16 maio 2021

colheita da manhã

 




Os lilazes começam a despedir-se:


E ainda: uma promessa de damasco e outra de marmelo.


15 maio 2021

uma aula de música árabe, com Simon Shaheen & Qantara



Acessível, divertida, excelente. 
(Com os meus agradecimentos ao Carlos Moreira, minha enciclopédia musical ambulante.)


"Palestina" (2)




Partilho um post do Carlos Moreira na Enciclopédia Ilustrada, que - tal como eu, no post anterior - refere a solidão dos palestinianos, fazendo-o a partir de uma canção que é um lamento tão belo quanto triste: "oh meu pai, eu sou yusuf
oh pai, os meus irmãos não me amam nem me querem no meio deles,
eles atacam-me e atiram pedras e palavras sobre mim
eles querem que eu morra para que me possam elogiar
eles fecharam a porta da sua casa e deixaram-me do lado de fora
eles expulsaram-me do campo
oh meu pai, eles envenenaram as minhas uvas
eles destruíram os meus brinquedos
quando o vento suave brincou com o meu cabelo, eles ficaram com ciúmes
eles inflamaram-se de raiva contra mim e você, meu pai
de que os privei eu, oh meu pai?
as borboletas pararam no meu ombro
o pássaro pairou sobre a minha mão
o que fiz eu, meu pai?
porquê eu?
chamaste-me yusuf e eles atiraram-me num poço
eles acusaram os lobos
o lobo é mais misericordioso que os meus irmãos
oh, meu pai.
eu fiz mal a alguém quando disse isso
eu vi onze estrelas
e o sol e a lua
vi-os ajoelhados diante de mim
Mahmoud Darwish escreveu este poema, que o grande Marcel Khalife musicou (eu traduzi, só para terem uma ideia, e não aparecer a tradução instantânea)
Este poema/canção compara a opressão dos palestinianos nos países árabes com o episódio bíblico de José a ser maltratado pelos seus irmãos.
Como a história também aparece no Corão, as autoridades sunitas consideraram isso uma blasfémia, já que é interdita qualquer citação do Corão para outros fins ou noutros contextos que não sejam os da simples recitação do Corão ou da oração ao seu Deus.
A vida dos palestinianos, dentro ou fora da #Palestina, é tudo menos fácil: se de um lado tem a repressão israelita, do outro têm a dos países árabes que os recebem a contragosto.
A vida de Marcel Khalife também não é facil: pertencente a um minoria cristã, simpatizante comunista e organizador de concertos com músicos palestinianos e israelitas, tem tudo para ter as autoridades do Médio Oriente contra ele."


"Palestina"





Digo #Palestina e ocorre-me imediatamente uma das minhas anedotas preferidas de humor judaico - como é possível dizer tanto e tão sério em tão poucas palavras?

Em 1948, um barco dirigia-se da Europa a Israel, apinhado de judeus que tinham conseguido escapar ao Holocausto. Quando avistaram terra, todos eles começaram a gritar de alegria. Todos, menos um, que chorava e arrancava os cabelos.
- Porque é que choras, agora que vamos chegar finalmente à nossa terra?, perguntou-lhe um amigo.
- Ora, - lamentou-se ele - se era para os ingleses nos darem o que não era deles, preferia que nos tivessem dado a Suíça.

Penso que o mais lógico teria sido dar-lhes uma parte da Alemanha. No fim da II GM as fronteiras desta parte da Europa foram redesenhadas, e a Polónia recuperou regiões que eram alemãs há séculos. A partir de finais de 1944, 14 milhões de alemães foram obrigados a abandonar as suas casas e a avançar penosamente para oeste, levando consigo os poucos haveres que conseguiam carregar. Uns fugiam da guerra, outros foram expulsos (por exemplo, a minoria alemã que vivia na Checoslováquia), outros foram deslocados devido à redefinição das fronteiras. As imagens destes alemães maltrapilhos, caminhando em coluna, com filhos pequenos ao colo ou pela mão, são muito semelhantes às dos palestinianos na Nakba.

Num contexto de total convulsão e sujeição à vontade dos vencedores, não teria sido difícil reservar para os judeus um território tirado à Alemanha e à actual Polónia (cujas fronteiras, na altura, foram deslocadas para oeste). Um lugar seguro para os judeus europeus, no continente que já era o seu desde tempos imemoriais. O preço seria assim pago pelo país que imaginou e pôs em marcha a máquina do Holocausto.

Os refugiados alemães no fim da II GM passaram por um processo semelhante ao dos "retornados" portugueses. Ao fim de alguns anos já tinham casa, trabalho e uma vida normal na sua nova terra. Não foram metidos em campos de refugiados durante várias décadas, como aconteceu com os palestinianos.

O problema da #Palestina é antes de mais um problema de racismo e profunda indiferença pelo seu povo. A frase "uma terra sem povo para um povo sem terra" mostra dolorosamente a situação de invisibilidade dos palestinianos que viviam sob ocupação europeia. Os campos de refugiados nos países vizinhos mostram dolorosamente a indiferença com que são tratados pelo mundo árabe. Os aliados árabes não são propriamente amigos dos palestinianos - antes se servem deles para atacar Israel. Se os considerassem como seus, teriam feito o mesmo que a Alemanha fez com os sudetas e todos os outros refugiados, e o que Portugal fez com os angolanos e os moçambicanos brancos.

E esta é a maior tragédia dos palestinianos: além de terem perdido a sua terra, não têm amigos. Ciganos, de certo modo.


14 maio 2021

sinal de vida


Esta manhã, quando ia de carro a caminho da peixaria, vi que um pouco mais à frente havia um autocarro na paragem, já pronto para avançar. O semáforo logo a seguir estava vermelho, pelo que parei atrás do autocarro para lhe permitir entrar com calma na faixa de rodagem mal o sinal abrisse.
Ele entrou, e fez um breve sinal de luzes para me agradecer.

E foi então que aconteceu uma coisa estranhíssima: senti-me muito feliz, quase eufórica, pela revelação de haver ali um ser humano que tinha reparado na delicadeza do meu gesto e se dera ao trabalho de responder com um sinal de gratidão. Por uns momentos fiquei de bem com o mundo inteiro.

Não me digam que esta crise da covid até a mim está a afectar?..

13 maio 2021

o início do caminho



(autora: Helô D'Angelo, https://www.instagram.com/helodangeloarte/ )


"Uma história de violência" é um texto da Fernanda Câncio sobre o machismo estrutural no qual vivemos - tanto homens como mulheres - enterrados até ao pescoço. Um texto fundamental para entendermos o que nos está a acontecer e o caminho que temos pela frente. Recomendo muito a leitura (está aqui).

