22 janeiro 2018

"WC"





Ora aqui está finalmente uma palavrinha com qualidade enciclopédica. Tanto para dizer!
Nem sei por onde começar. 


Começar talvez pelo significado: WC é a abreviatura de Water Closet, uma retrete que se limpa com um fluxo de água que sai de um tanque especial para esse efeito. Por algum motivo que desconheço, o nome WC passou a ser associado a casas de banho públicas. O que está errado, porque as árvores e as esquinas e os umbrais das portas e assim também são usados como casas de banho públicas, e não têm uma retrete com autoclismo – o WC propriamente dito.

Se já estou a falar de casas de banho públicas, tenho de referir o tema do momento, que é as casas de banho para as pessoas que não se vêem nem como masculino nem como feminino, ou que se vêem com o sexo diferente daquele que o seu corpo parece ter. Confusões. Na Alemanha tem-se falado muito disso, e algumas cidades decidiram ter casas de banho púbicas para um terceiro género. Claro que o pessoal protesta, "ai o nosso rico dinheirinho dos impostos", e “tantas crianças a morrer de fome em África, e estes aqui preocupados com casas de banho para neutros ou transpassados”. O que me obriga a fazer um parágrafo, porque o caso é grave:

A ignorância é uma coisa muito triste, e a falta de sensibilidade que lhe anda associada também.
É importante saber isto: a taxa de suicídios entre pessoas que não cabem no esquema homem/mulher é maior do que nas que não têm problemas de identificação do seu sexo. Nada justifica uma norma – seja ela legal, moral, ou tradicional – que provoque um sofrimento nas pessoas tamanho que as leve à depressão e ao suicídio. Sim, bem sei que não é só a questão das casas de banho públicas. É toda uma mentalidade generalizada, que inferniza a vida dessas pessoas e lhes dá a sensação de não terem lugar na nossa sociedade.
Voltando à questão de não gastar o nosso rico dinheirinho dos impostos para ter um terceiro tipo de casas de banho públicas: isso resolve-se facilmente - basta mudar as placas à porta, “WC com urinol” e “WC sem urinol”. Não é caro, e aumenta muito a qualidade de vida de alguns de nós.
Também há quem se queixe da promiscuidade e da falta de intimidade nas casas de banho que não separam bem os sexos. Nem sei que vos diga, porque se levarmos isto mesmo mesmo mesmo a sério é preciso pensar também no perigo que as mulheres lésbicas representam nas casas de banho para mulheres, e idem para homens gays nas dos homens. E depois há as pessoas bissexuais, essas autênticas Mata Hari das casas de banho públicas. Uma pessoa põe-se a pensar nessas possibilidades todas, e só lhe apetece levar um peniquinho de casa...
Ou fazer como já faz nos aviões, nos comboios, no De Young Museum em San Francisco e no WC à entrada do refeitório do seminário diocesano de Leiria, que também é unissexo. Tenho fotos dos dois últimos exemplos, para provar estas afirmações, mas não me apetece ir procurá-las.

Mudando de assunto, para regressar ao início, o sentido inicial de WC, a tal retrete com água - aqui vos convido agora para um passeio pelas sanitas do mundo.
Há as portuguesas, aquelas completamente normais como as que conhecemos, a gente senta-se, plooooop, puxa o autoclismo, limpa com a escova, baixa ou não baixa a tampa (e sujeita-se à eventual discussão familiar), lava as mãos, adiante.
Há as americanas, parecidas com as portuguesas mas com ploop em vez de plooooop porque o nível da água está muito mais alto, nas quais quase nunca é preciso limpar depois do coiso por não haver contacto directo da mercadoria, digamos assim, com a louça.
As alemãs dividem-se em dois tipos: as iguais às portuguesas, e as que têm uma plataforma para boa exposição da tal mercadoria, porque o pessoal gosta de analisar bem o que o corpo produz para poder contar ao médico ou aos melhores amigos. Uma vez feita a análise detalhada, puxa-se o autoclismo, limpa-se aquela porcaria toda e abre-se a janela, porque está lá um cheirinho que nem vos digo nem vos conto.
As chinesas também se dividem em dois tipos: as que são um buraco no chão (e estas subdividem-se em imundas e muito imundas) (bem, isto foi o que vi há 17 anos – se calhar as coisas entretanto mudaram) e as normais como as conhecemos (mas, no caso de WC públicos, em compartimentos sem porta, pelo que convém levar um guarda-chuva para se proteger dos olhares alheios).
As japonesas, essas, são um prodígio da técnica. Quer dizer, não sei, que nunca fui ao Japão, mas contou-me um amigo que lá foi: estava num café e precisou de ir à casa de banho. Foi, fez o que tinha a fazer, e no momento de puxar o autoclismo viu milhentos botões todos em japonês. Carregou num, e da sanita saiu um repuxo para cima. Assustado, carregou outra vez no botão, e o repuxo redobrou a intensidade e a altura. Cada vez mais assustado, carregou em todos os botões, e aquela sanita transformou-se nos jogos de água do Bellagio em Las Vegas (mas sem música). Desesperado, saiu, pagou o mais depressa que pôde, e fugiu dali com a mulher - quando a água já estava a passar por baixo da porta.

Depois da incursão geográfica, a histórica: o water closet que deu origem à abreviatura que usamos hoje em dia foi inventado por um afilhado da rainha Isabel I de Inglaterra, de nome John Harington, em 1596, que ofereceu um à madrinha para ela pôr no seu Richmond Palace. A malandra da rainha fechou-se em copas, não contou nada aos primos na Europa continental (de onde se prova que já no séc. XVI havia esses Brexits de, com licença, merda), e por algum motivo que desconheço, a invenção não conquistou o mercado, e acabou por cair no esquecimento. De modo que ali para o séc. XVIII, do lado de cá do Canal, a pobre da Maria Antonieta ainda se via obrigada a fazer o que tinha a fazer de cócoras num corredor qualquer de Versalhes. Não admira que tivesse acabado como acabou, coitada: as empregadas de limpeza do palácio revoltaram-se com aquelas porcarias, e o resto é História (sim, anotem: a culpa da revolução francesa às tantas é da Isabel I da Inglaterra). Pela altura em que Maria Antonieta estava a casar com o delfim, já no advento da revolução industrial, alguns engenhocas da Grã-Bretanha (ou lá como se chama essa coisa que engloba a Escócia e a Inglaterra) lembraram-se de começar a trabalhar numa sanita como deve ser, com sifão e autoclismo e tudo. Em meados do séc. XIX, com as cidades em crescimento e o sistema de esgotos em aperfeiçoamento, o seu uso generalizou-se. Hoje em dia todos têm pelo menos uma em casa. Mas pode haver novos desenvolvimentos na sua forma - ultimamente andam por aí a dizer que nos obriga a uma posição pouco ergonómica. Talvez um dia destes passe a ser um buraco no chão, para a gente evacuar
de cócoras, como a Maria Antonieta. Tanta coisa com a República e tal, e vamos acabar todos armados em autênticas princesas. Ou rainhas.
  
