24 dezembro 2006

Natal dos hospitais

Tinha tudo preparado com as melhores intenções: o Matthias gravou enquanto eu tocava a minha canção de Natal de Béla Bartók, eu gravei enquanto ele tocava a dele, ia pespegar no you tube e mandar para todos, com votos de boas festas e dedicatória à maneira de Debussy, "avec mes excuses pour ce qui va suivre". Tudo. E quase ouvia os sininhos de Natal a acompanhar a perfeição do momento.
Acontece que a máquina que usámos não grava o som. Baixei para o computador e não tinha som, subi para o you tube na esperança de um suave milagre, e nada.

De modo que aqui fica um modesto contributo, meu e do Matthias, para o Natal do hospitais, secção surdos-mudos.

Boas festas!




20 dezembro 2006

dantes é que era bom

A propósito nem sei de quê, o simpático técnico que veio fazer a montagem da lareira começou a contar das férias que tem feito: Albufeira (gostou muito), Ilhas Maurícias, Maiorca, e por aí.
Daí passou para a queda do muro, e de como em tão pouco tempo tanta coisa mudou.
Palavra puxa palavra, contou que fez serviço militar numa zona terrível da fronteira. Andava com os cães para trás e para a frente, sempre com medo de levar um tiro ou de ter de dar um tiro. Por sorte, nunca aconteceu nada.
Depois, contou da polícia e dos medos que todos tinham, e depois...

"Sim, era um Estado fortemente policiado, isso era, mas - pensando bem - estávamos melhor. O sistema de ensino e o sistema de saúde eram muito melhores, nada que se compare com esta miséria actual. Todos tinham trabalho, e ninguém se preocupava com o futuro, com o preço do tratamento médico, com a reforma. Ainda ontem recebi uma carta do meu seguro de saúde, aumentaram-me o preço em 66 euros por mês. O dinheiro não vai chegar para nada! Que será de mim quando chegar à reforma?!"

Se ele não tivesse falado das Ilhas Maurícias, a economista que dorme em mim não tinha um sobressalto.
Mas falou, e deu-me para fazer contas: "dantes", havia todo um povo que trabalhava arduamente e recebia em troca, do Estado, uma porcaria de um Trabant ao fim de 10 ou 15 anos, um quarto com casa de banho comum no corredor ou o apartamento possível em Plattenbau de péssima qualidade, ou talvez em casas antigas com sistemas de aquecimento pré-arcaicos. "Dantes", era um povo habituado a fazer bicha para comprar produtos essenciais (caso não se tivessem esquecido de os prever nos planos de produção), que aproveitava as raras viagens ao Ocidente para comprar aquecedores eléctricos, que se alegrava com os pacotes que amigos ou familiares da Alemanha Ocidental enviavam: café, chocolate, laranjas. Mas o sistema de saúde era gratuito e todos tinham reforma assegurada.
Quem não estivesse inscrito no partido, ou não estivesse disposto a fazer jeitinhos à Stasi, tinha a sua carreira profissional muito mal parada, recebia as piores casas, esperava ainda mais anos pelo carrinho.
E é claro que ninguém - excepto talvez os bonzos do partido - podia sonhar com férias nas Ilhas Maurícias.

Hoje, as pessoas (mesmo os que vivem inteiramente dependentes da Segurança Social) recusam-se a viver nas semi-ruínas em que viviam há 17 anos (e pelas quais estariam dispostas a entregar vizinhos e colegas, para não dizer a própria avó, à Stasi), trocaram os Trabants por carros dignos desse nome, e uma boa parte delas tem dinheiro suficiente para fazer férias no estrangeiro.

Se os alemães da antiga RDA mantivessem o tipo de consumo e o nível de qualidade de vida que tinham antes da queda do muro, e poupassem o resto do salário para saúde e reforma, não precisavam de ter saudades do tempo em que passeavam cães ao longo da fronteira, cheios de medo de levar um tiro ou de ter de atirar.

***

Também vale para o Ocidente: se queremos que o Estado cuide de nós adequadamente na doença e na velhice, temos de estar dispostos a entregar uma parte muito maior do nosso salário.
Podemos, obviamente, exigir mais controle e eficiência dos serviços, bem como a responsabilização dos gestores do erário público. Mas isso não ilude esta lapalissade: se queremos receber mais do Estado, temos de dar mais ao Estado.

