26 outubro 2018
caramelos
No dia em que na Enciclopédia Ilustrada se falou de Beirute alguém mencionou o filme Caramel.
O primeiro a ver o filme Caramel cá em casa foi o meu filho, quando tinha uns 13 anos. Comentou comigo que "este filme é diferente, e dá que pensar". A música do filme passou a ser companhia certa nas nossas viagens de carro mais longas.
Uns anos depois, num encontro com os seus novos amigos sírios que agora moram em Berlim, o Matthias cantarolou "Mreyte Ya Mreyte", e uma das raparigas sírias desatou a chorar. Não esperava ouvir tão longe de casa um alemão a cantar esta canção. Entre lágrimas, contou ao Matthias que é amiga da cantora.
Uns meses mais tarde a minha filha começou a cantar com alguns desses jovens sírios, que são músicos e fugiram para Berlim porque na Síria chegaram a estar presos por se interessarem pela "música errada". Compôs com um deles uma canção usando esta letra.
O mundo é realmente muito pequeno. Quanto maior o tamanho dos corações, mais pequeno o mundo.
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25 outubro 2018
das palavras às bombas
(foto: artigo do Spiegel)
Traduzo partes de um comentário de Marc Pitzke (NY), no Spiegel online hoje:
A América dele
As embalagens com bombas que foram enviadas aos mais importantes Democratas dos EUA são o resultado de um clima de ódio que é criado pelo homem no topo: Donald Trump.
"Era apenas uma questão de tempo", comentou James Clapper, antigo chefe dos serviços secretos americanos, a propósito das bombas ontem enviadas pelo correio. O que é que os destinatários têm em comum? São os alvos de ataque favoritos de Donald Trump no Twitter.
É este o país de Trump: os Estados "Unidos" da América estão divididos pelo ódio, pela fúria e pela violência que está a passar do plano verbal para o físico.
É este o país de Trump: os Estados "Unidos" da América estão divididos pelo ódio, pela fúria e pela violência que está a passar do plano verbal para o físico.
É este o país de Trump.
Trump começou a sua campanha eleitoral com tiradas contra os mexicanos e os latinos.
- Oh, isto é só falar por falar.
Transformou o resto da sua campanha eleitoral numa perseguição de ódio a Hillary Clinton: "prendam-na!"
- Oh, isto é só o teatro da política.
Quando em Charlottesville mataram uma contra manifestante que se opunha a uma marcha de extrema-direita, não soube condenar a violência neonazi.
- Oh, o problema é que ele não se consegue expressar muito bem.
Usa o registo brutal da cena de wrestling, "quem me dera dar-lhe um murro", "batam a sério, ok? Eu pago-vos o advogado".
Oh, é só a brincar.
É esta a América do Trump, todos os dias, até hoje. O seu maior inimigo são os meios de comunicação social, "inimigos do Estado", "traidores do povo", "gente muito muito má".
- Oh, isso não passa de esperteza retórica.
Mas é muito mais que retórica. O que Trump diz é aceite sem discutir pelos seus seguidores, que acreditam nas suas mentiras, se riem daqueles que ele humilha e odeiam quem ele odeia.
Não é apenas a linguagem violenta. É o pensamento violento que se espalha na sociedade como um gás imperceptível. Trump promove a violência contra os seus inimigos. Numa sessão pública em Montana elogiou o republicano Greg Gianforte por ter agredido um jornalista [vejam o vídeo, é muito instrutivo: https://youtu.be/aovYhuOodyw]; pouco depois, na mesma sessão, um apoiante de Trump virava-se para Jim Acosta, repórter da CNN, e fazia-lhe com a mão o gesto de uma faca a passar pela garganta. Isto aconteceu na semana passada.
Era uma questão de tempo.
E há muito que não é apenas Trump. Muitos outros sentem-se encorajados a seguir-lhe o exemplo.
Trump, o autocrata in spe, mantém em clima explosivo as massas que o adoram: diz-lhes que só eles são bons, e que todos os outros são maus. E quem é mau tem de ser eliminado, tanto politica como - piscadela de olho - fisicamente.
Os atentados políticos não nascem do nada. Surgem num clima de ódio e divisão da sociedade, e vão ganhando cada vez mais força à medida que as pessoas se habituam. Basta folhear os livros de História dos EUA: John F. Kennedy. Robert Kennedy. Martin Luther King.
Os agressores não foram nunca os únicos culpados.
"Calma, sua tia não é fascista. Ela está sendo manipulada pelas redes sociais."
Para quem, como eu, se afunda na perplexidade de não entender como é que
o Brasil está a caminhar voluntariamente para uma ditadura apesar de
Bolsonaro o anunciar abertamente, este filme explica de forma clara o
que está a acontecer aos brasileiros.
esta é a pessoa que vai salvar o Brasil?
Jair Bolsonaro a dizer ele próprio o que pensa: que é a favor da tortura, que só não foge mais aos impostos porque não pode, que se fosse presidente da República "daria o golpe no mesmo dia" e fecharia o Congresso Nacional, e que o Brasil só consegue melhorar se tiver uma guerra civil e conseguir matar "esses" - começando pelo FHC ("Não deixar ir pra fora não! Matando!" e a seguir: "Se vai morrer algum inocente? Tudo bem! Em todas as guerras morrem inocentes").
É esta pessoa que os brasileiros estão prestes a escolher para ganhar ao Hadad e ao PT.
24 outubro 2018
Bolsonaro é diferente de Hitler - um exemplo prático
Hitler foi nomeado chanceler a 30 de Janeiro de 1933. Alguns dias depois, a 26 de Fevereiro, o Reichstag estava a arder. Hitler aproveitou-se do facto para espalhar a ideia de que a Alemanha estava a ser atacada pelos comunistas, e decretou o estado de emergência. Nessa mesma noite Göring mandou prender os deputados federais e regionais dos partidos de esquerda. Nas eleições seguintes, a 5 de Março de 1933, a oposição estava bastante dizimada, mas conseguiu ainda eleger um número importante de deputados. A 9 de Março o Partido Comunista Alemão foi declarado ilegal, e os seus representantes foram feitos prisioneiros. Com os deputados da oposição na prisão, Hitler conseguiu facilmente fazer passar a lei que lhe permitia governar sem necessitar da aprovação do parlamento.
O que se seguiu é do conhecimento público (embora alguns insistam em não reparar nos 60 ou talvez até 80 milhões de mortos, na tentativa de aniquilar o povo judeu e os povos ciganos, nas cidades destruídas, os milhões de pessoas em fuga, em suma: na hecatombe que se abateu sobre vários continentes - e prefiram elogiar as auto-estradas, as casas e os carros para todos, o apoio às mães e às famílias, e, claro, o esforço de lutar contra o perigo vermelho que crescia e se afirmava na sociedade alemã).
Há diferenças entre o que aconteceu na Alemanha em Fevereiro de 1933 e o que está a acontecer no Brasil hoje?
Há. Esta, por exemplo: nem é preciso haver um "incêndio do Reichstag" para Bolsonaro ameaçar meter na cadeia "todos esses vermelhos". Nem sequer se dá ao trabalho de um mínimo de legalidade democrática para levar a cabo a sua agenda totalitária.
23 outubro 2018
o que há num sorriso
A miúda disse-me que fala muito bem alemão e inglês (e também árabe, francês e maltês porque viveu dois anos em Malta). Depois tirou o papel do bolso, e anunciou: "a minha família". Sorria, com olhos cheios de confiança.
A minha amiga Rita segredou-me: "a mãe e a irmã morreram".
Lembrei-me dos três miúdos, irmãos entre os 3 e os 8 anos, da naturalidade com que contaram à professora de música no centro de refugiados: "sabes? nós perdemo-nos da nossa mãe na Grécia, e viemos sozinhos até à Alemanha. Foi aqui que ela nos encontrou."
Lembrei-me do sorriso dos jovens sírios amigos dos meus filhos a comentar, depois de os ajudarem a fazer uma mudança, que a parte desse dia em que tinham viajado no compartimento da carga da carrinha "foi muito desagradável".
Não basta dar-lhes casa, pão, segurança. Há que entender por trás do sorriso. Pode ser a sua única defesa para não se deixarem dilacerar pelo horror.
[Roubei a foto à Rita. A miúda não lhe deu o desenho - só o queria mostrar.]
22 outubro 2018
como é possível
Muitas vezes me perguntei como foi possível um país com o grau de desenvolvimento da Alemanha ter eleito Hitler. Nunca pensei que iria assistir ao vivo a um processo semelhante: um povo a caminhar para a tragédia, e a impossibilidade de o parar.
Maria Leonardo
A Maria Leonardo faz hoje anos. Fui ao mural dela para lhe dar os parabéns, mas de caminho perdi-me pelas suas fotos.
As fotos da Maria Leonardo!
Vi em Berlim uma exposição dela sobre as estações fantasma do tempo do muro. Se me deixassem mandar, essa série teria ficado num museu de Berlim, ou ao menos numa colecção.
(não me deixam mandar, não sabem o que perdem)
Como ia dizendo: fui ao mural da Maria Leonardo, e vi que ela tem um site onde mostra as fotos que tem à venda.
(era uma de cada, se faz favor)
Parabéns, Maria. Pelo aniversário, e por encheres o mundo de beleza.
Obrigada.
12 outubro 2018
nos transportes públicos de Berlim
1. De cada vez que vou sentada nos transportes públicos e tenho o impulso de oferecer o meu lugar a uma pessoa mais velha, penso duas vezes: corro o risco de estar a oferecer o lugar a alguém mais novo que eu. É que a imagem que tenho de mim estacionou ali para os 25 anos, talvez 30, mas quem vê caras não vê auto-imagens. Um dia destes alguém ainda vai levar a mal.
2. Entrei para uma carruagem de metro que ia bastante cheia, e fiquei à porta, juntamente com uma jovem alemã que ocupou o espaço a que sentia ter direito sem reparar no pobre rapaz ao lado dela. Este, encurralado entre as costas do banco atrás dele e a mulher à sua frente, começou a fazer um exercício de implosão. Sabem como é, um corpo humano a tentar ficar o mais plano possível? Nem respirava, coitado do rapaz. A rapariga estava muito descontraída a pensar em coisas suas, inteiramente alheia ao esforço dele para que os corpos não se tocassem. Saí na estação seguinte, e sorri para o rapaz um daqueles sorrisos de compreensão, solidariedade e agradecimento pelo respeito demonstrado.
Suspeito que era refugiado. Um desses "refugiados que vêm para cá violar as nossas mulheres"...
3. Ontem Berlim exibiu-se no seu melhor rosto outonal. Encostei o telemóvel ao vidro da S-Bahn e comecei a fotografar às cegas. Do outro lado do corredor, um alemão meteu conversa. Se estava a filmar contra o sol. Não, estou a fotografar. E fotografias tiradas contra o sol ficam bem? Olhe estas aqui. Ena, ficaram óptimas, não imaginava! Pois é, às vezes corre bem. Você é da Escandinávia? Não, sou portuguesa.
E então (até vou mudar de linha), ele disse isto: Ah, Portugal! Como é que anda o vosso, como é que ele se chama?, o vosso rei? O... vosso presidente, o... o vosso chefe? O... ah, já sei! O Ronaldo! Como anda ele? É um jogador de classe, mas aquilo que ele fez não se faz. Vai ter de pagar por isso. Vai ter de pedir desculpa. Vai ter de pedir desculpa.
2. Entrei para uma carruagem de metro que ia bastante cheia, e fiquei à porta, juntamente com uma jovem alemã que ocupou o espaço a que sentia ter direito sem reparar no pobre rapaz ao lado dela. Este, encurralado entre as costas do banco atrás dele e a mulher à sua frente, começou a fazer um exercício de implosão. Sabem como é, um corpo humano a tentar ficar o mais plano possível? Nem respirava, coitado do rapaz. A rapariga estava muito descontraída a pensar em coisas suas, inteiramente alheia ao esforço dele para que os corpos não se tocassem. Saí na estação seguinte, e sorri para o rapaz um daqueles sorrisos de compreensão, solidariedade e agradecimento pelo respeito demonstrado.
Suspeito que era refugiado. Um desses "refugiados que vêm para cá violar as nossas mulheres"...
3. Ontem Berlim exibiu-se no seu melhor rosto outonal. Encostei o telemóvel ao vidro da S-Bahn e comecei a fotografar às cegas. Do outro lado do corredor, um alemão meteu conversa. Se estava a filmar contra o sol. Não, estou a fotografar. E fotografias tiradas contra o sol ficam bem? Olhe estas aqui. Ena, ficaram óptimas, não imaginava! Pois é, às vezes corre bem. Você é da Escandinávia? Não, sou portuguesa.
E então (até vou mudar de linha), ele disse isto: Ah, Portugal! Como é que anda o vosso, como é que ele se chama?, o vosso rei? O... vosso presidente, o... o vosso chefe? O... ah, já sei! O Ronaldo! Como anda ele? É um jogador de classe, mas aquilo que ele fez não se faz. Vai ter de pagar por isso. Vai ter de pedir desculpa. Vai ter de pedir desculpa.
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09 outubro 2018
manejar o medo como arma
Noah Trevor a explicar a técnica de Trump de manipular o estatuto de vítima, deslocando-o da vítima para os detentores do poder, de modo a incutir neles o sentimento de medo que lhes permitirá reagir e lutar para continuar a deter esse poder. Vale a pena ouvir tudo com muita atenção.
Em traços largos (mas vejam o vídeo, que é mesmo bom):
- A ferramenta mais poderosa de Trump é a sua perícia no manejo do estatuto de vítima.
- Trump afirma que estes são tempos muito difíceis para os homens, porque em qualquer momento podem ser vítimas de uma acusação falsa e a sua vida é destruída.
- Fica-se com a ideia de que o movimento #metoo está a descarrilar.
- Mas o que significa isso, concretamente? Quantas pessoas foram acusadas até agora? Talvez cento e tal pessoas? Pelo modo como colocam a questão, até parece que "todos os homens" foram acusados. Mas são apenas cento e tal homens que foram realmente atingidos pelo movimento #metoo.