O termo “water closet” (“WC”) começou por ser usado para indicar um compartimento reservado onde havia uma retrete dessas com água, em vez dos outros onde havia um buraco que dava directamente para a fossa, ou para um aterro de mato, ou para a fachada do edifício, ou sabe-se lá o quê. O nome apareceu na Inglaterra por volta de 1870, e chegou aos EUA em 1880. Depois foi passando de eufemismo em eufemismo (porque as palavras se dão mal com a escatologia, e mal o eufemismo se apercebe do que está realmente a dizer passa a ser a realidade indizível e inventa-se um novo eufemismo). Tanto quando sei, o eufemismo actual é "restroom" - admito que seja por causa de quem tem no WC de casa um banquinho cheio de revistas, jornais e livros ao lado da sanita, e ali fica sossegadamente a descansar do mundo lá fora. Quando eu era miúda, no Porto, não tínhamos as revistas na casa de banho, mas tínhamos a Enciclopédia Luso-Brasileira à entrada - era agarrar numa e abrir ao calhas, até começarem a bater à porta pancadas desesperadas, "vai ler para outro lado!" (uma pessoa põe-se a ter irmãos do Porto, e dá nisto: não há respeito pelo carácter restroom da coisa, parte-se do princípio que é uma mera "cagadeira").
 
Claro que o primeiro WC não foi inventado na Grã-Bretanha. Os romanos já tinham sanitas públicas, uma espécie de bancos de pedra corridos com aberturas, sobre canais de água corrente. Pergunto-me se teriam também divisórias em madeira para separar uns buracos dos outros, com porta e tudo, ou se iam para lá de guarda-chuva em riste como uma mulher que eu cá sei, na China, no ano 2000.
E antes dos romanos, muitos outros já lá tinham chegado. Actualmente, os primeiros a usar sistemas sanitários com água terão sido povos do neolítico, pouco depois do surgimento da roda.

Falta ainda dizer que há um dia mundial da retrete, o 19 de Novembro, e não é patrocinado pelas empresas de equipamentos sanitários. É mesmo uma preocupação muito séria da ONU, uma vez que 40% da população mundial não tem saneamento básico. 

E eis como acabei de me desgraçar: daqui para a frente vão dizer que sou uma especialista de m... oh, calem-se, não gozem. Pouco barulho. Respeitinho! Isto é tudo cultura geral.



21 janeiro 2018

Elis Regina

 (Ruth Toledo)

Presentinho que me deram, e repasso só para que ninguém diga que eu sou de sonegar informações:

Toda a Elis. Todos os álbuns da Elis.

(Abrem a página, carregam no botão dos álbuns - barra superior, à direita da assinatura dela - e depois é sempre a aviar. A saborear.)


20 de Janeiro de 2018

Um ano depois da tomada de posse, o Jimmy Kimmel andou a perguntar a crianças o que achavam do Trump.

(E sempre me espanto com a nossa capacidade de rir perante o estado de loucura que se instalou no centro do poder do país mais poderoso do mundo...)





20 janeiro 2018

20 de Janeiro de 2017

Faz hoje um ano que Trump tomou posse.
Um ano, uma Nambia, um kovfefe, vários "o meu é maior que o teu" e muitas convulsões depois, uma pessoa pergunta-se se a História está condenada a repetir-se. Espero que sim: gostava de voltar ao tempo do Obama.

Entretanto, para a petite Histoire, aqui fica o registo dos meus posts no facebook no dia 20.1.2017:


José Bandeira, "trumpeta do apocalipse":



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Acabei de me meter no masoquismo: transmissão em directo.
Vi os filhos do Trump a entrar em cena.
Diz que o filho mais novo tem autismo, pelo que não vou fazer qualquer comentário sobre o seu comportamento.

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O Matthias veio aqui, e disse que estou a perder tempo. Pode ser, mas não consigo desligar e ir fazer outra coisa. Pareço hipnotizada. O coelho perante a cobra.
(Esperava que o Trump trouxesse uma cartola de onde sairiam passarinhos do Twitter, mas não, parece que não vai haver efeitos especiais.)

Comentário de uma amiga: " Um amigo meu, há muitos muitos anos atrás, ia de mota com um amigo, à pendura. O condutor, que parecia possuído pelo diabo e só fazia asneiras, às tantas perguntou ao meu amigo porque é que ele se inclinava tanto para o lado. Resposta do meu amigo: "é para ver bem onde é que vou bater com os co**os". Assim me parece essa coisa de assistir à tomada de posse da criatura: para vermos bem onde é que nos vamos espatifar todos."

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Até agora, ainda só vi cinco pessoas de pele escura. Já estou a incluir os Obamas.
Adenda: afinal vi seis.

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aaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
O discurso do Trump
aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

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America first.
Estou mesmo muito curiosa para ver se a receita funciona.



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you will never be ignored again
- e diz isto à frente dos outros presidentes todos. Esses que ignoraram o povo, e se enriqueceram à grande em Washington...

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Começou por dizer que finalmente o poder está nas mãos do povo, e daí para a frente continuou a descer.
Make America great again - proteccionismo.

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A pobre Jackie Evancho está tão nervosa!
Bolas, que impressão me está a fazer.

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Acabou.

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Ai, a cara do Obama!
"gute Miene zum bösen Spiel"...

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Agora estou a assistir ao mesmo, mas com comentários da ARD.
Uma pessoa precisa de se sentir um pouco mais acompanhada.
(Hei! estão a entrevistar jornalistas no mundo inteiro! que disparate! então não ouviram? make America great again! a que propósito é que a ARD se dá ao trabalho de querer saber o que outros países estão a pensar?...)

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Lá se vai o helicóptero do Obama.
Já estou com saudades.

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A ARD já terminou a emissão. Passaram para um concurso bacoco. Voltei ao new york times. Banquete, hmmm, comidinha.

