"Não existe quase nada neste mundo, que alguém não possa fazer um pouco pior e vender um pouco mais barato - e as pessoas que se orientam apenas pelo preço são as merecidas vítimas desta prática.
Se é tolice pagar demasiado, maior tolice é pagar muito pouco. Quem paga um preço demasiado alto, perde algum dinheiro - é tudo. Quem, ao contrário, paga muito pouco, às vezes perde tudo, pois o objecto comprado não pode cumprir a sua missão.
A lei da economia impede que se receba muito valor por pouco dinheiro.
Aceitando a oferta mais baixa é necessário acrescentar algo pelo risco que se corre.
Quem faz isso, então também tem dinheiro suficiente para pagar algo melhor."
John Ruskin
Reformador social inglês (1819-1900)
Traduzido para as palavras de uma velhinha da Suábia: "Nós não somos suficientemente ricos para nos podermos dar ao luxo de comprar barato."
Mas isto era no milénio passado. Hoje é preciso acrescentar: "nem somos suficientemente cínicos para nos podermos iludir a consciência quando compramos barato."
Há muita gente a trabalhar em situação de escravatura para abastecer os nossos mercados.
Não consigo perceber como é que vendem bonecos de peluche a dois e três euros - ou quem os faz trabalha muito depressa, ou recebe muito pouco pelo seu trabalho. E a roupa da moda deste ano, muito bem bordada a pérolas e lantejoulas: como é possível tanto trabalho custar tão pouco?
***
Baralhar e dar de novo: as iniciativas para acabar com o trabalho infantil no terceiro mundo levaram à desagregação familiar. As firmas deixaram de empregar as crianças porque estavam a perder mercado no primeiro mundo, pelo que os pais foram obrigados a partir para longe para tentarem sustentar a família. Os organismos que se tinham empenhado na defesa das crianças aperceberam-se do erro, e mudaram de táctica: as crianças podem trabalhar, mas sob vigilância, de modo a assegurar-se que vão à escola e recebem alimentação adequada.
E agora: compro ou não compro o boneco de três euros?
Mundo complicado.
30 junho 2007
28 junho 2007
revisionismo histórico
Ontem a Angela Merkel foi entrevistada no noticiário Tagesthemen, na ARD, para falar sobre os desentendimentos com a Polónia.
"Desentendimentos, quais desentendimentos?", foi a resposta dela, acrescentando que a Europa é um projecto de Futuro, e que a a História é importante para nos avisar, mas não para nos travar. (Isto é uma tradução muito livre)
Perguntassem-me a mim, e eu diria logo: "Lembrar a História? Lembrar os mortos da Polónia?! Mas é que é já! Digam-me então os polacos se se devem contabilizar os seus judeus do lado do deve ou do haver. E os sobreviventes de Auschwitz, assassinados quando quiseram recuperar as suas propriedades, vão de raiz quadrada ou potência?"
Por estas e por outras é que nunca chegarei a chancelerina.
"Desentendimentos, quais desentendimentos?", foi a resposta dela, acrescentando que a Europa é um projecto de Futuro, e que a a História é importante para nos avisar, mas não para nos travar. (Isto é uma tradução muito livre)
Perguntassem-me a mim, e eu diria logo: "Lembrar a História? Lembrar os mortos da Polónia?! Mas é que é já! Digam-me então os polacos se se devem contabilizar os seus judeus do lado do deve ou do haver. E os sobreviventes de Auschwitz, assassinados quando quiseram recuperar as suas propriedades, vão de raiz quadrada ou potência?"
Por estas e por outras é que nunca chegarei a chancelerina.
26 junho 2007
arranjam-se aí umas bandeiritas da Polónia...
...para lhes deitar fogo?
(nada, nada, foi a minha costela multi-racial - sabe-se lá que genes por aqui andam - que teve um sobressalto)
A Polónia decidiu manter-se no papel de vítima da Alemanha e apelar aos rancores ancestrais. Compare-se com o esforço de entendimento entre a Alemanha e a França, e comparem-se os frutos, para os dois países e para a União Europeia.

Tradução: Macocha = madrasta
(nada, nada, foi a minha costela multi-racial - sabe-se lá que genes por aqui andam - que teve um sobressalto)
A Polónia decidiu manter-se no papel de vítima da Alemanha e apelar aos rancores ancestrais. Compare-se com o esforço de entendimento entre a Alemanha e a França, e comparem-se os frutos, para os dois países e para a União Europeia.

Tradução: Macocha = madrasta
21 junho 2007
José Cardoso Pires
"Príncipe dos corvos. Rapaz de Lisboa. Antes de começar a escrever impunha algumas regras: só as melhores canetas, só o melhor papel, os cigarros, whisky, um pouco de água, solidão. Avesso à tacanha mentalidade rural, era junto ao mar que encontrava o imperativo «isolamento vivo» para a composição de histórias." (tirado daqui)
A quem interessar possa: a casa onde o José Cardoso Pires se refugiava para escrever, um apartamento em frente ao mar da Costa da Caparica, foi posto à venda.

(foto tirada daqui)
A quem interessar possa: a casa onde o José Cardoso Pires se refugiava para escrever, um apartamento em frente ao mar da Costa da Caparica, foi posto à venda.

(foto tirada daqui)
A Süddeutsche Zeitung é que me compreende
E aqui vai o artigo traduzido:
Crianças superprotegidas
Big Mother is watching you
Parque de aventuras? Nem pensar. A tendência para reduzir o espaço lúdico dos filhos, de forma a protegê-los melhor, acentuou-se com o desaparecimento da Madeleine.
Será que vão encontrar a menina? Os pais vão conseguir alguma coisa? Estas foram as reacções iniciais. Todos compreendiam a crise que os pais da pequena Madeleine estavam a atravessar.
Depois veio o golpe. Com toda a força. Como é que os McCann ousaram deixar os filhos sozinhos num apartamento de férias. É verdade que estavam num restaurante a apenas 50 m do apartamento, e que vigiavam as crianças de meia em meia hora. É o que eles dizem. Mas muita coisa pode acontecer em 30 minutos. Um incêndio. Um acidente. Tudo. E depois, estas ondas mediáticas. Quem pensam eles que são?
"O que aqui é importante é a incrível negligência imbecil dos pais. Nos Estados Unidos já houve pais que, por menos, perderam a custódia dos filhos e chegaram a ter um processo-crime!", critica uma mulher num blog, enquanto outra afirma: "o que estes pais fazem, deixar três crianças sem vigilância, na Califórnia pode ser penalizado como maus tratos a crianças."
A polícia e o procurador da república foram contactados, como se fosse realmente relevante os McCann serem "bons" ou "maus" pais. Por vezes, as reacções pareciam parte de um ritual de exorcismo para afastar os perigos que poderiam atingir os nossos próprios filhos. Como o "terceiro olho" contra o mau-olhado que, na Ásia, algumas mães pintam nos filhos recém-nascidos: vejam, eu sou uma boa mãe, eu sou um bom pai, eu nunca deixarei os meus filhos sozinhos, e por isso nunca lhes acontecerá algo de mal.
