11 julho 2018
mundial de futebol, dia 20
MF 2018 Dia 20
Há cada vez mais russos e russas disfarçados de estrangeiro. Mesmo o meu tio de 80 anos já não sai de casa sem levar o seu sombrero. Ao fim de duas semanas de Mondial, até o mais estúpido percebeu o truque. Na Rússia é estritamente proibido beber cerveja na rua, e também não se pode cantar a Marseillaise na Praça Vermelha, dançar em frente ao Mausoléu, fotografar polícias ou deitar-se na relva ao lado da Chama Perpétua, estes crimes não são tolerados - excepto se os criminosos forem "estrangeiros", ou seja, pessoas vestidas de forma extravagante que dão a impressão de não terem muita saúde mental. Nesse caso, tudo lhes é permitido (mas só até 15.07, obviamente).
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 19
MF 2018 Dia 19
Embora a equipa argentina já tenha sido eliminada do mundial de futebol, os Messis continuam a flirtar e a beber, triunfantes e certeiros. Quando a polícia fez parar um grupo especialmente ruidoso de argentinos descobriu-se que os Messis eram, na realidade, arménios que se faziam passar por turistas estrangeiros para ter mais sucesso com as mulheres.
Embora a equipa argentina já tenha sido eliminada do mundial de futebol, os Messis continuam a flirtar e a beber, triunfantes e certeiros. Quando a polícia fez parar um grupo especialmente ruidoso de argentinos descobriu-se que os Messis eram, na realidade, arménios que se faziam passar por turistas estrangeiros para ter mais sucesso com as mulheres.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 18
MF 2018 Dia 18
O grande dia dos guarda-redes. Depois do prolongamento, a Rússia ganhou à Espanha, entrando assim, pela primeira vez desde 1966, para o grupo das oito melhores equipas do mundo; no duelo dos guarda-redes os croatas ganharam aos dinamarqueses e vão confrontar-se com a Rússia nos quartos de final. Putin não veio assistir ao jogo no estádio porque não acreditava na vitória da sua equipa. Pelo que o rei Filipe deu os parabéns à mulher do Medwedev.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 17
MF 2018 Dia 17
As equipas da Alemanha, Coreia do Sul, Arábia Saudita e todas as africanas abandonaram o Mundial de Futebol, mas os seus fãs ficaram. Ou se perderam, ou então reservaram os hotéis até à final. Por estes dias, meia Humanidade anda por aí sem rumo certo, como fãs de uma equipa há muito eliminada. Ou se perdeu, ou então reservou os hotéis até à final.
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Wladimir Kaminer
10 julho 2018
"o mais recente espasmo de xenofobia"
Sinceramente, não entendo o problema deste editorial no Guardian sobre as medidas do governo dinamarquês para promover a melhor integração dos imigrantes. À excepção da segunda medida na lista, todas as outras me parecem normais e aceitáveis. Vejamos:
1. Forcing immigrants to put their children into daycare for 25 hours a week from the age of one;
Conheço os argumentos a favor desta medida na Alemanha: as crianças que não sabem alemão têm péssimas condições de partida para a escola e o futuro profissional. Para permitir que elas consigam escapar a um contexto social que as condena à falta de perspectivas e à pobreza, para permitir que elas consigam um lugar ao sol na sociedade onde nasceram, é fundamental que aprendam alemão desde muito cedo.
2. automatically doubling the sentences for crimes committed in ghetto areas;
A ser verdade, é gravíssimo, porque fere o princípio básico da igualdade perante a Lei.
3. threatening long fines or even prison sentences for anyone who fails to report parents suspected of hitting their children;
Se a lei é igual para todos, não entendo o motivo para escândalo. Se na Dinamarca é proibido bater em crianças, não pode haver tolerância devido à chamada diferença de culturas. As regras são iguais para todos, e não se pode permitir que dentro de grupos culturalmente mais fechados haja cumplicidade e silêncio perante actos de violência condenados pela sociedade em que vivem. Na Alemanha houve há anos um caso de tolerância desse género que foi muito criticado: um juiz não protegeu convenientemente uma mulher em processo de divórcio, que temia ser alvo de violência doméstica por parte do marido, alegando que isso fazia parte da cultura dela. (Escusam de bater, o juiz foi muito criticado. Entretanto a sociedade aprendeu, e já não é assim "tolerante" em relação a estas "diferenças culturais".)
4. setting quotas on kindergartens so that they can have no more than 30% of their children from immigrant backgrounds.
Esta aqui é um caso de óbvio ululante. Para que os filhos dos estrangeiros possam aprender bem dinamarquês, tem de haver no grupo uma larga maioria de crianças de língua materna dinamarquesa.
Se me deixassem mandar, até ia mais longe: não pode haver mais do que 20% ou 30% de estrangeiros em cada rua, escola, bairro, aldeia, cidade. E tem de haver quotas para imigrantes nas escolas e nos bairros.
Convém ainda lembrar que no tempo em que não havia cá esses chamados "espasmos de xenofobia" foi naquelas décadas em que ninguém se preocupou com a integração dos imigrantes, porque se pensava que eram apenas mão-de-obra que vinha desempenhar certas tarefas e depois voltava para o seu país. Essa é a verdadeira xenofobia: ignorar a existência e as dificuldades das pessoas, recusar-lhes o "nós", vê-las apenas como factores de produção importados temporariamente para permitir o crescimento económico, e que serão devolvidos à proveniência quando já não forem necessários.
1. Forcing immigrants to put their children into daycare for 25 hours a week from the age of one;
Conheço os argumentos a favor desta medida na Alemanha: as crianças que não sabem alemão têm péssimas condições de partida para a escola e o futuro profissional. Para permitir que elas consigam escapar a um contexto social que as condena à falta de perspectivas e à pobreza, para permitir que elas consigam um lugar ao sol na sociedade onde nasceram, é fundamental que aprendam alemão desde muito cedo.
2. automatically doubling the sentences for crimes committed in ghetto areas;
A ser verdade, é gravíssimo, porque fere o princípio básico da igualdade perante a Lei.
3. threatening long fines or even prison sentences for anyone who fails to report parents suspected of hitting their children;
Se a lei é igual para todos, não entendo o motivo para escândalo. Se na Dinamarca é proibido bater em crianças, não pode haver tolerância devido à chamada diferença de culturas. As regras são iguais para todos, e não se pode permitir que dentro de grupos culturalmente mais fechados haja cumplicidade e silêncio perante actos de violência condenados pela sociedade em que vivem. Na Alemanha houve há anos um caso de tolerância desse género que foi muito criticado: um juiz não protegeu convenientemente uma mulher em processo de divórcio, que temia ser alvo de violência doméstica por parte do marido, alegando que isso fazia parte da cultura dela. (Escusam de bater, o juiz foi muito criticado. Entretanto a sociedade aprendeu, e já não é assim "tolerante" em relação a estas "diferenças culturais".)
