Meu dito, meu feito.
29 novembro 2018
como o tempo passa
Bem me lembro daquela vez, há três anos, quando disse „À velocidade a
que o tempo começou a andar, daqui a nada chega a Páscoa e logo a seguir
o Natal de 2018“.
Meu dito, meu feito.
Meu dito, meu feito.
28 novembro 2018
Khatia Buniatishvili sujeita a interrogatório...
Lá fora está um sol fantástico, tenho de ir ao correio e ao supermercado (e aproveito para levar a máquina fotográfica), mas fico em casa a ver este vídeo. Sol lá fora, sol cá dentro.
Esta mulher é fascinante. E gostei muito da resposta dela à acusação sobre o tamanho do seu decote: "estamos na Europa, ou no Irão?"
(e faz isto em alemão! caramba!)
(o filme tem legendas em inglês)
II Feira do Livro do Camões em Berlim
A Feira do Livro do Camões em Berlim abre hoje!
E às sete da tarde tem a tertúlia e o pré-lançamento do audio-livro “Je suis Bovary”, uma conversa ao vivo sobre o amor nas suas múltiplas vertentes literárias, de e com Patrícia Portela & Leonor Barata.
E às sete da tarde tem a tertúlia e o pré-lançamento do audio-livro “Je suis Bovary”, uma conversa ao vivo sobre o amor nas suas múltiplas vertentes literárias, de e com Patrícia Portela & Leonor Barata.
Mais informações: II Feira do Livro.
(estou aqui a pensar: a CGD é mesmo ao lado. Se roubar para comer não é pecado, também devia haver tolerância para quem rouba para ler...)
(estou aqui - um bocado angustiada - a pensar: quais foram mesmo os livros que comprei em Portugal no verão passado, e deixei lá porque já não me cabiam na mala? é que roubar para comprar o mesmo livro pela segunda vez se calhar não tem desculpa...)
(estou aqui - faz-de-conta que aflita - a pensar: se passa um psi qualquer por este post, ainda me desgraço)
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viver em Berlim
27 novembro 2018
Gleis 17
Tenho centenas de fotos deste memorial. E de cada vez me pergunto: tenho o direito de transformar o Horror em exercício estético?
Hoje, 27 de Novembro de 2018, faz 77 anos que saiu o primeiro comboio de judeus berlinenses para Riga. Contei aqui essa tragédia. Dois dias depois de ter escrito esse post, a História veio de novo ao meu encontro neste memorial: Estranhamente estranho a mim.
as contas que esperem
Mais pássaros na minha folha Excel...
E porque o vídeo termina de forma abrupta, fui à procura da versão completa.
- Orquestra Filarmónica de Viena, Georg Solti, filme August Everding - com legendas em inglês
- Orquestra Filarmónica de Berlim, Karajan, com Elisabeth Schwarzkopf no papel de Gretel
Na interpretação de Karajan, o dueto Abendsegen começa por volta de 54:00.
Elisabeth Schwarzkopf: sublime.
As contas que esperem. Tenho o escritório cheio de pássaros.
E porque o vídeo termina de forma abrupta, fui à procura da versão completa.
- Orquestra Filarmónica de Viena, Georg Solti, filme August Everding - com legendas em inglês
- Orquestra Filarmónica de Berlim, Karajan, com Elisabeth Schwarzkopf no papel de Gretel
Na interpretação de Karajan, o dueto Abendsegen começa por volta de 54:00.
Elisabeth Schwarzkopf: sublime.
As contas que esperem. Tenho o escritório cheio de pássaros.
contas à música
Trabalhar ao som de música assim.
(Estou a fazer um relatório de contas, estou tramada: ainda me saem pássaros do lugar dos algarismos!)
26 novembro 2018
ainda Jordan Peterson e a tal agenda do Google
Um leitor comentou, a propósito do meu post anterior que analisava a insinuação de Jordan Peterson sobre o Google manipular o seu algoritmo segundo uma determinada agenda política, que quando se procura "couple" no Google Images, o resultado é um sem número de imagens de casais brancos, jovens e heterossexuais. Sobre a tal "agenda política" do Google, está tudo dito.
Outro leitor informou-me que no Quora alguém se deu ao trabalho de responder a essa insinuação. Copiei a sua explicação para o fim deste post. Leiam até ao fim, que vale a pena.
É assim este mundo em que vivemos: embora o Google se limite a apresentar aquilo que é mais procurado - e aparentemente o que é mais procurado quando se procura "casal" é um casal branco, jovem e heterossexual - o Jordan Peterson consegue pôr a correr uma teoria de conspiração de que o marxismo está a invadir as cabeças e os algoritmos, mudando as relações de poder a favor das minorias.
(Provavelmente ele vai dizer que não disse isto, porque a sua especialidade é escapar por entre os pingos da chuva, mas pronto. Se ele disser que não disse, alguém faça o favor de lhe perguntar o que queria dizer exactamente quando chamou a atenção para a tal manipulação do algoritmo do Google.) (Ah, claro, como pude esquecer? Ele vai responder que podemos ver um vídeo seu de duas horas no qual explica muito bem o que queria dizer com isso...)
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Outro leitor informou-me que no Quora alguém se deu ao trabalho de responder a essa insinuação. Copiei a sua explicação para o fim deste post. Leiam até ao fim, que vale a pena.
É assim este mundo em que vivemos: embora o Google se limite a apresentar aquilo que é mais procurado - e aparentemente o que é mais procurado quando se procura "casal" é um casal branco, jovem e heterossexual - o Jordan Peterson consegue pôr a correr uma teoria de conspiração de que o marxismo está a invadir as cabeças e os algoritmos, mudando as relações de poder a favor das minorias.
(Provavelmente ele vai dizer que não disse isto, porque a sua especialidade é escapar por entre os pingos da chuva, mas pronto. Se ele disser que não disse, alguém faça o favor de lhe perguntar o que queria dizer exactamente quando chamou a atenção para a tal manipulação do algoritmo do Google.) (Ah, claro, como pude esquecer? Ele vai responder que podemos ver um vídeo seu de duas horas no qual explica muito bem o que queria dizer com isso...)
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Why does Google incorrectly show interracial couples during image searches?
Myron Rosmarin, SEO consultant and web search product manager
Updated Sep 13, 2018 · Upvoted by Jeremy Hoffman, Senior Software Engineer at Google (2008-present) · Author has 446 answers and 324.5k answer views
Google
Image Search works by analysis of textual clues found within image tags
and file names and also in surrounding text on the web page. The search
algorithm doesn't have the ability to actually “know” with certainty
what is in an image.
