30 maio 2006

kinja à weimarense

O que é que eu tenho andado a fazer, que ainda não tinha descoberto este blog?!

Gostei do modo como no Complexidade e Contradição o Lourenço defende a necessidade de os arquitectos assinarem o projecto, e como reage ao João César das Neves,
e gostava de ter escrito isto sobre o discurso do Papa em Auschwitz.


***

Qual é o cúmulo do kinja à weimarense?
É trazer para o seu próprio blog os comentários escritos nos blogs alheios.

Não ouso tanto (pelo menos hoje), mas cá vai a tradução (minha, para PT) da tradução (de IT para DE) da tradução (de Ratzinguês para IT) do início do discurso do Papa em Auschwitz, que escrevi no Arrastão porque me pareceu que o Daniel Oliveira estava com problemas de acesso à informação - e deixo ficar aqui, porque é curioso comparar isto com o que aparece, por exemplo, na TSF:

"É quase impossível falar neste lugar de horror, onde se acumularam crimes contra Deus e a Humanidade sem paralelo na História - e é especialmente difícil para um cristão, um Papa que vem da Alemanha.
Neste lugar, as palavras faltam e só nos resta um silêncio escandalizado. Um silêncio que é um grito interior para Deus: Porque é que ficaste em silêncio? Porque é que conseguiste suportar tudo isto?
Neste silêncio, curvamo-nos interiormente perante a multidão incontável de pessoas que aqui sofreram e morreram; este silêncio transforma-se em clamor de perdão e reconciliação, um pedido a Deus, para que não deixe que isto se repita."


De cada vez que vou para carregar na tecla Publish Post, vem-me mais uma ideia. (É mesmo tempo de cerejas, e estou a ver que os ricos caixotes hoje vão ter sossego... Ai, cá vem mais outra: começar a embalar a casa 6 semanas antes da mudança dá nisto: perdi num caixote qualquer as calças de desporto do Joachim, pensando que eram umas ainda demasiado grandes para o Matthias; toca a reabrir todos os caixotes, e procurar, que na quinta-feira há um jogo de futebol importante contra uma equipa de Leipzig).

OK, última cereja para este post, e vem a propósito das dificuldades de acesso à informação do Daniel Oliveira: no domingo passado fizemos uma viagem de carro da Baviera (onde o Ratzinger nasceu) para a Turíngia (antiga RDA, terra de ateísmo à força). Na rádio bávara, a primeira notícia era a visita do Papa a Auschwitz e as suas palavras iniciais ("é-me muito difícil estar aqui como Papa e como alemão"); na rádio turíngia, esta visita nem chegava a ser assunto.

PC (c de cerejas): haverá um prémio para quem usar o maior número de parênteses por linha? Eu hoje ganho-o!

"danos colaterais mínimos"

O fim do Quase em Português e do Lida Insana (sem link, que quem ainda não sabe do que estou a falar mais lhe vale ir tomar um café para acordar) não passa de danos colaterais mínimos para o Eduardo Pitta.

Isto vai mal. Se se habitua a usar as palavras deste modo, ainda acaba a escrever poemas deste quilate:

The Unknown

As we know,
There are known knowns.
There are things we know we know.
We also know
There are known unknowns.
That is to say
We know there are some things
We do not know.
But there are also unknown unknowns,
The ones we don't know
We don't know.

—Feb. 12, 2002, Department of Defense news briefing


em: Pieces of Intelligence: The Existential Poetry of Donald H. Rumsfeld, Free Press, NY

***

Isto vai mal. Apesar de gostar de ler o Da Literatura, é a segunda (terceira) vez numa semana que lhe reajo. Caso para dizer que quem tem amigos como eu não precisa de inimigos...

gostei muito desta gralha

"O campo de concertação de Auschwitz-Birkenau"

(aqui)

29 maio 2006

notas soltas

Pelo Pontos de Vista chego à notícia de que 70% dos alunos universitários portugueses copiam.

Lembro uma cena surrealista, a que assisti durante um exame, já quase no fim da faculdade: um aluno tentou durante toda a prova copiar pela colega da frente, cochichava-lhe "põe as folhas mais à esquerda" e atirava-lhe perguntas; ela ignorou o assédio e tentou concentrar-se na sua própria prova (o que foi difícil); no fim do exame, à porta da sala, ele fez-lhe uma cena aos gritos:
"por tua causa vou chumbar!"

De link em link, do "hipocrisia do sistema" ao "pais avaliam professores", vou comparando o que parece ser a situação em Portugal com o que vejo na Alemanha.