O desaparecimento de uma criança é um dos maiores medos dos pais. Mas os fortes ataques aos McCann são indício de algo diferente. Por coincidência, ocorreu por estes dias um encontro entre pedagogos e sociólogos na Universidade do Kent, para reflectir sobre a vigilância paternal em tempos de "educação intensiva de crianças".
Frank Furendi, um dos participantes, não se mostrou nada surpreendido com as reacções. Desde que, há alguns anos, editou o livro "A Paranóia dos Pais", tem observado como a situação está a piorar. "Não podemos tornar cada criança e cada adulto refém de um worst case scenario", diz ele. "De momento, damos sinais de que os adultos são tão pouco dignos de confiança, que a Polícia tem de vigiar todos. É isso o que as crianças aprendem, o que é uma tragédia muito maior para o país que o rapto de uma criança. Se toda a nação for dominada por esta cultura disfuncional e desorientada, isso terá consequências esmagadoras."
Pode parecer insensível. Mas Furendi acusa uma tendência que se está a desenvolver não apenas nos países anglo-saxónicos. Os pais já não pesam os riscos, nem ponderam entre o que os filhos já são capazes e o que ainda é demasiado arriscado. Consideram desde logo o pior possível que pode acontecer, o worst case, e procuram evitar todos os riscos.
A segurança absoluta não existe. E conduz a cuidados exagerados, que não consentem nada às crianças, que não as deixam nunca longe da vista, não as deixam tornarem-se independentes. Uma mãe inglesa foi no seu próprio carro atrás do autocarro que levava o seu filho para o campo de férias.
A vigilância pode durar até as crianças chegarem à idade adulta. Nos EUA chama-se "helicopter parenting" ao fenómeno de pais que vigiam os filhos até eles entrarem no College. Richard Mullendore, professor de Pedagogia, comenta que o telemóvel se tornou o maior cordão umbilical do mundo. Quem se admira ainda que nos telemóveis das crianças sejam integrados emissores para vigilância. Como afirma uma mãe, estes emissores permitem às crianças tornarem-se de novo livres, porque já não é preciso andarem sempre acompanhadas por um adulto.
É o medo que leva a isto. Um medo que já não é propriamente racional, o medo da morte súbita infantil, da comida pouco saudável, dos parques infantis sem segurança, e até da própria família, já que a maior parte dos casos de abuso ocorrem dentro da família. E é sobretudo o medo do mundo lá fora, dos desconhecidos, ou seja, dos adultos.
Esta desconfiança em relação a todos os adultos leva ao fim da solidariedade social, que até agora permitia que os pais deixassem os seus filhos sair em liberdade, seguros de que outros adultos estariam atentos. Se hoje alguém na IKEA se curvar para uma criança que chora e que talvez se tenha perdido da mãe, corre o risco de ser confrontado com uma mãe fora de si a tentar afastar um possível raptor. Por seu lado, os professores temem que, por consolarem uma criança com um abraço, sejam acusados de pedofilia.
De facto, os casos trágicos como o do desaparecimento da Madeleine continuam a ser tão raros como no passado. Em contrapartida, os cuidados de segurança tomaram proporções obsessivas. As crianças são levadas de carro para todo o lado: para o play date combinado há semanas, para o desporto, para a lição de piano. Na Inglaterra, ainda em 1971, oito em cada dez crianças iam sozinhas para a escola; hoje em dia é apenas uma.
Um relatório do "Children’s Play Council" concluia já nos anos 90 que muitas crianças se tornaram prisioneiras na sua própria casa. Na Alemanha, o raio de acção de crianças da escola primária (ou seja, o círculo no qual se movem livremente) reduziu-se desde os anos 70 de 20 km para 4 km. Cada vez há menos crianças autorizadas a brincar sozinhas fora de casa. Os pedagogos falam de uma "infância tornada ilha", quando as crianças já não têm acesso a jardins abandonados, aterros lamacentos, cabanas e grutas plenas de segredos e aventuras. Agora, sentam-se em frente ao computador. E tornam-se obesas. E solitárias.
A forte ocorrência nos EUA, na Inglaterra e na Austrália deste fenómeno de pais demasiado cuidadosos, já com laivos de histeria, pode talvez ser explicada pela confiança que nesses países se dá à "meritocracia", ou seja, a crença de que qualquer pessoa pode subir na vida a partir unicamente do seu esforço. O que significa, inversamente, que os pais, e só os pais, são responsabilizados se o filho não consegue atingir aquilo que devia: a melhor universidade, o melhor escritório de advogados, o posto mais alto. Os pais apoiam e exigem e vigiam. Tempo para brincar é tempo perdido. Rapidamente se considera desleixada uma família cujas crianças andam na rua.
E a "indústria da segurança infantil", para usar a expressão de Furedi, reforça a insegurança dos pais. Os pedagogos e os profissionais terão transformado cada aspecto da educação num problema. "Tentou-se profissionalizar a vida da família".Porque todos os pais têm primeiro de aprender a ser pais, o Estado acredita que tem a obrigação de ensinar. E esquece que uma das aquisições humanas é a capacidade para aprender com a experiência e os erros. A improvisação já não interessa, tal como o deixar andar e o deixar ir.
Nos EUA, "O Livro Perigoso para Rapazes" faz de momento furor. Mostra como se fazem aviões, se caça coelhos e se lança pedras com uma fisga. Tudo sob vigilância paterna. "Nós costumávamos chamar a isto brincar", resume um pai, "mas hoje dá a sensação de se tratar de deveres."
(SZ de 15.6.2007)
Crianças superprotegidas
Big Mother is watching you
Parque de aventuras? Nem pensar. A tendência para reduzir o espaço lúdico dos filhos, de forma a protegê-los melhor, acentuou-se com o desaparecimento da Madeleine.
Será que vão encontrar a menina? Os pais vão conseguir alguma coisa? Estas foram as reacções iniciais. Todos compreendiam a crise que os pais da pequena Madeleine estavam a atravessar.
Depois veio o golpe. Com toda a força. Como é que os McCann ousaram deixar os filhos sozinhos num apartamento de férias. É verdade que estavam num restaurante a apenas 50 m do apartamento, e que vigiavam as crianças de meia em meia hora. É o que eles dizem. Mas muita coisa pode acontecer em 30 minutos. Um incêndio. Um acidente. Tudo. E depois, estas ondas mediáticas. Quem pensam eles que são?
"O que aqui é importante é a incrível negligência imbecil dos pais. Nos Estados Unidos já houve pais que, por menos, perderam a custódia dos filhos e chegaram a ter um processo-crime!", critica uma mulher num blog, enquanto outra afirma: "o que estes pais fazem, deixar três crianças sem vigilância, na Califórnia pode ser penalizado como maus tratos a crianças."