Só não concordo com o final ("Como disse Mandela em relação ao apartheid, estivemos anos a bater educadamente à porta, e a porta não abriu. É a altura da raiva."), pelos seguintes motivos:

1. Não "estivemos": o "nós" ainda não existe. As mulheres discordam sobre imensos pontos fundamentais. Basta lembrar o debate sobre o assédio de rua, em 2015: tantas mulheres a defender o direito de os homens "fazerem elogios" (se bem me lembro, até na plataforma feminista Capazes se ouviram vozes dessas), a dizer "mulher séria não tem ouvidos" ou "e não tens mãos para lhe dar uma bofetada?" Lembrar ainda a reacção de tantas mulheres portuguesas em defesa do Cristiano Ronaldo quando a revista Spiegel revelou o que ele terá feito numa noite em Las Vegas.

2. Além de não existir um "nós", não temos batido à porta. A maior parte das mulheres em Portugal tem vivido isto sozinha e em silêncio. Em vez de bater à porta, retira-se. Exceptuando uma ou outra que escolhe reagir quando é assediada (algumas vezes com terríveis consequências para ela) e, tanto quanto me lembre, algumas vozes na altura do debate sobre o piropo.

3. "É a altura da raiva" - se nos queremos libertar do machismo estrutural que vive comodamente instalado entre nós, penso que a raiva é o pior dos caminhos.

Em minha opinião, este não é o tempo da raiva, mas o de contarmos as nossas histórias. E de as contarmos sem nomes, porque o importante é darmo-nos conta dos mecanismos, em vez de nos perdermos em guerrilhas pessoais. A propósito: tem-me custado imenso assistir à mud fight que resulta das denúncias nominais. Na ânsia de proteger o acusado concreto, atiram a acusadora para o esterco - e por arrasto as outras mulheres, porque se repete e reforça no espaço público o tradicional chavão "o que tu queres sei eu, sua puta".

Este é o tempo de encontrarmos forma de abrir os olhos que estão cegos ao machismo estrutural. Tantos homens andam entre nós convencidos de serem pessoas muito decentes, mas riem de piadas como "esta até devia agradecer se lhe concedessem um piropo" ou fazem perguntas a familiares adolescentes sobre a sua vida sexual (para dar apenas dois exemplos corriqueiros); tantas mulheres que assistem a isto e se riem com eles.

Este é o tempo de sair da solidão com que cada uma de nós tem vivido estas situações, e criar finalmente um "nós" que exija a mudança estrutural. Um "nós" que tem de envolver homens e mulheres: só conseguiremos melhorar a situação se trabalharmos em conjunto para ganhar a empatia dos homens e das tantas mulheres para as quais isto não é problema. Temos também de conseguir sensibilizar as empresas e as instituições (a começar pela escola, pela polícia, pelos tribunais e pelas Igrejas) para a sua responsabilidade na mudança.


(Penso que a raiva é o pior caminho para este movimento, mas concedo-me o meu direito à raiva contra pessoas concretas: continuo a desejar uma morte muito longa e muito dolorosa a todos os cabrões que me segredaram indecências ou me tocaram na mão quando eu ia a caminho da escola. E só por respeitinho ao algoritmo e aos psis que andam por aqui à solta é que não digo o que desejo ao tarado que me tentou violar aos 11 anos, e apalpava a minha irmã de 6 anos quando "a ajudava" para ela ir buscar a roupa que caía do nosso estendal no pátio do café onde ele passava os dias. Revelo apenas que espero que o inferno exista, e que os seus demónios me ouçam.)



ecce mulier

 

Partilho um texto da Isabel Castro Silva, que está no seu mural do facebook. O testemunho mais pungente e certeiro que li nos últimos tempos.

Isto tem de acabar: o assédio na escola, o assédio na rua, o assédio no trabalho, o assédio na família.



