Li numa revista qualquer (isto sou eu a tentar escapar a uma possível multa) que uma jovem alemã pediu ajuda aos seus amigos sírios para mudar de casa em Berlim. Eles disseram que sim, e ela foi buscá-los na carrinha de mudanças. Como só havia três lugares à frente, alguns foram no compartimento da carga. Sabem como é, é só dez minutinhos, e vai conduzir com calma e segurança, e é mais prático assim - essas coisas que se dizem em casos destes.
Correu tudo muito bem.
No fim, quando já estavam todos sentados à volta das pizzas habituais nestes trabalhos, um deles comentou que aqueles dez minutos no compartimento de carga tinham sido horríveis.
A gente sabe - até sabe que alguns deles têm pesadelos todas as noites por causa da "via sacra" que fizeram da Síria à Alemanha -, mas acaba por esquecer. De tanto se habituar a vê-los como iguais, esquece que estão marcados pelo terror da morte.
30 março 2018
"martírio" (2)
Esta manhã, Frederico Lourenço escreveu no facebook:
"De alguma forma, a imagem da crucificação de Jesus propõe à nossa consideração uma espécie de sinédoque visual do sofrimento humano: é a parte abarcável que nos põe em confronto com um todo inabarcável – pois desse todo fazem parte as masmorras da Inquisição, da Gestapo e da KGB; dele fazem parte genocídios de povos inteiros; dele fazem parte as tragédias de hoje na Síria e no Iraque; dele fazem parte toda a fealdade hedionda do ser humano.
Pensarmos, pois, com toda a nossa compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz é, assim, uma pequena tentativa de abarcarmos o inabarcável. É darmos um nome a um sofrimento que é global, milenar e anónimo."
Este texto serve bem para explicar porque é que o símbolo do cristianismo tinha de ser uma cruz. Mas o meu problema com "a compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz" é o risco de esquecermos todos os outros, e todas as outras cruzes.
Repito o post que publiquei há um ano na Enciclopédia Ilustrada:
Um refugiado amigo do meu filho contou-lhe alguns dos momentos terríveis que passou na Turíngia. Por exemplo: estar fechado numa casa cercada por neonazis enfurecidos. Ou não poder sair à noite nem para ir à bomba de gasolina mais próxima, porque havia grupos de neonazis à espera, para dar uma tareia a algum refugiado que saísse do centro para ir à loja de conveniência.
Acompanho as estatísticas dos ataques a refugiados na Alemanha, sei que este ano - e ainda só vamos no quarto mês - já houve 9 ataques incendiários a centros de refugiados, e 15 casos de violência com danos corporais. Mas uma coisa é conhecer os números, e outra coisa é sentir o medo, o pavor de se saber cercado por brutamontes que alimentam a sua violência com ódio xenófobo. Tenho ideia do que será esse medo: uma vez assisti a uma marcha de 200 neonazis ao lado da minha casa. Estava a algumas dezenas de metros deles, numa perpendicular da rua em que desfilavam, e não era o objecto directo do seu ódio. Mesmo assim, senti um medo terrível. Ontem, quando o meu filho contava as histórias do seu amigo, lembrei-me dos urros que ouvi nesse desfile, e por uns momentos estive dentro da pele daquele homem. Como é que os refugiados aguentam estas tensões? E como é que aguentam viver sem condições mínimas, durante meses e anos à espera de uma decisão do Estado sobre a sua permanência neste país ou o repatriamento? Como é que aguentam a decisão de serem repatriados - para o Afeganistão, por exemplo - porque o seu país não é considerado "assim tão perigoso"?
Sei, de outros amigos dos meus filhos que já aprenderam alemão e arranjaram um bom trabalho, como é o choque ao receber a carta que os obriga a regressar ao seu país. No lugar deles, tentaria todos os esquemas possíveis para ir ficando. Tanto mais que são tratados como meros peões no difícil jogo político de cedências e equilíbrios possíveis.
Hoje é Sexta-feira Santa. Falamos tanto do sofrimento de Jesus Cristo, e esquecemos tão facilmente o sofrimento horroroso, o medo, a angústia, o desespero destes que precisam da nossa ajuda. Fui à igreja, ouvi o padre na homilia mencionar o martírio de Jesus, e citar o pedagogo Pestalozzi, que terá dito que o sofrimento tanto pode elevar o ser humano como pode torná-lo selvagem. Fiquei a pensar que há algo de hipócrita no modo como acusamos aqueles que acabam transtornados pelos sofrimento. Como se esse sofrimento fosse inteiramente alheio à nossa vontade e responsabilidade. Falo das armas das quais eles fogem, tantas delas fabricadas e vendidas por empresas europeias. Falo dos conflitos dos quais eles fogem, em grande parte causados por uma gestão egoísta e arrogante dos nossos interesses. Falo do ódio e do racismo com que se deparam ao chegar à Europa, e falo do comodismo com que viramos costas e ignoramos o seu martírio. É muito mais fácil chegar à Semana Santa e pensar no que Jesus sofreu, vai para 2000 anos, para a redenção dos nossos pecados...
"De alguma forma, a imagem da crucificação de Jesus propõe à nossa consideração uma espécie de sinédoque visual do sofrimento humano: é a parte abarcável que nos põe em confronto com um todo inabarcável – pois desse todo fazem parte as masmorras da Inquisição, da Gestapo e da KGB; dele fazem parte genocídios de povos inteiros; dele fazem parte as tragédias de hoje na Síria e no Iraque; dele fazem parte toda a fealdade hedionda do ser humano.
Pensarmos, pois, com toda a nossa compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz é, assim, uma pequena tentativa de abarcarmos o inabarcável. É darmos um nome a um sofrimento que é global, milenar e anónimo."
Este texto serve bem para explicar porque é que o símbolo do cristianismo tinha de ser uma cruz. Mas o meu problema com "a compaixão no homem de Nazaré pregado na cruz" é o risco de esquecermos todos os outros, e todas as outras cruzes.
Repito o post que publiquei há um ano na Enciclopédia Ilustrada:
(fonte)
Um refugiado amigo do meu filho contou-lhe alguns dos momentos terríveis que passou na Turíngia. Por exemplo: estar fechado numa casa cercada por neonazis enfurecidos. Ou não poder sair à noite nem para ir à bomba de gasolina mais próxima, porque havia grupos de neonazis à espera, para dar uma tareia a algum refugiado que saísse do centro para ir à loja de conveniência.
Acompanho as estatísticas dos ataques a refugiados na Alemanha, sei que este ano - e ainda só vamos no quarto mês - já houve 9 ataques incendiários a centros de refugiados, e 15 casos de violência com danos corporais. Mas uma coisa é conhecer os números, e outra coisa é sentir o medo, o pavor de se saber cercado por brutamontes que alimentam a sua violência com ódio xenófobo. Tenho ideia do que será esse medo: uma vez assisti a uma marcha de 200 neonazis ao lado da minha casa. Estava a algumas dezenas de metros deles, numa perpendicular da rua em que desfilavam, e não era o objecto directo do seu ódio. Mesmo assim, senti um medo terrível. Ontem, quando o meu filho contava as histórias do seu amigo, lembrei-me dos urros que ouvi nesse desfile, e por uns momentos estive dentro da pele daquele homem. Como é que os refugiados aguentam estas tensões? E como é que aguentam viver sem condições mínimas, durante meses e anos à espera de uma decisão do Estado sobre a sua permanência neste país ou o repatriamento? Como é que aguentam a decisão de serem repatriados - para o Afeganistão, por exemplo - porque o seu país não é considerado "assim tão perigoso"?
Sei, de outros amigos dos meus filhos que já aprenderam alemão e arranjaram um bom trabalho, como é o choque ao receber a carta que os obriga a regressar ao seu país. No lugar deles, tentaria todos os esquemas possíveis para ir ficando. Tanto mais que são tratados como meros peões no difícil jogo político de cedências e equilíbrios possíveis.
Hoje é Sexta-feira Santa. Falamos tanto do sofrimento de Jesus Cristo, e esquecemos tão facilmente o sofrimento horroroso, o medo, a angústia, o desespero destes que precisam da nossa ajuda. Fui à igreja, ouvi o padre na homilia mencionar o martírio de Jesus, e citar o pedagogo Pestalozzi, que terá dito que o sofrimento tanto pode elevar o ser humano como pode torná-lo selvagem. Fiquei a pensar que há algo de hipócrita no modo como acusamos aqueles que acabam transtornados pelos sofrimento. Como se esse sofrimento fosse inteiramente alheio à nossa vontade e responsabilidade. Falo das armas das quais eles fogem, tantas delas fabricadas e vendidas por empresas europeias. Falo dos conflitos dos quais eles fogem, em grande parte causados por uma gestão egoísta e arrogante dos nossos interesses. Falo do ódio e do racismo com que se deparam ao chegar à Europa, e falo do comodismo com que viramos costas e ignoramos o seu martírio. É muito mais fácil chegar à Semana Santa e pensar no que Jesus sofreu, vai para 2000 anos, para a redenção dos nossos pecados...
25 março 2018
pediram-me para escolher textos do blogue para ler no tal programa
Chega uma pessoa às filmagens, com um discurso mais ou menos alinhavado sobre o modo como o blogue começou, e pedem-lhe para escolher textos do blogue para ler.
Sei lá que textos escolher! São todos como filhos.
Quer dizer: são todos como enteados. Já não me lembro de praticamente nada do que escrevi.
Percorro o blogue ao acaso. Olha este: gosto. E mais este: também gosto. E este: eu escrevi isto?! caramba, saiu-me mesmo bem.
Mais me valia propor à TV um programa tipo "maratona de blogue". Começava a ler a eito, e eles iam passando de uma câmara para a outra. Não lhes custava quase dinheiro nenhum. Provavelmente também não tinham público nenhum, excepto meia dúzia de centenas de resilientes. Mas, ora bem: eu também não tenho mais público, e continuo por aqui. :)
De modo que agora vou pensar nos tais textos, mas (será o Freud a fazer das suas?) só me ocorrem os mais antigos, os que foram apagados por engano há um bom par de anos.
Sei lá que textos escolher! São todos como filhos.
Quer dizer: são todos como enteados. Já não me lembro de praticamente nada do que escrevi.
Percorro o blogue ao acaso. Olha este: gosto. E mais este: também gosto. E este: eu escrevi isto?! caramba, saiu-me mesmo bem.
Mais me valia propor à TV um programa tipo "maratona de blogue". Começava a ler a eito, e eles iam passando de uma câmara para a outra. Não lhes custava quase dinheiro nenhum. Provavelmente também não tinham público nenhum, excepto meia dúzia de centenas de resilientes. Mas, ora bem: eu também não tenho mais público, e continuo por aqui. :)
De modo que agora vou pensar nos tais textos, mas (será o Freud a fazer das suas?) só me ocorrem os mais antigos, os que foram apagados por engano há um bom par de anos.
23 março 2018
enquanto escrevo este post
Atenção, isto é uma estreia: estou rodeada de câmaras, a escrever "em directo" para o blogue. Enfim, era essa a intenção, mas está complicado. Tento alinhavar alguma coisa de interessante, fazendo de conta que não estou rodeada de câmaras que estão a gravar, mas nem consigo pensar. Triste vida. Vou ter de recorrer ao velho truque: fazer de conta que estou a falar para uma amiga, que é quando os textos me saem com mais facilidade. Cá vamos nós:
Olá Paula,
nem queiras saber o que me está a acontecer agora mesmo! Estou a tentar fazer um ar inteligente, sexy, divertido e natural, tudo ao mesmo tempo, para aparecer num programa que vai passar na TV, sobre blogues. Ora bem: não consigo. É um bocado difícil combinar o sexy com o inteligente (emboramente: ontem jantei com uma mulher assim) (oh, diabo: ontem jantei com três mulheres assim!) (ufff, escapei por pouco! era agora que me ia desgraçar de vez!)
e ao mesmo tempo manter um ar divertido e natural. Além disso, não me posso esquecer de estar sempre com as costas direitas, por causa de dar o bom exemplo e para não ficar com a ordem dos médicos ortopedistas à perna, e também porque a Christina me avisou que a roupa que tenho vestida fica mal quando começo a escorregar pela cadeira. Também não me posso esquecer de pôr a mão no queixo volta e meia, para parecer intelectual. Há tempos percebi que esta de pôr a mão no queixo não é bem uma questão de intelectualidade - provavelmente é mesmo só para esconder o queixo duplo.