A polícia e o procurador da república foram contactados, como se fosse realmente relevante os McCann serem "bons" ou "maus" pais. Por vezes, as reacções pareciam parte de um ritual de exorcismo para afastar os perigos que poderiam atingir os nossos próprios filhos. Como o "terceiro olho" contra o mau-olhado que, na Ásia, algumas mães pintam nos filhos recém-nascidos: vejam, eu sou uma boa mãe, eu sou um bom pai, eu nunca deixarei os meus filhos sozinhos, e por isso nunca lhes acontecerá algo de mal.
O desaparecimento de uma criança é um dos maiores medos dos pais. Mas os fortes ataques aos McCann são indício de algo diferente. Por coincidência, ocorreu por estes dias um encontro entre pedagogos e sociólogos na Universidade do Kent, para reflectir sobre a vigilância paternal em tempos de "educação intensiva de crianças".
Frank Furendi, um dos participantes, não se mostrou nada surpreendido com as reacções. Desde que, há alguns anos, editou o livro "A Paranóia dos Pais", tem observado como a situação está a piorar. "Não podemos tornar cada criança e cada adulto refém de um worst case scenario", diz ele. "De momento, damos sinais de que os adultos são tão pouco dignos de confiança, que a Polícia tem de vigiar todos. É isso o que as crianças aprendem, o que é uma tragédia muito maior para o país que o rapto de uma criança. Se toda a nação for dominada por esta cultura disfuncional e desorientada, isso terá consequências esmagadoras."
Pode parecer insensível. Mas Furendi acusa uma tendência que se está a desenvolver não apenas nos países anglo-saxónicos. Os pais já não pesam os riscos, nem ponderam entre o que os filhos já são capazes e o que ainda é demasiado arriscado. Consideram desde logo o pior possível que pode acontecer, o worst case, e procuram evitar todos os riscos.
A segurança absoluta não existe. E conduz a cuidados exagerados, que não consentem nada às crianças, que não as deixam nunca longe da vista, não as deixam tornarem-se independentes. Uma mãe inglesa foi no seu próprio carro atrás do autocarro que levava o seu filho para o campo de férias.
A vigilância pode durar até as crianças chegarem à idade adulta. Nos EUA chama-se "helicopter parenting" ao fenómeno de pais que vigiam os filhos até eles entrarem no College. Richard Mullendore, professor de Pedagogia, comenta que o telemóvel se tornou o maior cordão umbilical do mundo. Quem se admira ainda que nos telemóveis das crianças sejam integrados emissores para vigilância. Como afirma uma mãe, estes emissores permitem às crianças tornarem-se de novo livres, porque já não é preciso andarem sempre acompanhadas por um adulto.
É o medo que leva a isto. Um medo que já não é propriamente racional, o medo da morte súbita infantil, da comida pouco saudável, dos parques infantis sem segurança, e até da própria família, já que a maior parte dos casos de abuso ocorrem dentro da família. E é sobretudo o medo do mundo lá fora, dos desconhecidos, ou seja, dos adultos.
Esta desconfiança em relação a todos os adultos leva ao fim da solidariedade social, que até agora permitia que os pais deixassem os seus filhos sair em liberdade, seguros de que outros adultos estariam atentos. Se hoje alguém na IKEA se curvar para uma criança que chora e que talvez se tenha perdido da mãe, corre o risco de ser confrontado com uma mãe fora de si a tentar afastar um possível raptor. Por seu lado, os professores temem que, por consolarem uma criança com um abraço, sejam acusados de pedofilia.
De facto, os casos trágicos como o do desaparecimento da Madeleine continuam a ser tão raros como no passado. Em contrapartida, os cuidados de segurança tomaram proporções obsessivas. As crianças são levadas de carro para todo o lado: para o play date combinado há semanas, para o desporto, para a lição de piano. Na Inglaterra, ainda em 1971, oito em cada dez crianças iam sozinhas para a escola; hoje em dia é apenas uma.
Um relatório do "Children’s Play Council" concluia já nos anos 90 que muitas crianças se tornaram prisioneiras na sua própria casa. Na Alemanha, o raio de acção de crianças da escola primária (ou seja, o círculo no qual se movem livremente) reduziu-se desde os anos 70 de 20 km para 4 km. Cada vez há menos crianças autorizadas a brincar sozinhas fora de casa. Os pedagogos falam de uma "infância tornada ilha", quando as crianças já não têm acesso a jardins abandonados, aterros lamacentos, cabanas e grutas plenas de segredos e aventuras. Agora, sentam-se em frente ao computador. E tornam-se obesas. E solitárias.
A forte ocorrência nos EUA, na Inglaterra e na Austrália deste fenómeno de pais demasiado cuidadosos, já com laivos de histeria, pode talvez ser explicada pela confiança que nesses países se dá à "meritocracia", ou seja, a crença de que qualquer pessoa pode subir na vida a partir unicamente do seu esforço. O que significa, inversamente, que os pais, e só os pais, são responsabilizados se o filho não consegue atingir aquilo que devia: a melhor universidade, o melhor escritório de advogados, o posto mais alto. Os pais apoiam e exigem e vigiam. Tempo para brincar é tempo perdido. Rapidamente se considera desleixada uma família cujas crianças andam na rua.
E a "indústria da segurança infantil", para usar a expressão de Furedi, reforça a insegurança dos pais. Os pedagogos e os profissionais terão transformado cada aspecto da educação num problema. "Tentou-se profissionalizar a vida da família".Porque todos os pais têm primeiro de aprender a ser pais, o Estado acredita que tem a obrigação de ensinar. E esquece que uma das aquisições humanas é a capacidade para aprender com a experiência e os erros. A improvisação já não interessa, tal como o deixar andar e o deixar ir.
Nos EUA, "O Livro Perigoso para Rapazes" faz de momento furor. Mostra como se fazem aviões, se caça coelhos e se lança pedras com uma fisga. Tudo sob vigilância paterna. "Nós costumávamos chamar a isto brincar", resume um pai, "mas hoje dá a sensação de se tratar de deveres."
(SZ de 15.6.2007)
20 junho 2007
ainda o erotismo nas celebrações religiosas
Também fiquei a pensar na "missa erótica" (comentada neste post e neste).
Para pôr as coisas em perspectiva: esta foi apenas uma das milhentas iniciativas da Conferência das Igrejas Evangélicas. Amigos meus, um pastor reformado e a sua esposa, que estiveram lá mas não leram o Spiegel, não sabiam de nada nem deram a menor importância ao caso.
