31 janeiro 2018

"Fausto"

A palavra mágica do dia na Enciclopédia Ilustrada foi "Fausto".
Aproveitei para me queixar de uma ópera que me aconteceu há tempos, e desde então me andava aqui entalada:



Bem sei que já hoje se falou aqui muito da "Danação de #Fausto", de Berlioz, mas ponham o ombrinho a jeito, porque me venho aqui queixar da encenação que vi desta ópera em Berlim. O maestro era o Simon Rattle, e a Margarida era a Magdalena Kožená. Até aí, tudo maravilhoso. Mas o encenador Terry Gilliam resolveu justapor ao libretto a História da Alemanha, desde o período romântico (a ópera abre com uma citação cenográfica de Kaspar David Friedrich) até ao fim do III Reich.
Ora bem: não tentem fazer isto em casa - pode correr muito mal. Primeiro: não é boa ideia um inglês vir à Alemanha mostrar cenas do III Reich. Os alemães têm com esta época negra da sua História uma relação extremamente exigente, que não perdoa clichés e abordagens superficiais. Segundo: pegar nos textos daquela história do Fausto, do Diabo e da Margarida, e fazê-la decorrer ao longo da História alemã, tem tudo para correr mal. Por exemplo: a República de Weimar entrou na parte do coro da taberna (estão a imaginar o movimento revolucionário, os sindicatos e os partidos a cantar uma canção de bêbedos (*)?
Eu também não.

Mais grave ainda foi a última ária de Margarida. O encenador põe-na com uma estrela amarela no peito, sentada junto à sua mala, à espera do comboio de gado que a levará para Auschwitz, a cantar este texto (**):
"D’amour l’ardente flamme,
Consume mes beaux jours.
Ah! la paix de mon âme
A donc fui pour toujours!
Son départ, son absence
Sont pour moi le cercueil,
Et, loin de sa présence
Tout me paraît en deuil."



Não se pode fazer isto na Alemanha. Não se pode fazer isto a público alemão. O sofrimento dos judeus no Holocausto não pode ser tratado com esta falta de seriedade num teatro de Berlim.

E que fiz eu? Dividida entre apreciar os magníficos cenários e coreografias (que o eram) e irritar-me com aquele disparate, optei por olhar quase sempre para o Rattle no seu estrado, e para me fixar no trabalho dos cantores.
Pelo menos já ninguém me tira a recordação da voz da Kožená a cantar aquelas poucas árias que são as da Margarida nesta ópera!

(Sim, poucas árias, infelizmente. Mas, lá está: o libretto foi escrito numa época em que ainda não havia uma quota obrigatória de tempo de antena das mulheres em palco... )

--

(*)
"Oh! qu’il fait bon, quand le ciel tonne,
Rester près d’un bol enflammé,
Et se remplir comme une tonne,
Dans un cabaret enfumé!
J’aime le vin et cette eau blonde
Qui fait oublier le chagrin.
Quand ma mère me mit au monde
J’eus un ivrogne pour parrain."

(**)
"D’amour l’ardente flamme,
Consume mes beaux jours.
Ah! la paix de mon âme
A donc fui pour toujours!
Son départ, son absence
Sont pour moi le cercueil,
Et, loin de sa présence
Tout me paraît en deuil.
Alors ma pauvre tête
Se dérange bientôt,
Mon faible cœur s’arrête,
Puis se glace aussitôt.
Sa marche que j’admire,
Son port si gracieux,
Sa bouche au doux sourire,
Le charme de ses yeux,
Sa voix enchanteresse,
Dont il sait m’embraser,
De sa main la caresse,
Hélas! et son baiser,
D’une amoureuse flamme,
Consument mes beaux jours!
Ah! le paix de mon âme
A donc fui pour toujours!
Je suis à ma fenêtre,
Ou dehors, tout le jour,
C’est pour le voir paraître,
Ou hâter son retour.
Mon cœur bat et se presse
Dès qu’il le sent venir,
Au gré de ma tendresse
Puis-je le retenir!
Ô caresses de flamme!
Que je voudrais un jour
Voir s’exhaler mon âme
Dans ses baisers d’amour!"


"the super blue blood moon" em Berlim


O céu berlinense está coberto de nuvens. Se não fosse o facebook, não via esta lua magnífica de hoje. E depois ainda dizem que não sei quê é só virtual, e que o mundo real é que é, e não sei quê.

Diz que é o templo de Poseidon, no Cabo Sunião. E a the super blue blood moon, claro.

30 janeiro 2018

sexismo no Parlamento alemão

O projecto "Docupy" fez para o canal WDR um conjunto de pequenos documentários sobre sexismo no Parlamento alemão.
Num deles, interrogou deputadas dos vários partidos sobre casos em que foram vítimas de sexismo. As respostas são muito elucidativas (aqui, em alemão), sobretudo tendo em conta que estamos a falar dos deputados do órgão máximo de soberania política do país, dos quais, obviamente, se exige um nível mínimo de reflexão sobre estas questões.

Alguns exemplos:

- "Não és assim tão feia a ponto de teres de ir para a política..."

- "De uma política tão atraente podia claramente ter-se feito muito mais."

- Disseram-me, em tom de surpresa, que eu era extremamente competente - e além disso "tinha o rabo mais bonito de todo o grémio".

- Nestes casos, nunca se trata de sexualidade. É sempre uma questão de poder.

- A minha apresentação estava a correr muito bem, os meus argumentos eram excelentes, e então o homem à minha frente comentou "os teus brincos balançam de uma forma gira quando te entusiasmas". Não me entendam mal: gosto muito de falar sobre moda e acessórios, e gosto de ouvir elogios. Mas um bom elogio ou um bom small talk sobre moda precisa de um bom timing.