- Cria-se o sentimento de que os homens, todos os homens, estão a ser vítimas de um ataque que pode acontecer a qualquer um deles, e que têm de se unir para se proteger. Os homens sentem-se vítimas, e nesse processo unem-se para lutar contra um movimento que pretendia proteger as verdadeiras vítimas (que são as mulheres).
- Quantos homens foram acusados injustamente? Melhor: quantos homens nesta sala foram acusados de abuso sexual? E quantas mulheres nesta sala foram vítimas de abuso sexual? Suspeito que não haja aqui um único homem que tenha sido acusado, mas que haja muitas mulheres que foram vítimas.
- Trump consegue fazer esta manipulação com tudo: com o #metoo, com os emigrantes na fronteira do México (as vítimas não são as crianças enjauladas, são os cidadãos dos EUA que estão a ser vítimas de invasão), com os refugiados sírios (as verdadeiras vítimas são os cidadãos dos EUA que vão ser mortos por uma bomba terrorista).
- O mais irónico é que pessoas que estão mais próximas de ser as vítimas vão tentar demarcar-se da sua própria realidade para aderir ao discurso do poder. "Sim, apalparam-me o rabo. Mas não tem mal! Não sou uma vítima! Há que andar para a frente!" - fazendo de conta que nada daquilo está a acontecer.
- Trump tem o perigoso dom da manipulação. Por causa de Trump, as pessoas sentiram que estavam a perder o seu país. E o que se sente pode ser muito mais poderoso do que a realidade.
massa crítica
Na semana passada aconteceu-me uma cena muito desconfortável. Encontrei-me com alguns amigos berlinenses para falar de um livro de um teólogo que cresceu na RDA e que defende a necessidade imperiosa de ouvir os apoiantes da AfD. O autor, Frank Richter, defende que "Democracia significa debate".
Na primeira volta da conversa eu anunciei, muito orgulhosa, que Portugal é um caso raro, porque nem a terrível crise do euro fez surgir um partido nacionalista e a xenófobo, e saboreei com gosto todos aqueles olhares de admiração de repente virados para mim por tabela do meu maravilhoso país.
Mas na segunda volta as pessoas começaram a dizer quais são os argumentos dos apoiantes da AfD, e eu tinha muito para comentar porque leio todos os dias frases dessas no facebook, e tenho imensa experiência do que acontece quando se tenta rebater. De facto, até podia explicar - por experiência própria - a falácia daquele "Democracia significa debate".
Tinha muito para comentar, mas fiquei quieta e calada, porque se falasse tinha de dar o dito por não dito. Afinal, Portugal não é o país excepcional que eu anunciara no início da conversa. É um país onde nos cruzamos frequentemente com potenciais adeptos de um partido tipo AfD.
A nossa sorte, até agora, foi ainda ninguém se ter lembrado de criar esse partido. Temo que já haja massa crítica para o apoiar.
Na primeira volta da conversa eu anunciei, muito orgulhosa, que Portugal é um caso raro, porque nem a terrível crise do euro fez surgir um partido nacionalista e a xenófobo, e saboreei com gosto todos aqueles olhares de admiração de repente virados para mim por tabela do meu maravilhoso país.
Mas na segunda volta as pessoas começaram a dizer quais são os argumentos dos apoiantes da AfD, e eu tinha muito para comentar porque leio todos os dias frases dessas no facebook, e tenho imensa experiência do que acontece quando se tenta rebater. De facto, até podia explicar - por experiência própria - a falácia daquele "Democracia significa debate".
Tinha muito para comentar, mas fiquei quieta e calada, porque se falasse tinha de dar o dito por não dito. Afinal, Portugal não é o país excepcional que eu anunciara no início da conversa. É um país onde nos cruzamos frequentemente com potenciais adeptos de um partido tipo AfD.
A nossa sorte, até agora, foi ainda ninguém se ter lembrado de criar esse partido. Temo que já haja massa crítica para o apoiar.
05 outubro 2018
insultar o Ronaldo é que não!
Um dos mais curiosos argumentos que ouvi em Portugal para desacreditar a mulher que acusou Ronaldo de a ter violado é este: "se foi ao quarto dele, já sabia ao que ia".
Antes de mais, que fique bem claro: parece-me mal que andem por aí a insinuar essas coisas contra o Ronaldo! Quem diz que ela não devia ter ido ao quarto dele porque já sabia o que podia acontecer está implicitamente a afirmar que o Ronaldo é homem para violar qualquer mulher que lhe entre no quarto. Tenham paciência, mas: insultos ao Ronaldo é que não!
É que insultam e condenam o Ronaldo ainda antes de os juizes terem começado a olhar para o caso, e dão cabo da minha auto-estima: é muito triste chegar a esta idade sem ter percebido que todos os homens que me convidam para os seus aposentos me querem e podem violar.
(Tenho andado tão enganadinha!)
De caminho também fiquei a suspeitar que talvez não seja uma mulher santa, porque "santas não aceitam convites para entrar no quarto de hotel de um homem" (mesmo que o convite seja dirigido a um grupo, como foi o caso naquela fatídica noite em 2009). Pelas críticas que fazem a Kathryn Mayorga depreendo que tenho andado a recusar sempre pelos motivos errados - porque não me apetece ou porque tenho mais que fazer. Pelos vistos o único motivo certo para recusar ir aos aposentos de um homem é partir do princípio que ele me quer violar.
(Não serei santa, mas sou uma santinha: incapaz de ver maldade nos outros até prova em contrário)
Outra das estratégias da defesa do Ronaldo explora o currículo da mulher que o acusa: "se fazia aquele trabalho, não se pode queixar". Não sei o que é "aquele trabalho", mas sei que a dignidade humana está acima de qualquer vínculo laboral. Um trabalho que implique tamanha suspensão dos direitos da personalidade não é um trabalho - é escravatura.
(Talvez fosse conveniente as pessoas que recorrem à prostituição e a serviços de escort informarem-se um pouco mais sobre a legislação em vigor, não vá de hoje para amanhã alguém resolver instaurar-lhes um processo criminal. Que isto os tempos estão maus, já não se pode fazer descansadamente o que sempre foi costume...)
Em suma: na gritaria provocada pela acusação contra Ronaldo descubro que em Portugal o machismo e a falta de respeito pelas mulheres são ainda mais generalizados do que pensava.
(O que me inspira para uma ideia peregrina: a Europa podia resolver o problema da integração de refugiados de forma bastante simples. Em vez de tentar mudá-los e adaptá-los às regras da sociedade que os acolhe, dividia-os por países em função da mentalidade. Para Portugal iriam os refugiados que vêm de regiões onde se entende que a mulher tem de se dar ao respeito, tem de cobrir o corpo para não provocar os homens, deve evitar o contacto com homens que conhece mal porque "já se sabe o que é que os homens querem", e é culpada do que lhe possa acontecer se entrar na "toca do lobo". Esses refugiados seriam recebidos de braços abertos pelos muitos portugueses que ainda pensam como eles, e estariam desde logo bem integrados na sociedade de acolhimento...)
(Estava a brincar, claro. Era só o que faltava deixar vir os de fora para tratar mal as nossas mulheres! Como é óbvio, essa tarefa é um direito exclusivo do macho ibérico, a quem pertence a coutada. Humpf!)
O que me custa mais nisto tudo, mais ainda do que ver o nosso querido Ronaldo envolvido numa história sórdida - e agora estou a falar muito a sério: o modo como se tem atacado esta mulher para defender o Ronaldo representa um ataque generalizado às mulheres vítimas de violência sexual (são umas levianas e calculistas), aos homens (coitadinhos, não passam de uns brutos dominados pela testosterona) e àquilo que se pensava ser a sociedade portuguesa no século XXI (imbuída de valores democráticos, moderna, igualitária).
Antes de mais, que fique bem claro: parece-me mal que andem por aí a insinuar essas coisas contra o Ronaldo! Quem diz que ela não devia ter ido ao quarto dele porque já sabia o que podia acontecer está implicitamente a afirmar que o Ronaldo é homem para violar qualquer mulher que lhe entre no quarto. Tenham paciência, mas: insultos ao Ronaldo é que não!
É que insultam e condenam o Ronaldo ainda antes de os juizes terem começado a olhar para o caso, e dão cabo da minha auto-estima: é muito triste chegar a esta idade sem ter percebido que todos os homens que me convidam para os seus aposentos me querem e podem violar.
(Tenho andado tão enganadinha!)
De caminho também fiquei a suspeitar que talvez não seja uma mulher santa, porque "santas não aceitam convites para entrar no quarto de hotel de um homem" (mesmo que o convite seja dirigido a um grupo, como foi o caso naquela fatídica noite em 2009). Pelas críticas que fazem a Kathryn Mayorga depreendo que tenho andado a recusar sempre pelos motivos errados - porque não me apetece ou porque tenho mais que fazer. Pelos vistos o único motivo certo para recusar ir aos aposentos de um homem é partir do princípio que ele me quer violar.
(Não serei santa, mas sou uma santinha: incapaz de ver maldade nos outros até prova em contrário)
Outra das estratégias da defesa do Ronaldo explora o currículo da mulher que o acusa: "se fazia aquele trabalho, não se pode queixar". Não sei o que é "aquele trabalho", mas sei que a dignidade humana está acima de qualquer vínculo laboral. Um trabalho que implique tamanha suspensão dos direitos da personalidade não é um trabalho - é escravatura.
(Talvez fosse conveniente as pessoas que recorrem à prostituição e a serviços de escort informarem-se um pouco mais sobre a legislação em vigor, não vá de hoje para amanhã alguém resolver instaurar-lhes um processo criminal. Que isto os tempos estão maus, já não se pode fazer descansadamente o que sempre foi costume...)
Em suma: na gritaria provocada pela acusação contra Ronaldo descubro que em Portugal o machismo e a falta de respeito pelas mulheres são ainda mais generalizados do que pensava.
(O que me inspira para uma ideia peregrina: a Europa podia resolver o problema da integração de refugiados de forma bastante simples. Em vez de tentar mudá-los e adaptá-los às regras da sociedade que os acolhe, dividia-os por países em função da mentalidade. Para Portugal iriam os refugiados que vêm de regiões onde se entende que a mulher tem de se dar ao respeito, tem de cobrir o corpo para não provocar os homens, deve evitar o contacto com homens que conhece mal porque "já se sabe o que é que os homens querem", e é culpada do que lhe possa acontecer se entrar na "toca do lobo". Esses refugiados seriam recebidos de braços abertos pelos muitos portugueses que ainda pensam como eles, e estariam desde logo bem integrados na sociedade de acolhimento...)
(Estava a brincar, claro. Era só o que faltava deixar vir os de fora para tratar mal as nossas mulheres! Como é óbvio, essa tarefa é um direito exclusivo do macho ibérico, a quem pertence a coutada. Humpf!)
O que me custa mais nisto tudo, mais ainda do que ver o nosso querido Ronaldo envolvido numa história sórdida - e agora estou a falar muito a sério: o modo como se tem atacado esta mulher para defender o Ronaldo representa um ataque generalizado às mulheres vítimas de violência sexual (são umas levianas e calculistas), aos homens (coitadinhos, não passam de uns brutos dominados pela testosterona) e àquilo que se pensava ser a sociedade portuguesa no século XXI (imbuída de valores democráticos, moderna, igualitária).
04 outubro 2018
"honra"
A palavra de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "honra".
Copio para aqui a participação do Lutz Brückelmann - lembram-se? O autor do saudoso blogue "Quase em Português".
(Já uma vez fiz uma greve de fome para conseguir que o Lutz reabrisse o blogue. Ao ler textos como este penso que valia bem a pena fazer segunda tentativa.) (E fazia, se soubesse que o Lutz cederia ainda antes da hora do jantar.)
"Quanto mais alguém me fala de #honra, mais de pé atrás fico. Basta olhar ao que a Google devolve em imagens para a palava „Ehre“, honra em alemão, para perceber porquê.
Honra é um conceito atávico, proveniente e indissociável de formas de convívio humano incompatíveis com a liberdade. É um conceito tribal, anti-racional e anti-democrático. Não é por acaso que ela é o valor supremo dos Nazis, das organizações de crime, como a máfia, todas as máfias. E, reconhece-se, também na instituição militar. Tem o seu lugar natural onde imperam a violência e o poder autoritário, onde partilha este com o valor da lealdade.
É um logro achar que honra é uma qualidade individual. É uma exigência externa interiorizada. Isto nota-se na honra familiar. A honra da mulher, por exemplo, reside na sua castidade que uma vez perdida, é irrecuperável. A sua castidade não pertence a ela, ela não é sua dona e por consequência não é dona do seu corpo, é propriedade da família. E „protegida“, controlada pelos homens que nela mandam. Por isso, os familiares masculinos, os guardiões - de facto proprietários - no extremo, podem restabelecer a honra da família matando a mulher.
Demorei algum tempo até compreender e aceitar que honra é mesmo algo universalmente mau. Pois tal como quase todos nós fui socializado na noção de honra como um valor positivo, mais, dos mais importantes. Tantas histórias e filmes com os seus heróis, antigos e novos, apresentam-nos este valor como indispensavel, ingrediente natural para que qualquer protagonista nos possa merecer respeito.
E muitos valores positivos parecem estar ligados ou mesmo a decorrer dela: a coragem face a adversidade, a capacidade de sacrifício, a auto-disciplina, a não cedência a tentações, a generosidade...
Mas estes valores na verdade não dependem dela e não lhe devem nada. A honra, segundo Schopenhauer, "objetivamente, a opinião dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião", nunca descola verdadeiramente da mera reputação. (Daí, honra pode ser preservada, desde que se consegue esconder a violação do código.)
Uma pessoa autónoma, livre, não precisa de honra. Tem uma consciência. Uma honra que se emancipou da expetativa exterior. E os valores acima referidos no contexto da honra, vivem, tal como a dignidade, o auto-respeito, a responsabilidade e a cidadania, todos e muito melhor."
02 outubro 2018
passarinhos
Os pássaros nascem na ponta das árvores, dizia Ruy Belo, mas no meu jardim nascem dentro das flores. Basta largar os olhos nos girassóis ou nas roseiras e lá aparecem eles de restolhada. Volteiam alvoroçados, e depois desaparecem por trás da sebe e mergulham no outono de um jardim vizinho.