Ao contrário do Lutz, não me incomoda que o pastor Beuscher queira mexer na minha alma - afinal de contas, ele é pago justamente para isso, e é para isso que eu entro numa igreja. Até pode, e deve, lembrar-me o mandamento do Amor. Mas não tem nada que se meter no vias de facto. Ninguém - nem no Burning Man! - me manda mexer no vizinho. E se eu disser que não quero? Fico mal. Criou uma dinâmica de grupo que me violenta.
E depois, fê-lo a seco - o que fica bem demonstrado no ar sisudo dos espectadores. Não será essa a cara que fazemos todos nas salas de concerto ou de espectáculos de dança, quando estamos para assistir e não para participar?
Tivesse sido uma celebração Gospel, e ao fim de 3 horas de sermões empolgantes e cânticos arrebatadores, quase diria excitantes, estava toda a gente num ponto tal que se disporia a abraçar e a ungir toda a congregação. Mas não assim, como ele propôs.
Dos relatos que li sobre o sermão, fiquei sem perceber se se estava a falar de sexo, de erotismo, ou de amor.
O pastor afirmou a igual importância da oração e do sexo, e até referiu uma cena, de uma série televisiva sobre o quotidiano de um pastor, em que este sai a correr da cama conjugal para ir fazer um funeral, acrescentando que os pastores deveriam ter relações sexuais mais frequentemente com as suas esposas para que as suas palavras se tornassem mais vivas, eficazes e penetrantes (era o lema do encontro).
Depois, afirmou que oração e amor vivem ambas do exercício, e mandou distribuir óleo para cada um ungir o vizinho do lado. Sessão prática de amor?! Algumas pessoas na assembleia enfiaram o nariz no livro de cânticos, outras pediram entusiasticamente o óleo.
Digamos que o conselheiro sentimental da Bravo não faria pior.
Adiante.
A minha surpresa perante esta iniciativa revelou a enorme diferença entre as Igrejas Evangélica e Católica, que até agora não tinha tão clara: uma mais cerebral e presa à palavra, outra apelando aos mistérios e aos sentidos.
Imagens a que me habituei sem pensar ganham um novo significado: o incenso e a música; as coreografias no altar; a beleza dos movimentos em vermelho e roxo nas celebrações do Vaticano; a proibição de mastigar a hóstia que afligiu as missas da minha infância (e há casos de psicoses graves em pessoas que o fizeram, Freud teria uma palavra a dizer sobre isto); no Natal, a fila para beijar os pés do menino Jesus e lhe afagar com ternura o bracinho; na Páscoa, os sinos e os caminhos cobertos de flores para passar a Cruz do Redentor, e mais beijos nos pés do Crucificado; o pormenor do gesto elegante e belo de envolver as mãos na estola dourada para levar em procissão o Corpo de Cristo; num altar lateral de uma capelinha no Douro um Cristo coberto de chagas, tão realistas que já quase se vêem as larvas, e as mulheres que se aproximam da cruz, acariciam e beijam as feridas do Senhor com uma devoção de apaixonada. E tanto mais.
Não direi que é o Império dos Sentidos II, mas que é muitíssimo mais que a Palavra crua e nua, lá isso...
E eis que um pastor evangélico oferece uma celebração do erotismo.
É o que vos digo, irmãos: mais mil e quinhentos anos, e chegareis lá. Chegareis cá.
Ou talvez nos encontremos a meio caminho. Talvez em breve.
Mais detalhes sobre a celebração (em alemão), aqui.
Para pôr as coisas em perspectiva: esta foi apenas uma das milhentas iniciativas da Conferência das Igrejas Evangélicas. Amigos meus, um pastor reformado e a sua esposa, que estiveram lá mas não leram o Spiegel, não sabiam de nada nem deram a menor importância ao caso.
Ao contrário do Lutz, não me incomoda que o pastor Beuscher queira mexer na minha alma - afinal de contas, ele é pago justamente para isso, e é para isso que eu entro numa igreja. Até pode, e deve, lembrar-me o mandamento do Amor. Mas não tem nada que se meter no vias de facto. Ninguém - nem no Burning Man! - me manda mexer no vizinho. E se eu disser que não quero? Fico mal. Criou uma dinâmica de grupo que me violenta.
E depois, fê-lo a seco - o que fica bem demonstrado no ar sisudo dos espectadores. Não será essa a cara que fazemos todos nas salas de concerto ou de espectáculos de dança, quando estamos para assistir e não para participar?
Tivesse sido uma celebração Gospel, e ao fim de 3 horas de sermões empolgantes e cânticos arrebatadores, quase diria excitantes, estava toda a gente num ponto tal que se disporia a abraçar e a ungir toda a congregação. Mas não assim, como ele propôs.
Dos relatos que li sobre o sermão, fiquei sem perceber se se estava a falar de sexo, de erotismo, ou de amor.
O pastor afirmou a igual importância da oração e do sexo, e até referiu uma cena, de uma série televisiva sobre o quotidiano de um pastor, em que este sai a correr da cama conjugal para ir fazer um funeral, acrescentando que os pastores deveriam ter relações sexuais mais frequentemente com as suas esposas para que as suas palavras se tornassem mais vivas, eficazes e penetrantes (era o lema do encontro).
Depois, afirmou que oração e amor vivem ambas do exercício, e mandou distribuir óleo para cada um ungir o vizinho do lado. Sessão prática de amor?! Algumas pessoas na assembleia enfiaram o nariz no livro de cânticos, outras pediram entusiasticamente o óleo.
Digamos que o conselheiro sentimental da Bravo não faria pior.
Adiante.
A minha surpresa perante esta iniciativa revelou a enorme diferença entre as Igrejas Evangélica e Católica, que até agora não tinha tão clara: uma mais cerebral e presa à palavra, outra apelando aos mistérios e aos sentidos.
Imagens a que me habituei sem pensar ganham um novo significado: o incenso e a música; as coreografias no altar; a beleza dos movimentos em vermelho e roxo nas celebrações do Vaticano; a proibição de mastigar a hóstia que afligiu as missas da minha infância (e há casos de psicoses graves em pessoas que o fizeram, Freud teria uma palavra a dizer sobre isto); no Natal, a fila para beijar os pés do menino Jesus e lhe afagar com ternura o bracinho; na Páscoa, os sinos e os caminhos cobertos de flores para passar a Cruz do Redentor, e mais beijos nos pés do Crucificado; o pormenor do gesto elegante e belo de envolver as mãos na estola dourada para levar em procissão o Corpo de Cristo; num altar lateral de uma capelinha no Douro um Cristo coberto de chagas, tão realistas que já quase se vêem as larvas, e as mulheres que se aproximam da cruz, acariciam e beijam as feridas do Senhor com uma devoção de apaixonada. E tanto mais.
Não direi que é o Império dos Sentidos II, mas que é muitíssimo mais que a Palavra crua e nua, lá isso...
E eis que um pastor evangélico oferece uma celebração do erotismo.
É o que vos digo, irmãos: mais mil e quinhentos anos, e chegareis lá. Chegareis cá.