#metoo

"Tinha treze anos quando comecei a ser assediada e nada me preparou para o choque. Aconteceu vezes incontáveis tanto na escola como na rua. Na escola todos os rapazes apalpavam as maminhas e os rabos e os genitais de todas as raparigas e levantavam-lhes a saia. Na altura surpreendeu-me e humilhou-me muito que não só as bestas mas também os rapazes que eram simpáticos e que gostavam de mim de um momento para o outro me apalpassem. Os professores e auxiliares que viam isto - e isto acontecia mais ou menos em todos os intervalos - nunca fizeram nada. Hoje em dia surpreende-me a rapidez com que todos, raparigas e rapazes, aceitámos que este assédio era “normal”.
É costume desvalorizar este tipo de assédio. Na verdade creio que nunca ouvi chamar-lhe assédio sexual, mas é disso que se trata. E penso que é na escola que os rapazes aprendem desta forma a pôr as raparigas no lugar subordinado, impotente e ao serviço dos homens que a sociedade lhes reserva. E que as raparigas aprendem que não podem contar com a ajuda de ninguém para combater este assédio e que por isso só lhes resta aprender a sobreviver-lhe o melhor possível. Por esta razão, é urgente acabar com a ideia de que esta forma de assédio é apenas uma brincadeira de rapazes com as hormonas aos saltos ou com o cérebro frito em testosterona.
Na rua comecei a ter homens de meia-idade ou mais velhos a perseguirem-me, muitas vezes à luz do dia e com gente por perto, tal não é o sentimento de impunidade, enquanto me descreviam detalhadamente o que para eles era uma fantasia pornográfica e para mim um potencial cenário de violação. Também aconteceu em autocarros cheios, onde aproveitavam para se roçarem contra mim ou para se sentarem ao meu lado e me porem a mão nas pernas e onde todos os passageiros que se apercebiam da situação, ao ver-me aflita a mudar de um sítio para o outro, fingiam que não viam nada. Passar por homens das obras também passou a ser um suplício. Foi assim a partir dos treze anos que passei a viver com o medo de ser violada. Não que esse medo surja de cada vez que saio à rua, longe disso. Mas basta estar sozinha à noite e ouvir passos atrás de mim a aproximar-se e ele está lá. Basta perceber que um homem de ar estranho e dúbio me está a seguir com o olhar e ele está lá. Basta estar na cama com um homem que ainda conheço mal e que tem uma reacção brusca ou inesperada e ele está lá. Não conheço nenhum medo dos homens que seja equivalente a este, e no entanto é um medo que todas as mulheres têm. E já só esta diferença, já só que os homens não tenham de viver com um medo crónico que condiciona tantas coisas, desde a roupa que se veste às horas a que se sai de casa e aos sítios que se frequenta, já só isso mostra que estamos longe de viver em igualdade.
Tinha dezasseis anos quando certo dia fui ler para as arcadas dos prédios da Av. Estados Unidos da América, enquanto fazia horas para ir para a escola de música que então frequentava. Apareceram 3 rapazes, mais velhos do que eu mas não muito mais, talvez entre os 17 e os 19. Assaltaram-me e eu dei o dinheiro sem oferecer resistência (600 escudos). Mas depois disso não se foram embora. Fizeram-me perguntas como se estivessem a fazer conversa mas sempre com um tom agressivo. A certa altura, quando já tinham começado a tocar-me, pedi ao mais velho (ou pelo menos mais alto), que parecia estar ali com relutância, se já me podia ir embora. O rapaz mais baixo e com uma cara daninha ficou talvez despeitado, disse que o outro não era o chefe e, talvez para me mostrar que quem mandava era ele, agarrou-me por trás, prendendo os meus braços com os dele, que fechou à volta da minha cintura, deixando-me imobilizada. Depois começou a fazer movimentos sexuais. O terceiro rapaz, à minha frente, a rir-se, levantou-me a camisola e fez menção de desabotoar o botão das minhas calças de ganga. Foi só nesse momento, com o zumbido agudo do perigo nos ouvidos, que consegui reagir. Dei um pontapé no peito do que estava à minha frente, o que estava por trás desequilibrou-se, abriu os braços soltando-me e eu larguei a fugir. Se tivesse sido violada nesse dia, teria perdido assim a virgindade.
Quando comecei a sair regularmente à noite, acho que nunca me senti tão insistentemente tocada, agarrada, ignorada quando dizia que não, que não queria conversar, que não queria dançar, que não queria um copo, etc. Era como se os homens, muitos homens, achassem que tinham o direito de dispor do meu tempo, do meu corpo, de mim. E na mesma medida em que achavam que tinham esse direito, achavam que eu não tinha o direito de lhes dizer não.
Já teria 26 ou 27 anos quando um dia, a caminho do metro, sou seguida durante dez minutos por um homem de ar nojento a dizer-me as coisas mais ordinárias, que ora se aproximava muito de mim até quase roçar a boca na minha nuca ora deixava que eu ganhasse distância quando estugava o passo, como um gato a brincar com um rato. Era de dia, umas quantas pessoas caminhavam no mesmo passeio. Quando entrei no metro ele não me seguiu. No dia seguinte, mal saio de casa, ele estava junto à porta e começou a seguir-me e a dizer o que faria comigo. De início fiquei em pânico, porque agora ele sabia onde eu morava, mas passados talvez cinquenta metros o que eu sentia era uma enorme raiva. E num pequeno largo cheio de gente desatei aos berros com ele, chamei-lhe de monte de esterco para baixo; com o indicador da mão direita quase colado ao nariz dele disse-lhe que lhe partia a cara se ele não se pusesse a andar. Ele continuou a balbuciar qualquer coisa, que eu pensei ser nova ordinarice, e já estava a levar a mão atrás para lhe assentar um soco quando percebi que o que ele estava a dizer era: Desculpe, desculpe. E foi-se embora. E nunca mais me perseguiu, ainda que tenhamos voltado a cruzar-nos porque vivíamos no mesmo bairro.
Foi então que percebi que o principal móbil destes homens é muito simplesmente a impunidade. A mais perfeita impunidade. Daí atacarem à luz do dia, com pessoas a passar e até em transportes sobrelotados. E percebi também que, quando uma mulher os ataca de volta, ficam tão siderados que nem têm capacidade de reacção. Desde então, e muitos anos depois de ter começado a ser assediada, comecei a gritar-lhes e a ameaçá-los sistematicamente, por uma questão de princípio, não apenas por mim - pois quando comecei a responder também deixei de ter tanto medo e de me sentir tão impotente - mas por todas as adolescentes e jovens mulheres que são o alvo mais frequente e que são menos capazes de se defenderem do que uma mulher adulta.
Tenho agora 43 anos e continuo a ser assediada. No ano passado, estava eu grávida e um dos meus cães tinha fugido, por isso eu ia muitas vezes à janela ver se o via passar. Numa dessas vezes reparo que do outro lado da rua, frente à porta do prédio, estava um homem a observar-me e a masturbar-se. Gritei-lhe, insultei-o, ameacei-o e ele foi-se embora e nunca mais o voltei a ver.
A última vez que fui assediada estava a dar de mamar num banco público perto da MAC e um homem de 20 e poucos anos ficou a olhar para o meu peito embasbacado. Perguntei-lhe qual era o problema dele. Disse que estava maldisposto e foi deitar-se de barriga para baixo no banco ao lado do meu e não despegou os olhos de mim. Desta vez não gritei nem o enxotei porque não queria assustar a bebé. Quando o meu namorado chegou, a “indisposição” passou-lhe como por magia e ele foi-se imediatamente embora.
Agora a minha bebé tem 5 meses, e quando penso que daqui a 11, 12 anos também a minha bebé, a minha luminosa bebé, será carne para canhão, mais uma menina, jovem, mulher a viver com o medo perene de ser violada, sinto uma revolta maior do que consigo dizer.
BASTA.
É já tempo de as mulheres todas se juntarem e lutarem contra isto. É já tempo de os homens que nunca se aperceberam desta enorme cultura de assédio e impunidade saírem finalmente da bolha onde têm vivido. É já tempo de os homens pararem de ser coniventes com situações de assédio a que assistem ou de que ouvem os amigos a gabar-se.
E é já tempo de os homens que assediam terem medo.
Na foto sou eu aos 13 anos, a idade com que comecei a ser assediada."


12 maio 2021

há que dizê-lo com frontalidade

 


Nada contra os adeptos do Sporting. Tenho a certeza que se fosse outro clube qualquer a reacção andaria próxima desta. 

Mas quantos dos que ontem participaram nesta festa andaram em 2020 a fazer campanha contra as comemorações do 25 de Abril no Parlamento, a manif do 1º de Maio ou a festa do Avante? 

Parece que o vírus só é realmente perigoso quando o PCP é parte importante da equação...


voltei à vida!

Depois de dia e meio no limbo, voltei. Já arrumei a cozinha e tudo. 

Estou pronta para a segunda rodada, daqui a um mês.
Para quem pergunta "então, não é passado três meses?": como as pessoas estão ansiosas para recuperar a normalidade, o governo alemão decidiu aceitar o bom em vez do óptimo - um intervalo de vacinação de um mês, para permitir a saída para férias já com as duas vacinas tomadas. 

Em Julho vou a Portugal. 


11 maio 2021

noites loucas com o patrocínio da AstraZeneca

Não me lembrava de me ter sentido tão doente - nem nas piores gripes. No princípio da noite dei comigo a tremer de frio e a bater os dentes como castanholas.

Como se não fosse suficientemente mau, o Joachim ainda me perguntava, cheio de perplexidade, porque é que não tinha tomado um paracetamol 500 cinco minutos antes de me darem a injecção, como fazem no hospital dele com óptimos resultados. "Mas o médico que ma deu disse que só passadas seis horas...", e ele a explicar que os processos são diferentes e não há qualquer risco de o medicamento reduzir a acção da vacina, e eu obnubilada de frio a tentar entender e a sentir-me muito desgraçadinha e muito palerma. 