(Oh pá! Estão agora mesmo a gravar-me de perfil! Será que consigo escrever com uma mão enquanto uso a outra para tapar o queixo?)
(Acabei de descobrir que ter uma câmara a meio metro de mim tem um efeito curioso sobre os meus neurónios: desliga-os.)
Em suma: esta vida de estrela de TV é um stress que nem te digo nem te conto! E assim se acaba um carreira que podia ter sido brilhante, mas não é para mim.
As filmagens continuam. Revelei-lhes que estou a fazer um post enquanto me filmam, e que o tema é variações de "socorro! estou a ser filmada enquanto escrevo, e tenho de fazer ar de inteligente!"
Descansaram-me. Disseram-me "daqui a nada já podes voltar ao normal"
E eu sei lá o que é o normal?...
Agora alguém passou em frente à câmara, de modo que temos de repetir o plano. Toca a escrever mais umas frases. Take number não sei quantos, here we go.
E assim vai a vida.
PS. O Fox tem agora uma conta no Instagram. Apesar de ser um grupo fechado, em dois dias já tem 60 seguidores. Mas são todos humanos. Ele não se importava nada de trocar estes sessenta por uma cadelinha. Coitado, devia ter aberto a conta logo no Tinder, e ir passear para os lados de uma clínica veterinária.
Olá Paula,
nem queiras saber o que me está a acontecer agora mesmo! Estou a tentar fazer um ar inteligente, sexy, divertido e natural, tudo ao mesmo tempo, para aparecer num programa que vai passar na TV, sobre blogues. Ora bem: não consigo. É um bocado difícil combinar o sexy com o inteligente (emboramente: ontem jantei com uma mulher assim) (oh, diabo: ontem jantei com três mulheres assim!) (ufff, escapei por pouco! era agora que me ia desgraçar de vez!)
e ao mesmo tempo manter um ar divertido e natural. Além disso, não me posso esquecer de estar sempre com as costas direitas, por causa de dar o bom exemplo e para não ficar com a ordem dos médicos ortopedistas à perna, e também porque a Christina me avisou que a roupa que tenho vestida fica mal quando começo a escorregar pela cadeira. Também não me posso esquecer de pôr a mão no queixo volta e meia, para parecer intelectual. Há tempos percebi que esta de pôr a mão no queixo não é bem uma questão de intelectualidade - provavelmente é mesmo só para esconder o queixo duplo.
(Oh pá! Estão agora mesmo a gravar-me de perfil! Será que consigo escrever com uma mão enquanto uso a outra para tapar o queixo?)
(Acabei de descobrir que ter uma câmara a meio metro de mim tem um efeito curioso sobre os meus neurónios: desliga-os.)
Em suma: esta vida de estrela de TV é um stress que nem te digo nem te conto! E assim se acaba um carreira que podia ter sido brilhante, mas não é para mim.
As filmagens continuam. Revelei-lhes que estou a fazer um post enquanto me filmam, e que o tema é variações de "socorro! estou a ser filmada enquanto escrevo, e tenho de fazer ar de inteligente!"
Descansaram-me. Disseram-me "daqui a nada já podes voltar ao normal"
E eu sei lá o que é o normal?...
Agora alguém passou em frente à câmara, de modo que temos de repetir o plano. Toca a escrever mais umas frases. Take number não sei quantos, here we go.
E assim vai a vida.
PS. O Fox tem agora uma conta no Instagram. Apesar de ser um grupo fechado, em dois dias já tem 60 seguidores. Mas são todos humanos. Ele não se importava nada de trocar estes sessenta por uma cadelinha. Coitado, devia ter aberto a conta logo no Tinder, e ir passear para os lados de uma clínica veterinária.
08 março 2018
enquanto não chega a primavera
Enquanto não chega a primavera, aqui deixo imagens das gracinhas mais recentes do tempo que faz em Berlim. As manhãs geladas, congelados os nenúfares que sobraram do Verão, e o Fox a ir-se embora mais uma vez. Não será uma triste vida, mas é a vida.
Cheguei a Portugal ontem, quase hoje. Deram-me canja verdadeira, e tangerinas colhidas no dia, tão pequenas e imperfeitas que pensei que seriam coisa de imitação, de loja chinesa mesmo muito barata. Nada disso: tinham o sabor das tangerinas do quintal da minha avó.
Portanto: entre ontem e hoje, cheguei a casa.
07 março 2018
dizem que é virtual
Daqui a bocadinho saio para férias em Portugal. Como não consigo abstrair do tempo que está em Berlim - ou, pior: como não sei que tempo faz em Berlim (em poucas horas passou de oito graus negativos para oito graus positivos, num dia andava o pessoal a patinar nos lagos gelados e no dia seguinte os jardins despertaram em primavera, agora está a nevar, daqui a bocadinho logo se verá) - fui pedir ajuda ao facebook:
Ora cá vamos nós outra vez, ver se o facebook serve para alguma coisa bla bla bla
Peço aos amigos portugueses que me digam, por favor: o que tinham hoje vestido, e em que região de Portugal estavam?
(não preciso de saber as cores - é mais tipo "camisola de lã de gola alta", "camisola interior Thermo-tebe", collants DEN 120, t-shirt de manga curta, etc.) (tenho de fazer a mala para ir passar uns dias a Portugal, e não consigo abstrair da neve que ainda hoje aqui caiu)
Desde já muito obrigada!
(Sim, sei da chuva: não sei se leve um escafandro, se leve um fato de mergulho)
Depois fui-me deitar. Esta manhã tinha cerca de trinta respostas, para várias regiões do país. Já sei perfeitamente o que devo meter na mala.
Às vezes lembro-me daquele cartoon de um velório onde só estavam o falecido e duas pessoas, e uma diz para a outra: "não entendo... tinha mais de 2000 amigos no facebook!"
Ora bem: não precisam de vir ao meu velório (if any, claro)
Momentos como este no facebook já me bastam.
Ora cá vamos nós outra vez, ver se o facebook serve para alguma coisa bla bla bla
Peço aos amigos portugueses que me digam, por favor: o que tinham hoje vestido, e em que região de Portugal estavam?
(não preciso de saber as cores - é mais tipo "camisola de lã de gola alta", "camisola interior Thermo-tebe", collants DEN 120, t-shirt de manga curta, etc.) (tenho de fazer a mala para ir passar uns dias a Portugal, e não consigo abstrair da neve que ainda hoje aqui caiu)
Desde já muito obrigada!
(Sim, sei da chuva: não sei se leve um escafandro, se leve um fato de mergulho)
Depois fui-me deitar. Esta manhã tinha cerca de trinta respostas, para várias regiões do país. Já sei perfeitamente o que devo meter na mala.
Às vezes lembro-me daquele cartoon de um velório onde só estavam o falecido e duas pessoas, e uma diz para a outra: "não entendo... tinha mais de 2000 amigos no facebook!"
Ora bem: não precisam de vir ao meu velório (if any, claro)
Momentos como este no facebook já me bastam.
06 março 2018
mais uma dúvida existencial
Estou a ser atacada por uma pasta de chocolate com menta, mal me distraio, zimbas, lá me salta mais um bocado para a boca.
Alguém sabe se a menta engorda?
Alguém sabe se a menta engorda?
mais um lamentável plágio
Isto o roubo de propriedade intelectual na internet está cada vez pior. Então eu tenho a ideia de pôr os berlinenses a patinar, e vão os da Amesterdão (os amesterdanenses? os amesterdianos?) e copiam logo ali a minha rica ideia?
Está mal.
Está mal.
05 março 2018
catrapum, ai!
Vários dias de temperaturas negativas, e depois chuva. Berlim acordou com uma fina placa de gelo sobre as ruas e os passeios. Ontem queixei-me de não ver a patinagem no lago. Hoje vai haver patinagem por todos os lados...
Se calhar era boa ideia embrulhar-me em plástico de bolhas de ar antes de ir passear o Fox.
04 março 2018
auto-insularidade
Hoje esteve um dia lindíssimo de sol e céu azul. A minha vizinha ofereceu-se para passear o Fox esta tarde - o que me deu muito jeito, porque ando há que dias a correr atrás de atrasos vários - e chegou muito tempo depois, contando que o Fox lhe fugiu pelo lago gelado e avançou desaustinado pelos jardins que fazem fronteira com a água, e ela meteu-se ao gelo para ir atrás do bicho, mas não teve medo que se quebrasse porque ia por lá uma enorme animação, com imensa gente a fazer patinagem.
Isto é uma triste vida: aqui ao lado de casa estava a acontecer uma cena de inverno tipo escola de pintura holandesa do séc. XVII, e eu sentada ao computador a correr atrás do atraso. Cada vez tenho mais jeito para me auto-insularizar...
(Repito a foto de ontem, vertendo uma lagriminha pela foto que me falhou: a de hoje, do mesmo lugar, cheio de gente a patinar.)
(Repito a foto de ontem, vertendo uma lagriminha pela foto que me falhou: a de hoje, do mesmo lugar, cheio de gente a patinar.)
03 março 2018
oito graus negativos
Havia oito graus negativos quando o Fox e eu fomos dar a primeira volta do dia. Levei gorro, mas nada de luvas nem de ceroulas. Hehehehe, comparada comigo, a Elsa do Frozen não passa de uma figurinha de desenhos animados.
Por estes dias, ouço estrondos abafados no lago: uma espécie de suspiros da água a lutar contra as massas de gelo. Algumas placas soltam-se, erguem-se e quebram. Tudo aquilo parece estranhamente vivo. Um dia destes talvez consiga gravar esses sons. Hoje, fiz apenas fotografias das cicatrizes no gelo, e também uma do Fox, para quem perguntou como estão as suas orelhas.
Depois de regressar, fui à internet ver que temperatura fazia lá fora. O Matthias apanhou-me a caminho do computador, e riu-se: "no meu tempo", disse ele, "para saber o frio que fazia abria-se a janela dois segundos".
O que me lembrou uma história antiga, que fui repescar aos confins deste blogue. Esta, de 2006:
Ao pequeno-almoço, ainda na penumbra da madrugada (sim, que quem como nós mora quase na Sibéria levanta-se mais ou menos a meio da noite para ir para a escola), o Matthias olhou pela janela e comentou:
"vejo que hoje vai estar quente, não preciso de vestir o casaco"
e eu desatei a pensar que crianças alemãs são vinho de outra pipa, e onde terá ele aprendido a prever o tempo?, e será da forma das nuvens?, será a direcção do vento?, será a luz?
Aí, ele interrompeu os meus neurónios que já iam a duzentos
"Vês ali aquela mulher? Vai pela rua abaixo sem casaco."
Pierre Boulez Saal
(fonte)
Acabei de reparar que a Pierre Boulez Saal faz amanhã um ano, e ainda não a conheço.
Como é que um ano passou tão depressa?!
Esta é a nova sala de música de câmara de Berlim, com projecto de Frank Gehry e trabalho de acústica de Yasuhisa Toyota, num antigo armazém da Ópera de Unter den Linden. Com os trabalhos de restauro e modernização da Ópera, o armazém ficou devoluto, e Barenboim aproveitou-o para instalar a sua Barenboim-Said Akademie e criar um espaço moderno de música de câmara. A sala é modulável para permitir mudar o tamanho do palco ou criar encenações inovadoras, tem forma elíptica, com o palco no centro, e uma galeria que parece pairar sobre a plateia. Se a arquitectura da Filarmonia de Paris me impressionou especialmente por essa sensação de blocos suspensos no ar, mais um motivo tenho para ir conhecer este projecto de arquitectura.
Pela newsletter vou sabendo o que acontece: iniciativas muito variadas, desde Rattle e Kožená até uma sessão gratuita de poesia síria, para o público berlinense se familiarizar com a música daquela língua. E, claro, Barenboim - como maestro e como pianista -, já que esta é a sua sala.
