O da Laura, que começou a andar nesta vida bloguística no princípio da adolescência, e já cá anda há mais de quatro anos.
Como ela não tem link para os textos antigos, recupero eu um dos poucos que gravei:
De quem é a lã?
Estava em pé no metrô, situação São Paulo de sempre: pessoas desconfiadas, absolutamente sérias e olhando feio umas para as outras, quando um homem, também de pé, ergue na mão um novelo de lã, perguntando em voz alta e como se essa fosse a frase mais comum do universo: "de quem é a lã?".
A mobilização foi geral, o homem com a lã, de costas para a porta, o homem de frente para ele e a meu lado, as pessoas sentadas de frente para mim, todos procurando de onde havia rolado o novelo. Nada mais óbvio, "é só seguir a linha!", disse eu. O homem sentado à minha frente tinha a linha verde pela frente de seu pé esquerdo, a moça a seu lado viu a linha passada pelo seu outro pé, e também a terceira senhora, sentada de frente para o perfil dos dois, e conseqüentemente a meu lado esquerdo. De costas para a mobilização, uma velhinha que tricotava com a linha verde voltou-se, um pouco atrapalhada, para ver o que ocorrera. Logo abaixo dela, no chão, a sacola aberta - escancarada - de onde rolara o novelo. Aí sim, quando o problema parecia resolvido, começou a parte mais difícil. O homem de pé agachou-se e desviou a linha da barra de ferro, passando-a, próxima ao chão, ao homem sentado, que a passou, por trás de seu pé direito, para a mulher a seu lado. Atrapalhada por estar sentada, ela demorou um pouco mais com a linha, que se enroscara em suas duas pernas, passando pelos saltos de suas botas. Ao seu lado, a mulher sentada de costas para a velhinha já aguardava sua vez de pegar o novelo, que ainda teve que ser desviado de outra barra de ferro antes de voltar para a sacola.
Ao fim, como se aquilo não fosse mais um metrô, como se não mais fosse São Paulo, os envolvidos pelo trajeto olharam-se e sorriram.
***
Quem quiser ler mais, tente surfar a partir daqui.
30 junho 2006
28 junho 2006
filhos da multa
Leio na blogosfera que a nova lei da segurança social castiga quem tem menos de dois filhos. Leio críticas: é uma afronta e uma injustiça, uma intromissão intolerável nas decisões dos indivíduos.
Por um lado têm razão: que história é esta de o Governo decidir quantos filhos é que uma família deve ter? Ainda não chegámos à China!
Por outro lado, penso nisto: Em Portugal não há um contrato entre gerações?
As despesas dos reformados não são pagas pelas contribuições dos que estão actualmente activos?
E se a pirâmide etária afunilar na base, como é que vai ser?
Quem vai pagar as nossas reformas e as contas da geriatria? Tanto mais que teremos, quase de certeza, a mania de querer continuar vivos, em vez de nos despacharmos desta para melhor quando começarmos a ficar insuportavelmente caros.
E se daqui a 20 anos os fundos disponíveis para assegurar o pagamento das reformas e das despesas de saúde dos reformados forem tão baixos, que seja necessário baixar as reformas e a assistência para um nível incipiente?
Ser-me-á permitido olhar com inveja e zanga para os outros velhos que não tiveram filhos, e a quem sobrou ordenado para um bom plano de poupança reforma, recebendo contudo da segurança social o mesmo que eu? Bem sei que o dinheiro não é tudo na vida e os filhos são uma grande fonte de alegria, e quase me conformo: serei uma velhota pobrezinha mas feliz. É o que me vale.
Não sei com que intenção é que o governo aumenta as contribuições de quem tem menos de dois filhos.
Mas se é a pensar na minha cara de invejosa daqui a 20 anos, acho muito bem. Porque a inveja é um sentimento terrível que torna as pessoas azedas e maldosas, e é sabido que os maus vivem mais anos. Ora, pensando nas contas da geriatria...
Por outras palavras: se o sistema actual de reformas exige uma pirâmide etária com a base mais alargada, é justo que haja um tratamento igual para os que têm e os que não têm filhos?
Só vejo duas soluções: ou a sociedade paga as despesas das crianças (distribuindo pelo contribuintes de hoje os custos de criar os contribuintes de amanhã) ou os contribuintes sem filhos pagam mais, por uma questão de solidariedade e justiça.