Acordei várias vezes, tentando perceber se a crise já tinha passado. Quais quê! Tinha o corpo em regime de montanha russa: quando parecia que estava finalmente a melhorar, recomeçava a tremer de frio. 

Por sorte sei porque é que me sujeito a isto: se uns tremeliques e algumas dores nas articulações já me fazem sentir tão mal, com certeza não quererei experimentar ver uma sala de cuidados intensivos na óptica do beneficiário. 

Daqui a um mês vou tomar a segunda dose. E está decidido: cinco minutos antes de levar a vacina, tomo um paracetamol 500. Depois digo como correu. 



10 maio 2021

isto agora é comigo


Chegou a minha vez de ser vacinada.

AstraZeneca.

Para alguma coisa há-de servir ter idade oficial de entradota (se contasse a idade mental, estava bem servida...) e ter um problema de saúde que me põe no grupo de risco que começaram a aviar recentemente.

Calhou de hoje estar um dia quente e lindo. Fui de vestido de manga curta, para não fazer a figura do presidente quando lhe deram a vacina da gripe.

Tinham-me dito para tomar imediatamente um paracetamol 500, mas o médico disse que seria mais eficiente deixar primeiro a vacina fazer o trabalhinho. Obedeci a este médico.

A vacina está a fazer o trabalhinho - e de que maneira!
Sinto-me a piorar a olhos vistos.

Se amanhã não aparecer por aqui, é porque estou febril e sonolenta a aviar séries.


08 maio 2021

descubra as diferenças

O caso já tem uma semana, mas continuo a pensar nele. Aconteceu no Governo Sombra de 30 de Abril (aqui, a partir de 15:08), nesta passagem:

João Miguel Tavares: Tu podes não querer [a direita radical no arco da governação] mas são coisas inevitáveis. (...)
Ricardo Araújo Pereira: Mas é mesmo inevitável? Eu acho que isso envolve uma capitulação da parte da direita, que é "nós sozinhos não conseguimos, vamos ter de recorrer ao energúmeno". 
João Miguel Tavares: É isso, envolve essa capitulação, até porque do outro lado o que tu tens é a perpetuação do PS no poder. (...) [Os partidos da esquerda radical] hoje em dia estão mais mansinhos. Mas essa mansidão é também aquilo que acontecerá ao Chega daqui a dez anos, desde que André Ventura chegue ao poder. 

Já vimos este filme. 
Aconteceu em Berlim, na passagem de 1932 para 1933: o político conservador Papen, que já tinha sido chanceler, viu em Hitler a sua oportunidade para regressar ele próprio ao centro do palco político e para afastar a esquerda. Papen tinha a certeza de que Hitler se deixaria "domar" quando chegasse ao poder, e usou toda a sua influência para lavar e normalizar a imagem de um político cujas ideias e acções suscitavam - muito justificadamente - enorme aversão e desconfiança aos defensores do sistema democrático. 

Longe de mim a ideia de pôr no mesmo plano Hitler e aquele senhor que fez no parlamento português as propostas de meter todos os ciganos em campos de concentração e de tirar a nacionalidade a pessoas que dizem algo contrário à ideologia do Estado Novo. Ao apontar as semelhanças entre a argumentação de João Miguel Tavares e a de Papen pretendo apenas lembrar esta página da História que nos alerta para não sermos ingénuos em relação a políticos cuja ascensão se baseia numa estratégia de atropelo deliberado das minorias.  

Quanto à afirmação de João Miguel Tavares sobre os partidos de esquerda terem um passado pouco recomendável, e entretanto terem amansado, o que - segundo ele - justifica que toleremos agora os desmandos do partido daquele senhor (o que quer meter ciganos em campos de concentração e tirar a nacionalidade a quem diz algo que o incomoda), porque também ele ficará mansinho daqui a dez anos: não são os partidos que "amansam" - é a Democracia e o Estado de Direito que ganham solidez. O que foi possível numa fase inicial da nossa Democracia é inaceitável hoje em dia. Mais ainda: infelizmente já temos na União Europeia vários casos de partidos que não "amansam" quando chegam ao poder (veja-se por exemplo o caso do FPÖ na Áustria)


Para quem goste do estilo "crónica de uma morte anunciada", traduzo de seguida algumas passagens de uma página da Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para a Educação Cívica alemã) sobre o tema "Destruição da Democracia 1930-1933"



O crash da bolsa do "Black Friday" de 1929 atingiu a Alemanha de forma particularmente dura. O desemprego em massa e a pobreza levaram a uma radicalização política da população. Uma sucessão rápida de crises governamentais enfraqueceu ainda mais a República - e deslocou muitos votos para o partido nazi.


Entre 1928 e 1931 duplicou o número das falências anuais. No inverno de 1929/30 já havia mais de três milhões de desempregados. Criou-se um círculo vicioso: redução do poder de compra - menos procura - redução da produção - novos despedimentos. Diferenças políticas internas inultrapassáveis na coligação governamental (sobre aumentar as contribuições para o fundo de desemprego ou baixar o valor, já muito baixo, do subsídio de desemprego) levaram à queda do governo em fins de Março de 1930. O presidente Hindenburg nomeou imediatamente um novo chefe de governo, mais conservador, que não contava com a maioria parlamentar mas tinha o apoio do presidente e dos grandes industriais. Um novo pacote governamental de medidas de combate à crise que aumentavam as contribuições e reduziam os subsídios foi chumbado pelo parlamento, mas o presidente impô-lo na forma de decreto de emergência (o que era um procedimento anticonstitucional). O parlamento reagiu, e foi imediatamente dissolvido. Nas eleições que se seguiram, a 14.9.1930, o NSDAP subiu dos 2,6% de 1928 para 18,3%. Com 107 deputados, tornou-se o segundo partido mais importante no parlamento (a seguir aos socialistas do SPD, e antes dos comunistas do KPD). 