- Claro que gosto de ouvir um elogio. Mas depois pergunto: então, e sobre aquilo que eu disse? Gostava de receber feedback sobre as ideias que expus.

- Ao decidir a formação dos grupos parlamentares, disseram-me "tu és mulher, o melhor é ires para os grupos de temas sociais e de educação". Eu olhei para eles com ar de estranheza, e respondi-lhes que não, que fazia questão de ir para o das finanças.

- Se uma mulher diz o mesmo que um homem, ou até o mesmo de forma melhor, nunca acontece de  um homem mencionar o que a mulher disse - vai sempre referir-se ao homem que apresentou a mesma ideia. São mecanismos subtis.

As acusações são transversais a todos os partidos - excepto a AfD. Aparentemente, as mulheres deste partido estão satisfeitas com a situação actual. No vídeo, Beatrix von Storch diz "entre nós, as mulheres podem chegar aonde quiserem, até podem tornar-se chanceler. Tudo bem."
Frauke Petry, que já não está na AfD, critica as posições contra o sexismo com toda a clareza:



"Penso que o debate sobre o alegado sexismo, o debate #metoo, é um absoluto exagero. Em minha opinião, o debate está a ser instrumentalizado por uma minoria, e está prestes a destruir muitos dos hábitos e tradições do nosso país que são razoáveis e aos quais nos afeiçoámos. Não tenho nada contra continuar a considerar as mulheres o sexo frágil, porque, objectivamente, somos diferentes dos homens."

O Docupy foi então entrevistar deputados do Parlamento alemão. Vejam o vídeo - tem legendas em inglês, e é muito interessante. A pergunta era: "quando é que foi a última vez que criticou a um homem o seu comportamento sexista?"



a EI contra a IA do facebook


 
Entre ontem e hoje, na Enciclopédia Ilustrada está a acontecer uma sublevação contra a inteligência artificial do facebook. E está a ser muito bonito.  

Muito brevemente: o facebook pura e simplesmente bloqueou uma das participantes do grupo "Enciclopédia Ilustrada" por causa de um post que escreveu sobre a Mata Hari, ilustrado com esta fotografia. Outra pessoa lançou o alerta, e desde então aquela foto começou a pipocar no grupo e nos murais dos participantes, com manifestações de protesto, provocações e piadas. Copio para aqui alguns exemplos, sem o nome dos autores (e avisando que a palavra do dia era "dúvida", daí que apareça sempre como mote):

- Por mim, não tenho qualquer #dúvida. Se uma diz Mata-Hari, os outros devem dizer Esfola-Hari.

- Parece que eles não sabem que aquilo não é realmente o pipi dela. É apenas uma representação digital, não são pentelhos, são zeros e uns...

- Chama-se a isto, em matéria de Registos e Notariado, um acto de remoção de #dúvidas:




- "Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa #dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um filho aos cento e trinta anos de idade."
José Saramago, Caim, Ed. Caminho, 2009

Jan Gossaert[1478-1532], Adão e Eva, ca. 1507/1508, Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid


[ comentários:
- A #dúvida é se o algoritmo percebe que isto é provocação!
-
Isto era um provocação ali para os lados do séc. XVI. O algoritmo está a sair da Idade Média, há que ter paciência com ele. Mais 500 anitos, e chega lá. ]




Outros posts, mais sérios:

Contra a censura no Facebook
Contra os falsos moralismos
Pertenço a um grupo no Facebook, juntamente com mais de 2300 membros
Chama-se Enciclopédia Ilustrada( EI, como lhe chamamos ternamente entre nós)
Diariamente é lançada pela Administradora uma “palavra mágica” sobre a qual os seus membros publicam textos, poemas, músicas, filmes, fotografias e tudo o que a imaginação e o saber lhes aprouver partilhar
É uma fonte de conhecimento aprofundado, vindo de diversas áreas, reflectindo um grau de cultura acima da média, que é transmitido espontaneamente e coadjuvado por comentários de igual forma enriquecedores
É já uma Família, com pontos de vista às vezes diferentes como em todas as famílias, mas devidamente fundamentados e em que a amizade se tem vindo a construir no dia a dia
Ontem uma enciclopedista ilustrou a sua publicação sobre a palavra do dia #bailarina, com uma foto da Mata Hari
Hoje fomos surpreendidos com a notícia que o Facebook tinha retirado a publicação e tinha bloqueado essa pessoa, tanto do face como do Messanger
Está em curso um movimento de protesto por parte dos elementos do grupo, mas não posso deixar de questionar publicamente esta censura por parte desta rede social, baseada em falsos moralismos que não permitem que entendam a diferença entre pornografia e arte
Daí o meu protesto!
Daí a minha solidariedade com a pessoa bloqueada e com todos aqueles que já foram alvo do algoritmo descerebrado
Se por estes dias não aparecer por aqui é porque, no seguimento deste post fui também bloqueada
Temos pena, mas calar-me, nunca!


Finalmente, o texto de protesto que enviei ao facebook:

Sou administradora do grupo "Enciclopédia Ilustrada" - um grupo no facebook com mais de 2300 membros, com altíssima taxa de participação diária e interacção dos membros. Uma das participantes do grupo foi bloqueada por ter ilustrado um dos seus posts - que são sempre de excelente qualidade - com uma fotografia célebre de Mata Hari.
Na qualidade de administradora do grupo, faço questão de ser chamada a tomar parte na decisão do que é conteúdo inapropriado para este grupo.
Mais: considero que o facebook actua de forma prepotente ao castigar pessoas por meio de um bloqueio. Mais grave ainda quando se castiga alguém por ter publicado uma imagem de reconhecida qualidade artística e histórica.
Não é culpa dos utilizadores que o facebook não saiba distinguir entre cultura e pornografia. É lamentável que o facebook mostre um comportamento tão ignorante. Estudem!
Bem sei que o argumento para este comportamento de censura cega é "não chocar pessoas de outras culturas", mas para essas pessoas a solução é bastante simples: não andem a espreitar em murais e grupos de pessoas da nossa cultura.
A quem possa interessar: é óbvio que este grupo só ficará no facebook enquanto não houver alternativa a essa plataforma. E não sei se se apercebem do efeito de arrastamento que terá, quando cada um dos seus 2300 participantes comunicar aos amigos que descobriu outro lugar onde se sente melhor.
A foto em questão foi tirada do wikimedia commons, e encontra-se aqui.