***
Por estar na dúvida se em Portugal existe contrato de gerações, fui googlear um bocadinho. Em menos de um ápice cheguei à intervenção do Primeiro-Ministro no debate mensal na Assembleia da República, sobre «A política de Segurança Social».
Aqui. Explica a situação catastrófica, e as medidas mais importantes.
Agora fico na dúvida: o pessoal que criticou a medida, e lhe chama castigo e intromissão, é movido por ignorância ou por má-fé?
O "castigo" é justificado de forma muito clara:
4 - Em quarto lugar, as políticas públicas não podem continuar alheias aos problemas da evolução dramática da natalidade. Precisamos de mais incentivos à recuperação da natalidade. E a Segurança Social deverá aqui desempenhar um papel, no contexto de uma política mais alargada para a família. É por essa razão que proporemos que a taxa contributiva dos trabalhadores varie, ainda que moderadamente, em função do número de filhos. Afinal, é da riqueza criada pelas futuras gerações de trabalhadores que resultará a garantia dos rendimentos na velhice dos futuros pensionistas. Não há, evidentemente, soluções mágicas para este problema. Mas esta é, sem dúvida, uma mudança justa e que aponta no bom sentido.
Agora que li, deixem-me criticar (eu nem queria, mas temo que, se ficar calada, me tirem o passaporte português...):
Se é para actuar sobre a taxa de natalidade, desculpem que os desiluda, não compensa: um filho sai muito mais caro do que o que quer que se possa poupar em contribuições. Não é com multas ou incentivos fiscais que a pirâmide etária se equilibra.
Vão ter de inventar uma solução mais complexa, começando por ir à raíz do problema: porque é que a taxa de natalidade diminuiu?
Na Alemanha andaram a falar em aumentar o abono de família, e perceberam que isso não resolve a questão. O que aqui falta são creches e infantários abertos o dia inteiro, para que a mãe possa trabalhar. E em Portugal, qual é o problema?
Uma outra questão que se discute na Alemanha é a do tratamento igualitário. Porque é que todas as famílias recebem o mesmo (abono de família, livros escolares gratuitos, etc.), quando algumas famílias precisam de muito mais que outras? Seria mais lógico que o Estado tivesse uma função supletiva, actuando nos casos em que há o risco da exclusão por pobreza.
Ora aí está uma discussão muito mais interessante para os blogues. Em vez de mandarem bocas rasca sobre a política do governo, experimentem debater o papel do Estado Social neste momento de vacas magras, e já agora propor soluções para a bancarrota do sistema de segurança social.
Por um lado têm razão: que história é esta de o Governo decidir quantos filhos é que uma família deve ter? Ainda não chegámos à China!
Por outro lado, penso nisto: Em Portugal não há um contrato entre gerações?
As despesas dos reformados não são pagas pelas contribuições dos que estão actualmente activos?
E se a pirâmide etária afunilar na base, como é que vai ser?
Quem vai pagar as nossas reformas e as contas da geriatria? Tanto mais que teremos, quase de certeza, a mania de querer continuar vivos, em vez de nos despacharmos desta para melhor quando começarmos a ficar insuportavelmente caros.
E se daqui a 20 anos os fundos disponíveis para assegurar o pagamento das reformas e das despesas de saúde dos reformados forem tão baixos, que seja necessário baixar as reformas e a assistência para um nível incipiente?
Ser-me-á permitido olhar com inveja e zanga para os outros velhos que não tiveram filhos, e a quem sobrou ordenado para um bom plano de poupança reforma, recebendo contudo da segurança social o mesmo que eu? Bem sei que o dinheiro não é tudo na vida e os filhos são uma grande fonte de alegria, e quase me conformo: serei uma velhota pobrezinha mas feliz. É o que me vale.
Não sei com que intenção é que o governo aumenta as contribuições de quem tem menos de dois filhos.
Mas se é a pensar na minha cara de invejosa daqui a 20 anos, acho muito bem. Porque a inveja é um sentimento terrível que torna as pessoas azedas e maldosas, e é sabido que os maus vivem mais anos. Ora, pensando nas contas da geriatria...
Por outras palavras: se o sistema actual de reformas exige uma pirâmide etária com a base mais alargada, é justo que haja um tratamento igual para os que têm e os que não têm filhos?