You can see the
artifact of “close, but not quite right” play out in a myriad of
examples. In fact, I would venture to say that most image search results
are typically more wrong than right. This is because the quality of
relevance signals for image subject matter are relatively weak.
So
if you do a search for [white couples] and you get a mixture of white
and non-white couples, you ought to be happy to have found images that
matched your query even if some of the image results did not.
Edit:
I just went to Google Image search to double check what you were
seeing. I noticed the inter-racial couples you spoke of in your original
post. The answer is simple. In many cases, the title of the image was
“Black and White Couples” (or something like that). Your search of
“white couples” is a strong match for half of that title. It is
therefore not surprising that these results are showing up in your
search for white couples.
EDIT: I closed comments because I originally understood
the intent of the question to be a legitimate question about the image
search algorithm. Turns out the question is the focus of a conspiracy
theory. To those who believe that Google has an agenda they are pushing
through their subtle manipulation of the image search algorithm to sneak
some interracial couples for the infinitesimally small number of image
search queries for [white couples], you’ll be much happier at Reddit.
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viver na internet
23 novembro 2018
Jordan Peterson e a "build in political agenda" do Google
Para que não me venham acusar de distorcer o que Jordan Peterson diz, passo parte de uma entrevista de JT ao London Evening Standard:
“Look up ‘white couple’ on Google Images,” he says suddenly. “Then look up ‘black couple’, then ‘Asian couple’.” Peterson and I look together. If you Google ‘white couple’, the first four images on the top row show a white woman with a black man. “This is way more terrifying than you think, because it means that Google is messing about with algorithms that present information to the public according to a built-in political agenda.”
Sou bem mandada, fui ver o que aparecia no Google Images quando se escreve "white couple". Aconteceu-me tal e qual como Jordan Peterson menciona na entrevista: o google ofereceu-me inúmeras imagens de casais com diferentes cor de pele.
Terrifying, diz ele, e logo ali expõe a sua espantosa teoria sobre o Google manipular o seu próprio algoritmo de modo a alterar a representação da realidade para servir determinadas opções políticas.
Já eu, em vez de ir pelas teorias da conspiração, pensei meio segundo e entrei nos sites de cada imagem para procurar a frase completa. Em todos os casos era assim: "xxxx black and white couple xxxx"
Elementar! Uma busca no Google por "white couple" vai obviamente mostrar também todas as imagens sobre "black and white couple", "asian and white couple", e todas as outras variações de casal em que um deles é "white". Aliás, se fizerem nova busca retirando a possibilidade de "black" e de "asian" [faz-se assim: "white couple" -black -asian ], o Google oferece imediatamente dezenas de imagens de casais - surpresa! - brancos.
Pensando um pouco mais, pergunto-me por que motivo alguém escreveria "casal branco" num texto. Se o universo da pesquisa do Google é uma sociedade de maioria branca (melhor: uma sociedade onde os brancos têm mais visibilidade), "casal branco" é a definição por defeito. Só se menciona a cor dos brancos se houver um desvio em relação ao habitual. A primeira pesquisa no Google ["white couple] mostra isso mesmo: os casais brancos não são simplesmente casais brancos, mas casais brancos aos quais aconteceu algo fora do normal, como por exemplo ter-lhes nascido um filho de pele escura.
Esta omissão do óbvio é algo normal no nosso quotidiano: nenhum jornal português se refere a um casal em Portugal dizendo "o casal português", mas provavelmente já mencionará a nacionalidade se se for um casal estrangeiro ou de várias nacionalidades. Do mesmo modo, nenhum catálogo de produtos escolares escreve "tesoura para destros", mas já escreverá "tesoura para canhotos" ou "tesoura para destros e canhotos". Se eu procurasse no Google Imagens por "para destros", não receberia muitas imagens de objectos apenas para estes, e receberia uma enorme quantidade de imagens de utensílios "para destros e canhotos" - e imagens de pessoas sorridentes, lado a lado, empunhando objectos iguais uma com a mão esquerda e outra com a mão direita. Devo concluir que o Google também tem uma agenda política para impor a supremacia dos canhotos sobre os destros?
(Malditos marxistas do Google, isto é só mensagens subliminares!...)
Mas então, perguntarão, se "white couple" não é uma categoria que se justifique mencionar nos textos, porque é que quando se procura "white couple", excluindo todos os textos onde aparece a palavra "black" ou "asian", aparecem tantas fotografias de casais brancos? Fui espreitar, e a explicação é muito simples: são catálogos de imagens. "Casal branco de idade", "casal branco jovem sorridente", "casal branco a discutir", etc.
Fica assim explicado porque é que o Google mostra casais de cores de pele diferentes quando a busca é por "white couple". O que suscita uma terrifying questão: o que levou Jordan Peterson a pegar nesta história, que tem uma explicação tão simples, usando-a para insinuar que o Google anda a manipular o seu algoritmo por motivos políticos? Terrifying, também, é a sua incapacidade de reparar realmente no mundo em que vive. Qualquer pessoa mais ou menos atenta repara que num mundo de brancos essa é a cor "por defeito" (em que cor pensamos quando dizemos lápis ou lingerie "cor de pele"?), pelo que não é explicitamente mencionada e por isso não faz sentido usá-la para fazer buscas no Google, e muito menos tirar conclusões fantasiosas a partir dos resultados desta pesquisa condicionada para falhar.
Complicando um pouco mais a análise: para testar a minha teoria da cor "por defeito" ser a cor da maioria da população, fui espreitar a internet angolana. Pensava que não encontraria nenhum casal negro com a legenda "casal negro", mas encontraria alguns casais brancos com a legenda "casal branco" e outros com "casal branco e negro". Procurei assim:
- "casal branco" site:ao
- "casal de brancos" site:ao
- "casal negro" site:ao
- "casal de negros" site:ao
Sabem o que encontrei? Nada. Praticamente nada.
Excepto no "casal branco": o meu écran encheu-se de imagens de móveis de quarto e de lençóis de casal brancos.
Ia tirar umas conclusões sobre Angola ser um país muito à frente, onde a cor da pele não tem importância nenhuma, mas de facto não sei e não quero incorrer numa Petersonada humilhante. Agradecia às pessoas especialistas nesses "cursos que não servem para nada excepto para passar a agenda marxista" (espero ter citado bem Jordan Peterson) que me expliquem porque é que, ao contrário dos sites dos EUA, nos sites angolanos ninguém menciona a cor da pele dos casais, sejam eles brancos, ou negros, ou misturados.
