24 maio 2018

Fox! ó Fooooooox!





O Fox nunca me teve muito respeitinho. Mas agora que vive com o Matthias, e sabem ambos quem manda, é que não me tem mesmo respeitinho nenhum. Veio cá passar o fim-de-semana prolongado, e logo no primeiro dia fugiu-me duas vezes. Enfim, ele deve pensar que não está a fugir, está apenas a ir à sua vida, e que ninguém me manda parar a conversar com uma vizinha ou a tirar fotografias quando ele tem outros planos para o seu tempo.

De modo que toda a rua sabe em que dias o Fox está cá: é quando eu ando por aí a gritar "Fox! ó Foooooox!"

Valem-me os vizinhos, que avisam: foi por ali, foi por acolá, não passou aqui.
Vale-me ele saber o caminho de casa: depois de eu dar uma volta inteira ao lago à procura dele ("Fox! ó Foooox!"), vou encontrá-lo calmamente deitado na relva do jardim, à minha espera.
E vale-lhe eu regressar a casa já com o filme todo na cabeça ("ai, coitadinho do Fox, quem será que o levou e como o vão tratar, logo ele que é tão sensível, etc."), e ficar tão contente por o ver em casa que nem ralho nem nada. Ele vê-me chegar, abana a cauda - e eu, se cauda tivesse, fazia o mesmo.




23 maio 2018

se isto é a Europa (2)

(fonte)

Marcaram para hoje o funeral da pequenina de dois anos que morreu na semana passada numa cena de perseguição a um veículo cheio de refugiados. Chamava-se Mawda, era curda, e a sua família estava a tentar passar de um centro de refugiados perto de Dunquerque para a Grã-Bretanha.

Ao fim de vários dias, finalmente deram a palavra ao pai da menina, que conta assim a sua versão dos factos: a carrinha estava a ser perseguida por quatro carros de polícia, dois atrás e um de cada lado. A família da menina estava sentada no banco da frente. As pessoas que iam na parte de trás da carrinha partiram os vidros da porta para mostrar à polícia que havia crianças entre elas. A bala que matou a menina foi disparada de um carro à sua esquerda, e era destinada ao condutor.

A polícia confirma que a matrícula do veículo foi motivo de suspeita, e que o condutor não respeitou a ordem para parar. Seguiu-se uma perseguição com vários carros de polícia por mais de 60 km. No momento em que o agente disparou, os carros iam a 90 km/h.

Depois de ler o dossier do caso, o advogado dos pais afirma que a versão destes é largamente confirmada, que os refugiados não tinham armas, e que a arma do polícia - ao contrário do que fora noticiado - não tinha sido disparada em autodefesa num momento em que o veículo estaria a carregar sobre os agentes de uma operação stop.

É este o ponto da situação hoje.

Nas primeiras notícias sobre esta tragédia, há seis dias, antes da autópsia, punham-se as hipóteses de a criança já estar doente ou até morta quando entrou na carrinha, de ter sido vítima da condução brutal durante a fuga, ou atingida por uma arma dos refugiados. Um porta-voz da procuradoria chegou a afirmar que a bala fatal não fora disparada pela polícia. Uma voluntária de um centro de refugiados disse que "é prática corrente deles usar crianças como escudo, para dissuadir os polícias da perseguição". E louvou-se a polícia, que tem a difícil missão de interceptar os traficantes. Disse-se ainda que os ocupantes da carrinha tinham sido detidos e estavam a ser interrogados, podendo vir a ser acusados de entraves de má-fé à circulação, de homicídio e de tráfico de humanos. Ou seja: perante uma tragédia destas, o primeiro impulso das instituições, dos políticos e dos jornalistas foi defender a polícia e tratar as vítimas como se fossem os criminosos. 

Essa reacção impulsiva tem lugar apesar de esta perseguição mostrar o absoluto desprezo dos agentes pela vida humana: mesmo sabendo que há muitas pessoas dentro da carrinha, fazem-lhe uma perseguição à maneira dos filmes americanos e disparam sobre o condutor de um veículo que vai a 90 km/h.

Por sua vez, as primeiras notícias põem a nu uma imagem dos refugiados que não nos custa aceitar: mentirosos e manhosos que levam uma criança morta e tentam disfarçar, violentos armados capazes de tudo, bárbaros que usam os próprios filhos para se protegerem da polícia. Façamos um pequeno exercício de imaginação: se tivesse sido uma carrinha cheia de europeus brancos perseguida por um gang, como reagiríamos se alguma autoridade do Estado ou um jornalista pusesse a hipótese de a criança já estar morta quando as pessoas entraram na carrinha, ou de ter sido usada pelos pais como escudo humano, ou de ter sido morta por algum dos outros passageiros?  

É isto que mais me choca e envergonha nesta história, nestas histórias: pessoas que fogem para longe do seu país para viver em segurança (*) e dar uma vida em segurança aos filhos, e acabam por ser vítimas da polícia e da política numa União Europeia que se diz muito respeitadora dos Direitos Humanos mas nem repara nos preconceitos que fazem o enorme muro entre "nós" e "eles".  


(*) E não tenho problema nenhum em incluir aqui a segurança económica porque, como já disse várias vezes, também nós, portugueses, andamos há séculos a emigrar para ter uma vida melhor. Não há como aceitar que somos um país de diáspora e negar aos outros a mesma oportunidade. 


um racismo tão natural que nem notamos



O Matthias mostrou-me este vídeo com passagens da transmissão do casamento de Meghan e Harry na ZDF. Em tradução muito rápida e muito livre:

Como eles nunca chegarão a rei e rainha, podemo-nos dar ao luxo de aceitar um par assim exótico / ela tem raízes afro-americanas // penso que a rainha fecha os olhos e deixa passar Meghan // a origem da noiva: foi algo que chocou a Grã-Bretanha? // oh, a Inglaterra está habituada aos casais mais invulgares! É uma sociedade muito misturada // Harry escolheu uma mulher de um tipo muito diferente: é mais velha que ele, já fez uma carreira considerável, e - naturalmente - a questão das raízes afro-americanas // ... e tem uma mãe afro-americana - tudo isso faz parte da noiva, e torna esta relação tão especial // é este espírito afro-americano que está a entrar na família real por meio deste casamento // dantes, uma mulher destas servia apenas como amante // Stand by Me foi tão bem cantado, tão preto, cantado de forma tão fantasticamente preta.  

Respondi ao Matthias:
- Vou-te contar o pior de tudo: assisti durante várias horas, e não reparei. Até fui reler o post que escrevi sobre o casamento, a ver se tinha caído na mesma armadilha.

Resposta dele:
-
Haha não faz mal, às vezes é muito subtil. E sobretudo estavas adrenalizada hehe

("Adrenalizada". Se calhar já o deserdava, ao engraçadinho.)


casamento real - a vez do contraditório






Tinha estas fotos guardadas para publicar no post anterior, mas esqueci-me. Deixo-as agora, bastante a despropósito.

O meu post sobre o casamento de Meghan e Harry deve ter sido um dos mais lidos deste blogue. É isto a minha vida: o tanto esforço investido a escrever posts que acrescentem alguma coisa a este mundo vale-me umas poucas centenas de leitores (a minha eterna gratidão para cada um destes!), mas se partilho duas carinhas larocas na encenação perfeita da sua felicidade, caem-me aqui os curiosos como moscas no mel. O que é que estou a fazer mal? Razão tinha a minha avó: este mundo está roto, chove nele como na rua...

