Há tempos correu um rumor de que as casas do nosso bairro andavam a ser vendidas por muito mais do dobro do preço inicial, e de repente dei comigo a sonhar com o aumento de qualidade de vida que podíamos ter se ganhássemos dois milhões, e a pensar que os lagos aqui perto e a horta atrás de casa não são assim tããããooooooo importantes, e que também podia ser feliz num apartamento de topo de prédio em Wedding, com um grande terraço no céu sobre Berlim, cheio de canteiros elevados.
Isto de viver paredes meias com o euromilhões é complicado. Uma pessoa dá-se logo conta dos limites dos princípios que julgava ter: para nós ganharmos este dinheiro, a nossa rua ia ficar mais tristonha, com um milionário qualquer a morar na nossa linda casinha que passaria a esconder-se atrás de câmaras e altíssimos muros, e nós iríamos ter parte activa na gentrificação de um bairro mais económico.
Vender ou não vender? Digam-me vocês: porque havia eu de me privar de algo em nome dos meus princípios, se não há um acordo geral para todos fazerem o mesmo? Se não vendermos nós, vendem os vizinhos da esquerda e da direita, e ficamos nós aqui cercados de milionários antipáticos e sem o dinheiro. Se mais ninguém está disposto a fazer sacrifícios em nome de princípios tão vagos como "boa vizinhança", parvos somos nós se não aproveitarmos a onda...
Quanto à gentrificação: não somos todos um pouco agentes dela? Quantos de nós escolhem propositadamente não ir para o centro das cidades para não destruir o delicado equilíbrio das comunidades de moradores desses bairros?
Em suma: quando se trata do nosso bem-estar pessoal e de dinheiro que podemos ganhar legalmente, num instante ficamos a saber se somos pessoas de ética abalável ou, pelo contrário, de princípios muito firmes mesmo sabendo que isso faz de nós os maiores palermas de que há memória.
Por sorte, uma coisa é o preço que se põe na internet, e outra coisa, muito diferente, é o preço pelo qual a casa é vendida. Os preços exorbitantes do meu bairro não foram confirmados por nenhum negócio, e a questão de vender ou não vender deixou de se colocar. Um alívio, podem crer.
Vem isto a propósito de políticos que, na sua vida privada, têm de dar o exemplo dos princípios que defendem como válidos para toda a sociedade. O Ricardo Robles, por exemplo. Se é contra a transformação do centro da cidade num imenso aparthotel, em vez de fazer o que todos fazem (e por muito legal que seja), devia manter-se fiel aos princípios que defende e assumir sem discussão nem alarido o tal papel de maior palerma de que há memória.
Que não haja dúvidas: parece-me evidente que o Ricardo Robles não devia ter entrado nesse negócio, porque é incompatível com o que defende para a cidade que o elegeu. Mas - agora que sei como é difícil recusar fazer um lucro de dois milhões aproveitando o funcionamento do mercado - pergunto-me se a maior parte do pessoal que o critica e ridiculariza se apercebe da figura que está a fazer. Só deveria zombar da incoerência de Robles quem tem um comportamento ético irrepreensível. Ponha o dedo no ar (bem alto, para vermos todos) quem é capaz de afirmar que nunca trairia algum dos seus princípios só para ganhar dois milhões de euros, mesmo sabendo que é legal e todos os outros o fazem. Ponha o dedo (bem alto) no ar quem nunca fez um pagamento sem factura ou quem nunca fez de conta que não reparou no erro de um empregado contra a loja ou o restaurante. Estes podem zombar à vontade. Quanto aos outros: concordam que, por princípio, não se deve consumir ou levar para casa nada sem pagar o preço e os respectivos impostos, mas aquela blusinha da Zara ou aquele livrinho na FNAC que a máquina não registou, aquela garrafinha de vinho que o empregado do restaurante se esqueceu de meter na factura, aquele biscatezinho do pintor... é apenas meia dúzia de euros, uma ninharia, não é? Por uma ninharia, por uma simples ninharia, por muito menos de dois milhões, já estão disponíveis para fazer ouvidos moucos à vossa consciência - mas riem-se muito do Robles...
Quanto à questão da hipocrisia dos políticos, lembro Thomas Jefferson, que cunhou o magnífico "all men are created equal" e tinha mais de cem escravos. Pelos vistos, se fosse hoje em Portugal, o pessoal rebolava a rir, "hahaha, all men are equal, vai tu, ó pantomineiro moralista de pés de barro!" - e ficava tudo na mesma.
Que atitude nos leva mais longe? Aproveitar o status quo e tentar cinicamente manter tudo como está, ou ousar sonhar um mundo melhor? Respondam, vocês que se riem de Ricardo Robles, acusando-o de nem ele conseguir resistir à possibilidade de lucro fácil, e aproveitando o caso para justificar o actual processo de esvaziamento do centro das cidades: querem realmente ver os bairros mais antigos transformados em mera fachada de aparthotel, ou parece-vos que é urgente tomar medidas para evitar que as cidades se tornem uma grotesca caricatura de si próprias?
Que vos parece mais correcto: aproveitar a incongruência de um político para desculpar as nossas próprias escolhas de ganhos egoístas em detrimento do interesse de todos, ou aceitar que, mal-grado os erros em que possa ter incorrido na sua vida privada, a sua mensagem política aponta um rumo que fará do nosso mundo um lugar melhor?
Sim, estou a falar do "moralismo acusador" que tantos vêem no Bloco de Esquerda: preferem um mundo em que vale tudo, e em que tudo se fará para que o vale tudo continue a ser legal?
Uma outra questão importante: temos consciência do que estamos a exigir aos nossos políticos? Temos consciência do que ficamos a dever a todos aqueles que, podendo fazer um negócio dentro da legalidade, escolhem não o fazer para não agirem contra os princípios que defendem no interesse de todos?
A todos esses políticos que aceitaram servir o país, mesmo em prejuízo dos seus interesses económicos privados, e que não sabemos quem são porque os jornais só falam daqueles que fogem à norma: muito obrigada.
Finalmente, e a todos os que troçam de um político de Esquerda por ceder ao impulso de fazer um negócio imobiliário com tanto lucro: o cinismo fica-vos mal. Lembra-me aquela anedota dos dois homens no restaurante, em frente a uma travessa onde havia um bife enorme e um bife minúsculo. O primeiro a servir-se tirou o bife maior, e o outro protestou, dizendo que era má educação.
- Se fosse você a servir-se primeiro, que bife tirava?
- O mais pequeno, claro!
- Então aí o tem - de que se queixa?
Fiquem com o bife grande, deixem o pequeno para os outros, e bom apetite.
Mas tenham cuidado com esse riso trocista, porque ainda se podem engasgar.