---
Sabem o que é mais triste de tudo isto? Jordan Peterson diz aquele disparate, e vários milhões de pessoas abrem muito os olhos e dizem "oh pá, é isso mesmo! estamos tramados!"
Eu dou-me ao trabalho de explicar que não é nada disso, mas só meia dúzia de pessoas prestam atenção. E esses poucos nem precisavam de ler este texto: já sabem bem do que é que a marca Jordan Peterson gasta.
(Estamos tramados!)
“Look up ‘white couple’ on Google Images,” he says suddenly. “Then look up ‘black couple’, then ‘Asian couple’.” Peterson and I look together. If you Google ‘white couple’, the first four images on the top row show a white woman with a black man. “This is way more terrifying than you think, because it means that Google is messing about with algorithms that present information to the public according to a built-in political agenda.”
Sou bem mandada, fui ver o que aparecia no Google Images quando se escreve "white couple". Aconteceu-me tal e qual como Jordan Peterson menciona na entrevista: o google ofereceu-me inúmeras imagens de casais com diferentes cor de pele.
Terrifying, diz ele, e logo ali expõe a sua espantosa teoria sobre o Google manipular o seu próprio algoritmo de modo a alterar a representação da realidade para servir determinadas opções políticas.
Já eu, em vez de ir pelas teorias da conspiração, pensei meio segundo e entrei nos sites de cada imagem para procurar a frase completa. Em todos os casos era assim: "xxxx black and white couple xxxx"
Elementar! Uma busca no Google por "white couple" vai obviamente mostrar também todas as imagens sobre "black and white couple", "asian and white couple", e todas as outras variações de casal em que um deles é "white". Aliás, se fizerem nova busca retirando a possibilidade de "black" e de "asian" [faz-se assim: "white couple" -black -asian ], o Google oferece imediatamente dezenas de imagens de casais - surpresa! - brancos.
Pensando um pouco mais, pergunto-me por que motivo alguém escreveria "casal branco" num texto. Se o universo da pesquisa do Google é uma sociedade de maioria branca (melhor: uma sociedade onde os brancos têm mais visibilidade), "casal branco" é a definição por defeito. Só se menciona a cor dos brancos se houver um desvio em relação ao habitual. A primeira pesquisa no Google ["white couple] mostra isso mesmo: os casais brancos não são simplesmente casais brancos, mas casais brancos aos quais aconteceu algo fora do normal, como por exemplo ter-lhes nascido um filho de pele escura.
Esta omissão do óbvio é algo normal no nosso quotidiano: nenhum jornal português se refere a um casal em Portugal dizendo "o casal português", mas provavelmente já mencionará a nacionalidade se se for um casal estrangeiro ou de várias nacionalidades. Do mesmo modo, nenhum catálogo de produtos escolares escreve "tesoura para destros", mas já escreverá "tesoura para canhotos" ou "tesoura para destros e canhotos". Se eu procurasse no Google Imagens por "para destros", não receberia muitas imagens de objectos apenas para estes, e receberia uma enorme quantidade de imagens de utensílios "para destros e canhotos" - e imagens de pessoas sorridentes, lado a lado, empunhando objectos iguais uma com a mão esquerda e outra com a mão direita. Devo concluir que o Google também tem uma agenda política para impor a supremacia dos canhotos sobre os destros?
(Malditos marxistas do Google, isto é só mensagens subliminares!...)
Mas então, perguntarão, se "white couple" não é uma categoria que se justifique mencionar nos textos, porque é que quando se procura "white couple", excluindo todos os textos onde aparece a palavra "black" ou "asian", aparecem tantas fotografias de casais brancos? Fui espreitar, e a explicação é muito simples: são catálogos de imagens. "Casal branco de idade", "casal branco jovem sorridente", "casal branco a discutir", etc.
Fica assim explicado porque é que o Google mostra casais de cores de pele diferentes quando a busca é por "white couple". O que suscita uma terrifying questão: o que levou Jordan Peterson a pegar nesta história, que tem uma explicação tão simples, usando-a para insinuar que o Google anda a manipular o seu algoritmo por motivos políticos? Terrifying, também, é a sua incapacidade de reparar realmente no mundo em que vive. Qualquer pessoa mais ou menos atenta repara que num mundo de brancos essa é a cor "por defeito" (em que cor pensamos quando dizemos lápis ou lingerie "cor de pele"?), pelo que não é explicitamente mencionada e por isso não faz sentido usá-la para fazer buscas no Google, e muito menos tirar conclusões fantasiosas a partir dos resultados desta pesquisa condicionada para falhar.
Complicando um pouco mais a análise: para testar a minha teoria da cor "por defeito" ser a cor da maioria da população, fui espreitar a internet angolana. Pensava que não encontraria nenhum casal negro com a legenda "casal negro", mas encontraria alguns casais brancos com a legenda "casal branco" e outros com "casal branco e negro". Procurei assim:
- "casal branco" site:ao
- "casal de brancos" site:ao
- "casal negro" site:ao
- "casal de negros" site:ao
Sabem o que encontrei? Nada. Praticamente nada.
Excepto no "casal branco": o meu écran encheu-se de imagens de móveis de quarto e de lençóis de casal brancos.
Ia tirar umas conclusões sobre Angola ser um país muito à frente, onde a cor da pele não tem importância nenhuma, mas de facto não sei e não quero incorrer numa Petersonada humilhante. Agradecia às pessoas especialistas nesses "cursos que não servem para nada excepto para passar a agenda marxista" (espero ter citado bem Jordan Peterson) que me expliquem porque é que, ao contrário dos sites dos EUA, nos sites angolanos ninguém menciona a cor da pele dos casais, sejam eles brancos, ou negros, ou misturados.
---
Sabem o que é mais triste de tudo isto? Jordan Peterson diz aquele disparate, e vários milhões de pessoas abrem muito os olhos e dizem "oh pá, é isso mesmo! estamos tramados!"
Eu dou-me ao trabalho de explicar que não é nada disso, mas só meia dúzia de pessoas prestam atenção. E esses poucos nem precisavam de ler este texto: já sabem bem do que é que a marca Jordan Peterson gasta.
(Estamos tramados!)
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viver na internet
21 novembro 2018
touradas
Lembro-me da primeira vez que vi uma tourada na televisão. Mesmo sendo a
preto e branco, achei aquele espectáculo uma barbaridade. Os meus pais
explicaram-me que o touro não sentia nada, que era pouco mais que uma
injecção.