Estes resultados eleitorais espelhavam as consequências materiais e psicológicas da crise económica. A taxa de desemprego, já na ordem dos 14%, levou a uma polarização política. Muitos trabalhadores desempregados votaram pela primeira vez no partido comunista.  A classe média tradicional e a emergente viram-se também ameaçadas de pobreza, e reagiram radicalizando-se em direcção ao NSDAP. A escolha do partido de Hitler resultou do facto de este ser o único que não estava desgastado do ponto de vista político - ainda não fora sujeito a qualquer teste de credibilidade e competência. Além disso, o seu programa e a sua propaganda abordavam de forma muito mais hábil que as dos outros partidos questões importantes da classe média, preocupada em manter o seu estatuto e a propriedade privada. A mensagem continha elementos antimarxistas e anticapitalistas. O seu anticapitalismo era - ao contrário do marxista - limitado, e compatível com os interesses da classe média, uma vez que respeitava a propriedade privada. Não se dirigia contra o "capitalismo criador", mas contra o "capitalismo voraz", ou seja, contra bancos (taxas de juro demasiado altas para os créditos e demasiado baixas para os depósitos), a bolsa (falta de transparência nas oportunidades de ganho e nos riscos), e grandes superfícies comerciais (que ameaçavam a concorrência). Segundo o NSDAP, por trás do "capitalismo voraz" estavam as manobras de uma "rede judaica financeira internacional". Assim se integrava o anticapitalismo na ideologia racista nazi, transformando os judeus em bode expiatório. Para os nazis, também o "marxismo" (ou seja, as organizações e a política comunistas e socialistas) e a República de Weimar (consequência da alegada "facada nas costas" na primeira guerra mundial) eram o resultado das "nefastas manobras dos judeus". Em suma, a mensagem política do NSDAP era a seguinte: para combater as ameaças internas e externas ao Estado, à sociedade e à economia era preciso combater os judeus. Uma mensagem simples e apelativa num país com uma longa tradição de antijudaísmo e anti-semitismo, e a viver as consequências de uma derrota militar ainda não resolvida e de uma crise económica mundial.

A radicalização parlamentar que resultou destas eleições de 1928, dando aos nazis 107 deputados e aos comunistas 77, agravou a situação económica. Temendo a instabilidade política da República de Weimar, investidores estrangeiros - particularmente os bancos americanos e franceses que já estavam em dificuldades devido à crise - começaram a retirar os seus créditos a curto prazo. A crise económica tornou-se ainda maior, fazendo crescer a taxa de desemprego.  

Seguiram-se meses de negociações e de instabilidade. Brüning, o chanceler nomeado pelo presidente Hindenburg, tentou fazer um acordo de governação com os nazis, que Hitler não aceitou por não servir a sua estratégia de conquista do poder. Preferia esperar mais dois ou três ciclos eleitorais para conquistar a maioria e governar o país à sua vontade. Por seu lado, o SPD decidiu apoiar o governo de Brüning, apesar da sua política autoritária e anti-social, para evitar novas eleições que poderiam dar ainda mais preponderância ao NSDAP e obrigariam Hindenburg a nomear Hitler como chanceler. Olhando para o que se passava em Itália, previa-se facilmente o que um governo nazi traria à Alemanha: o fim da Democracia e do Estado de Direito, dos partidos de esquerda e dos sindicatos.

Em 1931 a situação complicou-se ainda mais: a desvalorização da moeda de outros países, resultante do abandono do padrão barra-ouro, encareceu as exportações alemãs e provocou uma redução dessa procura. A imposição governamental de descida geral dos preços internos, para compensar a subida de preços no mercado internacional, aumentou ainda mais a pobreza e a insegurança. Por outro lado, e sobretudo devido a exigências da França, foi impedida a criação de uma união aduaneira entre a Alemanha e a Áustria. Perante perspectivas económicas muito mais desfavoráveis que aquelas que o acordo aduaneiro teria trazido, os investidores internacionais recuaram, exigindo a restituição dos seus créditos em vez de os prolongar, o que agravou muito a crise bancária naqueles dois países, e teve obviamente consequências a nível empresarial, uma vez que as empresas ficaram impossibilitadas de receber os créditos necessários à continuação da actividade produtiva. Cumulativamente, a estratégia de Brüning para  obrigar os outros países a renegociar as condições do Tratado de Versalhes passava também por deixar a população e a economia alemã numa situação de tal forma miserável que não deixasse lugar para dúvidas de que o país não conseguia cumprir o que lhe fora imposto. 

Na Conferência de Lausana, em Junho e Julho de 1932, viria a ser decidido cancelar todas as exigências de pagamento de reparações por parte da Alemanha. Brüning já não era o chanceler - entretanto tinha sido substituído por Papen. O seu objectivo fora atingido, mas a um altíssimo preço: esvaziamento do sistema político parlamentar, agravamento da crise económica, aumento da miséria de milhões de famílias e uma radicalização política como nunca antes acontecera. A política de Brüning acelerou a passagem do partido nazi, reconhecidamente extremista e violento, para um movimento de massas que ameaçava o Estado. 

À medida que o desemprego e a pobreza alastravam, aumentavam as tensões entre os partido políticos, e sucediam-se os confrontos entre forças paramilitares dos grandes partidos da direita e da esquerda. Na polícia crescia a simpatia pelos grupos nazis. Intrigas entre os conselheiros e aliados de Hindenburg levaram a uma aproximação secreta a Hitler, que se viu cada vez mais perto do seu objectivo. 

Mesmo assim, 1932 foi um mau ano para os nazis. Hitler perdeu as eleições presidenciais contra Hindenburg, e o NSDAP, depois de uma enorme subida nas eleições federais de Julho, perdeu dois milhões de votos nas de Novembro, baixando de 37,8% para 33,6%. Perto do fim do ano, com a população a retirar apoio ao NSDAP, e as caixas do partido bastante vazias, Hitler chegou a pensar em suicídio. 

O SPD também foi muito castigado por ter decidido aceitar o mal menor, permitindo a governação de Brüning. Após as eleições de Novembro de 1932, a única maioria parlamentar possível seria uma aliança entre os nazis e os comunistas. Por não lhe ser concedido todo o poder que queria, Hitler recusou a proposta de Hindenburg para participar numa solução política. O governo de Papen encontrava-se num beco sem saída. Com grande pena sua, Hindenburg viu-se obrigado a demitir Papen, entregando o lugar deste a Schleicher, desde há vários anos conselheiro presidencial. Schleicher distanciou-se do capitalismo e do comunismo, para dar início a uma "frente transversal" com o objectivo prioritário de criar emprego. Esta nova orientação contou com o apoio de vários sectores sociais e políticos, mas algumas das medidas provocaram tamanho descontentamento popular que - depois de tentar secretamente manobras anticonstitucionais, que Hindenburg não permitiu - o seu governo viria a cair em fins de Janeiro de 1933. 

Hitler tinha aliados importantes entre os grandes industriais, em particular a partir de janeiro de 1932, quando lhes garantiu que o "socialismo" no programa do NSDAP de 1920 (partilha de lucros com os trabalhadores, reforma agrária, nacionalização das grandes superfícies comerciais [estas eram maioritariamente propriedade de judeus]) era apenas um engodo para atrair os votos dos trabalhadores e da baixa classe média, quando de facto não havia a menor intenção de alterar o estatuto dos empresários ou a propriedade dos meios de produção. Em Novembro de 1932, vinte e dois representantes de sectores importantes da economia (indústria pesada, comércio, navegação comercial, bancos, grandes proprietários rurais) enviaram a Hindenburg uma petição para que ele nomeasse finalmente "o dirigente do maior grupo nacional". Hindenburg escolheu antes Schleicher, cuja "frente transversal" assustou alguns círculos conservadores na economia, no exército e no aparelho de Estado, que temiam tratar-se de um "socialista disfarçado". Hitler parecia-lhes um dirigente mais adequado. Acreditavam que poderiam "enquadrar" e "domar" o NSDAP de tal forma que este teria de governar no sentido dos seus aliados conservadores, e nesse processo acabaria por se "desgastar" politicamente.    