26 janeiro 2018

é fazer as contas

Expliquem-me como se isto fosse um exercício de uma ficha de matemática de uma criança de seis anos:

Pergunta 1: quantos casos conhecem de pessoas concretas que foram até agora injustamente apanhadas pela onda de acusação do movimento #metoo (e #balancetonporc, etc.)?
(podem consultar jornais para responder)

Pergunta 2: quantos casos conhecem de pessoas concretas que [OK, vou reduzir as possibilidades a uma parte ínfima da realidade] foram vítimas de assédio sexual grave no local de trabalho?
(podem consultar jornais para responder)

Pergunta 3: qual é maior - o número indicado em 1 ou em 2?

Pergunta 4: se eu tivesse de pagar um euro por cada vez que ouço ou leio "coitadas das vítimas de abuso sexual no local de trabalho, o que lhes fazem é insuportável e inaceitável" (ou algo do género), e se recebesse um euro por cada vez que ouço ou leio "coitados dos homens que estão a ser acusados injustamente, o que lhes fazem é insuportável e inaceitável", ficava rica ou endividada?

--

Solução da pergunta 4 (e amoral da história): enriquecia bastante. Apesar da diferença abissal entre o número de pessoas que viram a sua vida destruída ou muito abalada devido a abuso sexual, e o número de pessoas (salvo erro, todos homens) que viram a sua vida/carreira/tranquilidade injustamente destruída por acusações falsas sobre um pretenso comportamento de predador sexual, o que mais vejo por aí são reacções no sentido de proteger os acusados de abuso sexual, sugerindo que praticamente todas as acusações são falsas ou pelo menos muito exageradas e descabidas, e ignorar o número muitíssimo maior de vítimas desse abuso.

Perguntarão: mas então, não te parece horroroso e inaceitável que algumas pessoas se aproveitem da onda #metoo para se vingarem de alguém? Parece, sim: horroroso e inaceitável. Espero que os tribunais sejam muito claros sobre a inadmissibilidade deste comportamento.

No entanto, também me parece muito estranho que haja tanta empatia para com a meia dúzia de homens acusados injustamente, e tanta indiferença em relação ao sofrimento de inúmeros milhares de pessoas que foram vítimas de violência sexual. Mais: parece-me estranho que a estratégia de reacção às acusações injustas passe por desprestigiar todo o movimento #metoo, como se todas as acusações fossem invenções descabidas e fruto de um puritanismo ridículo.

Alguém me explica o que está a acontecer aqui? Alguém me explica os motivos da falta de empatia em relação às vítimas de abuso, do impulso de as desacreditar e desprezar, da necessidade de deitar areia para os olhos e de confundir o debate?


23 janeiro 2018

o programa "supernanny" na Alemanha

O programa Supernanny, recentemente introduzido em Portugal depois de ter dado dinheiro a ganhar nuns vinte países, provocou uma reacção imediata de protesto e crítica.
(Eia, avante, portugueses, eia, avante, sem temer!)

Sobre a questão, gostei muito de ler estes textos:
- A Super Nanny ou "Kid Whiperer"
- Margarida, estou contigo. Deixem-me sair, vocês são estúpidas
- A utilidade do Supernanny

Tentei encontrar na wikipedia em alemão um síntese das reacções a este programa na Alemanha. Só para dar mais alguns elementos para o debate, aqui deixo um resumo do que lá encontrei:

A Super Nanny era um pseudo-documentário da RTL, na qual Katharina Saalfrank dava conselhos de educação às famílias. O formato original, Supernanny, vem da Grã-Bretanha, onde existe desde 2004. Há inúmeras versões noutras línguas, com outras firmas e diferentes participantes. Na Alemanha esteve no ar, com algumas interrupções, de Setembro de 2004 até fins de 2011. O mesmo formato continuou, com outro nome - "Missão: família" - na Sat 1.


Críticas:

Um projecto de investigação do Instituts für Publizistik- und Kommunikationswissenschaft, da Universidade de Viena, tentou identificar os pontos fortes e os pontos fracos do programa. Para isso, estudou versões de vários países. Os autores do estudo vêem como potenciais do programa, entre outros, a possibilidade de "aumentar a aceitação de aconselhamento em questões parentais [...] sobretudo nos segmentos da população com mais baixo nível de formação". (*)
Jan-Uwe Rogge, investigador de Ciências Sociais e Comportamentais, critica, entre outros, que não haja lugar para fazer um diagnóstico dos processos do desenvolvimento da criança, e a ideia da obrigatoriedade de uma correcção perante qualquer comportamento infantil desajustado. O programa estará sobretudo reduzido a técnicas de educação, sem dar qualquer valor à compreensão e à participação de todos os envolvidos.
A Comissão Estatal para Protecção dos Jovens nos Media estudou o programa, e considerou-o muito problemático. As formas de apresentação escolhidas podem provocar a estigmatização das crianças envolvidas, com consequências negativas para estas. Contudo, a Comissão não encontrou qualquer impeditivo legal para o programa.
Depois da emissão de 5.5.2010, esta Comissão agiu de novo, impondo uma multa de 30.000 euros ao programa por atentado à dignidade humana. Nesse programa, assistiu-se a uma mãe que por várias vezes bateu na filha de cinco anos sem que o team de filmagem interviesse.
O Deutsche Kinderschutzbund criticou o programa por sugerir que é possível resolver em poucos dias problemas de educação complexos. Além disso, criticou também o facto de Katharina Saalfrank se concentrar quase exclusivamente nas necessidades dos pais, e ignorar as das crianças.
A revista Der Spiegel entende que o programa serve os baixos instintos do público: voyeurismo, o prazer pela desgraça alheia e a mania de que se sabe fazer melhor que os outros.

