21 julho 2020

"unissexo" (3)

Um tema fracturante dos nossos dias são as casas de banho públicas #unissexo.
Habituados a um mundo binário - menino ou menina, homem ou mulher, azul ou cor-de-rosa - não nos apercebemos do sofrimento daqueles que não cabem nestas categorias.

Há tempos traduzi no meu blogue um texto que me sensibilizou para esta questão. Se quiserem ler, está aqui.

Em Portugal já vi, curiosamente, casas de banho unissexo em vários centros de encontros da Igreja Católica. Parece que o futuro, além de possível, é tranquilo.

Já em França tenho visto várias casas de banho públicas que separam homem/mulher, mas têm os urinóis na parte comum, onde estão também os lavatórios.

Ora bem: urinóis na parte comum, antes de separar por sexos, é mais ou menos como usar máscara contra o coronavírus e deixar o nariz de fora...


20 julho 2020

carne para canhão

Se bem entendi: Artur Mesquita Guimarães, pai de seis filhos, escolheu usar dois deles para fazer um braço de ferro com o Ministério da Educação. O pai entende que a matéria dada na nova disciplina "Cidadania e Desenvolvimento" (ver os temas no gráfico acima) deve ser do exclusivo foro feudo dos pais. Em vez de usar os mecanismos que o Estado de Direito põe à disposição de todos (exposição, pedido de dispensa a determinados temas, pedido de providência cautelar, processo em tribunal), simplesmente não deixou que os seus filhos frequentassem as aulas dessa disciplina, apesar de conhecer perfeitamente as consequências dessa decisão (que é: reprovar o ano por faltas). Entre uma atitude de cidadania e uma atitude prepotente de atroz primarismo, escolheu a segunda: "os filhos são meus, faço com eles o que muito bem me apetecer". Belo exemplo que dá aos filhos... - e logo aquele pai que, ironicamente, reclama para si o papel de educador absoluto, sem interferências do Estado.
Procurei na net detalhes que justificassem a posição de Artur Mesquita Guimarães. Não encontrei nenhuma informação sobre falha concreta da escola ou dos professores dessa disciplina. Encontrei o que parece ser um documento - infelizmente truncado - da Assembleia da República, de 14.4.2009. Aparentemente, o problema de Artur Mesquita Guimarães, já em 2009, era a inclusão da Educação Sexual no currículo escolar. Não uma orientação em particular, mas a Educação Sexual, tout court. Que entenderá ele por "Educação Sexual"? Que tipo de perversidades e perigos intui ele sob esse nome? E que pouca confiança terá nas suas capacidades como educador, para temer que meia dúzia de aulas na escola possam deitar por terra todos os princípios que laboriosamente inculca aos filhos? Ao ser agora confrontado com as consequências das escolhas que fez, e que conhecia perfeitamente quando tomou a decisão, Artur Mesquita Guimarães escreveu uma Carta Aberta que foi publicada - oh, surpresa! - no site "Notícias Viriato" (classificado como "meio de desinformação" na lista de vigilância do MediaLab do ISCTE). Partilho-a no fim deste post: é a segunda fase da sua estratégia no braço de ferro que decidiu travar com o Estado português. Na terceira fase da sua estratégia está a contar connosco, muito bem manipulados por ele: uma turba enfurecida que se erga contra aquilo a que ele chama o "totalitarismo" do Estado. Já arranjou uma amiga para publicar no Observador um artigo a seu favor, e que é particularmente elucidativo na parte em que usa a escola pública da Califórnia como exemplo: "Até nas outras disciplinas, como ciência ou filosofia, o professor tinha cuidado para não interferir com a liberdade de pensamento individual dos alunos e respectivas famílias". Sim, leram bem: professores de ciências que têm o cuidado de ensinar ciência sem interferir com a liberdade de pensamento individual! Infelizmente, isto não é inventado. Eu própria vi, em 2001, numa reunião de pais em San Francisco: a professora primária da minha filha a gaguejar para explicar porque é que pôs um poster sobre a evolução das espécies na parede da sala de ciências daquela escola. É caso para dizer: "quem tem amigas assim, não precisa de inimigos". O texto de defesa da posição deste pai, no Observador, já aponta para o que pode acontecer a seguir, se o Ministério da Educação ceder neste braço de ferro. De hoje para amanhã, os filhos dos terraplanistas podem deixar de frequentar as aulas de Geografia, os filhos dos anti-vax podem deixar de frequentar as aulas de Ciências, os filhos dos apologistas do Estado Novo podem deixar de frequentar as aulas de História.