Tinha seis anos, eram os meus pais, quis acreditar. Acreditei. Durante décadas consegui fazer de conta que era só uma injecção.
Fui a duas touradas. Estava a fazer férias com amigos alemães, e lembrei-me de lhes mostrar "cultura portuguesa". Ainda queria acreditar que "era como uma injecção", e além disso era "cultura". Os amigos que levei à primeira das minhas touradas disfarçaram bem. Os que foram à segunda tourada não disfarçaram nada. E além disso um dos animais começou a mijar-se sem parar. Não sei se era de medo, se era de nervos, se era o quê. Sei que só então fui capaz de abrir realmente os olhos, ver o logro dos meus pais, dar-me conta do horror de tudo aquilo.
Ultimamente tenho lido vários textos sobre o sofrimento do touro. Agradeço a todos os que os escreveram. Que ninguém mais volte a conseguir acreditar que as bandarilhas não doem, e que as touradas não provocam um sofrimento terrível ao touro.
Este, que partilho a seguir, estava no blogue Pró Touro - pelos touros em liberdade.

Tinha seis anos, eram os meus pais, quis acreditar. Acreditei. Durante décadas consegui fazer de conta que era só uma injecção.
Fui a duas touradas. Estava a fazer férias com amigos alemães, e lembrei-me de lhes mostrar "cultura portuguesa". Ainda queria acreditar que "era como uma injecção", e além disso era "cultura". Os amigos que levei à primeira das minhas touradas disfarçaram bem. Os que foram à segunda tourada não disfarçaram nada. E além disso um dos animais começou a mijar-se sem parar. Não sei se era de medo, se era de nervos, se era o quê. Sei que só então fui capaz de abrir realmente os olhos, ver o logro dos meus pais, dar-me conta do horror de tudo aquilo.
Ultimamente tenho lido vários textos sobre o sofrimento do touro. Agradeço a todos os que os escreveram. Que ninguém mais volte a conseguir acreditar que as bandarilhas não doem, e que as touradas não provocam um sofrimento terrível ao touro.
Este, que partilho a seguir, estava no blogue Pró Touro - pelos touros em liberdade.
Jose Sepúlveda, técnico de som do Canal
Nou e que durante algum tempo trabalhou na transmissão de touradas
decidiu relatar aquilo que viu e ouviu durante estas emissões. A imagem
inserida no texto é apenas para ilustração do artigo.
” Sempre que trabalhei na parte sonora das transmissões frequentemente comentava que se em lugar da
banda de música, dos aplausos, dos bravos, dos olés e etc o som fosse
captado pelo Sennheiser 816 (microfone que capta a grande distância e
com muita qualidade) perto da arena onde se escuta perfeitamente o som
das bandarilhas a entrar na pele, os mugidos de dor do animal a cada
tortura que é submetido e além disso se as pessoas acompanhassem os
primeiros planos das feridas, dos coágulos tão grandes como a palma da
mão, do sangue que jorra, do bater do coração ou o olhar do animal antes
da estocada final 90% desligaria a televisão ao presenciar tamanha
chacina ao ritmo de pasodoble.
Eu pessoalmente pedi para deixar
de fazer esse tipo de trabalho, porque um dia em Castellón, tocou-me
estar entre barreiras e fiquei muito incomodado ao escutar um touro
depois do toureiro ter falhado por quatro vezes a estocada e tive que
tirar os auscultadores e o animal agonizava, cuspia, afogava-se no seu
sangue vindo morrer mesmo ao pé de mim apoiado na madeira e o seu olhar
ensanguentado e com lágrimas, sim lágrimas, sejam ou não sejam de dor
cruzou-se com o meu até que um inútil falhou duas vezes o descabelo e eu
disse-lhe tudo e mais alguma coisa.

Foi aí que terminou o meu trabalho em praças de touros para toda a vida.
São sentimentos pessoais e o mais
provável é que um amante da “fiesta” ache ridículo, mas para mim
ridículo é quando depois de semelhante carnificina olhas para o público e
vês que aplaude, come sandes sem qualquer preocupação não tendo visto
nem ouvido o que eu testemunhei”.
"Yaoundé"
A propósito da palavra do dia, que era #Yaoundé, alguém escreveu na Enciclopédia Ilustrada: “Estas
buscas que a EI nos obriga a fazer têm uma virtude: baralham o algoritmo
todo. Ficamos com perfís completamente atipificáveis.”
Era mesmo o elogio que faltava fazer à Enciclopédia Ilustrada: combate a Cambridge Analytica e o Bannon! Ainda dão o prémio Nobel da Paz a quem teve a feliz ideia de criar este grupo.
Agora, e para não arranjar problemas por estar a gastar um post com um tema que não está ligado à palavra do dia, deixem-me contar-vos que uma vez apanhei um táxi em San Francisco cujo condutor vinha da capital dos Camarões.
- Conhece os Camarões?, perguntou ele.
- Sim! Tem uma fantástica equipa de futebol!, disse eu, que tenho uma grande cultura geral só de ouvir dizer. Ele ficou muito satisfeito. Depois ocorreu-me que não sabia mais nadinha dos Camarões, e comecei a tentar puxar pela memória. Finalmente, ocorreu-me mais uma coisa:
- E tem imensa biodiversidade!
Ele anuiu, mas já não tão convencido. Foi aí que me dei conta de que estava a confundir Camarões com Madagáscar. Ooops. Calei-me por uns momentos, ele falou de não sei quê, e daí a nada estávamos ambos a zurzir no Trump. Depois, por estarmos quase a chegar ao cruzamento da rua onde ficava a minha casa, disse-lhe que me podia deixar ficar na esquina, porque se me levasse à porta de casa depois tinha de ir dar uma volta enorme naquela zona de ruas de sentido único. Mas ele insistiu em entrar na rua, dizendo:
- Já me sinto triste só de pensar que vai sair do meu carro.
De modo que é assim: não sei bem onde é Yaoundé, mas sei que produz uns simpáticos exemplos de seres humanos.
Era mesmo o elogio que faltava fazer à Enciclopédia Ilustrada: combate a Cambridge Analytica e o Bannon! Ainda dão o prémio Nobel da Paz a quem teve a feliz ideia de criar este grupo.
Agora, e para não arranjar problemas por estar a gastar um post com um tema que não está ligado à palavra do dia, deixem-me contar-vos que uma vez apanhei um táxi em San Francisco cujo condutor vinha da capital dos Camarões.
- Conhece os Camarões?, perguntou ele.