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O chat dos jornalistas ao lado da transmissão em directo do New York Times é o máximo.
Por exemplo:

Alan Rappeport
Washington Correspondent
12:15 PM ET

Trump says that the military, law enforcement and God are protecting the American people.
Jon Meacham
Presidential Historian
12:15 PM ET
Does God know that?

Alan Rappeport
Washington Correspondent
12:14 PM ET

Now Trump is calling for unity and solidarity.

Jon Meacham
Presidential Historian
12:14 PM ET
Alan, this is always what Trump does, as you know. He describes the ying, then the yang. And people hear whatever they want to hear.

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Obama a discursar agora.
"A Democracia não são edifícios e monumentos, a Democracia somos todos nós."
"Isto não é um ponto final, é uma vírgula"
(onde foi isto?)
Adenda: “This is just a – this is just a little pit stop. This is a – this is not a period, this is a comma in the continuing story of building America.”

(O discurso foi em Maryland, para elementos do seu staff e apoiantes, antes de partir para as férias em Palm Springs.)

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O papa Francisco a mandar recados a Trump.







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(sobre o banquete)

Amendoins, que nojo.
Maine lobster and Gulf shrimp with saffron sauce and peanut crumble, followed by grilled Seven Hills Angus beef with dark chocolate and juniper juice, accompanied by potato gratin.

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A oração antes da papinha não acaba?
Se eu fosse a cozinheira, já estava a mandar vir. Os amendoins ainda vão arrefecer, depois não prestam para nada.
(Nestes momentos lembro-me sempre do comentário de um amigo sobre umas férias numa casa de um padre:
"tinha de rezar antes de comer, mas valia a pena")

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O Trump sabe lá para que lado fica Berlim! Está inteiramente concentrado no seu umbigo. Parece que alguém lhe disse que coincidia com o umbigo dos EUA.

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Ai! Já são oito da noite?!
Como o tempo passa!
Vou ver o noticiário, para saber se aconteceu alguma coisa importante hoje.
Até já.

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Por favor, está aí alguém que me tome conta do mundo aqui no facebook?
Tenho de ir passar uma roupinha a ferro.
Obrigada!

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O cúmulo do masoquismo, hoje, é ir ver a tomada de posse do Obama em 2009.
Agarrem-me! que estou capaz de me desgraçar...

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18 janeiro 2018

Kafka na Rússia

Traduzo do blogue de Wladimir Kaminer:

Talvez afinal nem tudo fosse mau na RDA - a discussão não tem fim. Até amigos dos meus filhos, que nunca estiveram na RDA, ouviram os pais dizer que dantes havia mais justiça social e mais solidariedade. Faltavam outras coisas sem importância, mas ninguém lhes sentiu a falta. No meu país discute-se ainda mais acesamente sobre o passado soviético. Nós fomos ao espaço e lutámos pela paz mundial, dizem uns. Não havia fraldas descartáveis, nem iogurtes, nem Kafka, rebatem os outros.

Bom, em vez de iogurtes era possível comprar latas de leite condensado açucarado e pô-las a cozer no fogão durante duas horas, até o leite se transformar numa pasta acastanhada que os miúdos adoravam. Às vezes a lata explodia, e era preciso pintar a cozinha de novo. Sobre as fraldas descartáveis não há consenso nem sequer no Ocidente, diz-se que sem elas as crianças tornam-se mais rapidamente seres adultos e disciplinados. Com Kafka é que as coisas foram mais complicadas. Ele não entendeu a dialéctica marxista e não identificou as verdadeiras contradições do capitalismo, o que explica a sua visão sombria - opinavam os nossos ideólogos. Grandes autores do Ocidente, Gabriel Garcia Marquez, Jean Paul Sartre e Heinrich Böll, admiravam-se por Kafka não estar traduzido para russo. O seu momento chegou no fim dos anos sessenta, já havia um livro no prelo, mas de repente os tanques soviéticos avançaram na direcção de Praga e a edição foi liquidada. Só com Gorbatschow é que Kafka apareceu em russo, juntamente com iogurtes e fraldas descartáveis, e estragou os cidadãos.  Hoje em dia, o governo tenta meter a marcha à ré, mas não a encontra. Enfim, os iogurtes podem ser devolvidos, e de qualquer modo não há consenso sobre as fraldas descartáveis. Mas como conseguir tirar Kafka da cabeça das pessoas, isso é que o governo não sabe.


Um blogue, já se sabe, é uma sequência de pequenos textos. Agarrem-me, que li o que estava a seguir a este e apeteceu-me também traduzir, e mais o terceiro e mais o quarto...

Traduzo apenas mais este (e dedico esta tradução ao Trump, que acabou de anunciar os Fake News Awards de 2017):


A destruição dos media russos críticos do poder foi uma das guerras em que o presidente maior sucesso teve. As pessoas não se devem irritar desnecessariamente, em vez disso devem concentrar-se naquilo que é realmente importante na vida. Hoje em dia, é este o aspecto do quiosque de jornais russo: flores, gatos, Putin.


18 de Janeiro de 2018

Já passámos a metade de Janeiro e ainda estou a começar a fazer os presentes de Natal de 2015.
Daqui a nada é Carnaval, depois vem a Berlinale, depois vou a Portugal, depois é Páscoa e logo a seguir - tenho a certeza! - vem o Natal de 2020.

Se calhar começava era a tratar já dos presentes para o Natal de 2030, para não ser apanhada desprevenida.

(O meu presente de Natal para família mais padrinhos e afilhados é um livro com fotografias e histórias do nosso ano. Costuma ser um mês de trabalho, mas nos últimos anos meteu-se sempre uma coisa e outra, ora um crash do computador, ora a preparação de uma festa de Natal para os portugueses que moram em Berlim, ora isto ora aquilo, e já tenho três livros em atraso. Mas o que eu queria mesmo dizer neste post é que o meu tempo parece um carrossel a rodar cada vez mais depressa. De ano para ano, o Natal chega mais cedo.)


16 janeiro 2018

"Quilimanjaro"

A palavra de hoje na Enciclopédia Ilustrada é Quilimanjaro.

Daqui a bocado vou lá falar do filme francês "Les Neiges du Kilimandjaro", um filme extraordário sobre justiça, boas intenções, boa consciência.