Os apoiantes de Hitler não tinham acesso directo ao Presidente do Reich. Resolveram este problema com a ajuda de Papen, que era o único capaz de dissipar a desconfiança de Hindenburg em relação a Hitler. Apesar da sua má experiência com o líder do NSDAP, Papen aproximou-se dele porque o via como uma oportunidade de regressar ao governo. Por sua vez, Hitler ignorou a antipatia que sentia por Papen, porque tinha consciência da posição de fraqueza em que o NSDAP se encontrava em finais de 1932, e sabia que para conquistar o poder teria de fazer compromissos tácticos. 

A 4 de Janeiro de 1933 Papen e Hitler reúnem-se numa residência privada para negociar as pastas de um novo governo para substituir o de Schleicher. A 9 de Janeiro, e sem que Schleicher disso tivesse conhecimento, Hindenburg incumbiu Papen de preparar um governo do qual seria chefe, com o apoio do NSDAP. Enquanto as sondagens decorriam, várias pessoas próximas de Hindenburg declararam-se favoráveis a uma solução política com o NSDAP e aconselharam o presidente nesse sentido. Quando o governo de Schleicher caiu, em 28 de Janeiro de 1933, devido à crescente resistência popular, Hindenburg começou a considerar seriamente entregar o poder a Hitler. A sua única condição era a de dar a pasta da defesa a Blomberg - algo com que Hitler facilmente concordou porque, sem que o  presidente soubesse, já tinha em Blomberg um simpatizante. 

No dia seguinte desenhou-se apressadamente um novo governo, Papen cuidou de dissipar as últimas reservas de Hindenburg, rumores da ameaça de um golpe de Estado por parte de Schleicher forçaram os últimos renitentes a ceder, e o novo governo tomou posse jurando sobre a Constituição da República de Weimar. No governo havia apenas três nazis, mas estes detinham posições muito estratégicas: Hitler era o chanceler, no ministério do Interior estava Frick, que foi responsável, entre outras coisas, pela preparação e implementação de leis ou decretos de emergência sobre segurança interna (por exemplo, proibições de jornais, reuniões, e partidos políticos). Göring estava à frente do Ministério do Interior da Prússia como Reichskommissar - e consequentemente da maior força policial estatal alemã. Contavam ainda com a afinidade de Blomberg, ministro da Defesa. 

À crítica de um conservador, Papen respondeu: "O que é que quer? Tenho a confiança de Hindenburg. Em dois meses temos Hitler tão encurralado a um canto que até guincha". Ao contrário do que Papen previra, o NSDAP conseguiu perfurar o seu "cerco" logo no dia seguinte, quando Hitler sabotou deliberadamente as negociações que lhe tinham sido impostas com Kaas, o líder do centro. Pediu que se adiasse a reunião do parlamento por um ano - o que era um pedido obviamente inaceitável. Dirigiu-se então a Hindenburg com o pedido de dissolução do parlamento, dizendo que não podia governar naquelas condições, e garantindo ao presidente que não precisava de se preocupar, porque estas novas eleições seriam "as últimas". Hindenburg concordou e emitiu a ordem de dissolução a 1 de Fevereiro de 1933.

Os opositores do NSDAP ficaram consternados com a nomeação de Hitler como chanceler do Reich, mas não conseguiram levar a cabo uma acção conjunta. O partido comunista apelou a uma greve geral e propôs aos sociais-democratas a formação de uma "frente unida". Mas nem agora os sociais-democratas viam qualquer base de cooperação. Desconfiavam dos comunistas, que continuavam a lutar por uma "Alemanha soviética" e já anteriormente se tinham servido de acções conjuntas para conquistar os trabalhadores social-democratas para o seu campo. O SPD limitou-se a exortar os seus membros e apoiantes a preservar "sangue frio, determinação, disciplina e unidade" e a advertir o novo governo contra as violações constitucionais. Para os sindicatos, uma greve geral estava tão fora de questão como em Julho de 1932. Não era de esperar resistência do Partido do Centro (Zentrumspartei), que certamente queria coligações com o NSDAP. Os partidos burgueses-liberais, devido à sua fraqueza, quase não desempenharam qualquer papel. 

Acima de tudo, as tácticas de legalidade de Hitler estavam a ser recompensadas. O NSDAP não tinha conquistado o poder político, tinha-o antes recebido em aparente conformidade com a Constituição. O que tinha acontecido não era uma "tomada do poder", como mais tarde se vangloriou a propaganda nazi, mas uma transferência de poder com certas limitações: a entrega a Hitler da liderança de um governo parlamentar. Se o NSDAP conseguiu em ano e meio eliminar os seus opositores, desfazer-se dos parceiros de coligação, e estabelecer um "Führerstaat" ditatorial, foi principalmente porque encenou este processo como uma "revolução legal": nomeadamente, como uma "mudança profunda em todas as áreas", mas que teve lugar "no quadro do Direito e da Constituição" - reconhecidamente combinada com um terror mal disfarçado. Foi isto que "tornou qualquer resistência de natureza jurídica, política ou mesmo intelectual tão difícil, de facto - como muitos acreditam - praticamente impossível" (Karl Dietrich Bracher). Quem quisesse travar o desenvolvimento rumo à ditadura tinha de ir para a ilegalidade - o que era dissuasivo. Mas quando o "Terceiro Reich" se instalou, e a desumanidade dos seus objectivos e métodos de governar eclipsou tudo o que antes se tinha visto, era demasiado tarde para uma resistência ampla e bem-sucedida.


o palerma do algoritmo

 

Hihihihi, o palerma do algoritmo mostrou-me publicidade de roupa de cama que não está passada a ferro. Aos anos que aqui andamos, e ainda não percebeu que nas veias dos portugueses corre um ferro de passar...


06 maio 2021

prairie dog


Fox, o autêntico "cão da pradaria". :)

(as fotos que se seguem são só para quem estava com saudades do bicho; se pedirem com jeitinho, publico mais umas 50...)






e por falar em primavera...


O galeirão que parecia ter desistido de fazer um ninho depois de ter visto o seu espaço ocupado por um pato (denunciei esse crime neste post) mudou de ideias. Vi-o há dias a recomeçar a obra, e hoje encontrei o ninho ocupado. Vem por aí uma ninhada de "galeirinhos". 





Nos juncos do outro lado do lago também há novidades: um ninho de cisne. Mas um dos cisnes que vi hoje deixou-me preocupada - nadava com uma pata só, e tinha a outra no ar. Muito estranho. 