- Sim! Tem uma fantástica equipa de futebol!, disse eu, que tenho uma grande cultura geral só de ouvir dizer. Ele ficou muito satisfeito. Depois ocorreu-me que não sabia mais nadinha dos Camarões, e comecei a tentar puxar pela memória. Finalmente, ocorreu-me mais uma coisa:
- E tem imensa biodiversidade!
Ele anuiu, mas já não tão convencido. Foi aí que me dei conta de que estava a confundir Camarões com Madagáscar. Ooops. Calei-me por uns momentos, ele falou de não sei quê, e daí a nada estávamos ambos a zurzir no Trump. Depois, por estarmos quase a chegar ao cruzamento da rua onde ficava a minha casa, disse-lhe que me podia deixar ficar na esquina, porque se me levasse à porta de casa depois tinha de ir dar uma volta enorme naquela zona de ruas de sentido único. Mas ele insistiu em entrar na rua, dizendo:
- Já me sinto triste só de pensar que vai sair do meu carro.
De modo que é assim: não sei bem onde é Yaoundé, mas sei que produz uns simpáticos exemplos de seres humanos.
o ímpar perfeito
Conheço no facebook duas fantásticas criadoras de tendências: vão para o trabalho com sapatos um de cada cor, e depois falam disso no seu mural como se fosse engano. Mas eu bem sei, bem lhes adivinho a estratégia: tudo faz parte de uma muito bem pensada campanha de marketing!
E pensava eu que os meus filhos é que eram muito à frente, por não se darem ao trabalho de emparelhar as meias, e usarem uma de cada cor...
Meias diferentes têm a sua graça
(e adoro aquelas combinações de riscas e bolinhas, ou cores diferentes. Especialmente quando as cores são incompatíveis, um autêntico convite a avançar permanentemente, porque nem pensar em deixar os pés parados lado a lado, a fazer tooooooinnnnng! nos olhinhos)
mas sapatos diferentes é o non plus ultra!
As minhas amigas criam a tendência, eu vou atrás: vou ver que sapatos tenho aí que combinem assim bem uns com os outros. Porque só sapatos iguais mas de cor diferente é um bocadinho banal, parece-me. Já tem de ser algo realmente ousado!
Se não souberem de mim durante as próximas horas, é porque estou no fundo do armário dos sapatos a ver se encontro o ímpar perfeito.
Se não souberem de mim durante as próximas horas, é porque estou no fundo do armário dos sapatos a ver se encontro o ímpar perfeito.
20 novembro 2018
18 novembro 2018
é com alegria que anuncio o regresso de... (um doce para quem adivinhar)
Não, não é o regresso do Outono glorioso. Podia ser, mas não é.
Também não é o regresso do Inverno: em pezinhos de lã, revelado nas pérolas de gelo que debruam as folhas do caminho. Não, não é bem isso.
O regresso que anuncio com alegria também não é o anoitecer no lago, pouco depois das cinco da tarde.
Era o que faltava, alegrar-me por estes dias tão curtos!
Não senhores. Nada disso.
O regresso que anuncio é o deste simpático. Voltou cá a casa por uns dias!
Recomeçaram os passeios, o vagar para reparar na luz das árvores de Outono contra o céu azul, nas folhas desenhadas pela geada, na lua do lago ao fim do dia.
Etiquetas:
colheita do dia,
da minha vida vê-se um lago,
fotografia,
fox news
17 novembro 2018
é assim que uma pessoa se põe velha...
E vão 55.
Assim sem pensar muito, já cá devem cantar uns bons vinte mil favorite days.
(Apenas vinte mil? Oh, vida tão curta para tanta alegria!)
15 novembro 2018
ai, Brexit!
Notas soltas:
1. O problema que a Irlanda do Norte levanta ao Brexit faz-me pensar numa frase de Jean Paul: "a satisfação pelo que temos é muito menor que a infelicidade de o perdermos". De tal modo demos por certa a paz que a União Europeia trouxe àquela ilha, que nem nos lembrámos que um Brexit poderia despertar os velhos demónios. E só agora, quando o Brexit exige que se levante de novo a fronteira entre as duas Irlandas, nos damos conta do valor do que tínhamos e vamos perder.
2. Diana Zimmermann, a correspondente do Heute Journal em Londres, dizia hoje a propósito da hipótese de a Grã-Bretanha chegar à conclusão que afinal foi tudo um erro enorme, e decidir continuar na UE:
"Não se sabe qual seria o resultado de um segundo referendo, mesmo se as sondagens dão, de momento, uma ligeira desvantagem ao Brexit. Donald Tusk disse hoje que a Grã-Bretanha é sempre bem-vinda. No entanto, esse regresso não seria sem problemas. Nos últimos dois anos e meio muita coisa aconteceu aqui, houve debates... Se agora decidissem regressar ao seio da União Europeia, não o fariam por se terem entretanto dado conta de como é extraordinária, mas sobretudo porque descobriram como é complicado abandoná-la. Muitos dizem que o governo negociou mal, ou então que a UE chantageou a Grã-Bretanha. O regresso à União nestas condições seria sentido como uma humilhação. Num país que desde há alguns anos recomeçou a ter movimentos nacionalistas, a humilhação é algo muito perigoso."
(o Heute Journal pode ser visto aqui - as notícias sobre o Brexit surgem a partir de 10:38)
3. Ao olhar para o modo como os políticos que provocaram este imbróglio abandonaram o barco e deixaram a Theresa May, que era contra o Brexit, desempenhar a impossível tarefa de levar o processo até ao fim com um mínimo de danos, fico a pensar que de futuro os políticos que propuserem um referendo devem também apresentar um plano de execução e os nomes da equipa que ficará responsável pelo cumprimento da vontade do povo, se o povo assim o decidir.
Em defesa da Democracia, é preciso acabar com a inimputabilidade dos agitadores.
1. O problema que a Irlanda do Norte levanta ao Brexit faz-me pensar numa frase de Jean Paul: "a satisfação pelo que temos é muito menor que a infelicidade de o perdermos". De tal modo demos por certa a paz que a União Europeia trouxe àquela ilha, que nem nos lembrámos que um Brexit poderia despertar os velhos demónios. E só agora, quando o Brexit exige que se levante de novo a fronteira entre as duas Irlandas, nos damos conta do valor do que tínhamos e vamos perder.