Mas, para já, um pequeno momento recreativo nos difíceis trabalhos enciclopédicos:




Quando eu era miúda, na nossa casa ouvia-se muito a palavra #Quilimanjaro. Era a minha mãe a queixar-se do tamanho do aparador na sala da jantar, que ocupava demasiado espaço e quase impedia as pessoas de se sentarem à mesa. "Este Quilimanjaro aqui!", lamentava-se ela, enquanto obrigava toda a gente a levantar-se daquele lado da mesa para poder encostar as cadeiras para poder abrir as portas.
Nós casquinávamos. Durante muitos anos, quilimanjaro foi para nós um móvel que atafulhava uma sala, com portas que escondiam um espaço atafulhado de chocolates e sortido comprados em Espanha.
(Que eu ia roubando em quantidades homeopáticas para vender a uma amiguinha da escola, que me pagava com as moedas da colecção do pai, com as quais eu comprava livros da colecção Formiguinha, mas isso agora são outras histórias.)
(Também há aquela história dos palitos de plástico colorido que roubámos na mercearia do senhor Paulo, e que - é tão triste ser criança! - arrumámos na gaveta do aparador, juntamente com os guardanapos e os outros palitos. Maldito domingo aquele em que o meu pai abriu a gaveta, viu, perguntou "que palitos são estes?!" e me mandou ir devolvê-los ao senhor Paulo.)
(O nosso quilimanjaro era um móvel muito atreito ao mundo do crime.)


15 janeiro 2018

o amor no tempo dos neandertais







Tudo no texto assinado por Catherine Deneuve, Catherine Millet e mais 98 mulheres me deixa estupefacta:
- A transformação de um movimento de revolta contra hábitos do patriarcado, revolta essa que peca por tardia, em mais um exemplo de deriva tresloucada do "politicamente correcto", apelando subliminarmente às mulheres para que sejam comedidas e não levantem ondas desagradáveis;
- A omissão da questão fundamental da assimetria de poderes (a propósito: o comentário que tantas vezes se ouve por aí - segundo o qual estas mulheres terão aproveitado o interesse masculino para subir na carreira "à custa das outras", e agora, "que não precisam", é que se lembram de acusar os homens - é mais uma prova evidente da aceitação social dessa assimetria de poder e das respectivas regras do jogo);
- O apelo à liberdade interior da mulher, que lhe permitirá ignorar que levou um apalpão no metro ou ultrapassar uma violação sem traumas
(troque-se a mulher por um homem, e o apalpão por, por exemplo, o hipotético hábito de lhes pisar um pé - sou só eu que tenho vontade de rir ao pensar nos conselhos que estas senhoras dariam aos homens revoltados com o hábito generalizado de os pisar deliberadamente na rua ou nos transportes públicos? "Não te encerres no papel de presa / não te sintas traumatizado por causa de uma pisadela deliberada no metro, mesmo se isso for considerado delito / encara isso como expressão de uma miséria de vida do outro, faz de conta que não aconteceu /
essas pisadelas frequentes não atingem a tua dignidade e não devem fazer-te sentir como vítima perpétua / não te reduzas ao teu corpo / a tua liberdade interior é inviolável, e essa liberdade implica riscos e responsabilidades."
Quem se lembraria de argumentar assim para tentar convencer os homens a aceitar uma situação de agressão deliberada?) 


Mas o que mais me surpreende é a imagem do masculino que anda na cabeça daquelas mulheres:
"Nous défendons une liberté d'importuner, indispensable à la liberté sexuelle. Nous sommes aujourd’hui suffisamment averties pour admettre que la pulsion sexuelle est par nature offensive et sauvage, mais nous sommes aussi suffisamment clairvoyantes pour ne pas confondre drague maladroite et agression sexuelle."

"Liberdade de importunar, e uma pulsão sexual que é por natureza ofensiva e selvagem." Repito: "ofensiva e selvagem"!
Devo viver numa bolha estranha, porque nunca vi nenhum comportamento de importunação, ofensa e selvajaria ter resultados positivos.
A sério que, em termos de estratégia de acasalamento, os homens são neandertais?
Contem-me tudo, abram-me os olhos. É que os homens que eu conheço - educados e sensíveis, capazes de dar sinais do que querem sem serem invasivos, capazes de aceitar um "não" como resposta - pelos vistos são todos aberrações da natureza, uns autênticos desnaturados...




o que sobrou do Natal


Anedota que sobrou do Natal passado: isto é o presépio ideal da AfD - sem judeus, nem árabes, nem africanos.

Também sobraram estas imagens dos copos de vinho a escorrer depois de lavados.
Flores de cristal como memória de longas conversas à mesa.



(Sim: andei a arrumar fotografias.)


14 janeiro 2018

primeiro dia do ano ortodoxo


No dia 1 de Janeiro de 2017 levei o Fox cedinho ao lago, e vim de lá com fotografias incríveis de um inverno gelado.
Hoje, primeiro dia do ano para os ortodoxos, levei o Fox ao lago, e descobri que afinal o inverno ainda não desistiu de dar um ar da sua graça. Às tantas fui precipitada quando lamentei o dinheiro que paguei ao serviço de remoção de neve, por este inverno ainda não termos tido nada digno desse nome.

Em suma: aprende a patinar, companheiro / aprende a patinar, companheiro / que o gelo se está a levantar / que o gelo se está a levantar / que o inverno vai passar por aqui / etc.


   


 


12 janeiro 2018

o melhor do meu dia


Ontem fui a uma advogada com a minha amiga que perdeu o companheiro antes do Natal. Ela tinha umas perguntas a fazer sobre questões de herança, mas a advogada disse-lhe "minha senhora, não tem direito a nada. Não era casada, não tinha papéis, não há testamento - é como se se tivessem separado. Para todos os efeitos, o seu companheiro abandonou-a".

Já vi elefantes em lojas de porcelana a ter um comportamento mais sensível, mas não se perdeu tudo: à entrada do prédio havia dois espelhos frente a frente, fazendo aquele túnel infinito que desde sempre me fascinou, de modo que nos pusemos a tirar fotografias. Até que um vizinho chegou, e nós disfarçámos e pusemo-nos a andar para fora dali. Queríamos ir conversar num café, mas como não conhecíamos a zona, tocámos à campainha de um escritório para pedir indicações. Do lado de lá ouvimos alguém a tentar abrir a porta, a chave a rodar na fechadura uma e outra vez, nova tentativa. Até que finalmente a porta abriu, e mostrou dois homens com ar simpático. "Desculpe!", disse eu, "não pensava que ia dar tanto trabalho! De facto, só queria perguntar se nos pode indicar um café agradável aqui na zona". Riram, entreolharam-se, consultaram-se, e lá nos disseram em que direcção devíamos ir.