4. setting quotas on kindergartens so that they can have no more than 30% of their children from immigrant backgrounds.
Esta aqui é um caso de óbvio ululante. Para que os filhos dos estrangeiros possam aprender bem dinamarquês, tem de haver no grupo uma larga maioria de crianças de língua materna dinamarquesa.
Se me deixassem mandar, até ia mais longe: não pode haver mais do que 20% ou 30% de estrangeiros em cada rua, escola, bairro, aldeia, cidade. E tem de haver quotas para imigrantes nas escolas e nos bairros.
Convém ainda lembrar que no tempo em que não havia cá esses chamados "espasmos de xenofobia" foi naquelas décadas em que ninguém se preocupou com a integração dos imigrantes, porque se pensava que eram apenas mão-de-obra que vinha desempenhar certas tarefas e depois voltava para o seu país. Essa é a verdadeira xenofobia: ignorar a existência e as dificuldades das pessoas, recusar-lhes o "nós", vê-las apenas como factores de produção importados temporariamente para permitir o crescimento económico, e que serão devolvidos à proveniência quando já não forem necessários.
viva!
Os miúdos da gruta da Tailândia já estão a salvo. O treinador também. Agora faltam os heróis que ficaram com eles na gruta, e os que foram para apoiar a operação. A minha eterna admiração pelo médico que ficou com eles lá dentro até ao fim, e por todos os outros que arriscaram a sua vida para salvar estas 13 pessoas.
É fazer figas só mais um bocadinho até ficarmos inteiramente aliviados e livres para passar para a próxima comoção generalizada que faz de nós seres humanos em comunhão com outros.
Só uma coisa me incomoda: e o lixo, hã? Aposto que não mandaram ninguém para recolher toda aquela tralha de cobertores de plástico metalizado, garrafas, seringas, sei lá o quê! Depois os nossos oceanos ficam como se sabe.
(Não liguem. Era eu a experimentar como é fazer de resmungão perante o entusiasmo alheio. ;) )
as perguntas que as crianças fazem
Passei por uma conversa no facebook sobre as perguntas que as crianças pequeninas fazem, e como lhes responder. "O que é branqueamento de capitais?" e "o que é prostituição?", por exemplo. Lembrei-me do tempo em que era eu a destinatária de perguntas dessas.
A Christina, aos três anos:
- Mãe, o que é que estas senhoras estão a fazer paradas na rua a esta hora da noite?
- Estão à espera que um senhor as leve no seu carro.
(Para que conste: não menti!)
Aos sete anos, na zona portuária de San Francisco:
- Mãe, esta loja que diz "Kisses", o que é que vende?
- Isso mesmo: beijos. É um sítio onde se paga para nos darem beijos. Vê lá tu! Pessoas que não têm quem lhes dê os beijos de graça! Que esquisito.
Matthias, aos cinco anos, quando - recém-chegada a Weimar - procurei o supermercado a meio da encosta e acabei em Buchenwald:
- O que é este lugar?
- É um sítio onde um governante muito mau que houve na Alemanha prendia todas as pessoas de quem não gostava. Podia ter-me acontecido a mim, por ter o cabelo castanho e não falar bem alemão. Ele decidia que as pessoas com uma determinada aparência não podiam viver normalmente na Alemanha, e só por causa disso prendia-as aqui.
- Se vivesses nesse tempo, o que é que terias feito?
- Não sei. Se fizesse alguma coisa contra eles, podiam prender-me e entregar-vos a uma família dos maus, para vos educarem como maus. E tu, o que terias feito se vivesses nesse tempo?
- Perguntava aos maus: "porque é que vocês estão a fazer isto?"
Suspeito que a Hannah Arendt ia gostar deste alemãozinho.
Quando eu era criança e fazia perguntas incómodas, os adultos respondiam-me que eu era demasiado pequena para entender. Ainda tentei argumentar: "tenta responder-me, e logo se vê se eu entendo ou não". Mas eles calavam-se, deixando-me frustrada e revoltada.
Tenho a certeza que as crianças nunca são demasiado pequenas para entender.
Pelo contrário: muitas vezes entendem melhor que os adultos. A resposta do miúdo de cinco anos em frente a Buchenwald foi uma grande lição para a mulher de quase quarenta anos que eu era.
A Christina, aos três anos:
- Mãe, o que é que estas senhoras estão a fazer paradas na rua a esta hora da noite?
- Estão à espera que um senhor as leve no seu carro.
(Para que conste: não menti!)
Aos sete anos, na zona portuária de San Francisco:
- Mãe, esta loja que diz "Kisses", o que é que vende?
- Isso mesmo: beijos. É um sítio onde se paga para nos darem beijos. Vê lá tu! Pessoas que não têm quem lhes dê os beijos de graça! Que esquisito.
Matthias, aos cinco anos, quando - recém-chegada a Weimar - procurei o supermercado a meio da encosta e acabei em Buchenwald:
- O que é este lugar?
- É um sítio onde um governante muito mau que houve na Alemanha prendia todas as pessoas de quem não gostava. Podia ter-me acontecido a mim, por ter o cabelo castanho e não falar bem alemão. Ele decidia que as pessoas com uma determinada aparência não podiam viver normalmente na Alemanha, e só por causa disso prendia-as aqui.
- Se vivesses nesse tempo, o que é que terias feito?
- Não sei. Se fizesse alguma coisa contra eles, podiam prender-me e entregar-vos a uma família dos maus, para vos educarem como maus. E tu, o que terias feito se vivesses nesse tempo?
- Perguntava aos maus: "porque é que vocês estão a fazer isto?"
Suspeito que a Hannah Arendt ia gostar deste alemãozinho.
Quando eu era criança e fazia perguntas incómodas, os adultos respondiam-me que eu era demasiado pequena para entender. Ainda tentei argumentar: "tenta responder-me, e logo se vê se eu entendo ou não". Mas eles calavam-se, deixando-me frustrada e revoltada.
Tenho a certeza que as crianças nunca são demasiado pequenas para entender.
Pelo contrário: muitas vezes entendem melhor que os adultos. A resposta do miúdo de cinco anos em frente a Buchenwald foi uma grande lição para a mulher de quase quarenta anos que eu era.
prioridades
"É muito bonito andarem assim com o coração nas mãos por causa dos miúdos na gruta da Tailândia, só é pena não pensarem nos miúdos nos barcos do Mediterrâneo; preocupam-se tanto com os animais abandonados mas não querem saber dos sem-abrigo; acham bem criminalizar a palmada dada aos filhos mas não se preocupam com os meninos da rua na América Latina; gastam num vestido de festa o dinheiro que podia alimentar uma aldeia africana durante um mês..."