2. Diana Zimmermann, a correspondente do Heute Journal em Londres, dizia hoje a propósito da hipótese de a Grã-Bretanha chegar à conclusão que afinal foi tudo um erro enorme, e decidir continuar na UE:
"Não se sabe qual seria o resultado de um segundo referendo, mesmo se as sondagens dão, de momento, uma ligeira desvantagem ao Brexit. Donald Tusk disse hoje que a Grã-Bretanha é sempre bem-vinda. No entanto, esse regresso não seria sem problemas. Nos últimos dois anos e meio muita coisa aconteceu aqui, houve debates... Se agora decidissem regressar ao seio da União Europeia, não o fariam por se terem entretanto dado conta de como é extraordinária, mas sobretudo porque descobriram como é complicado abandoná-la. Muitos dizem que o governo negociou mal, ou então que a UE chantageou a Grã-Bretanha. O regresso à União nestas condições seria sentido como uma humilhação. Num país que desde há alguns anos recomeçou a ter movimentos nacionalistas, a humilhação é algo muito perigoso."
(o Heute Journal pode ser visto aqui - as notícias sobre o Brexit surgem a partir de 10:38)
3. Ao olhar para o modo como os políticos que provocaram este imbróglio abandonaram o barco e deixaram a Theresa May, que era contra o Brexit, desempenhar a impossível tarefa de levar o processo até ao fim com um mínimo de danos, fico a pensar que de futuro os políticos que propuserem um referendo devem também apresentar um plano de execução e os nomes da equipa que ficará responsável pelo cumprimento da vontade do povo, se o povo assim o decidir.
Em defesa da Democracia, é preciso acabar com a inimputabilidade dos agitadores.
14 novembro 2018
isto é que é vida...
O príncipe Carlos festeja hoje 70 anos. Já tinha boa idade para ir para a reforma, mas ainda não o deixaram assumir o trabalho que foi decidido para ele antes ainda de ter nascido.
Uma pessoa ri-se, mas depois fica a pensar em todas estas perversões: a liberdade que lhe roubam, a desconfortável situação de esperar a morte da mãe para cumprir o seu próprio destino, a impossibilidade de escapar ao ridículo de continuar à espera...
Pode ter palácios, dinheiro e pompa, mas, decididamente: há vidas melhores. Bem melhores.
10 novembro 2018
o meu 9 de Novembro de 2018
Ontem era o centenário da instauração da república na Alemanha, mas não ouvi falar disso, nem dos 29 anos da queda do muro - excepto no noticiário, onde mostraram partes da cerimónia no Parlamento. À minha volta, o tema do dia era a provocação descarada de um grupo de extrema-direita, que marcou para os oitenta anos do terrível pogrom nazi uma "marcha fúnebre pelas vítimas da política".
De modo que fomos para a rua: vários milhares de berlinenses de um lado, 140 do outro, e 1200 polícias entre os dois grupos. Estive apenas com a Christina, porque o Matthias e os seus amigos estavam numa manifestação que vinha de outro lado da cidade.
Antes disso fomos a uma cerimónia junto ao memorial da Levetzowstrasse, onde deram a palavra a Marian Kalwary, sobrevivente do gueto de Varsóvia, e a Horst Selbiger, berlinense e filho de um judeu, nascido em 1928.
Marian Kalwary, de 89 anos, pôs toda a gente a rir ao recusar uma cadeira dizendo que isso "é para gente nova!".
Depois leu com dificuldade o texto alemão que lembrava o que aconteceu
há oitenta anos na Europa, e fez um pedido na qualidade de sobrevivente do
gueto: vim de Varsóvia a Berlim urgir-vos para não esmorecerem na
luta, e para não esquecerem nunca.
Horst Selbiger, numa voz muito clara, falou-nos do que viu naqueles terríveis dias.
E sublinhou: "Quem dorme em Democracia acorda em ditadura. Fascismo não é uma opinião, fascismo é um crime!"
Também respondeu à questão de que falei ontem, sobre o 9 de Novembro ser a melhor data para um feriado alemão, por agregar a maior vergonha e a maior glória.
"Não!", disse ele. "Ouço dizer que hoje em dia é possível combinar este dia da vergonha e da culpa com um feriado festivo. E assim deixam que se comemore no dia 9 de Novembro a unidade alemã. E assim se deixa cair no esquecimento a data da vergonha e da culpa. Se nós o permitíssemos! Erguei-vos! Oponham-se a essas pessoas da extrema-direita! Ainda somos a maioria, e devemos aproveitá-la! E, por favor, não digam nunca mais "tem de ser possível encerrar este capítulo". É isto que vos digo: não podemos, e não o faremos. Não há esquecimento, não há perdão, e temos de pôr fim, de uma vez por todas, a esta transformação dos criminosos em vítimas."
As pessoas apinhadas na praça ouviam-nos em silêncio atento.
A seguir, uma banda cantou algumas músicas (entre outras: Donna donna donna, Ich wandere durch Theresienstadt, Bella Ciao - nesta, a primeira estrofe foi cantada em ritmo mais lento, mais ao estilo da música judaica) e eu fui comprar o livro do Horst Selbiger, que por acaso estava junto à mesa, e mo autografou - "para memória do 9 de Novembro de 2018" - por baixo da frase:
Façam-nos perguntas, nós somos os que restam!
Quando deixarmos de existir, só ficará a História em papel.
Pusemo-nos a caminho. Largas centenas de pessoas, rodeadas por muitos polícias, alguns deles com câmaras de filmar. A Christina a ensinar-me os truques ("não vás demasiado à frente, se as coisas correrem mal é lá que complica primeiro" e "fica atenta ao pessoal todo de preto"), eu a dizer que achava mal as palavras de ordem tipo "nunca mais Alemanha!", ela a comentar que sentia um certo desconforto ao ver as bandeiras de Israel naquelas ruas de Moabit, que é um bairro onde moram muitos muçulmanos, eu a responder que as pessoas daquela manifestação também vão para a rua em defesa dos direitos dos muçulmanos. E perto de nós o carro de som, que avançava empurrado por alguns manifestantes, a passar a gravação da mensagem "nunca mais! para estes crimes, não há esquecimento e não há perdão" em várias línguas: alemão, hebraico, farsi, árabe.
Passámos por um prédio onde havia um homem à janela, junto a uma bandeira da Alemanha, que nos berrava insultos. O pessoal respondia em coro. E a polícia filmava, para verificar depois se estes tumultos ainda estavam dentro da ordem constitucional.