Depois do café fui a correr para o concerto na Filarmonia, com o maestro Sir Antonio Pappano e a soprano Véronique Gens. Desta vez (não perguntem como é que isto me acontece, que também não sei) tinha bilhete no bloco A. Mas quando o maestro entrou, tive pena de não estar nos bancos de pau por trás da orquestra, a vê-lo de frente. Um espectáculo! Vejam aqui o trailer do concerto, observem bem o maestro.

Quando estava a regressar a casa, a minha amiga telefonou-me oferecendo-se para me vir buscar à estação de comboio. Depois convidou-me para um último copo de vinho na casa dela. A verdade é que eu estava a morrer de cansaço, mas depois de um dia tão traumático não a podia deixar a beber sozinha. Falámos mais uma vez daquilo que nos deixa a todos chocados: a naturalidade com que acreditamos que a morte não é uma possibilidade, com que adiamos decisões importantes como escrever um testamento ou mudar um nome de beneficiário de seguro de vida. Depois falámos no boião de vidro que lhe dei na passagem de ano, com a promessa de um ano bom. Ela ainda não tinha escrito nada, disse-me, porque por estes dias quase nada de bom lhe acontece.

Quando me fui embora, vi pela janela que a minha amiga estava a escrever numa das folhinhas do boião. E isso foi o melhor que me aconteceu esta semana: no dia em que uma advogada insensível lhe disse frases devastadoras, a minha amiga conseguiu encontrar algo de positivo para escrever e iniciar uma colecção de momentos bons do ano.

11 janeiro 2018

entretanto, na Filarmonia de Hamburgo...



E o making of:



Quando a Filarmonia de Hamburgo foi inaugurada, a televisão passou em horário nobre um documentário sobre os operários que a fizeram: o condutor da escavadora que esvaziou o edifício histórico com todo o cuidado para não rebentar as paredes exteriores, os técnicos que montaram o telhado ondulado, a pequena empresa da Boémia que produziu os candeeiros em técnica puramente artesanal e os electricistas que os instalaram, as várias empresas europeias que uniram esforços para fazer as esculturas de vidro para as janelas.
E agora fazem um vídeo em que põem uma violinista a fazer música com os limpa-vidros.
Em termos de "trabalhos diferentes, dignidade igual", está tudo dito. Gosto muito desta faceta da sociedade alemã.

Esta Filarmonia, cuja construção demorou sete anos mais do que o previsto, e que trouxe à cidade de Hamburgo custos dez vezes mais elevados que os planeados, faz hoje um ano - e já é impossível pensar a cidade de Hamburgo sem esse marco cultural.

Daniel Kaiser resume o fenómeno: "A Elphi é mais do que apenas uma nova sala de música clássica. Tornou-se um símbolo sonante, com impacto internacional. A Filarmonia reposicionou Hamburgo de forma completamente nova no mapa mundial. Os hamburgueses sentem-se orgulhosos quando um New York Times elogia a sua cidade. O turismo tem um boom, a cultura ganha. A Filarmonia é adrenalina para Hamburgo, e mostra a força que a cultura tem. A cultura não é apenas a cereja no topo do bolo, não é um luxo. A cultura pode ser um motor, capaz de mudar uma cidade."

10 janeiro 2018

immortal Bach, de Nystedt



O meu coro está a preparar esta peça de Nystedt, que cria um efeito de longuíssimo eco a partir de uma composição de Bach. Ontem fizemos a primeira experiência de cantar com dois coros, com um dos grupos a cantar a mesma partitura dando o dobro da duração a cada tempo, e foi uma experiência incrível.

No filme que se segue é explicado como é que a peça funciona. A lógica é simples - mas a suavidade e a capacidade de respirar de forma imperceptível, isso aí, já é com cada um.
(No dia do concerto, que Nystedt nos ajude! :) )



09 janeiro 2018

filhos das estrelas


"Filho das estrelas", Sternenkind, é o nome que em alemão se dá aos bebés que morrem antes ou pouco depois do parto. Na aldeia da minha avó, no Minho, dizia-se "anjinho". No cemitério havia duas longas filas de campas de anjinhos, e os meus olhos infantis pressentiam naqueles canteiros a tristeza das famílias, mas também o sinal de que a aldeia tinha sido tocada por uma inocência celestial.

Na Alemanha, os "anjinhos" são "filhos das estrelas", um nome que evita a crueza de designações como "aborto" e "nado-morto", e ajuda os pais a viver com a dor da perda. Também a nível da legislação se nota a mudança de mentalidade. O corpo, que até há poucos anos era atirado para o lixo do hospital ou entregue a empresas farmacêuticas para fazer experiências, tem agora outro estatuto, com direito a um registo especial e a funeral, mesmo que o período de gestação tenha sido muito breve. Para muitos pais, trata-se de uma conquista importante para o seu processo de luto.

Perante esta mudança de mentalidade, não admira que em 2013 tenha surgido também uma iniciativa que oferece aos pais a possibilidade de registar fotograficamente o filho que nasceu morto ou morreu pouco depois do parto.
Kai Gebel, autor do projecto, escreve aos pais :
A iniciativa já conta com mais 600 fotógrafos que põem o seu tempo gratuitamente à vossa disposição. A ideia de, numa situação tão difícil, haver um fotógrafo a tirar fotografias ao vosso filho pode parecer-vos estranha. No entanto, recomendamos que aceitem esta oferta. A intenção do fotógrafo é dar-vos apoio. Não precisam de ver imediatamente as fotografias, mas poderão vê-las quando sentirem que chegou o momento. Serão uma ajuda no vosso processo de luto. Ficarão para sempre como recordação tangível do vosso filho tão amado.

Como tantas vezes, um acto de generosidade nunca vem só. Soube desta iniciativa por um artigo onde se contava a história de uma destas fotógrafas, que após pedir no twitter alguns objectos para compor as fotografias (gorros para prematuros, cobertores de bebé, peluches) se viu envolvida numa tal onda de boa vontade que até duas objectivas caras lhe foram enviadas, juntamente com inúmeros adereços para as fotos e presentes para os irmãos do bebé, com o carteiro a comentar que se sentia muito feliz por ser parte desse movimento.


08 janeiro 2018

de boas intenções...

Esta manhã sonhei com o Chico Buarque (mas não conto, que depois vocês também iam querer) e o Joachim fez a sua boa acção do dia: deixou-me continuar a dormir.
Muito simpático.

Quando acordei, bem-disposta e predisposta à generosidade, resolvi fazer também uma boa acção. Disse aos meus turistas do airbnb que não precisavam de sair da casa às 10, como é das regras, porque não tenho ninguém a chegar hoje. Podiam deixar as malas, ir passear, e vir buscá-las antes de se irem embora de Berlim.
Eles responderam: "Isso é muito simpático, mas nós reservamos o apartamento até depois de amanhã."