Ontem fui à cozinha do meu airbnb conhecer as novas hóspedes, que chegaram durante a noite, e dar-lhes algo que me tinham pedido. Bati à porta, ouvi uma enorme agitação, disseram-me para entrar. Eram três: pequeninas, franzinas, delicadas. Volteavam alvoroçadas na cozinha, desfaziam-se em sorrisos e "hello" e "thank you".
Esta semana tenho passarinhos no meu airbnb.
Ontem fui à cozinha do meu airbnb conhecer as novas hóspedes, que chegaram durante a noite, e dar-lhes algo que me tinham pedido. Bati à porta, ouvi uma enorme agitação, disseram-me para entrar. Eram três: pequeninas, franzinas, delicadas. Volteavam alvoroçadas na cozinha, desfaziam-se em sorrisos e "hello" e "thank you".
Esta semana tenho passarinhos no meu airbnb.
30 setembro 2018
aos murros ao mundo
De um artigo de hoje no Spiegel:
Parece que Lukas Rietzschel escreveu um romance que nos ajuda a chegar mais perto do fenómeno do neonazismo na região da antiga Alemanha de Leste. A história decorre num cenário que o autor conhece bem, porque é o da sua vida - fábricas abandonadas, casas abandonadas, aldeias abandonadas, escolas vazias por falta de crianças, um autocarro que já só passa duas vezes por dia - e descreve (traduzo do Spiegel) "um grupo que se sente como o que resta depois de todos terem partido: os que tinham mais mobilidade, os que tinham mais abertura - e particularmente as mulheres, em muitos casos".
Diz o Spiegel que é também um caso de boa literatura: o leitor entra na pele destes jovens com histórias familiares complicadas e com amigos de extrema direita, que receberam dos pais e dos avós as dores da perda e da decepção decorrentes do processo de reunificação alemã, e as tornaram suas.
Chama-se "Mit der Faust in die Welt schlagen".
"Aos murros ao mundo", diria eu: as escolas incendiadas para não deixar que lá se alojem refugiados, a loucura da caça ao estrangeiro que há semanas deflagrou em Chemnitz. Um mal-estar que se traduz em murros furiosos contra o mundo e os mais frágeis.
(Caso haja por aí algum editor atento: de nada, de nada, foi um prazer. :) )
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da imprensa alemã
27 setembro 2018
o programa segue dentro de momentos
A quem interessar possa: depois de um mês em Portugal, já estou de novo em Berlim. O programa segue dentro de momentos.
A todos os que vinham no avião da TAP ontem, e especialmente à tripulação: peço desculpa!
Se querem saber tudo: entrei com calma, e já tinha até passado a segurança, quando o funcionário junto ao écran dos voos me explicou que ainda não sabiam qual era a porta de embarque para o meu avião, e que esta só seria anunciada às 18:05. É certo que 18:05 era a hora de saída desse avião, mas estou tão habituada a essa cena em Schönefeld que me pareceu bastante plausível. Fui fazer horas para a zona das refeições, até que às tantas pensei "deixa cá ver se por acaso já sabem qual é a porta de embarque...", espreitei um écran e vi que a porta já estava encerrada.
Sim, aquela desaustinada que atravessou o aeroporto a correr com um cão e vários sacos era eu.
Quero ainda agradecer ao pessoal da TAP - simpáticos, calmos e eficientes. E com fardas lindas de morrer.
26 agosto 2018
incêndios perto de Berlim
Na quinta-feira passada deflagrou um incêndio numa área florestal de Brandeburgo. Primeiro 3 hectares, depois 30, depois - por causa do vento forte - 300.
O maior problema que se coloca ao combate a estes incêndios nas florestas alemãs são os restos de material explosivo que lá existem desde a segunda guerra mundial. Os bombeiros deram notícia de várias explosões.
Duas aldeias foram evacuadas. Com tanques do exército abriram caminhos por entre as árvores ardidas para os bombeiros poderem fazer o trabalho de rescaldo. A esta hora o fogo parece estar inteiramente dominado.
A população de alguns bairros de Berlim foi avisada para manter as janelas fechadas, por causa do fumo. Também se falou na possibilidade de haver chuva de cinza.
Os meios de comunicação social informam que até agora não se encontraram indícios de ter sido fogo posto.
Este incêndio teve ontem honras de meio minuto no noticiário nacional da noite (que dura 15 minutos). Aqui podem ver a reportagem no noticiário nacional às 9 da manhã de sábado, e aqui às oito da noite, quando já estava quase dominado.
Um jornal berlinense, o Tagesspiegel, contou o seguinte sobre a evacuação da população:
"Nem na guerra vi alguma vez uma coisa destas!", comentou Anita Biedermann, de 76 anos, quando abandonou a sua casa em Frohnsdorf com um pequeno saco na mão. Medicamentos, documentos de identificação e um casaco deve ser o suficiente, acrescentou. Não tinha medo. "Estão aqui tantos homens fantásticos", e apontava para os bombeiros e os assistentes dos Serviços Técnicos. Ia passar a noite no centro camarário de Treuenbrietzen. Ao anoitecer, as pessoas que se encontravam nesse local sujeitavam-se a uma dura espera. No ginásio havia colchões, mas ninguém queria dormir. Apenas 21 dos evacuados foram ali alojados. Todos os outros encontraram abrigo na casa de conhecidos seus.
Inúmeros cidadãos contactaram a Câmara para oferecer a quem precisasse alojamento nas suas casas. Também Anita Biedermann recebeu uma oferta dessas, mas recusou: "nós não vamos dormir, vamos fazer uma festarola", brincou ela, e ergueu o seu copo de água mineral para brindar com os vizinhos.
Estava com esperança de poder regressar a casa por volta das seis da manhã.
O artigo do jornal termina com a seguinte síntese:
Brandeburgo vive um dos mais terríveis anos de incêndios florestais. Até agora já houve mais de 400 incêndios. Desde o início do milénio que não se via nada disto. Este ano arderam 691 hectares - incluindo os 300 do incêndio mais recente. Em particular a monocultura dos pinhais é facilmente inflamável.
Se bem conheço os alemães, muito em breve darão início a um programa intenso de reflorestação para acabar com a monocultura, e não vai haver protestos. O que tem de ser tem muita força, dirão eles. A começar pela tal Anita Biedermann.
O maior problema que se coloca ao combate a estes incêndios nas florestas alemãs são os restos de material explosivo que lá existem desde a segunda guerra mundial. Os bombeiros deram notícia de várias explosões.
Duas aldeias foram evacuadas. Com tanques do exército abriram caminhos por entre as árvores ardidas para os bombeiros poderem fazer o trabalho de rescaldo. A esta hora o fogo parece estar inteiramente dominado.
A população de alguns bairros de Berlim foi avisada para manter as janelas fechadas, por causa do fumo. Também se falou na possibilidade de haver chuva de cinza.
Os meios de comunicação social informam que até agora não se encontraram indícios de ter sido fogo posto.
Este incêndio teve ontem honras de meio minuto no noticiário nacional da noite (que dura 15 minutos). Aqui podem ver a reportagem no noticiário nacional às 9 da manhã de sábado, e aqui às oito da noite, quando já estava quase dominado.
Um jornal berlinense, o Tagesspiegel, contou o seguinte sobre a evacuação da população:
"Nem na guerra vi alguma vez uma coisa destas!", comentou Anita Biedermann, de 76 anos, quando abandonou a sua casa em Frohnsdorf com um pequeno saco na mão. Medicamentos, documentos de identificação e um casaco deve ser o suficiente, acrescentou. Não tinha medo. "Estão aqui tantos homens fantásticos", e apontava para os bombeiros e os assistentes dos Serviços Técnicos. Ia passar a noite no centro camarário de Treuenbrietzen. Ao anoitecer, as pessoas que se encontravam nesse local sujeitavam-se a uma dura espera. No ginásio havia colchões, mas ninguém queria dormir. Apenas 21 dos evacuados foram ali alojados. Todos os outros encontraram abrigo na casa de conhecidos seus.
Inúmeros cidadãos contactaram a Câmara para oferecer a quem precisasse alojamento nas suas casas. Também Anita Biedermann recebeu uma oferta dessas, mas recusou: "nós não vamos dormir, vamos fazer uma festarola", brincou ela, e ergueu o seu copo de água mineral para brindar com os vizinhos.
Estava com esperança de poder regressar a casa por volta das seis da manhã.
O artigo do jornal termina com a seguinte síntese:
Brandeburgo vive um dos mais terríveis anos de incêndios florestais. Até agora já houve mais de 400 incêndios. Desde o início do milénio que não se via nada disto. Este ano arderam 691 hectares - incluindo os 300 do incêndio mais recente. Em particular a monocultura dos pinhais é facilmente inflamável.
Se bem conheço os alemães, muito em breve darão início a um programa intenso de reflorestação para acabar com a monocultura, e não vai haver protestos. O que tem de ser tem muita força, dirão eles. A começar pela tal Anita Biedermann.
23 agosto 2018
tomates (1)
De cada vez que vou ao quintal buscar o necessário para o jantar lembro-me daquele dia em que estava na nossa casa no Minho, e por me ter dado a preguiça de ir ao supermercado comprar alguma coisa para o almoço, fiz com o que a terra tinha para dar nesse dia: sopa de beldroegas, arroz de tomate e pimento, ovos estrelados.
A Christina, que teria uns oito anos, perguntou:
- Fizeste o nosso almoço sem ir comprar nada?
- Fiz.
Olhou para o prato, olhou para mim, e exclamou com os olhos enormes de surpresa:
- Mãe! Nós somos ricos!!!
Todos os dias ao fim da tarde, quando ponho na mesa um jantar feito quase só com produtos da hortinha, é nisso que penso: nós somos ricos!
Etiquetas:
viver no campo
17 agosto 2018
Boo!-bs!
O facebook atacou de novo: bloqueou a Helena Ferro de Gouveia por ter publicado esta foto numa homenagem à Madonna, que fez ontem 60 anos.
Hoje às 3 da tarde vamos publicar esta imagem no nosso mural do facebook, exigindo que o facebook desbloqueie imediatamente a Helena Ferro de Gouveia, e que repense a sua política ignorante e prepotente de bloqueios.
Because it's 2018.
ADENDA: o facebook está [grande surpresa] a bloquear a imagem. Se não puderem publicar essa, sugiro que publiquem a seguinte, que é um caso de duas Madonnas em um.
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viver na internet
16 agosto 2018
quando as palavras se tornam arma
Enquanto pesquisava para escrever o post anterior fiz um breve busca por "Verrohung", que é uma palavra cada vez mais repetida para criticar o tom dos debates na Alemanha. Significa "brutalização": a brutalização da sociedade, a brutalização do discurso no espaço público.
A brutalização.
Um dos artigos que encontrei, de Georg Diez, já tem dois anos, mas está cada vez mais actual. Foi escrito a seguir ao massacre de Orlando (e tantos massacres aconteceram já depois desse!). Ainda não se imaginava sequer que Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos, e os princípios democráticos mais básicos ainda eram o fundamento dos discursos na Casa Branca. A gente lê o que na altura se escrevia (os links são para textos em inglês), olha para o descalabro em que nos encontramos, e conclui lapalissadamente: estava escrito.
Quando as palavras se tornam arma
Quem usa um discurso de exclusão cria as condições para que as pessoas se entreguem ao ódio. Os assassínios em Orlando e Leeds são a consequência de uma retórica bélica.
O que acontece quando racistas chegam ao poder?
Morrem pessoas.
O que acontece quando os noticiários nos repetem todas as noites palavras de ódio, desconfiança e desprezo, como se isso fosse o mais normal que há no mundo?
Morrem pessoas.
O que acontece quando quotidianamente se derruba a fronteira da civilidade? Quando políticos apelam ao ódio? Quando as palavras se tornam arma?
Morrem pessoas.
Ou, como Barack Obama disse recentemente: "Where does this stop?"
Obama criticava Donald Trump, que se aproveitou do massacre de Orlando para propagar mais uma vez a sua agenda islamofóbica.
Para Trump, o facto de o assassino de Orlando ser americano não contava. Exigia na mesma, e de novo, "a complete and total shutdown" - o impedimento de muçulmanos entrarem no país.
Antes disso, Trump já ameaçara um juiz por ter um nome que soava mexicano, o que foi, para além de um desrespeito pela Constituição, a exibição de um "racismo como vem definido nos livros" (citando um dos seus colegas de partido).
Mas para onde nos leva tudo isto?
O que acontece quando as próprias pessoas que querem governar em Democracia não acreditam nos fundamentos e nos limites democráticos?
Aonde é que isto leva?
O que acontece quando alguém como Nigel Farage, líder do UKIP, usa a discussão sobre o Brexit para semear o ódio contra os refugiados sírios?
Aonde é que isto leva?
Leva-nos para Leeds, quando um homem com evidentes problemas mentais dispara contra uma política e grita "Britain first", mata essa pessoa e ao mesmo tempo ataca tudo o que a Democracia representa.
Começa a ser tempo de percebermos isto: as palavras têm consequências.
Isto é válido para o tresloucado que algures no Médio Oriente grita "morte aos infiéis!", é válido para o tresloucado que em Orlando assassina homossexuais numa pista de dança.
Isto é válido quando uma sociedade permite que o ódio contra as minorias seja aparentemente OK - e as pessoas que tomam partido por essas minorias, como Jo Cox, se tornam o alvo desse ódio.
O que aconteceu em Orlando foi um acto de terrorismo?
Foi.
O que aconteceu em Leeds foi um acto de terrorismo?
Foi.
É o que acontece quando as pessoas são sistematicamente encorajadas a dar rédea solta ao ódio que trazem no coração.
É o que acontece quando a envolvente política, social e cultural se transformou de tal maneira que o ódio parece ser uma atitude aceitável.
É o que acontece quando demasiadas pessoas permitem que os limites do aceitável no debate público sejam arredados para cada vez mais longe.
Aqui pode ver-se as consequências de longo prazo que resultam da dureza com que tem sido conduzido o debate sobre a questão dos refugiados.
É um veneno que se instala em muitas ramificações da sociedade e condiciona o pensamento e o discurso das pessoas, muito mais do que elas se dão conta.
