28 maio 2007

só boas notícias

Nunca mais me digam mal do jornalismo português!
Por conta dele fiquei a saber que:
- uma das minhas bandas desenhadas favoritas, Persepolis, já foi editada em Portugal
- a longa metragem animada, baseada no livro, foi agora apresentada em Cannes

(e seu eu percebo alguma coisa da lógica de Hollywood, suspeito que se arrisca a ganhar o Oscar para melhor filme de animação)

***

Quer dizer, há jornalismo e jornalismo...
O Correio da Manhã, por exemplo: será por acção de uma superior ordem cósmica que na internet aparece com o nome de Correio da Manha?

25 maio 2007

„Łejery”

Andava eu cá a pensar com os meus botões se digo ou não digo, que talvez interesse mas provavelmente não, e que o pretexto da pedagogia não esconde a baba maternal, e quase ia contando que na turma da Christina (alunos de 12 e 13 anos) andam a aprender de cor baladas de Schiller e Goethe (como esta ou esta), e que a nota incide não apenas sobre a memorização mas especialmente sobre a interpretação, e que é fundamental - têm falado muito disso, ultimamente - as crianças fazerem exercícios de memória (mas já não me lembro porquê), e ia acrescentar disfarçadamente que gostei de ajudar a Christina a desbastar um Schiller, e que ela teve uma boa nota (hmm hmm e tosse seca para disfarçar), e provavelmente aproveitaria para contar que descobri que ainda me lembro do Operário em Construção quase todo, mas acho que agora o declamo menos mal do que quando tinha 13 anos, e que a emoção nas partes "como era de esperar, as bocas da delação..." e "não podes dar-me o que é meu" continua igual, e ia falar de como a capacidade de memorização é um recurso tão mal explorado e...

...e eis que a realidade me ultrapassa pela direita: os miúdos de Poznan estiveram cá esta semana, e apresentaram Alice no País das Maravilhas em versão musical, com as músicas em polaco, mas os diálogos todos em alemão.
Note-se que são crianças de 9 anos, que interpretaram com imensa qualidade uma peça de 45 minutos numa língua desconhecida.
Passaram três meses a decorar o texto sílaba a sílaba, e tinham-no de tal modo controlado que conseguiam representar a peça com toda a naturalidade.

Desta vez não levei máquina fotográfica. As fotos são de um espectáculo semelhante, em 2005, "As Férias do Dragão Bonaventura". Um doce para quem descobrir quais são os animais representados na segunda fotografia.






A escola resultou de uma iniciativa de professores e pais para criar uma alternativa de ensino primário e secundário que desse especial atenção às artes. Chama-se „Łejery”, que é uma interjeição tipo "aiaiai" (em alemão: oje oje).

O problema de traduzir interjeições é que em Portugal ou se descamba para um lado ou para outro:
podemos optar entre ai meu Deus, ai Jesus, ai a minha rica Santíssima Trindade e mais todos os santos, ou até ai os santos todos um por um, de um lado, ou o seu oposto, ai o cará..., e é para não traduzir mais.
"Aiaiai", por seu turno, não é mais que a média ponderada do estado laico com o politicamente correcto.
Uma porcaria de tradução, a bem dizer.
E contudo... "ando na escola secundária valhamedeus" não é frase que se apresente.
Talvez então: Escola "Ai!"
(que diria o Ministério da Educação se tivesse uma escola que desse pelo nome de "Ai!"? Provavelmente alguém comentaria: "se fosse só uma...")
São uns brincalhões, estes polacos.

Lembrei Poznan com saudades - os edifícios antigos tão bem recuperados, a beleza dos seus cafés e a elegância do serviço. Haverá mais algum país onde sirvam um belíssimo prato de gelado decorado com pétalas de rosa, por menos de 2 euros?
Disseram-me que devia ir a Varsóvia, muito melhor que Poznan. Melhor ainda, será possível?
Para que conste: o lado de cá da cortina de ferro está cheio de boas surpresas.