Mas foquemo-nos no que é realmente importante: a situação destes dois menores, encurralados entre as regras do Estado e a prepotência do pai. O que sentiriam todas as vezes que faltaram às aulas daquela disciplina? O que sentiram quando a escola avisou os pais de que os filhos iam perder o ano por faltas? O que estão a sentir agora que foram confrontados com as consequências da decisão dos pais, e reprovaram por excesso de faltas injustificadas? Como será viver na situação de refém dos próprios pais, que abusaram do seu poder de educadores e puseram em causa o bem-estar dos filhos, servindo-se deles como alavanca para aumentar os efeitos mediáticos da sua guerra ideológica contra o Estado? Alguém informe esse pai que numa sociedade democrática se pode debater tudo, mas não se pode fazer tudo. Que "objecção de consciência" é um conceito muito sério, e não se aplica a birras como este espernear descontrolado para impor que só os pais tenham o direito de falar de certos temas com os filhos. Alguém lhes diga que os pais não são proprietários dos filhos. Alguém (nomeadamente os serviços de protecção de menores) explique a essa família que o primeiro dever dos pais é proteger os filhos, o exacto contrário de se servir deles como carne para o canhão das suas guerras ideológicas.
(Ah, sim, quase me esquecia: o perigo do "marxismo cultural". Essa questão resolve-se facilmente: apresentem casos concretos de algo que foi ensinado pelos professores desta disciplina e é contrário aos valores básicos da nossa sociedade.)
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Carta Aberta a Secretário de Estado da Educação
Exmo. Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Educação
Prof. Doutor João Costa
Pela presente venho apresentar-lhe os meus sinceros agradecimentos!
Eu sou aquele pai e, naturalmente, também encarregado de educação, que não autoriza a participação dos filhos na disciplina, recentemente criada, de “Cidadania e Desenvolvimento (CD)”.
Não à revelia, tendo em conta que disso demos conhecimento à Escola e não só - grande parte da troca de correspondência com a escola foi com conhecimento do Sr. Ministro da Educação e da DGEstE – mas oportuna e atempadamente, desde que a disciplina foi introduzida.
Nada temos a temer
Acontece que, na semana passada, mais propriamente no dia 27 de Fevereiro, foi-me entregue, a mim e à minha esposa, em mão própria, com direito a “Certidão de Notificação”, um Despacho subscrito por V. Exa. a 16 de Janeiro de 2020, acompanhado de outra documentação com ele relacionada, da IGEC e da DGEstE, pelo crime de lesa majestade que eu e a minha esposa teríamos cometido ao não deixar os nossos filhos participar na disciplina acima referida.
Estou-lhe agradecido, particularmente, porque esta documentação retrata inequivocamente a intenção ditatorial do Estado em, abusivamente, ocupar/invadir o espaço educativo consagrado na Constituição da República Portuguesa aos PAIS. É uma espécie de tique que já se arrasta de há uns anos a esta parte, embora agora com um avanço significativo na criação da recente disciplina, CD, elevada ao estatuto de curricular (!).
É de estranhar a falta de cuidado nas medidas preconizadas a aplicar aos meus filhos - retrocederem de ano a) e aí ficarem retidos, até que os pais decidam deixar que participem em CD - contrariando a apregoada sensibilidade do Sr. Ministro da Educação quanto à discriminação dos jovens que por qualquer motivo (coitadinhos) fiquem retidos no ano lectivo. Parafraseando o Fernando Pessa: “E esta, hein?!”.
Curiosamente, na documentação que me/nos foi apresentada, em jeito de conclusão, refere-se ainda que urge legislar no sentido de eliminar totalmente a acção dos pais junto da escola, naquilo que contraria a intenção educativa do Estado sobre os nossos filhos. Parece que ainda há por ali uma brecha, particularmente, na obediência que os filhos devem aos pais e nas sanções a aplicar aos pais que não alinhem com o sistema. Profundamente lamentável!
Recentemente alguém disse: “Filhos do Estado, NÃO!” – E EU SUBSCREVO.
Pois bem, Exmo. Senhor Secretário de Estado, desde já deve ficar a saber que, pelas obrigações e direitos que me competem enquanto pai, estarei à altura das minhas responsabilidades - pelo bem dos meus filhos, pelos direitos dos pais e pela liberdade das famílias.
Creia-me verdadeiramente agradecido.
Brufe VNF, 01 de Março de 2020
Artur Mesquita Guimarães
CC 6592742 7ZY4
Obs.: esta carta poderia ser fechada, mas optei por que fosse aberta porque certamente dá conta do grito silencioso de muitos pais que, por medo e/ou por ameaças, ficam inibidos de exercer a sua vontade em liberdade, junto da escola dos seus filhos, no que se refere a este assunto.
a) Ambos os meus filhos obtiveram a média de 5 valores no ano transacto e, no registo de avaliação do 3º período, em apreciação global de cada um pode ler-se: “aluno empenhado, interessado e responsável” e “aluno muito interessado, empenhado e participativo. É bastante responsável”