Só vejo duas soluções: ou a sociedade paga as despesas das crianças (distribuindo pelo contribuintes de hoje os custos de criar os contribuintes de amanhã) ou os contribuintes sem filhos pagam mais, por uma questão de solidariedade e justiça.
***
Por estar na dúvida se em Portugal existe contrato de gerações, fui googlear um bocadinho. Em menos de um ápice cheguei à intervenção do Primeiro-Ministro no debate mensal na Assembleia da República, sobre «A política de Segurança Social».
Aqui. Explica a situação catastrófica, e as medidas mais importantes.
Agora fico na dúvida: o pessoal que criticou a medida, e lhe chama castigo e intromissão, é movido por ignorância ou por má-fé?
O "castigo" é justificado de forma muito clara:
4 - Em quarto lugar, as políticas públicas não podem continuar alheias aos problemas da evolução dramática da natalidade. Precisamos de mais incentivos à recuperação da natalidade. E a Segurança Social deverá aqui desempenhar um papel, no contexto de uma política mais alargada para a família. É por essa razão que proporemos que a taxa contributiva dos trabalhadores varie, ainda que moderadamente, em função do número de filhos. Afinal, é da riqueza criada pelas futuras gerações de trabalhadores que resultará a garantia dos rendimentos na velhice dos futuros pensionistas. Não há, evidentemente, soluções mágicas para este problema. Mas esta é, sem dúvida, uma mudança justa e que aponta no bom sentido.
Agora que li, deixem-me criticar (eu nem queria, mas temo que, se ficar calada, me tirem o passaporte português...):
Se é para actuar sobre a taxa de natalidade, desculpem que os desiluda, não compensa: um filho sai muito mais caro do que o que quer que se possa poupar em contribuições. Não é com multas ou incentivos fiscais que a pirâmide etária se equilibra.
Vão ter de inventar uma solução mais complexa, começando por ir à raíz do problema: porque é que a taxa de natalidade diminuiu?
Na Alemanha andaram a falar em aumentar o abono de família, e perceberam que isso não resolve a questão. O que aqui falta são creches e infantários abertos o dia inteiro, para que a mãe possa trabalhar. E em Portugal, qual é o problema?
Uma outra questão que se discute na Alemanha é a do tratamento igualitário. Porque é que todas as famílias recebem o mesmo (abono de família, livros escolares gratuitos, etc.), quando algumas famílias precisam de muito mais que outras? Seria mais lógico que o Estado tivesse uma função supletiva, actuando nos casos em que há o risco da exclusão por pobreza.
Ora aí está uma discussão muito mais interessante para os blogues. Em vez de mandarem bocas rasca sobre a política do governo, experimentem debater o papel do Estado Social neste momento de vacas magras, e já agora propor soluções para a bancarrota do sistema de segurança social.
26 junho 2006
ainda bem que aguentaram o 1:0 até ao fim...
...porque se tivessem empatado, está-se mesmo a ver que durante os 30 minutos do prolongamento o árbitro ia acabar sozinho no meio do campo: metade dos jogadores expulsos e a outra metade nas ambulâncias.
Portugal ganhou, mas foi uma vergonha - para as duas equipas e para o árbitro.
Agora pergunto eu
- aos meus ingénuos botões: não haverá a possibilidade de interromper um jogo que descarrila desta maneira, e mandar o pessoal todo tomar um duche frio?!
- aos meus preconceituosos botões: no futebol feminino também há disto?!
(...talvez haja: eu própria, quando vi aquele jogador a espetar a chuteira na perna do Cristiano Ronaldo, e a escapar com um simples cartão amarelo, estava capaz de lhe ir arrancar nem sei o quê à dentada. E ao árbitro também.)
Portugal ganhou, mas foi uma vergonha - para as duas equipas e para o árbitro.
Agora pergunto eu
- aos meus ingénuos botões: não haverá a possibilidade de interromper um jogo que descarrila desta maneira, e mandar o pessoal todo tomar um duche frio?!
- aos meus preconceituosos botões: no futebol feminino também há disto?!
(...talvez haja: eu própria, quando vi aquele jogador a espetar a chuteira na perna do Cristiano Ronaldo, e a escapar com um simples cartão amarelo, estava capaz de lhe ir arrancar nem sei o quê à dentada. E ao árbitro também.)
24 junho 2006
adoro marketing


Na segunda-feira, a IKEA vai vender estas cadeiras por 1 euro.