PS. E mais uma foto, para contar que em Weimar há um lar de terceira idade para actores e músicos. Um lugar animado como dificilmente se imaginaria. A Fundação responsável (Marie-Seebach-Stiftung) participa a nível político para defender os interesses dos idosos, organiza cursos para a terceira idade, e dispõe de uma sala com capacidade para 200 pessoas, onde várias vezes por semana decorrem espectáculos variados. Ora são os próprios habitantes do lar que se oferecem recitais e concertos, ora são os seus visitantes - artistas famosos - que fazem a festa, ora são convidados que vêm mostrar o que valem. Como as crianças de Poznan. Ou estas da fotografia, da orquestra de cordas de uma escola primária de Weimar.
(para ver melhor, carregar sobre as fotografias)

23 maio 2007

de cara lavada

Já não era sem tempo...
Quase todos os blogosféricos fizeram esta sofisticada operação de limpeza.
O 2 Dedos de Conversa continuava preguiçosamente a comer cerejas.
Hoje foi dia de limpeza, reciclagem e arrumações.
Aceitam-se reclamações.
Quanto a serem resolvidas a contento do/a reclamante...

18 maio 2007

de viagens e metamorfoses

Estou quase a sair para Portugal, para ir ao casamento do meu irmão
mais novo. Fim-se-semana apenas, de sábado a segunda de madrugada (maldita Ryan Air - é a última vez que me vêem por lá).

Perguntei ao meu irmão se queria que nós fizéssemos uma gracinha à maneira dos casamentos alemães, tipo uma peça de teatro curta e *realmente* engraçada
(para os iniciados: a Cinderela em versão minimalista)
e ele começou a contorcer-se, que nem pensar, que quer um casamento normal e sem teatros, que para teatros já lhe chega o antes e o depois, e eu a insistir, mas tens a certeza? olha que é muito engraçado!, e ele a recusar, já nervoso,
e zimbas: passaram 25 anos desde que ele tinha 10 anos e eu 17 e tentava
impor-lhe a minha vontade,
passaram 25 anos e eu não me tinha apercebido.

Estou a digitalizar as fotos da nossa família para lhe dar no dia do casamento. São tantas, que ainda me vai acontecer de chegar atrasada à igreja...

É esquisito passar assim a vida em revista. O que éramos e já não somos, as constelações, o que permaneceu, o que evoluiu...
Se tivesse tempo, vinha a calhar ler agora algumas das crónicas do António Lobo Antunes.

17 maio 2007

Dia dos Homens

Hoje é Dia do Pai na Alemanha. Na antiga RDA era o Dia dos Homens - dos homens mesmo, não da humanidade. Sempre que falam disso, riem-se e põem ar de isto é só para iniciados. Suspeito que aproveitassem o dia para ir fazer passeios pelos montes e florestas muito bem regados a cerveja.
Mas não sei mais que isto.

Ora então, aqui vai um presentinho para os homens - que também serve para calar a Elisabeth Badinter que andou por a espalhar que não há grandes diferenças entre os uns e as outras.



(clicar sobre a foto para encontrar as dez diferenças)

16 maio 2007

porque é que o Huckleberry Finn não se tornou viciado?

O debate que tem corrido por sobre educar com segurança lembrou-me um livro que foi um best-seller por estas bandas, e que tem como título:

Porque é que o Huckleberry Finn não se tornou viciado?
- provocação contra vícios e auto-destruição em crianças e adolescentes


(Warum Huckleberry Finn nicht süchtig wurde - Anstiftung gegen Sucht und Selbstzerstörung bei Kindern und Jugendlichen).

Escrito por Eckhard Schiffer, médico especializado em psiquiatria, neurologia e psicoterapia, com um curso suplementar de filosofia com ênfase em estética filosófica. (Se não fosse casado, até desconfiava que seria jesuíta.)

O médico distingue entre os comportamentos de prevenção da doença e os de promoção da saúde, fazendo, obviamente, a apologia dos segundos. Neste livro, em que tenta identificar atitudes educativas que podem conduzir ao empobrecimento psíquico e afectivo da criança e a um consequente risco de dependência, contrapõe às condições em que Huckleberry Finn cresceu aquilo que hoje é considerado normal na educação das crianças.

A provocação sintetiza-se assim: Huckleberry Finn não caiu no vício porque durante a sua infância teve o tempo e a oportunidade de realizar os seus sonhos.

O autor reclama para as crianças e os adolescentes espaços de liberdade sem normas doentias, regras e pressão para se adaptarem. Quer dar-lhes espaços onde as forças da fantasia e do espírito se possam desenvolver.
No fundo, defende os quintais selvagens das traseiras, em detrimento dos relvados imaculados com o seu letreiro "proibido pisar a relva".
As crianças precisam de espaços onde possam mover-se à vontade, correr, tropeçar e gritar, em vez de quartos minúsculos e ruas cheias de carros.
Aos adultos é pedido que deixem de decidir sobre as crianças e os adolescentes, deixando-os participar na tomada de decisão e aprendendo com eles a desobedecer.