Das tartarugas é que não sei se vai haver prole ou não. Encontrei uma no tronco onde costumam apanhar sol - apesar de o céu estar bastante nublado. Coitadita, deve andar com falta de vitamina D como eu, e tenta compensar na medida do possível, já que o medicamento para o défice dessa vitamina não é comparticipado.


Os nenúfares, esses, recomeçaram agora a aparecer à tona da água. Um dia destes teremos flores.
Para já, é isto:




disfarçado de primavera

O Fox veio passar dois dias connosco.
Esta manhã fomos ao lago. Estava muito paciente comigo, não fugia para longe enquanto eu tirava as minhas fotografias, e regressou quase sempre quando lhe assobiei. 
Às tantas dei com ele a disfarçar-se de primavera. 



05 maio 2021

Colette e os sobreviventes

 


O documentário que venceu o Óscar na categoria das curtas-metragens levou-me a dois momentos de 2005, por ocasião das comemorações do 60º aniversário da libertação do campo. Tinham convidado os antigos prisioneiros que ainda estavam vivos e vieram mais de seiscentos, que ficaram alojados durante alguns dias em Weimar. 

O primeiro momento: ao fim da tarde de um desses dias fomos falar com um sobrevivente ucraniano, para o informar sobre a possibilidade de ser operado ao melanoma que tinha no nariz, gratuita e imediatamente. Mas ele recusou-se a falar connosco. Tinham acabado de regressar do Mittelbau Dora, e estavam emocionalmente exaustos. Na altura não percebi o que podia ser mais importante que a ameaça de um melanoma e a operação que lhe podia salvar a vida. Entretanto informei-me um pouco mais sobre o que era o Mittelbau Dora. A reacção de Colette, neste documentário, abriu-me os olhos do coração para o que acontecera nesse dia: voltar a esse lugar - o lugar mais infernal do inferno que era Buchenwald - desperta uma dor que se sobrepõe a tudo, inclusivamente à urgência de operar um cancro. 

O segundo momento: durante umas horas acompanhei André Weiss, psiquiatra residente em Bethesda e co-fundador do Memorial do Holocausto em Washington D.C., que tinha saído de Buchenwald com 15 anos, depois de ter estado em Auschwitz. Um homem jovial e inteligente, muito incisivo (já contei várias vezes: era aquele que adorava a música de Wagner, e conseguia perfeitamente separá-la do anti-semitismo do compositor). André Weiss criticou duramente o formato das comemorações: primeiro, os miúdos da escola de música tinham cantado o Buchenwaldlied muito afinadinhos, mas - afirmava ele, peremptório - não tinha nada a ver com aquilo que ele e os outros prisioneiros cantavam nas marchas para o trabalho. Em plena Marktplatz de Weimar (o que equivale a dizer: entre a casa de Lucas Cranach e a varanda onde Hitler se mostrava para ser aclamado pela população, paredes meias com a família Bach e a dois passos da biblioteca de Goethe), cantou bem alto para me mostrar como era - e vou guardar para sempre esse instante e a exaltação da sua voz. Depois - e foi nisso que pensei ao ver, no documentário, a reacção de Colette ao discurso do presidente da Câmara de Nordhausen - criticou também os discursos intermináveis no cimo do monte. Os velhinhos sentados todos juntos, embrulhados em cobertores e arrumados a um canto, e os políticos e intelectuais de vários países a fazer as suas longas declarações de frases óbvias, um após outro.  

Teria sido muito melhor - sugeriu André Weiss - que convidassem os sobreviventes a fazer de novo a formatura na parada do campo de concentração, repetindo o gesto que realizaram pela última vez todos juntos e voluntariamente após a libertação, antes de partirem cada um para o seu destino.
Isso sim: era um símbolo fortíssimo, e colocava aqueles sobreviventes no centro das comemorações e de novo no centro da sua própria história.


04 maio 2021

proposta para tratar o problema do assédio sem passar pela conspurcação geral do #metoo

Parece que o #metoo chegou finalmente a Portugal, e - como não podia deixar de ser - chegou com a transparência e delicadeza de um furacão. 

Se acusam sem nomes, ai e tal, digam os nomes. Se dizem os nomes, ai e tal, isto é manobra dela, e além disso não tem provas. E já a conhecemos de ginjeira: essa histérica, essa arrivista, essa oportunista.

Se contam o que aconteceu, ai e tal, quem a mandou permanecer quando o caso lhe começou a cheirar mal? Não tinha mãos para lhe dar uma bofetada, boca para o mandar abaixo de Braga?
(Esquecem esses brincalhões que as mulheres têm sido condicionadas, século após século, para não ter ouvidos, para não reagir, para não fazerem figuras de histéricas, para não serem desagradáveis nem inconvenientes, para não dar vexame e - sobretudo! - para não criarem situações em que os homens se possam sentir desconfortáveis.)

Se contam quando aconteceu, ai e tal, porque será que (essa histérica, essa arrivista, essa oportunista) só se lembrou de contar agora? 

Obrigadinha. Muito nos ajudam, e não vou chover mais nesse molhado. Mais vale gastar o tempo a tentar arranjar uma solução a contento de todos.

Por estes dias tenho pensado muito na coragem do director do liceu berlinense católico que, ao ouvir uns zunzuns sobre um antigo professor ter assediado alguns rapazes nos anos 70 e 80, em 2010 escreveu uma carta a todos os alunos que tinham frequentado a escola nessa altura, pedindo ajuda para esclarecer o que se passara há três ou quatro décadas (isto é uma indirecta para quem pergunta "e porquê só agora?"). As respostas foram analisadas por duas comissões independentes - uma delas chefiada por uma jurista, e a outra chefiada por uma antiga ministra da Saúde.  A atitude deste director da escola deu origem a revelações sucessivas de crimes de pedofilia na Igreja Católica alemã, a que se seguiram revelações sobre casos idênticos nas Igrejas Evangélicas, num internato da elite de esquerda (este chocou-me especialmente, porque os antigos alunos vieram em defesa dos professores e da escola, dizendo que "era um dar e receber"), em escolas de desporto, em coros infantis e em muitos internatos/orfanatos da RDA. 

O que foi importantíssimo para um desenrolar digno do processo de investigação foi o facto de se tratar de uma iniciativa da instituição sobre a qual havia rumores, oferecendo às vítimas uma plataforma de seriedade e confiança para revelarem o que lhes acontecera. 

E é justamente a dignidade e eficácia daquele processo que põe em evidência o que há de mais errado, perverso e desencorajante no processo #metoo: o carácter individual das denúncias, que nos conduz imediatamente para reacções impulsivas e cegas de ataque ou defesa das pessoas envolvidas. 

Muito melhor seria imitar aquele director do Kanisius Kolleg: se existem rumores, a instituição escreve a todas as pessoas que poderiam ser potenciais vítimas, e envia as respostas para uma comissão de investigação independente. 