Ooooops.
Tenho de começar a comprar café português, que o alemão está a funcionar cada vez pior...


07 janeiro 2018

na passagem de ano

Depois do Natal, os nossos amigos do Lago Constança deram-se conta de que não tinham planeado nada para a passagem de ano, e resolveram vir festejar connosco.

Fomos com eles a um dos concertos de fim de ano dos Filarmónicos, com Simon Rattle e Joyce DiDonato. Já tínhamos ficado em êxtase no ensaio geral, mas o concerto foi ainda melhor. E tivemos o gosto de ouvir Simon Rattle anunciar a "White House Cantata" com o comentário "pudesse esta canção ouvir-se mais vezes naquela casa..." e de o ver a sorrir aos músicos fazendo um sinal de nos cortar a garganta a todos, porque aplaudimos a sua frase com demasiado entusiasmo.
(A saudade que este homem vai cá deixar...)



Take care of this house
Keep it from harm
If bandits break in sound the alarm
Care for this house
Shine it by hand
And keep it so clean
The glow can be seen all over the land.

Be careful at night,
Check all the doors,
If someone makes off with a dream
The dream will be yours.
Take care of this house
Be always on call
For this house is the home of us all.

Da Filarmonia seguimos para o Babylon, um dos grandes cinemas da Berlim dos anos vinte, para ver um dos filmes mudos que passam todos os sábados à meia-noite com música ao vivo. No cinema há um órgão de 1929, e há também uma pianista russa que se apaixonou por ele e vem todos os sábados improvisar a música para os filmes mudos. 
A minha esperança era que o filme do dia fosse "Berlim: a sinfonia da grande cidade" - mas era um Charlie Chaplin, "City Lights". E como Chaplin fez questão de que este filme não passasse nunca com música ao vivo, perdemos a sessão de cinema com o famoso último órgão de cinema em uso na Alemanha. Os nossos amigos terão de voltar a Berlim para ouvir a pianista russa no cinema Babylon, coitados.
Mesmo assim, gostámos imenso: a expressividade do rosto de Chaplin naquela tela enorme, as críticas sociais que o filme transporta, o grafismo dos intertítulos e a frase num deles:


A passagem de ano propriamente dita foi um sossego. Na nossa casa, com um jantar bastante simples, e o jogo Vertellis.
Este jogo, que vem da Holanda, propõe perguntas para passar o ano em revista, do género:
- qual foi o melhor elogio que te fizeram este ano?
- o que te surpreendeu em especial?
- diz três coisas que te deram muita energia
- qual foi a melhor decisão que tomaste?
- daquilo que conseguiste atingir este ano, o que te dá mais orgulho?
- a quem gostarias de agradecer algo em especial?
- de que é que te sentes mais grato?

Entrega-se uma carta a uma pessoa, que começa por decidir se quer responder àquela questão ou se prefere outra. Os demais participantes comentam a resposta, dão achegas, e também podem responder eles próprios a essa pergunta. A seguir, entrega-se nova carta à pessoa ao lado, e a conversa continua.

A pergunta "qual foi o melhor elogio que te fizeram este ano?" calhou à nossa amiga que perdera o marido uns dias antes. Ela leu, abriu um sorriso que se foi tornando cada vez mais doce, e finalmente disse que não queria responder. Apressámo-nos a dar-lhe uma pergunta alternativa.


À meia-noite a cidade rebentou em fogo-de-artifício, e nós fomos para o terraço cumprir também a nossa parte. Todos menos a Christina, que se retirou para um quarto tentando acalmar o Fox, que tremia e arquejava em grande aflição. Ao ver o sofrimento do cãozinho, perguntei-me como se sentirão os animais selvagens que partilham a cidade connosco.
Depois regressámos ao jogo, e à sobremesa.
Na segunda volta, as perguntas eram dirigidas a cada um, mas a resposta tinha de ser adivinhada por outros. Do género:
- Pensa quais são as tuas duas melhores qualidades, mas não as reveles. Diz quais são as duas melhores qualidades da pessoa que está três lugares à tua direita.
- Pensa em que te queres focar mais no próximo ano, mas não o reveles. Diz em que é que a pessoa dois lugares à tua esquerda se quer focar mais no próximo ano.

Não conseguimos chegar à terceira volta, com perguntas sobre o que queremos do ano recém-chegado. Talvez no próximo ano, se começarmos mais cedo. Tipo: logo a seguir ao Natal...
Vou guardar o jogo cuidadosamente. Promete outras passagens de ano igualmente boas.  



(Se querem saber tudo: 200 g de suspiro, 750 g de framboesas, 600 ml de natas batidas até ficarem bastante espessas. Partir o suspiro em bocados pequenos e cobrir com parte deles o fundo de uma taça de vidro, deitar framboesas congeladas por cima, deitar as natas batidas por cima, repetir. Guardar durante 4 horas no frigorífico antes de servir.)


06 janeiro 2018

o Natal é para as ocasiões


O nosso 2017 terminou com um choque enorme: um amigo nosso - o vizinho que tantas vezes estava a grelhar no jardim quando eu passava com o Fox, e no regresso me convidava para provar a carne assada  (para quem participou no passeio ao Douro que fizemos em Julho: o que fazia anos nesse dia e ao almoço pagou as bebidas de todos) - morreu inesperadamente durante o sono, dois dias antes do Natal. Tinha 56 anos.

"Em momentos destes, tudo passa para segundo plano", comentou o vizinho da casa em frente quando me deu a notícia, junto à ambulância que já não serviu para nada. Arranjámos maneira de fazer com que a mulher do nosso amigo viesse para Berlim sem desconfiar do que se tinha passado, recebemo-la e amparámos como pudemos a sua queda no abismo. Chorámos juntos. Fiz sopa para todos. Trouxe a família para a nossa casa, recebemos os amigos que iam chegando.

O nosso Natal, que estava a ser preparado com outra família, e prometia ser um tempo de calma e conforto, alargou-se para acolher a mulher e os irmãos em luto. Os vizinhos uniram esforços para ajudar e animar na medida do possível os familiares profundamente fragilizados.