Outras críticas de especialistas:
- reforço de perspectivas preconceituosas e distorcidas da vida de família e do aconselhamento de educação;
- as crianças apresentadas são vítimas da televisão de reality shows;
- as crianças são traumatizadas, os pais são humilhados e as regras mais básicas da Psicologia são desrespeitadas;
- os espectadores são sujeitos a encenações criadas para ter impacto para o público - o formato visa o apelo às emoções, a personalização e a ilusão de autenticidade;
- o contexto social e as instâncias de socialização são ignorados, as crianças são apanhadas em situações emocionais por uma câmara invasiva e despudorada, e tornam-se alvo de comentários discriminatórios.

A revista Zapp informou em 2009 que as famílias eram escolhidas por uma agência de casting e recebiam 2000 euros pela participação. Uma das famílias da Supernanny já tinha sido escolhida para outros programas.
Numa revista online de análise dos programas de TV, uma família contou a sua experiência: a filha contou que tanto a produtora como Katharina Saalfrank a pressionaram para provocar o irmão ao ponto de ele reagir com violência física. Isto passou-se na ausência da mãe. Por sugestão do team de filmagem, a mãe acabou por dar uma bofetada na cara da filha. No final, explicaram à família que se deviam entender como "actores de um filme", e que deviam respeitar os contratos. Os textos que as pessoas da família diziam tinham sido escritos por redactores do programa. Além disso, a mãe adiantou a suspeita - não fundamentada - de que o team teria envenenado o cão da família para conseguir um resultado emocional mais forte. Os custos para água e energia, bem como os danos provocados pelo team de filmagem, no valor de 900 euros, foram suportados pela família. Depois da emissão do programa, a família foi insultada por pessoas que não conseguiam distinguir entre a família e a ficção. Além disso, uma das filhas ficou com problemas psíquicos duradouros provocados pelas filmagens.
Um outro episódio da série, em Setembro de 2011, deu azo a um processo no tribunal e a um inquérito por parte da Comissão de Protecção da Juventude nos Media, por atentado à dignidade humana. Nesse episódio, uma mãe gritava, insultava e batia em crianças de 3, 4 e 7 anos. A cena foi várias vezes repetida no programa. O team de filmagem deixou acontecer, e filmou.
O veredicto do tribunal administrativo de Hannover confirmou a acusação.  

De outros artigos de jornais em alemão:

Em 2013, Katharina Saalfrank distanciou-se do método de enviar a criança para o "banco do castigo", que adoptou do modelo inglês mas deixou de usar ao fim de alguns episódios. No entanto, o seu uso nos primeiros anos do programa influenciou muitos pais, que começaram a impô-lo aos seus filhos.
Numa entrevista em 2013, Katharina Saalfrank afirmou que este método é destrutivo, "uma limitação enorme à autonomia e ao desenvolvimento da criança, e uma ofensa à sua personalidade".

(*) Um artigo no Medienheft (Suíça) informa um pouco mais sobre o estudo da Universidade de Viena, que analisou o programa em vários países:

- O espectador típico deste programa não é um voyeur que tira prazer do espectáculo de crianças mal-educadas e pais desesperados. Em vez disso, são pessoas - na sua maioria mães com menos de 30 anos, com salários baixos e pelo menos um filho - que procuram orientação. Estas mulheres sentem-se excluídas da sociedade e da política, e querem ter um papel no futuro da sociedade por meio da educação que dão aos filhos. Querem ter a sua situação sob controlo, e confirmar a sua capacidade de se impor. Por esse motivo têm tendência para um certo estilo de educação autoritário, e interessam-se muito por essas questões.
- O programa Supernanny não propõe um estilo autoritário.
- Todos os programas recusam o uso de violência física.
- Os espectadores típicos deste programa sentem que os métodos da Super Nanny são mais democráticos que os seus próprios. O facto de esta falar com os pais para tentar encontrar o método mais adequado para aquela família ajuda as famílias com nível de formação mais baixo a aceitar a possibilidade de receber apoio de um psicólogo para aconselhamento na educação dos seus filhos.
- Os críticos do programa também são criticados pelo estudo: serão grupos elitistas que criam controvérsias para satisfazer a sua necessidade de se demarcar.
- Uma falha grave do programa: só em 20% dos episódios se dirigem ao pai da criança. Embora o formato focado nas mães aumente as audiências do programa, perde-se aqui uma oportunidade importante de apresentar homens no cumprimento do seu dever de educar os filhos, e de apresentar propostas de resolução dos problemas dirigidas ao casal. 

22 janeiro 2018

"WC"





Ora aqui está finalmente uma palavrinha com qualidade enciclopédica. Tanto para dizer!
Nem sei por onde começar. 


Começar talvez pelo significado: WC é a abreviatura de Water Closet, uma retrete que se limpa com um fluxo de água que sai de um tanque especial para esse efeito. Por algum motivo que desconheço, o nome WC passou a ser associado a casas de banho públicas. O que está errado, porque as árvores e as esquinas e os umbrais das portas e assim também são usados como casas de banho públicas, e não têm uma retrete com autoclismo – o WC propriamente dito.