Meus amigos, cada um é livre de se preocupar com o que lhe apetecer, e de varrer como lhe apetecer em frente à sua porta.
Escolham as vossas prioridades, e façam alguma coisa para melhorar a vida dos miúdos no Mediterrâneo, dos sem-abrigo, dos meninos da rua e dos famintos. E desamparem a loja dos que sofrem com os miúdos na gruta tailandesa, com os animais abandonados, com a violência contra crianças. Em vez de gastar a vossa energia a criticar as escolhas dos outros, façam vocês o que acham que deve ser feito.
Escolham as vossas prioridades, e façam alguma coisa para melhorar a vida dos miúdos no Mediterrâneo, dos sem-abrigo, dos meninos da rua e dos famintos. E desamparem a loja dos que sofrem com os miúdos na gruta tailandesa, com os animais abandonados, com a violência contra crianças. Em vez de gastar a vossa energia a criticar as escolhas dos outros, façam vocês o que acham que deve ser feito.
mundial de futebol, dia 16
MF 2018 Dia 16
Os homens russos andam zangados porque as mulheres dão claramente preferência aos estrangeiros, na rua as raparigas aceitam o flirt de homens que usam t-shirts das cores de um equipamento nacional. Os "verdes" e os "riscas azuis" estão particularmente bem posicionados na lista de preferências das mulheres: os mexicanos, os brasileiros e os argentinos. Quando a Argentina jogou contra a Nigéria, esgotaram-se os preservativos nas farmácias de São Petersburgo. No Parlamento russo, alguns deputados lançam apelos patéticos às mulheres russas. Avisaram-nas que o contacto com os estrangeiros só podiam trazer má sorte. "Os verdes e os azuis irão para casa em breve e nunca mais regressarão, mas nós permanecemos!", ameaçaram os deputados - mas ninguém lhes deu ouvidos.
Os homens russos andam zangados porque as mulheres dão claramente preferência aos estrangeiros, na rua as raparigas aceitam o flirt de homens que usam t-shirts das cores de um equipamento nacional. Os "verdes" e os "riscas azuis" estão particularmente bem posicionados na lista de preferências das mulheres: os mexicanos, os brasileiros e os argentinos. Quando a Argentina jogou contra a Nigéria, esgotaram-se os preservativos nas farmácias de São Petersburgo. No Parlamento russo, alguns deputados lançam apelos patéticos às mulheres russas. Avisaram-nas que o contacto com os estrangeiros só podiam trazer má sorte. "Os verdes e os azuis irão para casa em breve e nunca mais regressarão, mas nós permanecemos!", ameaçaram os deputados - mas ninguém lhes deu ouvidos.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 15
MF 2018 Dia 15
Depois de um aguerrido combate contra o campeão mundial, a Coreia do Sul ganhou à Alemanha. É certo que os coreanos já estavam eliminados e tinham de abandonar o Mundial de Futebol, mas levaram da capital tártara essa vitória. Como ganho suplementar e souvenir de Kasan levaram também o antigo chanceler alemão. Adieu Gerhard! Sem esforço não há arroz!
[N.T. - "Ohne Fleiß kein Reis" (sem esforço não há arroz), é um trocadilho ligado ao ditado alemão "Ohne Fleiß kein Preis" (sem esforço não há prémio).
"Sem esforço não há arroz - como me tornei alemão" é o título de um livro de Martin Hyun. Traduzo também rapidamente partes da apresentação desse livro: Martin Hyun é o Wladimir Kaminer coreano. (...) Filho de imigrantes coreanos, e desde 1993 um feliz cidadão alemão, é o modelo de integração bem-sucedida que todos gostam de dar. Martin Hyun descreve, de forma desarmante e com muito humor, as aventuras quotidianas dos estrangeiros na Alemanha. Desmascara tanto o debate político sobre a integração como as realidades sociais. Conta quantos filhos de emigrantes trabalham no Parlamento alemão. (...) E com os seus amigos de todos os países do mundo vai lutando pela vida na colorida selva urbana de Berlim.]
Depois de um aguerrido combate contra o campeão mundial, a Coreia do Sul ganhou à Alemanha. É certo que os coreanos já estavam eliminados e tinham de abandonar o Mundial de Futebol, mas levaram da capital tártara essa vitória. Como ganho suplementar e souvenir de Kasan levaram também o antigo chanceler alemão. Adieu Gerhard! Sem esforço não há arroz!
[N.T. - "Ohne Fleiß kein Reis" (sem esforço não há arroz), é um trocadilho ligado ao ditado alemão "Ohne Fleiß kein Preis" (sem esforço não há prémio).
"Sem esforço não há arroz - como me tornei alemão" é o título de um livro de Martin Hyun. Traduzo também rapidamente partes da apresentação desse livro: Martin Hyun é o Wladimir Kaminer coreano. (...) Filho de imigrantes coreanos, e desde 1993 um feliz cidadão alemão, é o modelo de integração bem-sucedida que todos gostam de dar. Martin Hyun descreve, de forma desarmante e com muito humor, as aventuras quotidianas dos estrangeiros na Alemanha. Desmascara tanto o debate político sobre a integração como as realidades sociais. Conta quantos filhos de emigrantes trabalham no Parlamento alemão. (...) E com os seus amigos de todos os países do mundo vai lutando pela vida na colorida selva urbana de Berlim.]
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Wladimir Kaminer
09 julho 2018
mundial de futebol, dia 14
MF 2018 Dia 14
O Irão lutou como um tigre, mas não passou. Um belo espectáculo, as iranianas em Saransk. No seu país não podem entrar nos estádios, em Saransk até deixaram cair os seus panos à prova de traça. A mulher desta foto não se parece com a sua própria fotografia no cartão de identificação.
O Irão lutou como um tigre, mas não passou. Um belo espectáculo, as iranianas em Saransk. No seu país não podem entrar nos estádios, em Saransk até deixaram cair os seus panos à prova de traça. A mulher desta foto não se parece com a sua própria fotografia no cartão de identificação.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 13
MF 2018 Dia 13
Na vertigem da emoção
Curiosamente, durante a transmissão russa do jogo contra o Uruguai, os comentadores conseguiram não mencionar nunca de forma clara que o jogo estava 2:0 ou 3:0, concentraram-se sempre na descrição de cada uma das jogadas, analisaram criticamente os jogadores, mas nem uma palavra sobre o que estava a acontecer realmente. Mais tarde, durante a avaliação do dia, foi anunciado que o próximo jogo da nossa vitoriosa equipa será contra a Espanha.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 12
MF 2018 Dia 12
A equipa russa, que nos dois primeiros jogos contra equipas árabes se mostrou inacreditavelmente rápida e forte, no confronto com o Uruguai revelou que não era capaz de jogar.