Pelo que, para além do horror que nos provoca o assassínio de Jo Cox, temos também de tirar conclusões.
Quem usa um discurso do medo e da exclusão cria as condições para que as pessoas dêem livre curso ao seu ódio.
No caso dos refugiados que chegam à Europa, trata-se de um erro exemplar, porque era justamente aqui que a Política tinha a oportunidade de se reinterpretar de um modo diferente e inspirador.
"Não é possível que o fracasso da 'cultura de acolhimento' seja festejado como uma vitória", disse recentemente Hans Maier, o antigo ministro bávaro do Ensino e da Cultura, criticando o seu partido CSU.
Esta atitude destrói todas as conquistas "positivas e felizes", como Maier lhes chamou, substituindo-as pelo negativismo e pela manipulação direccionada.
É assim que os racistas governam. Como escreveu Mark Danner, "Trump é a personificação nacional de todos os nossos medos" - e o medo produz novos medos.
O medo precisa do medo - eis a descrição do que aconteceu em Leeds e também em Orlando.
O psicólogo Dan P. McAdams afirmou que Donald Trump alimenta uma "warrior narrative" - a narrativa bélica como lenda heróica cruelmente narcisista.
Mas onde há guerra, há vítimas.
E o contrário também é verdade: é necessário haver vítimas para que a guerra se instale.
A brutalização.
Um dos artigos que encontrei, de Georg Diez, já tem dois anos, mas está cada vez mais actual. Foi escrito a seguir ao massacre de Orlando (e tantos massacres aconteceram já depois desse!). Ainda não se imaginava sequer que Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos, e os princípios democráticos mais básicos ainda eram o fundamento dos discursos na Casa Branca. A gente lê o que na altura se escrevia (os links são para textos em inglês), olha para o descalabro em que nos encontramos, e conclui lapalissadamente: estava escrito.
Quando as palavras se tornam arma
Quem usa um discurso de exclusão cria as condições para que as pessoas se entreguem ao ódio. Os assassínios em Orlando e Leeds são a consequência de uma retórica bélica.
O que acontece quando racistas chegam ao poder?
Morrem pessoas.
O que acontece quando os noticiários nos repetem todas as noites palavras de ódio, desconfiança e desprezo, como se isso fosse o mais normal que há no mundo?
Morrem pessoas.
O que acontece quando quotidianamente se derruba a fronteira da civilidade? Quando políticos apelam ao ódio? Quando as palavras se tornam arma?
Morrem pessoas.
Ou, como Barack Obama disse recentemente: "Where does this stop?"
Obama criticava Donald Trump, que se aproveitou do massacre de Orlando para propagar mais uma vez a sua agenda islamofóbica.
Para Trump, o facto de o assassino de Orlando ser americano não contava. Exigia na mesma, e de novo, "a complete and total shutdown" - o impedimento de muçulmanos entrarem no país.
Antes disso, Trump já ameaçara um juiz por ter um nome que soava mexicano, o que foi, para além de um desrespeito pela Constituição, a exibição de um "racismo como vem definido nos livros" (citando um dos seus colegas de partido).
Mas para onde nos leva tudo isto?
O que acontece quando as próprias pessoas que querem governar em Democracia não acreditam nos fundamentos e nos limites democráticos?
Aonde é que isto leva?
O que acontece quando alguém como Nigel Farage, líder do UKIP, usa a discussão sobre o Brexit para semear o ódio contra os refugiados sírios?
Aonde é que isto leva?
Leva-nos para Leeds, quando um homem com evidentes problemas mentais dispara contra uma política e grita "Britain first", mata essa pessoa e ao mesmo tempo ataca tudo o que a Democracia representa.
Começa a ser tempo de percebermos isto: as palavras têm consequências.
Isto é válido para o tresloucado que algures no Médio Oriente grita "morte aos infiéis!", é válido para o tresloucado que em Orlando assassina homossexuais numa pista de dança.
Isto é válido quando uma sociedade permite que o ódio contra as minorias seja aparentemente OK - e as pessoas que tomam partido por essas minorias, como Jo Cox, se tornam o alvo desse ódio.
O que aconteceu em Orlando foi um acto de terrorismo?
Foi.
O que aconteceu em Leeds foi um acto de terrorismo?
Foi.
É o que acontece quando as pessoas são sistematicamente encorajadas a dar rédea solta ao ódio que trazem no coração.
É o que acontece quando a envolvente política, social e cultural se transformou de tal maneira que o ódio parece ser uma atitude aceitável.
É o que acontece quando demasiadas pessoas permitem que os limites do aceitável no debate público sejam arredados para cada vez mais longe.
Aqui pode ver-se as consequências de longo prazo que resultam da dureza com que tem sido conduzido o debate sobre a questão dos refugiados.
É um veneno que se instala em muitas ramificações da sociedade e condiciona o pensamento e o discurso das pessoas, muito mais do que elas se dão conta.
Pelo que, para além do horror que nos provoca o assassínio de Jo Cox, temos também de tirar conclusões.
Quem usa um discurso do medo e da exclusão cria as condições para que as pessoas dêem livre curso ao seu ódio.
No caso dos refugiados que chegam à Europa, trata-se de um erro exemplar, porque era justamente aqui que a Política tinha a oportunidade de se reinterpretar de um modo diferente e inspirador.
"Não é possível que o fracasso da 'cultura de acolhimento' seja festejado como uma vitória", disse recentemente Hans Maier, o antigo ministro bávaro do Ensino e da Cultura, criticando o seu partido CSU.
Esta atitude destrói todas as conquistas "positivas e felizes", como Maier lhes chamou, substituindo-as pelo negativismo e pela manipulação direccionada.
É assim que os racistas governam. Como escreveu Mark Danner, "Trump é a personificação nacional de todos os nossos medos" - e o medo produz novos medos.
O medo precisa do medo - eis a descrição do que aconteceu em Leeds e também em Orlando.
O psicólogo Dan P. McAdams afirmou que Donald Trump alimenta uma "warrior narrative" - a narrativa bélica como lenda heróica cruelmente narcisista.
Mas onde há guerra, há vítimas.
E o contrário também é verdade: é necessário haver vítimas para que a guerra se instale.
15 agosto 2018
é sempre bom lembrar (a propósito de a Web Summit ter convidado a Le Pen)
Pelo que li sobre a agitação do momento, o convite que a Web Summit fez à Le Pen para vir falar em Lisboa, os campos dividem-se entre os que dizem que a sua presença é inaceitável, e os que dizem que não se pode impedir ninguém de falar (a liberdade de expressão, a Democracia, o confronto, o poder da Razão, etc.).
Estou com o primeiro grupo, e diria mesmo mais umas coisinhas:
1. Das duas, cinco: ou os responsáveis da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do marketing da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do evento e os do marketing são oportunistas e cínicos calculistas. Ou então são todos demasiado ingénuos e sofrem todos de um nível assustador de ignorância política. Finalmente, também se pode dar o caso de simpatizarem com o fascismo. Em qualquer dos casos (seja oportunismo e cínico calculismo, seja ignorância, seja simpatia política) é bom que recebam a publicidade que estão a pedir. Esta assim:
2. Dizer que retirarão Le Pen da lista dos oradores se o governo português pedir é uma armadilha traiçoeira, passe o pleonasmo. Se me deixassem mandar, diria ao governo português para ficar quietinho, e pedia às pessoas de bem que tratassem do assunto. Por exemplo, partilhando aos milhares imagens como a que está aí em cima. Não é preciso discutir muito. Basta - ao abrigo da tal liberdade de expressão que eles tanto prezam - participarmos na construção de uma determinada imagem da Web Summit. Se não querem ter esta imagem, pois que façam por não a merecer.
3. Passo um diálogo que encontrei num mural de facebook. Como está fechado, copio apenas as ideias, sem revelar o nome dos autores (sublinhados meus):
- Tratá-la como se fosse um Mário Machado não ajuda. Ela está no “sistema”, ela vai a votos e pelos vistos 34% da população de um dos países mais cultos e sofisticados do mundo votam nela. Eu não tenho receio do debate com esta gente, acredito mesmo que é a melhor maneira de os expor.
- É a melhor maneira de lhes abrir caminhos. Diversos caminhos, por todo o lado. Li o teu post e fiquei mesmo incomodada com o que li. A obrigação dos democratas é defender as democracias, lembrar a história, prevenir que se repitam erros do passado recente. Foi há muito pouco tempo e parece que nos esquecemos tão depressa de tudo o que aconteceu. Dar palco não expõe nada, apenas legitima um discurso, apenas normaliza um modo de pensar que há poucas décadas o mundo percebeu que deveria combater. Agora já não há combate, há aceitação, normalização, vontade de "ouvir para compreender o fenómeno". O fenómeno é sobejamente compreendido é estudado. Estamos apenas a dar-lhe asas para voar. É dramático, é assustador.
- Concordo contigo. Os países onde estes movimentos estão a ter mais apoio são precisamente os países que mais sofreram com o fascismo, isso ainda me intriga mais. Onde divergimos é na estratégia de combate, não a ouvir, não a contradizer, perder a oportunidade de a confrontar com a história não me parece a melhor opção. Afirmo mesmo que ela tem muito mais a perder do que a ganhar em participar num evento destes numa cidade destas.
- Quando se convida um orador é porque, à partida, consideramos que ele possa ter coisas interessantes para dizer. Ora essa premissa parece não existir. Para além disso, o palco da websummit não será o palco do contraditório. Será o palco para por microfones de lapela e ouvir. Mas mesmo que fosse o palco do contraditório, há discursos que, por si só, não devem ter direito a contraditório, porque isso pressupõe que primeiro tenham palco e depois contraditório. Não há galinha sem ovo. Quanto à tua conclusão, discordo em absoluto. Ela não tem nada a perder, só tem a ganhar. Mesmo que leve com um protesto monumental em cima e todo o contraditório possível, só tem a ganhar.
3. É sempre bom lembrar:
4. Quanto aos que dizem que isto se resolve com debate, informação e educação, gostava de partilhar algumas perplexidades:
Educação: concordo que é fundamental apostar na Educação, mas esse investimento só começa a dar frutos décadas mais tarde, e nós debatemo-nos com o problema hoje. Além disso, tenho algumas dúvidas sobre os seus frutos. Penso na Alemanha, que foi um país pioneiro na escolarização - e foi o que se viu. E penso muitas vezes no caso de Weimar, a cidade de Goethe e de Schiller, a cidade onde houve o cuidado de dar ao povo algumas luzes artísticas e intelectuais, a cidade que apostou na educação e nas artes para fazer as pessoas aderir voluntariamente a valores humanistas e tolerantes. Quando o nazismo começou a alastrar, esta cidade e a sua região, a Turíngia, catapultaram-se voluntariamente para a linha da frente. Weimar adorava Hitler, e permitiu que Hitler violasse e instrumentalizasse o seu famoso espírito humanista.
Informação: num mundo onde alastram as teorias de conspiração, onde se inventam propositadamente notícias para servir determinadas estratégias e onde as pessoas só lêem aquilo que lhes agrada e só acreditam naquilo que confirma as suas convicções, num mundo em que há gente que vive de espalhar falsidades nas redes sociais e os jornais se fazem cada vez mais vítimas das leis do mercado, como é que alguém pode ainda imaginar que a informação pode ser a solução?
São, como disse, perplexidades. Havia muita gente informada e culta entre os apoiantes da primeira hora do partido nazi. Há muita gente informada e culta entre os apoiantes de Trump. E olhe-se para a Polónia, para a Hungria...
Penso que há ideias que se propagam facilmente porque apelam ao pior do que há em nós. Temos o dever de nos defender da sua carga maligna. Não lhes podemos dar palco, e não podemos aceitar que se transformem em algo normal, uma simples questão de opinião.
Não precisamos de reinventar a roda. Não devia ser preciso uma terceira guerra mundial para reaprender as lições que a primeira e a segunda guerra mundiais nos ensinaram de forma tão dolorosa.
5. Já aqui contei esta anedota, mas vale a pena lembrá-la a propósito do risco de perdermos referências básicas:
Diz o neonazi: "Morte a todos os judeus!"
Diz o contramanifestante: "Não!"
Diz o observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."
Estou com o primeiro grupo, e diria mesmo mais umas coisinhas:
1. Das duas, cinco: ou os responsáveis da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do marketing da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do evento e os do marketing são oportunistas e cínicos calculistas. Ou então são todos demasiado ingénuos e sofrem todos de um nível assustador de ignorância política. Finalmente, também se pode dar o caso de simpatizarem com o fascismo. Em qualquer dos casos (seja oportunismo e cínico calculismo, seja ignorância, seja simpatia política) é bom que recebam a publicidade que estão a pedir. Esta assim:
2. Dizer que retirarão Le Pen da lista dos oradores se o governo português pedir é uma armadilha traiçoeira, passe o pleonasmo. Se me deixassem mandar, diria ao governo português para ficar quietinho, e pedia às pessoas de bem que tratassem do assunto. Por exemplo, partilhando aos milhares imagens como a que está aí em cima. Não é preciso discutir muito. Basta - ao abrigo da tal liberdade de expressão que eles tanto prezam - participarmos na construção de uma determinada imagem da Web Summit. Se não querem ter esta imagem, pois que façam por não a merecer.
3. Passo um diálogo que encontrei num mural de facebook. Como está fechado, copio apenas as ideias, sem revelar o nome dos autores (sublinhados meus):
- Tratá-la como se fosse um Mário Machado não ajuda. Ela está no “sistema”, ela vai a votos e pelos vistos 34% da população de um dos países mais cultos e sofisticados do mundo votam nela. Eu não tenho receio do debate com esta gente, acredito mesmo que é a melhor maneira de os expor.
- É a melhor maneira de lhes abrir caminhos. Diversos caminhos, por todo o lado. Li o teu post e fiquei mesmo incomodada com o que li. A obrigação dos democratas é defender as democracias, lembrar a história, prevenir que se repitam erros do passado recente. Foi há muito pouco tempo e parece que nos esquecemos tão depressa de tudo o que aconteceu. Dar palco não expõe nada, apenas legitima um discurso, apenas normaliza um modo de pensar que há poucas décadas o mundo percebeu que deveria combater. Agora já não há combate, há aceitação, normalização, vontade de "ouvir para compreender o fenómeno". O fenómeno é sobejamente compreendido é estudado. Estamos apenas a dar-lhe asas para voar. É dramático, é assustador.