Desobedecer?! Desobedecer?!
Estou mesmo a ver os Grilos Falantes da brigada abaixo-os-pais-negligentes a protestar "agora é que ela se passou de vez!"

E contudo... das duas vezes que eu ia sendo vítima de pedofilia, foi a desobediência que me salvou.
Diga-se de passagem: nos dois casos aconteceu no meu habitat conhecido e protegido.
Da primeira vez, aos oito anos, o pai de umas amigas encaminhou-me para a casa de banho onde elas pretensamente estavam escondidas à minha espera, apagou a luz e exigiu que lhe desse beijinhos. "Não dou, deixa-me sair daqui!" - e escapei com um beijo na face, que ainda hoje me enoja.
Da segunda, aos onze anos, o empregado do café do nosso prédio meteu-me numa despensa e queria que eu tirasse as cuecas. As coisas acontecem tão depressa! Apesar do medo, gritei-lhe "Nem pense, e abra já essa porta!" - e ele abriu.
Era o gajo que todos os dias conversava amenamente com o meu pai sobre política e futebol - como é que os meus pais poderiam sonhar que ele lhes queria violar a filha?

(Quando conto estes episódios aos meus filhos - para lhes mostrar que eles não são obrigados a obedecer e que se estas coisas acontecerem a culpa não é deles, mas da doença dos adultos - eles perguntam, todos empolgados "tens mais histórias dessas? conta, conta!" ...e eu imagino o Bruno Betelheim a sorrir.)

Na Alemanha, ensina-se às crianças que são donas do seu corpo. Se não gostam, não são obrigadas a dar ou a aceitar beijinhos - nem sequer da avó, ou das amigas da mãe.
Em Portugal, é normal tocar e apalpar as crianças: "ai que carninha rija!", "ai que lindos caracóis!", "dá-me um beijinho, rico, dá-me um beijinho senão fico triste". O adulto nem se dá conta que transforma a criança em objecto, e que a desprove de vontade. O curioso é que muitas vezes esta violentação da criança ocorre sob o olhar complacente e com a conivência de pais que se gabam de proteger muito bem os seus filhos contra os pedófilos.

Voltando à questão da segurança e da liberdade: o problema é que os pais nunca sabem qual é a justa medida. Como combinar os horários apertados com o direito das crianças a esquecer o resto do mundo e a entregar-se à importantíssima tarefa de brincar? Como decidir entre deixá-los sozinhos, ou roubar-lhes o tempo lúdico em nome da sua segurança?
E se a outra face da medalha da sobreprotecção fosse graves distúrbios psicológicos nas crianças?

E que tal mudarmos um pouco a perspectiva, e começarmos a falar sobre o sofrimento das crianças cujos pais põem a segurança acima de tudo?

15 maio 2007

o Papa e a Pomba

A pretexto da visita do Papa Bento XVI ao Brasil, Leonardo Boff escreveu este texto sobre a guerra no seio da igreja católica. Gosto especialmente da parte final, quando ele apela à confiança no Espírito Santo. Gosto, mas também compreendo a dificuldade: pois se uns defendem que o seguro morreu de velho, e se outros suspeitam que o Espírito Santo esteve ausente da eleição do novo Papa...
Como distinguir a confiança da cegueira e da alienação?
Como conseguir o diálogo e o respeito entre sensibilidades tão diferentes?

Quanto mais procuro uma lógica e um sentido, mais me parece que Deus criou o mundo numa tarde de domingo com chuva. Precisava de inventar algo que o entretesse para toda a Eternidade, e conseguiu. Cá vamos avançando pelas perguntas, sem encontrar nunca respostas definitivas. Valha-nos a humildade.

(tirado daqui)


LEONARDO BOFF
ESPECIAL PARA A FOLHA

AS GUERRAS não existem apenas no mundo. Dentro da igreja há também uma guerra de baixa intensidade. Ela faz muitas vítimas, com os instrumentos adequados da guerra religiosa, escondidos sob palavras, não raro, piedosas e espirituais. Só para dar um exemplo pessoal: quando fui condenado pelo então cardeal Joseph Ratzinger em 1985 por causa do meu livro "Igreja: carisma e poder", foi-me imposto o que ele denominou de "silêncio obsequioso".
Esse eufemismo implicava muita violência: deposição de cátedra, remoção de editor religioso da Vozes, da redação da "Revista Eclesiástica Brasileira", proibição severa de falar, dar entrevistas, escrever e publicar sobre qualquer assunto.