O cortejo parou junto à estação central de caminho-de-ferro, na barreira que a polícia tinha preparado para separar os manifestantes. Tudo tranquilo - excepto alguns turistas aflitos para apanhar o comboio. Deixei a Christina, e fui para a Filarmonia, para assistir a um concerto em memória das vítimas do 9 de Novembro de 1938. No metro, viajei ao lado de três miúdas vestidas de preto e com a cara tapada. Estariam com certeza a tentar furar a barreira policial, para chegar mais perto dos da extrema-direita. Passei a correr pelo memorial do Holocausto, estava tudo calmo. E daí a nada estava sentada na Filarmonia, a ouvir o concerto. Mas isso é tema para outro post.
Já em casa, vi os noticiários do dia. O discurso do presidente da República no Parlamento, afirmando que "quem despreza os direitos humanos e a Democracia, quem desperta de novo o antigo ódio nacionalista, esses não têm de modo algum direito ao preto-vermelho-ouro da bandeira", o aplauso dos deputados da AfD fazendo de conta que aquela mensagem não era para eles, e parte da cerimónia na sinagoga da Rykestrasse, da qual a AfD foi ostensivamente excluída. Angela Merkel referiu o alarmante crescimento do anti-semitismo na Alemanha, e o representante da comunidade judaica na Alemanha, Josef Schuster, falou da AfD sem dizer o nome, tal como antes o presidente da República fizera no Parlamento: "De novo somos confrontados com incendiários. Quero que reparem nestes números: em 2016 houve cerca de 1000 ataques a casas de refugiados, entre os quais mais de sessenta ataques incendiários. Mais de sessenta! São, em média, cinco ataques incendiários por mês a casas onde vivem pessoas que procuram refúgio entre nós."
Lembrei-me da conversa sobre a bandeira israelita nas ruas de Moabit: esta gente também seria capaz de desfilar para proteger os muçulmanos.
Portanto: no 80º aniversário do pogrom nazi contra os judeus, o representante dos judeus alemães tomou a palavra para lembrar as novas vítimas do ódio: os refugiados muçulmanos. E depois há quem se admire do meu optimismo.
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do vidro ao cristal
(foto)
Ontem escrevi sobre a dificuldade em encontrar uma designação mais adequada que "noite de cristal" ou "noite dos cristais" para os ataques nazis de 9.11.1938, e fiquei a pensar nos motivos possíveis para os berlinenses (que foram, aparentemente, quem cunhou o termo) escolherem "cristal" em vez de "vidro" - ou "estilhaços", ou "destruição", ou "assalto".
Na manhã do dia 10 de Novembro de 1938 os passeios das cidades estavam cobertos de vidros das montras das lojas e das janelas. Vidros, e não cristais. Há uma diferença clara entre um e outro, e a língua alemã conhece-a bem: ninguém diz "janelas de cristal" ou "montras de cristal".
Porquê, então, usar um material mais nobre para designar o que viam?
Só me ocorre uma hipótese: inveja e ressentimento. O que os berlinenses viram derramado pelos passeios não foi o vidro das montras, mas o luxo dos odiados judeus. Por isso terão chamado "cristal" aos vidros partidos.
09 novembro 2018
9 de Novembro de 1938 (3)
Já publiquei este texto há alguns anos neste blogue, mas deixo-o de novo, para o caso de alguém não ter lido:
Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):
Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam - passe o eufemismo - actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos "polícia judiciária!". Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. "Não adianta", disse ele, "e além disso está a resistir à autoridade do Estado!" Só parou quando chegámos à minha casa.
(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)
Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):
Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam - passe o eufemismo - actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos "polícia judiciária!". Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. "Não adianta", disse ele, "e além disso está a resistir à autoridade do Estado!" Só parou quando chegámos à minha casa.
(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)
9.11.2018 em Berlim: se me deixassem organizar a contramanifestação de hoje, caramba, ai!, se me deixassem mandar...
Estava aqui a pensar numa coisa que me disseram ontem, "não se combate maldade com maldade", e também que, aconteça o que acontecer, os neonazis que querem desfilar hoje em Berlim vão regressar a casa todos satisfeitos, com a sensação do dever cumprido, porque agitam a cidade e aparecem nos noticiários.
E foi então que tive uma ideia fantástica, modéstia à parte: querem fazer uma "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" a atravessar o centro geográfico da política alemã? Oh, meus amigos, façam favor!
Mas:
- Não devia haver contramanifestação;
- Não devia haver nenhum jornalista a acompanhar o evento, e a comunicação social devia ignorá-lo;
- As luzes de todos os edifícios (Chancelaria, Parlamento, etc.) e das ruas deviam estar apagadas;
- Ao longo de todo o percurso devia haver ecrãs gigantes a mostrar filmes sobre as Vítimas da Política: crianças a morrer de fome no gueto de Varsóvia, as mulheres alemãs a cercar o centro da Rosenstrasse para obrigar o regime a libertar os seus maridos judeus, os transportes de judeus para os campos, o "Querem a guerra total?" e o "sim! queremos!" sobreposto à imagem dos jovens soldados alemães desesperados no campo de batalha, a vida nos campos de concentração, as colunas de refugiados expulsos do Leste da Prússia, o "ninguém quer construir um muro", os métodos da Stasi, o Willy Brandt a ajoelhar em frente ao gueto de Varsóvia, etc.
Também se pode mudar o tema, com o tempo:
- mostrar-lhes filmes de comunidades que acolheram bem os refugiados e onde todos vivem como amigos, filmes da destruição da Síria, filmes de apresentação de algumas das famílias que fugiram para a Alemanha, mostrar-lhes a riqueza cultural dos países de onde vêm os refugiados, etc.
- passar pequenos filmes sobre os Direitos Humanos, ou sobre a Constituição Alemã.
Em suma: sempre que haja manifestações deste tipo, não se deve oferecer resistência nem palco mediático, antes aproveitando a oportunidade para dar uma lição de História àquelas pessoas. Provavelmente não há melhor oportunidade de os concentrar num lugar, durante tanto tempo, a ver aqueles filmes.
E foi então que tive uma ideia fantástica, modéstia à parte: querem fazer uma "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" a atravessar o centro geográfico da política alemã? Oh, meus amigos, façam favor!