Também gosto destes momentos de evasão - e tanto, que reservei o sábado passado para saborear o casamento real. Mas gosto ainda mais dos outros temas que vou partilhando neste blogue - e tanto, que todos os dias volto a eles. Pelo que me surpreende o sucesso tão maior deste post, e dou comigo a ceder à tentação de passar para o lado dos que escreveram artigos críticos a este casamento. Por exemplo: Marriage of Myths, It's not Harry and Meghan - it's the monarchy I oppose, When we cheer the royals, democracy suffers. What a retrograde moment. Muito resumidamente, dizem que Meghan está a ser sugada para dentro da instituição que não respeita os direitos mais básicos dos seres humanos e não respeitará a sua individualidade, que este encanto proporcionado pelo casamento mediatizado é um dos factores de alienação que permitem perpetuar o que está errado, e que a entrada de Meghan na "Firma" e aquele sermão genuinamente cristão não passam de uma cínica cedência do sistema, uma cedência que faz parte da estratégia de sobrevivência deste.

Concordo com a maior parte do que dizem, mas pergunto-me por que motivo tinham de o dizer agora. Se era para dialogar, deviam esperar um pouco - os que gostaram de se deixar arrebatar pelo show não estão com cabeça nem disposição para falar racionalmente sobre o tema. E se é para se elevarem acima da populaça, podem juntar-se aos antipáticos que desataram a dizer mal do futebol no dia em que o Ronaldo marcou um golo que foi pura arte. Há um momento para criticar, e há um momento para deixar as pessoas festejarem sem complexos o que lhes dá prazer.

Aproveito a metáfora da minha avó: se a chuva que nos cai dentro de casa é a constante da vida, acredito que momentos como o deste casamento sejam os baldes providenciais debaixo das goteiras que permitem limitar os estragos e continuar a viver nestas condições. Atire a primeira pedra quem nunca se refugiou no álcool ou noutras drogas, no clubismo, nos rituais de grupo.

Não tenho (não temos) de pedir desculpa por esta interrupção.
A programação continuará dentro de momentos.


21 maio 2018

casamento real - a reportagem em diferido, pela vossa correspondente em Berlim

No sábado passado fiz mais um intervalinho nas coisas deste mundo louco em que vivemos, e ofereci umas boas horas de spa à minha futilidade, que também tem direito à vida. Uns gostam de pão e circo, outros de futebol, e eu, olhem, são estas pomposas encenações da felicidade, preparadas até ao mínimo detalhe, que me servem de alienação.

Nem sei por onde começar a contar o que mais me agradou no casamento de Meghan e Harry, e me acrescentou algumas rugas de sorriso às bastantes que já cá cantam. Sem tempo para organizar uma estrutura para o texto, vai ao correr do evento propriamente dito:

Um enviado alemão entrevista os fãs que esperam o carro da noiva. À sua volta, milhares de pessoas em grupos entusiasmados e alegres. Uma senhora diz: "she brings the world closer together".
Está dado o mote: isto é muito mais que um casamento real - isto é uma lufada de século XXI na monarquia britânica.

Mais século XXI: o pescoço escuro de David Beckham a espreitar por cima do colarinho imaculado. Tatuagens e fraque, hehehe.


A entrada da noiva (a partir de 1:45 no filme). Na falta de um pai ou um irmão para cumprir a tradição de a acompanhar ao entrar na igreja, esta mulher sobe as escadas e avança pela nave central sozinha - de cabeça erguida, confiante e calma, orgulhosa, perante centenas de milhões de pessoas que a vêem no mundo inteiro. Mais um ponto para o feminismo.



A soprano Elin Manahan Thomas canta "Eternal source of light divine", de Handel.

Eternal source of light divine
with double warmth thy beams display,
and with distinguish'd glory shine,
to add a lustre to this day
.

A mãe da noiva chora.
Esta mulher não se disfarça em nada: não tingiu os cabelos que embranquecem, não fez um penteado de branca, não tirou os piercings das orelhas e do nariz. E chora docemente durante todo o casamento. Não é a figurante que dá pelo nome de "mãe da noiva", é Doria Ragland: uma mulher que se assume.
O príncipe Harry já o tinha dado a entender numa entrevista, quando disse "she is amazing". Disse-o com tanto brilho nos olhos que fiquei curiosa para saber como será a sua sogra. Vejo-a, e penso com os meus botões que Diana se entenderia muito bem com Doria Ragland. Logo a seguir dou-me conta de que também eu fui apanhada pelo espectro de Diana, que não larga esta família.


O príncipe Carlos recebe Meghan a meio da igreja, e leva-a ao noivo. "Obrigado, pai", diz este. Quase parecem uma família igual a todas as outras. Depois, Harry levanta o véu da noiva. Ele está nervoso e comovido, ela parece muito segura e sorri-lhe com ternura. Clic, clic, fantástica fotografia.

Durante toda a cerimónia ela continuará segura e doce, ele nervoso. Em termos de preparação para as luzes da ribalta, parece que Hollywood dá 10 a 0 a Buckingham. Ou então é por ser esta mulher a noiva, e este homem o noivo, e este o casal. Vejo os gestos tranquilizadores da mão dela nas dele e só me ocorre a frase da canção de Caetano: "eu sou seu bezerro gritando mamãe".

"Harry, will you take Meghan to be your wife? Will you love her etc. etc.?"
"I will", diz ele. Uma pausa curta, ele ri-se, todos riem. Ando há dois dias a tentar compreender este momento, e a única explicação que me ocorre é que  terão ouvido dentro da igreja o eco dos aplausos entusiásticos dos milhares de pessoas lá fora. Bringing the world closer together.

A irmã de Diana lê, do Cântico dos Cânticos (onde terá aprendido a ler tão bem?):

Fala o meu amado e diz-me:
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam perfume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
(...)

Grava-me como selo em teu coração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a paixão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.
Nem as águas caudalosas conseguirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submergir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com desprezo
.



Mais um cântico - aquele coro infantil é qualquer coisa! - e é dada a palavra ao reverendo Michael Curry. Sobre este sermão, leiam antes quem sabe: o Manuel Pinto, no Religionline.
Em mais de meio milénio, suspeito que as paredes daquela igreja alguma vez tenham visto algo assim. Poderosíssimas, as frases simples - por vezes até infantis - transportando o maior dos desafios. E também o à-vontade, a mímica, o humor. Impávida, a rainha ajeita as costas. A princesa Beatriz - parece ter-se esquecido que tem câmaras viradas contra ela - ri-se e espreita a reacção dos familiares. Doria Ragland anui a cada frase, deve estar a repetir "ámen!" em silêncio. Harry parece tenso, Meghan sorri. Ela, como o reverendo, é descendente dos escravos que cantavam "there is a balm in Gilead" (ouçam aqui, é lindíssimo), esses que mesmo nas trevas do cativeiro acreditavam no poder transformador do amor. Ele fala perante os nobres do Reino Unido, os descendentes daqueles que colonizaram e escravizaram. Fala-lhes de amor, do poder redentor do amor, da necessidade de reinventar o fogo: um amor que mude o mundo. Fala-lhes do futuro que está nas nossas mãos construir.