Antes de mais, há que explicar que neste país se começa a fazer uma triagem a partir do terceiro ano da escola primária. Aos 10/11 anos, os alunos são separados em vias de ensino diferentes, segundo o rendimento escolar, com consequências que um cartaz que alguém pintou à mão e colou perto da escola do meu filho resume assim: "my 3rd grade teacher told me, I have no future".
As opiniões divergem, como de costume - há quem diga que é um crime contra as crianças, e há quem diga que o crime é obrigar todas as crianças a andarem no mesmo grupo, e à mesma velocidade, quando afinal têm interesses, capacidades e rendimentos diferentes.
Igualdade empurrando a média para baixo, ou diferenciação e escolas de elite?
Igualdade de oportunidades, ou optimização de recursos e capacidade competitiva num mundo globalizado?

Quanto aos hábitos de copianço, pelo que conheço na escola da minha filha, na via de ensino mais exigente (Gymnasium), os cábulas não vão longe, porque o ensino se baseia na investigação pessoal e na exposição oral.
Concretamente: com 10 anos, a Christina teve de apresentar perante a turma um trabalho sobre a cobra-cascavel. Foi à biblioteca municipal procurar material, escreveu o trabalho, baixou da internet os ruídos que a cobra faz, preparou a apresentação. Falou durante 10 minutos, usando apenas uma folha com os tópicos - além do material visual e sonoro que tinha escolhido. A nota final - atribuída pelo professor e pela turma - abrangia não apenas os conhecimentos transmitidos, mas a forma de apresentação.
(E não brincam: houve um aluno que teve uma nota mais baixa porque falou com ar de aborrecido e com as mãos nos bolsos)

Contaram-me recentemente como foi um exame de francês no fim do ensino secundário (de novo: Gymnasium). A aluna tirou às cegas um dos 3 textos que a professora tinha preparado, teve 30 minutos para preparar a exposição (consultando apenas um dicionário da língua francesa) e depois falou em francês sobre o tema que lhe tinha calhado, o impressionismo - primeiro, uma exposição de 15 minutos, sem qualquer comentário dos avaliadores; depois, 15 minutos a responder a perguntas.

Não sei como está o ensino em Portugal neste momento. Sei que nem no 5º ano da Faculdade exigiram de mim aquilo que a minha filha já aprendia aos 10 anos, e muito menos o que exigem dos finalistas do Gymnasium. Quando conto aqui que o meu curso universitário foi uma sucessão de exames escritos com nota positiva, ninguém acredita.

Mas a Christina também quase não podia acreditar no que lhe contou um amigo americano, de 15 anos: na escola dele não há cadernos; todos os alunos vão para as aulas de laptop debaixo do braço. Escola privada, claro, onde se procura dar um atendimento personalizado a cada criança, ajudando-a a conseguir o máximo rendimento que lhe é possível, em vez de a obrigar a ir à velocidade dos outros.
E caríssima: os pais do rapaz trabalham ambos, só têm um filho, a casa já está paga. Fizeram uma hipoteca para pagar as mensalidades da escola.

24 maio 2006

incompletudes 4 - ou: o que é possível para uns, é desejável para todos?

Numa sociedade, nem tudo o que é considerado incorrecto é matéria de direito penal; nem tudo o que não é matéria de direito penal se transforma automaticamente num direito que tem de ser garantido e suportado financeiramente pela sociedade.

No limite, o raciocínio "se os outros fazem, eu também posso" leva ao fim da civilização: em vez de nos entendermos ao nível ético, passa a ser legítimo tudo aquilo que tiver algum precedente.
Penso que não é por aí.

Aceito que a vida não é perfeita - em sociedade nenhuma, em família nenhuma. E que as escolhas pessoais ocorrem dentro de um espaço de liberdade onde muitas vezes a carência prega rasteiras à consciência e ao mais elementar bom-senso.
Vivendo num contexto de imperfeição pessoal e social, cabe-nos escolher entre procurar um caminho ético que nos humanize (e é sempre uma busca, nunca um ponto de chegada), ou nivelar por baixo.
No caso concreto da fecundidade, o caminho passaria mais pela educação de todos para uma sexualidade responsável e para a tomada de consciência do imenso respeito que um filho merece. Apostar na consciência, e não no controle. E muito menos no "vale tudo".