"unissexo" (2)

Partilho o post da Ana Martins, uma das colegas da Enciclopédia Ilustrada:


A roupa #unissexo surge nos EUA nos finais dos anos 60. Estava na moda a ideia da juventude rebelde que quebra padrões - e nada mais jovem e mais rebelde que quebrar as barreiras de idade, género e classe social. Juntando a isto as roupas que dois jovens actores, Dean e Brando, usavam no grande ecrã na década anterior, assim surgiram as duas primeiras peças unissexo, as T-shirts e os jeans.
Todo um novo conceito de liberdade estava aqui implícito. "No sentido óbvio, unissexo significava libertação do género, mas, mais importante, a sua associação com o futuro - ao rejeitar as hierarquias tradicionais e as atitudes antiquadas - fez dele uma importante força motriz da moda".
Um dos designers que mais promoveu a noção de unissexo, querendo retirar a noção de vergonha e de sexualização do corpo humano que, segundo ele, tirava o foco do essencial, o humano que o habitava, (não há como não gostar deste homem!), foi Rudi Gernreich, um jovem judeu austríaco que fugiu com a mãe para L.A. no início da II GG.
Uma crítica de moda escreveu que Gernreich "tinha dois objectivos para os seus projectos: um era criar roupa moderna 'para o século 20 e além' e o outro tornar-se 'um comentarista social, que apenas passou a trabalhar no meio de roupas'. Bom, no primeiro falhou redondamente. Melhor, falhámos nós enquanto sociedade: já estivemos lá, já estivemos no caminho certo, mas decidimos voltar bem atrás no caminho e escolher a via da diferenciação, o que alegremente nos levou a estereótipos de género que hoje cultuamos (como somos burros!!!)
Foto: Outra das (muitas) inovações dos anos 60 foi o futurismo, e como se imaginava a evolução do Homem depois da conquista da Lua. Os modelos unissexo de "Espaço 1999" foram criação de Gernreich.


"unissexo" (1)

Alguns apontamentos sobre vestuário #unissexo:

1. Na época em que eu era adolescente, o hábito de usar roupa #unissexo deu imenso jeito aos meus pais: com cinco filhos entremeados rapaz/rapariga, a roupa passava directamente de uns para outros sem maiores apertos da carteira: calças da ganga e de bombazine, t-shirts e camisolas, camisas velhas do pai, kispos - assunto resolvido. 
A roupa servia apenas para vestir. Não tinha exibições parolas de marcas, não era statement de nada. E aparentemente os adolescentes não precisavam de se escorar na roupa para descobrirem qual era o seu género.

1 bis. Por causa da última frase lembrei-me daquela anedota dos bebés na maternidade:
- Tu és menino ou menina?
- Eu sou menina. E tu?
O outro levanta o cobertor, olha para baixo, e diz:
- Sou menino.
- Como é que sabes?
- Tenho meias azuis.

2. Não vai há muitas décadas, as crianças vestiam-se todas de igual até determinada idade. Nas fotografias antigas não dá para ver, naquela ranchada de crianças de caracóis e vestido, quais são os rapazes da família. O #unissexo das crianças de antigamente era mais feminino ("feminino" para os critérios de hoje)

3. Vá-se lá saber como, em algum momento começou a ser de novo importantíssimo separar a roupa em termos de menino e de menina. O estilo "decorativo" instalou-se na secção da roupa para meninas, e o estilo "aventura e acção"na secção dos meninos. Nos EUA, então, o fenómeno é avassalador: as diferenças chegam ao ponto de, nos palcos das festas dos infantários e das escolas primárias, as meninas estarem todas vestidas de bonecas pirosas, com sapatos de verniz ou quejandos, e os rapazes estarem em estilo "tá-se bem" e com sapatos de desporto.
O vídeo que partilho mostra uma miúda a queixar-se do sexismo contido nessa diferença de vestuário: "os rapazes têm t-shirts a dizer "think outside the box", e nós temos t-shirts a dizer "Hey". Qual é a parte de Hey que é inspiradora?"