Objetivamente "obsequioso" não possui nada de obsequioso.

O mesmo ocorreu com o teólogo da libertação Jon Sobrino, de El Salvador, condenado em fevereiro deste ano. Recebeu apenas uma "notificação". Esta inocente palavra, "notificatio", esconde violência porque ele não pode mais falar, nem dar aulas, conceder entrevistas e acompanhar qualquer trabalho pastoral. O vitimado por uma condenação é "moralmente" morto, pois vem colocado sob suspeita geral, tolhido, isolado e psicologicamente submetido a graves transtornos, o que levou a alguns a terem neuroses e a um deles, famoso, perseguido por idéias de suicídio.

Nós fomos, no mínimo, caçados e anulados, pois um teólogo possui apenas como instrumento de trabalho a palavra escrita e falada. E estas lhe foram seqüestradas, coisa que conhecemos das ditaduras militares.

O que foi escrito acima parece irrelevante, pois é algo pessoal, mas não deixa de ser ilustrativo da guerra religiosa vigente dentro da Igreja. Nela o então cardeal Ratzinger era general. Hoje como papa é o comandante em chefe. Qual é este embate? É importante referi-lo para entender palavras e advertências do papa e a partir de que modelo de teologia e de Igreja constrói o seu discurso.

Dito de uma forma simplificadora, mas real: há na igreja duas opções claramente opostas, o que não impede que, na prática, possam se entrelaçar. Face ao mundo, à cultura e à sociedade há a atitude de confronto ou de diálogo.

A partir da Reforma no século 16 predominou na Igreja Católica romana a atitude de confronto: primeiro com as Igrejas protestantes (evangélicas) e depois com a modernidade.
Face à Reforma houve excomunhões, e face à modernidade, anátemas e condenações de coisas que nos parecem até risíveis: contra a ciência, a democracia, os direitos humanos, a industrialização. A Igreja se havia transformado numa fortaleza contra as vagas de reformismo, secularismo, modernismo e relativismo. Missão da igreja, segundo esse modelo do confronto, é testemunhar as verdades eternas, anunciar a Cristo como o único Redentor da humanidade e a Igreja sua única e exclusiva mediadora, fora da qual não há salvação.

