfim, digamos, pronto, pá, não muito correctos. Afinal de contas, se "eles" podem, porque é que eu não havia de poder? Eu é que não sou parvo!, como diz o outro.


A propósito do Paulo Pedroso, se não leram já, vejam também o que dizem o Lutz e o Miguel Silva (a ralé e a ralé (2) ).


Quanto a mim, sobre a tragédia de um homem que poderia ter dado tanto ao país e a quem nunca mais devolverão o seu bom nome, só me ocorre chamar as carpideiras para lamentarem o meu Portugal, e este poema de Sophia:

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


Livro Sexto, 1962

emancipação feminina


À frente do ministério da família alemão está uma mulher, mãe de sete filhos.
Acho que já falei várias vezes dela, e do episódio redentor da sua vida.
Resumindo: acompanhou o marido aos EUA, onde ele estava a fazer um pós-doutoramento. Numa recepção na universidade, um dos chefes perguntou-lhe o que tencionava fazer, e ela respondeu que tinha três ou quatro filhos, já não sei bem. Ele terá respondido (estou mesmo a imaginar) "oh, how nice!" ou "oh, how gorgeous!" e repetiu a pergunta: "e que tenciona fazer nos EUA?", e ela fez também um pós-doutoramento, além de mais um par de filhos.

Foi o ministério dela que criou um "salário" para os progenitores que ficam em casa (80% do salário que essa pessoa recebia antes do nascimento da criança, até um máximo de, salvo erro, 1800 euros, durante 12 meses, ou 14 se o pai também ficar parte desse tempo em casa). Recentemente foi muito criticada por querer aumentar o número de lugares em creches e jardins de infância, permitindo assim às mâes um regresso mais fácil à vida profissional. Nem queiram saber o que por aqui foi de gritaria, com bispos (e não apenas católicos, que isto um dia é da caça e outro é do caçador) a afirmar que ela queria fazer das mulheres "máquinas de parir", e destruir completamente a instituição "família".

Há tempos uma revista (julgo que foi o Spiegel) publicou uma entrevista com ela, que não li. Mas adorei ler no número seguinte este comentário de um leitor:

"Emancipação seria duas jornalistas perguntarem a um ministro como é que ele compatibiliza o trabalho com a família!"

wonderwomen portuguesas

Falo de algumas que conheço, e dou-lhes nome: Paula, Laura, Teresa, Susana.
Muito inteligentes, extremamente competentes, profissionais formidáveis.
E simultaneamente óptimas mães, fantásticas cozinheiras.
Como é que conseguem criar tão bem os filhos, dar conta do trabalho com tanto brilho, e ao fim do dia pôr na mesa um jantar que já por si só mereceria um emprego a tempo inteiro? E continuar a rir, com um ar bem disposto e alegre?

Não há disto na Alemanha.
Nem vi disto nos EUA (onde, diz-se, as gerações mais novas nem sequer sabem os basics da cozinha).
Começo a acreditar na superioridade da minha raça.
De cuja eu, claramente, sou a ovelha negra. Não contem nada a ninguém.

***

Isto parece que está a ficar um mantra, mas o que tem que ser tem muita força:
espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

04 setembro 2008

"ó chumos, eu agora estou aqui e isto é só convosco, vinde cá!"

Bem sei que me estou a meter em conversas alheias, e ninguém me convidou nem pediu opinião, mas é por uma boa causa: provocar um esgotamento nervoso ao sitemeter do blogame mucho.

Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, .

Para quem estranhar tanta solicitude perante um blogue que nem sequer aparece na minha coluna dos links, a resposta é simples: não anoto o que sei de cor.

(Hehehe, esta saiu-me bem. Se ele não se lembrar de resmungar "engana-me que eu gosto", saiu-me bem.)
(Mau-mau-mau, agora perguntarão os outros, os linkados: "então, e eu?")
(Bolas, ainda agora comecei o dia e já estou a meter os pés pelas mãos.)

Ah, Besugo, não percebo nada de futebol. A culpa é do meu pai, que me levou a ver um jogo no estádio do Braga tinha eu cinco anos. Passei o tempo todo perplexa, a fazer perguntas como se o pessoal estivesse a gritar em estrangeiro, "vão-nos dar frango?!", "leite, o quê?", "o que é essa palavra que estão a chamar ao árbitro?".