Ou talvez nos encontremos a meio caminho. Talvez em breve.
Mais detalhes sobre a celebração (em alemão), aqui.
16 junho 2007
manipulação e censura
Conheci em tempos uma estudante que não gostava do Helmut Kohl (bem, se fosse só uma...). Trabalhava na ZDF e tinha por função passar os filmes que acompanham o noticiário. Ela e os colegas especializaram-se em apresentar os filmes de modo a dar a pior imagem possível dele.
Antes das eleições que levaram Angela Merkel ao poder habituei-me a vê-la na televisão como uma espécie de porquinho anafado.
Só nas férias, ao ver televisão em Portugal, me dei conta de que até parecia uma senhora.
E agora vem o Portugal dos Pequeninos falar da racaille que distorce as imagens dos políticos, a propósito de um noticiário belga em que Sarkozy parece ter saído um bocado tocado de um almoço com Putin.
Pois será, será, mas não foi o jornalista belga que serviu o vodka ou o obrigou a beber.
Antes das eleições que levaram Angela Merkel ao poder habituei-me a vê-la na televisão como uma espécie de porquinho anafado.
Só nas férias, ao ver televisão em Portugal, me dei conta de que até parecia uma senhora.
E agora vem o Portugal dos Pequeninos falar da racaille que distorce as imagens dos políticos, a propósito de um noticiário belga em que Sarkozy parece ter saído um bocado tocado de um almoço com Putin.
Pois será, será, mas não foi o jornalista belga que serviu o vodka ou o obrigou a beber.
13 junho 2007
negligência e culpa
Eu devia ter desconfiado quando o vizinho veio convidar o Matthias para irem apanhar cerejas. Devia-me ter ocorrido que ir apanhar cerejas é uma variação de "vou-te mostrar uns coelhinhos que tenho em casa". Devia ter perguntado porque é que não leva um dos filhos dele. Devia ter investigado que cerejeira é essa onde qualquer um se pode servir. Devia ter-me lembrado que a maior parte dos casos de pedofilia ocorre no círculo da família e dos seus conhecidos - se não é o vizinho da frente, há-de ser o de trás.
Eu devia ter desconfiado, mas não desconfiei. Deixei-o ir na sua bicicleta, com a t-shirt vermelho bordeaux (FC Bayern München Deutscher Meister 2006), os calções azuis, as sandálias claras. Com um cesto rectangular amarrado à bicicleta, para encher de cerejas.
E ainda bem que não desconfiei, porque passou uma tarde formidável empoleirado nas árvores e a saltar de galho em galho, feito primata. E regressou feliz, trouxe o cesto cheio, cheio, a pingar cerejas pelo caminho.
Também não lhe perguntei se o vizinho lhe cometeu pecados contra a castidade. Devia ter perguntado?
Sei lá. Se um dia destes acontecer alguma coisa, vão-me acusar de negligência, e indagar porque é que não desconfiei, porque é que não tomei providências. Previdências.
E nem ouso falar do padre, com quem o meu filho se entende muito bem.
Eu devia ter desconfiado, mas não desconfiei. Deixei-o ir na sua bicicleta, com a t-shirt vermelho bordeaux (FC Bayern München Deutscher Meister 2006), os calções azuis, as sandálias claras. Com um cesto rectangular amarrado à bicicleta, para encher de cerejas.
E ainda bem que não desconfiei, porque passou uma tarde formidável empoleirado nas árvores e a saltar de galho em galho, feito primata. E regressou feliz, trouxe o cesto cheio, cheio, a pingar cerejas pelo caminho.
Também não lhe perguntei se o vizinho lhe cometeu pecados contra a castidade. Devia ter perguntado?
Sei lá. Se um dia destes acontecer alguma coisa, vão-me acusar de negligência, e indagar porque é que não desconfiei, porque é que não tomei providências. Previdências.
E nem ouso falar do padre, com quem o meu filho se entende muito bem.
12 junho 2007
erotismo sobrenatural
A propósito deste post sobre erotismo num serviço religioso evangélico, onde o pastor propôs à assembleia que cada um fizesse massagens ao vizinho do lado, lembrei-me de alguns grupos de entre os primeiros cristãos, que se entregavam a serviços da Fé muito ao gosto do imaginário do Dan Brown. Parece que andamos em círculos.
Depois lembrei-me do Burning Man.
Erotismo com desconhecidos é o que mais há por lá. Segundo me disseram - que isto é tudo sabedoria de ouvido.
Curiosamente, um dos espaços mais concorridos no Burning Man é a sala de oração e meditação, um espaço de sobrenatural sem religiões. Como se as pessoas não quisessem prender-se a uma religião, mas tivessem sede de espiritualidade.
Isto começa a ficar tudo muito baralhado.
Talvez fosse boa ideia fazer a próxima convenção evangélica alemã no deserto do Nevada, em Setembro?
Depois lembrei-me do Burning Man.
Erotismo com desconhecidos é o que mais há por lá. Segundo me disseram - que isto é tudo sabedoria de ouvido.
Curiosamente, um dos espaços mais concorridos no Burning Man é a sala de oração e meditação, um espaço de sobrenatural sem religiões. Como se as pessoas não quisessem prender-se a uma religião, mas tivessem sede de espiritualidade.
Isto começa a ficar tudo muito baralhado.
Talvez fosse boa ideia fazer a próxima convenção evangélica alemã no deserto do Nevada, em Setembro?
10 junho 2007
identidade (2)
Neste dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, quero revelar que me extraviei.
O Presidente discursa amavelmente, "A cultura portuguesa muito deve aos nossos emigrantes. São eles os guardiães da nossa Língua em vários pontos do planeta. São eles que transmitem aos outros povos os valores, as tradições, os saberes que constituem o núcleo essencial da singular identidade portuguesa."
Guardiã da língua?! Nem para mim, quanto mais para os outros.
Mais que fazer casas tipo maison, com fenêtres e tudo, é muito mais complicado: apreender outras culturas com novas palavras põe-nos a pensar e a descrever sentimentos de maneira dificilmente traduzível para português.
Valores, tradições, saberes que constituem o núcleo essencial de singular identidade?! Mas o que é que eu levo de Portugal para o mundo? Quando muito: o bacalhau, o folclore e a capacidade de desenrascar (que nem sempre é vista como qualidade, diga-se de passagem).
À distância, a singular identidade dos portugueses vai-se resumindo a isto: ter a televisão ligada a toda a hora, passar os tempos livres nos centros comerciais.
Acrescido aos choques culturais que vou lendo nos jornais: que o Mourinho alegou a singular identidade para chamar "filho da puta" a um árbitro e escapar ao castigo da Justiça (provavelmente era mais um caso da juíza de Frankfurt) ou as críticas a polícias que fazem almoços de duas horas, regados a álcool (como as compreendo! Por estas bandas, o vinho não dá de comer a um milhão portugueses. É um detalhe, eu sei, mas denota o afastamento.).