- Concordo contigo. Os países onde estes movimentos estão a ter mais apoio são precisamente os países que mais sofreram com o fascismo, isso ainda me intriga mais. Onde divergimos é na estratégia de combate, não a ouvir, não a contradizer, perder a oportunidade de a confrontar com a história não me parece a melhor opção. Afirmo mesmo que ela tem muito mais a perder do que a ganhar em participar num evento destes numa cidade destas.
- Quando se convida um orador é porque, à partida, consideramos que ele possa ter coisas interessantes para dizer. Ora essa premissa parece não existir. Para além disso, o palco da websummit não será o palco do contraditório. Será o palco para por microfones de lapela e ouvir. Mas mesmo que fosse o palco do contraditório, há discursos que, por si só, não devem ter direito a contraditório, porque isso pressupõe que primeiro tenham palco e depois contraditório. Não há galinha sem ovo. Quanto à tua conclusão, discordo em absoluto. Ela não tem nada a perder, só tem a ganhar. Mesmo que leve com um protesto monumental em cima e todo o contraditório possível, só tem a ganhar.
3. É sempre bom lembrar:
4. Quanto aos que dizem que isto se resolve com debate, informação e educação, gostava de partilhar algumas perplexidades:
Educação: concordo que é fundamental apostar na Educação, mas esse investimento só começa a dar frutos décadas mais tarde, e nós debatemo-nos com o problema hoje. Além disso, tenho algumas dúvidas sobre os seus frutos. Penso na Alemanha, que foi um país pioneiro na escolarização - e foi o que se viu. E penso muitas vezes no caso de Weimar, a cidade de Goethe e de Schiller, a cidade onde houve o cuidado de dar ao povo algumas luzes artísticas e intelectuais, a cidade que apostou na educação e nas artes para fazer as pessoas aderir voluntariamente a valores humanistas e tolerantes. Quando o nazismo começou a alastrar, esta cidade e a sua região, a Turíngia, catapultaram-se voluntariamente para a linha da frente. Weimar adorava Hitler, e permitiu que Hitler violasse e instrumentalizasse o seu famoso espírito humanista.
Informação: num mundo onde alastram as teorias de conspiração, onde se inventam propositadamente notícias para servir determinadas estratégias e onde as pessoas só lêem aquilo que lhes agrada e só acreditam naquilo que confirma as suas convicções, num mundo em que há gente que vive de espalhar falsidades nas redes sociais e os jornais se fazem cada vez mais vítimas das leis do mercado, como é que alguém pode ainda imaginar que a informação pode ser a solução?
São, como disse, perplexidades. Havia muita gente informada e culta entre os apoiantes da primeira hora do partido nazi. Há muita gente informada e culta entre os apoiantes de Trump. E olhe-se para a Polónia, para a Hungria...
Penso que há ideias que se propagam facilmente porque apelam ao pior do que há em nós. Temos o dever de nos defender da sua carga maligna. Não lhes podemos dar palco, e não podemos aceitar que se transformem em algo normal, uma simples questão de opinião.
Não precisamos de reinventar a roda. Não devia ser preciso uma terceira guerra mundial para reaprender as lições que a primeira e a segunda guerra mundiais nos ensinaram de forma tão dolorosa.
5. Já aqui contei esta anedota, mas vale a pena lembrá-la a propósito do risco de perdermos referências básicas:
Diz o neonazi: "Morte a todos os judeus!"
Diz o contramanifestante: "Não!"
Diz o observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."
09 agosto 2018
é oficial: a terra é redonda!
Está na internet, portanto só pode ser verdade: a terra é redonda.
Pelo menos é assim que o google maps a mostra agora, e até nos permite virar o globo em todas as direcções. Esta minha alma portuguesa andou a passear por aquele mundo novo e em meia dúzia de minutos fez vários descobrimentos. Por exemplo: a Gronelândia não é uma região descomunal, praticamente tão grande como metade de África (como mostra o mapa da primeira imagem). É grande, mas não maior que a Argélia. E bem mais pequena que o Canadá.
E descobri que a Europa, vire por onde virar, é minúscula.
(Por sorte estamos cá nós para a fazermos grande.) (Um bocadinho de wishful thinking por dia, não sabe o bem que lhe fazia...)
Claro que não é a primeira vez que vejo um globo. Aliás: na casa dos meus pais havia um globo luminoso por onde fiz longas viagens e descpbertas. Mas a permanente exposição a mapas planos com a Europa no centro cria e reforça subtilmente a ideia de uma determinada ordem e dimensão. Temos informação sobre a realidade, mas deixamo-nos enganar por esta representação omnipresente. Pelo que gostei muito deste novo mapa do google, que tão facilmente se deixa girar, e troca os lugares do centro e da periferia como se fossem iguais. Um pequeno contributo para que nas nossas cabeças se comece a desinstalar a ideia de centro e periferia, e comecemos a pensar em termos de igualdade e de responsabilidade por esta redonda casa de todos.
08 agosto 2018
concurso de Verão - adivinhem em que país são estas Finanças
Para não serem só os jornais a passar estes concursos parvos de Verão vou contar aqui umas historiazinhas verídicas e vocês tentam adivinhar em que país (Portugal ou Alemanha) isto se passou.
1. Uma contribuinte preenche a declaração trimestral online de impostos, paga o imposto devido, e envia como de costume a mensagem com a declaração dos impostos. Infelizmente envia a mensagem com a declaração em branco (não tentem fazer isto em casa). Passadas algumas semanas recebe uma carta dizendo que tem de pagar uma multa de 10 euros por não ter entregado a declaração de impostos. A contribuinte protesta, entrega a declaração correcta e diz que já tinha pago dentro do prazo, pelo que não é devida multa. A resposta: "Não basta pagar, também tem de entregar a declaração dentro do prazo. Mas como é uma contribuinte cumpridora e que nunca dá problemas, vamos anular essa multa."
2. Uma contribuinte tem uma perguntinha sobre se deve pagar um imposto ou não, e escreve um email às Finanças às 11:44. Às 12:37 recebe uma mensagem com a resposta à sua pergunta.
3. Uma contribuinte não percebe nada do que anda a fazer, de modo que paga um montante excessivo de IMI. Passados uns tempos recebe uma carta em papel a informar que pagou a mais, e que esse montante vai ser descontado da próxima prestação. Mas como a pateta da contribuinte tem uma transferência automática para esse imposto, e não a mudou, a cada novo pagamento recebe a mesma carta. Até que um dia telefona para o número que vem na carta, atendem-lhe logo o telefone, e o pobre do funcionário explica com toda a paciência o que deve ser feito para ele deixar de enviar cartinhas.
4. Uma contribuinte paga o IMI. Passadas umas semanas recebe uma carta das Finanças, dizendo que tem de pagar uma multa de 23 euros por não ter pago o IMI. Dirige-se às Finanças mais próximas com o comprovativo do pagamento, onde lhe dizem que o assunto só pode ser tratado numa determinada morada (única para todo o país). Dirige-se a essa morada, prova que fez o pagamento, e que o motivo para o problema foi o erro num dos dígitos da referência para pagamento, mas que acrescentou o seu nome completo, pelo que seria fácil os serviços perceberem de que se tratava. Respondem-lhe que não podem fazer nada. O melhor é pagar o IMI e a multa, e protestar depois. Protesta, porque não quer pagar o IMI duas vezes. Dizem-lhe que não há nada a fazer porque "esse pagamento está perdido no sistema", e que o melhor é pagar imediatamente, caso contrário vai receber uma multa ainda maior. Paga, e a funcionária tenta dar-lhe uma luzinha ao fundo do túnel: "pode ser que um dia destes eles descubram que têm ali uma soma que não deviam, e devolvem para a sua conta bancária". Até hoje.
5. Uma contribuinte paga o imposto do cão todos os meses, quando devia pagar apenas trimestralmente. As Finanças devolvem o montante excessivo automaticamente para a conta bancária da contribuinte.
6. Uma contribuinte passa um recibo com IVA, e apercebe-se depois que não devia ter pago o IVA. Telefona às Finanças. A funcionária diz que isso é um problema, porque já está registada como contribuinte com IVA no sistema informático, e a funcionária não tem como alterar isso. Mas acrescenta que vai falar com o gestor do sistema informático, para tentar corrigir o erro. Passado pouco tempo telefona a informar que o problema está resolvido.
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Caso seja demasiado difícil, dou uma pequena ajuda: o modo como sou tratada pelas Finanças é um motivo muito forte para continuar a viver na Alemanha, e para ter medo (a sério: medo) de me mudar para Portugal.
1. Uma contribuinte preenche a declaração trimestral online de impostos, paga o imposto devido, e envia como de costume a mensagem com a declaração dos impostos. Infelizmente envia a mensagem com a declaração em branco (não tentem fazer isto em casa). Passadas algumas semanas recebe uma carta dizendo que tem de pagar uma multa de 10 euros por não ter entregado a declaração de impostos. A contribuinte protesta, entrega a declaração correcta e diz que já tinha pago dentro do prazo, pelo que não é devida multa. A resposta: "Não basta pagar, também tem de entregar a declaração dentro do prazo. Mas como é uma contribuinte cumpridora e que nunca dá problemas, vamos anular essa multa."
2. Uma contribuinte tem uma perguntinha sobre se deve pagar um imposto ou não, e escreve um email às Finanças às 11:44. Às 12:37 recebe uma mensagem com a resposta à sua pergunta.
3. Uma contribuinte não percebe nada do que anda a fazer, de modo que paga um montante excessivo de IMI. Passados uns tempos recebe uma carta em papel a informar que pagou a mais, e que esse montante vai ser descontado da próxima prestação. Mas como a pateta da contribuinte tem uma transferência automática para esse imposto, e não a mudou, a cada novo pagamento recebe a mesma carta. Até que um dia telefona para o número que vem na carta, atendem-lhe logo o telefone, e o pobre do funcionário explica com toda a paciência o que deve ser feito para ele deixar de enviar cartinhas.
4. Uma contribuinte paga o IMI. Passadas umas semanas recebe uma carta das Finanças, dizendo que tem de pagar uma multa de 23 euros por não ter pago o IMI. Dirige-se às Finanças mais próximas com o comprovativo do pagamento, onde lhe dizem que o assunto só pode ser tratado numa determinada morada (única para todo o país). Dirige-se a essa morada, prova que fez o pagamento, e que o motivo para o problema foi o erro num dos dígitos da referência para pagamento, mas que acrescentou o seu nome completo, pelo que seria fácil os serviços perceberem de que se tratava. Respondem-lhe que não podem fazer nada. O melhor é pagar o IMI e a multa, e protestar depois. Protesta, porque não quer pagar o IMI duas vezes. Dizem-lhe que não há nada a fazer porque "esse pagamento está perdido no sistema", e que o melhor é pagar imediatamente, caso contrário vai receber uma multa ainda maior. Paga, e a funcionária tenta dar-lhe uma luzinha ao fundo do túnel: "pode ser que um dia destes eles descubram que têm ali uma soma que não deviam, e devolvem para a sua conta bancária". Até hoje.
5. Uma contribuinte paga o imposto do cão todos os meses, quando devia pagar apenas trimestralmente. As Finanças devolvem o montante excessivo automaticamente para a conta bancária da contribuinte.
6. Uma contribuinte passa um recibo com IVA, e apercebe-se depois que não devia ter pago o IVA. Telefona às Finanças. A funcionária diz que isso é um problema, porque já está registada como contribuinte com IVA no sistema informático, e a funcionária não tem como alterar isso. Mas acrescenta que vai falar com o gestor do sistema informático, para tentar corrigir o erro. Passado pouco tempo telefona a informar que o problema está resolvido.
--
Caso seja demasiado difícil, dou uma pequena ajuda: o modo como sou tratada pelas Finanças é um motivo muito forte para continuar a viver na Alemanha, e para ter medo (a sério: medo) de me mudar para Portugal.
07 agosto 2018
fossem todos os hóspedes airbnb assim!
Esta semana calhou-nos em sorte uma família italiana amorosa. Pai, mamma, dois filhos, assim:
Primeiro dia: entraram-nos em casa com um salame da terra deles (e muitos sorrisos, e: "não ponham no frigorífico!"). Dei-lhes uma garrafa de Casa das Buganvílias fresquinho para o jantar. O salame, não sei que é que tinha, mal o abri começou a mingar de uma forma espantosa. Nunca vi nada disto. Talvez seja por causa do calor (o vinho verde também se lhes evaporou depressa).
Segundo dia: respeitosamente, perguntaram se podiam convidar um amigo para jantar. Claro que sim. Ao fim da tarde precisámos de ajuda para mudar uma mesa de lugar, e eles - que já estavam preparados para começar a jantar no terraço, com o Fox instalado no que entretanto se tornou o seu lugar cativo debaixo da mesa - vieram: o pai, o filho e o amigo. Ofereci-lhes um prato de pêssegos que a mãe de uma vizinha me tinha dado do seu jardim ("vocês são boas pessoas, merecem!", disse ela ao passar-me para as mãos uma caixa cheia de pêssegos, maçãs e peras) (sim, reconheço que vivo numa realidade paralela e que nada disto é normal).
Terceiro dia: a Christina foi conversar com eles, e disseram-lhe que tinha sotaque romano, o que a deixou muito contente. Depois contaram-lhe que tinham ido ao lago dar um mergulho, mas não sabiam que havia lá gente nua, e voltaram para trás. (Ooooops! Esqueci-me de os avisar!)
Quarto dia: a mamma viu-me a passar com tomates e menta da horta e disse-me para voltar daí a 15 minutos. Era para me dar meio empadão de legumes, que estava a sair do forno para o almoço deles. Foi também o nosso almoço. Acrescentei ao deles (e ao nosso) tomates cereja de várias cores que tinha já maduros, prontos a colher.
Quinto dia: fez uns bolinhos de nutella, deu-nos alguns para provar.
Sexto dia: ao pequeno-almoço o Joachim comentou que estes podiam ficar para sempre aqui. Mas não - daí a uma hora já se estavam a despedir. O Fox ficou nas escadas a vê-los chegar à rua e entrar no carro, e quando os perdeu de vista deu meia volta, entrou em casa, e deitou-se na cama dele - que é o que faz quando está realmente triste.