Mas há sempre algum motivo de força maior (e por vezes também a inércia, que é a maior das forças) que me vai fazendo adiar a estreia. Em suma: dá Deus as nozes, etc.
Em minha defesa aqui declaro que Deus exagera na quantidade de nozes que me dá! Se trocasse algumas das nozes por dias de 48 horas, isso é que era.
(Rica e mal-agradecida, eu sei...) (melhor seria terminar este post rapidamente, antes de me desgraçar de vez)
Neste site há um vídeo no qual Frank Gehry fala deste seu projecto, do trabalho com Barenboim e da reacção de Pierre Boulez ao saber da sala que ia ter o seu nome. E neste site há um pequeno filme sobre o que foi este primeiro ano da sala.
02 março 2018
quatro graus negativos
Quatro graus negativos, mas aqui a artista viu o céu azulíssimo e o magnífico sol e saiu sem luvas nem gorro.
Fique registado que quando se anda 2 km com quatro graus negativos e um bocadinho de vento as orelhas ficam hirtas, mas não caem ao chão a tilintar como um pedaço de gelo.
(Até parece que estou a entregar o meu corpinho à ciência...)
Harvey Weinstein nos Óscares 2018
(fonte: Variety)
Durante este fim-de-semana estará exposta no Hollywood Boulevard, perto do teatro onde decorre a gala de atribuição dos Óscares, uma escultura de Weinstein sentado numa chaise longue, feita pelos artistas plásticos Joshua "Ginger" Monroe e Jesus. Espertinhos: deixaram espaço no sofá para as pessoas se sentarem, fazerem selfies, e porem no facebook ou no instagram. A escultura chama-se "Casting Couch", que é o nome dado à prática de os poderosos exigirem a prestação de favores sexuais em troca de benefícios profissionais. O Hollywood Reporter explica bastante bem a instalação e a intenção dos autores.
Ao pesquisar o uso do termo em português encontrei um texto de um antigo professor universitário que tem outra definição de "casting couch": segundo ele, "é a expressão que traduz o fenómeno da prestação de favores sexuais em troca de benefícios profissionais", e dá exemplos da universidade, tais como alunas que lhe apareciam com decotes completamente despropositados pensando que assim conseguiriam boas notas.
Ora aqui está algo que convém esclarecer: o #metoo é sobre poderosos a exigir a prestação de serviços sexuais em troca de uma oportunidade de trabalho, ou sobre deliberadas ofertas de favores sexuais para atingir determinado objectivo? É que nos comentários que tenho lido por aí, há muita gente a confundir uma coisa com a outra.
Nos dois casos, contudo, não há margem para dúvidas quanto ao comportamento da parte que faz jeitinhos em troca de favores sexuais: é sempre responsável de ter abusado do seu poder a favor dos seus próprios interesses, e não dos da instituição que lhe outorga esse mesmo poder. Independentemente da definição de "casting coach", quem concede benefícios profissionais em troca de favores sexuais não é o profissional adequado para o lugar que ocupa.
como voltar ao "local do crime" de cabeça levantada
Lembram-se do caso dos envelopes trocados, na gala de atribuição dos Óscares de 2017? Jimmy Kimmel, que era o apresentador, afirmou que nunca mais voltava àquele palco. Um ano depois, vai estar lá outra vez. E fez este vídeo para dar o dito por não dito.
Não há dúvida: rir é o melhor remédio.
01 março 2018
a "hipocrisia dos progressistas"
Queria falar deste tema há já algum tempo, mas a Berlinale meteu-se pelo meio, e uma pessoa não dá vazão. Aconteceu no Governo Sombra de 4.2.2018: o Pedro Mexia falou de uma nova lei em Amesterdão que impede as pessoas que visitam o red light district de olhar para as senhoras nas montras. As pessoas têm de ficar de costas, para manter o respeito. Disse ele:
"Estamos a falar de senhoras nuas ou seminuas, numa montra com uma luz
vermelha por cima, expostas aos clientes. Mas o que é badalhoco: é o
olhar." (aqui, ao minuto 58:10)
Se tivesse sido apenas isto, era uma boa piada à maneira do Governo Sombra. Mas a introdução ao tema - acusando a "hipocrisia dos progressistas" - e o aparte "lá está: todas as semanas temos leis para comentar" transformam uma piadinha em mais um exemplo da famosa estupidez dos tempos que correm. Antes que a Bárbara Reis junte esta piada ao seu rol de casos estapafúrdios do politicamente correcto, cá vamos aos factos:
Para começar, não é uma lei. É um regulamento para os profissionais que andam com grupos turísticos na cidade. Perante o aumento brutal do número de turistas em Amesterdão e do consequente incómodo para quem lá vive ou trabalha, as autoridades municipais viram-se obrigadas a impor regras que permitam a coexistência mais ou menos pacífica entre os da terra e os visitantes. Para os guias que levam grupos de turistas ao Wallen, o tal famoso red light district, impõe-se o seguinte:
- Tours must be finished by 11:00 PM at the latest.
- Groups are not allowed to stand still at locations that may be particularly prone to traffic, like the canal bridges along Oudezijds Achterburgwal and store entrances during opening hours.
- Taking photos of sex workers is prohibited, and guides have to ensure that groups stand with their backs to the sex workers.
- Speakers or megaphones, shouting, and alcohol and drug use are prohibited during the tours.
- Before the tour starts, the guide must instruct the tour groups to show respect for local residents, businesses and sex workers.
O que mais me choca nestas regras é que tenha sido preciso escrevê-las. Em princípio, é óbvio que os turistas não podem perturbar a ordem pública, e que devem respeitar as pessoas do bairro. Também me parece óbvio que aqueles que ganham a sua vida com visitas guiadas ao bairro deviam ser os primeiros a velar para que o seu negócio não colida com os interesses que fazem do local um ponto de atracção turística. Chama-se a isso: "não matar a galinha dos ovos de ouro".
Quando visitei esse bairro pela primeira vez recomendaram-me muito que deixasse a câmara fotográfica no fundo do saco, porque me arriscava a que me partissem a câmara, ou a cara, ou ambas. De cada vez que lá vou, repetem o aviso. De modo que não tenho qualquer dúvida sobre o que pode começar a acontecer naquelas ruas se os guias aparecerem com grupos de dezenas de turistas e os deixarem ficar pespegados em frente às montras a olhar demoradamente para as mulheres e para os clientes. E não vejo qualquer "hipocrisia dos progressistas" no facto de um Estado impor regras para tentar conciliar interesses antagónicos no espaço público, em vez de deixar que uma das partes resolva o assunto à bofetada.
É certo que tudo aquilo é sórdido. Mas será que a sordidez do contexto basta para desculpar um olhar despudorado? A resposta pode ser dada por um miúdo de seis ou sete anos - como foi dada pelo meu filho, quando comentou que não gostava nada de ir à sauna, porque "tinha de se concentrar muito para não ver". Que é como quem diz: independentemente do contexto, a nossa atitude é comandada pela nossa educação e pela nossa ética.
Estima-se que cerca de metade dessas mulheres de Wallen não se prostitui de livre vontade. Algumas foram apanhadas pelas redes mafiosas na Europa de Leste, que as trazem para o centro da Europa prometendo-lhes trabalho e uma vida melhor. Em algum momento são violadas, forçadas à prostituição, e ameaçadas de que, se fugirem ou forem à polícia, alguém contará na aldeia delas que são putas, cobrindo-lhes a família de vergonha. Outras trabalham para pagar as dívidas e as despesas dos proxenetas, a que elas chamam namorados. Nos dois casos, é dificílimo ao aparelho do Estado ajudar as vítimas, porque elas são as primeiras a recusar o auxílio estatal.
Perante realidades tão sórdidas, o mínimo que se pode fazer é não olhar para essas mulheres como se fossem uma mercadoria.
Digam lá, a sério: é normal e aceitável um grupo de turistas estar parado na rua, em frente a uma mulher seminua, a apreciar e a comentar o corpo dela? E a olhar também para o cliente, a assistir à negociação, a apreciar com que cara sai depois de ter passado os tais quinze minutos com ela? Independentemente da sordidez de todo aquele ambiente: parece-vos estranho que a Câmara estabeleça padrões de comportamento para os guias que lá levam turistas? Não seria muito mais estranho que a Câmara se demitisse, e deixasse a situação evoluir para confrontos violentos entre as pessoas do bairro e os turistas?
Se tivesse sido apenas isto, era uma boa piada à maneira do Governo Sombra. Mas a introdução ao tema - acusando a "hipocrisia dos progressistas" - e o aparte "lá está: todas as semanas temos leis para comentar" transformam uma piadinha em mais um exemplo da famosa estupidez dos tempos que correm. Antes que a Bárbara Reis junte esta piada ao seu rol de casos estapafúrdios do politicamente correcto, cá vamos aos factos:
Para começar, não é uma lei. É um regulamento para os profissionais que andam com grupos turísticos na cidade. Perante o aumento brutal do número de turistas em Amesterdão e do consequente incómodo para quem lá vive ou trabalha, as autoridades municipais viram-se obrigadas a impor regras que permitam a coexistência mais ou menos pacífica entre os da terra e os visitantes. Para os guias que levam grupos de turistas ao Wallen, o tal famoso red light district, impõe-se o seguinte:
- Tours must be finished by 11:00 PM at the latest.
- Groups are not allowed to stand still at locations that may be particularly prone to traffic, like the canal bridges along Oudezijds Achterburgwal and store entrances during opening hours.
- Taking photos of sex workers is prohibited, and guides have to ensure that groups stand with their backs to the sex workers.
- Speakers or megaphones, shouting, and alcohol and drug use are prohibited during the tours.
- Before the tour starts, the guide must instruct the tour groups to show respect for local residents, businesses and sex workers.
O que mais me choca nestas regras é que tenha sido preciso escrevê-las. Em princípio, é óbvio que os turistas não podem perturbar a ordem pública, e que devem respeitar as pessoas do bairro. Também me parece óbvio que aqueles que ganham a sua vida com visitas guiadas ao bairro deviam ser os primeiros a velar para que o seu negócio não colida com os interesses que fazem do local um ponto de atracção turística. Chama-se a isso: "não matar a galinha dos ovos de ouro".
Quando visitei esse bairro pela primeira vez recomendaram-me muito que deixasse a câmara fotográfica no fundo do saco, porque me arriscava a que me partissem a câmara, ou a cara, ou ambas. De cada vez que lá vou, repetem o aviso. De modo que não tenho qualquer dúvida sobre o que pode começar a acontecer naquelas ruas se os guias aparecerem com grupos de dezenas de turistas e os deixarem ficar pespegados em frente às montras a olhar demoradamente para as mulheres e para os clientes. E não vejo qualquer "hipocrisia dos progressistas" no facto de um Estado impor regras para tentar conciliar interesses antagónicos no espaço público, em vez de deixar que uma das partes resolva o assunto à bofetada.
É certo que tudo aquilo é sórdido. Mas será que a sordidez do contexto basta para desculpar um olhar despudorado? A resposta pode ser dada por um miúdo de seis ou sete anos - como foi dada pelo meu filho, quando comentou que não gostava nada de ir à sauna, porque "tinha de se concentrar muito para não ver". Que é como quem diz: independentemente do contexto, a nossa atitude é comandada pela nossa educação e pela nossa ética.
Estima-se que cerca de metade dessas mulheres de Wallen não se prostitui de livre vontade. Algumas foram apanhadas pelas redes mafiosas na Europa de Leste, que as trazem para o centro da Europa prometendo-lhes trabalho e uma vida melhor. Em algum momento são violadas, forçadas à prostituição, e ameaçadas de que, se fugirem ou forem à polícia, alguém contará na aldeia delas que são putas, cobrindo-lhes a família de vergonha. Outras trabalham para pagar as dívidas e as despesas dos proxenetas, a que elas chamam namorados. Nos dois casos, é dificílimo ao aparelho do Estado ajudar as vítimas, porque elas são as primeiras a recusar o auxílio estatal.
Perante realidades tão sórdidas, o mínimo que se pode fazer é não olhar para essas mulheres como se fossem uma mercadoria.