***

Este é o momento da deixa para os neoliberais - e porque não deixar que cada um trate de si, e reduzir o peso do Estado?
Não, não sou neoliberal. No limite, é mais barato e agradável viver num país com impostos altos mas sem condomínios fechados, nem motoristas para conduzir as criancinhas pelos 300 m de perigosa rua entre a casa e a escola, nem guarda-costas, nem grades nas janelas dos prédios, nem gente a cair de fome pelas esquinas.

18 dezembro 2006

por sorte não nasci espanhola...

O limpa-chaminés estava a complicar, que a chaminé assim e a caldeira assado.
O simpático que nos vai instalar a lareira ainda antes do Natal (mais ou menos ontem, portanto) fez-me um sorrizinho por trás das costas do limpa-chaminés e disse:
"Não se preocupe, isto vai-se arranjar. Para portuguesas, fazemos tudo."

Heróis do mar, nobre povo.

15 dezembro 2006

eu louvo a dança...

Num centro jesuíta de oração e estudos, em Nürnberg, no princípio do Advento, o padre recebe a escola de dança que escolheu aquele lugar para a matinée de Natal.
A sala está cheia de pais, avós e irmãos vestidos de festa, e o jesuíta dá as boas-vindas, recitando um poema de Santo Agostinho(*):

Eu louvo a dança
que tudo exige e estimula
saúde, mente clara,
uma alma leve.

Dança é transformação
do espaço, do tempo, do ser humano
sempre em risco de se fragmentar:
cérebro só, ou vontade, ou emoção.

A dança, contudo,
chama o ser inteiro
ancorado no seu centro.
Esse que não está possuído
pelo desejo de seres e coisas
e pelos demónios
da solidão interior.

A dança pede o homem livre
vibrando no equilíbrio
de todas as forças.

Eu louvo a dança.

Oh, gentes,
aprendei a dançar!
Caso contrário
no céu os anjos
não saberão
o que fazer convosco.


O público aplaude, ligeiramente comovido, o jesuíta retira-se, o espectáculo começa: primeiro as meninas de 5 anos que contam com piruetas e caretas uma história de gatinhos e doces, depois as quase adultas, com uma dança clássica. Os grupos vão-se sucedendo e, independentemente da qualidade, os familiares aplaudem freneticamente, que é para isso que lá estão.
Quando no programa já só resta uma linha, Chicago, o director da escola vem ao palco, conta que as bailarinas trabalharam arduamente para preparar aquela dança, e acrescenta: "pela coreografia responsabilizo-me eu; agora, quanto ao guarda-roupa... esse é da inteira responsabilidade das alunas!"
Elas aparecem com os primeiros acordes do musical, e recriam em movimentos sensuais plenos de segurança o ambiente sórdido de um bordel: miúdas de 13 e 14 anos, em dessous comprados no sex-shop, na festinha de Natal da escola de dança, perante os pais e os avós. Atónitos.


(* pior que tradução de tradução, só mesmo tradução de poema traduzido)

13 dezembro 2006

amor é...

...apanhar uma infecção de garganta quando o marido sai em viagem.
Com a regularidade que isto me acontece, só pode ser amor.

Pois cá estou de molho há 3 dias, e ainda não vejo a luz ao fim do túnel.
Não me falem de coisas que fazem crescer a água na boca, que de cada vez que engulo saliva faço uma careta.

Dantes era diferente: um dia, dois dias, e estava tudo esquecido.
Porque será que demoro cada vez mais tempo a curar-me?

Como de costume (hehehe) queria deitar as culpas para os americanos e os seus frangos de aviário repletos de antibióticos, mas desta vez não posso: é viral.

10 dezembro 2006

causa mortis

Recentemente ocorreu-me que, se é mesmo verdade o que dizem, de na hora da morte a nossa vida passar de novo como um filme rápido, e se passa mesmo toda a nossa vida, incluindo aqueles momentos em que os neurónios nos falharam, e aquele comentário que se pretendia sarcástico e foi longíssimo demais, e mais aqueles dias em que parece que decidimos que tudo nos vai correr mal, estou perdida.
Se me acontece de, no momento da morte, rever o dia em que pus a fotocopiadora automática a copiar folhas de fax (aquelas finas, horríveis, que havia há 20 anos) e elas se colaram todas umas às outras até que a banda de borracha rebentou, e eu pensei "olha... isto deve ser o tal fenómeno de fadiga dos materiais", sim, se me acontece de rever essa e outras como essa, digam ao médico que virá passar o atestado de óbito que pode escrever assim:

Causa mortis: Vergonha

09 dezembro 2006

notícia urgente para quem pretende viajar na Alemanha

Para o caso de ainda não saberem o que anda na boca de toda a gente: a Tchibo está a vender um milhão de bilhetes de comboio, ida e volta, segunda classe, para qualquer destino dentro da Alemanha, por 58 euros. Ou seja: é possível ir de Munique a Hamburgo, ou de Freiburg ao Mar Báltico, por 58 euros por pessoa.
A oferta é limitada, e as viagens podem ser efectuadas em qualquer dia, excepto sexta-feira, de 2 de Janeiro a 4 de Abril de 2007.

Mais informações, em alemão, aqui.
Os bilhetes estão à venda nas filiais da Tchibo até 14 de Dezembro, mas também é possível encomendá-los no site.

Com esta colaboração com a Tchibo, a DB pretende aumentar o número de passageiros.
O que me dava jeito é que baixassem os preços habituais - são proibitivos, mesmo para quem tenha visto o filme do Al Gore cinco vezes seguidas.

07 dezembro 2006

Óla main!

Encontrei a Christina na rua, e ela disse-me que me tinha deixado um bilhete à porta de casa a dizer onde tinha escondido a chave. Deitei as mãos à cabeça, mas ela disse que tinha escrito em português e com letra muito torta.
Cheguei a casa, encontrei este bilhete (com letra muito redondinha):

Óla main!
U Matthias esta en frente da escola de musica é ten uma chave.
Eu noan, eu daichei uma chave d'atrache, de baichu du xxxxxx (*)


Mais tarde, a Christina: Gostaste do meu bilhete? Não tinha erro nenhum, pois não?



(*) Só me faltava contar na internet quais são os esconderijos da minha filha.

06 dezembro 2006

sobrevivemos...

...e o público também.

Já começou mal, quando me dei conta que um amigo nosso, músico profissional e membro de uma famosa estirpe musical, estava presente. E eu a pensar que ia tocar sob anonimato.

Era suposto um dos alunos tocar uma das canções, eu continuava, o Matthias tocava a última, e só então o público aplaudiria.
O público, contudo, aplaudia sempre. O que chateou o Matthias, que achava os aplausos entre a minha peça e a dele, sendo que ambas eram variações de um tema, um crime capaz de dar sobressaltos pós-tumulares ao Bártok.
Para o evitar, pôs em prática o seu plano B, inventado na altura: em vez de ficar ao fundo da sala à espera da sua vez, foi comigo para o pé do piano, para se sentar mal eu terminasse; e como a professora protestou, ele cedeu um bocadinho: sentou-se ao segundo piano.
Mal acabei, arrancou logo com a sua parte - não fosse o público estragar-lhe o arranjinho (e não estragaria, asseguro, porque eu era a única "artista" sem pais nem avós obrigados ao aplauso imediato).
O problema é que a cadeira era demasiado baixa, de modo que o rapaz, sem parar de tocar, levantou-se e deu com o pé um empurrão à cadeira. Pobre Bártok.

Por essa altura eu não sabia se me havia de rir, ou esconder debaixo do piano.

Quando voltei para o meu lugar, o músico profissional elogiou-me. Seria por amizade? Não sei. Não me lembro - de facto, não tenho a menor ideia - da interpretação que fiz.

***

Muito mais tarde, em casa, dei um raspanete ao Matthias. Se agora começa a pensar e a agir pela sua cabeça, onde é que vamos parar?!

04 dezembro 2006

num momento de inconsciência...

Num momento de inconsciência propus ao Matthias que amanhã, no seu recital de piano, toco uma canção que antecede a que ele aprendeu, do livro de canções de Natal de Bela Bártok. Disse-lhe que ficava mais bonito, porque é um conjunto de variações.

Agora estou aflita, a achar que vou tropeçar nos dedos, e sem saber escolher o tom próprio da interpretação de Bartók, entre o demasiado ligeiro e o martelo mecânico.

Nestas crises de dúvidas interpretacionais, lembro-me sempre de um amigo brasileiro, que quase foi corrido do conservatório de Heidelberg porque, quando a professora tocou um Arabesque de Debussy e lhe perguntou o que achava, ele respondeu "fechei os olhos, e por um momento vi a 5. Deutsche Panzerarmee a passar sob o Arco do Triunfo".