Em seu documento de 2000, Dominus Jesus, o cardeal Ratzinger reafirma tal visão com a máxima clareza e laivos de fundamentalismo. Tudo é centralizado no Cristo. Esta atitude belicosa predominou até os anos 60 do século passado quando foi eleito um papa ancião, quase desconhecido, mas cheio de coração e bom senso, João 23. Seu propósito era passar do anátema ao diálogo. Quis escancarar as portas e janelas da Igreja para arejá-la. Considerava blasfêmia contra o Espírito Santo imaginar que os modernos só pensam erros e praticam o mal.
Há bondade no mundo, como há maldade na Igreja. Importa é dialogar, intercambiar e aprender um do outro. A Igreja que evangeliza deve ela mesma ser evangelizada por tudo aquilo que de bom, honesto, verdadeiro e sagrado puder ser identificado na história humana.
Deus mesmo chega sempre antes do missionário, pois o Espírito Criador sopra onde quiser e está sempre presente nas buscas humanas suscitando bondade, justiça, compaixão e amor em todos. A figura do Espírito ganha centralidade.
Fruto da opção pelo diálogo foi o Concílio Vaticano 2º (1962-1965), que representou um acerto de contas com a Reforma pelo ecumenismo e com a modernidade pelo mútuo reconhecimento e pela colaboração em vista de algo maior que a própria Igreja, uma humanidade mais dignificada e uma Terra mais cuidada.
Este "aggiornamento" trouxe grande vitalidade em toda a Igreja, especialmente na América Latina, que criou espaço para aquilo que se chamou de Igreja da base ou da libertação e da Teologia da Libertação. Mas acirrou também as frentes.
Grupos conservadores, especialmente incrustados na burocracia do Vaticano, conseguiram se articular e organizaram um movimento de restauração, de volta à grande tradição.
Este grupo foi enormemente reforçado sob João Paulo 2º, que vinha da resistência polonesa ao marxismo. Chamou como braço direito e principal conselheiro, seu amigo, o teólogo Joseph Ratzinger, elevando-o diretamente ao cardinalato e fazendo-o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, a ex-Inquisição.
Aí se processou de forma sistemática, vinda de cima, uma verdadeira Contra-Reforma Católica. O próprio cardeal Ratzinger no seu conhecido "Rapporto sulla fede", de 1985, um verdadeiro balanço da fé, dizia claramente: "A restauração que propiciamos busca um novo equilíbrio depois dos exageros e de uma abertura indiscriminada ao mundo".
Ele elaborou teologicamente a opção pelo confronto a partir de sua formação de base, o agostinismo, sobre o qual fez duas teses minuciosamente trabalhadas. Notoriamente Santo Agostinho opera um dualismo na visão do mundo e da Igreja. Por um lado está a cidade de Deus e por outro a cidade dos homens, por uma parte a natureza decaída e por outra, a graça sobrenatural.
O Adão decaído não pode redimir-se por si mesmo, seja pelo trabalho religioso e ético (heresia do pelagianismo) seja por seu empenho social e cultural.
Precisa do Redentor. Ele se continua e se faz presente pela Igreja, sem a qual nada ganha altura sobrenatural e se salva.
Em razão desta chave de leitura, o papa Bento 16 se confronta com a modernidade, vendo nela a arrogância do homem buscando sua emancipação por próprias forças. Por mais valores que ela possa apresentar, não são suficientes, pois não alcançam o nível sobrenatural, único caráter realmente emancipador. Nela vê mais que tudo secularismo, materialismo e relativismo. Essa é também sua dificuldade com a Teologia da Libertação. A libertação social, econômica e política que pretendemos, segundo ele, não é verdadeira libertação, porque não passa pela mediação do sobrenatural.
Para concluir, se o atual papa tivesse assumido uma teologia do Espírito, coisa ausente em sua produção teológica, teria uma leitura menos pessimista da modernidade.
No atual momento se dá o forte embate entre essas duas opções. A Igreja latino-americana pende mais pela opção do diálogo. Esta é mais adequada à cultura brasileira que não é fundamentalista nem dogmática, mas profundamente relacional e dialogal com todas as correntes espirituais.
Somos naturalmente sincréticos na convicção de que em todos os caminhos espirituais há bondade para além dos desvios e que, definitivamente, tudo acaba em Deus.
Não parece ser esta a opção de Bento 16: seus discursos enfatizam a construção da Igreja em sua forte identidade para que seu testemunho seja vigoroso e possa levar valores perenes a um mundo carente deles, como se viu claramente em seu discurso aos bispos brasileiros na catedral de São Paulo.
Essa Igreja é necessariamente de poucos, coisa reafirmada pelo teólogo Ratzinger em muitas de suas obras. Mas esses poucos devem ser santos, zelosos e comprometido com a missão de orientar e conduzir os muitos, sem se deixar contaminar por eles e pelo mundo.
Ocorre que esses poucos nem sempre são bons. Haja vista os padres pedófilos. Por isso, a Igreja precisa renunciar a certa arrogância, ser mais humilde e confiar que o Espírito e o Cristo cósmico dirijam seus passos e os da humanidade por caminhos com sentido e vida.

14 maio 2007

as ilusões da Primavera

Animal urbano que sou, chega a Primavera e acontece-me um problema recorrente:

por volta das 7 da manhã fico com a sensação que me estão a mandar SMS.

o Matthias atropelou outra vez um carro

É a segunda vez que acontece: o Matthias chega a casa e conta que um carro fez assim, e ele fez assado, e o carro bateu na bicicleta dele. Das duas vezes foi a bicicleta dele que bateu no carro, mas isso interessa pouco para o caso: se o acidente envolve uma criança, a culpa é sempre do condutor.

Desta vez foi num bifurcamento perigoso, em que uma rua segue a direito e a via principal vira para a direita. O Matthias queria continuar na rua que segue em frente, e o condutor do automóvel, que queria ficar na via principal, ultrapassou-o e deu-lhe um empurrão tal na roda da frente que o mandou para fora da via. Felizmente não aconteceu mais nada além do susto.

O Matthias ainda teve a presença de espírito de anotar a matrícula do carro, e por sorte um adulto que ia a passar e viu tudo ofereceu-se para ser testemunha.