O facto de haver mulheres que resolvem engravidar de um desconhecido não torna essa prática desejável ou eticamente aceitável - e muito menos obriga a Ciência e o Estado a oferecer a mesma possibilidade a mulheres que sofrem de esterilidade.
Contudo, se aceitássemos essa hipótese, qual seria a percentagem de casos precedentes necessária para haver quorum de mudança?
- bastaria haver a possibilidade de engravidar num one-night-stand para que o Estado fosse obrigado a pagar um tratamento de fertilidade a qualquer mulher single que é estéril, em nome da igualdade de oportunidades?
- ou seria preciso que, digamos, 10% das mulheres férteis tivessem uma criança de pai incógnito para isso se tornar um direito também das mulheres estéreis na nossa sociedade? Ou 5%? Ou 20%?

A propósito do argumento "se não penaliza umas, não pode penalizar as outras": quem disse que a sociedade não penaliza uma mulher que decide ter um filho de um homem que nem conhece e sonega ao filho a referência paterna? Não vai para a cadeia, isso não, mas será penalizada à mesma. O diagnóstico irá do maluca até ao puta irresponsável, passando pela fúria uterina. O choque, o escândalo, a incredulidade, a desconfiança, os murmúrios pelas costas, as críticas pela frente, as bocas de tangente. Os comentários e as perguntas da família, dos amigos, dos inimigos, dos conhecidos e desconhecidos. "Faz xixi na cama? Não admira, com aquela mãe...", "Faz birras? Pois, coitadinho, sente a falta do pai".
E depois a criança cresce e começa a fazer perguntas no infantário, na escola, no psicólogo - e toda essa gente pressiona a mãe, interroga, invade, acusa.

E já que estou a falar em penalizações: do que conheço nos quadros legislativos americano e alemão, nos casos de concepção pelos métodos tradicionais, os pais biológicos têm cada vez mais direitos/responsabilidades em relação à criança. Conheço mulheres que fazem os possíveis para expulsarem o pai da vida do seu filho, mas são obrigadas a conviver com esse "castigo".
Parece ser esse o entendimento geral: conta mais que a criança tenha acesso ao pai que o desejo da mãe se ver livre daquele homem que a incomoda.
De modo que este conselho de avó está cada vez mais actual: nunca durmas com um gajo que não consigas imaginar como pai de um filho teu.
E - não querem ver que afinal vou concordar com o CA?!... - se vale para as mulheres férteis, também tem de valer para as inférteis. Nunca aceites esperma de um gajo que não consigas imaginar como pai de um filho teu...


***

Aviso à navegação: amanhã é feriado, depois de amanhã é ponte. Deixei os célebres caixotes de lado, estou a fazer as malas. Volto na segunda.

incompletudes 3

Há dias assim: a autora do Contemplamento começou por reagir ao meu post "incompletudes", depois foi-se informar, reflectiu, a regressou com uma opinião mais fundada - não que seja igual à minha, mas é fruto de um trabalho honesto de pesquisa e interrogação. Se alguém achar que os blogs não servem para nada, venha cá ver este caso.
E eu fico com vontade de desligar o cérebro, e deixar que a Abrunho pense por mim e me indique o caminho.

Pelo que me apercebi, a discussão anda no Contemplamento ( I, II, III ), no Pontos de Vista, no Prozacland, e por aqui ( I, II).

E continua:

Abrunho,
Agora é a minha vez de reagir, confessando que o modo como falas dos técnicos, feitos agentes centrais da decisão, me provoca algum desconforto.
É sempre terrível invadir o campo da liberdade de uma pessoa concreta - que técnico teria a coragem e a maturidade para o fazer? Eles são apenas pessoas, como nós todos. Há sempre o risco de o médico se tornar um "cúmplice" dos futuros pais, e perder o distanciamento necessário. E os psicólogos? Não temos tantos exemplos de erros de avaliação com consequências trágicas? Por outro lado, tanto quanto sei, o papel do técnico seria colocar as questões que ajudem os futuros pais a ver as suas múltiplas ansiedades com mais clareza.
Contudo (!!!), se a opção é entre negar essa possibilidade a todas as pessoas que sofrem de infertilidade, ou aceitar que em determinados casos, avalizados por um técnico, se poderia considerar a PMA... vou pela segunda, claro.
A minha questão, como a tua, parece-me, não é negar à partida a possibilidade da PMA, mas definir os critérios para participação de terceiros numa gestação, protegendo antes de mais os direitos da pessoa que vai nascer. É fundamental que haja, como dizes, um projecto parental com potencial para formar uma criança saudável, feliz (depois podemos discutir o que é isto, que tem pano para muitas zangas).