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Não sei - não sei mesmo - mas admito que esta separação crescente seja resultado dos interesses do mercado: criar produtos diferentes e tendências novas para as famílias comprarem cada vez mais. E não é apenas a roupa: os quartos das crianças também têm linhas para o menino (camas em forma de carro ou de barco, papel de parede com riscas azuis, etc.) e linhas para a menina (se vos falasse dos quartos de menina que vi em famílias americanas... A perversão total: móveis de plástico a imitar a linha de móveis da Barbie, como se a menina que cresce naquele quarto fosse ela própria a boneca de formas inspiradas em fantasias pornográficas).

A perversão vai, obviamente, muito além do mundo das crianças e das roupas. Há alguns anos a Bic criou uma esferográfica para mulheres, "bic for her" - igual à esferográfica unissexo, mas um pouco mais fina e com um aspecto "feminino" e, claro, mais cara. Os comentários que os clientes da Amazon fizeram a essa produto foram um excelente momento de humor.


4. Há tempos a Zippy criou uma colecção de roupa infantil sem género: prática para se movimentar e brincar, fácil de passar de irmãos para irmãs e vice-versa. Grande escândalo: a Zippy a fazer ideologia de género e marxismo cultural!
Não dá para acreditar, mas aconteceu.
As pessoas que acusam a Zippy de estar a perverter os costumes com uma linha infantil unissexo não se dão conta de que esses costumes são relativamente recentes, por um lado, e de que, por outro lado, impor cores e formatos (de enfeites para elas e de roupa prática para eles) também é uma formatação e uma violência para a individualidade das crianças.

5. Para reduzir despesas às famílias e para acabarem com as tensões do exibicionismo de marca na escola, algumas escolas alemãs decidiram aderir a colecções de vestuário escolar com peças de corte e cores diferentes, que permitem a cada aluno vestir de forma personalizada. À excepção das saias, são peças unissexo.
Um exemplo: https://bit.ly/2BdAYtU

6. As calças já não são "roupa de homem" - transformaram-se em roupa unissexo. Gostava que, do mesmo modo, um dia destes as saias também passassem a ser unissexo. Tanto mais que, pelos vistos, usar calças pode afectar a fertilidade dos homens. E ninguém diga que um homem de saias é menos homem. É ver os escoceses, é ver os punks, é ver os árabes de djellaba. 


Locronan (4), ou: regresso ao futuro



Regressei a Locronan no segundo domingo de Julho, na estouvada esperança de que a Petite Troménie se realizasse como habitualmente. Ao pagar o lugar de estacionamento, as minhas ilusões caíram por terra: "este ano foi cancelado devido à covid". Espertos: não havia qualquer aviso online. O parque de estacionamento estava cheio, os restaurantes estavam cheios, as praças estavam cheias. Centenas de pessoas a comer gelados e crepes: a consumir.

Entrei num restaurante para tomar um café (e, confesso, ir à casa de banho). Junto à caixa, alguns homens conversavam alegremente com o dono do restaurante. Olharam para mim com ar de donos da casa, muito bem-dispostos. "Que bem lhe fica essa máscara!", disse um deles. Os outros concordaram e riram - o piropo em tempos de covid.

Na igreja principal dei com famílias que a passavam sem ver, numa pressa de ter estado ali. Uma miúda de sete anos aborrecia-se na espera, encostada às escadas do púlpito. Olhei para a sua cara, a meio metro do primeiro medalhão que conta a história do cristão Saint Ronan e da druida Kebenn. Que espantosa história para contar às crianças que entram naquela igreja, e ninguém a conta!

Pensei na minha máscara, que torna o meu triste francês ainda mais incompreensível, e assim consegui resistir à vontade de abrir àquela miúda a porta para o fascínio do lugar: olha, aqui, o lobo e a ovelha, olha o ar zangado da Kebenn, olha o rei Gradlon, olha a menina morta a ressuscitar da arca onde foi metida.

É bem verdade: quem não sabe é como quem não vê. Também eu, da primeira vez que fui àquela igreja, passei pelo púlpito sem ver.