Por uns momentos pensei no pastor Christian Führer a falar das orações para a Paz que organizou na Nikolaikirche em Leipzig. No dia 9 de Outubro de 1989, dois dias depois das tensas comemorações do 40º aniversário da RDA, vieram-lhe dizer que a igreja estava cheia de membros da Stasi e do Partido Comunista, e ele alegrou-se com essa magnífica oportunidade para dar a conhecer a essas pessoas a mensagem do sermão da montanha. Do mesmo modo, o reverendo Michael Curry aproveitou o palco deste casamento mediático e deslumbrou com um sermão de cristianismo puro.    



O reverendo cala-se. No extremo oposto da igreja o Kingdom Choir começa a cantar Stand By Me. É então que reparo na magnífica luz daquele dia - a luz que transforma este momento numa sucessão de quadros vivos. A luz no cabelo prateado e no vestido de Karen Gibson, inesquecível. A luz no rosto dos cantores e nos tons pastel das suas roupas. A luz que desenha aquela maestrina, aquela maestríssima, contra o mar de chapéus de senhoras e as paredes escuras, e faz brilhar a energia da sua direcção.




Ecumenismo e quotas nas orações finais: um bispo ortodoxo copta, uma mulher negra a representar a Igreja Anglicana.

Canta-se "Guide me, O thou great Redeemer", um dos cânticos favoritos de Diana.
Harry comove-se. Este cântico também se ouviu no funeral da sua mãe, tinha ele 12 anos.

Depois da bênção final os noivos retiram-se para as assinaturas. O violoncelista Sheku Kanneh-Mason toma lugar no centro da igreja para tocar três peças.





O príncipe William escusa de me pedir para o levar à Filarmonia, que eu bem o vi na converseta com o pai durante este pequeno concerto. Já estou a imaginar a cena: nós os dois sentados nos bancos por trás da orquestra, o concerto a ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall, e o príncipe William a querer meter conversa comigo entre os andamentos de cada peça. Ainda me deixa ficar mal! Não, não: ele que arranje outra pessoa para o levar à Filarmonia.

À saída da igreja, a luz de novo. Aquela magnífica luz a esculpir o vestido da noiva a cada um dos seus passos.


Alguns apontamentos finais:

* Quanto mais penso no vestido da noiva, mais gosto. A princípio não consegui abstrair do que me pareceu mau corte na zona do peito e dos braços. Será que Meghan emagreceu? Que é aquilo?
Mas o vestido é todo um tratado de minimalismo e bom gosto. Do melhor que conheço dentro do género "vestido de casamento", porque se reduz ao papel de moldura para o brilho da noiva, em vez de ser a peça espampanante que tudo ofusca.

* Diana, sempre e sempre: presente até no ramo da noiva, nas forget-me-not que Harry colheu no dia anterior nos Kensington Gardens. Imagino o príncipe a juntar as flores para o bouquet e penso no cartão que escreveu com letra infantil para pôr numa coroa de flores sobre o caixão de Diana:  "mummy".
(...gritando "mamãe")

* Meghan está longe de ser um caso de rapariguinha elevada ao estrelato pelo amor de um príncipe. Neste casamento mostrou-se como uma mulher forte e confiante, entrando no casamento como uma igual e não como uma feliz eleita. Talvez até mais ainda: como o esteio deste homem que nasceu e cresceu em condições trágicas, que perdeu a mãe aos 12 anos, que teve de atravessar a adolescência e o luto sob as câmaras impiedosas dos paparazzi.

* Quotas até dizer chega: uma mulher a dirigir um coro, uma peça composta por uma mulher, uma mulher entre os religiosos que participaram na cerimónia, uma mulher a fazer a leitura da Bíblia. Um bispo negro, um coro gospel, um jovem violoncelista negro.


Em suma: queridos membros da "The Firm", bem-vindos ao futuro.


20 maio 2018

Noura Erakat, advogada de Direitos Humanos, sobre o massacre em Gaza e o problema de Israel

Os melhores nove minutos desta semana (e estou a incluir a homilia do casamento de Harry e Megan).




19 maio 2018

hoje acordei salomónica (2)

A ideia despachada e simples que tive há dias (contei aqui) de deixar que uma das partes divida o antigo território palestiniano em dois lotes, e a outra parte escolha com qual dos lotes quer ficar parece uma solução muito justa para resolver o problema de Israel e dos palestinianos mas - obviamente - não é possível. Como é que os israelitas conseguiriam abrir mão do tanto que lá construíram, como poderiam ser obrigados a escolher entre Telavive e Haifa, por exemplo? Impensável. Setenta anos depois, tudo mudou. Não se pode obrigar os israelitas a deixar as suas casas, as suas aldeias, as suas cidades, as suas empresas, as suas escolas, a sua geografia. Impossível. É exigir demasiado. 

Mas foi isso mesmo que fizeram aos palestinianos em 1947. O mapa da ONU deu mais de metade da Palestina aos judeus, o que acabou por forçar os palestinianos a deixar as suas casas, as suas aldeias, as suas cidades, os seus olivais, os seus limoais, a sua geografia.

O que seria impensável impor hoje aos israelitas, foi há 70 anos imposto aos palestinianos. E como eles não quiseram aceitar, deram-lhes o nome de terroristas. A somar a todas as outras abjecções de que os palestinianos foram vítimas: o inacreditável cinismo da campanha de relações públicas conduzida por Israel e os seus aliados.