Quem me manda a mim, sapateiro, ...
(pum pum pum pum pum pum pum pausa pum pum pum pum pum pum pum pausa)

o outro Christkindlesmarkt de Nürnberg

Pois lá fomos visitar o Christkindlesmarkt, pois lá nos fomos arrastando lentamente por entre os muitos stands de kitsch de Natal e salsichas de Nuremberga, velas decorativas, brinquedos de madeira, miniaturas para casinhas de bonecas, brinquedos de lata, mais salsichas e mais kitsch de Natal. Depois de muitos tropeções e empurrões, e também alguns "aaaah, olha aquilo" e "ohhhh, que bonito", descobrimos que na praça ao lado havia uma outra feira de Natal, com stands das cidades geminadas. Uns vinte, desde Shenzhen na China até Gera, que é nossa cidade vizinha.
Com muito mais espaço e muito menos público (sobretudo nada daqueles japoneses e americanos que se fotografam nas paisagens da Europa, de toda a Europa, em circuitos de 3 dias), foi um prazer passear por ali e observar as diferenças entre os países.

A cidade chinesa, por exemplo, estava a vender pérolas autênticas baratíssimas, e pentes de ossos de boi - muito gostava eu de saber que formidáveis bois serão esses, que dão pentes tão grandes e tão transparentes, tão parecidos com plástico.
(Pequena nota anti-globalização: mas dá para acreditar em parceiros comerciais que mentem com quantos dentes têm e não têm na boca?!)
Atlanta, por sua vez, tinha um stand vergonhoso. Pior apresentação de produtos, nem no Lidl: uma incrível profusão de produtos açucarados, arrumados nas prateleiras sem o menor cuidado.
Em compensação, Verona expunha sobre um simples pano de serapilheira 3 presépios de Natal em barro, sóbrios mas ricos de pormenor, e vendia queijos e enchidos. Veneza vendia as belíssimas máscaras, bem como enchidos e queijos - com a vantagem acrescida de um prato com bocadinhos para provar. Hmmmm.
Nice vendia tecidos provençais e produtos campestres.
Glasgow tinha imensas gravatas em xadrez e caixas "McCondom" com sabor a uísque. Uns brincalhões.
Charkiw, a cidade ucraniana, oferecia uma bela colecção de matrioskas - umas com o colorido habitual, outras em dourado, ou ainda com reprodução de ícones e até, pasme-se, com o retrato do Putin. Por uns momentos imaginei o que aconteceria se começasse a tirar um Putin de dentro de outro Putin, e mais outro e mais outro. No fim, chegaria a um grão de polónio e uma voz cavernosa que riria "ha, apanhei-te!", ou a um minúsculo dragão de palha?

Depois bebemos o tradicional Glühwein, comprámos Elisen-Lebkuchen Schmidt (Bruch, que o meu marido é suábio(*) ), e voltámos para casa.

Cá para nós, que ninguém de Nuremberga nos ouve: a feira de Natal de Weimar é muito mais agradável, porque é espalhada por todo o centro da cidade.
E a de Erfurt, essa, é um espanto de espaço e cenário:

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***

À procura de fotografias de Erfurt, em particular da Krämerbrücke de Erfurt, que é uma ponte medieval com casas, a mais longa do mundo, encontrei este site com imagens da Turíngia. Asseguro que aqui é mesmo assim, ou até mais bonito.


(*) Pequeno glossário:
Suábios: habitantes da Suábia, região com capital em Estugarda, que têm fama de ser poupados, ou, dirão eles, optimizar os seus recursos monetários.
Elisen-Lebkuchen: espécie de bolacha grande, feita com amêndoas e especiarias, típica do Natal.
Schmidt: o mais famoso produtor de Lebkuchen de Nuremberga.
Bruch: as bolachas que saem da produção com algum defeito (cobertura estalada, por exemplo) e que têm o mesmo sabor mas são mais baratas.

01 dezembro 2006

Nürnberger Christkindlesmarkt

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Uma das tradições mais agradáveis do Natal alemão é a visita ao "Christkindlesmarkt" (uma espécie de feira de Natal).
E mais não digo, que estou a fazer as malas a toda a velocidade para sair para Nürnberg, onde o Christkindlesmarkt - um dos mais famosos e antigos da Alemanha - começa hoje.
A ver se me esqueço da carteira em casa, porque já sei como vai ser - para mais com o Glühwein a aquecer as mãos e a ajudar à boa disposição...

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