Aposto que os alemães jogaram tão bem (pareciam uma equipa e tudo!) porque as cadeiras lhes dão mais jeito que os köttbullar.
Por isso, pessoal de Munique, atenção: é muito provável que o Michael Ballack passe pela vossa IKEA, para levar as seis cadeirinhas a que tem direito.
23 junho 2006
conselho de estrangeiros
Convenceram-me a trabalhar no conselho de estrangeiros de Weimar, e lá fui eu à sessão de apresentação dos candidatos, com a minha cara típica de só cá vim ver a bola.
Eu bem digo que em Weimar não há estrangeiros: havia mais gente do lado dos candidatos que do lado do público.
Os candidatos dividiam-se, basicamente, em dois grupos: mulheres e homens.
Hihihi.
As mulheres eram quase todas avós russas. Os homens eram quase todos jovens estudantes cheios de energia e blablabla, com um discurso político de "temos de mudar as mentalidades, não podemos ficar de braços cruzados perante a ameaça neonazi".
Bem sei no que isto vai dar: organizam-se festas multi-culturais, e as avós russas desunham-se a fazer pelmeni para o povo. A mãe portuguesa fará rissóis.
Fartei-me daquela conversa que tocava as raias da xenofobia pelo avesso ("eles os alemães e nós os estrangeiros" e "em especial este país, com a particularidade da sua história" - como se os alemães fossem um grupo de risco) e cheia de propaganda eleitoral barata ("temos de mudar esta situação, é inaceitável que agridam pessoas devido à cor da sua pele" e "temos de nos dar a conhecer, para que eles não tenham medo de nós"). Lembrei que em todos os países há xenofobia e extremismo, que a Alemanha é dos países que mais longe leva a tomada de consciência da sua responsabilidade histórica, que o problema dos neonazis é para ser resolvido pela sociedade alemã e não pelos estrangeiros (que não passam de um bode expiatório ocasional) e que as categorias "os alemães" e "os estrangeiros" não significam nada.
Conclusão: não devia ler tanto o Canhoto - com uma intervenção destas ninguém vai votar em mim, nunca hei-de ter a honra de fazer rissóis para festivais multi-culturais em Weimar e a culpa é do Rui Pena Pires, que me trocou as voltas com aquela teoria do excesso de comunitarismo.
***
Não se perdeu tudo: aproveitei estar lá a televisão de Weimar para pedir que noticiassem uma iniciativa da escola da Christina ("Humboldts alte Hosen", outro dia conto, se correr tudo bem; se correr tudo mal, virá a notícia no jornal: emigrante portuguesa encontrada inconsciente junto a um garrafão de vinho do Porto) e alertei o presidente da câmara para o risco de esvaziamento de uma escola óptima que existe num quase-gueto de Weimar devido a políticas de contenção orçamental do ministério da educação, afastando o quase-gueto para ainda mais longe da cidade.
Foi a minha horinha de micro-causas.
Eu bem digo que em Weimar não há estrangeiros: havia mais gente do lado dos candidatos que do lado do público.
Os candidatos dividiam-se, basicamente, em dois grupos: mulheres e homens.
Hihihi.
As mulheres eram quase todas avós russas. Os homens eram quase todos jovens estudantes cheios de energia e blablabla, com um discurso político de "temos de mudar as mentalidades, não podemos ficar de braços cruzados perante a ameaça neonazi".
Bem sei no que isto vai dar: organizam-se festas multi-culturais, e as avós russas desunham-se a fazer pelmeni para o povo. A mãe portuguesa fará rissóis.
Fartei-me daquela conversa que tocava as raias da xenofobia pelo avesso ("eles os alemães e nós os estrangeiros" e "em especial este país, com a particularidade da sua história" - como se os alemães fossem um grupo de risco) e cheia de propaganda eleitoral barata ("temos de mudar esta situação, é inaceitável que agridam pessoas devido à cor da sua pele" e "temos de nos dar a conhecer, para que eles não tenham medo de nós"). Lembrei que em todos os países há xenofobia e extremismo, que a Alemanha é dos países que mais longe leva a tomada de consciência da sua responsabilidade histórica, que o problema dos neonazis é para ser resolvido pela sociedade alemã e não pelos estrangeiros (que não passam de um bode expiatório ocasional) e que as categorias "os alemães" e "os estrangeiros" não significam nada.