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Há centenas de milhares de famílias que podem contar histórias como esta que Elias Chacour, um palestiniano cristão e árabe, conta no seu livro Blood Brothers. Muito resumidamente: em 1947, os anciãos da sua aldeia de maioria cristã, Biram, recomendaram a todos que abrissem as portas para acolher os judeus sobreviventes do Holocausto. Esta generosidade foi aproveitada pelos hóspedes para instalar nas casas deles os soldados que haviam de os expulsar da sua própria aldeia. Um dia, o comandante do grupo, manhoso, avisou a população da aldeia de que corria sérios riscos. Os seus soldados iam protegê-los, mas era conveniente que saíssem da aldeia por alguns dias, até passar o perigo. Sem nada para além da roupa que traziam no corpo, a família de Elias Chacour abrigou-se num olival, e esperou. Alguns dias mais tarde, estranhando a falta de sinais do comandante israelita, um grupo desceu à aldeia - e viu as casas saqueadas, os objectos domésticos espalhados pelas ruas, esmagados. Os soldados apontaram-lhes as armas, e proibiram-nos de voltar àquele lugar. A família de Elias Chacour conseguiu encontrar abrigo numa aldeia vizinha, também de cristãos. Alguns dias depois, soldados israelitas entraram nesse refúgio e mandaram juntar todos os homens na praça central, acusando-os de serem rebeldes, terroristas palestinianos, e exigindo que lhes dessem as suas armas. Como ninguém tinha armas para entregar, foram obrigados a ficar de pé à torreira do sol a tarde inteira, sem água, sem nada. Ao anoitecer deixaram finalmente que os homens regressassem a casa. O pai e os irmãos do pequeno Elias estavam exaustos. Ninguém ousou acender luzes na casa, ou cozinhar o jantar. Permaneceram no escuro, aterrorizados. O pai ficou alguns momentos com cada um deles, em silêncio. Elias pressentiu que estava a rezar por eles. Um pouco mais tarde, um barulho ensurdecedor espalhou-se pelas ruas desertas. Os soldados estavam de volta, e usavam megafones para ordenar que todos os homens saíssem das suas casas. A mãe despediu-se do marido e dos três filhos mais velhos, que foram metidos em camiões. Na aldeia ficaram as mulheres com os bebés e os filhos mais pequenos. Quando os camiões arrancaram, o megafone anunciou: "Estamos a levar os vossos terroristas. É isto que acontece a todos os terroristas. Nunca mais os voltarão a ver."
Os camiões levaram-nos até à Síria, e largaram-nos nesse país. Durante três meses, os homens caminharam de regresso a casa. Mal recebidos pelos outros árabes que encontraram no caminho, passaram fome e sede. Quando chegaram a casa vinham esqueléticos e andrajosos. Mas estavam vivos, e de novo com a família.
Uns anos depois, em Dezembro de 1951, a antiga população de Biram conseguiu que um tribunal reconhecesse o direito de  voltarem às suas casas. Os anciãos voltaram à aldeia para mostrar a ordem do tribunal ao comandante dos soldados que a ocupavam. O comandante pediu-lhes alguns dias, para preparar a retirada. Disse-lhes que voltassem no dia 25. O melhor presente de Natal!, pensaram eles. Na madrugada desse dia puseram-se a caminho. Regressavam a casa após vários anos de sofrimento e exílio. Atravessaram olivais e montes cantando hinos festivos de Natal, tomados de enorme alegria. Quando avistaram a aldeia, pararam em silêncio. Estava rodeada por soldados e veículos militares. Um dos soldados alertou os outros para a chegada do grupo, e no momento seguinte toda a maquinaria de guerra foi posta em acção para destruir a aldeia. Tinham marcado o dia de Natal para fazer vir os cristãos ver com os próprios olhos como a sua aldeia era reduzida a pó.
Biram já não existe. Nem o nome se pode dizer.
Anos mais tarde, Elias foi para Paris estudar teologia. No seminário todos eram muito simpáticos com ele, mas evitavam falar do que se passava na Palestina. Até à noite em que Elias contou o que se passara na sua aldeia, e um dos estudantes lhe respondeu que era preciso dizer as coisas como elas são, e que os israelitas se tinham visto obrigados a proteger-se dos terroristas palestinianos. Elias tentou argumentar: dez anos antes, não havia ainda fedayeen. Os palestinianos da sua aldeia não eram terroristas, eram vítimas do terror. Os judeus eram bem-vindos na Palestina, mas não podiam trazer os soldados que expulsavam os palestinianos das suas próprias casas e terras. E rematou: "vocês conhecem-me! não sou terrorista! quero trazer a paz ao meu povo, quero a reconciliação entre palestinianos e judeus!"
Um dos franceses estudantes de teologia respondeu: "Isso é porque vocês são palestinianos bons."
Foi nesse momento que Elias Chacour se deu conta da imensidão da tragédia: dez anos depois de terem sido despojados da sua terra, o mundo olhava para os palestinianos como sendo gente ignorante, hostil e violenta. Proscritos.


revista Hola cruza-se com revista Emma (2)

Mais uma ideia genial que escrevo a correr, antes de ter tempo de pensar duas vezes: se não é a mãe da Meghan Markle que entra com ela na igreja, se tem mesmo de ser um homem, então...

OBAMA!

Imaginem a cena: o Obama a levar esta cidadã americana para o seio da família real inglesa.

(Nem sei porque é que o protocolo da Casa Real não me dá uma avença de conselheira. Era o que deviam fazer, se estivessem a precisar de um autêntico Trump do protocolo...)

18 maio 2018

revista Hola cruza-se com revista Emma



Se me permitem um intervalo na programação para um momento de futilidade...

No que diz respeito ao casamento real que amanhã se realiza, a pergunta mais importante dos últimos dias era esta: depois das trapalhadas que o pai da Meghan Markle arranjou, que o inviabilizaram para levar a filha ao altar onde Harry a espera, e depois da carta odiosa que o irmão dela escreveu, avisando Harry que estava a cometer um erro mas que ainda estava a tempo de cancelar tudo (caramba, quem tem uma família assim...), pelo braço de quem é que Meghan iria entrar na igreja?

Se me deixassem mandar, ia pelo braço da mãe. É o que faz mais sentido: a mulher que a criou, e com quem ela se dá tão bem. Porque não?

Porque é que se faz questão de manter o hábito de a mulher ser entregue ao noivo pelo pai, ou pelo irmão, ou pelo tio, ou pelo primo - enfim, por um homem da sua família?
Já podíamos começar a deixar para trás simbolismos serôdios.

Só que ainda não vai ser amanhã. Meghan Markle vai entrar na igreja pelo braço do futuro sogro, o príncipe Carlos.
É simpático da parte dele, e é um sinal da coesão da "Firma". Mas perdeu-se um bela fotografia para as revistas feministas (como a Emma alemã) e a causa do feminismo.


se isto é a Europa


Aconteceu aqui, no coração da União Europeia: vários carros da polícia perseguem um pequeno autocarro com trinta refugiados curdos, entre os quais há quatro crianças, e disparam contra ele. As notícias que li não são claras. Uns falam de tiroteio (que entendo como "troca de tiros", mas já vi usar muitas vezes para casos em que só um dos lados está armado), outros dizem que a polícia disparou durante a perseguição, outros dizem que os tiros só começaram depois de o veículo estar imobilizado. No veículo há uma menina de dois anos morta, ou moribunda. A criança não terá sido atingida pelas balas, e espera-se agora o resultado da autópsia para saber a causa da sua morte.

Disparar contra um veículo cheio de refugiados?! São estes os famosos valores humanitários europeus, valores identitários dos quais tanto nos orgulhamos e que tão bem nos distinguem dos outros?


hoje acordei salomónica

(escrevo muito depressa, antes de pensar duas vezes, para não correr o risco de ter de desistir desta ideia brilhante antes ainda de a escrever)

Dado que a situação actual entre Israel e os palestinianos é um beco sem saída cada vez mais comprido, e dado que ambas as partes estão bem conscientes disso, proponho que se faça partilhas de lotes como nas heranças ou como nos acordos de escavações arqueológicas: os israelitas dividem a região em duas áreas de valor igual, dividem Jerusalém também em duas partes, e os palestinianos escolhem desses lotes aqueles em que querem fazer o seu país e a sua capital. Ou ao contrário: os palestinianos dividem e os israelitas escolhem.

E depois fazem dois países independentes, com capacetes azuis a substituir as forças armadas de uns e outros, e forças policiais reforçadas por equipas internacionais para impedir pogroms contra as minorias estrangeiras.

(agora volto para a cama, para continuar a sonhar)


17 maio 2018

"fato" (3)


[um post de Elisa Costa Pinto na Enciclopédia Ilustrada]



Quando um #FATO vale mais do que 1000 palavras.
ou
Quando a ausência é a maior presença.

(Fotógrafo dsconhecido, Irão, provavelmente, depois da 1.ª Guerra Mundial).



Fox News

O Fox já não mora aqui. Vive com o Matthias e mais dois simpáticos rapazes num apartamento no centro da cidade.

Os dias têm estado lindos, mas sem o Fox acabo por não sair de casa para os gozar. Quando o Fox morava aqui eu tinha menos tempo, mas mais qualidade de vida.