Idêntica pane ocorreu no concurso para o mais belo rosto do futebol russo. Natalia A., a vencedora, a rapariga das tranças louras, esteve em vários jogos, foi fotografada frequentemente e com gosto, e a sua imagem enfeitou as notícias no primeiro canal durante três dias. Ao quarto dia, espectadores atentos reconheceram em Natalia A. a actriz de filmes pornográficos Delilah G. e a televisão estatal trocou-a imediatamente pela águia bicéfala.
A equipa russa, que nos dois primeiros jogos contra equipas árabes se mostrou inacreditavelmente rápida e forte, no confronto com o Uruguai revelou que não era capaz de jogar.
Idêntica pane ocorreu no concurso para o mais belo rosto do futebol russo. Natalia A., a vencedora, a rapariga das tranças louras, esteve em vários jogos, foi fotografada frequentemente e com gosto, e a sua imagem enfeitou as notícias no primeiro canal durante três dias. Ao quarto dia, espectadores atentos reconheceram em Natalia A. a actriz de filmes pornográficos Delilah G. e a televisão estatal trocou-a imediatamente pela águia bicéfala.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 11
(Foto via Getty & AFP)
MF 2018 Dia 11
Quando o amor desperta
morre o sombrio déspota,
é noite, deixa-o morrer
e respira o ar livre do amanhecer...
Será que o amor salva, ou destrói? Só os franceses saberão responder a essa pergunta.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 10
MF 2018 Dia 10 - futebol e construção rodoviária
Enquanto a equipa alemã mantinha o país inteiro em suspenso por causa do jogo contra a Suécia, na Rússia as ruas eram arranjadas graças aos fãs de futebol. Tudo começou com os fãs croatas que saltaram para dentro do buraco de uma rua em Novgorod, a respectiva foto fez o seu caminho pelas redes sociais, 24 horas mais tarde o buraco estava fechado. Algo que os habitantes da cidade não tinham conseguido em anos. Os argentinos, depois da sua derrota contra os croatas, puseram-se à procura de buracos nas ruas. Encontraram um no qual cabiam quatro pessoas. Também ali a Câmara reagiu rapidamente. Foi assim que os cidadãos russos descobriram finalmente o que podem fazer para melhorar as ruas das cidades. Só têm de se mascarar de fãs de futebol estrangeiros, saltar para dentro dos buracos, e tirar fotografias.
[No sábado passado estive numa leitura do Kaminer. Ele contou esta história, e acrescentou: "Há dias a polícia foi interrogar os fãs estrangeiros dentro de um buraco, e descobriu que eram arménios disfarçados de argentinos."
- Ah, a diáspora arménia na Rússia, e as anedotas de arménios...]
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 9
MF 2018 Dia 9
O aquecimento global comanda o nosso estilo de vida, a temperatura sobe, os pólos derretem, Estados de escaldantes territórios desérticos rebentam uns após outros, os seus habitantes partem com a família em busca de um novo lugar onde viver, os filhos do Norte dão a volta ao mundo em busca de um emprego melhor. O mundo transforma-se num aquário, as fronteiras esbatem-se, uma Humanidade global entretém-se a chapinhar nele com uma escova de dentes na bagagem de mão. Só uma vez a cada quatro anos é que o mundo se divide de novo em nações, e joga futebol: país contra país. Estes jogos têm um efeito hipnótico sobre a população mundial. As lojas ficam desertas, milhares de milhões juntam-se em frente aos ecrãs. Só uma pequena minoria permanece alheia à magia do futebol. O meu amigo Peter é imune à febre futebolística, e saboreia o Mundial de Futebol à sua maneira muito especial. Quando os alemães jogaram contra os mexicanos, foi com a família à Ikea. Era um desses domingos em que é permitido ao comércio abrir as portas. Normalmente haveria centenas de pessoas em filas intermináveis, e só com muito esforço se conseguiria enfiar os filhos na „Småland“, o paraíso infantil dos suecos. À volta de cada peça de mobiliário haveria uma multidão que não deixaria Peter ver, quanto mais tocar. No dia do primeiro jogo dos alemães a Ikea estava vazia, deram ao seu filho todos os peluches do paraíso, e o próprio Peter pôde deitar-se em todas as camas da exposição e inspeccionar todas as cozinhas. Quando os alemães jogarem contra os suecos quer ir à piscina. Quer experimentar, uma vez na vida, fazer as suas piscinas em água lisa. O meu amigo tem planos fantásticos para o caso de os alemães conseguirem avançar no Mundial.
O aquecimento global comanda o nosso estilo de vida, a temperatura sobe, os pólos derretem, Estados de escaldantes territórios desérticos rebentam uns após outros, os seus habitantes partem com a família em busca de um novo lugar onde viver, os filhos do Norte dão a volta ao mundo em busca de um emprego melhor. O mundo transforma-se num aquário, as fronteiras esbatem-se, uma Humanidade global entretém-se a chapinhar nele com uma escova de dentes na bagagem de mão. Só uma vez a cada quatro anos é que o mundo se divide de novo em nações, e joga futebol: país contra país. Estes jogos têm um efeito hipnótico sobre a população mundial. As lojas ficam desertas, milhares de milhões juntam-se em frente aos ecrãs. Só uma pequena minoria permanece alheia à magia do futebol. O meu amigo Peter é imune à febre futebolística, e saboreia o Mundial de Futebol à sua maneira muito especial. Quando os alemães jogaram contra os mexicanos, foi com a família à Ikea. Era um desses domingos em que é permitido ao comércio abrir as portas. Normalmente haveria centenas de pessoas em filas intermináveis, e só com muito esforço se conseguiria enfiar os filhos na „Småland“, o paraíso infantil dos suecos. À volta de cada peça de mobiliário haveria uma multidão que não deixaria Peter ver, quanto mais tocar. No dia do primeiro jogo dos alemães a Ikea estava vazia, deram ao seu filho todos os peluches do paraíso, e o próprio Peter pôde deitar-se em todas as camas da exposição e inspeccionar todas as cozinhas. Quando os alemães jogarem contra os suecos quer ir à piscina. Quer experimentar, uma vez na vida, fazer as suas piscinas em água lisa. O meu amigo tem planos fantásticos para o caso de os alemães conseguirem avançar no Mundial.