16 julho 2020

Locronan (3) ou: viagem vertiginosa às origens



Encontrámos ao cimo da rua Moal uma loja que estava aberta e vazia de gente, como a igreja. Quando nos dispúnhamos a continuar o passeio, apareceu o dono, a suplicar para que entrássemos. Mesmo que não comprássemos nada, era mesmo só pela companhia. Estava farto do silêncio. Ensaiou algumas frases curtas em alemão. Nascera em Baden-Baden, na zona de ocupação francesa. Adenauer e De Gaulle tinham imposto por decreto a amizade franco-alemã - dizia ele com um brilho trocista no olhar - e o pai dele tentava pôr o decreto em prática. A Floresta Negra fervilhava de caça, mas os alemães estavam proibidos de ter armas. O pai dele ia caçar toda aquela bicharada, enchia a mala do carro e mais um atrelado, e distribuía pela população.

- Que resta dessa amizade decretada?, perguntou. A Merkel não tem visão, gere o seu país e o mundo com mentalidade de "mãe de família". Em lado nenhum se vêem políticos com capacidade para "decretar o futuro". 

Sem pausa, mudou de tema para falar da história da Bretanha. Perguntei-lhe se me sabia explicar porque é que o cristianismo bretão tinha vindo do norte, por barco, em vez de vir do sul, por terra - e ele lançou-se numa viagem vertiginosa ao início do mundo, que pelos vistos tem estado desde sempre intimamente ligado ao povo bretão.

Se bem entendi, foi assim: quando o Jardim do Éden se transformou no deserto do Saara - uma alteração decorrente das oscilações do eixo da terra a cada 25 milénios, que terá acontecido ao longo de apenas 150 anos e foi praticamente contemporânea do Dilúvio -, os povos que viviam nessa região paradisíaca fugiram para o Egipto, levando consigo todos os seus saberes. É essa diáspora que está na origem da ascensão da cultura egípcia. Mais tarde esses estrangeiros tiveram de fugir, e foram para Israel. Acontece que entre eles havia uns bélicos e outros pacifistas. Os bélicos deram origem à narrativa bíblica, os pacifistas deram-se mal: os bélicos venderam-nos como escravos aos assírios. Quando o povo medo venceu os assírios, estas populações escravas foram libertadas e espalharam-se pelo mundo. Passaram pela Arménia (onde os estudiosos encontraram ligações fortes à cultura bretã) e vieram até ao Norte da Europa. A tribo Dan (preto, em bretão) instalou-se na Dinamarca; a tribo Ruz (vermelho, em bretão) ficou na Rússia; e a Gwen (branco, em bretão) veio para a Bretanha. Recentemente encontraram na Mongólia vestígios de um povo misterioso que ali se teria instalado na mesma época em que estas tribos andavam em fuga. Eram peritos no trabalho do bronze, e tinham megálitos. Bem podiam ser primos dos bigoudens, que são mongóis: têm traços asiáticos no rosto, e até a marca mongol nas costas.

Saímos da loja um pouco atordoados com esta história vertiginosa.
Tão atordoados que só alguns dias mais tarde caí em mim: como é que um povo com saber suficiente para fazer os templos do Egipto perdeu pelo caminho os seus conhecimentos, ao ponto de na Bretanha não conseguir mais do que erguer uns menires e uns dólmenes?


Locronan (2), ou: um passeio de vários séculos






O burgo de Locronan nasceu a partir de um núcleo de beneditinos do séc. XI, e tornou-se um importante centro de peregrinação. No séc. XV a cidade começa a enriquecer também com a produção de lonas para velas de navios, que ao longo dos séculos seguintes viriam a ganhar enorme fama e a ser exportadas para vários países. Diz-se que eram de Locronan as velas que levaram Cristóvão Colombo ao outro lado do Atlântico. A abastança daquela época está bem reflectida na riqueza das suas casas de granito e das suas igrejas. Mas, a partir de fins do séc. XVII, com a concorrência de outras regiões e o início da produção industrial, o sistema económico de Locronan entrou em declínio. Com a pobreza vem o esquecimento. A cidade adormece para um sono de cem anos, do qual só desperta no séc. XX, com um beijo do príncipe Turismo. Hoje em dia vive sobretudo das enormes massas de turistas interessados em saborear a perfeição daquele antigo cenário urbano. Volta e meia também é usada pelo cinema ("Chouans!" de Philippe de Broca (1987), "Tess" de Roman Polanski (1979) e "Un long dimanche de fiançailles" de Jean-Pierre Jeunet (2004), entre outros).   