Se já estou a falar de casas de banho públicas, tenho de referir o tema do momento, que é as casas de banho para as pessoas que não se vêem nem como masculino nem como feminino, ou que se vêem com o sexo diferente daquele que o seu corpo parece ter. Confusões. Na Alemanha tem-se falado muito disso, e algumas cidades decidiram ter casas de banho púbicas para um terceiro género. Claro que o pessoal protesta, "ai o nosso rico dinheirinho dos impostos", e “tantas crianças a morrer de fome em África, e estes aqui preocupados com casas de banho para neutros ou transpassados”. O que me obriga a fazer um parágrafo, porque o caso é grave:

A ignorância é uma coisa muito triste, e a falta de sensibilidade que lhe anda associada também.
É importante saber isto: a taxa de suicídios entre pessoas que não cabem no esquema homem/mulher é maior do que nas que não têm problemas de identificação do seu sexo. Nada justifica uma norma – seja ela legal, moral, ou tradicional – que provoque um sofrimento nas pessoas tamanho que as leve à depressão e ao suicídio. Sim, bem sei que não é só a questão das casas de banho públicas. É toda uma mentalidade generalizada, que inferniza a vida dessas pessoas e lhes dá a sensação de não terem lugar na nossa sociedade.
Voltando à questão de não gastar o nosso rico dinheirinho dos impostos para ter um terceiro tipo de casas de banho públicas: isso resolve-se facilmente - basta mudar as placas à porta, “WC com urinol” e “WC sem urinol”. Não é caro, e aumenta muito a qualidade de vida de alguns de nós.
Também há quem se queixe da promiscuidade e da falta de intimidade nas casas de banho que não separam bem os sexos. Nem sei que vos diga, porque se levarmos isto mesmo mesmo mesmo a sério é preciso pensar também no perigo que as mulheres lésbicas representam nas casas de banho para mulheres, e idem para homens gays nas dos homens. E depois há as pessoas bissexuais, essas autênticas Mata Hari das casas de banho públicas. Uma pessoa põe-se a pensar nessas possibilidades todas, e só lhe apetece levar um peniquinho de casa...
Ou fazer como já faz nos aviões, nos comboios, no De Young Museum em San Francisco e no WC à entrada do refeitório do seminário diocesano de Leiria, que também é unissexo. Tenho fotos dos dois últimos exemplos, para provar estas afirmações, mas não me apetece ir procurá-las.

Mudando de assunto, para regressar ao início, o sentido inicial de WC, a tal retrete com água - aqui vos convido agora para um passeio pelas sanitas do mundo.
Há as portuguesas, aquelas completamente normais como as que conhecemos, a gente senta-se, plooooop, puxa o autoclismo, limpa com a escova, baixa ou não baixa a tampa (e sujeita-se à eventual discussão familiar), lava as mãos, adiante.
Há as americanas, parecidas com as portuguesas mas com ploop em vez de plooooop porque o nível da água está muito mais alto, nas quais quase nunca é preciso limpar depois do coiso por não haver contacto directo da mercadoria, digamos assim, com a louça.
As alemãs dividem-se em dois tipos: as iguais às portuguesas, e as que têm uma plataforma para boa exposição da tal mercadoria, porque o pessoal gosta de analisar bem o que o corpo produz para poder contar ao médico ou aos melhores amigos. Uma vez feita a análise detalhada, puxa-se o autoclismo, limpa-se aquela porcaria toda e abre-se a janela, porque está lá um cheirinho que nem vos digo nem vos conto.
As chinesas também se dividem em dois tipos: as que são um buraco no chão (e estas subdividem-se em imundas e muito imundas) (bem, isto foi o que vi há 17 anos – se calhar as coisas entretanto mudaram) e as normais como as conhecemos (mas, no caso de WC públicos, em compartimentos sem porta, pelo que convém levar um guarda-chuva para se proteger dos olhares alheios).
As japonesas, essas, são um prodígio da técnica. Quer dizer, não sei, que nunca fui ao Japão, mas contou-me um amigo que lá foi: estava num café e precisou de ir à casa de banho. Foi, fez o que tinha a fazer, e no momento de puxar o autoclismo viu milhentos botões todos em japonês. Carregou num, e da sanita saiu um repuxo para cima. Assustado, carregou outra vez no botão, e o repuxo redobrou a intensidade e a altura. Cada vez mais assustado, carregou em todos os botões, e aquela sanita transformou-se nos jogos de água do Bellagio em Las Vegas (mas sem música). Desesperado, saiu, pagou o mais depressa que pôde, e fugiu dali com a mulher - quando a água já estava a passar por baixo da porta.

Depois da incursão geográfica, a histórica: o water closet que deu origem à abreviatura que usamos hoje em dia foi inventado por um afilhado da rainha Isabel I de Inglaterra, de nome John Harington, em 1596, que ofereceu um à madrinha para ela pôr no seu Richmond Palace. A malandra da rainha fechou-se em copas, não contou nada aos primos na Europa continental (de onde se prova que já no séc. XVI havia esses Brexits de, com licença, merda), e por algum motivo que desconheço, a invenção não conquistou o mercado, e acabou por cair no esquecimento. De modo que ali para o séc. XVIII, do lado de cá do Canal, a pobre da Maria Antonieta ainda se via obrigada a fazer o que tinha a fazer de cócoras num corredor qualquer de Versalhes. Não admira que tivesse acabado como acabou, coitada: as empregadas de limpeza do palácio revoltaram-se com aquelas porcarias, e o resto é História (sim, anotem: a culpa da revolução francesa às tantas é da Isabel I da Inglaterra). Pela altura em que Maria Antonieta estava a casar com o delfim, já no advento da revolução industrial, alguns engenhocas da Grã-Bretanha (ou lá como se chama essa coisa que engloba a Escócia e a Inglaterra) lembraram-se de começar a trabalhar numa sanita como deve ser, com sifão e autoclismo e tudo. Em meados do séc. XIX, com as cidades em crescimento e o sistema de esgotos em aperfeiçoamento, o seu uso generalizou-se. Hoje em dia todos têm pelo menos uma em casa. Mas pode haver novos desenvolvimentos na sua forma - ultimamente andam por aí a dizer que nos obriga a uma posição pouco ergonómica. Talvez um dia destes passe a ser um buraco no chão, para a gente evacuar
de cócoras, como a Maria Antonieta. Tanta coisa com a República e tal, e vamos acabar todos armados em autênticas princesas. Ou rainhas.
  
