Aconteceu no passado fim-de-semana na Alemanha:
- No sábado, em Münster, um esquizofrénico filho e neto de alemães meteu-se numa carrinha, largou-se para cima das pessoas sentadas numa esplanada, matou algumas, feriu muitas mais, e no fim suicidou-se com uma arma de fogo.
- Em Berlim, a polícia fez rusgas em várias casas e levou presos seis homens suspeitos de estarem a preparar um atentado durante a meia-maratona que se realizou no domingo nesta cidade. As armas seriam facas, e um dos membros do grupo é próximo do autor do atentado no mercado de Natal em 2016. Os homens estavam já sob observação, e a polícia decidiu agir agora não por ter motivos fortes para temer este ataque concreto, mas por precaução, uma vez que não se conheciam ainda os motivos do ataque de Münster. Neste momento estão a analisar os objectos recolhidos nas casas dos suspeitos.
- A Primavera chegou finalmente, e as estradas encheram-se de motociclistas. Se ouvi bem a notícia na rádio, só neste fim-de-semana morreram 9 deles devido a acidentes na estrada.
Ponto 1: Os acidentes na estrada matam muito mais que o terror islamista e todos os tresloucados que por aí andam. Se o tresloucado de Münster fosse um esquizofrénico filho de pais muçulmanos, a onda de choque e repúdio ia ser enorme. Como era apenas um tresloucado alemão, a tragédia não teve o mesmo impacto nas redes sociais. Quanto aos motociclistas que morreram no fim-de-semana passado: ouvi na rádio, mas não encontrei nenhuma notícia para verificar o número que ouvi. Aparentemente, o número de mortos na estrada nunca é notícia.
Os acidentes na estrada matam muito mais que o terror islamista, mas nós continuamos alegremente a conduzir em excesso de velocidade, a fazer manobras perigosas, a andar de bicicleta sem capacete, e todos os etc. da nossa vidinha. Parece que não temos medo da morte - só temos medo de morrer por culpa de um islamista.
Ponto 2: Nas redes sociais portuguesas encontrei posts sobre a tragédia de Münster, insinuando conspirações várias ligadas ao tema "a Europa anda a fechar propositadamente os olhos ao terrorismo islamista".
Ora bem, e falando da Alemanha: tem havido tragédias com vítimas mortais devido ao terrorismo islamista, devido ao terrorismo de extrema-direita, e devido a pessoas com problemas psíquicos graves (como o piloto da German Wings, o jovem refugiado afegão que atacou pessoas com um machado, ou o filho de iranianos que em Munique resolveu atrair turcos a um McDonald's para os matar); e há, obviamente, inúmeras vítimas mortais de acidentes por negligência grave, mas que a sociedade aceita sem fazer ondas, como condutores embriagados, ou ao telemóvel, ou a conduzir para lá de todos os limites do respeito pelos outros.
Convém que as pessoas que se focam demasiado na questão do terror islamista, e vêem automaticamente terror islamista em tudo o que acontece (muitas vezes havendo mesmo provas em contrário), saibam que essa atitude tem consequências. Muito concretamente, estão a dar para o peditório que usa agora os muçulmanos da mesma forma que os judeus foram usados na Europa há cerca de cem anos: um magnífico bode expiatório para os problemas do tempo, capaz de ser identificado como corpo estranho e ameaça para uma sociedade (ilusoriamente) uniforme, o que dá muito jeito para agregar acólitos e polarizar.
Na Alemanha, este é o terreno no qual germina e cresce a AfD.
Um exemplo prático, a partir dos tuítes de Beatrix von Storch, que é deputada deste partido no Parlamento Federal:
Logo a seguir às primeiras notícias da tragédia de Münster:
Tradução: "NÓS CONSEGUIMOS! 🤬
"
(citando a célebre frase de Angela Merkel a propósito do desafio de acolher e integrar os refugiados)
Um pouco mais tarde, quando se soube que o atacante era alemão (digamos, em linguagem que a AfD entende: "ariano"):
Tradução: "Não tem de ser um atentado islâmico. Claro que não. E se se vier a descobrir que se trata de um alemão doente, é isto que constato: já temos assassinos e tresloucados alemães em número suficiente. Não precisamos de aumentar esse número."
Tradução: "Fim de alerta. Tudo vai ficar bem. Não temos problema nenhum com o terrorismo islâmico e 700 pessoas que constituem uma ameaça. É tudo exagero. Verbalizar suspeitas é puro discurso de ódio.
Porque desta vez era (provavelmente) um alemão doente. #MeuDeusEnviaCérebrosDoCéu"
Tradução:
"Um imitador do terrorismo islâmico ataca. E os apologistas da
trivialização e do "Islão é diversidade" rejubilam. A extensão deste júbilo é a prova de que todos conhecem perfeitamente o perigo que se recusam a assumir: o Islão vai atacar de novo. A questão não é "se", mas "quando". #Realidade"
Após a notícia da prisão de seis suspeitos de preparar um atentado em Berlim:
Tradução: "NÓS CONSEGUIMOS! 🤬
(E de repente faz-se silêncio no exército de apologistas e hiper-ventiladores de subterfúgios. Mas com certeza que vocábulos como "instrumentalização" ou "ódio" podem ajudar. Go for it!) PRISÃO IMEDIATA PARA TODOS OS SUSPEITOS DE SEREM UMA AMEAÇA PARA A ALEMANHA! #BerlinHalf"
Está cá tudo: o ódio à Merkel por ter recebido refugiados / mais um atentado islâmico! / ah, afinal era só um alemão a imitar os terroristas islâmicos / não foi, mas podia ter sido, e o próximo será certamente / coitadinha de mim, não me deixam dizer o que penso / vêem como eu tinha razão? eles andam aí! / a culpa é da Merkel! (queridos eleitores do CDU, como vêem deviam votar antes AfD)
Em suma: o logótipo oficial da AfD é este:
mas o verdadeiro rosto deles é este:
Ponto 3: Sobre o verdadeiro rosto da AfD não há grandes dúvidas. E sobre o nosso? Como é que reagimos às tragédias que se sucedem? Temos sabido sempre distinguir entre um muçulmano e um terrorista islamista? Ou caímos inadvertidamente nas armadilhas do discurso populista da extrema-direita?