À entrada de Locronan há estacionamento para quase mil carros, mas quando chegámos estava vazio. A cidadezinha de oitocentos habitantes respirava suavemente ao sol desta Primavera tão atípica para a Bretanha. Descemos pela esquerda da rua principal para ir visitar a igreja de Nossa Senhora da Boa Nova. Estava aberta, e vazia de gente. 


Junto à igreja há uma bela fonte, dedicada a Santo Eutrópio, padroeiro dos hospitais, com poderes para curar todas as doenças. Todas! Um santo tão poderoso só pode ser sinal da importância que esta fonte teria no tempo dos druidas. E não a perdeu: nos anos da Grande Troménie, era costume dos habitantes de Locronan mergulharem na fonte as relíquias do santo, para distribuir depois por todos essa água tornada capaz de curar qualquer maleita.  
(Volta, Kebenn, porque no fundo nunca chegaste a sair desta região.) 

A igreja de Nossa Senhora da Boa Nova começou a ser feita no século XV, e é composta de duas partes: um para os crentes, junto à porta principal, e outra para os frades, do lado do altar. Junto ao arco que separa as duas zonas há uma cena da descida da cruz esculpida em granito, e que pela sua dimensão exagerada para o espaço me faz suspeitar que terá sido criada para um Calvário exterior, e em algum momento deixada ali. 


Quem não está ali por acaso é a imagem de Nossa Senhora da Boa Nova, do século XVI, a abrir a camisa para aleitar o filho. De um lado mãe de filho entregues à vida simples dos humanos, do outro lado o mistério teológico da trindade: pai, filho e espírito santo. 




Em 1985 a igreja foi enriquecida com vitrais de Alfred Manessier. Este que mostro, sobre o altar principal, pretende representar a Virgem a abrir o seu manto para acolher os fiéis.   


Subimos a rua Moal - que era a antiga rua das tecelagens de onde saíram as velas dos navios de muitos descobrimentos e de muitos corsários europeus - e cruzámo-nos com dois casais de turistas que nunca mais me desimpediam a paisagem para tirar a fotografia sem eles lá dentro.

(Impressionante como nos habituamos depressa ao luxo - noutra altura qualquer, aquela rua estaria apinhada de gente e eu teria de me contentar com fotografias dos pormenores: o telhado de colmo contra o granito da empena, a chaminé, a placa por cima da porta...)

Na rua Moal vê-se bem o que a História deixou pelo caminho: vários portais ricos de casas, que agora pouco mais são do que ruínas. Seriam as antigas tecelagens de onde saíram as velas que abriram os mares dos séculos XV e XVI.







Ao cimo da rua Moal desembocámos num cruzamento onde havia várias lojas. Numa delas tivemos uma bela conversa com o dono, que merece um post só para si.  

Entrámos numa marroquinaria cujo dono - bom vendedor! - quase me convenceu a comprar palmilhas de pele para evitar fungos nos pés (os taninos, louvava ele), e uma braçadeira larga de couro lindíssima, boa para evitar tendinites. Não comprei, mas talvez volte lá e dê uma segunda oportunidade à tentação. 

Continuámos o passeio: subimos parte da colina, e descemos pelo lado oposto da cidade, saboreando cada momento da tranquilidade do lugar. 


À entrada da aldeia encontrámos um homem que nos perguntou se queríamos ovos biológicos a um euro cada, e apontou para as suas galinhas: dois pobres bichos aninhados num canto  da rua. "Não teme que os carros as atropelem?", perguntei. "Desde há quase três meses que não há carros", respondeu. 

Descemos para a igreja principal. As igrejas, melhor dizendo: quando a maior estava terminada, no início do século XV, fizeram uma nova, a capela do Pénity, só para o túmulo de São Ronan. Esta capela é bem mais delicada que a igreja maior e, ao contrário da primeira, conseguiu conservar a sua flecha.
Um dia hei-de investigar o que aconteceu a tantas das flechas das igrejas bretãs. 





As duas igrejas são um autêntico museu de arte sacra dos últimos 600 anos. Este conjunto da "descida da cruz", por exemplo, em pedra policroma, semelhante ao que já víramos na igreja de Nossa Senhora da Boa Nova. A expressividade daqueles rostos lembra as cenas da Paixão de Lucas Cranach, o velho: contemporâneo deste escultor. 





Esta simpática Nossa Senhora, não sei de que século: calma, orgulhosa e autoconfiante a apresentar o seu filho ao mundo:


Um Ecce Homo do século XV; e uma Pietà não sei de que século, com um Jesus cujo penteado me intrigava - mas foi só até conhecer o do Manso Neto. 