Como já vamos avançadinhos no século XXI, sugiro até que, para facilitar, se crie uma app na qual cada pessoa pode descrever o assédio de que foi vítima, identificando o autor do assédio com o nome completo e a empresa/instituição onde ocorreu. Os dados são tratados mecanicamente, e ninguém pode ter acesso a eles. Quando determinado nome começar a aparecer repetidamente, a app envia os respectivos relatos a um grupo de investigação criado especialmente para estes casos. 

Desse modo, o processo iria directamente para a Justiça, sem passar previamente pelo pelourinho das redes sociais, e sem arrastar pela lama o nome de todos os envolvidos. 

Bem sei que esta app só identificaria os casos de "serial sexual harassment". Mas tinha, apesar disso, duas vantagens: em primeiro lugar, não era apenas a palavra de uma pessoa contra a palavra da outra, porque haveria mais do que uma testemunha para a acusação. Em segundo lugar, a existência desta app teria o papel de radares de velocidade bem visíveis numa estrada: o pessoal teria o cuidado de cumprir as regras, por não haver dúvidas sobre o registo de cada incumprimento. 

(- Ai, e tal: já não se pode fazer um elogio a uma pessoa?
 - Pode, pode. Se tiver a certeza que ela vai gostar, pode.) 

---

Optei por escrever "pessoas" em vez de "homens/mulheres" para evitar que alguns enfiem a conversa pelo beco retórico do "ai e é só as mulheres? Também há mulheres chefes que abusam do seu poder para assediar os subordinados..."
Para já, tratemos de resolver o problema do assédio de forma pragmática e digna.
O debate sobre a estrutura machista e patriarcal que nos condiciona é importante e urgente, e pode ser feito em paralelo. 


03 maio 2021

nova táctica na Alemanha: tudo a monte e fé em Deus

A obstinação em fazer tudo de forma extremamente correcta, sem furar prioridades nem cometer o menor desrespeito pelas regras, é um dos motivos para o baixo ritmo de vacinação que se verificou na Alemanha até há pouco tempo. Outro motivo é a mudança permanente de regras: de momento, ninguém sabe se deve ficar pacatamente à espera de uma carta, ou se deve começar a telefonar para tudo o que é consultório médico. Por estes dias, tenho ouvido dizer que é aconselhável tomar a iniciativa de perguntar ao médico, e soube até de alguém que conseguiu a vacina praticamente por acaso na ginecologista. Imagina-se a confusão que irá nos consultórios, se todas as pessoas começarem a telefonar para todos os médicos com quem falaram alguma vez no passado. O resultado também é fácil de imaginar: uma amiga minha ligou à sua médica e levou com uma gravação no atendedor de chamadas dizendo que não se atendem chamadas para falar sobre a vacina, e que os doentes serão contactados quando chegar a vez deles.

Em suma: um belo caos. E se isto já é complicado para qualquer cidadão, torna-se um sarilho enorme para grupos sociais de menores rendimentos, particularmente os imigrantes que mal falam alemão. 

Hoje, uma das notícias mais importantes do dia na Alemanha referia-se a Colónia. Nos bairros mais pobres desta cidade - cujos habitantes vivem em espaços exíguos e densamente ocupados, e trabalham em condições que implicam um risco maior de contágio - a taxa de incidência de covid é cerca de oito vezes superior à dos bairros mais ricos. Para corrigir este desequilíbrio, os responsáveis decidiram levar a vacina às pessoas das regiões mais afectadas da cidade. Mal correu a notícia de que em determinados locais haveria unidades móveis de vacinação para todos os interessados, formaram-se filas de pessoas que esperaram várias horas até receber a sua vacina Moderna.  

Como é que não nos lembrámos mais cedo desta solução? É óbvio que para reduzir o número de contágios há que vacinar primeiro as pessoas que vivem e trabalham em condições mais favoráveis à difusão do vírus. 

(Espero que esteja aí alguém a anotar isto tudo, para que na próxima pandemia já se possa planear mais à antiga maneira alemã.) 


30 abril 2021

um mantra para este tempo

 


A falta do acento em "está" mexe-me um bocadinho com os nervos, mas releio a frase e faço por seguir esse bom conselho.

Estamos todos a tentar escapar com o mínimo de danos a esta crise, e o esforço vai ao ponto de tentar esconder a nós próprios que não estamos bem. Mais vale assumir, e repetir como um mantra:

"Seja gentil e calmo com as pessoas. Quase ninguém está bem. Nem eu. Nem os outros." 


28 abril 2021

mais Chico!

 

Partilho, porque: ça va sans dire.

Além disso: o que tem de ser tem muita força.

E também: felizmente está de óculos escuros, assim posso-me concentrar melhor no que diz.

Tanto mais que: diz coisas engraçadas. (pffff! que novidade...)

Finalmente: não percam o diálogo final entre os passarinhos. 🙂


Chico!

 

Em estado de eufórico deslumbramento, uma amiga ofereceu-me um link para ver o documentário sobre o Chico, que passou no dia 25 de Abril na RTP. Ela estava tão deslumbrada que eu larguei tudo para ir logo ver, mas:

"sem direitos de transmissão".
Fiquei furiosa com os senhores da RTP. Isto não se faz aos desgraçadinhos da diáspora! Andamos nós cá fora a lutar pela vida, e afinal o melhor da vida (o Chico Buarque, obviamente!) está "sem direitos de transmissão". Um dia destes ainda faço queixa ao meu deputado, e vai tudo raso! Humpf!
No final, tudo acabou em bem. Por causa de umas amigas que são mais que mães para mim, e me avisaram que o documentário está no youtube.

Mas escusam de ir espreitar. Mais sobra para mim... :)



um feixe de meridianos


Estava aqui a pensar: se em determinado momento uma pessoa partir de Pyongyang e outra de Lisboa (são cidades à mesma latitude), se partirem ambas em direcção ao Pólo Norte, e se fizerem um caminho paralelo aos respectivos meridianos, e se chegarem ao destino exactamente ao mesmo tempo - não chegam à mesma hora, certo?
Os relógios dessas pessoas têm oito horas de diferença, e estão ambos certos.
(E o acertador automático de relógios digitais ia ficar maluquinho se eles se pusessem a andar para cá e para lá naquele autêntico feixe de meridianos) (hehehe, desta é que o Einstein não se lembrou!) (Bem me podiam ter dado o Nobel antes a mim.) 

(Variação simplista do gato de Schrödinger: um gato em cima do Pólo Norte, com um relógio em cada pata, está ao mesmo tempo em 4 horas diferentes.) (Marcha mais um Nobel!)

então?

 
Então o Mário Laginha fez 61 anos?

Mas como? Tenho-o metido na gaveta de "rapaz novo cheio de talento", e não consigo tirar o "rapaz novo" dessa classificação.