Ao comparares este processo com uma adopção, abriste uma pista que me parece importante: nos dois casos, o binómio pais/filho é quebrado por um agente mediador, usando critérios semelhantes de "triagem".
Com uma ressalva: no caso da adopção, trata-se de remediar um mal que já é um facto (as condições precárias em que cresce uma criança concreta), enquanto que no caso da PMA essa vida não ocorre se não houver intervenção do agente mediador - e aí, não é eticamente defensável que terceiros (o Estado) participem na geração de uma pessoa, se sabem de antemão que vai crescer em condições precárias e causadoras de infelicidade.
Bem sei que a felicidade de uma criança não pode ser garantida à priori por nada, como o CA comentou num post teu. Concordo. Em compensação, há muitas maneiras conhecidas de lhe garantir a priori a infelicidade. E essas devem ser evitadas.

Tenho andado este tempo todo a evitar falar sobre os custos. Sei que os tratamentos são muito caros, mas isso não devia ser a questão central.
No entanto, há que lembrar que a sociedade é obrigada a fazer opções quando os meios financeiros disponíveis não chegam para todas as necessidades. Ou seja: sempre.
Por exemplo, se em Portugal há mulheres (com uma família "normal", seja lá o que isto quer dizer) que abortam porque não têm como sustentar mais um filho, que sentido faz deslocar os escassos recursos financeiros para ajudar outra mulher a ter um filho em condições que, sabe-se à partida, serão provavelmente fonte de muito sofrimento psicológico? (estou a falar da mulher sem relação estável e que exige um dador anónimo)
E numa perspectiva mais alargada: ao criar fundos para a pesquisa e a prática da PMA, deslocando-os da pesquisa de outras doenças, está-se a atribuir valores diferentes às pessoas. Aliás: não é por acaso que há mais meios para pesquisa e tratamento na área das doenças dos continentes ricos que na das doenças catastróficas que alastram em África.
Quais são os critérios dos gabinetes governamentais e das empresas farmacêuticas para decidir que salvar a vida de muitos africanos é menos importante que satisfazer os desejos de procriação de alguns europeus ou americanos?
Enfim, este argumento vale o que vale. Quantos africanos se podiam salvar se os membros do governo andassem de Fiat 127...

22 maio 2006

Era


... uma promessa, um sorriso a começar no

Lugar Comum A criança começara a andar, a dizer as primeiras palavras, a olhar para as coisas, ainda nem tinha esfolado os joelhos, nem sequer tinha tido sarampo...

Aos 3 Mosqueteiros e à Senhora D' Artagnan, um cumprimento especial por tudo o que vão partilhando connosco. Afinal, a vida é "vária e larga" pode bem crescer em muitos lugares.

18 maio 2006

incompletude 2

O espaço do blog é muito traiçoeiro.
Ao permitir escrever e gravar mais depressa que o pensamento, acaba por apresentar posts com ideias mal explicadas.
Peço desculpa aos leitores e reactores pela desnecessária agitação de neurónios e nervos, e faço aqui algumas adendas - a ver se nos entendemos melhor!


Começo por esclarecer que os dois posts que escrevi sobre este assunto foram influenciados por posts no Da Literatura, de que destaco:
- Uma pergunta de Eduardo Pitta: "E as mulheres sós? As que estão sós por opção, as que enviuvaram cedo, as que mandaram o marido às urtigas."
- Uma exigência, na carta para a Assembleia da República, de que "Todos os casais e todas as mulheres inférteis devem ter acesso às técnicas de Procriação Medicamente Assistida"
e que, associados, suscitam uma questão importante:

Há que perguntar se a renúncia ao outro no acto procriativo e como co-responsável na educação de um filho é um direito da mulher ou a expressão de um solipsismo crescente a evitar.
(texto completo aqui)


Para evitar o risco deste egoísmo que vitimiza a criança - os tais pruridos éticos - optei por uma provocação ...que me saiu pela culatra!

Retiro essa provocação, e reformulo a frase:

Uma criança que vai ser gerada por fecundação artificial
- tem o direito a um pai e uma mãe, co-responsáveis pela sua educação e pela envolvente parental sócio-afectiva
- tem o direito a conhecer a identidade dos seus progenitores biológicos.