O túmulo de Saint Ronan, escultura em pedra do século XVI, mostra o santo, que mesmo depois de morto continua a dominar um dragão, espetando-lhe o báculo na boca. Na Idade Média, o dragão era um símbolo do Mal, e esta insistência em dominar o dragão será com certeza uma variação do tema "Kebenn".   




Um detalhe do altar do Rosário, lindíssimo, do atelier de Maurice Leroux, Landerneau (1668):


Sobre o santo que se segue não encontrei nenhuma informação, mas com este ar de galã deve ter contribuído bastante para fortalecer o fervor de algumas crentes:


Um dos estandartes da procissão "Troménie" (e eu a perguntar-me como é que levam estas preciosidades para dar uma voltinha de 12 quilómetros ao vento e à chuva da Bretanha):






Mais alguns detalhes disto e daquilo:




Para terminar, um bocadinho de efeitos psicadélicos da Idade Média.
Que não se pense que os nossos avós levavam uma vida sensaborona!




O Joachim parou num café na praça ao lado da igreja. Estavam a servir à porta, segundo as regras da primeira fase do desconfinamento. 
- Quanto custa um café?
- 15 euros. 
- Ah, bom. Espero que valha a pena! Dois, por favor. 
Riram-se todos. 

Sem clientes, o dono do café tinha todo o tempo do mundo para estar connosco. Sugeriu-nos que fôssemos espreitar por cima de um muro ali perto - fomos, e descobrimos uma estátua em granito do Saint Ronan. Pareceu-me banal, mas ele tinha tanto gosto nela que às tantas será uma peça preciosíssima e secreta da terra.

Depois disse-nos que nos ia mostrar algo realmente especial. "Sabem como é, em qualquer igreja que se preze tem de haver elementos pagãos. Nós temos aqui um que é um luxo." 
Seguimos pelo cemitério, contornámos a igreja, e do lado de lá, num dos cantos da torre que sustentaria a flecha, deparámo-nos com isto: 



O Joachim voltou para a esplanada do café, onde entretanto se tinham juntado alguns moradores. Eu dei uma volta pelo cemitério, com as suas cruzes antigas e um belo calvário em granito, e fui ter de novo com o lojista conversador. 

- Já que sabe tanto sobre a História da Bretanha, será que me pode explicar  as duas sereias à entrada da igreja de Plomodiern?
- Essas não conheço, mas provavelmente é mais do mesmo: qualquer igreja bretã que se preze tem de ter algum elemento não cristão. 
- E o que sabe dos quartos alugados pelos pintores em Pont-Aven, onde ainda hoje se pode pernoitar?
- Disso não sei nada. O melhor é perguntar lá. Mas veja lá como pergunta, porque a resposta mais provável é dizerem-lhe "sim, sim! É na casa da minha avó. Venha comigo!"

(Mais tarde, descobri que não era em Pont-Aven. É em Belle-Île: é possível ficar a dormir na casa onde o Monet viveu quando andou a pintar na ilha.)

 




Locronan (1), ou: o local de Ronan


Em Maio, na primeira fase do desconfinamento francês, durante quatro dias Plomodiern foi a nossa base para explorar a península de Sizun. E Locronan foi a primeira localidade que visitámos. Planeávamos parar lá um bocadinho, no caminho para Quimper - acabámos por ficar o dia todo.

Locronan nasceu numa região de floresta de relevo acidentado e com vista para o mar, que foi durante muito tempo um palco importante dos rituais druídicos - e, de certo modo, ainda o é. Na sua floresta, Névet, encontramos a memória de um nemeton: um quadrilátero com cerca de 12 km de perímetro, e 12 pontos que provavelmente corresponderiam aos 12 meses do ano, estariam assinalados por menires e seriam associados, cada um deles, a uma das divindades do panteão celta.

O cristianismo foi-se instalando à volta do nemeton, mas não ousava invadi-lo. Até que o nosso santo de hoje entra em campo: Saint Ronan, nascido na Irlanda por volta de 600, estava a viver em Saint Renan, nas proximidades de Brest, quando um anjo lhe apareceu em sonhos e lhe deu a entender que devia ir para o nemeton da floresta de Névet. Ronan instalou o seu eremitério naquele lugar, assim dando origem ao nome Locronan: Locus Ronani ou Lok Ronan: lugar [do eremitério] de Ronan.