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Wladimir Kaminer
mundial de futebol, dia 8
MF 2018 Dia 8
O Mundial de Futebol está a ser objecto de uma cobertura altamente politizada em todo o mundo (excepto talvez na Alemanha), e o jogador que aparece na primeira página é sempre o mesmo. Na Rússia entrevistam frequentemente barmen e empregados de restaurantes, e estes contam que os fãs de futebol comem extraordinariamente pouco, mas em compensação bebem muito - sobretudo cerveja. Entre os que mais bebem contam-se tunisinos, sauditas e marroquinos.
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Wladimir Kaminer
popularidade
Ontem recebi mais de cinquenta pedidos de amizade no facebook. Até um senhor do PNR queria ser meu amigo. Não percebi este repentino surto de popularidade. Alguém me explica que charme é o meu, que tais personagens atrai?
(Também havia um soldado americano e um jovem paquistanês - às tantas já se fazia uma ONU no meu mural de facebook...)
(Também havia um soldado americano e um jovem paquistanês - às tantas já se fazia uma ONU no meu mural de facebook...)
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viver na internet
08 julho 2018
mundial de futebol, dia 7
MF 2018 Dia 7
Depois da visita da equipa do Egipto ao hospitaleiro soberano da República da Tchetchénia, o jogo contra a Rússia começou com um golo egípcio na própria baliza. Uma vitória certa para os anfitreães. Os russos festejam, e cidadãos alemães preocupados apregoam aos quatro cantos do mundo e até Moscovo a sua frustração por não terem no seu país uma ditadura capaz, como se quisessem dizer "Oh, tu, sombrio estandarte do mal, vem tomar-nos!"
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Wladimir Kaminer
07 julho 2018
mundial de futebol, dia 6
MF 2018 Dia 6
A maravilhosa transformação da Polícia russa não me deixa em paz. Dantes, bastava um olhar torto, e nem sequer falo de um toque involuntário, para uma pessoa ser espancada, arrastada e condenada a pena de prisão. Agora, até os membros da Guarda Nacional sorriem, como se fossem pessoas iguais a nós. Dizem "Can i help you". Será que vão continuar assim depois do Mundial de Futebol? Talvez, se os russos jogarem hoje tão bem contra os egípcios como jogaram contra os sauditas. O futebol empresta ao putinismo um rosto humano. Definitivamente, vou ver este jogo.
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Wladimir Kaminer
olhar para o nosso país com olhos de ver
"Vai para o teu país, pá! Lá é que estás bem" é o título de um artigo de Paulo Tavares no DN que põe o dedo na ferida do racismo e da xenofobia que existem em Portugal.
Alguns excertos (mas convém ler o texto completo):
Não sei bem há quantas décadas andamos a aprender, ensinar e perpetuar narrativas mais ou menos enganadoras sobre quem somos e qual o nosso papel na história. A colonização amiguinha e inócua, os brandos costumes, o país inclusivo e quase nada racista e, mais recentemente, a ilha de razoabilidade e moderação política numa Europa rasgada por intolerância, xenofobia, nacionalismos e populismos vários.
Sobre este último ponto ou esta última narrativa que, em bom rigor, o nosso sistema político continua a confirmar, aconselho a leitura atenta dos dados deste quadro, com resultados de um inquérito do PEW Research Center.
(...)
Em Portugal, 80% dos inquiridos afirmam que é decisivo ter ascendência familiar no país para que alguém possa identificar-se como português (a média do inquérito é de 53%); ter nascido no país é um fator decisivo para 81% dos portugueses questionados (a média dos 15 países é de 51%) e, talvez mais surpreendente, para 62% dos inquiridos em Portugal, ser cristão é essencial para definir a identidade nacional (a média aqui é de apenas 34%). Já agora, se não reparou, convém dizer que o estudo apanha países com enorme pressão de vagas de imigrantes e refugiados, como Itália, França ou Espanha, e esses países não chegam perto dos valores registados em Portugal.
(...)
Lembra-se do caso "Preta de merda, queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país" contado aqui no DN por Fernanda Câncio? Quantas vezes viu, ouviu e leu o nome dela, da agredida Nicol Quinayas, seguido de "colombiana" ou "luso-colombiana"? A jovem tem 21 anos, nasceu na Colômbia é certo, mas vive em Portugal desde os 5. Fala português perfeito, com um igualmente perfeito sotaque do Porto. Depois, quantos comentários leu, nas redes, a desculpar a agressão com um "ela também deve ter feito das boas..." ou "passou à frente na fila, estava a pedi-las". Consciente ou inconscientemente, todos esses comentários fixavam-se na agressão, ignorando o discurso racista do agressor. Mesmo entre quem a defendia, quase todos lembravam a desproporção das agressões, o tamanho do agressor e a fragilidade da vítima, e... ignoravam os insultos racistas.
Não nos dá jeito encarar isto de frente, vamos preferindo as tais narrativas confortáveis que nos têm moldado enquanto povo e que raramente questionamos. Uma campanha "Todos diferentes, todos iguais", uns quantos discursos a elogiar a capacidade de inclusão e o caso está arrumado. Dormimos todos mais descansados.
06 julho 2018
mundial de futebol, dia 5
Bem sei que o dia 5 já foi há duas semanas, mas prometi traduzir toda a série "mundial de futebol na Rússia", do Wladimir Kaminer, e retomo-a no ponto onde a deixei. Cá vamos nós.
MF 2018 Dia 5
Um dos culpados da derrota da Alemanha, que aconteceu ontem, é o ministro do Interior (Horst) Seehofer. Entre os seus deveres contam-se a manutenção da paz pública, a ordem e a segurança. Tudo isso faltou à equipa alemã, quando os jogadores tentavam acompanhar a bola de forma ordeira e esforçada. Os caóticos mexicanos, que andavam de um lado para o outro em desordem total, deram-lhes muito trabalho. H. Seehofer tinha recebido das mãos da chanceler os bilhetes para o mundial de futebol, com instruções claras para apoiar a equipa nacional. Ele ignorou as ordens, não foi, e anda agora a abalar o governo eleito com tanto esforço. Exijo uma comissão parlamentar para investigar as suas qualificações.
Um dos culpados da derrota da Alemanha, que aconteceu ontem, é o ministro do Interior (Horst) Seehofer. Entre os seus deveres contam-se a manutenção da paz pública, a ordem e a segurança. Tudo isso faltou à equipa alemã, quando os jogadores tentavam acompanhar a bola de forma ordeira e esforçada. Os caóticos mexicanos, que andavam de um lado para o outro em desordem total, deram-lhes muito trabalho. H. Seehofer tinha recebido das mãos da chanceler os bilhetes para o mundial de futebol, com instruções claras para apoiar a equipa nacional. Ele ignorou as ordens, não foi, e anda agora a abalar o governo eleito com tanto esforço. Exijo uma comissão parlamentar para investigar as suas qualificações.