Recentemente veio cá passar uns dias, e deu para ver que esta já não é a sua casa. Por saber que ele se sente feliz lá na sua nova casa, convivo melhor com o vazio enorme que aqui se fez.

E depois... we will always have instagram.:)

 


(Nesta última, gosta especialmente da cara dele a olhar para o fotógrafo com ar de "vai tu buscar aquela bola, que eu não me quero molhar")


eu sou uma alface do Lidl!



"eu sou uma alface do Lidl" - isto tem tudo para se tornar uma frase idiomática em Portugal

(frases idiomáticas portuguesas com palavras alemãs, enfim...)
(e só mais um pequeno apontamento: nos Lidl da Alemanha os produtos estão muito mais empacotados; com tão pouco plástico, o supermercado deste filme é mesmo muito à frente!)

16 maio 2018

"fato" (2)


Tenho ouvido muita gente a rir do #fato da Angela Merkel.
O meu sogro dizia, com um sorriso, que o único factor surpresa era tentar adivinhar se o casaco desse dia tinha 2 ou 3 botões. Outras pessoas dizem coisas bem mais desagradáveis, que geralmente se prendem com o hábito de humilhar e escravizar uma mulher pela sua aparência.
Pessoalmente, gosto. Não propriamente dos fatos em si, mas do facto de Angela Merkel ter criado uma indumentária de trabalho equivalente ao fato e gravata dos homens. Se não interessa para nada a roupa que um governante usa*, porque é que isso devia ser um tema para as governantes**?
Sempre me intrigou ver mulheres a competir no campo tradicional dos homens impondo-se a si próprias dificuldades suplementares: não apenas têm de ser muito melhores que os concorrentes homens para terem remotas possibilidades de serem consideradas aptas para o cargo, mas também têm de andar impecavelmente penteadas e pintadas, dentro de roupa desconfortável e em cima de saltos vertiginosos e pontas agudas.
De certo modo, este uniforme da Angela Merkel é um contributo para a luta feminista, porque liberta as mulheres da dupla obrigação de "sofrer para bela ser".

(*) Não interessa para nada a roupa que um governante usa - excepto quando é o Varoufakis e um caríssimo cachecol Burberry

(**) A governante ou a governanta? Quando se criticou a Dilma por se chamar "presidenta", disse-se que era um erro gramatical. Sendo assim, "governanta" não devia existir. Em que momento se decidiu dar esse nome às mulheres que governam um espaço doméstico, e por que motivo acharam por bem atropelar a gramática nesse caso?


"fato"

[A palavra do dia na Enciclopédia Ilustrada]

A minha mãe era filha de um alfaiate. Em miúda, quando passava férias na casa desses avós, os meus dias tinham a música do seu trabalho: o zum-zum da correia na roda do pedal da Singer, o tac-tac-tac-tac da agulha na fazenda, as conversas solenes com os clientes que vinham encomendar um #fato, o correio que passava a meio da tarde para deixar o "Comércio do Porto", a voz da minha avó a ler para o marido as notícias já velhas de dois dias. E o pedido "ó Rosa, faz-me uma fogueira que eu hoje vou ter de passar a ferro".
(Não é que eu seja assim tão velha, Portugal é que era um país muito arcaico na altura em que eu nasci. Na minha casa havia um ferro eléctrico; na do meu avô materno um ferro de brasas; a minha avó paterna esticava muito os lençóis e guardava-os na arca com a outra roupa por cima, para ficarem bem prensados; e numa casa onde fiz férias aos nove anos usavam ferros aquecidos à boca do forno a lenha para passar a roupa sobre uma enorme mesa de pedra. Foi no verão do Watergate, e perto de Cabeceiras de Basto, numa aldeia sem electricidade, ainda passavam a roupa assim.)
Todo aquele trabalho de fazer fatos de homem me fascinava: os fregueses que vinham com um retalho de fazenda muito bem dobrado, ou então com o fato velho do pai para fazer um novo ao filho, o processo moroso de tirar as medidas e anotar num caderninho segundo uma sequência sempre igual que dispensava títulos, o momento grave de cortar o pano, o zum-zum tac-tac-tac-tac de coser as peças. E depois a prova, "hum hum, tenho de apertar mais aqui". A minha avó parava a leitura em voz alta do jornal e ia abrir as costuras, enquanto o meu avô ia adiantando as presilhas. Depois ele cosia de novo as peças de pano, e ela dedicava-se ao ingrato trabalho de virar as malditas presilhas.
Na data aprazada os fregueses vinham, vestiam, ficavam satisfeitos. O dinheiro - uma enormidade de dinheiro - passava das mãos calejadas e sofridas de uns para as mãos, também calejadas, sofridas, por vezes queimadas, do meu avô. O fato novo era embrulhado em papel e saía da casa - um embrulho precioso.
Era no tempo em que se chamava artista a quem tinha tanto saber nas mãos.
E era no tempo em que as pessoas compravam muito menos, muito mais duradouro, e com muito mais sacrifício.

15 maio 2018

na terra de David e Golias



Lutam com pedras contra um exército que tem a bomba atómica. Lutam por uma vida digna na terra dos seus avós, pelos seus mais básicos direitos, pelo direito de regresso daqueles que foram forçados ao exílio.

Mas, desta vez, chamam "terrorista" ao rapaz que luta com pedras e funda contra os gigantes. 


14 maio 2018

70 anos de Israel

Nada como o humor judaico para condensar em meia dúzia de frases o que há de mais trágico e desesperado numa situação. Como esta anedota, muito a propósito da fundação de Israel que hoje perfaz 70 tremendos anos:

Em Maio de 1948 um navio cheio de sobreviventes do Holocausto dirigia-se a Israel. Quando avistaram a costa, todos desataram aos vivas. Todos, excepto um dos passageiros, que desatou a chorar e a lamentar-se. Os outros, intrigados, perguntaram-lhe:
- Porque é que choras e te lamentas num momento de tão grande alegria?
- Ora, se era para os ingleses nos darem uma terra que não era deles, preferia que nos tivessem dado a Suíça...


13 maio 2018

trocar as voltas à insularidade


Hoje foi dia de trocar as voltas à minha insularidade: Portugal na Filarmonia!
Um solista português, o tenor Paulo Ferreira, a cantar o Requiem de Verdi. E eu ali, no bloco B, a ouvir encantada o tenor cuja voz enchia com força e beleza a sala enorme. Um momento inesquecível! 

No fim do concerto fiz as contas a esta minha vida: à parte alguns bolseiros portugueses da Orchestra Academy (que agora se chama Karajan Academy), portugueses naquele palco ainda só tinha visto a pianista Maria João Pires e o maestro Cesário Costa. E agora o Paulo Ferreira.
Que venham mais! Para nos dar a alegria de ver aqui reconhecido o valor dos nossos compatriotas.

E para que ninguém se queixe de eu andar a açambarcar tudo o que é bom, Paulo Ferreira e Filarmonia ao mesmo tempo, uma boa notícia: o Paulo Ferreira vai cantar este requiem em Lisboa em Novembro. Estejam atentos.

(Pela minha parte, agora já só falta mesmo trocarem as bretzeln por pastéis de nata nos bares da Filarmonia de Berlim. Aí é que deixava mesmo de poder fazer o choradinho da insularidade! ;) )


12 maio 2018

o que eles dizem

Para a quem interessar possa, e para minha memória futura, copio para este post (que será longuíssimo) algumas das reacções suscitadas pela crónica "A tragédia de Sócrates", de Fernanda Câncio, e pelo burburinho que se lhe seguiu.