Digam lá, a sério: é normal e aceitável um grupo de turistas estar parado na rua, em frente a uma mulher seminua, a apreciar e a comentar o corpo dela? E a olhar também para o cliente, a assistir à negociação, a apreciar com que cara sai depois de ter passado os tais quinze minutos com ela? Independentemente da sordidez de todo aquele ambiente: parece-vos estranho que a Câmara estabeleça padrões de comportamento para os guias que lá levam turistas? Não seria muito mais estranho que a Câmara se demitisse, e deixasse a situação evoluir para confrontos violentos entre as pessoas do bairro e os turistas?
22 fevereiro 2018
notícias da Berlinale e, para não variar muito, daquelas palavras começadas por F
Este ano não vi muitos filmes da competição, mas estava capaz de apostar que o documentário Eldorado, do suíço Markus Imhoof, vai levar o Urso de Ouro.
Outro filme que me correu bem hoje foi Becoming Astrid, de Pernille Fischer Christensen, sobre a Astrid Lindgren. Encantador. Encantadora.
O último do dia é que estragou tudo: pensava eu que ia ver um Bollywood, com cores e danças e tudo, e saiu-me uma espécie de catálogo de experiências sexuais queer, e de uma agressividade atroz. Garbage! Já nem no cinema indiano se pode confiar?...
Salvou-me o Simon Rattle, que nunca falha. E também o Barenboim ao piano, no concerto nº1 para piano e orquestra de Béla Bartók. Gostei imenso do diálogo entre o seu piano e a percussão, no segundo andamento (no vídeo: começa a 10:03).
Para que conste: no dia 22 de Fevereiro de 2018 Barenboim tocou como encore "La Fille aux Cheveux de Lin" na Filarmonia de Berlim, e não houve uma única pessoa a tossir na sala. Se isto não é um sinal sério do fim do mundo...
Depois do concerto fui a toda a velocidade para casa, para ir passear o Fox. Sim, voltou! Mas só por um dia. No autocarro, uma amiga comentava que as fotos do post anterior davam a entender que o Fox se tinha ido embora definitivamente. Não, nada disso. Eu é que estou a reagir à maneira de cão: de cada vez que ele se afasta, sinto-me como se fosse para sempre.
Daqui a nada levanto-me para ir dar a primeira voltinha do dia com ele, e depois, à hora a que o sol aparece ao fundo da Westfälische Straße, saio para a correria dos filmes. Quem corre por gosto...
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18 fevereiro 2018
empty nest
- da série: "Fox à maneira de Kaspar David Friedrich" -
Na semana passada, o Matthias mudou do apartamento onde estava para outro onde permitem animais domésticos. Hoje, a Christina mudou do seu pequeno apartamento na nossa casa para um apartamento partilhado, mais perto da sua universidade. E como eu ando na maratona da Berlinale, e a seguir vou fazer férias em Portugal, o Matthias veio buscar o Fox - mais as tigelas, mais a cama -, para ir viver com ele na casa nova.
O Joachim avisou-me ao telefone: "a casa ficou vaziíssima".
Vaziíssima.
Os filhos, a gente habitua-se. Sabemos desde o princípio que nascem de nós para a vida deles. De facto, começámos a habituar-nos quando eles se despedem calmamente no infantário, ou quando saem de bicicleta para longe do nosso olhar, ou quando entram na escola e começam a combinar programas com os amigos. Também ajuda o facto de terem passado um ano no estrangeiro, e de estarem há muito com um pé - ou ambos - fora de casa. Já o cão, é mais difícil. Os cães vêm para ficar. Aquela sua entrega incondicional e inteira enche o espaço doméstico, muda a nossa maneira de estar em casa e impõe ritmos. Hoje à noite, por exemplo: está um frio de rachar, mas senti que me faltava alguma coisa por não ir dar a última volta do dia com o Fox.
Os miúdos às vezes queixam-se que eu faço mais festa ao Fox que a eles. Respondo-lhes a rir que eles não vêm aos saltos pelas escadas abaixo, a abanar o rabo todos contentes, só por eu ter regressado após cinco minutos no jardim. Hoje à noite foi muito esquisito entrar em casa e não ser recebida com alegria.
Também vai ser esquisito ir passear pelo bairro sem o Fox. Ou se acaba aqui uma original carreira de fotógrafa dos lagos do bairro, ou irei acrescentar-me ao grupo daquelas pessoas que até agora me pareciam suspeitas por andarem a passear por ali sem terem um cão.
12 fevereiro 2018
teologia das palavras cruzadas
Frei Bento Domingues, incisivo como sempre, sobre a frase já famosa de D. Manuel Clemente nas suas orientações para os "recasados" da diocese de Lisboa:
(clicar sobre a imagem para ver melhor)
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"pichagem"
#Pichagem com risco de vida.
Durante o período nazi houve em Berlim, entre muitos outros, um grupo de resistência chamado “Onkel Emil” (tio Emílio), que incluía vários médicos (um deles seria mais tarde chefe da Ginecologia no Charité, e obrigado a tomar decisões difíceis sobre interrupção da gravidez – o que era proibido – de mulheres violadas pelos soldados soviéticos) e o maestro Leo Borchard (que seria o primeiro maestro dos Filarmónicos de Berlim após a guerra, e morreria duas semanas após a sua nomeação, devido a um estúpido mal-entendido: tinha ido jantar a casa de um oficial inglês, este estava a levá-lo a casa, no meio da conversa sobre Bach não reagiu de forma adequada a um sinal de um soldado americano, e este disparou para os ocupantes do carro, matando o músico).
Adiante.
Uma das acções do grupo foi espalhar pela cidade de Berlim a palavra “Nein” (não) pouco antes do fim da guerra.
Traduzo (muitíssimo rapidamente) algumas das passagens do diário de Ruth Andreas-Friedrich, que também fazia parte do grupo:
“Berlim, terça-feira, 17 de Abril de 1945
Na Berlim bombardeada não é fácil formular determinados desejos de consumo. Especialmente nos casos em que é preciso que o desejo seja imediatamente satisfeito. A resposta habitual “volte daqui a duas semanas”, quando procuramos desesperadamente produtos para pintar, deixa-nos doidos. Finalmente, numa pequena rua lateral, encontra-se o que se queria. Uma rapariguinha melancólica pousa no balcão três caixas do melhor giz para pintar. “Que estranho”, diz ela pensativamente, “trabalho aqui há cinco anos. E nunca vendi tanto giz como hoje. É a sétima pessoa que mo vem comprar.” – “Que estranho... de facto...”, respondo eu e desapareço rapidamente da loja. Coincidências sem importância podem deitar a perder grandes projectos!
Em casa apreciámos o saque. Frank tinha o melhor de tudo: quatro latas cheias de tinta de óleo vermelha. “Roubei no armazém de uma empresa de propaganda”, contou-nos. “Penso que deve ser usada para esse mesmo objectivo.”
Mal anoiteceu, cada um de nós foi inspeccionar a sua área. “
Não traduzo a parte em que ela conta como fixaram bem cada um dos locais onde queriam escrever, para serem capazes de fazer a pichagem mesmo em plena escuridão. A seguir recolheram-se à cave durante o alarme nocturno, de onde só saíram às três da manhã.
“Berlim, quarta-feira, 18 de Abril de 1945
Estamos de novo um metro debaixo da terra, pensativos e a passar em revista pela milésima vez a acção da noite. O último avião inglês retirou-se às duas da manhã. Os outros moradores arrastam as suas malas pelas escadas. As portas vão-se fechando uma a uma. Se ao menos já estivessem na cama! Têm uma tendência fatal para registar os ruídos no andar de cima. Por fim, deixamos de ouvir barulho nos outros apartamentos.
(...) A lua já baixou. As ruas estendem-se à nossa frente como tubos escuros. O último ocupante dos abrigos aéreos já regressou a casa. Tudo está tão silencioso que o barulho dos pneus da bicicleta no asfalto nos parece insuportável. Cinquenta metros antes da primeira casa da nossa “rota”, escondemos as bicicletas atrás de um monte de entulho. “Se alguém reparar em nós, paramos e beijamo-nos”, diz-me Frank. “Namorados parecem sempre inofensivos.” (...) Hesitante, dou alguns passos para a direita. Os meus dedos batem no canto de um marco de correio. De dentes cerrados, escrevo precipitadamente N-Ã-O na pala que cobre a abertura. O giz chia. Deve ser assim que os cegos se sentem quando estão a escrever. Viro-me. Quero sussurrar “Olha, funciona!”, mas Frank já não está ali. (...) Os nossos olhos começam a habituar-se à escuridão. As manchas das paredes e das montras vêem-se cada vez mais facilmente. Não – Não – Não. Ou tudo, ou nada. Pintamos e escrevemos com toda a energia. Nas bermas do passeio e nos postes, em portões de jardim e colunas de publicidade. Onde quer que o olhar se demore, inscrevemos “não” como um selo colorido.
Vamos silenciosamente de casa em casa. “Pst – pouco barulho! Polícia!” Estamos imóveis como colunas de pedra. A patrulha nocturna passa por nós em passos regulares. “Encosta-te à parede”, sinaliza Frank. Aperto-me contra as pedras como se quisesse penetrar nelas. Cheira a pó e madeira queimada. Que não nos vejam! As solas dos soldados batem pesadamente nas pedras da calçada. A ponta de um sobretudo toca-me o joelho. Retenho a respiração. Graças a Deus, não nos viram! Os seus olhos vazios olham em frente, como se fossem sonâmbulos. (...) A leste, o céu começa a ganhar cor. Temos de nos apressar se quisermos terminar antes do amanhecer. Na praça da Câmara, a coluna de publicidade do partido está em cima de um alto pedestal. Grita em parangonas ao mundo que “os judeus são a nossa perdição”. Quatro degraus. Entreolhamo-nos com precaução. Não será já demasiado claro? “Não me interessa, vou arriscar!”, diz Frank. Salta para os degraus. Como um cão assustadiço, fico à espreita. Cinco ruas desembocam na praça. Cinco fontes de perigo. Ao longe, aproxima-se o primeiro S-Bahn. Que não apareça ninguém! Que não apareça ninguém! A minha testa está coberta de suor. Frank trabalha como um profissional. Com demasiada lentidão para a minha paciência, mergulha o pincel na lata de tinta. Olho para aquele cartaz horrível. “Os judeus são a nossa perdição!” Frank começa a usar o pincel. Um pedaço de tinta vermelha cai – “como se fosse sangue”, é o que me ocorre. “Os judeus são a nossa perdição!” N-Ã-O! O protesto de Frank ,em traços largos como uma mão, ilumina o cartaz. Aprecia o seu trabalho como se fosse um artista. “Anda!”, insisto eu, “anda!”
Já amanhece. O casaco do Frank está em tal estado que parece que acabou de esfaquear um porco. O balde de tinta está vazio, os últimos bocadinhos de giz mal chegam para escrever mais alguns “não” magrinhos.”
Mais um pequeno salto na tradução. Vão para casa, pelo caminho vêem que os outros também trabalharam muito bem. Ao pegar nas bicicletas aparecem duas ratazanas, e ela dá um salto, enojada. O Frank ri-se dela. “As mulheres são assim. Arriscas a tua vida contra os nazis. Mas sobes a uma mesa quando vês um ratinho.” Passam pelas primeiras pessoas a caminho do trabalho. Em casa, encontram Leo Borchard, que está muito satisfeito. Conseguiu gastar toda a tinta que tinha, e estava capaz de pintar mais cinquenta ruas. Não foi apanhado a pintar, mas se tivesse sido, estava prevenido: levava no bolso um documento forjado por ele onde se lia que estava a realizar uma acção de propaganda ao serviço da organização de estrangeiros do NSDAP, e exigindo que o ajudem a desempenhar essa tarefa. No dia seguinte saem à rua para ver o resultado da acção. Por todos os lados há gente a esfregar, a lavar, a limpar. Os donos das lojas bem se esforçam para limpar as montras, mas a tinta a óleo não sai. Nas montras onde há uma folha a informar que a loja está temporariamente fechada devido a alistamento no exército, os “não” brilham com ainda mais intensidade. Frank descobre um rapaz que está a escrever algo antes do “não”: “Capitulação? Não! Rendição? Não!” A irritação dos dois só desaparece quando se dão conta de que mais ninguém lhes deturpou a intenção. Pedalam pela cidade, cada vez mais contentes. O Ku’damm, esse, está uma obra-prima. Não houve uma única montra que escapasse. Para onde quer que olhem, vêem o protesto escrito num branco luminoso. Na casa aonde vão buscar os folhetos que distribuirão nessa noite há um vaivém de pessoas com ar feliz. Os folhetos dizem:
“Berlinenses! Soldados, homens e mulheres! Conheceis a ordem do tresloucado Hitler e do seu cão de fila Himmler, para que defendamos as cidades até ao fim. Quem ainda obedece às ordens dos nazis é um idiota ou mau-carácter. Berlinenses! Segui o exemplo dos vienenses! Os trabalhadores e soldados vienenses conseguiram evitar um banho de sangue na sua cidade escondendo-se ou resistindo abertamente. Deve Berlim sofrer como Aachen, Colónia e Königsberg?