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Wladimir Kaminer
"Seehofer oferece a Merkel mais uma oportunidade para salvar a coligação"
Encontrei no facebook esta notícia do Público ("Seehofer oferece a Merkel mais uma oportunidade para salvar a coligação") com um comentário de Luís Januário dizendo o seguinte:Esta, evidentemente com outro título, é a notícia mais importante da
actualidade. Na sequência da reunião horribilis de que Costa saiu sem
voz, Seehofer, a direita da coligação de governo alemão tenta encostar
Merkel à parede. Merkel tem agora na Europa o grupo dito de Visegrado,
alargado à Itália e à Áustria e no interior do governo tem esta
serpente. O jornalista que escreve este título ou não percebe nada ou
não quer que os leitores percebam de que salvação se trata.
Por aqui as coisas estão a acontecer muito depressa. Seehofer apresentou a demissão, logo a seguir reconsiderou, e entretanto os tais "centros de trânsito" em três passagens de fronteira (e que não passam de um truque de ilusão para o eleitorado bávaro) vão passar a ser "procedimento de trânsito". Nem explico o que isto é, porque provavelmente amanhã já decidiram outra coisa...
Seehofer e o seu partido saíram completamente ridicularizados desta manobra. De tal modo que alguém lembrou uma frase antiga, a propósito de um outro episódio político: "quando o leão bávaro ruge, só sai mau hálito".
Por aqui as coisas estão a acontecer muito depressa. Seehofer apresentou a demissão, logo a seguir reconsiderou, e entretanto os tais "centros de trânsito" em três passagens de fronteira (e que não passam de um truque de ilusão para o eleitorado bávaro) vão passar a ser "procedimento de trânsito". Nem explico o que isto é, porque provavelmente amanhã já decidiram outra coisa...
Seehofer e o seu partido saíram completamente ridicularizados desta manobra. De tal modo que alguém lembrou uma frase antiga, a propósito de um outro episódio político: "quando o leão bávaro ruge, só sai mau hálito".
O problema de fundo é a AfD. Seehofer está a tentar não perder o eleitorado mais à direita. Ouvi recentemente a um deputado do partido da chanceler a exposição do dilema: se a coligação CDU/CSU se mantiver fiel aos princípios humanistas, os eleitores vão fugir para o partido populista, nacionalista e xenófobo que têm mais à direita.
O problema não é "esta serpente" no governo da Merkel. O problema é a serpente no seio do sistema democrático: a possibilidade de um partido oportunista e cínico ganhar uma grande parte do eleitorado. Como é que foi possível chegar a esta situação?
E, já agora, para o jornalista que escreve "nenhum dos cenários é animador para a chanceler: executivo minoritário ou eleições antecipadas": o problema não é haver novas eleições e a Merkel perder o poder. O problema é a AfD ganhar ainda mais lugares no Parlamento.
05 julho 2018
calor
Partilhei esta imagem há três anos, e bem posso repeti-la hoje. O noticiário informou que a Alemanha está perante a maior seca das últimas cinco décadas. Mostraram agricultores a queixar-se que vão perder metade da colheita. Eles e eu! Até estou a pensar pedir uma ajuda ao Estado por causa do meu microfúndio berlinense. Apesar de estar a ficar uma especialista em dilúvios várias vezes por semana, metade das ameixas e das maçãs estão no chão. E desconfio que o que gasto em água no tomatal dava para os comprar ao quilo na melhor loja biológica da cidade.
Com tanto calor, o que nos vale é o lago. Ao fim da tarde vamos dar um mergulho para refrescar.
Ou melhor: a ideia é ir dar um mergulho para refrescar, mas as árvores frondosas do caminho já nos refrescam de tal modo que ao chegar lá quase nem apetece. O Joachim atira-se logo, e nada meio quilómetro enquanto eu fico ali, vou?, não vou?, até que finalmente me decido - e me arrependo do tempo todo que estive para me decidir. Isto dava uma metáfora para uma coisa qualquer, mas está demasiado calor para pensar nisso.
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da minha vida vê-se um lago,
viver no campo
brincamos
Da Newsletter do Spiegel, hoje:
Uma breve explicação: os "centros de trânsito" que a CDU/CSU quer criar só existirão - se vierem a existir - em três pontos da fronteira da Baviera; uma rápida consulta ao smartphone permite a qualquer migrante evitá-los. Quem for parar a um desses centros pode regressar à Áustria, apanhar um táxi e deixar-se conduzir até à fronteira não vigiada mais próxima.
Tempos curiosos estes, quando os projectos do governo parecem fake news.
Num primeiro impulso, penso: "se este expediente servir para acalmar os AfD..."
Mas depois vejo a gravidade da questão: no centro da Europa - a tal Europa dos valores humanistas e dos direitos humanos - dois partidos do governo alemão discutem a possibilidade de criar campos de internamento de estrangeiros. Mesmo que estes centros não venham a ser criados, mesmo que não sejam tão estanques como o nome indica, o facto de se ter posto a hipótese de campos de retenção de refugiados é já uma derrota, porque instala a ideia de isso poder ser aceitável.
A AfD rejubila: água mole em pedra dura...
Uma breve explicação: os "centros de trânsito" que a CDU/CSU quer criar só existirão - se vierem a existir - em três pontos da fronteira da Baviera; uma rápida consulta ao smartphone permite a qualquer migrante evitá-los. Quem for parar a um desses centros pode regressar à Áustria, apanhar um táxi e deixar-se conduzir até à fronteira não vigiada mais próxima.
Tempos curiosos estes, quando os projectos do governo parecem fake news.
Num primeiro impulso, penso: "se este expediente servir para acalmar os AfD..."
Mas depois vejo a gravidade da questão: no centro da Europa - a tal Europa dos valores humanistas e dos direitos humanos - dois partidos do governo alemão discutem a possibilidade de criar campos de internamento de estrangeiros. Mesmo que estes centros não venham a ser criados, mesmo que não sejam tão estanques como o nome indica, o facto de se ter posto a hipótese de campos de retenção de refugiados é já uma derrota, porque instala a ideia de isso poder ser aceitável.
A AfD rejubila: água mole em pedra dura...
tocar o indizível: a poesia e os nomes de Deus
Este ano, o Encontro de Reflexão Teológica do movimento Metanoia vai ser ainda mais diferente do que é habitual. O tema é a poesia e o divino.
E eu aqui na insularidade. Vão estar lá o Fernando Echevarría e o Luís Soares Barbosa, e eu aqui na insularidade.
E vai estar o José Carlos Cantante, autor de algumas das canções litúrgicas que melhor iluminam o meu caminho de espiritualidade. Como esta:
Temos as mãos no vazio.
Nada tocam,
ainda que as saibamos feitas para lutar.
(...)