Não ando por aí desesperada à procura de portugueses. Quase os evito, por reacção antecipada a um gregarismo que já não faz sentido para mim. Seria capaz de falar durante horas sobre o meu país, mas calculo que outro português (residente na Alemanha ou noutro país qualquer, inclusivamente Portugal) dissesse diferente e até contrário.
Nunca soube bem o que é ser português, ou porque é que as comunidades portuguesas me deveriam ser mais simpáticas que as outras.
Em Portugal sou a alemã, na Alemanha sou a portuguesa. Pior é quando me chamam estrangeira. Ou me pedem para organizar festas para estrangeiros. Isso é lá denominador comum que se apresente?
Se é para aderir a uma identidade, quero dizer-me Europeia. Embora também seja difícil de definir.
Ou talvez por isso mesmo: a identidade europeia é um projecto para o futuro, enquanto que qualquer outra identidade nacional anda conturbada de passado e preconceitos.
Por outro lado, penso nos portugueses hoje estendidos na praia como lagartos ao sol e encho-me de saudades do marulhar das ondas e das anedotas. Extraviei-me, é certo, mas parece que o sangue ainda é português. E hoje pede praia.
Viva então o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!
***
Alguém é capaz de explicar como é que Camões conseguiu salvar o manuscrito do naufrágio? Como é que nadou com uma mão só, como é que a tinta não se esborratou toda? Ando há mais de 35 anos com esta dúvida existencial.
O Presidente discursa amavelmente, "A cultura portuguesa muito deve aos nossos emigrantes. São eles os guardiães da nossa Língua em vários pontos do planeta. São eles que transmitem aos outros povos os valores, as tradições, os saberes que constituem o núcleo essencial da singular identidade portuguesa."
Guardiã da língua?! Nem para mim, quanto mais para os outros.
Mais que fazer casas tipo maison, com fenêtres e tudo, é muito mais complicado: apreender outras culturas com novas palavras põe-nos a pensar e a descrever sentimentos de maneira dificilmente traduzível para português.
Valores, tradições, saberes que constituem o núcleo essencial de singular identidade?! Mas o que é que eu levo de Portugal para o mundo? Quando muito: o bacalhau, o folclore e a capacidade de desenrascar (que nem sempre é vista como qualidade, diga-se de passagem).
À distância, a singular identidade dos portugueses vai-se resumindo a isto: ter a televisão ligada a toda a hora, passar os tempos livres nos centros comerciais.
Acrescido aos choques culturais que vou lendo nos jornais: que o Mourinho alegou a singular identidade para chamar "filho da puta" a um árbitro e escapar ao castigo da Justiça (provavelmente era mais um caso da juíza de Frankfurt) ou as críticas a polícias que fazem almoços de duas horas, regados a álcool (como as compreendo! Por estas bandas, o vinho não dá de comer a um milhão portugueses. É um detalhe, eu sei, mas denota o afastamento.).
Não ando por aí desesperada à procura de portugueses. Quase os evito, por reacção antecipada a um gregarismo que já não faz sentido para mim. Seria capaz de falar durante horas sobre o meu país, mas calculo que outro português (residente na Alemanha ou noutro país qualquer, inclusivamente Portugal) dissesse diferente e até contrário.
Nunca soube bem o que é ser português, ou porque é que as comunidades portuguesas me deveriam ser mais simpáticas que as outras.
Em Portugal sou a alemã, na Alemanha sou a portuguesa. Pior é quando me chamam estrangeira. Ou me pedem para organizar festas para estrangeiros. Isso é lá denominador comum que se apresente?
Se é para aderir a uma identidade, quero dizer-me Europeia. Embora também seja difícil de definir.
Ou talvez por isso mesmo: a identidade europeia é um projecto para o futuro, enquanto que qualquer outra identidade nacional anda conturbada de passado e preconceitos.
Por outro lado, penso nos portugueses hoje estendidos na praia como lagartos ao sol e encho-me de saudades do marulhar das ondas e das anedotas. Extraviei-me, é certo, mas parece que o sangue ainda é português. E hoje pede praia.
Viva então o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!
***
Alguém é capaz de explicar como é que Camões conseguiu salvar o manuscrito do naufrágio? Como é que nadou com uma mão só, como é que a tinta não se esborratou toda? Ando há mais de 35 anos com esta dúvida existencial.
09 junho 2007
algumas razões de somenos importância para continuar a viver na Alemanha
Recebi uma carta das Finanças a exigir o envio até 12 de junho de uma lista dos juros recebidos em 2005.
Juros? Que juros? Por sorte, quem trata disso é o Joachim. Por azar, está a fazer investigação na UCSF e só volta na próxima semana.
Telefonei para o número de telefone que vinha na carta, atendeu-me imediatamente a pessoa com quem eu queria falar. Expliquei-lhe que o meu marido está ausente, e na semana em que regressa vai estar demasiado ocupado a organizar um congresso, pelo que não pode tratar dessa lista. "Então fica combinado e vou anotar aqui que ele a enviará até ao fim deste mês", foi a resposta.
Aproveitei já estar ao telefone para perguntar em que pé está o subsídio à compra de habitação própria, e ela passou-me para a colega. Dois assuntos resolvidos ao telefone, em três minutos.
***
Um amigo nosso morreu, deixando uma enorme dívida às Finanças. O irmão foi falar com o funcionário das Finanças, explicou o problema, a morte repentina, os pais idosos em estado de choque e sem meios para pagar a dívida.
O funcionário decidiu ali mesmo que a licença do táxi seria vendida para pagar parte das dívidas, e o restante seria ignorado, porque não fazia sentido atormentar os pais com questões dessas.
***
Roubaram-me a carteira alguns dias antes de começarem as férias em Portugal. Fui aos serviços camarários pedir uma carta de condução nova justamente no dia em que esses serviços não atendem o público. Expliquei a urgência, e a senhora na recepção enviou-me à colega das cartas de condução, que me recebeu imediatamente, telefonou para a colega de Karlsruhe a confirmar os meus dados, e me deu uma guia. Sem ser preciso pagar taxa de urgência nem nada.
***
Para ser justa, será necessário acrescentar que no rent-a-car do aeroporto do Porto um funcionário me aceitou a guia e me deixou sair com o carro, apesar de eu não ter carta de condução válida.
E para ser justa outra vez, devo referir que a Polícia alemã não funciona, nem por sombras, tão bem como as Finanças.
Basta dizer que se sabia perfeitamente quem me tinha roubado a carteira e muitas outras coisas, mas precisaram de mais de um mês para lhe irem fazer uma busca domiciliária. Sem esquecer que, quando participei o roubo, me perguntaram quanto tempo tencionava viver em Weimar...
Juros? Que juros? Por sorte, quem trata disso é o Joachim. Por azar, está a fazer investigação na UCSF e só volta na próxima semana.