O termo “water closet” (“WC”) começou por ser usado para indicar um compartimento reservado onde havia uma retrete dessas com água, em vez dos outros onde havia um buraco que dava directamente para a fossa, ou para um aterro de mato, ou para a fachada do edifício, ou sabe-se lá o quê. O nome apareceu na Inglaterra por volta de 1870, e chegou aos EUA em 1880. Depois foi passando de eufemismo em eufemismo (porque as palavras se dão mal com a escatologia, e mal o eufemismo se apercebe do que está realmente a dizer passa a ser a realidade indizível e inventa-se um novo eufemismo). Tanto quando sei, o eufemismo actual é "restroom" - admito que seja por causa de quem tem no WC de casa um banquinho cheio de revistas, jornais e livros ao lado da sanita, e ali fica sossegadamente a descansar do mundo lá fora. Quando eu era miúda, no Porto, não tínhamos as revistas na casa de banho, mas tínhamos a Enciclopédia Luso-Brasileira à entrada - era agarrar numa e abrir ao calhas, até começarem a bater à porta pancadas desesperadas, "vai ler para outro lado!" (uma pessoa põe-se a ter irmãos do Porto, e dá nisto: não há respeito pelo carácter restroom da coisa, parte-se do princípio que é uma mera "cagadeira").
 
Claro que o primeiro WC não foi inventado na Grã-Bretanha. Os romanos já tinham sanitas públicas, uma espécie de bancos de pedra corridos com aberturas, sobre canais de água corrente. Pergunto-me se teriam também divisórias em madeira para separar uns buracos dos outros, com porta e tudo, ou se iam para lá de guarda-chuva em riste como uma mulher que eu cá sei, na China, no ano 2000.
E antes dos romanos, muitos outros já lá tinham chegado. Actualmente, os primeiros a usar sistemas sanitários com água terão sido povos do neolítico, pouco depois do surgimento da roda.

Falta ainda dizer que há um dia mundial da retrete, o 19 de Novembro, e não é patrocinado pelas empresas de equipamentos sanitários. É mesmo uma preocupação muito séria da ONU, uma vez que 40% da população mundial não tem saneamento básico. 

E eis como acabei de me desgraçar: daqui para a frente vão dizer que sou uma especialista de m... oh, calem-se, não gozem. Pouco barulho. Respeitinho! Isto é tudo cultura geral.



21 janeiro 2018

Elis Regina

 (Ruth Toledo)

Presentinho que me deram, e repasso só para que ninguém diga que eu sou de sonegar informações:

Toda a Elis. Todos os álbuns da Elis.

(Abrem a página, carregam no botão dos álbuns - barra superior, à direita da assinatura dela - e depois é sempre a aviar. A saborear.)


20 de Janeiro de 2018

Um ano depois da tomada de posse, o Jimmy Kimmel andou a perguntar a crianças o que achavam do Trump.

(E sempre me espanto com a nossa capacidade de rir perante o estado de loucura que se instalou no centro do poder do país mais poderoso do mundo...)





20 janeiro 2018

20 de Janeiro de 2017

Faz hoje um ano que Trump tomou posse.
Um ano, uma Nambia, um kovfefe, vários "o meu é maior que o teu" e muitas convulsões depois, uma pessoa pergunta-se se a História está condenada a repetir-se. Espero que sim: gostava de voltar ao tempo do Obama.

Entretanto, para a petite Histoire, aqui fica o registo dos meus posts no facebook no dia 20.1.2017:


José Bandeira, "trumpeta do apocalipse":



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Acabei de me meter no masoquismo: transmissão em directo.
Vi os filhos do Trump a entrar em cena.
Diz que o filho mais novo tem autismo, pelo que não vou fazer qualquer comentário sobre o seu comportamento.

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O Matthias veio aqui, e disse que estou a perder tempo. Pode ser, mas não consigo desligar e ir fazer outra coisa. Pareço hipnotizada. O coelho perante a cobra.
(Esperava que o Trump trouxesse uma cartola de onde sairiam passarinhos do Twitter, mas não, parece que não vai haver efeitos especiais.)

Comentário de uma amiga: " Um amigo meu, há muitos muitos anos atrás, ia de mota com um amigo, à pendura. O condutor, que parecia possuído pelo diabo e só fazia asneiras, às tantas perguntou ao meu amigo porque é que ele se inclinava tanto para o lado. Resposta do meu amigo: "é para ver bem onde é que vou bater com os co**os". Assim me parece essa coisa de assistir à tomada de posse da criatura: para vermos bem onde é que nos vamos espatifar todos."

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Até agora, ainda só vi cinco pessoas de pele escura. Já estou a incluir os Obamas.
Adenda: afinal vi seis.

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aaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
O discurso do Trump
aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

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America first.
Estou mesmo muito curiosa para ver se a receita funciona.



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you will never be ignored again
- e diz isto à frente dos outros presidentes todos. Esses que ignoraram o povo, e se enriqueceram à grande em Washington...