Ó Deus da nossa unidade:
faz-nos fortes.
A nossa força é trabalhar a aventura.
(...)
Seja o teu Reino um corpo,
o mistério no seu rosto
e as mãos de gestos simples de amor e invenção.
E eu aqui.
(A culpa é do Chico Buarque, que me esgotou o fundo de maneio para escapadinhas a Portugal. Desgraçou-me, não casa comigo, e ainda por cima canta o mesmo a todas. Triste vida.)
04 julho 2018
parece magia: puffff!
Uma pessoa encontra um comentário daqueles tipo "aimeudeus, os refugiados vão ser o fim da nossa rica Europa", responde, e pouco depois apercebe-se que está a falar com um troll, um desses que vive de espalhar nas redes sociais discurso de ódio contra os refugiados e os imigrantes que vêm para a Europa em busca de uma vida melhor.
Uma pessoa faz um donativo para a Troll Aid, e publica o recibo na desconversa que estava a ter, agradecendo ao troll o seu contributo para ajudar os refugiados.
Tipo:
E então, puffffff! O troll desaparece.
Já assisti a este fenómeno duas vezes. Parece magia.
Do site da organização:
Troll Aid has been launched to use the vile comments against refugees to our advantage! We all get upset when unkind words are spoken, but we are more powerful when we turn it round to become a positive action.
E então, puffffff! O troll desaparece.
Já assisti a este fenómeno duas vezes. Parece magia.
Do site da organização:
Troll Aid has been launched to use the vile comments against refugees to our advantage! We all get upset when unkind words are spoken, but we are more powerful when we turn it round to become a positive action.
If you see trolls on any page either Twitter or Facebook
(doesn’t have to be Calais Action) just simply reply to them using this
link and #TrollAid.
You can then donate money in their name and we can tell you how much money that particular troll has raised! Maybe give them a little thank you too.
You can then donate money in their name and we can tell you how much money that particular troll has raised! Maybe give them a little thank you too.
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viver na internet
"quantos refugiados é que a Europa conseguirá acolher sem entrar em colapso?"
Fonte: US Library of Congress, George Grantham Bain Collection
"Syria - Aleppo - Armenian woman kneeling beside dead child in field "within sight of help and safety at Aleppo"
Ontem escrevi um longo comentário em resposta a um troll que perguntava quantos refugiados a Europa pode receber sem entrar em colapso. Suspeito que ele tenha apagado o seu comentário (e o meu) por não ter gostado da resposta.
Nota mental: nunca responder aos comentários dos trolls no próprio comentário do facebook. Responder sempre abrindo um novo comentário. Assim, se o troll resolver apagar o seu discurso de ódio, os meus comentários não serão automaticamente apagados.
Aqui está o que respondi (desculpem-me as pessoas que acompanham este blogue há mais tempo, e já conhecem estes factos):
No princípio do séc. XX a cidade de Alepo era quase exclusivamente muçulmana. Quando começou o genocídio dos arménios, em 1915, milhares de pessoas foram enviadas em autênticas marchas da morte na direcção de Alepo. A cidade acolheu os sobreviventes, que chegavam andrajosos ou nus, doentes, traumatizados, e sem absolutamente nada de seu. Em poucos meses, mais de 10% da sua população passou a ser constituída por cristãos arménios. Em 1921, quando a França entregou a Cilícia (importante região dos arménios) à Turquia, Alepo acolheu nova vaga de cristãos. Estes chegaram a ser 25% da população daquela cidade tradicionalmente muçulmana.
O século XX foi um período muito duro para a economia de Alepo. A cidade, que já começara a perder poder económico após a construção do canal do Suez (que deslocou a Rota da Seda para o mar), no fim da I GM perdeu parte importante do seu território a norte, que foi entregue à Turquia, bem como a linha ferroviária de ligação a Mossul. Nos anos 40 perdeu também o porto de mar.
Apesar de lhe terem sido retirados uma área importante, a ligação ferroviária e o porto de mar, provocando uma situação de profunda crise económica, os refugiados estrangeiros cristãos não foram convertidos em bode expiatório. Quando a guerra civil síria começou, exactamente cem anos depois do início do genocídio dos arménios, a população muçulmana coexistia em boa paz com os seus vizinhos cristãos, que perfaziam cerca de 20% da população da cidade.
Para aqueles que agora vão dizer "ah, mas os cristãos são diferentes, são tolerantes, não incomodam as outras religiões" informo que para a maioria dos cristãos sírios o casamento com um muçulmano é considerado pecado grave. Casar com um ateu não é problema, mas com um muçulmano é um erro indesculpável, que em muitos casos leva ao repúdio por parte da família.
Voltando à questão inicial, sobre o risco de a Europa entrar em colapso por receber tantos refugiados de outras culturas e outras religiões: se uma cidade em situação de gravíssima crise económica foi capaz de acolher 10% de refugiados em poucos meses, e se foi capaz de coexistir com os descendentes destes durante um século, porque é que o continente mais rico do mundo, o continente mais bem apetrechado em termos de apoio aos pobres, não há-de ser capaz de fazer a mesma coisa?
03 julho 2018
a vida no Instagram tem muito mais charme
O Fox tem uma página (fechada) no Instagram, e eu estou um bocadinho viciada nos filmes, fotos e comentários engraçados que o Matthias e os amigos lá põem. De tal maneira que esta semana, apesar de ter o Fox comigo, volta e meia dei comigo a caminho de ir visitar a página dele no Instagram, para ver se havia novidades.
Um dia destes ainda me vêm pedir que entregue o meu cérebro à Ciência.
[Esta série de fotos podia chamar-se "à espera". As duas primeiras são à espera que eu acabe de regar o jardim, que está com as cores do Alentejo em Agosto; a última é já depois do passeio ao lago e da banhoca, à espera que eu acabe de fotografar o último damasco da colheita deste ano, antes de o dar ao Matthias.]
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viver na internet
"abraço"
Dizem que os alemães são pessoas frias, mas entre os beijinhos que os
portugueses dão (desde logo uma dúvida existencial: um ou dois?) e os
abraços apertados e calorosos dos alemães, prefiro mil vezes estes
últimos. Um abraço transmite muito melhor a amizade, a proximidade, o "estou contigo".
Quando vim morar para a Alemanha, há quase trinta anos, trouxe na bagagem este costume português de cumprimentar as pessoas com beijinhos na cara, em vez do aperto da mão dos menos próximos e o abraço dos amigos. Se fosse hoje, dir-se-ia que vim para cá descaracterizar esta cultura e complicar a vida aos alemães, e que devia ficar na minha terra e blablablAfD. Mas há trinta anos o pessoal não se armava em vítima dos estrangeiros. Sabiam perfeitamente como se manter fiéis às suas próprias tradições e convicções. De modo que quem se desgraçou fui eu, que avançava para os amigos do Joachim a preparar o beijo, mas eles não paravam a 20 cm de mim - chegavam bem perto, davam-me um abraço e eu, surpreendida e já sem conseguir travar, acabava sempre a largar-lhes o beijo no pescoço.