Telefonei à Polícia. O agente estava com pouca vontade de tomar nota do caso, e mandou-nos ir à esquadra no dia seguinte.
Fomos. Esperámos. Esperámos. Esperámos. O chefe veio explicar que tinha pouco pessoal disponível e que teríamos de esperar mais um bocado. Esperámos. Esperámos.
Finalmente vieram buscar-nos. O agente estava com pouca vontade de tomar nota da ocorrência. Perguntou porque é que não tínhamos ido no dia anterior. Respondi que o colega dele nos mandara ir no dia seguinte. Resmungou algo sobre a preguiça do colega dele. Insinuou que o Matthias não tinha agido de forma correcta. Obriguei-o a reconhecer que a questão não era a culpa da criança, mas a responsabilidade do condutor, e insisti que alguém tinha de ir dizer àquele adulto que deve estar mais atento quando há crianças na rua. Ele acabou por concordar, eu agradeci imenso a sua compreensão e cooperação, e aproveitei para pedir que nos explicasse como é que o Matthias devia ter agido. Não teve outro remédio senão refazer a cena do crime ali mesmo: eu fazia de carro, ele fazia de bicicleta, o Matthias fazia de quem era: um miúdo de 10 anos a aprender para a vida.

Depois começou a escrever todos os dados. Exasperante: usava apenas os dois indicadores.
Quinze minutos para escrever os nossos nomes, a morada, uma breve descrição do incidente. Rezei intimamente para que Deus lhe conserve aqueles dois dedos, porque se lhes acontece alguma coisa o homem tem de se reformar antecipadamente por incapacidade de 100% para exercer a sua profissão.

Chegou um colega, começaram a falar do caso, aproveitaram para criticar o chefe, que "bem podia trabalhar um pouco" (cito) e ter tratado da ocorrência, que no entretanto tinham transformado no terrível "acidente e fuga".

Depois de registar os nossos nomes, comentou em tom de brincadeira que ainda não tínhamos cadastro.
Dei uma cotovelada ao Matthias, "vês como eu tinha razão com aquela insistência em usar disfarces quando assaltamos os supermercados?"
Ele riu-se. O polícia não achou graça, mas não tinha hipótese: foi ele quem deu o exemplo de desrespeito à autoridade.

***

Odeio deixar os miúdos andar de bicicleta na cidade. O meu marido insiste que eles precisam de movimento, e que não crescem bem se nós insistirmos no uso da redoma.
Está certo. Não me dá jeito nenhum, mas está certo.

12 maio 2007

a exposição dos corpos indefesos

Um post muito bom sobre o que está em causa nesta exposição.

Faz-me pensar no que ouvi uma vez uma mulher dizer sobre filmes pornográficos: "não quero ver nenhum, porque temo que algo se quebraria em mim."

11 maio 2007

post não escrito*

Estou capaz de apostar que o curso de danças palestinianas no centro cultural Mon Ami, em Weimar, é o único curso de dança em toda a Alemanha que tem mais homens que mulheres.

E que homens!

Tem lá um estudante de pele cor de azeitona e olhos verdes que não fosse eu uma mulher casada e séria, até era capaz de me dar para a pedofilia.

Viva o interculturalismo, portanto.
Mas não espalhem a notícia daquele rácio, que está muito bem assim.



* post não escrito é uma referência aos quadros não pintados, os ungemalte Bilder de Emil Nolde. Bem melhores que a palermice de post que acabei de escrever, diga-se de passagem.
Nolde, que estava ideologicamente bastante próximo do nazismo, foi proibido de pintar aquelas porcarias que eram a sua arte. Entre 1938 e 1945 continuou a pintar clandestinamente, mas só fazia aguarelas (as pinturas a óleo têm um cheiro característico que a Gestapo seria capaz de farejar).
Vi a exposição em Jena: em papel muito fino, de pequeno formato, com umas cores e uma profundidade incríveis. Belíssimas.
Um detalhe incomoda naquelas pinturas: o modo - inequívoco - como representa os judeus.

10 maio 2007

negligência e irresponsabilidade

Já sabia que sou uma mãe muito má, muito má, muito má, mas ignorava ser tão irresponsável e negligente.
Se penso na quantidade de vezes que deixei os meus filhos a dormir e fui a casa dos vizinhos, ou num instante comprar leite, ou até, cúmulo dos cúmulos, jantar no restaurante do hotel...

E afinal: sou só eu e aquele casal inglês, ou fazemos todos o mesmo?
Faz sentido exigir dos pais que não abandonem os seus filhos por um minuto sequer, em caso algum, em momento algum?

Digam lá, a sério: alguém acredita nisso?

Mas desde quando, e porquê?
Na minha infância, não era assim que se tratava das crianças. Muito menos na infância dos meus pais.
Admito que morressem mais crianças devido a acidentes vários, acredito que houvesse ainda mais pedófilos (a começar pelo vizinho, o pai da amiga, ... haverá alguma mulher da minha idade que não tenha uma história dessas para contar?).