Telefonei para o número de telefone que vinha na carta, atendeu-me imediatamente a pessoa com quem eu queria falar. Expliquei-lhe que o meu marido está ausente, e na semana em que regressa vai estar demasiado ocupado a organizar um congresso, pelo que não pode tratar dessa lista. "Então fica combinado e vou anotar aqui que ele a enviará até ao fim deste mês", foi a resposta.
Aproveitei já estar ao telefone para perguntar em que pé está o subsídio à compra de habitação própria, e ela passou-me para a colega. Dois assuntos resolvidos ao telefone, em três minutos.
***
Um amigo nosso morreu, deixando uma enorme dívida às Finanças. O irmão foi falar com o funcionário das Finanças, explicou o problema, a morte repentina, os pais idosos em estado de choque e sem meios para pagar a dívida.
O funcionário decidiu ali mesmo que a licença do táxi seria vendida para pagar parte das dívidas, e o restante seria ignorado, porque não fazia sentido atormentar os pais com questões dessas.
***
Roubaram-me a carteira alguns dias antes de começarem as férias em Portugal. Fui aos serviços camarários pedir uma carta de condução nova justamente no dia em que esses serviços não atendem o público. Expliquei a urgência, e a senhora na recepção enviou-me à colega das cartas de condução, que me recebeu imediatamente, telefonou para a colega de Karlsruhe a confirmar os meus dados, e me deu uma guia. Sem ser preciso pagar taxa de urgência nem nada.
***
Para ser justa, será necessário acrescentar que no rent-a-car do aeroporto do Porto um funcionário me aceitou a guia e me deixou sair com o carro, apesar de eu não ter carta de condução válida.
E para ser justa outra vez, devo referir que a Polícia alemã não funciona, nem por sombras, tão bem como as Finanças.
Basta dizer que se sabia perfeitamente quem me tinha roubado a carteira e muitas outras coisas, mas precisaram de mais de um mês para lhe irem fazer uma busca domiciliária. Sem esquecer que, quando participei o roubo, me perguntaram quanto tempo tencionava viver em Weimar...
08 junho 2007
desta, nem o Gato Fedorento se lembrava
O homem acusado de homicídio de três adolescentes, a contar sobre um encontro com uma delas:
"tivemos relações sexuais, e eu depois dei-lhe alguns conselhos, para ela deixar de andar naquela vida"
Vou passar a ver mais vezes a RTPi.
"tivemos relações sexuais, e eu depois dei-lhe alguns conselhos, para ela deixar de andar naquela vida"
Vou passar a ver mais vezes a RTPi.
05 junho 2007
ratos e homens
Susana, se tivesses caixa de comentários, eu perguntava lá, mas como não tens, cá vai a pergunta que não quer calar: e como é que matas a mosca na testa do amado adormecido?
O meu marido odeia quando começo às voltas pelo quarto a dar palmadas com revistas.
Às vezes também faço contas ao sofrimento dos bichos de que nos servimos.
Sinto-me mais em paz com a minha consciência se compro carne de bichos felizes, peixe de viveiros ecológicos.
(Só é pena o preço ser pelo menos o triplo do das proteínas infelizes)
Tenho alguma vergonha do modo imperialista como eliminamos os insectos, da chacina no parabrisas do carro, ou até da curiosidade das crianças com lupas. Pobres joaninhas.
Incomoda-me muito a morte lenta dos peixes na lota.
Pior: que dizer do veneno dos ratos? Li uma vez a descrição do funcionamento, deve ser uma morte horrível. E contudo, não me dá jeito arranjar um par de cobras rateiras para resolver o problema de modo mais natural.
Também me pesa a consciência perante as ostras engolidas vivas, ou os camarões mortos às centenas para fazer uma arrozada. E é para não falar nas sapateiras que se recusam a entrar na panela.
Caviar? Calateboca.
Mas - vá lá, vá lá... - repudio as cuisses de grenouilles. Já os escargots...
Chego a concluir que mais vale matar uma baleia: para alimentar muitas centenas de pessoas, só morre um ser vivo.
Entre o que penso e o que faço, vai aquela ponte da anedota do homem que queria compreender as mulheres.
***
E porque vem mais ou menos a propósito: nos EUA é muito difícil fazer experiências com seres humanos; na Alemanha, é muito difícil fazer experiências com animais. Dessas dificuldades vivem muitos dos acordos de cooperação científica.
Of mice and men. Um membro de uma comissão de Ética, de visita a um laboratório de investigação dos EUA, ia começar a tecer algumas considerações sobre o modo como os ratos de laboratório eram tratados, quando um dos investigadores lhe cortou secamente a palavra: "e é assim que o senhor trata os ratos que se instalam na sua cave?"
De modo que parece que não é hoje que vamos conseguir resolver satisfatoriamente esse fosso entre o que somos e o que gostaríamos de ser quando formos grandes. Quando soubermos o que é ser grande.
O meu marido odeia quando começo às voltas pelo quarto a dar palmadas com revistas.
Às vezes também faço contas ao sofrimento dos bichos de que nos servimos.
Sinto-me mais em paz com a minha consciência se compro carne de bichos felizes, peixe de viveiros ecológicos.
(Só é pena o preço ser pelo menos o triplo do das proteínas infelizes)
Tenho alguma vergonha do modo imperialista como eliminamos os insectos, da chacina no parabrisas do carro, ou até da curiosidade das crianças com lupas. Pobres joaninhas.
Incomoda-me muito a morte lenta dos peixes na lota.
Pior: que dizer do veneno dos ratos? Li uma vez a descrição do funcionamento, deve ser uma morte horrível. E contudo, não me dá jeito arranjar um par de cobras rateiras para resolver o problema de modo mais natural.
Também me pesa a consciência perante as ostras engolidas vivas, ou os camarões mortos às centenas para fazer uma arrozada. E é para não falar nas sapateiras que se recusam a entrar na panela.
Caviar? Calateboca.
Mas - vá lá, vá lá... - repudio as cuisses de grenouilles. Já os escargots...
Chego a concluir que mais vale matar uma baleia: para alimentar muitas centenas de pessoas, só morre um ser vivo.
Entre o que penso e o que faço, vai aquela ponte da anedota do homem que queria compreender as mulheres.
***
E porque vem mais ou menos a propósito: nos EUA é muito difícil fazer experiências com seres humanos; na Alemanha, é muito difícil fazer experiências com animais. Dessas dificuldades vivem muitos dos acordos de cooperação científica.
Of mice and men. Um membro de uma comissão de Ética, de visita a um laboratório de investigação dos EUA, ia começar a tecer algumas considerações sobre o modo como os ratos de laboratório eram tratados, quando um dos investigadores lhe cortou secamente a palavra: "e é assim que o senhor trata os ratos que se instalam na sua cave?"