1. Daniel Oliveira, Expresso: As primeiras vítimas de um mitómano estão ao seu lado

(...) Muitos não se lembram, mas supostamente Sócrates tinha fortuna de família. E era assim que explicava a amigos, próximos e conhecidos o nível de vida que mantinha. E é a partir dessa mentira que Sócrates, um homem que não é apenas desonesto mas parece sofrer de um desequilíbrio de personalidade, consegue, pelo menos até se saber parte da verdade, a solidariedade de muitos dos que lhe estavam próximos, não hesitando em colocá-los numa situação de enorme fragilidade futura.
(...) Mas a diferença entre o cúmplice e a vítima é muitas vezes a boa-fé da sua conduta. E muitos amigos e camaradas de Sócrates, pelo menos os que são feitos de uma massa muito diferente da sua, foram as vítimas mais próximas da sua mitomania amoral. Aos poucos que, no PS, querem manter o partido amarrado a esta figura fica um conselho: leiam o texto de Fernanda Câncio. Acabou.
(o texto completo está no fim deste post)



2. Helena Ferro de Gouveia - facebook

“A Câncio”
Disclaimer: não sou amiga da Fernanda, não a conheço pessoalmente, conversamos algumas vezes por mensagem, discordamos muitas vezes. Admiro muitas das suas reportagens, a coragem e a frontalidade com que abordou temas como o assédio sexual. Nunca votei PS. Desprezo José Sócrates e tudo o que ele representa.
1. Passemos à crónica no DN. Antes de mais:
- quantas pessoas foram já enganadas durante anos por amigo/a, namorado/a, marido (há mentirosos compulsivos que ao acreditarem de tal forma no que dizem se te tornam absolutamente convincentes)? Será a Fernanda a primeira ? Não o é certamente.
- viajou a expensas do namorado (que espalhou a lenda da fortuna pessoal) e isso faz dela o quê? Se a sua namorada/ namorado tem (supostamente) mais possibilidades económicas que você e lhe oferece um jantar ou uns dias de férias recusa ? Denuncia-a/o as Finanças ? Uma feminista não se pode apaixonar e deixar de atentar aos sinais ?

11 maio 2018

o que tu queres sei eu

Quando Marcelo Caetano assumiu o poder, em 1968, o pai de uma amiga minha perguntou-lhe se ia fazer alguma coisa contra a corrupção e os interesses instalados no aparelho do Estado. Ele respondeu que não era louco.

Cinquenta anos mais tarde, Portugal continua a debater-se com problemas graves da corrupção (no texto "A ponta do iceberg", Luís Aguiar-Conraria dá alguns exemplos) que cresce e ganha força ao abrigo de uma estranha bruma onde todas as pistas se perdem (o caso dos submarinos é exemplar: a contraparte alemã já foi descoberta, julgada, condenada, e já cumpriu a pena; por seu lado, a contraparte portuguesa hã? o que foi? havia alguma coisa? "nãããã, deve ser boato para atacar o nosso partido, que o que eles querem sei eu!").

Vivemos, assim, num clima de suspeição sobre tudo e todos que permite largar insinuações  indiscriminadamente, sem haver nunca certezas nem conclusões quer sobre a culpa quer sobre a inocência. Será da ordem natural das coisas, ou será estratégia? É justamente este clima de suspeitas generalizadas sem provas - muitas vezes, sem haver sequer indícios - que permite por um lado desvalorizar a informação disponível, a pretexto de ser manobra dos outros para desacreditar os nossos, e por outro lado desculpar o comportamento menos ético de uns porque, "como é do conhecimento geral, todos fazem o mesmo, e muito pior".
Em suma: um clima de suspeição que envenena as relações sociais e a confiança no sistema político e no Estado de Direito, e destrói qualquer possibilidade de apelar à ética nas escolhas pessoais que afectam a coisa comum.

Recentemente, a acusação de Manuel Pinho ter recebido avenças do GES enquanto era ministro acabou por trazer de novo à baila a questão Sócrates. O PS mudou de discurso, demarcando-se de Sócrates com mais clareza: do "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política" passou-se ao "caso a justiça confirme, é uma vergonha para a política". 

É neste contexto que aparece um texto de Fernanda Câncio, "A tragédia de Sócrates", que leva o debate para o plano da ética. Diz algo tão simples como isto: independentemente do que o sistema de justiça venha a apurar, o que já todos sabemos sobre o modo como Sócrates mentiu é de tal ordem que é imperioso que o PS se demarque dele.

Parece a história do ovo de Colombo - simples e óbvio, mas não ocorreu antes a mais ninguém. Ou, pelo menos, não vi mais ninguém escrever antes dela com esta clareza.

A questão que se impõe de seguida é perguntar se é só o Sócrates, ou se a mesma exigência se deve aplicar a todos os políticos: quem tiver comportamento eticamente reprovável, mesmo que não seja comprovadamente ilegal, deve passar a persona non grata no seu partido? E como definir as fronteiras e as exigências éticas acautelando o risco de se abrir uma época de caça selvagem aos políticos?

Perante questões tão incómodas quanto importantes e urgentes, que podem dar origem a uma mudança de paradigma na política portuguesa, o que faz Portugal? Prefere virar-se contra a Fernanda Câncio numa polifonia de "ah, sua rameira, o que tu queres sei eu".
Ah, heróis do mar, nobre povo, nação valente sempre aberta a novos desafios...


10 maio 2018

isto já não vai lá com avé-marias

Esta notícia é fantástica: as irmãs da congregação Holy Names of Jesus and Mary, de Marylhurst, Oregon, juntamente com outros grupos religiosos, compraram acções de uma empresa produtora de armas e usaram esse poder para influenciar as políticas da empresa.

O Spiegel online conta hoje que as freiras conseguiram forçar a empresa Sturm, Ruger & Co. a ser mais transparente, informando o público sobre os perigos das armas que vende e sobre os planos que tem para criar armas mais seguras (accionadas por reconhecimento de impressões digitais, por exemplo), e a assumir as suas responsabilidades no caso de actos de violência com armas produzidas por essa empresa. 

Para mais informações: NYT, em inglês.
 

09 maio 2018

tanta maldade



"Fernanda Câncio, a repórter orgulhosa do seu feminismo e a lutadora pelos direitos das mulheres, deixou-se deslumbrar pelo exemplo mais básico e caricatural do macho-alfa."

Leio esta frase de João Miguel Tavares no Público, e pasmo: como é possível tanta maldade? Que espécie de carácter tirará prazer de humilhar uma pessoa expondo-lhe as contradições entre a razão e o sentimento, como se não fossem elas a matéria mais básica do ser-se humano?

Lucas Cranach, o Jovem, é admirável a retratar a maldade dos humanos escondida sob a máscara da virtude, como se pode ver na imagem acima. Mas há - infelizmente - exemplos bem mais recentes. Repare-se, por exemplo, na cara de satisfação dos homens que exibem esta francesa acusada de ter tido uma relação amorosa com um oficial alemão. Encontrei-a no site "Les femmes tondues de 1944", que tem inúmeras fotografias de gente a rir-se avidamente de mulheres humilhadas e perseguidas por se terem apaixonado pelo inimigo.