Conclusão: não devia ler tanto o Canhoto - com uma intervenção destas ninguém vai votar em mim, nunca hei-de ter a honra de fazer rissóis para festivais multi-culturais em Weimar e a culpa é do Rui Pena Pires, que me trocou as voltas com aquela teoria do excesso de comunitarismo.
***
Não se perdeu tudo: aproveitei estar lá a televisão de Weimar para pedir que noticiassem uma iniciativa da escola da Christina ("Humboldts alte Hosen", outro dia conto, se correr tudo bem; se correr tudo mal, virá a notícia no jornal: emigrante portuguesa encontrada inconsciente junto a um garrafão de vinho do Porto) e alertei o presidente da câmara para o risco de esvaziamento de uma escola óptima que existe num quase-gueto de Weimar devido a políticas de contenção orçamental do ministério da educação, afastando o quase-gueto para ainda mais longe da cidade.
Foi a minha horinha de micro-causas.
22 junho 2006
assim é que eu gosto de futebol
No sábado a Suécia joga contra a Alemanha.
Se a Alemanha ganhar, a IKEA vende umas cadeiras bonitinhas a 1 euro (máximo: 6).
Se a Suécia ganhar, a IKEA serve no restaurante um prato com 10 almôndegas (eles chamam-lhes köttbullar, coitados, já não lhes bastava o frio, ainda têm uma língua impossível) e batatas fritas, mais um molho de natas e aquela coisa vermelha que deve ter vitaminas, por 1 euro.
Quem quiser confirmar, é aqui (em alemão, claro).
Em Erfurt é na segunda-feira, agora já sabem onde vou no princípio da próxima semana.
Isto se não me acontecer o que acontece sempre (está escrito): conto os meus planos e o Joachim olha para mim com ar de comiseração e diz "o pessoal do marketing devia dar-te uma medalha honoris causa - cais em todas".
Se a Alemanha ganhar, a IKEA vende umas cadeiras bonitinhas a 1 euro (máximo: 6).
Se a Suécia ganhar, a IKEA serve no restaurante um prato com 10 almôndegas (eles chamam-lhes köttbullar, coitados, já não lhes bastava o frio, ainda têm uma língua impossível) e batatas fritas, mais um molho de natas e aquela coisa vermelha que deve ter vitaminas, por 1 euro.
Quem quiser confirmar, é aqui (em alemão, claro).
Em Erfurt é na segunda-feira, agora já sabem onde vou no princípio da próxima semana.
Isto se não me acontecer o que acontece sempre (está escrito): conto os meus planos e o Joachim olha para mim com ar de comiseração e diz "o pessoal do marketing devia dar-te uma medalha honoris causa - cais em todas".
135 milhões


Roubei o título e a imagem ao Tempo dos Assassinos. Na realidade, estava a escrever lá um comentário, mas depois ocorreu-me que estava a desperdiçar o post nosso de cada dia (e logo hoje que já enchi 21 caixotes de livros triados e limpos um a um - se ouvirem por aí um suspiro de satisfação, sou eu).
O que eu quase comentei no blog do Miguel Silva é que o quadro é bonito, mas a senhora propriamente dita não corria o risco de aparecer no E Deus criou a mulher.
Ainda não sei bem que conclusão tirar sobre esse facto, mas deve dar para uma tese de doutoramento em qualquer coisa.
A dúvida existencial do dia é esta: como é que se chega a uma situação financeira de ter 135 milhões de trocos para comprar um quadrinho?
E mais outra:
Não faz muito sentido que alguém ganhe 135 milhões com um quadro que não deve ter custado nem um micronésimo dessa quantia.
Não seria melhor estabelecer um plafond para o aumento do valor das obras de arte? A diferença entre o preço da venda e esse plafond podia ir para os museus.
Ponho-me com ideias repentinas destas, e depois queixo-me que ninguém me convida para ministra ou comissária europeia.
21 junho 2006
admirável mundo novo
Transforme a sua foto preferida (ou o melhor cartaz da sua empresa) num selo postal.
Complique a vida aos coleccionadores de selos.
Teste: quanto tempo demorará a moda a chegar à Europa?
Complique a vida aos coleccionadores de selos.
Teste: quanto tempo demorará a moda a chegar à Europa?
16 junho 2006
14 junho 2006
apanhados em flagrante - agora com adenda
O Matthias, que recentemente entrou na fase de inventar piadas, veio-me perguntar com ar de malandro se eu sabia onde se vêem as maiores cenas de sexo em grupo entre homens.