Senti-me grata por todas as vezes em que conseguimos fazê-los rir e esquecer momentaneamente a dor: a noite de consoada, quando o vizinho da frente entrou pela nossa casa adentro com todos os parentes e uma bela garrafa de cognac; a leitura do Wladimir Kaminer, que fez as duas irmãs rir a bandeiras despregadas, e a Russendisko da qual as duas saíram a dançar abraçadas; o casal a contar histórias mirabolantes da vida louca que faziam antes de se terem conhecido e ganhado juízo; o vizinho que deixou duas rosas num jarro com água à entrada do jardim; as salsichas que grelhámos e comemos de pé, em homenagem ao amigo que partiu.
Esses, e tantos outros momentos em que alguém teve a coragem de visitar o sofrimento desta família, afirmaram o verdadeiro espírito de Natal.

Se o Natal não se fez para estas ocasiões, não sei para que poderá ter sido feito.


Uns dias mais tarde, num pequeno-almoço em família, a conversa acabou por desembocar na eventualidade de também nós morrermos assim inesperadamente. Respondemos aos nossos filhos com confiança: estes dias acrescentaram nomes aos que já tínhamos para lhes dar, e mostraram-lhes que ninguém é deixado sozinho com a sua dor e os seus problemas.

Sim, tivemos um bom Natal.
Permitiu-nos perceber que não se trata de "fazer aos outros como quero que me façam a mim", é maior que isso, é sobre o nosso mundo. O mundo é aquilo que nós fazemos nele.

Deixo aqui algumas imagens do Natal que também coube neste Natal.



   








04 janeiro 2018

"desejo"

A palavra mágica de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "desejo".
Voltando a usar o blogue para arquivar o que aparece e desaparece na voragem do facebook, aqui deixo alguns "posts roubados":

1.


Björk, aqui com a participação de Antony Hegarty, em "The dull flame of desire" (Eu vejo a entorpecida chama do #desejo), a partir da tradução para inglês de um poema de Fyodor Tyutchev, o mesmo que é declamado na cena final do filme Stalker, de Andrei Tarkovsky.
Parece que Dostoyevski considerava Tyutchev o melhor poeta russo e era capaz de ter razão.

I love your eyes, my dear
Their splendid sparkling fire
When suddenly you raise them so
To cast a swift embracing glance
Like lightning flashing in the sky
But there's a charm that is greater still
When my love's eyes are lowered
When all is fired by passion's kiss
And through the downcast lashes
I see the dull flame of desire
--/--/--/--/--
Eu amo os teus olhos, meu amor
A sua esplêndida, radiante chama
Quando por um instante tu os levantas
Ligeiramente para lançar um olhar aconchegante
Como um relâmpago cortando o céu
Mas há um encanto maior ainda
Quando os olhos do meu amor estão baixos
No calor de um beijo apaixonado…
E por entre os cílios baixos
Eu vejo a entorpecida chama do desejo


2.


É uma tetralogia de peso: Mozart, Angelin Preljocaj, Aurélie Dupont e Manuel Legris.
A propósito de #desejo. A propósito de quase tudo __________

[E agora acrescento eu: reparem no beijo, a partir de 5:15.
Melhor dizendo: reparem em tudo.]


3.
Do Desejo

“Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.”

 
Hilda Hilst, Do Desejo, 1992



4.
Teorias do desejo, há muitas. Lacaniana me confesso: o maior prazer está no desejo em si, e não na sua satisfação (que é o fim do desejo). Sendo embora verdade que se possa incluir entre os objetos de desejo tanto uns bolinhos de bacalhau quanto um belo casaco, a palavra remete para a sexualidade em primeiro lugar – portanto, por uma vez sem exemplo, esqueço aqui os bolos de bacalhau.
Muitas formas tem o desejo. Uma das minhas favoritas é Desire, personagem da série “The Sandman” (1989-1999), novela gráfica nascida da imaginação delirante de Neil Gaiman. Desire é uma reformulação de Eros, de quem mantém o caráter caprichoso, a força anárquica e socialmente subversiva que é necessário domesticar. Mas é possível domesticar o caos? Desire é o mais cruel dos 7 irmãos Endless, tendo um poder medonho sobre todos, humanos e imortais: apenas Death não o teme, e apenas Despair, sua irmã gémea, o ama.
Somos todos criaturas suas.



5.
A AMBIVALÊNCIA DO DESEJO
Embora o desejo pareça uma pulsão clara de aproximação entre dois seres, a primeira coisa que ressalta é a sua complexidade. Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro, no seu poema "Destruição", faz esta afirmação espantosa: "Dois amantes que são? Dois inimigos".
E, se, de acordo com a definição de S.B. Levine, o desejo pressupõe uma boa saúde física, psíquica e relacional, a sua verdadeira natureza é a ambivalência.
Ambivalência que se traduz nestas antíteses poéticas (lembremo-nos de “O amor é um contentamento descontente”, de Camões, e de Petrarca:"Ó morte viva! Ó mal delicioso!"), e ainda na semântica da aproximação amorosa (a conquista, o cerco, a luta, o desafio, a rendição); em suma, uma relação ritualizada e não-consciente de luta pela conquista do outro, o que pressupõe "entrar" no seu território, isto é, na sua intimidade.
Esta vulnerabilidade gera tensões, medos, respostas agressivas, desejo de afastamento. Por mais que o outro seja desejado, é também temido. Os amantes, depois da fase de deslumbramento, ou seja, de permissividade territorial, facilmente entram em conflito e agridem - por silêncios, palavras, ausências - e afastam-se simbolicamente. Perante a ameaça da perda o desejo aumenta e os amantes reaproximam-se.


6.
A FALÁCIA DO DESEJO
Vivemos aparentemente numa sociedade hipersexualizada, mas uma boa parte disso pertence ao mundo da ficção: refiro-me ao cinema e tv e à publicidade. Na verdade, em 2008, os valores ingleses para a prevalência das perturbações do desejo sexual hipoativo eram de 32% das mulheres e 15% dos homens. (what a world!!!)
Sendo um problema comum aos dois sexos, as suas determinantes são diferentes: enquanto que nos homens existe uma relação clara entre níveis de testosterona e desejo, nas mulheres, as relações entre doseamentos hormonais e desejo são apenas uma parte da questão, e de modo nenhum a mais importante.
Foi Helen Singer Kaplan (foto) que, com a sua obra "The new sex therapy" de 1974 primeiro chamou a atenção para as perturbações do desejo em Sexologia, considerando-o como uma das fases da resposta sexual humana.
Combinando vários saberes que até então estavam demasiado compartimentados, (visto que era simultaneamente psiquiatra, psicóloga e psicanalista), ela rompeu com o anterior modelo de Masters e Johnson, cuja visão exclusivamente comportamental, se bem que eficaz, era limitada, visto que não tomava em consideração o desejo.