E é melhor nem começar a falar em toda uma série de riscos na fecundação artificial
(agora misturo tudo: um casal ou uma mulher só, com um ou vários progenitores biológicos diferentes dos pais sócio-afectivos), tais como:
- a imposição de distância e anonimidade ao progenitor biológico (pode parecer fácil no caso do pai; mas que dizer de impor uma separação definitiva, por motivos contratuais, à "mãe hospedeira" que durante a gravidez criou uma relação intensa com a criança?)
- por falha dos serviços médicos, a criança gerada não corresponde à "encomenda" ("raça" ou sexo, por exemplo);
- a criança nasce com deficiência (se não me engano, já houve um caso de isso acontecer a uma criança que cresceu num útero emprestado, e que foi rejeitada pelos "futuros" pais)
- o pai não biológico vive em situação de sofrimento por ser estéril e saber que aquela criança não é biologicamente sua filha (não estou a inventar nada)
- o processo de fecundação artificial esgota e frustra o casal de tal modo (não estou a inventar nada), que a criança acaba por nascer num lar já muito desgastado.


***

Alguns desenvolvimentos, para quem tiver interesse e paciência:

Jurídico
- este artigo, sobre o direito à identidade genética.


Psicológico
Muitos psicólogos chamam a atenção para os riscos de mentir sobre as circunstâncias do nascimento, ou de ocultar a identidade do progenitor biológico.
A Psicologia também refere a importância fundamental de haver dois "actores" na vida da criança: para além riqueza de referências e modelos, a existência de um pai relativiza o poder da mãe, e vice-versa.
Não se trata, obviamente, de fazer juízos de valor sobre a qualidade das famílias monoparentais que surgem por força das circunstâncias, mas da sua desejabilidade, do ponto de vista do interesse da criança.

De um relatório americano sobre implicações sociais e psicológicas desta prática:
Issues for the Child
"Is the desire to have a child at whatever price more important than the self-esteem of the person you create?"
(New York Times Magazine, July 20, 1980, p 14).
It was largely through the efforts of adult adoptees that the various professionals and the public were made aware that this group had been denied certain basic rights and had been reduced to an inferior status by virtue of the secrecies involved in most of the adoption processes. Now we are seeing the same sort of situation arise in the case of AID and surrogate births, only the problem is even more complex.
"They need never know," one might say. But they frequently do find out in spite of the best attempts at secrecy. When they do find out they feel cheated and betrayed. And when they then try to find out the true story of their birth they often embark on a path marked by frustration and many unanswerable questions. The effect on the personality and behavior of an AID or surrogate child can be profound and lifelong.
We do not mean to imply that knowing the facts relating to the birth will insure a normal emotional development. Quite the contrary. Persons conceived by these means will always have some problems of adjustment and acceptance of their status but we do feel that they are better off knowing the truth from the outset.



Psicanalítica
Cada vez mais a procriação deixa de ser tratada como uma problemática simbólica, ficando reduzida à esperança de que se possa conquistar a reprodução sem sexualidade (SZAPIRO, 2002). As discussões sobre a clonagem falam desde um imaginário em que a questão do sujeito passa a adquirir um sentido absolutamente diverso daquele de um sujeito da intersubjetividade, nascido do encontro dos corpos de um homem e de uma mulher. Mas que lugar seria este fora da História, cabe-nos perguntar?
(...)
Em “Construções do feminino: um estudo sobre a ‘produção independente’ dos anos sessenta” (SZAPIRO, 1998), examinei, como mencionei anteriormente, a maternidade de “produção independente”, compreendendo-a como resultado da inflexão do paradigma individualista no discurso feminista. Este paradigma, aprofundando o modelo de um indivíduo universal, sugere uma igualdade entre homens e mulheres, na dimensão de uma autonomia jurídica (SIMMEL, 1971) que sugere um apagamento da diferença sexual do ponto de vista simbólico e induz, assim, à reprodução do “mesmo”.
Impõe-se aqui uma interrogação: como, a partir do pensamento binário, pode ser ainda possível pensarmos a questão da transmissão e o lugar da filiação? Como articular a problemática da transmissão nas novas concepções de família contemporânea
?
(texto completo aqui)


Alguns testemunhos de pessoas nascidas nessas condições:

Margaret Brown:
"Tenho um sonho recorrente: me vejo flutuando no meio da escuridão enquanto giro cada vez mais rápido em uma região sem nome, fora do tempo, quase não terrenal. Fico angustiada e quero pôr os pés no chão. Mas não há nada sobre o que plantar os pés. Este é meu pesadelo: sou uma pessoa gerada por inseminação artificial com esperma de doador e nunca conhecerei metade de minha identidade. (...) Sinto raiva e confusão e me vem milhares de perguntas: De quem são os olhos que tenho? Quem pôs na cabeça de minha família a idéia de que minhas raízes biológicas não importavam? Não se pode negar a ninguém o direito de conhecer suas origens biológicas".
Texto tirado daqui. O artigo (Whose Eyes are These, Whose Nose?) foi publicado originalmente em 1994 na Newsweek magazine