Eu fui preparar os quartos para a família seguinte, pensando que ia ter muito trabalho porque quem cozinha todos os dias primo & secondo & dolce suja bastante mais do que quem nem sequer toma o pequeno-almoço em casa. Mas não: estava tudo impecavelmente arrumado e limpo!
A ideia inicial do airbnb era esta: partilhar a habitação e a vida. E às vezes, como na semana que acabou ontem, é uma óptima ideia.
05 agosto 2018
lei do menor esforço
Estou aqui indecisa entre ir passear com o Fox na floresta ou fazer esta bomba de chocolate.
A lei do menor esforço dir-me-ia agora que ir passear na floresta é o mais adequado, porque não dá trabalho nenhum nem agora a fazer nem depois, quando se tratar de derreter as calorias que acumulei por causa da escolha que fiz.
Mas se havia algo em que os meus pais insistiram na educação que me deram foi a recusa da lei do menor esforço. De modo que vou ter de fazer o bolo: o caminho para o êxito exige espírito de sacrifício.
A receita está aqui, e diz que é para fazer em dois dias (a base e o bolo de queijo num dia, a mousse e a ganache no dia seguinte):
Layer 1: Oreo Cookie Crust
30-32 Oreo cookies (or chocolate sandwich cookies) for a high crust
4 Tbsp unsalted butter (1/2 stick), melted
1-2 tsp espresso powder (optional)
Crush cookies in a food processor or in a ziploc bag with a
rolling pin or mallet. In a bowl or food processor, pour melted butter
on top of the crushed cookies and add the espresso powder (optional),
and mix or pulse well. Place the oreo mixture at the bottom of a
springform pan. Smooth out the mixture with the bottom of a measuring
cup or glass. Wrap the bottom of the pan in a double layer of aluminum
foil. Place the crust in the freezer while you make the cheesecake.4 Tbsp unsalted butter (1/2 stick), melted
1-2 tsp espresso powder (optional)
Layer 2: Tall & Creamy Cheesecake
For the cheesecake:
é só fazer as contas...
(fonte)
Tenho andado a pensar numa questão que levantaram a propósito do
caso Ricardo Robles ("então a Segurança Social anda a vender
património ao desbarato?"), e tentei fazer as contas. Se houvesse por aí algum economista que desse uma mãozinha...
Antes de mais, pergunta-se:
Antes de mais, pergunta-se:
- Deve a Segurança Social ser um agente de especulação imobiliária e gentrificação? Deve usar o património do Estado para criar ou permitir criar apartamentos de luxo nos bairros populares do centro? Sobre isso, não tenho certezas. Mas sei uma coisa: o Estado não pode vender o seu património ao desbarato, deixando que outros se aproveitem das mais-valias. Pelo que, antes de vender, tem de definir para que uso vende o prédio. Se ficar vinculado por várias décadas à função de habitação para famílias sem recursos deve ter um preço, se ficar livre para o melhor uso que o mercado lhe quiser atribuir deve ter um preço bem superior.
E tenho a certeza que o La Palisse não diria melhor que isto.
- Quanto é que a venda daquele prédio podia ter rendido à Segurança Social? Porque é que não fez ela as obras e o pôs no mercado para arrendamento ou venda, seja a preços sociais por ser esse o seu principal objectivo, seja a preços de uso para alojamento local, para conseguir o máximo valor possível para os cofres do Estado?
Tentando fazer as contas:
Os factos: o prédio estava num estado deplorável, e condicionado por cinco contratos de arrendamento, embora três desses cinco inquilinos não usassem os espaços devido ao grau de degradação do edifício. Só um dos apartamentos arrendados estava habitado, e uma das lojas era usada como restaurante. Área total do prédio: 728 m²; área útil somada dos apartamentos: 355 m²; as três lojas na rua têm as seguintes áreas: 123 m², 54 m², 38 m².
1. Arrendamento a preços sociais:
Segundo as condições do programa "renda acessível" da Câmara Municipal de Lisboa, o prédio tinha capacidade para oito apartamentos T1 com 45 m² e rendas de 200 euros, perfazendo 19.200 euros por ano. Quanto às lojas: dado que é importante manter no bairro os antigos exploradores, e sabendo que Ricardo Robles propôs ao arrendatário da loja maior uma renda de 400 (que este não aceitou), admito que, com muita sorte, a Segurança Social pudesse receber das três lojas 12.000 euros por ano. Juntando os 19.200 dos apartamentos, teria um rendimento anual de 31.200 euros. Partindo da ilusão de que a Segurança Social tinha os 650.000 euros em caixa e não precisava de pagar juros de crédito, e tinha meios para fazer as negociações com os inquilinos, o acompanhamento das obras e a gestão do imóvel, ao fim de vinte anos recuperava o custo investido (e acabei de me desgraçar: nem contei a inflação nem o ganho da aplicação alternativa daqueles 650.000 euros) - mesmo a tempo de fazer novas obras de reforma...
Por sorte estamos a falar da Segurança Social, que existe para responder às necessidades das pessoas com mais dificuldades.
Mas - e isto seria tema para outro post - não se pode contar com privados para investir nestas condições. Suspeito que, mesmo sem qualquer lucro, as rendas de habitação deste prédio teriam de ser muito mais altas. As contas que faço em cima do joelho são estas: um empréstimo de 800 mil euros custaria 4.000 euros por mês; só para cobrir o custo do empréstimo, as três lojas juntas tinham de render 1.000 euros e cada um dos oito apartamentos de 45 m² 375 euros por mês.
2. Venda ou arrendamento pelo melhor preço possível.
O melhor preço possível seria o resultante de conseguir vender o prédio à Madonna, ou de o usar para alojamento local. Se pusessem os 11 apartamentos em alojamento local, a um valor médio de 100 euros por dia, e com uma taxa de ocupação de 300 dias por ano (tudo isto são valores extremamente optimistas - diria mesmo: irrealistas), mais os 12.000 anuais resultantes do arrendamento das lojas, teriam um rendimento anual de 342.000 euros. Deduzindo os custos ligados ao alojamento (taxa de 30% para a empresa que gere os apartamentos, despesas de água, electricidade, etc., reparações, reposição de material desgastado, o IMI e o imposto sobre os rendimentos no escalão mais alto), provavelmente não restariam mais do que 100.000 euros de lucro anual líquido.
Chegamos assim à base de cálculo para o valor de venda a um privado: qual deve ser o preço de um edifício que rende 100.000 euros anuais?
O que se diz na Alemanha é que só vale a pena comprar um edifício para rendimento se o seu custo for equivalente a 20 vezes a renda anual (ultimamente, devido à especulação, 30 vezes). Ou seja: o preço de mercado do prédio, se fosse usado para alojamento local, devia andar entre os 2 e os 3 milhões, segundo os cálculos para aquele cenário extremamente optimista.
[Nota à margem do tema: mesmo no mais optimista dos cenários, o lucro de Ricardo Robles não chegaria a meio milhão de euros, depois de descontado o imposto sobre a mais-valia. Ora, isso é muito diferente dos 5,7 milhões que andam nas parangonas dos jornais. A certos jornais, pelos vistos, não basta o epíteto "esquerda caviar" - precisam de torcer os títulos até chegar à categoria "esquerda caviar de fêmeas albinas de esturjão iraniano" ]
E assim chegamos a uma questão curiosa: quem no seu perfeito juízo pagaria 5,7 milhões de euros para ter um retorno de 100.000 euros por ano? Pelos vistos os investidores ainda estão no seu perfeito juízo, porque o edifício esteve à venda durante seis meses e ninguém o comprou.
Pergunto-me se aquela loucura de preço não é uma estratégia do agente avaliador para aquecer o mercado. Quer dizer: perante anúncios desses, os investidores vão pensar que o outro prédio que a mesma empresa tem à venda por "apenas" três milhões é uma pechincha, e compram sem discutir muito. Ou então, alguém terá resolvido montar uma armadilha a um vereador do Bloco, e ele caiu como um patinho. Mas isto sou eu, que hoje acordei virada para teorias da conspiração.
---
ADENDA (6.8.2018): Explicaram-me no facebook que "o raciocínio está incorrecto porque num mercado especulativo a rentabilidade por via do arrendamento é apenas uma pequena parte da fotografia. Pode ter algum peso na decisão de investimento, mas não muito. Os especuladores em geral jogam no curto prazo e se acreditarem que existe uma bolha, se comprarem, digamos, por 4 milhoes e venderem 6 meses depois por 4,5, têm um lucro anualizado de mais de 20%. Isto para não falar do facto de que lisboa neste momento é uma lavandaria para mafiosos e muitos investidores são russos, chineses e brasileiros com capitais de proveniência duvidosa. quem quer branquear umas massas não se importa de perder uns cobres..."
Moral da história: fiz figura de "pensa muito e vê pouco", que vergonha, vou já arranjar um buraco onde me esconder (triste vida).
Das contas que faço, sobra apenas esta constatação: não se pode contar com os privados para garantir habitação a preço acessível. Mesmo sem o efeito especulação, os custos de (boa) construção são incompatíveis com rendas baixas. E sobra esta pergunta: a quem é que a Segurança Social devia ter vendido, e por que preço? ---
E tenho a certeza que o La Palisse não diria melhor que isto.
- Quanto é que a venda daquele prédio podia ter rendido à Segurança Social? Porque é que não fez ela as obras e o pôs no mercado para arrendamento ou venda, seja a preços sociais por ser esse o seu principal objectivo, seja a preços de uso para alojamento local, para conseguir o máximo valor possível para os cofres do Estado?
Tentando fazer as contas:
Os factos: o prédio estava num estado deplorável, e condicionado por cinco contratos de arrendamento, embora três desses cinco inquilinos não usassem os espaços devido ao grau de degradação do edifício. Só um dos apartamentos arrendados estava habitado, e uma das lojas era usada como restaurante. Área total do prédio: 728 m²; área útil somada dos apartamentos: 355 m²; as três lojas na rua têm as seguintes áreas: 123 m², 54 m², 38 m².
1. Arrendamento a preços sociais:
Segundo as condições do programa "renda acessível" da Câmara Municipal de Lisboa, o prédio tinha capacidade para oito apartamentos T1 com 45 m² e rendas de 200 euros, perfazendo 19.200 euros por ano. Quanto às lojas: dado que é importante manter no bairro os antigos exploradores, e sabendo que Ricardo Robles propôs ao arrendatário da loja maior uma renda de 400 (que este não aceitou), admito que, com muita sorte, a Segurança Social pudesse receber das três lojas 12.000 euros por ano. Juntando os 19.200 dos apartamentos, teria um rendimento anual de 31.200 euros. Partindo da ilusão de que a Segurança Social tinha os 650.000 euros em caixa e não precisava de pagar juros de crédito, e tinha meios para fazer as negociações com os inquilinos, o acompanhamento das obras e a gestão do imóvel, ao fim de vinte anos recuperava o custo investido (e acabei de me desgraçar: nem contei a inflação nem o ganho da aplicação alternativa daqueles 650.000 euros) - mesmo a tempo de fazer novas obras de reforma...
Por sorte estamos a falar da Segurança Social, que existe para responder às necessidades das pessoas com mais dificuldades.
Mas - e isto seria tema para outro post - não se pode contar com privados para investir nestas condições. Suspeito que, mesmo sem qualquer lucro, as rendas de habitação deste prédio teriam de ser muito mais altas. As contas que faço em cima do joelho são estas: um empréstimo de 800 mil euros custaria 4.000 euros por mês; só para cobrir o custo do empréstimo, as três lojas juntas tinham de render 1.000 euros e cada um dos oito apartamentos de 45 m² 375 euros por mês.
2. Venda ou arrendamento pelo melhor preço possível.
O melhor preço possível seria o resultante de conseguir vender o prédio à Madonna, ou de o usar para alojamento local. Se pusessem os 11 apartamentos em alojamento local, a um valor médio de 100 euros por dia, e com uma taxa de ocupação de 300 dias por ano (tudo isto são valores extremamente optimistas - diria mesmo: irrealistas), mais os 12.000 anuais resultantes do arrendamento das lojas, teriam um rendimento anual de 342.000 euros. Deduzindo os custos ligados ao alojamento (taxa de 30% para a empresa que gere os apartamentos, despesas de água, electricidade, etc., reparações, reposição de material desgastado, o IMI e o imposto sobre os rendimentos no escalão mais alto), provavelmente não restariam mais do que 100.000 euros de lucro anual líquido.
Chegamos assim à base de cálculo para o valor de venda a um privado: qual deve ser o preço de um edifício que rende 100.000 euros anuais?
O que se diz na Alemanha é que só vale a pena comprar um edifício para rendimento se o seu custo for equivalente a 20 vezes a renda anual (ultimamente, devido à especulação, 30 vezes). Ou seja: o preço de mercado do prédio, se fosse usado para alojamento local, devia andar entre os 2 e os 3 milhões, segundo os cálculos para aquele cenário extremamente optimista.
[Nota à margem do tema: mesmo no mais optimista dos cenários, o lucro de Ricardo Robles não chegaria a meio milhão de euros, depois de descontado o imposto sobre a mais-valia. Ora, isso é muito diferente dos 5,7 milhões que andam nas parangonas dos jornais. A certos jornais, pelos vistos, não basta o epíteto "esquerda caviar" - precisam de torcer os títulos até chegar à categoria "esquerda caviar de fêmeas albinas de esturjão iraniano" ]
E assim chegamos a uma questão curiosa: quem no seu perfeito juízo pagaria 5,7 milhões de euros para ter um retorno de 100.000 euros por ano? Pelos vistos os investidores ainda estão no seu perfeito juízo, porque o edifício esteve à venda durante seis meses e ninguém o comprou.
Pergunto-me se aquela loucura de preço não é uma estratégia do agente avaliador para aquecer o mercado. Quer dizer: perante anúncios desses, os investidores vão pensar que o outro prédio que a mesma empresa tem à venda por "apenas" três milhões é uma pechincha, e compram sem discutir muito. Ou então, alguém terá resolvido montar uma armadilha a um vereador do Bloco, e ele caiu como um patinho. Mas isto sou eu, que hoje acordei virada para teorias da conspiração.