Comentário a este post: Algures nos meados dos anos 80 assisti a uma preleção com o Francisco Allen Gomes e nunca mais esqueci de ele dizer "à mesa do café é uma por dia se não forem mais... com sorte até pode ser uma por mês"

03 janeiro 2018

Carta aberta ao senhor Ministro da Saúde

(trouxe do facebook, do mural da Helena Ferro de Gouveia)

Exmo Senhor Ministro da Saúde Dr. Adalberto Campos Fernandes,

1. Na quarta-feira dia 27.12.17 dirigi-me às urgências do Hospital de Santa Maria com uma dor precordial muito forte. Uma vez que tenho pericardite recidiva ( duas em 2016 e um episódio em 2017) devidamente diagnosticada e que me mantiveram internada quer em Portugal, quer na Alemanha, conheço bem os sintomas.
Chegada à urgência não havia nem maca, nem uma cadeira de rodas para me sentar. Valeu-me o voluntarismo de um agente da PSP, que conhecendo o Hospital, me conseguiu desencantar uma cadeira.
A fila para a inscrição na urgência era extensa e nenhuma observação, monitorização ou canalização de veia foi feita porque faltava o "acto administrativo".
Não sendo eu profissional de saúde acredito que um "acto administrativo" (ou a falta do mesmo) não seja impeditivo de prática clínica. Ou vivemos numa república kafkiana?
Foi-me atribuída uma pulseira amarela na triagem e fiquei na sala de espera, sem que nenhum tipo de medicação para a dor me fosse administrado.
Fui observada por uma médica de medicina interna que prescreveu análises sanguíneas, um ECG e um raio x ao coração. Entre a minha entrada em Santa Maria e a realização de todos os exames ( entrada antes das 21 horas) passaram-se mais de cinco horas.

2. A médica, apesar de eu ter contado todo o meu historial e ter explicado que passo boa parte do ano em países em desenvolvimento e junto das populações e os mais carentes dos carentes como os refugiados, desvalorizou esse factor, e não prescreveu uma ecografia cardíaca que usualmente permite fazer o diagnóstico da pericardite quando os outros meios complementares de diagnóstico não a detectam.
Aproveito aqui para questionar porque razão os hospitais portugueses não estão ligados em rede permitindo ao clínico saber a que procedimentos o paciente já foi submetido e a sua história clínica? Em vez de eu contar, não teria sido mais fácil ver todos os exames e o meu processo no Hospital Central de Vila Real onde estive internada em Novembro de 2016 ?
Em resumo: com uma queixa cardíaca, não fui
vista por um clínico da especialidade e fui enviada para casa com Aspergic e um "se se sentir mal volte amanhã".

3. No dia 28.12.17 como a dor não havia passado dirigi-me às urgências do Hospital da Luz onde após uma bateria de exames - que paguei à cabeça - foi-me diagnosticada pericardite e ordenado internamento.
A pergunta que coloco neste ponto é: se o paciente não tiver capacidade económica para pagar exames complementares de diagnóstico sujeita-se à sorte ou ao azar ? Isto é responsável ( já nem falo em ético) ?

4. A minha epopeia hospitalar não acaba aqui. O Hospital da Luz não tinha vagas para internamento. Pediram-me que pagasse os exames e a urgência e que procurasse pelo meu pé um quarto de hospital. Nem um contacto telefónico foi feito.
A pergunta neste ponto, para o senhor ministro e os administradores do privado é: o doente é um cliente, que paga salários e sustenta todo o sistema, ou é um mero factor de lucro ou prejuízo? Onde andam as boas práticas ou mesmo a decência ?

5. Continuando, com o meu carro privado, dirigi-me a CUF Descobertas. Lá quando me apresentei na recepção mostrando todos os exames feitos no Hospital da Luz, respondem-me "tem que passar pela triagem" , mas não respondem à pergunta "tem vaga para internamento". Ou seja estavam dispostos a cobrar a taxa de urgência a uma doente com o diagnóstico feito.
Percebendo que eu já não estava para brincadeiras o enfermeiro que me atendeu e que foi sincero: "não temos quartos" e "não vou iniciar o processo". Cancelou a urgência e não não me foi debitado a taxa. Telefonar para outro Hospital ? Falso alarme.

6. Da CUF Descobertas dirigi-me para o Hospital dos Lusíadas, não sem antes ter telefonado e perguntado se havia vagas, "não lhe podemos dar essa informação pelo telefone". Neste hospital fiquei internada de 28.12.17 a 1.01.18 devido à pericardite.
A minha pergunta é: se não tivesse 550 euros para pagar à cabeça como caução pelo internamento - entre exames e outras despesas foram cerca de mil euros em 24 horas - onde ficaria ? O que me aconteceria? Se nas deslocações entre hospitais me acontecesse algo quem se responsabilizaria ?

7. Durante o tempo que esteve nos Lusíadas - onde a enfermagem, médicos de medicina interna e demais pessoal, foram de uma extrema simpatia e dedicação - não fui vista por um cardiologista, mas a "concertação" foi feita entre os médicos de medicina interna e alguém da cardiologia que eu nunca vi. Só ontem, em consulta nos Lusíadas, já depois de ter alta, fui vista por uma referência da cardiologia nacional.
As perguntas neste ponto são: não há médicos especialistas nos hospitais privados em época festiva ? O que explica que uma doente cardíaca tenha de se deslocar da sua cama, em cadeira de rodas, até um consultório para que lhe sejam observados os ouvidos com um otoscópio preso à parede, porque os demais instrumentos ficam fechados aos fins de semana e feriados?
Esta exposição segue via postal acompanhada de todos os exames e demais documentação.
Mais do que uma resposta do senhor ministro, agradeceria que houvesse uma reflexão séria sobre os problemas graves que enfermam o sistema de saúde.

Com os melhores cumprimentos e votos de um Saudável 2018.

Helena Ferro de Gouveia

Adenda para quem não é da capital. Santa Maria é um hospital público, os restantes são privados.

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Os dois jovens casais gregos que estiveram cá uns dias, em Novembro, mandaram-me de presente de Natal dois postais (sim, cada casal escreveu o seu próprio) e guloseimas para mim e para o Fox.
E renovaram o convite: quando eu quiser ir à Grécia, fico nas casas deles. De graça.

(Estava na dúvida sobre o que fazer aos brincos que esqueceram aqui, e agora não tenho hipótese: vou ter mesmo de os devolver. A generosidade natalícia tem o seu quê de pedagógico, é só o que vos digo.)