(A expressão não era bem essa, mas o léxico de um rapazinho de 9 anos ainda não é muito completo, e se fosse eu ia ter de desconfiar.)
Eu: Não. Onde é?
Ele: Num estádio de futebol, quando marcam um golo.
Pensou um bocadinho, e acrescentou: E não é só no relvado.
***
Adenda: isto é pura bílis a propósito daquela canção que dizia "o último a chegar é paneleiro", e da mania de vender o futebol como um jogo para homens-muito-homens.
...E depois vem um miúdo de 9 anos intuir que as fronteiras são muito mais ténues do que dava jeito a esses machos inseguros.
(A expressão não era bem essa, mas o léxico de um rapazinho de 9 anos ainda não é muito completo, e se fosse eu ia ter de desconfiar.)
Eu: Não. Onde é?
Ele: Num estádio de futebol, quando marcam um golo.
Pensou um bocadinho, e acrescentou: E não é só no relvado.
***
Adenda: isto é pura bílis a propósito daquela canção que dizia "o último a chegar é paneleiro", e da mania de vender o futebol como um jogo para homens-muito-homens.
...E depois vem um miúdo de 9 anos intuir que as fronteiras são muito mais ténues do que dava jeito a esses machos inseguros.
13 junho 2006
um jogo alemão
O problema de o blogue fechar para fim de semana é que o campeonato mundial já quase vai a meio, e eu só agora venho cá contar como foi o primeiro jogo.
Atão vá:


Os miúdos fizeram as suas pinturas de guerra e vestiram a farda futebolística para irmos assistir ao Alemanha - Costa Rica num cenário de festa, em ecrã gigante à sombra da célebre estátua de Goethe e Schiller, entre o teatro onde foi proclamada a república de Weimar e o museu da bauhaus, movimento que nasceu neste cantinho - como vêem, tem tudo a ver.
Fomos relativamente cedo para lá, para saborear bem a atmosfera de festa.
O problema era os dementors que andavam pela praça. Vestidos de preto, uma agressividade latente na maneira de avançar por entre a multidão, pareciam aparelhos de ar condicionado ambulantes: apesar do calor insuportável, por onde passavam, as pessoas sentiam frio.
Achei-os esquisitos, mas como estavam calados e não batiam em ninguém fiquei na dúvida se seriam neonazis ou não. Além disso, as frases em escrita gótica que traziam nas t-shirts só falavam da superioridade da Alemanha, o que é, convenhamos, aceitável - em tempo de campeonato mundial andam todos mais ou menos ao mesmo.
Mais tarde disseram-me que sim, eram. E que aquela praça não era sítio para se estar, sobretudo com crianças.
Ou seja: se um dia me encontrarem em coma, com o crânio rachado e cara de heureca, é porque o meu último pensamento foi "oooolha, afinal são mesmo neonazis!!!"
Para que não haja dúvidas sobre a minha lealdade: se Portugal não ganhar o campeonato, então está bem, que o primeiro lugar seja para a Alemanha (a Alemanha, aquele país, sabem, que tem bandeira verde, azul e amarela).
E contudo... gostei dos golos da Costa Rica - só porque deve ter dado aos costa-riquenhos uma felicidade momentânea do tamanho do mundo, e não custa nada.
Mais que isto não sei. O que me preocupa imenso, porque anda por aí um jornalista que me quer entrevistar na qualidade de portuguesa, e já estou com medo que me tirem o passaporte, ou talvez a autorização de residência neste país. Ele quer que nós, os estrangeiros de Weimar, lhe digamos alguma coisa de novo e muito original sobre o papel do futebol no entendimento entre as nações.
Em desespero de causa, telefonei para Portugal para me informar. Agora sei que uma equipa de futebol tem 11 jogadores: um à baliza, e os restantes aos encontrões pelo campo (aos anos que andava a tentar contá-los na televisão, mas eles não há maneira de pararem um bocadinho para me facilitarem o trabalho).
Venha o jornalista, já estou preparada.
***
E de novo os neonazis da praça, que não eram muitos mas deram cabo do ambiente durante o jogo de futebol: o que me surpreende mais é o ódio que destilam. O que será que lhes falta, que horrível mal lhes terão feito?