Outros testemunhos (lista tirada daqui):

A Spermdonor Baby Grows Up - Suzanne Rubin (1983) Excerpt from “The Technological Woman.”
I Finally Figured it Out - Baran & Pannor (1989) Excerpt from the book “Lethal Secrets”
A Call for Openness in Donor Insemination - Candace Turner (1993) Politics & Life Sciences
Looking for a Donor to call Dad - Peggy Orenstein (1995) The New York Times magazine
Sperm Donors Missing in Action - Paula Goodyer (1996) Elle magazine
Issues for Donor Inseminated Offspring - Lauren Taylor (1996) Presented at the Donor Issues Forum in Sydney
I Don’t Know Who I Am - Nicole Robinson (1997) The Sun-Herald
Search for Donor Dad - Helen Carter (1998) Herald Sun
Where Did I Come From? - Kathy Evans (1999) Sunday Life
A Personal Story of Blood & Belonging - Janice Stevens Botsford (2000) DC Network News
Where’s My Father? - Martin Daly (2000) The Sunday Age
Donor Dads Step out of the Shadows - Geesche Jacobsen (2001) Sydney Morning Herald
Yule not regret Seeing Sons - Fiona Hudson (2001) Herald Sun.
Give Me My Own History - David Gollancz (2002) The Guardian
My Father? - Nina Burleigh (2002) The Redbook magazine
Who’s My Birth Father? - Susan McClelland (2002) MacLean’s magazine
Speaking for Ourselves (2003) - Quotes from men & women created by DI.


Finalmente, os pareceres do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida
- nº 44, sobre procriação medicamente assistida (Julho 2004)
- Relatório-Parecer sobre reprodução medicamente assistida - 3/CNE/93
fazem uma análise bastante equilibrada deste tema.


***

E para o Miguel, uma explicação sobre egoísmo:
Penso que uma criança deve nascer da livre vontade e do amor de um homem e uma mulher, e que a articulação desses dois sujeitos é fundamental para o seu crescimento equilibrado e para o seu bem-estar.
Desconfio de uma mulher que decide ter um filho, mas de antemão lhe recusa um pai. Não se quererá sujeitar ao diálogo/confronto com o pai da criança? Quer um filho só dela, mesmo que isso possa provocar sofrimento à criança?
É a isso que chamo egoísmo.
E, como dizia a outra: "a reprodução medicamente assistida deverá limitar-se a ultrapassar obstáculos de ordem biológica ou psicológica na capacidade procriativa de alguns casais ou destinar-se-á a satisfazer todos os desejos que o ser humano for capaz de se pôr a si mesmo?"

***

PS (só para o Miguel): deves-me cinco caixotes!

17 maio 2006

incompletudes

Há dois pontos fundamentais que me incomodam na Carta Aberta aos Deputados, subscrita pela comissão instaladora da Associação Portuguesa de Infertilidade (via Da Literatura):

1. A referência ao desastre demográfico europeu e a falência do modelo de segurança social - parece-me que estão a confundir dignidade da criança e produção filhícola.
Confesso que ouço muitas vezes esse argumento aqui na Alemanha, e sempre me surpreende: há alguma diferença entre um filho e um seguro poupança-reforma; e, já agora, se estamos a falar em termos economicistas: um seguro poupança-reforma fica bem mais barato que um filho.

2. A defesa dos interesses das mulheres, sem qualquer referência aos interesses da criança.

Para discutir:
- Não é importante para uma pessoa saber quem é/era o seu pai? Mais: não devia isso ser um direito?
- Não é importante para uma pessoa saber que nasceu do desejo e do amor de um homem e uma mulher, ambos com nome concreto, história e raízes? Não é importante conhecer todas as circunstâncias da sua origem?

Para não me acusarem de conservadora e preconceituosa, dou já de barato que não faço questão que os pais estejam casados. Basta-me que o dador de esperma assuma a paternidade da criança que vai nascer, e todas as responsabilidades inerentes, inclusivamente a económica. Que seja claro que os progenitores biológicos têm deveres iguais em relação à criança, e a criança tem direitos iguais em relação a ambos.
Pois. Se for assim, fico logo com uma série de pruridos éticos resolvidos.

