Ontem regressei à Filarmonia para espreitar para o seu futuro: vi pela primeira vez Kirill Petrenko a dirigir a orquestra que o escolheu para substituto do Simon Rattle.
A primeira peça foi o "poema dançado" La Péri, de Paul Dukas. O Kirill Petrenko dançou-o tão bem que até me esqueci de olhar para os músicos. Nem me lembrei de reparar no Ottensamer! - é só para verem como o Petrenko dançou bem.
A segunda peça foi o concerto nº 3 para piano de Sergej Prokofjew, e
a Yuja Wang tocou-o tão bem que até me esqueci de reparar no Petrenko.
Não consegui tirar os olhos dos dedos vertiginosos da pianista - e,
concedo, das suas costas nuas no vestido também vertiginoso (podem ler
mais abaixo, na secção Caras). Ocorreu-me que quem devia estar sentado
no lugar do concertino era o Michelangelo, a apreciar o jogo dos
músculos sob a pele enquanto ela se entregava àquelas extraordinárias
acrobacias no teclado.
A
terceira peça foi a quarta sinfonia de Franz Schmidt. Por essa altura
já eu estava habituada ao estilo do maestro, e sem a Yuja Wang na sala,
pude concentrar-me inteiramente nesta obra (e às vezes no Ottensamer).
Traduzo do programa:
Schmidt terminou esta peça em Novembro de 1933, na sua casa nos arredores
de Viena. A sinfonia reflecte a sua trágica biografia: em 1919 a sua
mulher fora internada na psiquiatria (onde viria a ser assassinada em
1942 no âmbito do programa de "eutanásia" nazi), e a filha de ambos,
Emma, morrera em 1932 após um parto. Schmidt chamou a esta sinfonia
"requiem para a minha filha".
Como será possível escrever algo tão belo a partir do turbilhão do sofrimento pessoal e daquele tempo?
Durante todo o concerto
lembrei-me do comentário de um dos músicos, ao dar a conhecer a decisão
da orquestra. Contou ele que a princípio foi muito difícil escolher o
substituto de Simon Rattle, mas quando o nome de Kirill
Petrenko veio à baila deram-se conta de que os poucos concertos da orquestra com
ele tinham sido momentos realmente especiais. Depois do concerto de
ontem, só posso acrescentar: acredito, e não me admiro.
Conclusão:
parece-me que estão reunidas as condições para, mesmo depois da saída
de Simon Rattle, continuar a ser muito feliz na Filarmonia.
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Secção CARAS deste post:
A
pianista Yuja Wang é também conhecida pelos vestidos que usa em
concerto. Já a vi num que era uma aflição, tudo tão résvés que sabia-se
lá o que podia acontecer se ela tocasse mais uma notinha que fosse sem
estar na partitura. Mas dessa vez correu tudo bem, e o concerto foi
inesquecível.
A verdade é que todos os concertos da Yuja Wang são inesquecíveis, e não é por causa dos seus vestidos.
Desta
vez trazia um vestido como nunca vi num palco destes. Vermelho, de
rendas fugazes sobre a pele e muitos brilhantes. Se não fosse comprido -
comprido mas transparente, claro, que estamos a falar do estilo Yuja
Wang - era mais tipo patinagem artística. Pude apreciar o conjunto com
calma durante a sessão de autógrafos: o tule transparente sobre a pele, o
desenho das rendas, e os sapatos de salto tão alto que ela ainda se
arrisca a não receber indemnização do seguro caso caia dali abaixo e
parta uma mão. Também pude apreciar o seu estilo: simpática, despachada,
desenrascada a resolver os problemas de quem não sabia como tirar uma
selfie com ela.
Uma carrinha atropelou um grupo de pessoas no centro de Münster. É tudo o que se sabe naquele momento. No entanto, nos media de acesso aberto como o Twitter ou o Facebook, e também nos grupos de chat como o Whatsapp, multiplicam-se os boatos e as especulações. Deputadas aproveitam a tensão para espalhar a sua visão pessoal do mundo [traduzi os tuítes da Beatrix von Storch aqui], utilizadores das redes sociais semeiam notícias falsas e meias verdades. Já aprendemos com o amok no centro comercial de Munique como situações assim confusas se podem transformar em pânico (aqui pode ler-se uma reconstrução do que aconteceu nessa noite: "Um atacante, um local - e uma cidade aterrorizada: como é que do amok de Munique se fez um atentado terrorista com 67 alvos. Uma reconstrução. [em alemão]).
Apelo à discrição e à calma
Por esse motivo, o pedido da polícia de Münster, que se repetirá várias vezes ao longo dessa tarde, é muito mais que apenas um tuíte. É o apelo à discrição e à calma - justamente por causa do sobressalto daquelas horas. Em situações destas, as pessoas têm tendência a partilhar o seu choque emocional - isso já acontecia antes de haver smartphones. Mas estes aparelhos permitem que o choque pessoal se transforme rapidamente num boato que cria pânico e se espalha a grande velocidade. Por isso, e particularmente em tais momentos, vale a pena respirar fundo e reflectir. O tuíte da polícia de Münster pretendia lembrar essa questão.
Depois do ataque de pânico em Munique, preparei com alguns colegas sete regras que, em situações como estas, podem ajudar a evitar o pânico - e a manter a calma. Podem ler-se aqui [em alemão] e ser partilhadas entre amigos e colegas com o hashtag #evitarpanico, pedindo-lhes para permanecerem calmos.
As regras são estas:
1. Sei que as informações que divulgo serão consideradas fiáveis pelos meus amigos. Especialmente em situações difíceis, quero estar à altura dessa responsabilidade perante os meus amigos - e por isso penso muito antes de publicar algo.
2. Antes de publicar ou de enviar algo aos meus amigos, respiro fundo três vezes - e procuro pelo menos duas fontes de confiança que dêem a mesma informação.
3. Não espalho boatos! Só me interesso por informações confirmadas, e tento manter-me longe de especulações. Por isso, procuro apenas os sites oficiais, os media sérios e as contas verificadas.
5. Partilho com a polícia as informações e as imagens pertinentes, em vez de as partilhar nas redes sociais. Mais ainda se ferem a dignidade das vítimas, ou se são úteis para os agressores.
6. Evito a todo o custo partilhar soluções imediatas para o problema. Conheço o reflexo do "imediatismo comentador" (Bernahrd Pörksen) e evito segui-lo.
7. Por muito difícil que seja uma situação, não me vou entregar ao pânico e não vou colaborar no aumento do medo. Este é o objectivo central do terrorismo: espalhar o medo e o ódio. Oponho-me a isso! Prefiro que o meu comportamento seja um contributo para manter a serenidade nas redes sociais.