NEIN!
Escrevei o vosso „não!“ por todo o lado. Criai células de resistência nas casernas, nas fábricas, nos bunkers de protecção aérea! Atirai para as ruas os retratos de Hitler e dos seus cúmplices! Organizai a resistência armada!”
--
Já traduzi para este blogue outros excertos do Diário de Ruth Andreas-Friedrich.
Podem ler aqui:
http://conversa2.blogspot.de/2011/09/partir-de-hoje-vamos-retaliar.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/12/para-o-tempo-de-natal-1.html
http://conversa2.blogspot.de/2010/05/em-berlim-ha-65-anos.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/11/fui-apanhada.html
--
Já traduzi para este blogue outros excertos do Diário de Ruth Andreas-Friedrich.
Podem ler aqui:
http://conversa2.blogspot.de/2011/09/partir-de-hoje-vamos-retaliar.html
http://conversa2.blogspot.de/2007/12/para-o-tempo-de-natal-1.html
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http://conversa2.blogspot.de/2007/11/fui-apanhada.html
"ouro" (2)
[ Enquanto ainda é dia 9 no Peru;)
mais um post rápido sobre #ouro ]
[ Queria escrevê-lo ontem, mas andei o tempo todo a hesitar, "não me digas que vais contar outra vez essas histórias que já toda a gente ouviu várias vezes?!", mas é mais forte do que eu, e portanto: ]
Post tipo carro vassoura para apanhar as histórias que por aí tenho largado sobre o ouro que me passou ou não passou pelas mãos:
1. Na altura em que eu comecei a ler os livros dos Cinco e dos Sete, o meu pai vendeu a "quintinha minhota" do pai dele, que significava muito para a miúda de sete anos que eu era. Na última visita que fiz à casa, combinei com o meu irmão olharmos para tudo com muita atenção, porque podia haver um tesouro escondido e se o encontrássemos já não era preciso vender a casa. Assim fizemos, mas não encontrámos nada. A casa foi vendida, o novo dono começou a fazer obras, e logo encontraram um pote cheio de libras de ouro. Há tempos falei com o homem que o encontrou. Disse-me que estava numa caixa de areia, numa das lojas do piso térreo, por baixo das escadas do alçapão. Ele pensou "que coisa tão esquisita, esta caixa com areia - deixa cá ver o que tem dentro", meteu a mão, e bateu no pote. Lembro-me perfeitamente (enfim, penso que me lembro) dessa caixa, e do nojo que senti ao olhar para ela. Da próxima vez, hei-de ler os livros dos Cinco com mais atenção.
2. Uma vez mudei para uma casa onde ainda havia pintores a trabalhar. O camião trouxe as nossas tralhas, e eu trouxe as coisas de valor no nosso carro. Um dos pintores era um tarefeiro temporário da empresa de pintura, e veio a descobrir-se que era gatuno. Penso mesmo que seria cleptomaníaco, porque começou por roubar o desodorizante e o perfume do Joachim, que já iam a meio. O Joachim achou estranho essas coisas desaparecerem da casa de banho e eu respondi que se calhar os teria perdido no meio dos caixotes, de modo que quando eu lhe telefonei no dia seguinte a dizer que o meu porta-moedas tinha desaparecido, e a pedir para ele cancelar os cartões, ripostou que eu devia procurar melhor no meio dos caixotes. E foi aí que caiu a ficha: fui ao sítio onde tinha deixado as minhas caixas com as coisas mais valiosas, e faltava todo o ouro das minhas avós minhotas. O gatuno cleptomaníaco, digamos assim, tinha visto exactamente os volumes que eu trouxera de carro, e onde os deixara.
Ora bem: o meu middle name é "sempre em pé" - só pode ser. Ao descobrir que os cordões, os brincos, os trancelins, tudo tudo tudo tinha desaparecido, o meu primeiro impulso foi: "olha, agora já posso ir de férias descansada, já não temo que alguém entre em casa para me roubar o ouro".
Umas semanas mais tarde assisti ao desfile das mordomas nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Ao ver todas aquelas peças iguais às que me tinham roubado, fiquei em paz com essa perda. Senti que tudo isso ainda estava no mundo. Já não numa gaveta minha, mas por aí.
3. Quando a minha filha nasceu, uma grande amiga ofereceu-lhe uma pulseirinha de ouro dizendo-me, com uma piscadela de olho, que aquilo provavelmente não serviria para nada à bebé, mas quando chegasse aos 15 anos ia dar muito jeito para trocar por droga. A pulseirinha ainda aí anda (por sorte o palerma do pintor não a roubou). Das duas, três: ou não precisou, ou então a mesada era tão alta que dava para todas as despesas, ou então dong dong dong estão a bater as doze horas, tenho de me calar imediatamente porque daqui a nada o ouro transforma-se numa abóbora.
--
Comentários de colegas enciclopedistas:
I. Um belo dia foram dois homens lá a casa mudar o papel de parede, anos setenta,talvez. A paginas tantas foi preciso afastar o baú dos lençóis e a minha mãe comentou que era muito pesado mas não era o baú das libras!
Resposta imediata:
- Pois não, essas, (o ouro) já nos caíram na cabeça ao tirar a sanefa da entrada !
II. Acerca da perda de ouro da família. Um dia na clínica a mãe deu-me um saquinho com um lenço de papel dentro eu pensei que seria para deitar no lixo e deitei (deitei o ouro da avó que ficou internada na clínica no lixo, acho que ninguém acredita que o deitei no lixo).
mais um post rápido sobre #ouro ]
[ Queria escrevê-lo ontem, mas andei o tempo todo a hesitar, "não me digas que vais contar outra vez essas histórias que já toda a gente ouviu várias vezes?!", mas é mais forte do que eu, e portanto: ]
Post tipo carro vassoura para apanhar as histórias que por aí tenho largado sobre o ouro que me passou ou não passou pelas mãos:
1. Na altura em que eu comecei a ler os livros dos Cinco e dos Sete, o meu pai vendeu a "quintinha minhota" do pai dele, que significava muito para a miúda de sete anos que eu era. Na última visita que fiz à casa, combinei com o meu irmão olharmos para tudo com muita atenção, porque podia haver um tesouro escondido e se o encontrássemos já não era preciso vender a casa. Assim fizemos, mas não encontrámos nada. A casa foi vendida, o novo dono começou a fazer obras, e logo encontraram um pote cheio de libras de ouro. Há tempos falei com o homem que o encontrou. Disse-me que estava numa caixa de areia, numa das lojas do piso térreo, por baixo das escadas do alçapão. Ele pensou "que coisa tão esquisita, esta caixa com areia - deixa cá ver o que tem dentro", meteu a mão, e bateu no pote. Lembro-me perfeitamente (enfim, penso que me lembro) dessa caixa, e do nojo que senti ao olhar para ela. Da próxima vez, hei-de ler os livros dos Cinco com mais atenção.
2. Uma vez mudei para uma casa onde ainda havia pintores a trabalhar. O camião trouxe as nossas tralhas, e eu trouxe as coisas de valor no nosso carro. Um dos pintores era um tarefeiro temporário da empresa de pintura, e veio a descobrir-se que era gatuno. Penso mesmo que seria cleptomaníaco, porque começou por roubar o desodorizante e o perfume do Joachim, que já iam a meio. O Joachim achou estranho essas coisas desaparecerem da casa de banho e eu respondi que se calhar os teria perdido no meio dos caixotes, de modo que quando eu lhe telefonei no dia seguinte a dizer que o meu porta-moedas tinha desaparecido, e a pedir para ele cancelar os cartões, ripostou que eu devia procurar melhor no meio dos caixotes. E foi aí que caiu a ficha: fui ao sítio onde tinha deixado as minhas caixas com as coisas mais valiosas, e faltava todo o ouro das minhas avós minhotas. O gatuno cleptomaníaco, digamos assim, tinha visto exactamente os volumes que eu trouxera de carro, e onde os deixara.
Ora bem: o meu middle name é "sempre em pé" - só pode ser. Ao descobrir que os cordões, os brincos, os trancelins, tudo tudo tudo tinha desaparecido, o meu primeiro impulso foi: "olha, agora já posso ir de férias descansada, já não temo que alguém entre em casa para me roubar o ouro".
Umas semanas mais tarde assisti ao desfile das mordomas nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Ao ver todas aquelas peças iguais às que me tinham roubado, fiquei em paz com essa perda. Senti que tudo isso ainda estava no mundo. Já não numa gaveta minha, mas por aí.
3. Quando a minha filha nasceu, uma grande amiga ofereceu-lhe uma pulseirinha de ouro dizendo-me, com uma piscadela de olho, que aquilo provavelmente não serviria para nada à bebé, mas quando chegasse aos 15 anos ia dar muito jeito para trocar por droga. A pulseirinha ainda aí anda (por sorte o palerma do pintor não a roubou). Das duas, três: ou não precisou, ou então a mesada era tão alta que dava para todas as despesas, ou então dong dong dong estão a bater as doze horas, tenho de me calar imediatamente porque daqui a nada o ouro transforma-se numa abóbora.
--
Comentários de colegas enciclopedistas:
I. Um belo dia foram dois homens lá a casa mudar o papel de parede, anos setenta,talvez. A paginas tantas foi preciso afastar o baú dos lençóis e a minha mãe comentou que era muito pesado mas não era o baú das libras!
Resposta imediata:
- Pois não, essas, (o ouro) já nos caíram na cabeça ao tirar a sanefa da entrada !
II. Acerca da perda de ouro da família. Um dia na clínica a mãe deu-me um saquinho com um lenço de papel dentro eu pensei que seria para deitar no lixo e deitei (deitei o ouro da avó que ficou internada na clínica no lixo, acho que ninguém acredita que o deitei no lixo).
11 fevereiro 2018
"ouro" (1)
Mais da Enciclopédia Ilustrada:
A tradição de pintura religiosa bizantina pintava o céu com ouro. O mais precioso dos metais como símbolo de um lugar de transcendência, e também como símbolo da valiosa morada de Deus, dos santos e dos que têm a sorte de viver a sua eternidade junto deles. Há inúmeros quadros medievais de Maria, por exemplo, em que o seu chão é o nosso mundo, e o céu é dourado. Deixo aqui um quadro de Duccio (1255-1319) como exemplo. Giotto, seu contemporâneo, foi o primeiro pintor italiano a afastar-se da tradição bizantina e a pintar o céu em azul. Esta evolução dever-se-á também à revolução de São Francisco, que traz a natureza para o centro do religioso.
Quase um milénio depois, surge na Borgonha uma comunidade ecuménica. É Taizé, para onde todas as semanas se dirigem milhares de jovens das Igrejas católica, evangélica e ortodoxa. Talvez por respeito à tradição bizantina e para regressar simbolicamente a um tempo anterior às várias divisões dos cristãos, ou talvez apenas por ser uma cor festiva e alegre, muito própria do ambiente que se vive em Taizé, o altar está revestido com grandes faixas de pano cor de laranja.
"O cor de laranja é o ouro dos pobres", disse-me um dos irmãos.