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Começou por dizer que finalmente o poder está nas mãos do povo, e daí para a frente continuou a descer.
Make America great again - proteccionismo.

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A pobre Jackie Evancho está tão nervosa!
Bolas, que impressão me está a fazer.

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Acabou.

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Ai, a cara do Obama!
"gute Miene zum bösen Spiel"...

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Agora estou a assistir ao mesmo, mas com comentários da ARD.
Uma pessoa precisa de se sentir um pouco mais acompanhada.
(Hei! estão a entrevistar jornalistas no mundo inteiro! que disparate! então não ouviram? make America great again! a que propósito é que a ARD se dá ao trabalho de querer saber o que outros países estão a pensar?...)

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Lá se vai o helicóptero do Obama.
Já estou com saudades.

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A ARD já terminou a emissão. Passaram para um concurso bacoco. Voltei ao new york times. Banquete, hmmm, comidinha.

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O chat dos jornalistas ao lado da transmissão em directo do New York Times é o máximo.
Por exemplo:

Alan Rappeport
Washington Correspondent
12:15 PM ET

Trump says that the military, law enforcement and God are protecting the American people.
Jon Meacham
Presidential Historian
12:15 PM ET
Does God know that?

Alan Rappeport
Washington Correspondent
12:14 PM ET

Now Trump is calling for unity and solidarity.

Jon Meacham
Presidential Historian
12:14 PM ET
Alan, this is always what Trump does, as you know. He describes the ying, then the yang. And people hear whatever they want to hear.

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Obama a discursar agora.
"A Democracia não são edifícios e monumentos, a Democracia somos todos nós."
"Isto não é um ponto final, é uma vírgula"
(onde foi isto?)
Adenda: “This is just a – this is just a little pit stop. This is a – this is not a period, this is a comma in the continuing story of building America.”

(O discurso foi em Maryland, para elementos do seu staff e apoiantes, antes de partir para as férias em Palm Springs.)

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O papa Francisco a mandar recados a Trump.







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(sobre o banquete)

Amendoins, que nojo.
Maine lobster and Gulf shrimp with saffron sauce and peanut crumble, followed by grilled Seven Hills Angus beef with dark chocolate and juniper juice, accompanied by potato gratin.

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A oração antes da papinha não acaba?
Se eu fosse a cozinheira, já estava a mandar vir. Os amendoins ainda vão arrefecer, depois não prestam para nada.
(Nestes momentos lembro-me sempre do comentário de um amigo sobre umas férias numa casa de um padre:
"tinha de rezar antes de comer, mas valia a pena")

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O Trump sabe lá para que lado fica Berlim! Está inteiramente concentrado no seu umbigo. Parece que alguém lhe disse que coincidia com o umbigo dos EUA.

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Ai! Já são oito da noite?!
Como o tempo passa!
Vou ver o noticiário, para saber se aconteceu alguma coisa importante hoje.
Até já.

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Por favor, está aí alguém que me tome conta do mundo aqui no facebook?
Tenho de ir passar uma roupinha a ferro.
Obrigada!

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O cúmulo do masoquismo, hoje, é ir ver a tomada de posse do Obama em 2009.
Agarrem-me! que estou capaz de me desgraçar...

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18 janeiro 2018

Kafka na Rússia

Traduzo do blogue de Wladimir Kaminer:

Talvez afinal nem tudo fosse mau na RDA - a discussão não tem fim. Até amigos dos meus filhos, que nunca estiveram na RDA, ouviram os pais dizer que dantes havia mais justiça social e mais solidariedade. Faltavam outras coisas sem importância, mas ninguém lhes sentiu a falta. No meu país discute-se ainda mais acesamente sobre o passado soviético. Nós fomos ao espaço e lutámos pela paz mundial, dizem uns. Não havia fraldas descartáveis, nem iogurtes, nem Kafka, rebatem os outros.

Bom, em vez de iogurtes era possível comprar latas de leite condensado açucarado e pô-las a cozer no fogão durante duas horas, até o leite se transformar numa pasta acastanhada que os miúdos adoravam. Às vezes a lata explodia, e era preciso pintar a cozinha de novo. Sobre as fraldas descartáveis não há consenso nem sequer no Ocidente, diz-se que sem elas as crianças tornam-se mais rapidamente seres adultos e disciplinados. Com Kafka é que as coisas foram mais complicadas. Ele não entendeu a dialéctica marxista e não identificou as verdadeiras contradições do capitalismo, o que explica a sua visão sombria - opinavam os nossos ideólogos. Grandes autores do Ocidente, Gabriel Garcia Marquez, Jean Paul Sartre e Heinrich Böll, admiravam-se por Kafka não estar traduzido para russo. O seu momento chegou no fim dos anos sessenta, já havia um livro no prelo, mas de repente os tanques soviéticos avançaram na direcção de Praga e a edição foi liquidada. Só com Gorbatschow é que Kafka apareceu em russo, juntamente com iogurtes e fraldas descartáveis, e estragou os cidadãos.  Hoje em dia, o governo tenta meter a marcha à ré, mas não a encontra. Enfim, os iogurtes podem ser devolvidos, e de qualquer modo não há consenso sobre as fraldas descartáveis. Mas como conseguir tirar Kafka da cabeça das pessoas, isso é que o governo não sabe.


Um blogue, já se sabe, é uma sequência de pequenos textos. Agarrem-me, que li o que estava a seguir a este e apeteceu-me também traduzir, e mais o terceiro e mais o quarto...

Traduzo apenas mais este (e dedico esta tradução ao Trump, que acabou de anunciar os Fake News Awards de 2017):


A destruição dos media russos críticos do poder foi uma das guerras em que o presidente maior sucesso teve. As pessoas não se devem irritar desnecessariamente, em vez disso devem concentrar-se naquilo que é realmente importante na vida. Hoje em dia, é este o aspecto do quiosque de jornais russo: flores, gatos, Putin.