---
ADENDA (6.8.2018): Explicaram-me no facebook que "o raciocínio está incorrecto porque num mercado especulativo a rentabilidade por via do arrendamento é apenas uma pequena parte da fotografia. Pode ter algum peso na decisão de investimento, mas não muito. Os especuladores em geral jogam no curto prazo e se acreditarem que existe uma bolha, se comprarem, digamos, por 4 milhoes e venderem 6 meses depois por 4,5, têm um lucro anualizado de mais de 20%. Isto para não falar do facto de que lisboa neste momento é uma lavandaria para mafiosos e muitos investidores são russos, chineses e brasileiros com capitais de proveniência duvidosa. quem quer branquear umas massas não se importa de perder uns cobres..."
Moral da história: fiz figura de "pensa muito e vê pouco", que vergonha, vou já arranjar um buraco onde me esconder (triste vida).
Das contas que faço, sobra apenas esta constatação: não se pode contar com os privados para garantir habitação a preço acessível. Mesmo sem o efeito especulação, os custos de (boa) construção são incompatíveis com rendas baixas. E sobra esta pergunta: a quem é que a Segurança Social devia ter vendido, e por que preço? ---
post que começa com uma dúvida ética e evolui para uma oportunidade de negócio
A dúvida ética do dia: quem é contra o alojamento local, o esvaziamento dos bairros históricos, a redução da cidade às suas fachadas, devia evitar os apartamentos airbnb?
É que estava aqui a fazer uma pesquisa e umas continhas para o post que se segue, e inadvertidamente abri esta página. Agarrem-me, que... ;)
Entrem neste apartamento: https://it.airbnb.ch/rooms/12478934 - e digam-me se não é uma tentação.
O que me fascina mais é o bom gosto do arquitecto, a criatividade, o cuidado nos detalhes, a capacidade de transformar um sótão (ou menos ainda) num apartamento lindíssimo. Se tivesse tempo, estava bem capaz de andar a passear no airbnb de Portugal para fazer um livro de arquitectura portuguesa para alojamento local.
(Ainda agora começou a manhã de domingo, e já descobri mais um nicho de mercado...)
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novos nichos de mercado
o belo horrível
Tinha onze anos quando o petroleiro dinamarquês Jakob Maersk esteve a arder três dias em frente ao Castelo do Queijo. Depois do jantar metemo-nos no carro para ir à Foz ver aquela cena desconcertante: o mar em fogo.
No dia seguinte foi esse o tema principal na escola, e a professora de português aproveitou para nos introduzir a um conceito novo: o belo horrível.
Foi nisso que pensei ao ver esta imagem de "nuvens sobre os fogos da Califórnia", e ia escrever uma tirada fantástica, um "caminhamos para o fim, mas em glorioso!", ou algo do género. Por sorte lembrei-me de investigar um bocado mais, e descobri que isto não são fogos em lado nenhum. É apenas o lado de cima daquelas nuvens que nos encantam com os seus tons de fogo à hora do sol-pôr.
Ufff! Por pouco escapei a envergonhar-me outra vez na internet, repassando de forma acrítica o que encontro por aí. "Desconfiar" devia ser o nome do meio dos internautas.
Durante a pesquisa encontrei a imagem que se segue. Esta sim, um belo horrível: fascinante e assustadora.
The fire that devastated much of Fort McMurray, seen here on the evening of May 4th, 2016, was so massive that it created its own weather in the form of towering “pyrocumulonimbus” clouds capable of generating lightning. (Photo: Chris Schwarz/Government of Alberta, Flickr CC BY-ND 2.0)
Poupo-vos a tiradas fantásticas. Isto não está para retóricas.
04 agosto 2018
a Pousada vencedora é...
Lembram-se do post de ontem, perguntando que Pousada me aconselhariam para passar dois dias?
Aqui vai uma síntese das respostas:
Qualquer uma das que ficam em castelos: Estremoz, Óbidos, Palmela, Alvito, Alcácer do Sal, ...
Caniçada (Gerês) - várias referências à paisagem maravilhosa
Santa Maria de Bouro, Amares - mosteiro medieval, projecto do Souto de Moura. "A mesa de doces regionais é qualquer coisa!" / "Adoro a do Bouro, dentro e fora" / "Linda mas em mau estado de conservação, humidade nas paredes. As camas são desconfortáveis e o pacote de cenas não tem amaciador de cabelo (isto é uma cena do Pestana). Mas gostei da área em si e os funcionários são simpáticos."/ "Muito bom, com aspectos negativos . Vinte anos depois a Pousada continua impressionante. A recuperação arquitetónica, o mobiliário resistiram e os espaços exteriores resistiram notavelmente. A opção 4 estrelas e os preços praticados permitem uma boa afluência de visitantes, presumo, embora, no dia da visita só houvesse estrangeiros. A região, sob o ponto de vista da oferta turística está péssima, sem qualidade. O restaurante do hotel, incluindo o pequeno almoço, é muito inferior ao que a dignidade do espaço exigiria."Ria de Aveiro - por causa da Ria, de São Jacinto, e das camarinhas.
Flor da Rosa, Crato - "Disse-me um casal amoroso e veterano nestas coisas que a do Crato é espectacular." / "Com a boa cozinha alentejana!" / "surge como um espaço encantado no meio do alentejo. é inacreditável, e tb é souto de moura, se não me falha a memória (a recuperação). come-se é muito mal, e com este calor, não sei não..."
Marvão - por tudo, e também pelo Festival de Música Clássica.
Lóios, Évora - "uma das pousadas que mais amei é a dos Loios, em Évora. mas o Verão e tal e tal."
"Beja! Bochechas de Porco! Biscina!"Monsaraz - "a de monsaraz é um must menos no pino do Verão."
Palácio de Estói, Faro - "é fantástica!"
Sagres - "porque para além de ser sofisticadamente confortável, situada num local tranquilíssimo, oferece uma paisagem lindíssima e fica na proximidade de um conjunto de praias semi selvagens e desinfestadas de turistas."
Foram ainda mencionadas: Vila Viçosa, Arraiolos, Forte de Santa Cruz (Horta), Convento do Desagravo (Vila Pouca da Beira).
Quando já tínhamos chegado a uma conclusão sobre o que devíamos fazer (pedir aos amigos que façam vaquinhas sucessivas para nós podermos ir experimentar essas pousadas todas) lembrámo-nos do amigo Fox: as pousadas aceitam cães?
Informação do site das Pousadas: “Em algumas Pousadas a politica “Dog Friendly” permite acesso de animais até 15kg – Pousada de Lisboa, Pousada de Marvão, Pousada Convento de Arraiolos, Pousada Palácio de Estoi, Pousada Convento de Tavira, Pousada de Sagres, Pousada Mosteiro de Guimarães, Pousada Mosteiro de Amares, Pousada Convento de Vila Pouca da Beira, Pousada da Serra da Estrela, Pousada da Ria, Pousada de Viseu, Pousada Castelo de Palmela, Pousada Convento de Vila Viçosa, Pousada Castelo de Alcácer do Sal, Pousada de Valença.
A reserva nestas unidades tem o custo adicional de 25€ por noite, incluindo kit para o animal (cama, comedouro/bebedouro, base de chão, saco higiénicos e embalagem de alimentação). O pagamento é efetuado no Hotel/Pousada e deverá ser deixada uma referência nos comentários de reserva.”Depois de tudo isto, a vencedora é:
PALMELA !
Por vários motivos: é num castelo, tem aquela vista para o mar, aceita cães, fica na rota do nosso rally Portugal e perto de alguns sítios especiais que quero mostrar ao Joachim (a praia de Galapos, a Escola Superior de Educação de Setúbal - com projecto do Siza Vieira -, o moinho de maré da Mourisca). E depois há o convento da Arrábida, que é muito gabado e ainda não conhecemos.
Muito obrigada a todos os amigos que ajudaram a escolher, e ainda mais obrigada aos que resolverem fazer as tais vaquinhas sucessivas... ;)
Aqui vai uma síntese das respostas:
Qualquer uma das que ficam em castelos: Estremoz, Óbidos, Palmela, Alvito, Alcácer do Sal, ...
Caniçada (Gerês) - várias referências à paisagem maravilhosa
Santa Maria de Bouro, Amares - mosteiro medieval, projecto do Souto de Moura. "A mesa de doces regionais é qualquer coisa!" / "Adoro a do Bouro, dentro e fora" / "Linda mas em mau estado de conservação, humidade nas paredes. As camas são desconfortáveis e o pacote de cenas não tem amaciador de cabelo (isto é uma cena do Pestana). Mas gostei da área em si e os funcionários são simpáticos."/ "Muito bom, com aspectos negativos . Vinte anos depois a Pousada continua impressionante. A recuperação arquitetónica, o mobiliário resistiram e os espaços exteriores resistiram notavelmente. A opção 4 estrelas e os preços praticados permitem uma boa afluência de visitantes, presumo, embora, no dia da visita só houvesse estrangeiros. A região, sob o ponto de vista da oferta turística está péssima, sem qualidade. O restaurante do hotel, incluindo o pequeno almoço, é muito inferior ao que a dignidade do espaço exigiria."Ria de Aveiro - por causa da Ria, de São Jacinto, e das camarinhas.
Flor da Rosa, Crato - "Disse-me um casal amoroso e veterano nestas coisas que a do Crato é espectacular." / "Com a boa cozinha alentejana!" / "surge como um espaço encantado no meio do alentejo. é inacreditável, e tb é souto de moura, se não me falha a memória (a recuperação). come-se é muito mal, e com este calor, não sei não..."
Marvão - por tudo, e também pelo Festival de Música Clássica.
Lóios, Évora - "uma das pousadas que mais amei é a dos Loios, em Évora. mas o Verão e tal e tal."
"Beja! Bochechas de Porco! Biscina!"Monsaraz - "a de monsaraz é um must menos no pino do Verão."
Palácio de Estói, Faro - "é fantástica!"
Sagres - "porque para além de ser sofisticadamente confortável, situada num local tranquilíssimo, oferece uma paisagem lindíssima e fica na proximidade de um conjunto de praias semi selvagens e desinfestadas de turistas."
Foram ainda mencionadas: Vila Viçosa, Arraiolos, Forte de Santa Cruz (Horta), Convento do Desagravo (Vila Pouca da Beira).
Quando já tínhamos chegado a uma conclusão sobre o que devíamos fazer (pedir aos amigos que façam vaquinhas sucessivas para nós podermos ir experimentar essas pousadas todas) lembrámo-nos do amigo Fox: as pousadas aceitam cães?
Informação do site das Pousadas: “Em algumas Pousadas a politica “Dog Friendly” permite acesso de animais até 15kg – Pousada de Lisboa, Pousada de Marvão, Pousada Convento de Arraiolos, Pousada Palácio de Estoi, Pousada Convento de Tavira, Pousada de Sagres, Pousada Mosteiro de Guimarães, Pousada Mosteiro de Amares, Pousada Convento de Vila Pouca da Beira, Pousada da Serra da Estrela, Pousada da Ria, Pousada de Viseu, Pousada Castelo de Palmela, Pousada Convento de Vila Viçosa, Pousada Castelo de Alcácer do Sal, Pousada de Valença.
A reserva nestas unidades tem o custo adicional de 25€ por noite, incluindo kit para o animal (cama, comedouro/bebedouro, base de chão, saco higiénicos e embalagem de alimentação). O pagamento é efetuado no Hotel/Pousada e deverá ser deixada uma referência nos comentários de reserva.”Depois de tudo isto, a vencedora é:
PALMELA !
Por vários motivos: é num castelo, tem aquela vista para o mar, aceita cães, fica na rota do nosso rally Portugal e perto de alguns sítios especiais que quero mostrar ao Joachim (a praia de Galapos, a Escola Superior de Educação de Setúbal - com projecto do Siza Vieira -, o moinho de maré da Mourisca). E depois há o convento da Arrábida, que é muito gabado e ainda não conhecemos.
Muito obrigada a todos os amigos que ajudaram a escolher, e ainda mais obrigada aos que resolverem fazer as tais vaquinhas sucessivas... ;)
03 agosto 2018
a preparar as férias de Setembro
Deixa cá ver se os amigos me ajudam como de costume (não, não vou
perguntar o que têm vestido hoje, que com o calor infernal que vai por aí arriscava-me a passar
vergonhas). As perguntas de hoje são:
1. Se tivessem a possibilidade de passar dois dias numa Pousada em Portugal continental, qual delas escolhiam, e porquê?
(Estava a pensar na de Santa Maria de Bouro, por ser um projecto do Souto de Moura e por causa da mesa de doces conventuais; e também na de Cascais, por causa daquela maravilha de mar ali ao lado. Mas pode ser que me esteja a escapar a non plus ultra, e por isso pergunto.)
2. Se uma simpática irmã vossa vos tivesse oferecido uma noite num refúgio com jantar, daqueles do lifecooler, qual é que vocês escolhiam?
A gerência das minhas férias agradece. :)
1. Se tivessem a possibilidade de passar dois dias numa Pousada em Portugal continental, qual delas escolhiam, e porquê?
(Estava a pensar na de Santa Maria de Bouro, por ser um projecto do Souto de Moura e por causa da mesa de doces conventuais; e também na de Cascais, por causa daquela maravilha de mar ali ao lado. Mas pode ser que me esteja a escapar a non plus ultra, e por isso pergunto.)
2. Se uma simpática irmã vossa vos tivesse oferecido uma noite num refúgio com jantar, daqueles do lifecooler, qual é que vocês escolhiam?
A gerência das minhas férias agradece. :)
a dieta que quase começou a fazer efeito
Recebi um pacote da Boden - trazia as calças que queria experimentar e, estranhamente, um lindo vestido que não me lembrava de ter encomendado. Vesti-o, cor e corte impecáveis, mas estava um bocado folgadinho. Fiquei toda contente: "ena, ena! isto de ter cuidado com o que como ao jantar já está a fazer o seu efeito! tem valido a pena e até nem tem custado muito! por este andar, o melhor é equilibrar com algum chocolate, caso contrário ainda fico esquelética ao fim de uma semana, etc."