[ Troca de comentários com uma colega enciclopedista:
- Klimt reproduz, precisamente, nos seus quadros dourados, esta época.
- Bem, sei pouquíssimo de Klimt, mas não o imaginava nada a fazer uma leitura teológica do quotidiano, e a ver a transcendência divina no retrato de uma burguesa, no beijo de dois amantes, no carinho de uma mãe. Mas sim, pode ver-se esse dourado nessa perspectiva.
- O divino no seu sentido mais lato. ]
A tradição de pintura religiosa bizantina pintava o céu com ouro. O mais precioso dos metais como símbolo de um lugar de transcendência, e também como símbolo da valiosa morada de Deus, dos santos e dos que têm a sorte de viver a sua eternidade junto deles. Há inúmeros quadros medievais de Maria, por exemplo, em que o seu chão é o nosso mundo, e o céu é dourado. Deixo aqui um quadro de Duccio (1255-1319) como exemplo. Giotto, seu contemporâneo, foi o primeiro pintor italiano a afastar-se da tradição bizantina e a pintar o céu em azul. Esta evolução dever-se-á também à revolução de São Francisco, que traz a natureza para o centro do religioso.
Quase um milénio depois, surge na Borgonha uma comunidade ecuménica. É Taizé, para onde todas as semanas se dirigem milhares de jovens das Igrejas católica, evangélica e ortodoxa. Talvez por respeito à tradição bizantina e para regressar simbolicamente a um tempo anterior às várias divisões dos cristãos, ou talvez apenas por ser uma cor festiva e alegre, muito própria do ambiente que se vive em Taizé, o altar está revestido com grandes faixas de pano cor de laranja.
"O cor de laranja é o ouro dos pobres", disse-me um dos irmãos.
[ Troca de comentários com uma colega enciclopedista:
- Klimt reproduz, precisamente, nos seus quadros dourados, esta época.
- Bem, sei pouquíssimo de Klimt, mas não o imaginava nada a fazer uma leitura teológica do quotidiano, e a ver a transcendência divina no retrato de uma burguesa, no beijo de dois amantes, no carinho de uma mãe. Mas sim, pode ver-se esse dourado nessa perspectiva.
- O divino no seu sentido mais lato. ]
"Brecht" (2)
Esta Enciclopédia Ilustrada está cada vez pior: agora já nem preciso de ler os
posts dos outros para me desgraçar, basta-me tentar preparar eu própria
um post – e aumenta de novo a lista dos livros que quero ler! Desta vez
são as Histórias do Senhor Keuner, na edição mais recente que inclui os
textos encontrados na Suíça. Lá vou eu para a livraria...
“Herr Keuner” é o „senhor Ninguém“, se pronunciarmos o nome com um leve dialecto. É um conjunto de textos curtos, que #Brecht foi escrevendo ao longo de trinta anos, de 1926 a 1956, a par com outros trabalhos e ligados a eles. O senhor K. reflecte o pensamento de Brecht e expõe-no em diálogos muito sintéticos. Alguns exemplos:
O esforço do melhor
„Em que está a trabalhar?”, perguntaram ao senhor K. “Estou a esforçar-me imenso, preparo o meu próximo erro.”
A questão sobre a existência de Deus
Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. respondeu: “Aconselho-te a reflectir sobre se mudarias o teu comportamento caso Deus existisse. Se não mudares, podemos esquecer esta pergunta. Se mudares, então posso ajudar-te um pouco mais dizendo-te que já tomaste uma decisão: precisas de ter um Deus.”
O reencontro
Um homem que o senhor K. já não via há muito cumprimentou-o do seguinte modo: “Não mudou nada!” “Oh!”, disse o senhor K., e empalideceu.
Se o senhor K. amasse alguém
“Que faz”, perguntaram ao senhor K., “quando ama alguém?” “Faço um esboço dessa pessoa“, respondeu o senhor K. „e tento que se lhe assemelhe.” “O esboço?“ „Não“, disse o senhor K., „a pessoa.“
“Herr Keuner” é o „senhor Ninguém“, se pronunciarmos o nome com um leve dialecto. É um conjunto de textos curtos, que #Brecht foi escrevendo ao longo de trinta anos, de 1926 a 1956, a par com outros trabalhos e ligados a eles. O senhor K. reflecte o pensamento de Brecht e expõe-no em diálogos muito sintéticos. Alguns exemplos:
O esforço do melhor
„Em que está a trabalhar?”, perguntaram ao senhor K. “Estou a esforçar-me imenso, preparo o meu próximo erro.”
A questão sobre a existência de Deus
Alguém perguntou ao senhor K. se Deus existe. O senhor K. respondeu: “Aconselho-te a reflectir sobre se mudarias o teu comportamento caso Deus existisse. Se não mudares, podemos esquecer esta pergunta. Se mudares, então posso ajudar-te um pouco mais dizendo-te que já tomaste uma decisão: precisas de ter um Deus.”
O reencontro
Um homem que o senhor K. já não via há muito cumprimentou-o do seguinte modo: “Não mudou nada!” “Oh!”, disse o senhor K., e empalideceu.
Se o senhor K. amasse alguém
“Que faz”, perguntaram ao senhor K., “quando ama alguém?” “Faço um esboço dessa pessoa“, respondeu o senhor K. „e tento que se lhe assemelhe.” “O esboço?“ „Não“, disse o senhor K., „a pessoa.“
"Brecht" (1)
Ainda o tema Brecht na Enciclopédia Ilustrada:
Esta manhã, ao procurar uma foto de Bertolt #Brecht,
deparei-me com uma lista das suas nacionalidades. É apenas um detalhe,
mas simboliza bem as condições inseguras em que foi obrigado a viver.
Brecht nasceu em 1898 na Alemanha imperial. Assistiu à passagem da monarquia para a república. Em 1924 – em plena república de Weimar - mudou-se para Berlim, para o meio de escritores e gente do teatro. Nessa década aproximou-se muito do partido comunista. A partir de 1930 os nazis começaram a dificultar-lhe o trabalho cada vez mais. Com a chegada dos nazis ao poder, em 1933, viu uma peça sua ser interrompida, e os organizadores serem acusados de alta traição. Uns dias depois, umas horas após o incêndio do Reichstag e pouco antes de lhe queimarem os livros, fugiu: Praga, Viena, Zurique, Paris, e finalmente Dinamarca, onde passou com a família os cinco anos seguintes. Em 1935 os nazis retiraram-lhe a nacionalidade alemã. Permaneceria apátrida até 1950, quando a Áustria lhe deu um passaporte. Em 1941 conseguiu um visto para fugir da Dinamarca para os EUA. A viagem foi feita por Moscovo e Wladiwostok. Com a entrada dos EUA na guerra, Brecht – que estava nos EUA para fugir aos nazis – foi considerado “enemy Alien” e passou a ser observado pelo FBI. A 30 de Outubro de 1947 compareceu perante uma comissão do McCarthismo, onde afirmou que nunca pertencera ao partido comunista. No dia seguinte partiu para Paris, e daí para Zurique. A Suíça foi o único país que lhe deu autorização de residência. A Alemanha Ocidental, que estava ocupada pelos americanos, recusou-lhe a entrada. Atraído pela entrada em funcionamento de vários teatros em Berlim Leste, Brecht aceitou um convite para ir para a RDA, em 1948. Zurique, contudo, continuava a ser a cidade onde queria viver. Mas quando a Suíça lhe recusou uma autorização permanente de residência, Brecht voltou para Berlim Leste. Em 1950 a Áustria concedeu a Helene Weigel e a Brecht a nacionalidade austríaca, pondo fim à sua condição de apátridas que já durava dez anos. Esse gesto provocou um enorme escândalo, em especial porque eles não estavam interessados em ficar nesse país. Pouco depois, a RDA concedeu-lhe também a nacionalidade.
Na sequência do massacre de 17 de Junho de 1953, Brecht escreveu ao governo uma carta onde reafirmava a sua lealdade ao partido, mas também analisava as causas dos confrontos e fazia sugestões para o governo corrigir os seus próprios erros. O governo publicou parte dessa carta no jornal – melhor dizendo: apenas a parte em que Brecht reafirmava a sua lealdade ao partido. Brecht tentou defender-se, mostrando a carta na sua totalidade, mas já não conseguiu impedir a desconfiança e os danos. Os teatros da Alemanha Ocidental deram início a um boicote das suas peças.
Marginalizado na Alemanha Ocidental, alvo de desconfiança e ele próprio desconfiado do regime da RDA, de novo apanhado num jogo de forças no qual não passava de um peão. Retirou-se para a sua casa em Buckow, a uma hora de Berlim, onde se dedicou inteiramente à escrita. Foi nessa época que escreveu o poema que sugere ao governo que demita o povo e eleja outro.
Em 1954 iniciou o trabalho no famoso teatro berlinense que passaria a ficar ligado ao seu nome, e aí trabalhou a um ritmo insuportável, até morrer em 1956, aos 58 anos de idade. No seu funeral ninguém falou – como ele tinha pedido.
Junto algumas fotos da casa em Buckow, que foi feita para um escultor e por isso tem uma sala com pé direito duplo e uma janela enorme virada para o lago.
Brecht nasceu em 1898 na Alemanha imperial. Assistiu à passagem da monarquia para a república. Em 1924 – em plena república de Weimar - mudou-se para Berlim, para o meio de escritores e gente do teatro. Nessa década aproximou-se muito do partido comunista. A partir de 1930 os nazis começaram a dificultar-lhe o trabalho cada vez mais. Com a chegada dos nazis ao poder, em 1933, viu uma peça sua ser interrompida, e os organizadores serem acusados de alta traição. Uns dias depois, umas horas após o incêndio do Reichstag e pouco antes de lhe queimarem os livros, fugiu: Praga, Viena, Zurique, Paris, e finalmente Dinamarca, onde passou com a família os cinco anos seguintes. Em 1935 os nazis retiraram-lhe a nacionalidade alemã. Permaneceria apátrida até 1950, quando a Áustria lhe deu um passaporte. Em 1941 conseguiu um visto para fugir da Dinamarca para os EUA. A viagem foi feita por Moscovo e Wladiwostok. Com a entrada dos EUA na guerra, Brecht – que estava nos EUA para fugir aos nazis – foi considerado “enemy Alien” e passou a ser observado pelo FBI. A 30 de Outubro de 1947 compareceu perante uma comissão do McCarthismo, onde afirmou que nunca pertencera ao partido comunista. No dia seguinte partiu para Paris, e daí para Zurique. A Suíça foi o único país que lhe deu autorização de residência. A Alemanha Ocidental, que estava ocupada pelos americanos, recusou-lhe a entrada. Atraído pela entrada em funcionamento de vários teatros em Berlim Leste, Brecht aceitou um convite para ir para a RDA, em 1948. Zurique, contudo, continuava a ser a cidade onde queria viver. Mas quando a Suíça lhe recusou uma autorização permanente de residência, Brecht voltou para Berlim Leste. Em 1950 a Áustria concedeu a Helene Weigel e a Brecht a nacionalidade austríaca, pondo fim à sua condição de apátridas que já durava dez anos. Esse gesto provocou um enorme escândalo, em especial porque eles não estavam interessados em ficar nesse país. Pouco depois, a RDA concedeu-lhe também a nacionalidade.
Na sequência do massacre de 17 de Junho de 1953, Brecht escreveu ao governo uma carta onde reafirmava a sua lealdade ao partido, mas também analisava as causas dos confrontos e fazia sugestões para o governo corrigir os seus próprios erros. O governo publicou parte dessa carta no jornal – melhor dizendo: apenas a parte em que Brecht reafirmava a sua lealdade ao partido. Brecht tentou defender-se, mostrando a carta na sua totalidade, mas já não conseguiu impedir a desconfiança e os danos. Os teatros da Alemanha Ocidental deram início a um boicote das suas peças.
Marginalizado na Alemanha Ocidental, alvo de desconfiança e ele próprio desconfiado do regime da RDA, de novo apanhado num jogo de forças no qual não passava de um peão. Retirou-se para a sua casa em Buckow, a uma hora de Berlim, onde se dedicou inteiramente à escrita. Foi nessa época que escreveu o poema que sugere ao governo que demita o povo e eleja outro.