Hoje em dia, para combater a insegurança, queremos que os filhos sejam criados numa redoma e vigiados constantemente. Isso será uma alternativa saudável e exequível?

Se é essa superprotecção que se exige dos pais, então a verdadeira irresponsabilidade é engravidar.
Quem ousará pôr filhos no mundo, sabendo que nunca estará à altura das suas responsabilidades?

***

Pelos vistos há países de tal modo perigosos e inseguros, que se espera que os pais considerem seriamente todas as eventualidades de alguém raptar os seus filhos - e entre elas, um muito provável arrombamento da janela do apartamento às 9 da noite, para levar a criança que dorme no seu quarto. Países onde os adultos devem estar permanentemente de sobreaviso, não se podendo afastar da criança em momento algum.
Países onde uma criança é raptada e se diz que a culpa foi dos pais.

Só negligentes e irresponsáveis é que marcariam férias num país tão inseguro.

(Mas eu sou irrecuperável: já comprei as passagens de avião, seis semanas em Portugal - de meados de Julho a fins de Agosto)
(E, se me permitem o humor negro, optimista: comprei passagens de ida e volta para todos...)

09 maio 2007

Uma confissão (des)necessária

O post com este título no Voz do Deserto, a 4 de Maio, e aquela receita lá oferecida

Se me encostassem à barriga uma seringa infectada com HIV e me obrigassem a sintetizar numa regra única a minha visão ética da existência eu diria: "não faças nada que envergonhe os teus filhos".

estragaram-me o dia, e explico já porquê.

Estávamos na casa de amigos a comer uma carne formidável, o Joachim perguntou o que era, a nossa amiga começou a explicar "É dos meus pais..." e eu interrompi rapidamente:
"O quê, morreram?!"

O Matthias olhou para mim perplexo e depois desatou a rir com gosto, a Christina soltou um "oh, mãe!" e ficou com cara de precisar urgentemente de se esconder num buraco qualquer. Espero que ela saia da adolescência antes dele entrar, senão, se me encostarem à barriga uma seringa infectada com HIV eu vou-lhes responder "oh pá, vira isso para lá que já vens tarde, já estou perdida há muito."

então foi assim:

Tinham uma música horrível, mas não aceitaram os CDs de fados, Vitorino, Zecas Afonso, Carlos Paredes e música do Portugal quinhentista que eu tinha levado. A única de jeito foi o Grândola.
E queriam saber mais da minha vida que da de Portugal.
Contei-lhes quase tudo, desde que nasci até hoje...

Sobre Portugal, perguntaram o que é que o país tem de especial, além do sol, do vinho e do futebol.
Ora, assim especial especial, o que se chama especial, só me lembrei do Alberto João.
E fiquei a pensar nessa pergunta: o que é que Portugal tem que o faça diferente dos outros países? Não me digam que somos tão europeus que já quase nada nos distingue dos outros?

Da revolução pediram que falasse sobre o papel do Grândola e dos cravos vermelhos. Tudo questões muito profundas, tive imensa dificuldade em explicar-lhes a fenomenologia "que permite compreender as matrizes como produtor e produto das práticas sociais e a génese cultural que sustenta o enraizamento na estética auditiva e estética da população de uma forma tão transversal."
Mas nem tudo se perdeu: contei como foi belo o primeiro primeiro de Maio.

Depois veio a parte da curiosidade mórbida, "A polícia política, a tortura... Tortura na Europa dos anos 70? Até custa a acreditar! Você tem alguma história vivida por si ou por conhecidos seus?"
Respondi que não, não conheço ninguém que tenha sido torturado, e como ele estava a fazer cara de "até custa a acreditar, era um país com tanta tortura..." lá tirei da manga a história da minha amiga que aos 15 anos foi apanhada numa manifestação e levada para Caxias. Ficou muito satisfeito. O que uma pessoa não faz para ver os jornalistas felizes.

Depois fui para o trabalho, e perguntei aos colegas se nos anos 70 só a Pide é que torturava na Europa, e se a Stasi tratava os prisioneiros políticos com todo o respeitinho.
Disseram-me que, no máximo, punham os prisioneiros na câmara escura, ou batiam com brutalidade no pessoal das manifestações. Lá se me foi mais um preconceito: quem diria que os polícias da Stasi eram mais soft que os da Pide?!