Conta a lenda que um dia, estando Ronan a rezar na floresta, viu passar um lobo com uma ovelha na boca, e atrás deles um homem desesperado. Cheio de compaixão, salvou a ovelha - o que marcou o início de uma bela amizade entre o local e o forasteiro. Quando o homem se converteu ao cristianismo, a sua mulher, Kebenn, ficou furiosa e decidiu vingar-se. Foi ter com o rei Gradlon e acusou Ronan de ter morto a sua filha. Depois de muitas peripécias, o rei aceitou ouvir a versão de Ronan, acreditou nele e acabou por descobrir o baú onde a mãe escondera a menina. Tragicamente a criança morrera sufocada enquanto esperava que o imbróglio se resolvesse. Nada que o santo não pudesse resolver! Ronan ressuscitou a criança, e pediu clemência para Kebenn.




Muitos anos depois os caminhos de Ronan e Kebenn voltariam a cruzar-se, após a morte daquele. Todas as igrejas gostariam de ter o seu corpo, mas por conhecerem bem o mau génio do santo nenhuma queria correr o risco de sofrer algum cataclismo causado pela fúria de ter sido sepultado onde não queria. Para decidir o local da sepultura, puseram o seu caixão num carro puxado por dois bois, e deixaram-nos partir sem condutor. Onde parassem, ali enterrariam o santo. Acontece que os dias foram passando, os bois continuavam a andar, e chegou o domingo de Páscoa. Foi quando os bois se cruzaram com Kebenn, que estava a lavar roupa, alheia aos deveres do dia santo. Furiosa por ver o antigo inimigo passar no seu território, Kebenn desatou a rir maldosamente. Tudo teria ficado por conta da liberdade da expressão se não fosse os bois terem passado pelo meio da roupa, desgraçando o trabalho todo. Com a tábua de lavar, Kebenn partiu o corno a um deles, e pôs-se a perseguir o carro e a soltar imprecações. Ora, o que é demais é exagero: a terra abriu-se e engoliu a bruxa, no meio de muito fogo e fumo, no lugar que passou a ser conhecido por "o túmulo de Kebenn", e está agora assinalado com uma cruz, a Croas-Kebenn. O corno caiu no topo da colina, num lugar a que deram o nome de Plas-ar-Horn, a "praça do corno", e onde construíram uma capela. O santo, esse, foi enterrado no lugar onde os bois finalmente pararam, que é hoje a praça principal de Locronan, e no tempo dos romanos era o ponto onde se cruzavam duas rotas importantes. Sábios bichos, a cultura geral que eles tinham!    



Kebenn será possivelmente a última druida da região, ou, ao menos, uma metáfora para a resistência da ordem antiga à nova ordem cristã. Ronan, astuto, em vez de afrontar as tradições antigas, apropriou-se delas. Todos os dias percorria descalço 6 km do nemeton, andando - tal como os celtas - no sentido do movimento do sol. Aos domingos, fazia os 12 km completos. Tanto andou que fez do nemeton um terreno sagrado do cristianismo. Nos doze pontos do percurso, os santos cristãos substituíram as divindades celtas, e os menires foram trocados por cruzeiros. A procissão "Troménie" de Locronan repete os passos e o percurso dos druidas. De seis em seis anos, em Julho, tem lugar a Grande Troménie: uma enorme procissão de pessoas vestidas com os trajes tradicionais, carregando andores e erguendo estandartes percorre os 12 km do antigo nemeton. Nos restantes anos, o circuito é o dos dias úteis da semana de Saint Ronan: 6 km. Tanto a grande como a pequena Troménie terminam na Croas-Kebenn, a cruz da sepultura de Kebenn - e diante dessa cruz nenhum bretão se persigna.

Em Locronan, outras tradições pré-cristãs foram assimiladas aos rituais da religião invasora: o Pão dos Mortos, no primeiro dia de Novembro, que marcava o início do ano celta e o momento da festa em que os vivos comunicavam com os mortos; a pedra Ar Gazeg vaen, também chamada "cadeira de Ronan", que parece ser o que resta de um enorme falo neolítico, e na qual se sentam as mulheres com dificuldades de engravidar, na esperança de que o santo interceda e elas possam ter filhos; e a Árvore de Maio, que consiste em erguer na praça central de Locronan uma faia (árvore sagrada dos celtas) no dia 1 de Maio (festa do fogo de Belenos), cujos ramos serão imolados no solstício de Junho.

Foi esta árvore que ali encontramos em meados de Maio, fazendo uma triste figura com as suas folhas já bastante secas