Em 1954 iniciou o trabalho no famoso teatro berlinense que passaria a ficar ligado ao seu nome, e aí trabalhou a um ritmo insuportável, até morrer em 1956, aos 58 anos de idade. No seu funeral ninguém falou – como ele tinha pedido.
Junto algumas fotos da casa em Buckow, que foi feita para um escultor e por isso tem uma sala com pé direito duplo e uma janela enorme virada para o lago.
10 fevereiro 2018
Nina Hagen, Brecht, Berliner Ensemble
Em 2017, um mês antes de o Berliner Ensemble mudar de director e deixar de existir como a cidade já se habituara a vê-lo, fomos ver a Nina Hagen a dar o seu último concerto de homenagem a Brecht no seu famoso teatro.
Devo dizer que à parte uma das canções favoritas da infância dos meus filhos ("Du hast den Farbfilm vergessen") e de um "Quem será milionário" para VIPs no qual ela fez um figurão (muito culta, algo louca, extremamente divertida), pouco sabia da Nina Hagen. Mas queria muito vê-la ali, no teatro do Brecht, a cantar à maneira dela as canções que todos conhecemos.
Não desapontou. Tem a voz mais cansada, está (é?) um pouco caótica, às vezes fez-me pensar que não gostaria de partilhar casa com ela porque ia ser demasiado desassossego, mas encantou-me desde o primeiro momento, quando contou que aos onze anos comprava os bilhetes mais baratos da casa, os de 55 pfennig, para assistir às peças de teatro de Brecht. Na última fila da galeria mais alta, aprendeu tanto que começou a ter boas notas a História, para grande surpresa dos seus professores. "O Brecht!", dizia ela, "Está tudo ali nas suas peças de teatro, estamos todos lá."
Fez-nos rir ao apresentar os músicos da banda, especialmente os dois músicos "da Trumpsilvânia".
Encantou-me também a sua fragilidade tão humana. A sua capacidade de asnear, tão igual à minha. Disse: "Sabem que há um documentário que mostra Hitler e a sua Eva na Argentina? Passou há dias. Abram os olhos." Disse: "Sabem que os chineses têm o maior parque solar marítimo do mundo?" (eu sabia, também tinha lido o Spiegel nessa manhã). "Abram os olhos", disse ela. "Se não nos pomos finos, todos os outros passam à nossa frente."
Aquela a quem chamam "a rainha do punk" - humana e frágil como nós.
Partilho alguns vídeos desse concerto. A qualidade de imagem e de som é péssima, mas dá para terem uma ideia do que foi Nina Hagen a cantar Brecht.
Na "Lied von der Unzulänglichkeit des menschlichen Strebens" enganou-se a meio, tentou de novo, e ficou muito contente por ter conseguido (oh! gosto tanto desta mulher!):
Entre duas canções, um apelo ao novo director, para que tome consciência da sua responsabilidade social perante aquela casa. Para que, por exemplo, mantenha a sala da Helene Weigel e não deixe que o arquivo do Berliner Ensemble saia do teatro, e insiste: "precisamos disto, é a nossa História - e foi a minha melhor escola, a minha escola de História". E depois arranca com uma voz completamente diferente, e canta Die Moritat von Jackie Messer:
O último vídeo é mesmo só pela tristeza que senti ao ver cair o pano naquele momento de viragem da casa de Brecht:
Devo dizer que à parte uma das canções favoritas da infância dos meus filhos ("Du hast den Farbfilm vergessen") e de um "Quem será milionário" para VIPs no qual ela fez um figurão (muito culta, algo louca, extremamente divertida), pouco sabia da Nina Hagen. Mas queria muito vê-la ali, no teatro do Brecht, a cantar à maneira dela as canções que todos conhecemos.
Não desapontou. Tem a voz mais cansada, está (é?) um pouco caótica, às vezes fez-me pensar que não gostaria de partilhar casa com ela porque ia ser demasiado desassossego, mas encantou-me desde o primeiro momento, quando contou que aos onze anos comprava os bilhetes mais baratos da casa, os de 55 pfennig, para assistir às peças de teatro de Brecht. Na última fila da galeria mais alta, aprendeu tanto que começou a ter boas notas a História, para grande surpresa dos seus professores. "O Brecht!", dizia ela, "Está tudo ali nas suas peças de teatro, estamos todos lá."
Fez-nos rir ao apresentar os músicos da banda, especialmente os dois músicos "da Trumpsilvânia".
Encantou-me também a sua fragilidade tão humana. A sua capacidade de asnear, tão igual à minha. Disse: "Sabem que há um documentário que mostra Hitler e a sua Eva na Argentina? Passou há dias. Abram os olhos." Disse: "Sabem que os chineses têm o maior parque solar marítimo do mundo?" (eu sabia, também tinha lido o Spiegel nessa manhã). "Abram os olhos", disse ela. "Se não nos pomos finos, todos os outros passam à nossa frente."
Aquela a quem chamam "a rainha do punk" - humana e frágil como nós.
Partilho alguns vídeos desse concerto. A qualidade de imagem e de som é péssima, mas dá para terem uma ideia do que foi Nina Hagen a cantar Brecht.
Na "Lied von der Unzulänglichkeit des menschlichen Strebens" enganou-se a meio, tentou de novo, e ficou muito contente por ter conseguido (oh! gosto tanto desta mulher!):
Entre duas canções, um apelo ao novo director, para que tome consciência da sua responsabilidade social perante aquela casa. Para que, por exemplo, mantenha a sala da Helene Weigel e não deixe que o arquivo do Berliner Ensemble saia do teatro, e insiste: "precisamos disto, é a nossa História - e foi a minha melhor escola, a minha escola de História". E depois arranca com uma voz completamente diferente, e canta Die Moritat von Jackie Messer:
O último vídeo é mesmo só pela tristeza que senti ao ver cair o pano naquele momento de viragem da casa de Brecht:
a confiança e a alegria dos cristãos ou o respeito pela lei dos fariseus?
Agora, falando mesmo a sério sobre as orientações da hierarquia da Igreja Católica para reintegrar os casais "recasados" nas comunidades: a diferença nas posturas da Diocese de Braga e da de Lisboa mostra uma Igreja Católica portuguesa dividida entre ousar os caminhos da confiança em Cristo e da alegria cristã, ou permanecer no respeito fariseu pela lei.
Nos tempos que correm, numa sociedade em que ir à igreja deixou de ser um acto com carácter de obrigação social e se tornou cada vez mais uma escolha voluntária nascida da sede de espiritualidade, querer pertencer a uma comunidade devia ser já em si prova suficiente de Fé e de querer orientar os passos pela bússola de Jesus Cristo. Nos Evangelhos há vários relatos de pessoas que procuram ver Jesus de longe, ou tocar-lhe no manto, e a quem ele diz: "a tua Fé salvou-te". Pergunto a D. Manuel Clemente se não lhe basta, como prova de Fé, que as pessoas "recasadas" queiram continuar no seio de uma comunidade, queiram baptizar os filhos e educá-los como cristãos.
Por mero acaso, encontrei recentemente no youtube um nocturno de Chopin em versão para violoncelo. Enquanto ouvia, parei inadvertidamente no texto do dono da página, que era o violoncelista. Nunca pensei encontrar no youtube uma lição de Fé tão comovente. Está lá tudo: os descalabros da vida, a culpa, a dúvida, e a reconciliação consigo próprio nascida da certeza do amor de Deus.
Deixo aqui o texto (e podem ouvir a música no vídeo que está aqui).
É por aí. É por esses caminhos da Fé que se avança como cristão. Estas coisas não se resolvem com regras sobre mais cama ou menos cama.
(Quando muito, alguns poderiam resolver algumas coisas com um bocadinho de divã)
(Ai! Tinha dito que ia falar mesmo a sério. :( )

THIS IS MY STORY
If I should have a daughter, I will name her Grace. I was taught the song "Amazing Grace" as a young boy, and growing up I got that word "grace" stuck in my head. When I was born, my dad counted my fingers and toes because he was so afraid that I'd be a deformed baby. So when I came out a normal baby, my mom held me in her arms and wept. My parents always tell me, "Matthew, you are God's miracle. You are God's grace."
But I never really appreciated that I was God's miracle until my baby brother Daniel died. Daniel's brain didn't separate into right and left hemispheres because of a genetic disorder that's also in my genes. This was passed on to me by my father, passed on to him by my grandfather.
Doctors expected that I would be born with Down Syndrome or autism, and if my dad had his way, I would have been aborted too. But by God's merciful grace, I was born alive. He didn't know that, inside the darkness of my mother's womb, I was not alone. I was never alone. God was there with me, protecting me from harm.
My parents had made the painful decision of aborting Daniel because of that genetic disorder, and felt guilty about it. I had so many unanswered questions. Questions I felt, but couldn't even speak, because there were no words to express them. Part of me felt that I shouldn't have been born.
When I was 17, I ran away from home because I felt that something was missing. Was there something my parents weren't telling me? Why did I feel I had no right to exist? Why did I spend more time wanting to end my life than live it?
We all keep secrets. My dad confessed that besides the risk I would be born with a genetic disorder, he wanted my mom to have an abortion so he could hide his guilt and shame. He was already married when my mom became pregnant, and his wife at the time was also pregnant with my half-brother, Timothy.
I have learned through personal experience that music is used by God to heal the human spirit. During a piano competition, as I played Beethoven's "Pathetique", tears suddenly streamed down the face of my dad. I'll never forget what he said: "Matthew, you played with such powerful emotions because you're alive by God's grace. And the world would not have heard your music if I'd aborted you. So I asked God to forgive me, and I also wanted to ask your forgiveness."
For many years, my dad was stuck in a place called disgrace. This is how he described his disgrace: "Most days, I know that God has forgiven me. But there are some days that I don't feel I'm worthy of having God forgive me of my sins. I feel like a failure. I feel like I've let God down, and I can't seem to forgive myself." My dad was finally able to forgive himself when grace brought forgiveness and healing to his relationship with Timothy.
Growing up, I shared my dad's guilt and remorse. I felt guilty that he chose to be with me, and that my half-brother, Timothy, grew up without a father. Part of me felt that our dad should have stayed with him, maybe even that I shouldn't have been born. I carried the guilt, humiliation, and shame over the sins of my dad, and it was when the pain was too much to bear that God's grace healed me.
Grace really strikes us when we accept, with unwavering trust, that our sins have not only been forgiven, but forgotten, washed away in the blood of the Lamb. Whatever disgraces might make us ashamed, we just need to remember that all have been crucified with Christ.
Though God does not ignore or encourage our sins, He doesn't withhold His love because there is sin in us either. As forgiven sinners, we are humbly aware that sin is precisely what's caused us to throw ourselves at the mercy of our loving Father. If we weren't sinners and didn't need mercy and grace, we'd have no way of experiencing God's relentless and passionate love. No matter what happens or what I do, He can't stop loving me.
But even the courage to accept that our heavenly Father loves us just as we are, and not as how we should be, is grace. Our receiving of His love itself is grace!
Everything that we are and have is grace. Our family is a living testimony to Romans 5:20 - "Where sin abounded, God's mercy and grace abounded all the more." God's amazing grace delivered our family from our disgrace. For us, grace is God's word for love, expressed through unconditional forgiveness.
I'm a trophy of God's grace. As a child of adultery, I rest in His grace to cover the scandal of my birth. I rest in His mercy to cover my shame. I rest in His love to cover my humiliation. I rest in His blood shed on the cross to cover my sins.
Nos tempos que correm, numa sociedade em que ir à igreja deixou de ser um acto com carácter de obrigação social e se tornou cada vez mais uma escolha voluntária nascida da sede de espiritualidade, querer pertencer a uma comunidade devia ser já em si prova suficiente de Fé e de querer orientar os passos pela bússola de Jesus Cristo. Nos Evangelhos há vários relatos de pessoas que procuram ver Jesus de longe, ou tocar-lhe no manto, e a quem ele diz: "a tua Fé salvou-te". Pergunto a D. Manuel Clemente se não lhe basta, como prova de Fé, que as pessoas "recasadas" queiram continuar no seio de uma comunidade, queiram baptizar os filhos e educá-los como cristãos.