Mas:
- Não devia haver contramanifestação;
- Não devia haver nenhum jornalista a acompanhar o evento, e a comunicação social devia ignorá-lo;
- As luzes de todos os edifícios (Chancelaria, Parlamento, etc.) e das ruas deviam estar apagadas;
- Ao longo de todo o percurso devia haver ecrãs gigantes a mostrar filmes sobre as Vítimas da Política: crianças a morrer de fome no gueto de Varsóvia, as mulheres alemãs a cercar o centro da Rosenstrasse para obrigar o regime a libertar os seus maridos judeus, os transportes de judeus para os campos, o "Querem a guerra total?" e o "sim! queremos!" sobreposto à imagem dos jovens soldados alemães desesperados no campo de batalha, a vida nos campos de concentração, as colunas de refugiados expulsos do Leste da Prússia, o "ninguém quer construir um muro", os métodos da Stasi, o Willy Brandt a ajoelhar em frente ao gueto de Varsóvia, etc.
Também se pode mudar o tema, com o tempo:
- mostrar-lhes filmes de comunidades que acolheram bem os refugiados e onde todos vivem como amigos, filmes da destruição da Síria, filmes de apresentação de algumas das famílias que fugiram para a Alemanha, mostrar-lhes a riqueza cultural dos países de onde vêm os refugiados, etc.
- passar pequenos filmes sobre os Direitos Humanos, ou sobre a Constituição Alemã.
Em suma: sempre que haja manifestações deste tipo, não se deve oferecer resistência nem palco mediático, antes aproveitando a oportunidade para dar uma lição de História àquelas pessoas. Provavelmente não há melhor oportunidade de os concentrar num lugar, durante tanto tempo, a ver aqueles filmes.
9 de Novembro de 1938 (2)
"Aconteceu, e por isso pode voltar a acontecer: é esta a essência daquilo que temos para dizer."
Primo Levi
No 80º aniversário do pogrom nazi de 1938, a extrema-direita quer marchar em Berlim. Esta "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" é organizada pelo grupo "nós pela Alemanha".
O ministro do Interior do Estado de Berlim, Andreas Geisel (SPD), está a fazer os possíveis para inviabilizar a manifestação. Um tribunal proibiu-a, outro tribunal levantou esta manhã a proibição, e neste momento decorre o recurso. O problema é que o sistema legal alemão parece não ter como impedir uma manifestação convocada nestes termos, apesar de ser óbvio que se trata de uma provocação.
Andreas Geisel, por seu lado, não tem dúvidas sobre a gravidade do momento:
"A nossa Democracia pode e tem de ser capaz de aguentar muitos embates. Nós, democratas, somos capazes de lidar com opiniões contrárias. Mas a nossa Democracia não tem de aceitar tudo. E muito menos por parte daqueles que na realidade desprezam a nossa comunidade democrática. A perspectiva de que, no 80º aniversário da Noite de Pogrom do Reich, pessoas de extrema-direita possam marchar - provavelmente com velas, depois do anoitecer - pelo Bairro do Governo é para mim insuportável.
A provocação dirigida às vítimas e aos seus descendentes é premeditada e realizada conscientemente. Trata-se de deslocar os limites do aceitável continuamente para a direita. Não podemos continuar a tolerar o extremismo de Direita sob o manto da liberdade de expressão. Este é o momento em que todas as pessoas democratas se têm de erguer e afirmar: "Stop! Daqui não passam."
Eles estão a preparar-se para marchar. Se a próxima instância não proibir a marcha, eles vão atravessar o centro geográfico da política da Alemanha Federal protegidos pela polícia. Marquei encontro com a minha filha na Hansaplatz às 16:30. Estão-se a juntar milhares de pessoas para os cercar e impedir de iniciar a marcha. E a polícia, obrigada a proteger uma manifestação autorizada pelo tribunal, será a nossa inimiga. Espero que não batam com força.
--
Em 2002 assisti a algo semelhante em Weimar. Os neonazis convocaram uma manifestação, e a população saiu de casa naquele dia horroroso de vento, chuva e neve para lhes fazer frente. O Joachim juntou-se ao grupo que impedia os neonazis de profanarem o pequeno cemitério dos judeus. E eu em casa, com os miúdos pequeninos, cheia de medo que aquilo corresse muito mal e eles ficassem órfãos.
9 de Novembro de 1938 (1)
O
que há num nome?
Quem
se terá lembrado de chamar "Noite de Cristal" a este momento de
brutal ruptura com a ideia que tínhamos da nossa civilização?
Não terão sido os nazis, que em documentos da época lhe chamavam “operação judeus”, “operação vingança”, “operação Rath”. Talvez tenha sido cunhada pela população de Berlim, perante os montes de vidros estilhaçados que se acumulavam sobre os passeios, e entrou no léxico da História.
Se
esta expressão - eufemística, quase romântica e até glorificadora - seria
natural durante a época do III Reich, o que explica que se tenha mantido na
Alemanha até aos anos oitenta do século passado? Mais: o que explica que ainda
seja usada em tantos países (nomeadamente em Portugal e no Brasil)? Curiosamente,
até em Israel se usa esta designação (»Leil HaBdolach«),
embora sempre com aspas.
Em
1988, Avraham Barkai escrevia
no seu „1938 – Ano Fatídico“: „Noite de Cristal! Os cristais brilhantes,
reluzentes, cintilantes de uma festa! Começa a ser tempo de eliminar, ao menos dos textos de História, esta
expressão malévola e adoçada”.
Na viragem da primeira década do nosso século, quando os meus filhos andavam no
secundário em Berlim e estudavam estes temas, ainda não havia um nome estabelecido
para referir esse capítulo da História. “Kristall” era sem dúvida uma palavra a
evitar, mesmo se ligada a Reich, “noite de cristal do Reich”. Usar “pogrom” em
vez de “cristal” também não é adequado, porque o pogrom é normalmente uma
erupção de violência popular, um fenómeno de mob, algo muito diferente destes
ataques a judeus planeados e executados a partir da cúpula do sistema nazi. Por
outro lado, falar em “noite” também é incorrecto, porque essa vaga de violência
com ataques aos edifícios e perseguições às pessoas durou vários dias. Na
exposição Topografia do Terror, em Berlim, o título dado a estes acontecimentos
é “Terror anti-semita 1938”.
Entretanto, e apesar de não ser muito adequada, a designação mais usada tem
sido “Noite de Pogrom do Reich”, “Reichspogromnacht”.
À boleia de Avraham Barkai, sugiro que também em Portugal se reveja o nome usado. Seria um bom exercício de debate sobre o politicamente correcto: a necessidade de nos darmos conta, por fim, do significado das palavras que usamos, e da ideologia que transportam.
À boleia de Avraham Barkai, sugiro que também em Portugal se reveja o nome usado. Seria um bom exercício de debate sobre o politicamente correcto: a necessidade de nos darmos conta, por fim, do significado das palavras que usamos, e da ideologia que transportam.
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