Tanta maldade.


08 maio 2018

em ondas sucessivas de gracias a la vida



Por estes dias, o primeiro lugar do índice de felicidade deve ter-se deslocado do Butão para a minha rua.

Aluguei o apartamento  minúsculo da Christina a um casal francês que está a trabalhar em Berlim durante uns meses, mas não consegue arranjar casa. Depois de um mês em dormitórios dos albergues de juventude, chegar a um quarto com casa de banho e um terraço a que podem chamar deles é uma antecâmara do paraíso. Ou o paraíso propriamente dito.
Passo por eles, e ou estão a jantar no terraço, ou a sair para ir dar um mergulho ao lago, ou simplesmente a gozar a vida. Tão felizes, que me fazem sentir contente por eles.

Fui dar uma volta aqui perto, e ao fotografar uma casa que bem podia ser a da Pipi das Meias Altas descobri que tinha uma raposa no jardim. Ficámos a olhar uma para a outra, até que ela começou a ir de jardim em jardim, e eu ao lado dela - mas sempre do meu lado das vedações. Até que cheguei a uma casa com o portão aberto e tratei de me pôr a andar disfarçadamente. A raposa também. Não sei qual de nós mais aliviada por não ter havido cenas.


No sábado, pedi ao meu vizinho se me emprestava o seu cortador de relva. Ele disse que mo trazia quando acabasse de o usar. Pouco depois, tocou à campainha para me perguntar onde devia pôr a relva cortada - já tinha feito o trabalho. A seguir, outra vizinha perguntou se me podia dar o vinho que os amigos lhes oferecem sem saber que eles não bebem, e veio trazer-me uma caixa cheia de garrafas. Arrumei o vinho e saí a correr para a Filarmonia. Queria ouvir a Lisa Batiashvili a tocar o concerto para violino de Sibelius com o Paavo Järvi, mas não tinha bilhete. Consegui estacionamento gratuito, e à porta uma senhora vendeu-me um bom bilhete por metade do preço.



A Lisa Batiashvili tocava em substituição da Janine Jansen. O que me lembrou uma resposta do Lang Lang a um miúdo que lhe perguntou como é que se faz para se tornar um pianista famoso: "trabalhas muito, e esperas até ao dia em que um pianista famoso apanhe uma gripe".

 
 
No fim do concerto fui buscar o Joachim ao aeroporto - estava a regressar de mais uma das suas idas e vindas intercontinentais, e vinha bem. A gente esquece-se muitas vezes que nada disto é garantido.

Melhor sábado que este, só ganhando o euromilhões. Mas preferi não jogar - não é preciso querer mesmo tudo-tudo-tudo.

No domingo passei horas e horas na horta. É como descer uma pista de ski: inteiramente concentrada naquilo que estou a fazer, esqueço tudo o mais. Cheguei ao fim do dia imunda, suada e muito satisfeita. Para grandes males, grandes remédios: atravessei o lago a nadar, consegui deixar lá quase toda a terra que se me prendera à pele e às unhas.

E à noite fui ver o filme "Berlim - Sinfonia de uma grande cidade", de Walther Ruttmann (1927), acompanhado ao vivo com a música original para orquestra, recriada a partir da versão para piano que chegou ao nosso tempo. Um filme vertiginoso, onde aparece várias vezes o vórtice que veremos anos mais tarde no cartaz do Vertigo de Hitchkock. O filme retrata um dia em Berlim, com rápida sequência de imagens e inúmeras cenas de comboios (rodas, carris, agulhas, e uma menção particular para as cenas de comboios que se cruzam uns sobre os outros) e de máquinas em funcionamento. Mostra uma Berlim muito diferente daquela em que vivo: antes dos nazis, antes da destruição, mas também muito mais agitada do que é hoje.

Aviso a quem está em Berlim, ou tem amigos por cá: o filme passa outra vez hoje no Babylon, com bastante ambiente dos anos 20 - muitas pessoas vão vestidas à época, a organista russa do Babylon vai tocando no famoso órgão de cinema enquanto as pessoas se vão acomodando, e há um show em palco com dançarinas de Charleston, canções berlinenses dos anos vinte, projecção de um noticiário da época com comentários divertidos do animador. Só depois começa o filme, acompanhado ao vivo pela orquestra.

Fotos do site do próprio cinema:


 

E para que ninguém se queixe de insularidade, aqui deixo o filme completo, com a música de Edmund Meisel reconstruída a partir da versão para piano. 



06 maio 2018

atraso de vida

Estava aqui tão sossegadinha a fazer planos para passar um domingo na horta (plantar os pés de tomate, mais os de pepino e os de pimento, deitar na terra sementes de abóbora e assim) e toca o telefone. A professora de zumba, a lembrar-me que hoje há aula (espertinha, ela! prevenida. já sabe do que é que a casa gasta).

E lá vou eu.

Maldito fitness. Pode ser que me dê muita qualidade de vida daqui a cinquenta anos, mas já me estragou a manhã de domingo.

04 maio 2018

depois de Hollywood, o Nobel da Literatura...



Oh pá, que chatice! Tinha apostado que - depois do teatro, do jornalismo, do conto, do cantautor - o Nobel da Literatura este ano ia para o Lobo Antunes (crónica) ou para mim (dar água sem caneco no facebook - podem crer que é toda uma arte!).

Mas este ano não vai haver Nobel da Literatura. Vamos ter de esperar mais um ano para decidir esta aposta, é?

[ Maldito #metoo, que só cria problemas ao normal funcionamento da sociedade! Estas mulheres! Não podiam ficar caladinhas? Afinal de contas, um apalpão no rabo (mesmo que seja no da futura rainha da Suécia) nunca tirou nenhum bocado a ninguém. Cambada de snowflakes!... ]

[Atenção: por favor liguem o ironiómetro.]

A boa notícia é: no próximo ano vai haver dois Nobel da Literatura. Já vou pôr os livros do Lobo Antunes de lado, e depois, num intervalo das cerimónias, peço-lhe autógrafos.

03 maio 2018

sous les pavés...




Sous les pavés...
Num dos passeios com o Fox reparei por acaso que as pocinhas de água junto aos passeios nos davam a ilusão de haver outros mundos por baixo da rua. Por brincadeira, comecei uma série "sous les pavés". Publico-a hoje aqui - como homenagem ao Maio de 68, que por estes dias comemora o cinquentenário.
 


 


mundos paralelos

Numa das aulas a que fui no City College, em San Francisco, a professora deu-nos a ler uma notícia de um jornal da Bay Area sobre uma autarquia que premiava actos de humanidade. Enquanto líamos, o meu colega de carteira e eu desatámos a cochichar e a rir em surdina. É que os exemplos dados pelo jornal eram de uma banalidade atroz: o empregado do supermercado que levava as compras ao carro da velhinha, o farmacêutico que verificava se o que o cliente estava a comprar fazia realmente sentido. 