Depois fui olhar a factura, e dei-me conta de que o vestido tinha vindo por engano num saco com etiqueta de calças, e...
...o tamanho era um número acima do meu.
Plano B: começar ir a pé comprar o chocolate numa loja do outro lado de Berlim. Cinquenta gramas de cada vez.
Depois fui olhar a factura, e dei-me conta de que o vestido tinha vindo por engano num saco com etiqueta de calças, e...
...o tamanho era um número acima do meu.
Plano B: começar ir a pé comprar o chocolate numa loja do outro lado de Berlim. Cinquenta gramas de cada vez.
a dieta começa no supermercado
Sabem aquela frase "a dieta começa no supermercado"?
Quem a inventou bem podia ir dar banho ao cão! Acabei de chegar do supermercado, onde fiz um grande desvio para passar longe da secção de guloseimas, enchi o saco de legumes e fruta e ala que se faz tarde, e agora, já em casa, sinto uma espécie de desespero por um bocadinho de chocolate.
Ritter. Com cereais. Ou então de menta, ou então de leite alpino.
Deito contas a esta triste vida: se voltasse ao supermercado gastava umas quantas calorias que depois me podia permitir recuperar em forma de chocolate. E se o comprasse em quantidades valentes e regressasse a casa com o saco ora numa mão ora na outra era assim a modos que trabalhar com pesos. O que também conta como desporto.
Portanto: adeuzinho, vou à minha sessão de fitness, volto já.
02 agosto 2018
oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz? my friends all drive Porsches...
Há tempos correu um rumor de que as casas do nosso bairro andavam a ser vendidas por muito mais do dobro do preço inicial, e de repente dei comigo a sonhar com o aumento de qualidade de vida que podíamos ter se ganhássemos dois milhões, e a pensar que os lagos aqui perto e a horta atrás de casa não são assim tããããooooooo importantes, e que também podia ser feliz num apartamento de topo de prédio em Wedding, com um grande terraço no céu sobre Berlim, cheio de canteiros elevados.
Isto de viver paredes meias com o euromilhões é complicado. Uma pessoa dá-se logo conta dos limites dos princípios que julgava ter: para nós ganharmos este dinheiro, a nossa rua ia ficar mais tristonha, com um milionário qualquer a morar na nossa linda casinha que passaria a esconder-se atrás de câmaras e altíssimos muros, e nós iríamos ter parte activa na gentrificação de um bairro mais económico.
Vender ou não vender? Digam-me vocês: porque havia eu de me privar de algo em nome dos meus princípios, se não há um acordo geral para todos fazerem o mesmo? Se não vendermos nós, vendem os vizinhos da esquerda e da direita, e ficamos nós aqui cercados de milionários antipáticos e sem o dinheiro. Se mais ninguém está disposto a fazer sacrifícios em nome de princípios tão vagos como "boa vizinhança", parvos somos nós se não aproveitarmos a onda...
Quanto à gentrificação: não somos todos um pouco agentes dela? Quantos de nós escolhem propositadamente não ir para o centro das cidades para não destruir o delicado equilíbrio das comunidades de moradores desses bairros?
Em suma: quando se trata do nosso bem-estar pessoal e de dinheiro que podemos ganhar legalmente, num instante ficamos a saber se somos pessoas de ética abalável ou, pelo contrário, de princípios muito firmes mesmo sabendo que isso faz de nós os maiores palermas de que há memória.
Por sorte, uma coisa é o preço que se põe na internet, e outra coisa, muito diferente, é o preço pelo qual a casa é vendida. Os preços exorbitantes do meu bairro não foram confirmados por nenhum negócio, e a questão de vender ou não vender deixou de se colocar. Um alívio, podem crer.
Vem isto a propósito de políticos que, na sua vida privada, têm de dar o exemplo dos princípios que defendem como válidos para toda a sociedade. O Ricardo Robles, por exemplo. Se é contra a transformação do centro da cidade num imenso aparthotel, em vez de fazer o que todos fazem (e por muito legal que seja), devia manter-se fiel aos princípios que defende e assumir sem discussão nem alarido o tal papel de maior palerma de que há memória.
Que não haja dúvidas: parece-me evidente que o Ricardo Robles não devia ter entrado nesse negócio, porque é incompatível com o que defende para a cidade que o elegeu. Mas - agora que sei como é difícil recusar fazer um lucro de dois milhões aproveitando o funcionamento do mercado - pergunto-me se a maior parte do pessoal que o critica e ridiculariza se apercebe da figura que está a fazer. Só deveria zombar da incoerência de Robles quem tem um comportamento ético irrepreensível. Ponha o dedo no ar (bem alto, para vermos todos) quem é capaz de afirmar que nunca trairia algum dos seus princípios só para ganhar dois milhões de euros, mesmo sabendo que é legal e todos os outros o fazem. Ponha o dedo (bem alto) no ar quem nunca fez um pagamento sem factura ou quem nunca fez de conta que não reparou no erro de um empregado contra a loja ou o restaurante. Estes podem zombar à vontade. Quanto aos outros: concordam que, por princípio, não se deve consumir ou levar para casa nada sem pagar o preço e os respectivos impostos, mas aquela blusinha da Zara ou aquele livrinho na FNAC que a máquina não registou, aquela garrafinha de vinho que o empregado do restaurante se esqueceu de meter na factura, aquele biscatezinho do pintor... é apenas meia dúzia de euros, uma ninharia, não é? Por uma ninharia, por uma simples ninharia, por muito menos de dois milhões, já estão disponíveis para fazer ouvidos moucos à vossa consciência - mas riem-se muito do Robles...
Quanto à questão da hipocrisia dos políticos, lembro Thomas Jefferson, que cunhou o magnífico "all men are created equal" e tinha mais de cem escravos. Pelos vistos, se fosse hoje em Portugal, o pessoal rebolava a rir, "hahaha, all men are equal, vai tu, ó pantomineiro moralista de pés de barro!" - e ficava tudo na mesma.
Que atitude nos leva mais longe? Aproveitar o status quo e tentar cinicamente manter tudo como está, ou ousar sonhar um mundo melhor? Respondam, vocês que se riem de Ricardo Robles, acusando-o de nem ele conseguir resistir à possibilidade de lucro fácil, e aproveitando o caso para justificar o actual processo de esvaziamento do centro das cidades: querem realmente ver os bairros mais antigos transformados em mera fachada de aparthotel, ou parece-vos que é urgente tomar medidas para evitar que as cidades se tornem uma grotesca caricatura de si próprias?
Que vos parece mais correcto: aproveitar a incongruência de um político para desculpar as nossas próprias escolhas de ganhos egoístas em detrimento do interesse de todos, ou aceitar que, mal-grado os erros em que possa ter incorrido na sua vida privada, a sua mensagem política aponta um rumo que fará do nosso mundo um lugar melhor?
Sim, estou a falar do "moralismo acusador" que tantos vêem no Bloco de Esquerda: preferem um mundo em que vale tudo, e em que tudo se fará para que o vale tudo continue a ser legal?
Uma outra questão importante: temos consciência do que estamos a exigir aos nossos políticos? Temos consciência do que ficamos a dever a todos aqueles que, podendo fazer um negócio dentro da legalidade, escolhem não o fazer para não agirem contra os princípios que defendem no interesse de todos?
A todos esses políticos que aceitaram servir o país, mesmo em prejuízo dos seus interesses económicos privados, e que não sabemos quem são porque os jornais só falam daqueles que fogem à norma: muito obrigada.
Finalmente, e a todos os que troçam de um político de Esquerda por ceder ao impulso de fazer um negócio imobiliário com tanto lucro: o cinismo fica-vos mal. Lembra-me aquela anedota dos dois homens no restaurante, em frente a uma travessa onde havia um bife enorme e um bife minúsculo. O primeiro a servir-se tirou o bife maior, e o outro protestou, dizendo que era má educação.
- Se fosse você a servir-se primeiro, que bife tirava?
- O mais pequeno, claro!
- Então aí o tem - de que se queixa?
Fiquem com o bife grande, deixem o pequeno para os outros, e bom apetite.
Mas tenham cuidado com esse riso trocista, porque ainda se podem engasgar.
Isto de viver paredes meias com o euromilhões é complicado. Uma pessoa dá-se logo conta dos limites dos princípios que julgava ter: para nós ganharmos este dinheiro, a nossa rua ia ficar mais tristonha, com um milionário qualquer a morar na nossa linda casinha que passaria a esconder-se atrás de câmaras e altíssimos muros, e nós iríamos ter parte activa na gentrificação de um bairro mais económico.
Vender ou não vender? Digam-me vocês: porque havia eu de me privar de algo em nome dos meus princípios, se não há um acordo geral para todos fazerem o mesmo? Se não vendermos nós, vendem os vizinhos da esquerda e da direita, e ficamos nós aqui cercados de milionários antipáticos e sem o dinheiro. Se mais ninguém está disposto a fazer sacrifícios em nome de princípios tão vagos como "boa vizinhança", parvos somos nós se não aproveitarmos a onda...
Quanto à gentrificação: não somos todos um pouco agentes dela? Quantos de nós escolhem propositadamente não ir para o centro das cidades para não destruir o delicado equilíbrio das comunidades de moradores desses bairros?
Em suma: quando se trata do nosso bem-estar pessoal e de dinheiro que podemos ganhar legalmente, num instante ficamos a saber se somos pessoas de ética abalável ou, pelo contrário, de princípios muito firmes mesmo sabendo que isso faz de nós os maiores palermas de que há memória.
Por sorte, uma coisa é o preço que se põe na internet, e outra coisa, muito diferente, é o preço pelo qual a casa é vendida. Os preços exorbitantes do meu bairro não foram confirmados por nenhum negócio, e a questão de vender ou não vender deixou de se colocar. Um alívio, podem crer.
Vem isto a propósito de políticos que, na sua vida privada, têm de dar o exemplo dos princípios que defendem como válidos para toda a sociedade. O Ricardo Robles, por exemplo. Se é contra a transformação do centro da cidade num imenso aparthotel, em vez de fazer o que todos fazem (e por muito legal que seja), devia manter-se fiel aos princípios que defende e assumir sem discussão nem alarido o tal papel de maior palerma de que há memória.
Que não haja dúvidas: parece-me evidente que o Ricardo Robles não devia ter entrado nesse negócio, porque é incompatível com o que defende para a cidade que o elegeu. Mas - agora que sei como é difícil recusar fazer um lucro de dois milhões aproveitando o funcionamento do mercado - pergunto-me se a maior parte do pessoal que o critica e ridiculariza se apercebe da figura que está a fazer. Só deveria zombar da incoerência de Robles quem tem um comportamento ético irrepreensível. Ponha o dedo no ar (bem alto, para vermos todos) quem é capaz de afirmar que nunca trairia algum dos seus princípios só para ganhar dois milhões de euros, mesmo sabendo que é legal e todos os outros o fazem. Ponha o dedo (bem alto) no ar quem nunca fez um pagamento sem factura ou quem nunca fez de conta que não reparou no erro de um empregado contra a loja ou o restaurante. Estes podem zombar à vontade. Quanto aos outros: concordam que, por princípio, não se deve consumir ou levar para casa nada sem pagar o preço e os respectivos impostos, mas aquela blusinha da Zara ou aquele livrinho na FNAC que a máquina não registou, aquela garrafinha de vinho que o empregado do restaurante se esqueceu de meter na factura, aquele biscatezinho do pintor... é apenas meia dúzia de euros, uma ninharia, não é? Por uma ninharia, por uma simples ninharia, por muito menos de dois milhões, já estão disponíveis para fazer ouvidos moucos à vossa consciência - mas riem-se muito do Robles...
Quanto à questão da hipocrisia dos políticos, lembro Thomas Jefferson, que cunhou o magnífico "all men are created equal" e tinha mais de cem escravos. Pelos vistos, se fosse hoje em Portugal, o pessoal rebolava a rir, "hahaha, all men are equal, vai tu, ó pantomineiro moralista de pés de barro!" - e ficava tudo na mesma.
Que atitude nos leva mais longe? Aproveitar o status quo e tentar cinicamente manter tudo como está, ou ousar sonhar um mundo melhor? Respondam, vocês que se riem de Ricardo Robles, acusando-o de nem ele conseguir resistir à possibilidade de lucro fácil, e aproveitando o caso para justificar o actual processo de esvaziamento do centro das cidades: querem realmente ver os bairros mais antigos transformados em mera fachada de aparthotel, ou parece-vos que é urgente tomar medidas para evitar que as cidades se tornem uma grotesca caricatura de si próprias?
Que vos parece mais correcto: aproveitar a incongruência de um político para desculpar as nossas próprias escolhas de ganhos egoístas em detrimento do interesse de todos, ou aceitar que, mal-grado os erros em que possa ter incorrido na sua vida privada, a sua mensagem política aponta um rumo que fará do nosso mundo um lugar melhor?
Sim, estou a falar do "moralismo acusador" que tantos vêem no Bloco de Esquerda: preferem um mundo em que vale tudo, e em que tudo se fará para que o vale tudo continue a ser legal?
Uma outra questão importante: temos consciência do que estamos a exigir aos nossos políticos? Temos consciência do que ficamos a dever a todos aqueles que, podendo fazer um negócio dentro da legalidade, escolhem não o fazer para não agirem contra os princípios que defendem no interesse de todos?
A todos esses políticos que aceitaram servir o país, mesmo em prejuízo dos seus interesses económicos privados, e que não sabemos quem são porque os jornais só falam daqueles que fogem à norma: muito obrigada.
Finalmente, e a todos os que troçam de um político de Esquerda por ceder ao impulso de fazer um negócio imobiliário com tanto lucro: o cinismo fica-vos mal. Lembra-me aquela anedota dos dois homens no restaurante, em frente a uma travessa onde havia um bife enorme e um bife minúsculo. O primeiro a servir-se tirou o bife maior, e o outro protestou, dizendo que era má educação.
- Se fosse você a servir-se primeiro, que bife tirava?
- O mais pequeno, claro!
- Então aí o tem - de que se queixa?
Fiquem com o bife grande, deixem o pequeno para os outros, e bom apetite.
Mas tenham cuidado com esse riso trocista, porque ainda se podem engasgar.
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