Atão vá:


Os miúdos fizeram as suas pinturas de guerra e vestiram a farda futebolística para irmos assistir ao Alemanha - Costa Rica num cenário de festa, em ecrã gigante à sombra da célebre estátua de Goethe e Schiller, entre o teatro onde foi proclamada a república de Weimar e o museu da bauhaus, movimento que nasceu neste cantinho - como vêem, tem tudo a ver.
Fomos relativamente cedo para lá, para saborear bem a atmosfera de festa.
O problema era os dementors que andavam pela praça. Vestidos de preto, uma agressividade latente na maneira de avançar por entre a multidão, pareciam aparelhos de ar condicionado ambulantes: apesar do calor insuportável, por onde passavam, as pessoas sentiam frio.
Achei-os esquisitos, mas como estavam calados e não batiam em ninguém fiquei na dúvida se seriam neonazis ou não. Além disso, as frases em escrita gótica que traziam nas t-shirts só falavam da superioridade da Alemanha, o que é, convenhamos, aceitável - em tempo de campeonato mundial andam todos mais ou menos ao mesmo.
Mais tarde disseram-me que sim, eram. E que aquela praça não era sítio para se estar, sobretudo com crianças.
Ou seja: se um dia me encontrarem em coma, com o crânio rachado e cara de heureca, é porque o meu último pensamento foi "oooolha, afinal são mesmo neonazis!!!"
Para que não haja dúvidas sobre a minha lealdade: se Portugal não ganhar o campeonato, então está bem, que o primeiro lugar seja para a Alemanha (a Alemanha, aquele país, sabem, que tem bandeira verde, azul e amarela).
E contudo... gostei dos golos da Costa Rica - só porque deve ter dado aos costa-riquenhos uma felicidade momentânea do tamanho do mundo, e não custa nada.
Mais que isto não sei. O que me preocupa imenso, porque anda por aí um jornalista que me quer entrevistar na qualidade de portuguesa, e já estou com medo que me tirem o passaporte, ou talvez a autorização de residência neste país. Ele quer que nós, os estrangeiros de Weimar, lhe digamos alguma coisa de novo e muito original sobre o papel do futebol no entendimento entre as nações.
Em desespero de causa, telefonei para Portugal para me informar. Agora sei que uma equipa de futebol tem 11 jogadores: um à baliza, e os restantes aos encontrões pelo campo (aos anos que andava a tentar contá-los na televisão, mas eles não há maneira de pararem um bocadinho para me facilitarem o trabalho).
Venha o jornalista, já estou preparada.
***
E de novo os neonazis da praça, que não eram muitos mas deram cabo do ambiente durante o jogo de futebol: o que me surpreende mais é o ódio que destilam. O que será que lhes falta, que horrível mal lhes terão feito?
10 junho 2006
09 junho 2006
Nach dem Spiel ist vor dem Spiel


Depois do jogo é antes do jogo é uma frase célebre do mundo do futebol alemão.
Não é por começar hoje o campeonato que me lembro dela, mas porque reflecte tão bem a situação depois da morte de al-Zarqawi. Outro virá, e outro, e outro.
No momento em que noticiam a sua morte, penso no povo iraquiano, apanhado num turbilhão de violência, instrumentalizado por lógicas externas de poder, tentando sobreviver num jogo de cartas marcadas.
Congratulo-me pelo que esta denúncia representa de tomada de posição pela paz no Iraque.
08 junho 2006
hinos - 2
Vocês, portugueses, com essa fixação pelas glórias dos descobrimentos - o vosso futuro foi há 500 anos.
(frase de uma alemã que quase ia deixando de ser minha amiga, porque quem não se sente...)
Em comentário ao post anterior, a Gabriela pergunta qual é o nosso desígnio nacional. Pois: qual é?
Seria engraçado pedir aos portugueses que escrevam novos textos para um hino nacional. O país no divã.
(frase de uma alemã que quase ia deixando de ser minha amiga, porque quem não se sente...)
Em comentário ao post anterior, a Gabriela pergunta qual é o nosso desígnio nacional. Pois: qual é?
Seria engraçado pedir aos portugueses que escrevam novos textos para um hino nacional. O país no divã.
07 junho 2006
hinos
Não sei se repararam, mas o mundial de futebol está quase a começar.