18 de Janeiro de 2018

Já passámos a metade de Janeiro e ainda estou a começar a fazer os presentes de Natal de 2015.
Daqui a nada é Carnaval, depois vem a Berlinale, depois vou a Portugal, depois é Páscoa e logo a seguir - tenho a certeza! - vem o Natal de 2020.

Se calhar começava era a tratar já dos presentes para o Natal de 2030, para não ser apanhada desprevenida.

(O meu presente de Natal para família mais padrinhos e afilhados é um livro com fotografias e histórias do nosso ano. Costuma ser um mês de trabalho, mas nos últimos anos meteu-se sempre uma coisa e outra, ora um crash do computador, ora a preparação de uma festa de Natal para os portugueses que moram em Berlim, ora isto ora aquilo, e já tenho três livros em atraso. Mas o que eu queria mesmo dizer neste post é que o meu tempo parece um carrossel a rodar cada vez mais depressa. De ano para ano, o Natal chega mais cedo.)


16 janeiro 2018

"Quilimanjaro"

A palavra de hoje na Enciclopédia Ilustrada é Quilimanjaro.

Daqui a bocado vou lá falar do filme francês "Les Neiges du Kilimandjaro", um filme extraordário sobre justiça, boas intenções, boa consciência.




Mas, para já, um pequeno momento recreativo nos difíceis trabalhos enciclopédicos:




Quando eu era miúda, na nossa casa ouvia-se muito a palavra #Quilimanjaro. Era a minha mãe a queixar-se do tamanho do aparador na sala da jantar, que ocupava demasiado espaço e quase impedia as pessoas de se sentarem à mesa. "Este Quilimanjaro aqui!", lamentava-se ela, enquanto obrigava toda a gente a levantar-se daquele lado da mesa para poder encostar as cadeiras para poder abrir as portas.
Nós casquinávamos. Durante muitos anos, quilimanjaro foi para nós um móvel que atafulhava uma sala, com portas que escondiam um espaço atafulhado de chocolates e sortido comprados em Espanha.
(Que eu ia roubando em quantidades homeopáticas para vender a uma amiguinha da escola, que me pagava com as moedas da colecção do pai, com as quais eu comprava livros da colecção Formiguinha, mas isso agora são outras histórias.)
(Também há aquela história dos palitos de plástico colorido que roubámos na mercearia do senhor Paulo, e que - é tão triste ser criança! - arrumámos na gaveta do aparador, juntamente com os guardanapos e os outros palitos. Maldito domingo aquele em que o meu pai abriu a gaveta, viu, perguntou "que palitos são estes?!" e me mandou ir devolvê-los ao senhor Paulo.)
(O nosso quilimanjaro era um móvel muito atreito ao mundo do crime.)


15 janeiro 2018

o amor no tempo dos neandertais







Tudo no texto assinado por Catherine Deneuve, Catherine Millet e mais 98 mulheres me deixa estupefacta:
- A transformação de um movimento de revolta contra hábitos do patriarcado, revolta essa que peca por tardia, em mais um exemplo de deriva tresloucada do "politicamente correcto", apelando subliminarmente às mulheres para que sejam comedidas e não levantem ondas desagradáveis;
- A omissão da questão fundamental da assimetria de poderes (a propósito: o comentário que tantas vezes se ouve por aí - segundo o qual estas mulheres terão aproveitado o interesse masculino para subir na carreira "à custa das outras", e agora, "que não precisam", é que se lembram de acusar os homens - é mais uma prova evidente da aceitação social dessa assimetria de poder e das respectivas regras do jogo);
- O apelo à liberdade interior da mulher, que lhe permitirá ignorar que levou um apalpão no metro ou ultrapassar uma violação sem traumas
(troque-se a mulher por um homem, e o apalpão por, por exemplo, o hipotético hábito de lhes pisar um pé - sou só eu que tenho vontade de rir ao pensar nos conselhos que estas senhoras dariam aos homens revoltados com o hábito generalizado de os pisar deliberadamente na rua ou nos transportes públicos? "Não te encerres no papel de presa / não te sintas traumatizado por causa de uma pisadela deliberada no metro, mesmo se isso for considerado delito / encara isso como expressão de uma miséria de vida do outro, faz de conta que não aconteceu /
essas pisadelas frequentes não atingem a tua dignidade e não devem fazer-te sentir como vítima perpétua / não te reduzas ao teu corpo / a tua liberdade interior é inviolável, e essa liberdade implica riscos e responsabilidades."
Quem se lembraria de argumentar assim para tentar convencer os homens a aceitar uma situação de agressão deliberada?) 


Mas o que mais me surpreende é a imagem do masculino que anda na cabeça daquelas mulheres:
"Nous défendons une liberté d'importuner, indispensable à la liberté sexuelle. Nous sommes aujourd’hui suffisamment averties pour admettre que la pulsion sexuelle est par nature offensive et sauvage, mais nous sommes aussi suffisamment clairvoyantes pour ne pas confondre drague maladroite et agression sexuelle."

"Liberdade de importunar, e uma pulsão sexual que é por natureza ofensiva e selvagem." Repito: "ofensiva e selvagem"!
Devo viver numa bolha estranha, porque nunca vi nenhum comportamento de importunação, ofensa e selvajaria ter resultados positivos.
A sério que, em termos de estratégia de acasalamento, os homens são neandertais?
Contem-me tudo, abram-me os olhos. É que os homens que eu conheço - educados e sensíveis, capazes de dar sinais do que querem sem serem invasivos, capazes de aceitar um "não" como resposta - pelos vistos são todos aberrações da natureza, uns autênticos desnaturados...