Por mero acaso, encontrei recentemente no youtube um nocturno de Chopin em versão para violoncelo. Enquanto ouvia, parei inadvertidamente no texto do dono da página, que era o violoncelista. Nunca pensei encontrar no youtube uma lição de Fé tão comovente. Está lá tudo: os descalabros da vida, a culpa, a dúvida, e a reconciliação consigo próprio nascida da certeza do amor de Deus.
Deixo aqui o texto (e podem ouvir a música no vídeo que está aqui).
É por aí. É por esses caminhos da Fé que se avança como cristão. Estas coisas não se resolvem com regras sobre mais cama ou menos cama.
(Quando muito, alguns poderiam resolver algumas coisas com um bocadinho de divã)
(Ai! Tinha dito que ia falar mesmo a sério. :( )
Matthew John
If I should have a daughter, I will name her Grace. I was taught the song "Amazing Grace" as a young boy, and growing up I got that word "grace" stuck in my head. When I was born, my dad counted my fingers and toes because he was so afraid that I'd be a deformed baby. So when I came out a normal baby, my mom held me in her arms and wept. My parents always tell me, "Matthew, you are God's miracle. You are God's grace."
But I never really appreciated that I was God's miracle until my baby brother Daniel died. Daniel's brain didn't separate into right and left hemispheres because of a genetic disorder that's also in my genes. This was passed on to me by my father, passed on to him by my grandfather.
Doctors expected that I would be born with Down Syndrome or autism, and if my dad had his way, I would have been aborted too. But by God's merciful grace, I was born alive. He didn't know that, inside the darkness of my mother's womb, I was not alone. I was never alone. God was there with me, protecting me from harm.
My parents had made the painful decision of aborting Daniel because of that genetic disorder, and felt guilty about it. I had so many unanswered questions. Questions I felt, but couldn't even speak, because there were no words to express them. Part of me felt that I shouldn't have been born.
When I was 17, I ran away from home because I felt that something was missing. Was there something my parents weren't telling me? Why did I feel I had no right to exist? Why did I spend more time wanting to end my life than live it?
We all keep secrets. My dad confessed that besides the risk I would be born with a genetic disorder, he wanted my mom to have an abortion so he could hide his guilt and shame. He was already married when my mom became pregnant, and his wife at the time was also pregnant with my half-brother, Timothy.
I have learned through personal experience that music is used by God to heal the human spirit. During a piano competition, as I played Beethoven's "Pathetique", tears suddenly streamed down the face of my dad. I'll never forget what he said: "Matthew, you played with such powerful emotions because you're alive by God's grace. And the world would not have heard your music if I'd aborted you. So I asked God to forgive me, and I also wanted to ask your forgiveness."
For many years, my dad was stuck in a place called disgrace. This is how he described his disgrace: "Most days, I know that God has forgiven me. But there are some days that I don't feel I'm worthy of having God forgive me of my sins. I feel like a failure. I feel like I've let God down, and I can't seem to forgive myself." My dad was finally able to forgive himself when grace brought forgiveness and healing to his relationship with Timothy.
Growing up, I shared my dad's guilt and remorse. I felt guilty that he chose to be with me, and that my half-brother, Timothy, grew up without a father. Part of me felt that our dad should have stayed with him, maybe even that I shouldn't have been born. I carried the guilt, humiliation, and shame over the sins of my dad, and it was when the pain was too much to bear that God's grace healed me.
Grace really strikes us when we accept, with unwavering trust, that our sins have not only been forgiven, but forgotten, washed away in the blood of the Lamb. Whatever disgraces might make us ashamed, we just need to remember that all have been crucified with Christ.
Though God does not ignore or encourage our sins, He doesn't withhold His love because there is sin in us either. As forgiven sinners, we are humbly aware that sin is precisely what's caused us to throw ourselves at the mercy of our loving Father. If we weren't sinners and didn't need mercy and grace, we'd have no way of experiencing God's relentless and passionate love. No matter what happens or what I do, He can't stop loving me.
But even the courage to accept that our heavenly Father loves us just as we are, and not as how we should be, is grace. Our receiving of His love itself is grace!
Everything that we are and have is grace. Our family is a living testimony to Romans 5:20 - "Where sin abounded, God's mercy and grace abounded all the more." God's amazing grace delivered our family from our disgrace. For us, grace is God's word for love, expressed through unconditional forgiveness.
I'm a trophy of God's grace. As a child of adultery, I rest in His grace to cover the scandal of my birth. I rest in His mercy to cover my shame. I rest in His love to cover my humiliation. I rest in His blood shed on the cross to cover my sins.
09 fevereiro 2018
casados, recasados, abstinência sexual, e as parangonas pró escândalo
A propósito da sugestão do patriarca D. Manuel Clemente sobre casais "recasados" praticarem a abstinência sexual para poderem ser integrados na vida da sua comunidade cristã
[ uma pessoa escreve isto, e só lhe dá vontade de rir, e é para não chorar: será que vão pôr câmaras escondidas no quarto daquele casal? estão à espera que esse casal viva em tensão permanente, "ai não me dês um beijo que é pecado!", "ai, tira daí as mãos que por tua causa ainda vamos para o inferno!", "ai chega-te para lá, olha que se cedermos à tentação temos de nos ir confessar e rezar quantas avé-marias o padre quiser para podermos comungar de novo, ainda outro dia ele nos mandou rezar dois terços, se prevaricamos já outra vez levamos tantos pais-nossos que temos de meter dois dias de férias para cumprir a penitência" ]
[ isto não são recasados, isto são dois desgraçados em permanente situação de "ai-tu-não-me-tentes!" - que espécie de perversão, que espécie de ódio ao humano leva alguém a sugerir esta regra? ]
a propósito, dizia, da abstinência sexual dos recasados, o António Marujo escreveu, à sua habitual maneira de quem sabe, três textos:
1. A polémica que houve nos Estados Unidos devido à carta pastoral de Braga.
Destaco desse texto: "Ora, é precisamente isto que estes argumentos revelam não entender: as “responsabilidades pastorais” remetem para a ideia do pastor. E o bom pastor, como se lê no evangelho, é o que dá a vida pelas suas ovelhas. É aquele que é capaz de deixar as cinco ou dez ovelhas que (ainda) estão no redil e sair à procura daquelas que saíram porta fora ou ficaram à porta ou bateram com a porta ou a quem alguém bateu com a porta na cara. A misericórdia e a situação de cada pessoa são, no evangelho, atitudes centrais. E é a recuperação dessas ideias que a carta pastoral de Braga tenta propor. "
2. Uma comparação entre as orientações da Diocese de Braga (e entretanto também Aveiro e Viseu) e as da Diocese de Lisboa. Também em Portugal: uma Igreja dividida.
[ e de novo me dá vontade de rir: Braga, capital do turismo religioso - os casais lisboetas vão lá passar o fim-de-semana ou as férias, para poderem ter relações sexuais e a seguir ir à missa de consciência tranquila ]
[ e mandam postais para família e amigos em Lisboa: "estamos a gozar uns santos dias em Braga! Mas nem sabemos que tempo faz, porque temos estado no hotel a tirar as barriguinhas de misérias." ]
3. Uma crítica ao título pouco correcto no jornal Público: não é a Igreja, é apenas a Diocese de Lisboa.
Gostei muito do sarcasmo na frase final: "A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito."
[ uma pessoa escreve isto, e só lhe dá vontade de rir, e é para não chorar: será que vão pôr câmaras escondidas no quarto daquele casal? estão à espera que esse casal viva em tensão permanente, "ai não me dês um beijo que é pecado!", "ai, tira daí as mãos que por tua causa ainda vamos para o inferno!", "ai chega-te para lá, olha que se cedermos à tentação temos de nos ir confessar e rezar quantas avé-marias o padre quiser para podermos comungar de novo, ainda outro dia ele nos mandou rezar dois terços, se prevaricamos já outra vez levamos tantos pais-nossos que temos de meter dois dias de férias para cumprir a penitência" ]
[ isto não são recasados, isto são dois desgraçados em permanente situação de "ai-tu-não-me-tentes!" - que espécie de perversão, que espécie de ódio ao humano leva alguém a sugerir esta regra? ]
a propósito, dizia, da abstinência sexual dos recasados, o António Marujo escreveu, à sua habitual maneira de quem sabe, três textos:
1. A polémica que houve nos Estados Unidos devido à carta pastoral de Braga.
Destaco desse texto: "Ora, é precisamente isto que estes argumentos revelam não entender: as “responsabilidades pastorais” remetem para a ideia do pastor. E o bom pastor, como se lê no evangelho, é o que dá a vida pelas suas ovelhas. É aquele que é capaz de deixar as cinco ou dez ovelhas que (ainda) estão no redil e sair à procura daquelas que saíram porta fora ou ficaram à porta ou bateram com a porta ou a quem alguém bateu com a porta na cara. A misericórdia e a situação de cada pessoa são, no evangelho, atitudes centrais. E é a recuperação dessas ideias que a carta pastoral de Braga tenta propor. "
2. Uma comparação entre as orientações da Diocese de Braga (e entretanto também Aveiro e Viseu) e as da Diocese de Lisboa. Também em Portugal: uma Igreja dividida.
[ e de novo me dá vontade de rir: Braga, capital do turismo religioso - os casais lisboetas vão lá passar o fim-de-semana ou as férias, para poderem ter relações sexuais e a seguir ir à missa de consciência tranquila ]
[ e mandam postais para família e amigos em Lisboa: "estamos a gozar uns santos dias em Braga! Mas nem sabemos que tempo faz, porque temos estado no hotel a tirar as barriguinhas de misérias." ]
3. Uma crítica ao título pouco correcto no jornal Público: não é a Igreja, é apenas a Diocese de Lisboa.
Gostei muito do sarcasmo na frase final: "A responsabilidade social do jornalismo passa pelo rigor da informação. Mesmo no que à religião diz respeito."
será que só pensam nisso?
Li no Público: "Cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, aconselha a que, nos casos em que não possa ser declarada a nulidade do casamento anterior, deve ser proposto ao casal em situação irregular viver sem a prática de relações sexuais."
Esta proposta é tão absurda que até pensei que a culpa fosse da jornalista (o suspeito do costume, a par do tradutor). Mas não, parece que ele propõe mesmo isso.
Então: será que para o D. Manuel Clemente o essencial do casamento resume-se ao truca-truca?!
Tudo o resto que os recasados têm (amor, diálogo, cumplicidade, lealdade, sentido de responsabilidade um pelo outro até que a morte os separe) está bem, e não faz mal terem passado tudo isso do cônjuge anterior para o actual, deixando o primeiro a ver navios. Mas se tiverem truca-truca, está mal, e já não podem ir à comunhão.
Caramba, isto é tão revelador sobre o que vai naquelas cabecinhas! Todos sabemos que há uma certa tendência a sobrevalorizar o que não se tem, mas certas pessoas com responsabilidades na Igreja Católica deviam estar avisadas, e tentar disfarçar melhor.
Chega a ser embaraçoso para quem assiste.
**
Trouxe a fotografia do mural de facebook da Helena Ferro de Gouveia. Partilho também o texto que a acompanha:
Ao impossível ninguém é obrigado. As palavras não são minhas mas do teólogo Anselmo Borges da Sociedade Missionária Portuguesa.
Como católica apostólica romana sinto uma vergonha imensa de posições como a agora assumida pelo Cardeal Patriarca.
Onde está a misericórdia? O Amor ?
Enquanto a ICAR continuar encerrada num gélido, dogmático e burocrático castelo (de homens, porque menina não entra) vai continuar a afastar-se quer das pessoas, dos leigos, quer da Palavra. Se ao invés de diabolizar a sexualidade a aceitasse como uma dimensão essencial do humano faria um grande serviço a si própria e aos crentes. Aprenda-se com a Igreja Evangélica do norte da Europa, muito mais humana, adaptada e perto dos ensinamentos cristãos. Deixem de ser "príncipes da Igreja" e desçam à terra e ao contacto com os fiéis como Jesus fez.
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