(hihihi, gostei muito de escrever aquele "não sei se repararam")
Por causa das coisas, o Joachim ensinou-nos a cantar o hino nacional alemão, não vá sermos apanhados na final a cantar em playback, como muitos jogadores, esses espertalhaços (o Matthias anda a fazer uma estatística sobre isso: antes de começarem os jogos põe-se à frente da televisão de lápis e papel em riste, parece um merceeiro; depois conto os resultados dos tracinhos que ele faz por cada jogador apanhado em flagrante de boca de peixe ao som do hino).
O hino alemão é assim:
(com letra de Haydn)
Unidade, direito e liberdade para a pátria alemã!
Lutemos por isso, fraternalmente unidos de corpo e alma.
Unidade, direito e liberdade são a garantia da felicidade.
Prospera ao brilho desta felicidade, pátria alemã!
Aviado o hino alemão, quis ensinar aos meus teutónicos o português (não vá sermos apanhados desprevenidos na final, a cantar em playback).
Comecei a cantar. Eles olharam para mim, atónitos: "Estás a inventar, estás a gozar connosco, não estás?! Isso não é o hino nacional português, pois não!?"
Mudei logo de assunto. Ensinei-lhes a versão do hino espanhol nos tempos da ditadura:
Franco, Franco tiene el culo blanco porque su mujer lo lava con Ariel ...
(hihihi, gostei muito de escrever aquele "não sei se repararam")
Por causa das coisas, o Joachim ensinou-nos a cantar o hino nacional alemão, não vá sermos apanhados na final a cantar em playback, como muitos jogadores, esses espertalhaços (o Matthias anda a fazer uma estatística sobre isso: antes de começarem os jogos põe-se à frente da televisão de lápis e papel em riste, parece um merceeiro; depois conto os resultados dos tracinhos que ele faz por cada jogador apanhado em flagrante de boca de peixe ao som do hino).
O hino alemão é assim:
(com letra de Haydn)
Unidade, direito e liberdade para a pátria alemã!
Lutemos por isso, fraternalmente unidos de corpo e alma.
Unidade, direito e liberdade são a garantia da felicidade.
Prospera ao brilho desta felicidade, pátria alemã!
Aviado o hino alemão, quis ensinar aos meus teutónicos o português (não vá sermos apanhados desprevenidos na final, a cantar em playback).
Comecei a cantar. Eles olharam para mim, atónitos: "Estás a inventar, estás a gozar connosco, não estás?! Isso não é o hino nacional português, pois não!?"
Mudei logo de assunto. Ensinei-lhes a versão do hino espanhol nos tempos da ditadura:
Franco, Franco tiene el culo blanco porque su mujer lo lava con Ariel ...
implosão dos dados colaterais mínimos
A Lida Insana voltou.
Com uma escolha de cores que é a prova acabada de que não há leituras de preto no branco, e que os cinzentos confundem tudo (será que percebi bem?), mas voltou, e com a classe do costume. Três vezes Viva!
Só falta recuperar o último dado colateral:
Lutz, desenrasca lá a tua vida real, e vê se arranjas tempo para vir cá virtualizar connosco!
Que eu já estou farta de ler a Hola que a Sara me deu naquele momento de desesperança. Tanto mais que a princesa Diana já apanhou com uma nódoa de sardinha (da Céu) no nariz, até parece que tem eczema, coitada. Precisamos urgentemente de um post com uma caixa de comentários onde possámos recomeçar: caixa nova, vida nova.
Com uma escolha de cores que é a prova acabada de que não há leituras de preto no branco, e que os cinzentos confundem tudo (será que percebi bem?), mas voltou, e com a classe do costume. Três vezes Viva!
Só falta recuperar o último dado colateral:
Lutz, desenrasca lá a tua vida real, e vê se arranjas tempo para vir cá virtualizar connosco!
Que eu já estou farta de ler a Hola que a Sara me deu naquele momento de desesperança. Tanto mais que a princesa Diana já apanhou com uma nódoa de sardinha (da Céu) no nariz, até parece que tem eczema, coitada. Precisamos urgentemente de um post com uma caixa de comentários onde possámos recomeçar: caixa nova, vida nova.
02 junho 2006
happy birthday, Norma Jean
01 junho 2006
auto-retrato
Tiro e queda: deito-me, leio no máximo três páginas, adormeço.
Por este andar, não chegarei nunca a intelectual.
Mas tenho emprego certo no departamento de testes de uma fábrica de colchões.
Por este andar, não chegarei nunca a intelectual.
Mas tenho emprego certo no departamento de testes de uma fábrica de colchões.
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