Soft não é a palavra certa. Eram menos broncos, é tudo. Especialistas em tortura psicológica - além dos trabalhos forçados em condições terríveis.

Moral do episódio: mais uma achega para uma teoria da dor e do recalcamento. Os nossos e os alheios.

08 maio 2007

aimeudeus

Viver em cidades pequenas tem destas coisas: mais cedo ou mais tarde temos acesso àqueles dez minutos de glória na nossa vida, e os meus vão ser sessenta, e é já amanhã: entrevista na Radio Lotte, a rádio mais exclusiva que conheço (ouvida por meia dúzia de Weimarenses, é tudo), para apresentar o meu país.

Já sei que me vão perguntar sobre o 25 de Abril, e que não preciso de levar música - excepto o Grândola, que eles não conheciam.

Mas - e as outras perguntas?

O problema é que "o meu país" é das coisas mais subjectivas que conheço, e me arrisco a ser ouvida por outros portugueses (sim! o diabo tece-as!) que terão histórias e opiniões completamente diferentes.

E depois, se me fizerem perguntas sobre o fado? Sobre a Mísia? Eu sei lá o que penso da Mísia!

Acabarei por ter de explicar que o meu Portugal é como a RDA deles: parou em 1989, quando vim viver para a Alemanha.

Então é assim: quem quiser mandar algumas informações importantes ou algum recado para eu dizer amanhã na rádio, fale agora ou cale-se para sempre. Quem quiser receber beijinhos radiofónicos, idem.

E agradeço, do fundo do meu novo coração mediático, a quem responder às seguintes questões:
- Na noite de 24 de Abril havia nas rádios simpatizantes do MFA, ou as estações foram invadidas e tocaram o que os militares mandaram tocar?
- Qual era a dimensão estatística do terror? Quantos prisioneiros foram levados para o Tarrafal, quantos presos políticos havia em Abril de 74?
- Onde é que você estava quando soube que o 25 de Abril estava a acontecer?
(é para escolher a melhor história, porque a minha é, enfim, como direi... quando me disseram que Lisboa estava cercada, imaginei os tanques virados para o castelo de S. Jorge - é o que dá o 25 de Abril ter calhado na aula de História, onde estávamos a falar da Reconquista)

07 maio 2007

a história da mulher cujos dedos...

...diminuiam 1 mm por dia.

Comprei uma faca japonesa.

06 maio 2007

05 maio 2007

comecei a aprender danças palestinianas

E parece bastante fácil.
Já sei fazer:

eins zwei drei vier fünf - sechs
eins zwei drei vier fünf - sechs
eins zwei drei vier fünf - sechs
eins zwei drei vier fünf - sechs
eins zwei drei vier fünf - sechs
einszwei-drei
einszwei-drei

na próxima semana vou aprender a parte de
einszwei-drei
einszwei-drei
einszwei
einszwei
einszweidrei

Tem o seu quê de sapateado, quem diria.

Às vezes os palestinianos começam a falar estrangeiro entre eles.
Dizem ta-tum ta-tum ta-ta-tuuuum, coisas assim.
Acho que não é árabe.

PS 1. Apareceram no curso algumas alemãs que queriam ver o professor a fazer dança do ventre. Hehehe, o Orientalismo tem destas ratoeiras.
PS 2. Como é que se diz "malhão traçado" em alemão? Como é que os hei-de ensinar a dançar o que aqui nem sequer tem nome? E como é que lhes explico a graça da quadra "plantei um campo de alhos, plantei um campo de alhos, só me nasceu uma leira, ..."? As diferenças culturais têm destes abismos insondáveis.

03 maio 2007

e agora?



Embora seja difícil apontar números certos, fala-se em três milhões de pessoas em fuga no Iraque. Três milhões de desalojados que querem sair do país.
Em situação particularmente difícil estão os refugiados palestinianos que viviam no Iraque antes da guerra, uma vez que nenhum dos países vizinhos (que receberam já mais de um milhão de refugiados iraquianos) os quer acolher. Houve um grupo que tentou fugir para a Jordânia, mas não teve autorização para entrar no país, pelo que ficou várias semanas na fronteira, até que a Síria abriu uma excepção e os deixou entrar.

Quando, um dia destes, começarmos a olhar a sério para estes milhões de refugiados e a discutir contingentes para os países industrializados, convirá relembrar este momento:



O mundo a seus pés, literalmente.

Sei que estou a chover no molhado.
E continuo à espera do dilúvio que lave esta impunidade.