Água mole em pedra dura... os meus amigos habituaram-se aos beijos, e agora são eles que fazem questão de me cumprimentar assim. A moda do beijinho pegou - de tal maneira que a Angela Merkel já se queixou dos beijinhos que tem de dar a todos os políticos homens. Ela preferia o "passou bem" à distância. Penso que tem razão: porque é que a representante de um país tem de dar beijinhos aos homens, quando estes se dão apertos de mão, ou então abraços (ou beijinhos, abraços e bofetadas, no caso do Jean-Claude Juncker, quando o almoço é bem regado)?
Espero é que ninguém aqui na Alemanha tome conhecimento da minha quota-parte de responsabilidade nesta assimetria escandalosa. Em tempos de nacionalismos e medos de perder a identidade, ainda me arrisco a ser recambiada para o meu país.
(Estou a brincar, claro. Acho que foi o Sarkozy quem começou a pedir beijos à Merkel. Além disso, sendo a única portuguesa na minha pequena família, sou a mais alemã deles todos. Até já comecei a dar abraços e tudo.)
Quando vim morar para a Alemanha, há quase trinta anos, trouxe na bagagem este costume português de cumprimentar as pessoas com beijinhos na cara, em vez do aperto da mão dos menos próximos e o abraço dos amigos. Se fosse hoje, dir-se-ia que vim para cá descaracterizar esta cultura e complicar a vida aos alemães, e que devia ficar na minha terra e blablablAfD. Mas há trinta anos o pessoal não se armava em vítima dos estrangeiros. Sabiam perfeitamente como se manter fiéis às suas próprias tradições e convicções. De modo que quem se desgraçou fui eu, que avançava para os amigos do Joachim a preparar o beijo, mas eles não paravam a 20 cm de mim - chegavam bem perto, davam-me um abraço e eu, surpreendida e já sem conseguir travar, acabava sempre a largar-lhes o beijo no pescoço.
Água mole em pedra dura... os meus amigos habituaram-se aos beijos, e agora são eles que fazem questão de me cumprimentar assim. A moda do beijinho pegou - de tal maneira que a Angela Merkel já se queixou dos beijinhos que tem de dar a todos os políticos homens. Ela preferia o "passou bem" à distância. Penso que tem razão: porque é que a representante de um país tem de dar beijinhos aos homens, quando estes se dão apertos de mão, ou então abraços (ou beijinhos, abraços e bofetadas, no caso do Jean-Claude Juncker, quando o almoço é bem regado)?
Espero é que ninguém aqui na Alemanha tome conhecimento da minha quota-parte de responsabilidade nesta assimetria escandalosa. Em tempos de nacionalismos e medos de perder a identidade, ainda me arrisco a ser recambiada para o meu país.
(Estou a brincar, claro. Acho que foi o Sarkozy quem começou a pedir beijos à Merkel. Além disso, sendo a única portuguesa na minha pequena família, sou a mais alemã deles todos. Até já comecei a dar abraços e tudo.)
agarrem-me, que estão aqui a fazer-me um convite irrecusável!
Billie Holiday, Embraceable You: convite para uma sombra de um chaparro qualquer no meio do Alentejo, para ficar a ouvir enquanto largo o olhar pela planície lenta.
(e vocês: a que vos convida esta música?)
**
Passaram esta canção ontem na Enciclopédia Ilustrada. O tema do dia era ABRAÇO. Alguém partilhou a Sarah Vaughan (a seguir), e logo ofereceram outras versões do mesmo tema.
Vou-me repetir, para o caso de ter aqui leitores que não acreditam à primeira: a Enciclopédia Ilustrada é uma das coisas mais extraordinárias que há no facebook.
(Mas pus trancas à porta. Quem quiser entrar, tem de fazer pelo menos metade dos Sete Trabalhos de Hércules. Ou pouco mais ou menos.) (Mas todos podem ler, aqui: Enciclopédia Ilustrada)
(e vocês: a que vos convida esta música?)
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Passaram esta canção ontem na Enciclopédia Ilustrada. O tema do dia era ABRAÇO. Alguém partilhou a Sarah Vaughan (a seguir), e logo ofereceram outras versões do mesmo tema.
Vou-me repetir, para o caso de ter aqui leitores que não acreditam à primeira: a Enciclopédia Ilustrada é uma das coisas mais extraordinárias que há no facebook.
(Mas pus trancas à porta. Quem quiser entrar, tem de fazer pelo menos metade dos Sete Trabalhos de Hércules. Ou pouco mais ou menos.) (Mas todos podem ler, aqui: Enciclopédia Ilustrada)
02 julho 2018
sardinhada (1)
Amanhã conto com mais calma a bela sardinhada que juntou ontem centenas de portugueses num parque de Berlim. Hoje só dá mesmo para contar que, por causa da minha família, que levou o carro para um festival, eu fui de transportes públicos para o parque, e tive de me desenrascar como pude para levar a minha tralha toda (a carne, as mantas, os muitos etc. e ainda um cartaz para informar que a carne era de animais criados sem tortura).
O carrinho das compras cheio a transbordar, mais o saco IKEA em cima, mais o cartaz debaixo do braço, a entrar no comboio, a sair, a puxar penosamente toda aquela carga até ao eléctrico, a entrar e a sair do eléctrico, a entrar e a sair do autocarro, a puxar penosamente toda aquela carga pelo parque...
Em suma: atravessei mais de metade de Berlim a fazer figura de sem-abrigo.
(E ainda houve aquele momento extremamente embaraçoso ao sair do autocarro, quando as rodas do carrinho ficaram presas entre o autocarro e o passeio. Um dos passageiros saltou logo para me ajudar, mas as rodas estavam mesmo encravadas. O condutor fez cara de poucos amigos mas lá carregou num botão, o autocarro subiu ligeiramente, o carrinho libertou-se, e eu pude continuar o meu penoso percurso.)
(O passageiro que me veio ajudar tinha a pele um pouco mais escura que a minha. Podia ser alemão, podia ser turco, podia ser norte-africano, podia ser refugiado sírio ou iraquiano. Não sei. Sei apenas que estava atento, viu a minha aflição, e veio imediatamente ajudar. Nestes tristes tempos que correm, em que tão facilmente se dizem enormidades contra quem tem uma pele ligeiramente mais morena, acabo a reparar em pormenores destes como se tivessem importância. Tristes tempos, mesmo.)
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