Pensando bem, desarrisca: pois se num casal há o problema da infertilidade masculina, porque é que o desgraçado do dador do esperma, que o faz para ajudar o casal, há-de ficar para sempre preso àquele filho e àquele casal?!
Pensando bem, arrisca de novo: e porque é que este filho há-de ficar para sempre preso ao enigma do seu pai biológico?!
Como é que isto se resolve a contento de todas as partes interessadas?

Dirão, com certeza, que há muita miséria por esse mundo: crianças resultantes de violações ou one-night-stands, crianças vítimas de toda a espécie de suplícios, crianças orfãs, etc.
Pois há - mas o facto de existir não torna a miséria desejável, razoável, ou sequer normal.
E - chamem-me retrógrada, se quiserem - considero que é uma miséria profunda responder à criança que pergunta quem é o seu pai biológico, "não sei, vieste de um banco de esperma".

16 maio 2006

Convite!

«Walk the World 06» em Portugal

Marcha e Corrida Contra a Fome

Dia 21 de Maio de 2006 às 10h00.

Lisboa:
Torre de Belém – Docas

Porto:
Cais de Gaia – Passeio Alegre


Açores
:
Ilha S. Miguel / Ponta Delgada =; Portas da Cidade – Junto à camada da Shell

Ilha Faial / Horta; Peter Café Sport Café Sport – Cais de Santa Cruz


A Marcha Mundial Contra a Fome – Walk the World – é uma manifestação global anual destinada a promover a sensibilização e recolher fundos para os programas internacionais que combate à fome infantil.

Walk the World é um projecto promovido pela TNT e pelas Nações Unidas – World Food Programme, com o objectivo de minimizar as carências alimentares e educacionais das crianças de todo o mundo.
Em Portugal a Marcha e Corrida contra a Fome contará com a presença de Rosa Mota e Carlos Lopes.

Em 2005, participaram na Marcha 201 mil pessoas, em 266 lugares de 91 países, distribuídos nos 24 fusos de horários do planeta, recolhendo fundos suficientes para alimentar 70 mil crianças em idade escolar por um período de um ano.

Este ano, o objectivo é reunir pelo menos 750 mil participantes em todo o mundo e 20 mil em Portugal, no dia 21 de Maio às 10h00.

A campanha Pobreza Zero uniu-se a esta iniciativa.

Tu podes fazer a diferença – junta-te a nós na Marcha para a erradicação da fome infantil e divulga esta causa!


Inscrições


Lisboa:

- Balcões Bes: Av. Liberdade e Pç Londres.

- Lojas Sportzone

- Amoreiras Shopping Center, 1070 Lisboa

- Armazéns do Chiado, 1200 Lisboa

- C. C. Colombo, 1500 Lisboa

- C. C. Vasco da Gama, 1998 Lisboa

- Cascais Shopping, 2645 Alcabideche

- Loures Shopping, 2670 Loures

- Floresta Center, 2725 Tapada das Mercês

- C.C. Feira Nova, 2745 Rio de Mouro

- Oeiras Parque, 2770 Oeiras

- Forum Almada, 2800 Almada

- C.C. Feira Nova, 2830 Barreiro

- Qta. Nova do Judeu, 2840 Seixal

- Forum do Montijo, 2870 Montijo

- TNT: Rua C, Edifício 77 Aeroporto de Lisboa (Junto ao Instituto de Meteorologia) ouParque das Nações, Torre Zen, Av. D. João II, Lote 1.17.01 (em frente à IBM, ao lado do balcão do Santander).

No próprio dia no local da partida.


Porto:

- Balcões Bes: Av. Aliados e Rot. Boavista

- Lojas Sportzone:

- Forum Aveiro, 3800 Aveiro

- Via Catarina Shopping, 4000 Porto

- C. C. Dolce Vita, 4300 Porto

- Arrábida Shopping, 4400 Vila Nova de Gaia

- Lugar da Telheira, 4400 Vila Nova de Gaia

- Maia Shopping, 4425 Águas Santas

- C.C. Parque Nascente, 4435 Rio Tinto

- C.C. NorteShopping, 4460 Senhora da Hora

- Edifício Sonae, 4630 Marco de Canaveses

- Viana Estação, 4900 Viana do Castelo

- TNT:

Rua do Barreiro, 200, Urb. Boa Viagem II, Moreira da Maia

No próprio dia no local da partida.