Depois a professora pediu que conversássemos com o colega do lado para contar casos semelhantes a que tivéssemos assistido. Eu contei ao meu colega a história daquele dia em que a Christina teve uma gastroenterite desgraçada, e depois de lhe mudar a cama cinco vezes eu própria fiquei tão apanhada que não conseguia tratar do Matthias, que tinha seis meses. Telefonei a uma amiga pedindo que viesse buscar o Matthias, e ela, a proa de uma família monoparental com quatro filhos, largou as compras e as limpezas desse sábado para vir buscar o bebé, e decidiu levar os dois - apesar de saber que corria o risco de apanhar a gastroenterite da Christina (como apanhou). Por seu lado, o meu colega, que vinha de um país africano, contou da sua aldeia, de quando morreu a mãe de uma família numerosa e uma vizinha começou a cozinhar também para os órfãos.

Quando os outros começaram a contar as suas histórias, nós trocávamos olhares trocistas. Havia quem não tivesse nada para contar, e havia pessoas que só tinham histórias do género "no autocarro, uma pessoa ofereceu o seu lugar a um velhinho"

Lembrei-me desta história ao ver hoje um vídeo do Upworthy sobre o projecto "I'll be there": um movimento para inspirar pessoas para sairem da sua concha e irem ao encontro de outros seres humanos por meio de gestos simples de gentileza. Por exemplo: pagar o café da pessoa que está atrás na fila da caixa, oferecer uma flor, abrir a porta para quem vem a seguir. Gestos simples e intencionais de conexão com os outros.

Ora bem: devo viver num mundo paralelo. No meu tempo, a "gestos simpes e intencionais de conexão com os outros" chamava-se "regras básicas e elementares de boa educação". Não se ia ao ponto de oferecer flores a pessoas sentadas numa esplanada, ou café a pessoas na fila da caixa, mas era normal manter a porta aberta para quem vem atrás de nós, apanhar algo que outra pessoa deixou cair, ajudar a carregar coisas pesadas. Em suma: estar atento a quem se cruza no nosso caminho e ajudar no que for preciso são atitudes tão elementares de boa educação que nem deviam ser dignas de registo.

Que seja preciso "inspirar pessoas para saírem da sua concha e estarem atentas aos outros" e criar prémios autárquicos para cidadãos que se destacam pelas suas atitudes de gentileza são sinais assustadores de um mundo de pessoas a viver em solidão.

O movimento "I'll be There" interessa-se também pelas pessoas que vivem a mais terrível das solidões nas nossas cidades: a daqueles que, por não querermos ver, arrumamos num mundo paralelo muito distante do nosso. Os sem-abrigo, as prostitutas, os pobres explorados pela máfia dos pedintes - por exemplo.

Na semana passada o meu coro apresentou uma composição de Justin Lépany sobre esta solidão. Uma obra cheia de raiva e desprezo por nós, que partilhamos a rua com pessoas em profunda solidão e não as vemos. O maestro insistiu que fizéssemos os FFFFF (fungadelas) e os SCH e TSSS (semelhantes aos nossos "PSSSST!" e "PFFFFF!") à maneira sacudida e agressiva dos berlinenses, revirando os olhos e fazendo ar de despeito.

(Das duas, uma: ou mudo de vida, ou mudo de coro...)

 

Tradução do texto:

Estou aqui mesmo à tua frente
não me vês?
Pssst! FFFF!
Não me vês?
Pssst! FFFF!
Faça o que fizer,
tu não me vês.
Pssst! Pffff!
És doente? És cego?
Estou aqui, mesmo à tua frente.
Doente! Pffff! Cego! Pffff!
Aqui mesmo, à tua frente. Pffff!
Faça o que fizer, não me vês.
Ouve! Ouve! Pssst!
Ouve! Ouve! Pssst!
Por todos os lados gritas por mais
TOLERÂNCIA!
bla bla bla Pssst! Pffff!
EMPENHO!
bla bla bla Pssst! Pffff!
INDIGNAÇÃO!
bla bla bla Pssst! Pffff!
CORAGEM!
bla bla bla Pssst! Pffff!
Mas para ti não existo!
Demasiado feio! Pssst!
Demasiado sujo! Pssst!
Demasiado miserável! Pssst!
Demasiadoembaraçoso! Pssst!
Demasiado diferente! Pssst!
Demasiado real! Pssst!
Falas, e não me vês!
Desperta! Desperta! Desperta! Desperta!
Em breve morrerás, triste e infeliz como um idiota.
Idiota, idiota, FFFF, idiota, FFFF, idiota, FFFF, idiota.
FFFFFFFF.

01 maio 2018

primeiro de Maio: de Kreuzberg para Grunewald (5)



O que eu vi correu (quase) muito bem. Na parte em que caminhei com eles também correu bem. A polícia contava com 200 manifestantes, e apareceram alguns milhares (terão sido entre três mil e cinco mil). Não havia black block e não incendiaram carros. Mas li notícias de que partiram vidos e danificaram 39 carros com tinta. Algumas câmaras das campainhas foram cobertas com tinta ou autocolantes.

Na própria página de facebook do evento alguém publicou esta foto, criticando a polícia por não intervir:


Do mesmo jornal de onde tirei a foto acima tirei também esta, do início da demonstração:

O cartaz dentro de uma moldura cor-de-rosa diz:
Fazer fogueiras de acampamento com as cercas!
Moradores de Grunewald: Tear down these walls!

Assisti à marcha em dois lugares diferentes, e foi isto que vi:

 Camião (onde se lê, sobre a cabine do condutor: "Expropriação - porque não?") parado, a recolher a plataforma rebatível, para não correr o risco de estragar o BMW descapotável.




 
 
 Ah, berlinenses! A bandeira que se vê - mal - no meio da foto tem um punho erguido, 
                                                      com o dedo do meio estendido...




É estranho ver polícias com esta farda a fechar o cortejo, junto aos carrinhos de crianças.


 O trânsito impedido de avançar, pacientemente à espera.





Câmaras danificadas, e autocolantes nas campainhas.
 Esta miúda estava ostensivamente sentada à janela a olhar para o telemóvel, fazendo de conta que não havia ninguém na rua. Numa rua anterior, um casal já de certa idade estava à varanda a acenar simpaticamente a quem passava. Convém acrescentar que o apartamento do casal era bem mais modesto que esta casa. 
 
A polícia protegeu a entrada de um hotel instalado num palacete. Lá dentro, os empregados deram um ou dois adeuzinhos aos manifestantes. Entre os polícias, um miúdo com protectores nos ouvidos olhava com interesse para o jardim. E por cima dele o pessoal agitava as suas câmaras de filmar de cartão, como faziam sempre que viam uma câmara numa casa. 



Vi um manifestante que mostrava um cartaz onde se lia "estou à procura de um quarto". Quase lhe ofereci o pequeno apartamento que vagou hoje na nossa casa. Durante um mês podia viver lá. Ia ter graça o homem mudar-se para o "bairro problemático" contra o qual estava a protestar...

Noutras partes de Berlim as coisas correram um bocado pior. Houve uma manifestação da AfD e respectiva contramanifestação. A polícia prendeu alguns contramanifestantes. Houve alguma agitação de um Black Block com cerca de 300 pessoas, que a polícia dominou rapidamente. E houve também um grupo BDS contra Israel (boicote, desinvestimento, sanções) que se juntou à manifestação no centro da cidade. Na Alemanha, BDS a Israel é uma questão extremamente sensível, porque lembra imediatamente a frase com que o Holocausto começou a dar passos seguros: "não compres aos judeus".

A polícia berlinense, que hoje tinha 5400 agentes na rua, parece bastante satisfeita com o dia. Comparado com outros primeiros de Maio, foi um dia bastante calmo.