De modo que parece que não é hoje que vamos conseguir resolver satisfatoriamente esse fosso entre o que somos e o que gostaríamos de ser quando formos grandes. Quando soubermos o que é ser grande.
Identidade
A propósito de um comentário do Lutz sobre a sua condição de alemão em Portugal, lembrei-me de um filme que Fernando Meirelles fez para uma campanha publicitária do Banco do Brasil, sobre o tema "Identidade".
Quem me ensina estas coisas todas é a Laura (vale a pena ir lá ver agora, por exemplo, o que é que os Gêmeos estão a fazer na Escócia).
Infelizmente o link da Laura já não funciona.
Felizmente o you tube é um sítio aceitável para pescar à linha.
E aqui vai o filme:
Quem me ensina estas coisas todas é a Laura (vale a pena ir lá ver agora, por exemplo, o que é que os Gêmeos estão a fazer na Escócia).
Infelizmente o link da Laura já não funciona.
Felizmente o you tube é um sítio aceitável para pescar à linha.
E aqui vai o filme:
04 junho 2007
e se lhe pedissem...
E se lhe pedissem para levar uma pessoa à sessão de quimioterapia no médico da cidade vizinha,
e se lhe dissessem que essa pessoa tem frequentes ataques de vómito,
e se lhe recomendassem muito cuidado, porque a pessoa sofre de SIDA,
o que é que você fazia?
Eu olhei de relance para os meus camelos, vi que os malditos estão cada vez mais gordos, e fui.
Correu tudo muito melhor do que pensei. Não houve vómitos, a conversa foi animada, e recebi um convite para ir conhecer o país dela.
Mas da próxima vez que alguma amiga minha, assistente social, fizer anos, em vez de lhe oferecer cupons com 10 horas do meu tempo, ofereço-lhe uma jarrinha de cristal...
(Ó pra eles, gordos como chicos)
***
A propósito dos camelos: amigos meus, agnósticos ou algo do género, obrigam os filhos a frequentar as aulas de religião evangélica em vez das de ética. Por uma questão de cultura geral, dizem eles. Para os miúdos poderem entender muitas das obras da arte e da literatura europeias, e até alguns provérbios.
E eu que andava a pensar trocar as aulas de religião católica pelas de ética: é onde se fala de filosofia.
O Matthias pediu-me hoje ajuda para corrigir um teste de religião (do 5ª ano de escolaridade - ou como será que isso se chama agora em Portugal?). Precisava de saber o nome e as datas aproximadas de seis personagens importantes da Bíblia entre Abraão e José.
Ai.
e se lhe dissessem que essa pessoa tem frequentes ataques de vómito,
e se lhe recomendassem muito cuidado, porque a pessoa sofre de SIDA,
o que é que você fazia?
Eu olhei de relance para os meus camelos, vi que os malditos estão cada vez mais gordos, e fui.
Correu tudo muito melhor do que pensei. Não houve vómitos, a conversa foi animada, e recebi um convite para ir conhecer o país dela.
Mas da próxima vez que alguma amiga minha, assistente social, fizer anos, em vez de lhe oferecer cupons com 10 horas do meu tempo, ofereço-lhe uma jarrinha de cristal...
(Ó pra eles, gordos como chicos)
***
A propósito dos camelos: amigos meus, agnósticos ou algo do género, obrigam os filhos a frequentar as aulas de religião evangélica em vez das de ética. Por uma questão de cultura geral, dizem eles. Para os miúdos poderem entender muitas das obras da arte e da literatura europeias, e até alguns provérbios.
E eu que andava a pensar trocar as aulas de religião católica pelas de ética: é onde se fala de filosofia.
O Matthias pediu-me hoje ajuda para corrigir um teste de religião (do 5ª ano de escolaridade - ou como será que isso se chama agora em Portugal?). Precisava de saber o nome e as datas aproximadas de seis personagens importantes da Bíblia entre Abraão e José.
Ai.
03 junho 2007
post preguiçoso
1. Roubado num comentário do Quase em Português:
2. Li algures que há um site de receitas novo na internet. Bem, sites de receitas é o que mais há na internet, mas este é especial: a gente escreve o que tem no frigorífico, e ele dá a receita para esses ingredientes.
Azares da vida: não me lembro do nome do site e, pior ainda, nem me lembro em que língua é!
Quando me passar este ataque de Alzheimer, conto. E com sorte até dou o endereço do Pantagruel internético.
3. Fui de novo ultrapassada pela minha vida real. Nada de especial, só férias nas outras Länder e os amigos a aproveitarem quase todos para virem conhecer Weimar. Mais o aniversário, 13 anos, da filha.
(alguém por favor pergunte depressa se casei aos 15)
É difícil voltar ao blog depois de ter caído na real.
4. Que se faz para entreter um rancho de foliões de 13 anos? Repescam-se os jogos da infância em Portugal: a corda de 10 metros para saltar (salta 1 e sai!, salta 2 e sai!, salta 3 e sai!, ...) e a "bandeirinha" (que eu jogava na rua com os filhos dos vizinhos, no tempo em que era facílimo encontrar 20 miúdos para brincar) foram um sucesso. Perguntei na escola se querem que empreste a corda para os miúdos se mexerem um bocado nos intervalos, em vez de se sentarem pelos cantos a implicar uns com os outros, e responderam-me que é demasiado perigoso.
Mais vale instalarem umas camas nas salas de aulas, para os alunos se meterem debaixo e assistirem, assim seguros, à vida.
2. Li algures que há um site de receitas novo na internet. Bem, sites de receitas é o que mais há na internet, mas este é especial: a gente escreve o que tem no frigorífico, e ele dá a receita para esses ingredientes.
Azares da vida: não me lembro do nome do site e, pior ainda, nem me lembro em que língua é!
Quando me passar este ataque de Alzheimer, conto. E com sorte até dou o endereço do Pantagruel internético.
3. Fui de novo ultrapassada pela minha vida real. Nada de especial, só férias nas outras Länder e os amigos a aproveitarem quase todos para virem conhecer Weimar. Mais o aniversário, 13 anos, da filha.
(alguém por favor pergunte depressa se casei aos 15)
É difícil voltar ao blog depois de ter caído na real.
4. Que se faz para entreter um rancho de foliões de 13 anos? Repescam-se os jogos da infância em Portugal: a corda de 10 metros para saltar (salta 1 e sai!, salta 2 e sai!, salta 3 e sai!, ...) e a "bandeirinha" (que eu jogava na rua com os filhos dos vizinhos, no tempo em que era facílimo encontrar 20 miúdos para brincar) foram um sucesso. Perguntei na escola se querem que empreste a corda para os miúdos se mexerem um bocado nos intervalos, em vez de se sentarem pelos cantos a implicar uns com os outros, e responderam-me que é demasiado perigoso.
Mais vale instalarem umas camas nas salas de aulas, para os alunos se meterem debaixo e assistirem, assim seguros, à vida.
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