Açores / Ponta Delgada:

- Balcão Bes: R. Indice Ribeiro

- Loja Sportzone: C.C. Parque Atlântico, 9500 Ponta Delgada

- No próprio dia no local da partida.


Açores / Horta:

- Balcão Bes:

- R. Vasco da Gama

- Peter Café Sport

- No próprio dia no local da partida


Mais informações em:

www.tnt.com
ou www.pobrezazero.org

cuidado comigo

De manhã bem cedo, ao ler no Da Literatura o post sobre procriação médica assistida,

"E as mulheres sós? As que estão sós por opção, as que enviuvaram cedo, as que mandaram o marido às urtigas. São cidadãs de segunda?"

ocorreu-me um disparo, mais que uma ideia: bem, se a questão é posta desta forma, o melhor é darem-lhes um Nenuco - que uma criança é muito mais que um direito.

Passei para o Cibertúlia, deparei-me com um Miguel quase gago de Summertime.
Fui ouvir, concordei logo que não estava mal - para sonata de chuveiro.
E mais um disparo: aposto que não se arrepiava tanto se a cantora fosse uma mocinha do género desta.



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Eu hoje acordei assim, e parece ser um daqueles dias em que nem devia ter saído da cama.

Tenho de ter muito cuidado comigo: se morder a língua, morro envenenada.

mais feng shui

Outra regra importante: deve-se trabalhar sentado de costas para a parede (nunca de costas para uma porta ou uma janela, que são zonas de fluxo e por isso nos enfraquecem); na parede, por trás da cadeira, deve haver uma imagem de uma montanha, para dar força.

Se a moda pega, os posters de montanhas nas paredes dos escritórios vão-se tornar um lugar tão comum como as gravatas vermelhas nos políticos em campanha eleitoral.

15 maio 2006

feng shui

Comprei um livro de feng shui sobre como se desimpedir de pesos mortos para
libertar o chi. O blablabla do costume, muito yin e muito yang, e deite
fora tudo o que não usou nos últimos dois anos, etc.

Estão malucos! Pois se foi tão caro! E se eu engordar um bocadinho, isto serve-me outra vez, e se eu emagrecer um bocadinho aquilo serve-me outra
vez.

É verdade que já enchi três caixas de mudanças e ainda estou longe de chegar
ao fim da roupa de inverno. Mas reencontrei aquela camisola que usei no
Natal de 1985, ai que saudades, no tempo em que ainda se chamava pulóver.

E os jornais comprados em momentos históricos (são todos) e as revistas estrangeiras cheias de artigos inteligentes que me interessam muito?!
Como faço quando tiver tempo para ler, se no entretanto me tiver desenvencilhado daquelas três pilhas que pacientemente esperam por mim?


Preparei uma caixa para as coisas que vou deitar fora.
Lá no fundo, sozinho, repousa o livro de feng shui, com o chi murcho.

***

Que tratou logo de se vingar, e transmitiu por ondas de energia yin a sua mensagem desimpeditiva à Céu.
(será um caso de "vingança do chinês"?)


Fazer o quê?

Plano A: começar de novo, e contar comigo, vai valer a pena, etc.

Plano B: ir vasculhar nos rascunhos que não apaguei, compor uma intermináveis tripas mensais, e arquivar no blog. Céu - dá para fazer isso? Será que vale realmente a pena, ou é apenas um reflexo inútil de restauração?

Em todo o caso, há coisas piores na vida.
Ó aqui, por exemplo:

Que reste-t-il de nos amours
Que reste-t-il de ces beaux jours
Une photo, vieille photo
De ma jeunesse
Que reste-t-il des billets doux
Des mois d' avril, des rendez-vous
Un souvenir qui me poursuit
Sans cesse


Importante mesmo é a moral da história: o feng shui é um bicho perigoso, rancoroso, implacável.
A partir de hoje vou experimentar shabby chic.


(e tratar de guardar os arquivos em cd-rom, inclusivamente os comentários)

(hehehe, nem tudo é mau: agora posso voltar a contar as mesmas histórias, já ninguém tem como provar que me estou a repetir, hehehe)

14 maio 2006

limpar a casa

O espaço no no Blog era já apertado e meti mãos à obra. Num movimento (aimeuDeus!) ... desastradamente... limpei, ou antes, demoli tudo.
Helena, os teus posts... ai, ai, desculpa!
Amigos, podem descontar-me o ordenado deste mês, despeçam-me, sei lá!
Tentarei repor o máximo que puder, mas o que escreveram já não é possível.

Aos nossos leitores, também deixo um pedido de desculpas.