A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.
Mas anteontem vi o Oliver Kahn a abandonar o Allianz Arena ao som do "time to say goodbye", e comecei a intuir a poesia da coisa.

(Parece que neste blogue a silly season vai por Setembro adentro - mais um sintoma do aquecimento global)

turismo sexual

Uma alemãzita de 14 anos decidiu que ia perder a virgindade na semana de férias que estava a fazer com a família na Turquia. Escolheu na praia o objecto do seu desejo e, mal apanhou os pais distraídos, zimbas.

Contava depois às amigas, muito satisfeita, que o rapaz até se deve ter apaixonado por ela e tudo, porque lhe propôs logo casamento.

***

Imagino a cara do rapaz ao ver o sangue, o letreiro luminoso a fustigar-lhe o cérebro, "código de honra!" "código de honra!" "código de honra!"
Decididamente, a Turquia ainda não está pronta para entrar na UE...

***

Mas espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

03 setembro 2008

violência doméstica

Matança do porco.

A dona tratara com os homens que na aldeia fazem esse trabalho, para o virem matar e desfazer.
Às tantas, um deles pergunta:
- E o teu homem, não vem? Está a fazer falta!
- Não me faz falta nenhuma, só me estrova!, respondeu ela, desabrida e alegre.
Pausa. E depois acrescentou:
- E às vezes, quando estrova demais, leva uma de esguelha que se põe fino.

Já tiveram que os separar mais que uma vez.
Como no dia em que ela avançou para ele brandindo uma sachola, "meu desgraçado que te escancho a cabeça em dois!"
Às vezes não há ninguém para os separar, e ele acaba a explicar que aquilo foi de ter caído nas escadas, ou de ter tropeçado contra uma porta.

A pessoa que me contou não estava chocada com a violência, mas com a vergonha de ela se vangloriar assim perante outros homens da aldeia.
Isto é um país que eu não percebo.

***

O aeroporto de Barajas está cheio de cartazes contra a violência doméstica. Uma mulher com a frase "nem se te ocorra levantar a mão para mim", uma criança "mamã, tens de agir, para meu bem!" e um homem "bater numa mulher não é de homem".
Falta a fotografia do homem lá da minha aldeia "bater num homem não é feminino", e das filhas dele "papá, tens de agir, para nosso bem". E, já agora, do futuro genro, "ó homem, faça alguma coisa, que isto está a ser mau exemplo para a minha futura mulher".

***

E depois, juro que não sei como é que as minhas ideias deram este salto, há aquela anedota do homem que ao regressar com a mulher de uma festa vai a correr buscar um copo de água e uma aspirina.
Ela: Mas porquê? Não tenho dores de cabeça...
Ele: Aha! Hoje não tens desculpa!

***

Mas espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

barajas

Como tínhamos de esperar quase três horas pelo voo de ligação, ao chegar a Madrid não nos apressámos a sair do avião.
Quando começou aquele nervosismo da saída, continuámos sentadas, observando pela janela o trabalho de descarregar a bagagem. Uma lentidão. Por algum motivo que não entendi, a viatura do transporte estava a vinte metros do tapete rolante que trazia as malas. Víamos como os volumes iam baixando para a pista, chegavam ao fim do tapete, catrapum! para o chão. Vinha um dos funcionários, arrastava duas malas até ao carro, e no entretanto, catrapum! catrapum! mais malas caíam umas para cima das outras. E lá corria o funcionário como num filme cómico.
Chegou a vez de um saco, pequeno, todo cheio de autocolantes "FRAGILE".
Catrapum.
E logo a seguir uma caixa enorme.
Catrapum para cima dos autocolantes "FRAGILE", até parecia tiro ao alvo.

As minhas garrafinhas de Vallado moscatel branco chegaram bem, apesar de tudo.
Gracias a la vida!

02 setembro 2008

kill the gun



Roubado ao Entre as Brumas da Memória.

enquanto eu ia a banhos...

...a abrunho ficou por aí a escrever posts formidáveis.
Desculpem a sinceridade, mas não sei o que estão a fazer neste blogue, em vez de estarem a ler o Contemplamento.
Aqui, ou aqui, ou aqui, ou aqui, ou aqui, ou...

E de caminho viciei-me em Fiona Apple.

01 setembro 2008

rentrée

Atordoada. Cansada. Caótica. E feliz.

Gracias a la vida, depois conto detalhes.